nº 1654 – Homilia de Pentecostes (04.06.17)

“Santificais a vossa Igreja” 

Uma festa para hoje

              Pentecostes é um acontecimento atual, como rezamos: “Ó Deus que, pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa Igreja em todos os povos e nações” (Oração). Não estamos lembrando um fato histórico maravilhoso, mas uma maravilha que se torna presente, sempre de modos diferentes, seja no silêncio do orvalho, seja no rumor da tempestade. Vem para todos, pois o mesmo Espírito que “pairava sobre as águas” é derramado sobre a multidão dos povos. Para tanto são apresentados os povos peregrinos presentes em Jerusalém e formam um leque mostrando as muitas direções que convergem para o momento (Atos 2,1-11). A santificação nos lembra que o Espírito foi derramado sobre todos: “Derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo”. O que pedimos é que Deus “realize agora, no coração dos fiéis, as maravilhas que foram operadas no início da pregação do Evangelho”. Esta maravilha é o anúncio do Evangelho. A Igreja deve acolher continuamente o dom do Espírito Santo no momento atual e torná-lo sempre presente por meio de sua atitude evangelizadora. Todos entendiam em sua própria língua as maravilhas de Deus. A grande riqueza da Igreja é a abertura a todos os povos e culturas. O Evangelho é para todos os tempos e não se fixa a uma época como sendo a melhor. E pode ser entendido por todos. A Bíblia já foi traduzida para mais de 3.000 línguas. Mudam-se as línguas e não perde nem o sabor nem a fecundidade do Espírito que a coloca no coração das pessoas.

Vinde, Pai dos pobres!

               A oração da Seqüência (Hino) chama o Espírito de Pai dos Pobres, pois quer mostrar sua missão como a bondade de um Pai generoso que se preocupa com os necessitados. Vemos exaltado, deste modo, o amor do Espírito que dá a vida, é consolo, é presença querida no coração, é descanso, é alívio. Ele lava, purifica, rega, cura, guia e aquece nossas esperanças. O Mistério da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, um Espírito inefável, um vento que ninguém controla, tem do Pai o coração, do Filho a solicitude. Ele não é privilégio de escolhidos, mas presente em todos como vida. “O Pai vos dará outro Consolador que estará sempre convosco” (Jo 14,16). Jesus encarnou-se em nossa natureza humana com todos os traços humanos. O Espírito é uma presença paterna com solicitude materna. Como o Espírito deu ao Filho de Deus os traços humanos, agora dá aos filhos de Deus os traços da natureza divina que faz cada imagem viva do Filho.

Recebei o Espírito Santo

               Naquela tarde de domingo, Jesus se põe no meio dos discípulos. Soprando sobre eles os envia para a reconciliação (Jo 20,19). Paulo pede que o pecado não domine mais sobre nós (Rm 6,14). Nosso relacionamento com Deus se faz pelo Espírito, pois a Palavra de Deus nos ensina: “Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo” (1Cor 12,3). A ação do Espírito nos põe em relacionamento com Deus e com os irmãos. Ele distribui dons para o bem comum. Esses dons se atualizam no corpo de Cristo do qual somos membros. É todo o Corpo que age como um todo. Não há cristianismo vivido individualmente, mas sim, do individual para o comunitário e do comunitário para o pessoal em vista de todo o Corpo. A salvação eterna se dá dentro da comunidade. O dom do perdão que é dado naquela noite não se refere só a uma confissão, mas é um projeto de fraternidade que gera o amor que salva.

Leituras: Atos 2,1-11; Salmo 103; 1Coríntios 12,3b-7.12 -13; João 20,19-23

Ficha nº 1654 – Homilia de Pentecostes (04.06.17)

  1. A vinda do Espírito Santo se dá num momento da história, mas é aberta a todos os povos e todas as línguas. Todos podem receber e entender o Evangelho.
  1. Louvando o Espírito Santo, a Igreja descreve seus muitos modos de entrar em relacionamento conosco. Põe em nós os traços do Filho Eterno do Pai.
  1. O Espírito é dado para a reconciliação de todo universo, todos num único amor.

            O mesmo endereço

            Naquele dia de Pentecostes estava em Jerusalém gente devota vinda de todas as partes do mundo conhecido então. Se olharmos o mapa poderemos ver que suas origens fazem um círculo à Cidade Santa, como lemos em Atos dos Apóstolos (At 2,5) , vindos de todas as direções. Ao ouvirem o barulho, a manifestação do Espírito Santo, todos correram para um único endereço: o cenáculo onde estavam reunidos os discípulos. Era o endereço da casa do Espírito. Como Jesus Se manifestou a nós em Belém, o Espírito inicia sua missão em Jerusalém.

            Foi o momento do primeiro anúncio. Os apóstolos anunciam as maravilhas de Deus acontecidas na Ressurreição. A grande surpresa de todos era que cada um entendia em sua própria língua. A língua do Espírito é inteligível a todos. Esta linguagem é nova e anuncia Jesus vivo que dá o Espírito para a paz e para o anúncio da reconciliação universal.

            Cada um é convocado a assumir o próprio dom para que esse anúncio possa chegar a todos. Todos os que acolheram a Palavra formaram o único Corpo de Cristo, bebendo o mesmo Espírito.

            A celebração suplica que se renovem nos corações dos fiéis as maravilhas operadas no início da pregação do Evangelho.

 

                                                      

 

nº 1653 Artigo – “Mundo novo com roupa nova” 

  1. A dimensão celeste da carne

            As riquezas do Mistério de Cristo estão acima de todos os males. Deus não nos esquece e sempre está a mostrar o que nos preparou, como diz S. Paulo: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que O amam” (1Cor 2,9). Jesus “vai preparar-nos um lugar” (Jo 14,2). Há uma dimensão que completa a realidade humana e a transforma em vida plena. A vida presente na carne não tem se preocupado nem se incomodado com a vida que continua após a morte, como se não houvesse outra dimensão. Pior ainda, essa condição plena da pessoa não influi no momento presente. É a grande tentação do mundo e a grande queda da humanidade, distanciar-se de Deus. Certamente que há razões para isso, pela falta de catequese, o péssimo testemunho que damos e o anúncio frágil da verdade, muitas vezes eivado de filosofias anti-cristãs. Mas continuamos crendo que um mundo melhor é possível. Por isso fazemos essa reflexão, justamente no tempo da Ascensão, mostrando que temos uma ligação muito íntima com a vida futura. Cristo, ao subir ao Pai, levou nossa humanidade. Ele continua humano, mas transformado pela Ressurreição que é também nosso futuro. Se a humanidade frágil assumiu a Divindade, esta a levou consigo para a Glória eterna, sem tirar nada de humano de nossa realidade. Perder essa dimensão é empobrecer o ser humano. Jesus é o modelo também para o mundo: Ser Humano e Divino.

  1. Procurai as coisas do alto (Cl 3,1)

            Por que não conseguimos equilibrar o mundo? Porque estamos desequilibrados. Quando não somos capazes de ver a dimensão definitiva do ser humano. Posso dizer que sou ateu: Não creio em nada. Não somos só matéria. Assim que Deus se encarnou em nossa humanidade e demonstrou através de seu Filho feito Homem, através de milagres e de palavras, completando com a Ressurreição, temos um destino claro: continuar a vida em sua dimensão definitiva. Se Jesus passou da morte para vida, temos a certeza que a morte não é o fim. Podemos não crer, mas isso não elimina que a realidade seja essa. A condição humana em tudo o que se refere ao humano, terrestre, está unida ao Cristo que ressuscitou e está glorificado. A meta do mundo é essa. Ela passa pelo ser humano e por tudo que há no universo, dando-lhe vida e ressurreição. Tudo que existe toma novo sentido e multiplica sua existência para o bem. Crer é transformar o mundo. Não basta dizer tenho fé, é preciso dizer que amo. Amo o ser humano, a planta, a pedra, a estrela, o ar. Os povos primitivos tinham por deuses elementos da natureza. Era um meio de mostrar o respeito e a dignidade do ser humano e de todas as coisas do universo. Quem se eleva, eleva o mundo (Elisabet Leseur).

  1. A conquista do mundo

            Na Páscoa que é para o Universo, recebemos como resposta a solidificação para o bem de todas as realidades. É o paraíso terrestre para o qual devemos voltar. O salmo do bom pastor (22) diz que o bom pastor nos leva para as boas pastagens e águas abundantes. São símbolos de um futuro bonito que deve acontecer agora pela mão do homem. Vemos a situação triste de tantos lugares. Os males da guerra… da corrupção, da maldade, da violência etc… serão uma lembrança distante. É sonho? É projeto que tem que se realizar para salvarmos o mundo e o ser humano. Há tentativas de todos os lados para o bem do mundo e do ser humano. Não podemos deixar de dizer que foi essa a missão de Jesus e é esse o plano do Pai de reunir todas as coisas em Cristo (Ef 1,10). Não melhoraremos o mundo se não partirmos de sua completa realidade: Humana e Divina.

nº 1652 – Homilia da Ascensão do Senhor (28.05.17)

“Ascensão de Jesus” 

Jesus subiu ao Céu

            A Ressurreição de Jesus completa-se com sua gloriosa Ascensão. Esta festa tem pouca ressonância na vida cristã. O Mistério Pascal tende a levar à glorificação de Jesus junto do Pai. Na Ceia, consciente de ter realizado a missão para a qual fora enviado, reza: “E agora, glorifica-me, Pai, junto a Ti, com a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo 17,5). Sua Divindade que ficara oculta sob o véu da humanidade, se manifesta em todo seu esplendor. Por isso uma nuvem o cobre. Nuvem que é a presença da Divindade. A natureza humana que o Filho Eterno do Pai assumiu na Encarnação é glorificada. Com Ele já participamos da glorificação. É nossa meta e nosso ponto de atração. Por isso é uma festa a ser vivida com intensidade pascal. Aos discípulos, que O perdem aos olhos, permanece uma dupla certeza: Ele consumou sua missão no mundo e foi constituído Senhor e Rei da Glória junto ao Pai. Tornou-se mediador entre o Pai e a humanidade redimida, juiz do mundo e Senhor do Universo. Por outro lado sabem que Ele está presente: “Eu estarei convosco todos os dias até ao fim do mundo” (Mt 20,20). Sua presença junto do Pai não O afastou de “nossa humildade, mas dá–nos uma certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade” canta o prefácio da missa. Ele subiu ao Céu e tornou-se para eles a certeza de que estão garantidos, pois recebem Seu Espírito para continuar Sua missão. Continua unido a Seu Corpo, a Igreja. Seu poder e glória são o poder e glória do Pai. É fonte e razão de vida. Para Ele converge todo o universo. Reina até entregar Seu Reino ao Pai (1Cor 15,24) quando vier no fim dos tempos.

Somos participantes da glória

Ele é nossa cabeça. Somos o corpo. Cristo levou para junto do Pai nossa humanidade, como nos trouxera sua Divindade. Já estamos com Ele na glória. A oração da missa assim reza: “membros de seu corpo, somos chamados, na esperança, a participar de Sua glória”. O cristão vive da esperança, que é a certeza de possuir os bens celestes. Por isso, Paulo escreve: “Que Ele abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança com os santos, e que imenso poder Ele exerceu em favor de nós que cremos, de acordo com sua ação e força onipotente” (Ef 1.18-19). Com a Ascensão de Jesus ao céu, temos a garantia do poder de Deus porque “se manifestou sua força em Cristo quando O ressuscitou dos mortos e O fez sentar-se à Sua direita” (Id. 20). Sem a glorificação do Filho, sua Morte e Ressurreição não teriam sua explicação.

Fazei discípulos meus todos os povos.

A última palavra de Jesus foi confiar aos discípulos a missão que o Pai lhe confiara. Agora somos nós a fazer o que Ele fazia, dizer o que dizia e transformar o mundo como Ele o transformava. Fazer discípulos é fazer o que Ele fez: “Chamou a Si aqueles que quis para estar com Ele e irem anunciar” (Mc 3,13). Os discípulos entenderam sua missão e, depois de receberam o Espírito Santo foram anunciar. Essa missão é conferida também a nós. O Cristianismo que não anuncia é porque já faliu. A Ascensão nos anima a buscar nova força na certeza da vitória de Cristo e da missão que Ele nos confiou. Temos ainda diante de nós um mundo a evangelizar, isto é, mostrar o amor Deus em Cristo por todos. Houve tempos de mais entusiasmo pela missão. No mundo que temos diante de nós há muito que fazer. E, como fazemos um cristianismo voltado para nós, as forças do mal tendem a crescer.

Leituras: Atos 1,1-11; Salmo 46; Efésios 1,17-23;Mateus 28,16-2

Ficha nº 1652 – Homilia da Ascensão do Senhor (28.05.17)

1.    A festa da Ascensão leva à consumação do Mistério Pascal na plenitude do Filho glorificado.

2.    Somos o corpo. Cristo levou para junto do Pai nossa humanidade, como nos trouxera Sua divindade.

3.    Agora somos nós a fazer o que Ele fazia, dizer o que dizia e transformar o mundo como Ele o transformava

Olhando para o chão

            Nossa fé proclama que Jesus “subiu ao Céu” completando assim sua obra redentora. Agora falta que o resto de seu corpo, nós, a Igreja, cumpramos nossa parte assumindo nossa missão no mundo. Por isso os Anjos disseram: “Esse Jesus que foi levado para o Céu, virá do mesmo modo como O vistes partir para o Céu” (At 11). Esperar é agir pelo Reino.

            Na Alegria da vitória de Cristo, reconhecemos quem Ele é. Para isso nos é dado o Espírito para conhecê-Lo sempre mais, saber a esperança para a qual nós fomos chamados, a riqueza da herança que temos na glória e o imenso poder que tem em nosso favor. Sua Ressurreição é a prova que tudo isso é verdade e funciona. Nele está a plenitude.

            Como compreender todas essas verdades? O Espírito Santo nos ensinará todas as coisas. Ele nos fortalecerá e nos conduzirá à verdade plena.

            Com Jesus também fomos para o Céu, pois levou consigo nossa humanidade.

 

nº 1651 Artigo – “Páscoa continuada” 

  1. Páscoa é passagem

              Recolhendo as belezas do Tempo Pascal, temos a sensação de uma contínua caminhada. Não uma conquista de um sossego ou estabilidade, mas um impulso de ir adiante. Não se olha para trás, pois esta foi a grande tentação que sofreu o povo por voltar ao Egito. Por causa das cebolas, dos pepinos e dos peixes de graça, o povo se lamentava (Nm 11,4-6). A liberdade tem preço. Jesus caminha decididamente para Jerusalém (Lc 9,51). Essa disposição de Jesus de realizar sua missão até o fim O leva a ir em frente. Paulo diz: “Esquecendo-me do que fica para trás, e avançando para o que está diante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus” (Fl 3,13-15). Jesus, depois da Ressurreição, vai ao Pai para a glorificação e ainda voltará para levar todos com Ele (Jo 14,3). O Universo caminha no mesmo sentido: “Conforme a decisão prévia que lhe aprouve tomar para levar o tempo a sua plenitude, a de em Cristo recapitular todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,9-10). Sendo Páscoa – uma passagem – tem um ponto ao qual se dirige: completar tudo em Cristo. O tempo litúrgico não se fecha com uma mudança de calendário, mas continua sua força transformadora em Cristo para que todas as coisas se encaminhem para o bem do homem e para a glorificação do Filho de Deus que passou entre nós fazendo o bem. Fazer o bem é passar da morte do individualismo para a vida do amor que se doa. Cada gesto de amor é uma Páscoa que se realiza. Sair de si é o mesmo que ocorreu com Cristo que saiu da sepultura.

  1. Deserto do caminho

              A própria dinâmica do povo de Deus ensina a fazer uma leitura do Mistério de Cristo em nós. Conhecemos bem a narrativa da saída do Egito comandada por Moisés. É histórica ou ensinamento? O importante é o que ilumina nossa caminhada espiritual. O povo sai do Egito na alegria da libertação. Depois entram numa epopeia de quarenta anos de deserto até entrar na terra prometida. Em quarenta anos tiveram a possibilidade de experimentar que a liberdade tem preço e exigências do totalmente novo, mesmo nas dificuldades. Viver a Páscoa é passar por desertos e tempestades. Se quisermos um cristianismo sem problemas temos que procurar na porta ao lado. O deserto, isto é, os tempos difíceis, queima o secundário e nos leva ao único necessário. Quem não sofre as demoras de Deus (Eclo 2,3), jamais poderá entender o que é tê-Lo. O maior deserto de Jesus foi a Cruz onde pode dizer: “Pai, em vossas mãos entrego o meu Espírito” (Jo 23,46). Era a oração que sempre fizera em sua vida, quando rezava o salmo 31,6. A Páscoa não deu aos discípulos uma tranqüilidade humana, mas a certeza divina em tudo o que faziam: O Senhor ressuscitou.

  1. Terra da promessa

Depois do deserto, os judeus atravessaram o rio Jordão como na passagem do Mar Vermelho: É a continuada liberdade. Entram na terra prometida e comem os frutos da terra (Js 5,12). A terra nova alimenta. Em nossa Páscoa entramos na terra nova da graça: “Nascestes de novo e vossa vida está escondida em Deus”. Deus é meu descanso. A vida eterna começa aqui. Vivemos já a vida futura que Cristo nos conquistou. Essa nova terra nos alimenta com os dons da Ressurreição. A vida da comunidade deve ser o espelho da vida futura. Os problemas que temos nos vêm, porque estamos ainda na matéria e não podemos fugir dela. Não se trata de suportar como fosse um mal, mas aproveitar dessas situações para exercer o dom da vida nova no amor que Cristo nos deu como seu mandamento.

nº 1650 – Homilia do 6º Domingo da Páscoa (21.05.17)

“Não vos deixarei órfãos” 

Manifestação de Cristo

            João ensina que ter a presença de Jesus é amá-Lo guardando seus mandamentos. Amando-O, temos a garantia de que está presente. Esta presença é garantida pelo Espírito da verdade: “Vós O conheceis porque Ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós… Vós me vereis, porque Eu vivo e vós vivereis… Quem tem meus mandamentos e os observam, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e Eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,18-21). Não há ausência, mas presença do Espírito da Verdade. Verdade é Jesus. Temos a presença de Jesus e a manifestamos por nosso amor a Ele, guardando seus mandamentos. Estamos sempre unidos ao Pai, pelo Filho no Espírito: “Quem ama Jesus será amado pelo Pai”. O Espírito nos abre à visão de Jesus através do amor que Ele tem por nós. Observando nossa comunidade vemos o mesmo que ocorreu com os apóstolos e discípulos, como no caso de Filipe que anuncia o Evangelho em Samaria. Ele fazia os milagres que Jesus fazia. Cristo continua a dar o Espírito através dos apóstolos. O Espírito é dado para todos. A ação evangelizadora de Filipe que fora escolhido como diácono para servir as mesas (ação social), torna-se um serviço maior de anúncio de Jesus. Os diáconos têm uma missão de anúncio que incide também sobre o social. Muitos reduziram seu diaconato a um serviço de altar. Também é bom, mas não é a primeira missão. Vemos aí a dimensão evangélica de todo o cristão: cuidar do homem como um todo.

Missão do Espírito

O Espírito é o outro Defensor: “Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Defensor para que permaneça sempre convosco” (Jo, 14,16). Jesus está diante de Deus intercedendo para o perdão dos nossos pecados e os do mundo inteiro (1Jo 2,1). Qual a missão do Espírito? Paulo explica: “Ele socorre nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir como convém. Mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26). Nossa relação com Deus é feita através do Espírito que conhece nossa linguagem e a linguagem de Deus. Ele nos revela Jesus e faz morada em nós, “O Pai dará outro Defensor para que permaneça sempre convosco” (Jo 14,17). Após a Ressurreição e Ascensão de Jesus ao Céu, entramos no tempo do Espírito que faz penetrar no mundo e nas pessoas a redenção que Cristo nos trouxe. Ele nos tira da orfandade. A sensação de perda de Jesus, por sua Ascensão ao Céu nos é sanada pela presença do Espírito que nos faz entender nossa relação com Cristo.

Vida e mistério celebrado

            Participando da vida de Deus pelo Espírito, celebramos com júbilo suas maravilhas que se renovam. Deus jamais rejeitou nossa oração (Sl 65). Por isso nos reunimos para celebrar sua bondade, libertando-nos de todo o mal e pecado e dando-nos a vida nova em seu Filho. Ouvimos Pedro dizer: “Santificai em vossos corações o Senhor”, Santificar é reconhecer Deus e louvá-Lo pela proclamação de Cristo e ressuscitado. Cada celebração é momento de viver este mistério e receber o Espírito. Há uma procura de imposição das mãos para o dom do Espírito. Mas não se toma conhecimento ou há desconhecimento de que, em cada Eucaristia, há um Pentecostes dentro da celebração nas palavras da epíclese. Dá-se o Espírito com a mesma energia Divina que mudou o pão e o vinho em Corpo e Sangue do Senhor. O Espírito Santo é o servidor como Cristo. É preciso acolher sua graça e não fazê-Lo um mero distribuidor de dons para nossa vaidade.

Leituras: Atos 8,5-8.14-17; Salmo 65; 1Pedro 3,15-1; João 14,15-21

Ficha nº 1650 – Homilia do 6º Domingo da Páscoa (21.05.17)

  1. Temos a presença de Jesus e a manifestamos por nosso amor a Ele, guardando seus mandamentos.
  1. Nossa relação com Deus é alimentada através do Espírito que conhece nossa linguagem e a linguagem de Deus.
  1. Cada celebração é momento de viver este mistério e receber o Espírito. 

            Não há desemprego 

            A narrativa da pregação de Filipe em Samaria mostra claramente que a pregação não estava reservada somente aos apóstolos. Todos os cristãos leigos são igualmente responsáveis pelo testemunho do Evangelho. Não há desemprego na Igreja nem aposentados. Cada um faz de seu modo.

Cada um corresponda à salvação que recebeu. Pedro insiste: “Santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo, e estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir” (1Pd 3,15). Ele nos dá o Espírito Santo que nos ensinará tudo o que precisamos aprender sobre Jesus. Quem ama Jesus será amado pelo Pai.

Nesse Reino todo mundo tem o que fazer. Guardando os mandamentos faremos sua obra. Não estaremos desempregados nem encostados.

 

nº 1649 Artigo – “Ressuscitou ao terceiro dia”

  1. O Senhor ressuscitou…

            Ao ouvirmos os discursos dos apóstolos depois de Pentecostes, sentimos o desejo ardente desses homens simples de transmitir a certeza da Ressurreição de Jesus. Eles afirmam com segurança: “Nós O vimos”, “Ele Se pôs no meio de nós”. Querem transmitir sua experiência de terem vivido com Ele uma normalidade de vida: “Nós que comemos e bebemos com Ele depois que ressuscitou dos mortos” (At 10,41). O vigor deste anúncio vem da certeza da experiência pessoal. Não se tratou de um defunto que voltou, mas alguém que morreu e passou à vida ressuscitada. Seu corpo não conheceu a corrupção. A morte não O dominou. Lázaro morreu e voltou à vida. Mas depois morreu de novo. Os próprios dirigentes do povo, sumos sacerdotes, reconheceram a Ressurreição, tanto que pagaram aos soldados para que dissessem que “enquanto dormiam, os discípulos vieram e roubaram o corpo” (Mt 28,11-15). S. Agostinho diz: “Se estavam dormindo, como souberam que foram os discípulos”? Os discípulos eram muito simples para inventar essa história. Eles mesmos, como dizem os discípulos de Emaús, já tinham por encerrada a “temporada” de Jesus. A Ressurreição é um fato totalmente novo e o princípio de uma vida completamente nova. Não se trata somente de um fato histórico, mas de um fato que dá início a um mundo novo. Mas não mudou nada na história do mundo, podemos dizer. Esse fato vai além da história, pois penetra na eternidade. Justamente aqui é que se justifica a força dos apóstolos que entenderam sua dimensão divina. Deus ressuscitou Jesus (At 10,40).

  1. Creio na Ressurreição

            Rezamos na profissão de fé que cremos que Jesus ressuscitou. Mas não passa muito de uma afirmação de fé que não interfere em nossa vida. No catolicismo ocidental passamos por um tempo difícil. Depois da formação do cristianismo ocidental houve a decadência do império romano e a invasão dos povos novos que vieram de longe, chamados de bárbaros. Não tinham a tradição e outra formação. Foram necessários séculos para que fossem formados na cultura ocidental. Houve um distanciamento da cultura e da formação cristã. Pelos inícios do segundo milênio, deu-se muito valor aos aspectos humanos da vida de Cristo, de Maria e dos Santos. A Ressurreição, que é mais difícil de explicar, ficou como uma doutrina mais distante. Não influenciava a vida concreta das pessoas. A partir dos tempos da renovação que culmina no Vaticano II, deu-se maior valor a esse dado fundamental de nossa fé, colocando-o como fundamento e gerador da vida cristã.

  1. Vivemos a partir da Ressurreição

            Será um processo muito longo passar de uma religiosidade somente devocional para uma fé fundada na consciência da Ressurreição como centro da vida cristã. Ela não elimina a devoção e, na verdade, a torna sólida. O sentimento participa da entrega de fé, mas só o sentimento não é capaz de sustentar a vida cristã. A fé na Ressurreição nos une a Cristo em sua passagem (Páscoa) da morte para a Vida. Esta passagem, a fazemos como os discípulos fizeram, como lemos no evangelho e nas cartas de S. João: Vivendo o mandamento novo do amor. Nele fazemos a passagem da morte para a vida, isto é, saímos de nós mesmos como Cristo saiu de Si e fez a passagem para o Pai dando-se aos irmãos. Supera-se o individualismo de uma fé voltada para si, para uma fé fortalecida pelo amor. “Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos” (1Jo 3,14). Essa é a Páscoa do discípulo. É a morte que dá vida.

nº 1648 – Homilia do 5º Domingo da Páscoa (14.05.17)

“Vós sois uma nação santa” 

 Muitas moradas

            No correr destes domingos pascais os evangelistas vão desenhando a figura da comunidade à luz da Ressurreição de Jesus. Em poucas palavras, resumem anos de crescimento, inventiva apostólica e respostas às grandes questões em que a comunidade se colocava. Como não tinham o texto dos evangelhos e cartas, os cristãos lembravam as palavras de Jesus e, em torno delas, construíam as orientações, pois eram assíduos aos ensinamentos dos apóstolos, às reuniões em comum, à fração do pão e às orações (At 2,42). Eram um evangelho vivo. A comunidade acaba sendo como que um espelho da vida futura.

Jesus diz que há lugar para todos no céu. Este lugar é cuidadosamente preparado por Ele. O jeito de chegar lá é estar unido a Ele que é o caminho a verdade e a vida (Jo 14,6). Ele é a estrada e o espelho do Pai. Quem O vê, vê o Pai. Estar unido a Cristo pela fé é fazer este caminho, realizar esta verdade e viver esta vida. Deste modo o fiel participa da vida de Cristo e faz o que Ele fazia e faz mais ainda, pois Jesus, junto do Pai é a vida do discípulo que acreditou (Jo 14,12).

Comunidade que cresce

            Mas esta comunidade tem que se organizar na situação em que vive. Os discípulos, interpretando a missão que Jesus lhes dera, instituem os diáconos para o serviço da comunidade. Comunidade sem serviços é fantasia. A fé se encarna no mundo em que vivem os discípulos. Ela é social, encarnada e transformadora. Fé que não olha em volta, não vê Deus. Fé só de princípios sem prática é murcha, não produz (Tg 2,17). É muito perigoso explicar a santidade da Igreja tirando-a da realidade. Isso é o que chamamos de espiritualismo. É o típico modo egoísta de viver a fé. Penso em mim, e os outros que se danem. Isso não é o modo de vida de Jesus. Ele é o espelho. Devemos caminhar como caminhou, diz S. João. Esse espiritualismo está presente em muitos modos de organizar a vida da comunidade e das muitas espiritualidades, movimento e outros que têm pululado no terreiro da Igreja. Tirar a fé da realidade é negar a encarnação e vida de Jesus. Ele seguiu seu povo, mas foi capaz de apresentar uma renovação para que a fé não fosse só regras, mas fonte de vida. Por isso são necessários os diversos serviços que se organizam. Esses não são eternos. Podem sofrer mudanças, adaptações e até surgirem novos serviços.

Santa e pecadora

            Contudo esta comunidade é santa, pois está fundada em Cristo e unida, como pedras vivas, formando o edifício espiritual. Ela presta culto a Deus. É sacerdotal. Por estar unida a Cristo e aos outros irmãos, é santa. O povo de Deus é santo. O santo não é aquele que não erra, mas porque erra, pode crescer e produzir frutos de conversão. A Prece Eucarística V diz: “Igreja é santa e pecadora”. Santa, enquanto de Deus; pecadora, enquanto marcada pelo pecado e em condições de crescer sempre mais. Pecadora porque erra ao viver a fé misturada com a mentalidade do mundo. Pedro diz em sua carta: “Nela tropeçam os que não acolhem a Palavra” (1Pd 2,8). Todos os fiéis são chamados à santidade. Cada um a seu modo e na sua condição de trabalho, estado civil, idade e sabedoria. Deus quer que todos sejam santos. Para isso abre-nos o caminho através de Cristo, mas em comunidade, como pedras vivas do edifício espiritual. Essa santidade também deve sair de nossos conceitos exclusivistas, como só nós tivéssemos a receita. Mas há muita santidade que não tem nosso carimbo, mas tem a marca de Jesus. Onde existe o amor aí Deus está.

Leituras: Atos 6,1-; Salmo 32; 1Pedro 2,4-9;João 14,1-12

Ficha nº1648 – Homilia do 5º Domingo da Páscoa (14.05.17)

  1. Após a Ressurreição de Jesus os discípulos se reúnem em comunidade para ouvir a palavra, rezar, celebrar a Eucaristia (partir o pão) e confraternizar.
  1. Para o desenvolvimento da comunidade criam-se serviços que devem sempre estar em evolução.
  1. A Igreja é santa da parte de Deus e pecadora da parte humana. Deve sempre se converter. 

Caminho sem atalho 

            Jesus foi para o Céu e logo recebeu um servicinho: preparar um lugar para nós. Ele quer que estejamos com Ele. E prometeu, que assim que arrumar lugar vem nos buscar.

            Como é que vai nos levar? Pelo caminho. Não conhecemos o caminho, disse o apóstolo Tomé. Jesus é claro: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Quem O segue pela Verdade vai ter a Vida. E afirma: não há outro caminho para ir ao Pai senão Ele.

            Somos como um edifício que O tem como alicerce. Somos Pedras vivas, que unidas formam o edifício espiritual. Quem não crê Nele tropeça e cai. Quem O aceita é raça escolhida, sacerdócio do Reino e nação santa.

            Essa comunidade espiritual também tem necessidades humanas que devem ser resolvidas pela comunidade. É o que vemos na escolha dos diáconos para uma solução do atendimento aos pobres.

 

 

nº 1647 Artigo -“Caminhos de Ressurreição”

  1. Homens que se renovam

Celebramos a Ressurreição já ocorrida porque sua realidade é sempre atual. E ainda temos que deixar que esta realidade penetre nossas pessoas e nossos corações. É um mistério tão augusto que corremos o risco de deixá-lo somente como uma ideia sobre Jesus e não sua vida em nós. O Cristo glorificado está glorioso junto do Pai, mas ao mesmo tempo continua servidor entre nós abrindo-nos as torrentes das águas da salvação (Is 12,3). Essas águas são a ação do Espírito que nos foi dado (Jo 7,3-9). Se prestarmos atenção, ação dos discípulos não era fazer coisas maravilhosas, mesmo que as tenham feito, mas continuar como Jesus, fazendo o bem (At 10,38). A vida dos ressuscitados com Cristo se mantinha na Palavra anunciada pelos Apóstolos, nas orações, na fração do pão e nas refeições em comum (Jo 2,42). Isso era o modo de viver a Ressurreição. Os homens e mulheres renovados pela fé em Jesus viviam a caridade entre si e para com os outros. Vemos na narrativa da escolha dos diáconos que deviam cuidar de muita gente, sobretudo as viúvas (que eram abandonadas pelas famílias quando morriam os maridos). Já logo assumem uma questão prática, que chamamos de social. Era o primeiro problema à vista. Não basta proclamar a fé, é preciso instituir a caridade, pois ela é o reflexo de Cristo em nós. Como diz João, “andar como Cristo andou” (1Jo 2,6). Todos tinham grande respeito por eles. Entre eles não havia necessitados, pois os que possuíam e vendiam e davam o dinheiro aos apóstolos que o repartiam (At 4,35). Diziam os pagãos: “Vede como se amam”.

  1. Estruturas renovadas.

            Cada celebração da Ressurreição chama a um mundo novo, com novos modos de vida. A ideia que temos sobre a Ressurreição como um dogma, não nos conduz à prática da Ressurreição na vida concreta. A vida que a Ressurreição nos sugere é a capacidade de buscar estruturar o mundo a partir do Reino de Deus como Jesus o implantou e, como conseqüência, teve que ir até à morte de Cruz. A morte de cruz foi para Ele a síntese de tudo: dar a vida, empenhar-se totalmente para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10). Doar a vida não se reduz a morrer pelos outros, mas dedicar-se pela vida dos outros para que todos vivam também espiritualmente bem. O mundo caminha em sentido contrário no egoísmo, ganância e prepotência. Onde todos cuidam uns dos outros, todos estarão bem cuidados. O egoísmo mata. Pensar no outro para que todos pensem em nós. Vejamos como isso pode influir no mundo econômico, social, político. O contrário, que é pensar só em si, tem demonstrado que só prejudica a si mesmo e aos outros. Toda a política econômica mundial, se não se adequar ao Evangelho, só aumentará o sofrimento dos povos. Temos que crer na renovação do mundo pela Ressurreição.

  1. Ressurreição das realidades materiais

            O mundo espera sua renovação. Paulo nos fala na Carta aos Romanos que a natureza, também ela foi sujeita à vaidade. E espera a manifestação dos filhos de Deus. Ela não cometeu pecado, mas foi prejudicada pelo pecado do homem. Ela participa da esperança da humanidade. Ela sofre até o momento como em dores de parto esperando a Redenção (Rm 8,18-23). Como a natureza participa do louvor da humanidade a Deus, participa também dos sofrimentos e da Ressurreição. Levar a natureza à libertação é respeitar o seu ritmo, condições e finalidades. Lidar com a natureza é cultivar o ser humano. Na Eucaristia a natureza participa do Mistério de Cristo, pois o pão e vinho serão seu corpo ressuscitado. Na Eucaristia ela enxuga suas lágrimas e sorri.

nº 1646 – Homilia do 4º Domingo da Páscoa (07.05.17)

“Porta do Paraíso”

 “Vida em abundância”

Na Páscoa celebramos a morte salvadora e a ressurreição santificadora que Jesus nos oferece para que tenhamos vida. Esta vida está na unidade à vida de Jesus. E é somente em Jesus que ela se realiza e se desenvolve, pois Ele veio para que tenhamos vida em abundância (Jo 10,10). A vida abundante é a vida de ressuscitados. “Com Ele nos foram dados todos os bens”. Essa vida que Cristo nos dá, em primeiro lugar, é Ele mesmo que se entrega a nós. Além Dele, recebemos a vida com a bela comparação de um rebanho que tem pastagens verdes e água em abundância. É o alimento dado em totalidade. Somos livres de todos os males, como nos explica a carta de Pedro: “Sobre a cruz, carregou nossos pecados em seu próprio corpo, afim de que mortos para os pecados, vivamos para a justiça” (1Pd 2,24). Não estamos mais perdidos: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas” (1Pd 2,25). Salva cada ovelha e salva todas as ovelhas. Mas há passos a serem dados para se iniciar nesta vida e caminhos a serem feitos. Para explicar sua relação conosco Jesus usa a imagem bucólica do rebanho, do redil e do pastor. Na liturgia de hoje Jesus se coloca como a porta pela qual passam as ovelhas. Ser porta é comparável ao que disse: “Eu sou o caminho”. Ele conduz, mas é por Ele que devemos passar, acolhendo-O pela fé estamos unidos a Ele e podemos caminhar com Ele.

Ouvir o Pastor

            O primeiro passo é ouvir a voz do pastor. Esta voz será ouvida, se conhecida. Depois de conhecida, torna-se fácil distingui-la da voz de um estranho. S. Pedro no dia de Pentecostes, respondendo à pergunta “o que devemos fazer, irmãos”, adverte: “Convertei-vos, cada um seja batizado e assim recebereis o Espírito Santo” (At 2,38). Para identificar a voz do pastor, é necessário dar os passos na conversão a Jesus, ser batizado e receber o Espírito. É preciso atravessar a porta das ovelhas. Jesus diz: “Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10,7). Não há cristianismo sem Jesus. Aceitar Jesus e seu evangelho é atravessar a porta. Éramos ovelhas desgarradas. Jesus, atravessando o sofrimento, que foi sua porta, reuniu-nos junto a si, como o pastor ao rebanho. Os que vieram antes de Jesus, são ladrões e assaltantes que vieram só para roubar, matar e destruir. Jesus veio “para que tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10).

 Salvação em Jesus

            Não há salvação fora de Jesus? De fato não. Pode haver salvação fora de Jesus, aparentemente. Dizemos aparentemente, pois quem julga os corações é Deus e somente Ele vê o que há no coração de cada um. Quem tem um coração reto faz parte do rebanho de Jesus e atravessou a porta que é Ele. Para nós que O conhecemos, não há outro modo. E conhecê-lo não é só saber que existe, pois São Tiago diz que o demônio sabe e treme (Tg 2,19). “Também Cristo sofreu por vós deixando um exemplo para que sigais os seus passos” (1Pd 2,21). Para entrar por Ele que é a Porta de entrada de nosso mundo com Deus, temos que segui-lo também quando for difícil. A vida em abundância que nos dá requer também uma resposta nossa de ouvir sua voz e segui-lo. Pergunte-se como você identifica a voz de Jesus que o chama pelo nome. Nossa intimidade com Ele vai além de uma amizade, mas de um relacionamento de profundidade. É o termo que Jesus usa: “Chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,5). Esse mesmo relacionamento é exigido no relacionamento na comunidade: conhecer a voz dos amigos e chamá-los pelo nome.

Leituras Atos 2,14a.36-41;Salmo 22;1Pedro 2,20b-25;João 10,1-10:

Ficha nº 1646 – Homilia do 4º Domingo da Páscoa (07.05.17)

  1. Essa vida que Cristo nos dá, em primeiro lugar, é Ele mesmo que se entrega a nós.
  1. Para identificar a voz do pastor, é necessário dar os passos na conversão a Jesus, ser batizado e receber o Espírito.
  1. A vida em abundância que nos dá requer também uma resposta nossa de ouvir sua voz e segui-lo.

4º Domingo da Páscoa (07.05.17)

João 10,01-10 

            Pega ladrão! 

            Depois da Páscoa temos ouvido os discursos de Pedro que demonstram que Jesus ressuscitou, foi exaltado ao Céu e enviou o Espírito Santo. E, como conseqüência, convida à conversão.

            Esse Jesus, o que tem a ver conosco agora? Ele é o bom pastor que nos conduz. As ovelhas, nós seus fiéis, estamos sempre unidos a Ele. Para seguir esse Jesus temos que entrar no seu rebanho. Há muitos ladrões que querem tomar o lugar do pastor. As ovelhas fogem deles. Para entrar nesse rebanho, no redil (lugar onde ficam as ovelhas de noite), é preciso passar pela porta. A porta é Jesus. Passar pela porta é aceitar Jesus e seu evangelho. Quem não passa por Ele é ladrão e salteador. Esse vem para roubar. Jesus vem para dar vida em abundância.

            Estar no rebanho é viver como Jesus viveu e sofrer como Jesus sofreu. Assim nos salvou, curou nossas feridas e deixou um exemplo para a gente seguir. Haverá sofrimento, como Ele sofreu, mas também, vida em abundância.

            Cuidado para não deixar se levar pelos maus pastores! Eles destroem o que é de Jesus. Há muita gente querendo assaltar o rebanho. Tem que pegar esses ladrões.

nº 1645 Artigo – “Você sabe onde está Jesus”

  1. Andando por aí

            Crendo na Ressurreição temos a certeza que Jesus se encontra glorioso junto do Pai. É a fé que temos. Ela sustentou os cristãos nesses dois mil anos. Sabemos e professamos que Jesus está no Céu. Depois da Ressurreição os discípulos sentiram sua ausência. O texto dos Atos dos Apóstolos quando fala dos discípulos de Emaús quer nos mostrar onde está Jesus. Precisamos acolhê-Lo ora presente. Os cristãos podem ter pensando: Onde está Jesus? Ele próprio responde através da aparição silenciosa e serena aos dois que iam para o campo (Lc 24,13-35). Viram Jesus de novo ali, com eles, vivo. Era o mesmo, mas não era do mesmo jeito. Nesse dia, dois deles iam para um vilarejo chamado Emaús. E conversavam sobre as coisas que tinham acontecido. Liam os sinais dos tempos. Então Jesus entra na conversa, como um desconhecido. Lembramos aqui a importância da presença de Jesus em nossos relacionamentos humanos, nossos bate-papos, nossos diálogos, nossas conversas. Não só quando falamos de assuntos espirituais. Jesus está presente quando falamos da vida, das coisas da vida e da vida de tantas coisas. O diálogo das pessoas, o bate papo inocente é também momento de encontrar Jesus. Estar reunidos no nome Dele, não acontece só quando rezamos, mas também quando lidamos com as pessoas no respeito, na simplicidade e na devoção pelo ser humano. Buscamos Jesus longe, quando Ele está tão dentro de nós e de nossos relacionamentos, como os dois discípulos de Emaús.

  1. Conversando conosco

            Curiosamente Jesus entra na conversa e se interessa. A realidade do ser humano é o leito por onde passa a Palavra de Deus. Tomando conhecimento do assunto que tratavam, Jesus não age como um professor que dita ensinamentos. Coloca-se como aprendiz: o que foi? Pergunta. Não deixa de chamar atenção para que vejam os acontecimentos à luz da Palavra. E, começando por Moisés e pelos profetas, mostra como a Escritura orienta ao conhecimento de Jesus, pois fala Dele. É muito bom percebermos que nossos diálogos têm uma aproximação com a Palavra de Deus. A Bíblia não é uma pedra inamovível. Ela se mistura com nossa vida e, a partir dela, interpretamos nossa vida e a Palavra de Deus escrita nesse evangelho de carne e osso, feito de belezas e tristezas. Sua riqueza e santidade não estão no Livro Santo como uma biblioteca sagrada, pois sagrado é o ser humano. É no ser humano que a Palavra se encarnou em Nazaré, e continua se encarnando onde Deus quer. Isso não tira seu dom de ser Sagrada, mas desenvolve o sentimento do sagrado existente nas pessoas, seja quem for. Deus não faz distinção de pessoas (At 10,34).  É preciso deixar a Palavra livre de nossos preconceitos. Não somos donos da Palavra.

  1. Repartindo

            Chegaram à hospedaria e Jesus fez de conta que ia adiante (At 24,28). Então temos as lindas palavras dos dois discípulos: “Fica conosco Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando” (29). Há sempre necessidade de Jesus na passagem do dia para a noite. As trevas sem Ele são muito escuras. E cria-se então aquele ambiente único de bem estar sob uma pequena luz e muita fraternidade. Jesus toma o pão, faz a tradicional bênção e o distribui. Perceberam então que era Jesus, pois se lhes abriram os olhos. E Jesus desapareceu. Somente a Eucaristia é capaz de abrir nossos olhos para reconhecer Jesus. A alegria é imensa: Voltam na noite, melhor, na bela lua de Páscoa, para Jerusalém. Ele já estivera ali. Então contam o que acontecera pelo caminho e como O reconheceram no partir do pão. Sem encontrá-Lo em nosso caminhar, não saberemos onde Ele está.

nº 1644 – Homilia do 3º Domingo da Páscoa (30.04.17)

“Ele está no meio de nós!”

Testemunhar a Ressurreição

            O Tempo Pascal celebra Jesus vivo que se manifesta aos discípulos. Há sempre a tensão entre o crer e o ver. Não é preciso ver para crer, e sim, crer para ver. Os discípulos creram e puderam ver. Essa afirmação é muito forte nos discursos de Pedro. Este discurso afirma que “Deus ressuscitou Jesus, libertando-O das angústias da morte, porque não era possível que ela O dominasse” (At 2,24). Prova pelas palavras da profecia de Davi e conclui: “Com efeito, Deus ressuscitou este mesmo Jesus e disto todos somos testemunhas. E agora, exaltado à direita de Deus, Jesus recebeu o Espírito Santo que fora prometido pelo Pai e o derramou como estais vendo e ouvindo” (At 2,32). A prova não é só a profecia, mas a própria manifestação do Espírito naquele dia de Pentecostes. Os discípulos foram privilegiados por verem Jesus, tocá-Lo, comer e beber com Ele depois da Ressurreição. Ver pela fé vai além do crer porque tocou. A comunidade tem consciência da salvação que lhe foi dada pela morte e ressurreição de Jesus. Pedro, no dia de Pentecostes, anuncia corajosamente que Aquele morto estava vivo e fora glorificado por Deus. Podemos entender o vigor da pregação dos apóstolos e o resultado pela experiência que tiveram do Ressuscitado. Essa experiência falta em nossas comunidades. Onde se baseia sua fé? Por que não existe vigor apostólico? A narrativa do encontro de Jesus com os discípulos que iam para Emaús é a explicação que conforta os discípulos que não têm mais a presença física de Jesus. João dá o consolo e mostra onde Ele se encontra.

Onde está Jesus?

Dois discípulos iam juntos para uma aldeia chamada Emaús. “Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido”. Jesus aproxima-se e entra na conversa. Onde está Jesus? Na fraternidade na qual caminhamos juntos. Um é apoio ao outro. Este apoio é um modo da presença de Jesus. Os sinais dos tempos, os acontecimentos da vida são outra presença de Jesus. O mundo que está diante de nós é uma presença de Jesus que nos convida a tomar parte e dar-lhe uma direção.“Jesus explica as Escrituras” e mostra como sua Paixão, Morte e Ressurreição estavam já previstas na Palavra de Deus.  Esta Palavra é uma presença preciosa de Jesus que nos orienta, esclarece e nos encaminha. A Palavra ouvida, refletida e vivida na comunidade é uma presença clara de Jesus. Um plano pastoral pode tomar esses quatro momentos e estabelecer um processo de fraternidade como ponto necessário na vida da comunidade. A comunidade não pertence ao mundo, mas vive nele, por isso é preciso estar atenta aos sinais dos tempos. Pastoral é um processo atual. A comunidade se orienta a partir da Palavra que vai conduzir à Eucaristia e anunciar.

Fica conosco, Senhor!

Chegando à aldeia convidam Jesus: “Fica conosco, Senhor, pois se faz tarde e a noite já vem chegando”. Nos momentos escuros da vida, esta presença é tão confortante! “Quando estavam à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-o partiu e distribuiu. Então seus olhos se abriram e reconheceram Jesus”. Outra presença de Jesus é a Eucaristia na qual partimos o pão e o repartimos entre nós pela comunhão. Ele sempre faz parte de nossa vida e “faz arder nosso coração quando fala conosco”. O reconhecimento da presença de Jesus faz de nós missionários. “Eles se levantam, mesmo de noite e voltam a Jerusalém para anunciar aos outros”. Conhecer a presença de Jesus é a razão de anunciá-lo. Esta resposta de Lucas à comunidade é uma proposta de caminho para a Igreja.

Leituras: Atos 2,14.22-33; Salmo 15;1Pedro1,17-21;Lucas 24,13-35

Ficha nº 1644 – Homilia do 3º Domingo da Páscoa (30.04.17)

  1. Após Pentecostes os discípulos anunciam com vigor a ressurreição de Jesus. Eles são testemunhas que Deus O ressuscitou, deu-lhe o Espírito para ser derramado sobre todos.
  1. A narrativa de Emaús quer indicar aos discípulos que Jesus continua presente de diversas modalidades. Continua presente em nossas comunidades.
  1. A presença privilegiada de Jesus na Eucaristia leva os discípulos a anunciar, na noite. 

            Não era conversa fiada 

Depois da vinda do Espírito Santo os apóstolos pregavam com muito entusiasmo. Sabiam o que havia acontecido com eles no momento em que foram inundados pelo Espírito.

A maior força era a certeza da presença de Jesus no seu meio. Ao ir para o Céu, disse: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Essa cena tão preciosa dos discípulos que iam para Emaús, esclarece como entendiam a presença de Cristo.

Temos quatro tipos de presença: a unidade na presença fraterna, pois iam juntos; os sinais dos tempos analisados a partir de Cristo; Jesus está na Palavra, pois Jesus lhes explica as Escrituras; e a presença mais significante, no partir do pão, isto é, na Eucaristia.  Assim podem voltar na noite, na clara noite da lua brilhante, para anunciar aos outros. Deve ter sido uma delícia esse encontro. E a conversa não era fiada.

 

nº 1643 Artigo – “A comunidade dos ressuscitados”

  1. Encontra todos reunidos

  Os que foram ressuscitados, isto é, os que creram e foram batizados estão sempre reunidos.  É uma característica da comunidade. Essa unidade não é apenas social, mas é comunhão produzida pelo Espírito Santo que a torna Corpo de Cristo. São novas criaturas que constituem o lugar onde se manifesta o Ressuscitado que dá o Espírito. Esse é o Pentecostes permanente. A comunidade dos discípulos continua a presença do Senhor e acolhe seu Espírito. O evangelista narra que as aparições se deram no primeiro dia da semana que chamamos dia do Senhor, domingo (Dies Dominica).  Mais que indicar o dia dessa presença indica a força da comunidade reunida. Por isso rezamos nos domingos: “Este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos e exultemos nele”. Refere-se à Ressurreição e ao dia de sua manifestação. Mais que vencer a morte privilegia-se dar a vida. Constitui a comunidade e lhe dá a vida. Por isso, Lucas nos Atos dos Apóstolos insiste que o Espírito forma a comunidade para a escuta da Palavra, a comunhão fraterna, a fração do pão (Eucaristia) e as orações (At 2,42).  A Ressurreição atua na comunidade. O que aconteceu com Jesus, ocorre na constituição da comunidade. Ela vive do Cristo vivo, ressuscitado e não apenas vive a esperança de sua vinda e na certeza da realização das promessas. Todos os domingos rezamos a profissão de fé: “Creio em Deus Pai…” É um modo de indicar que é o dia de professar a fé como Tomé: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28). A comunidade reunida é um testemunho da fé e da força da Ressurreição. Temos aí a razão da força da celebração dominical.

  1. Envio para reconciliação

            Jesus foi enviado ao Pai para a reconciliação de todos com Deus. Essa foi sua missão e por ela se entregou totalmente até à morte. Sendo para nós sinal de vida. Como Moisés que sempre pedia que Deus perdoasse o povo, pois agia por ignorância e lembrava a Deus que Ele tinha se comprometido com juramentos de levar esse povo à terra prometida. Jesus, no momento da morte pede ao Pai que perdoe seus inimigos, e dá como razão: “eles não sabem o que fazem” (Lc 23,33). Quis sempre a reconciliação. Para isso é preciso sair de si e entregar-se ao outro. Para isso sopra sobre eles, lhes dá o Espírito Santo e diz: “Recebei o Espírito Santo! A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). A missão da comunidade é reconciliar-se e promover a reconciliação para que o mundo creia. Esta é a economia de Deus. Significa: Tudo o que Deus fez foi para nos salvar. Esse foi o primeiro ato do Ressuscitado. Esse deve permanecer para sempre. Essa missão permanece na comunidade. Vivendo reconciliada de estabelece no mundo a reconciliação. Para isso ela recebe o Espírito do Ressuscitado. Não podemos ver aí só uma questão de confissão.

  1. Discípulos felizes

A profissão de fé de Tomé que “viu para crer” torna-se a força da comunidade, pois sua felicidade consiste em crer sem ver. A fé não exige sinais, basta que o Espírito a confirme. Crer sem precisar tocar é mais que tocar para crer. Aqui age o homem, lá age a graça do Ressuscitado. A fé vai levar a tocar as feridas dos irmãos. Aí sim, tocamos o Ressuscitado que traz as marcas de sua Paixão. Não podemos viver sem a Paixão de Cristo, pois ela nos faz compreender o quanto o Senhor fez por nós e o quanto espera que cada um faça pelos outros. O toque pela fé penetra no mistério e nos atinge na totalidade. Jesus tinha razão em dizer que “felizes foram os que creram sem ter visto” (Jo 20,29).

nº 1642 – Homilia do 2º Domingo da Páscoa (23.04.17)

“Nascer para uma esperança viva”

 Efusão do Espírito

Após a Ressurreição Jesus vai ao encontro dos discípulos reunidos no Cenáculo. João ensina-nos a compreender a Ressurreição e sua relação com a comunidade. Coloca-a no primeiro dia da semana que é o primeiro dia da nova criação. Nele se dá a efusão do Espírito. É a inauguração de tempo novo de Deus. Jesus aparece e mostra o sinal dos cravos nas mãos e o lado aberto pela lança. Ele é o mesmo que fora crucificado. É importante a consciência que o Ressuscitado não é um tipo de fantasma. É o mesmo Senhor que traz consigo não só a vida nova, mas também as marcas de sua Paixão. Falando aos discípulos, sopra sobre eles e diz: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Os discípulos, ao receberem o sopro do Espírito Santo, transformam-se em nova criatura redimida. A comunidade dos discípulos constitui o lugar onde se manifesta o Ressuscitado que dá o Espírito. O Espírito forma a comunidade para a escuta da Palavra, a comunhão fraterna, a fração do pão (Eucaristia) e a oração (At 2,42). Por isso os mártires dirão: “Não podemos viver sem o domingo”. Ele é o dia do Senhor se manifestar na comunidade. A força da Ressurreição não está somente em Jesus que vence a morte, mas atua também na comunidade que vive na esperança, “pois sem O ver ainda, Nele acredita” (1Pd 1,8). A esperança é a certeza de que se realizarão as promessas. O Espírito transforma a dúvida em ato de fé, como fez a Tomé (Jo 20,28). A profissão de fé de Tomé, meu Senhor e meu Deus, realiza nele a Ressurreição.

Como o Pai me enviou, Eu vos envio

Naquela noite Jesus apareceu aos discípulos, pôs-se no meio deles e disse: “Como o Pai me enviou, também Eu vos envio”. Depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo! A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). A comunidade recebe o Espírito para o anúncio da missão de reconciliação. Soprando sobre os renascidos, dá-lhes o Espírito que lhes mantém viva a fé na esperança. O discípulo é associado à missão do Ressuscitado. Quem recebe o discípulo, recebe a Cristo (Lc 10,16). Recebe também toda economia da salvação, isto é, tudo o que Deus fez para nos salvar. Cada celebração da comunidade é presença do Ressuscitado, efusão do Espírito e envio à missão. Todos esses acontecimentos estão presentes na comunidade que celebra. É a continuação e presença do Ressuscitado que continua agindo, dando o Espírito e enviando. A liturgia não é somente um rito, mas é a celebração de uma presença. Por isso rezamos na Eucaristia: “Ele está no meio de nós”. Percebemos aí a importância da celebração. Ele não é só uma obrigação ou um rito, mas é a certeza de uma presença que não precisa ser tocada a não ser pela fé. A presença do Senhor na celebração nos une a seu ministério de louvor e glória ao Pai.

 A comunidade vive a fé no Ressuscitado.

A comunidade é o Cenáculo para a manifestação do Ressuscitado que provoca a fé dos discípulos. A profissão de fé de Tomé é a maior de todas: “Meu Senhor e Meu Deus”! A comunidade reunida é o lugar para o acolhimento do Ressuscitado na fé. Crer em Jesus é um dom do Espírito. Os discípulos que não viram Jesus crêem porque aceitaram os sinais que Jesus fez para que acreditassem. Todos os que crêem, sem ter visto, são felizes, isto é, realizam em si a plenitude da fé, na esperança (Jo 20,29). A fé é mais consistência que o toque ao vivo.

Leituras: Atos 2,42-47;Salmo 117;1Pedro 1,3-9;Jo 20,19-31.

Ficha nº 1642 – Homilia do 2º Domingo da Páscoa (23.04.17)

  1. Jesus se manifesta aos discípulos vivo, com as marcas da Paixão. Dá-lhes o Espírito e os envia em missão. Manifesta-se no domingo, que é o dia da comunidade.
  1. Cada celebração da comunidade é presença do Ressuscitado, efusão do Espírito e envio à missão. Cristo está vivo e presente em nossas celebrações.
  1. Todos os que crêem, sem ter visto, são felizes, isto é, realizam em si a plenitude da fé, na esperança. 

            Crer para ver 

            No segundo domingo da Páscoa temos a conhecida história de Tomé que quer ver para crer. É incrédulo. Não acredita no que os outros dizem, a não ser se ele mesmo faça a experiência. Jesus se manifesta aos discípulos e Tomé não estava presente. Nem acreditou no que disseram com tanta alegria.

            Uma semana depois, isto é, no domingo, Jesus se manifesta aos discípulos e Jesus estava presente. Vai a Tomé e cobra uma atitude de fé. Tomé diz: “Meu Senhor

e meu Deus” (Jo 20,28). É o ato de fé mais completo que temos no Evangelho.

            Os que acreditavam se reuniam e nasce assim a comunidade que é fonte de todas as nossas comunidades. Toda a comunidade vive do ensinamento da Palavra, da comunhão fraterna, da Eucaristia (fração do pão) e das orações. Sem isso a comunidade é ajuntamento de pessoas e não comunhão de fé em Cristo Ressuscitado.

            Fomos ressuscitados, mas ainda passaremos por sofrimentos para completar a nossa parte em Cristo.

 

 

nº 1641 Artigo – “Cristo Ressuscitou!”

  1. Um grito no universo

            Naquela madrugada, como surge o sol, surge uma vida completamente nova. Quem viu? Cantamos no Precônio Pascal – hino de proclamação da Páscoa: “Só tu, noite feliz, soubeste a hora em que o Cristo da morte ressurgia. E é por isso que de ti foi escrito: a noite será luz para meus dias”. A Ressurreição foi à noite porque não era um milagre para espetáculo, mas motivo de busca permanente na clara obscura noite da fé. Ele é o guia em nossa noite. As imagens que animam essa celebração pascal nos instruem sobre o acontecimento maior de todo universo em todos os tempos: “vitória sobre a morte”. “O Rei da vida, cativo, é morto, mas reina vivo” (Sequência de Páscoa). Trazemos símbolos universais: a água do batismo que é aspergida sobre todos, símbolo da purificação e fecundidade; o fogo que acende o círio pascal, o símbolo de Cristo luz do mundo da qual participamos; a terra nos elementos na natureza como a cera, símbolo da fragilidade e da estabilidade do universo. Dela somos feitos. Antes se usava também o sopro, símbolo do Espírito que vem sobre as águas e sobre cada fiel. A Ressurreição não é um ato reservado a uma religião. É uma explosão de vida no universo. Todo o universo caminha para “sua realização plena que é ser libertado da escravidão da corrupção para entrar na liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8,21). É estranho este aspecto de participação do universo na glorificação de Cristo. A Bíblia traz muitas orações envolvendo também a natureza. Ressuscitada glorifica o Senhor. Tudo será recapitulado, isto é, irá para Cristo sem fim (Ef 1,10).

  1. Vida ressuscitada

            Temos muita dificuldade de entender como se realiza em nós a Ressurreição. Cristo, com sua Morte e Ressurreição, restaura a natureza humana corrompida pelo mal. Há condições de vida nova e eterna. Quer dizer que somos seres renovados para voltar a seu estado original criado por Deus. Permanecemos na condição humana, mas com um novo modo de ser espiritual. Temos a Vida Nova. Essa se reflete no modo como vivemos essa novidade de vida. Passamos do eu ao nós, do egoísmo à abertura ao outro como servidor de caridade e amor. Para sabermos se estamos em Cristo, basta olhar se andamos como Ele andou e como viveu, como João nos escreve: “Aquele que permanece Nele, deve também andar como ele andou” (1Jo 2,6). O amor é a maior explicação da Ressurreição. Não podemos entender o gesto de Deus ressuscitando Jesus a não ser o amor. Somos amados para amar.

  1. Um mundo novo

            Está nos planos de Deus em Cristo mudar o mundo natural. A meta de todas as mudanças é modificar o coração do mundo nas pessoas. Deus nos salvou como povo e como pessoas individuais. Cada um é único diante de Deus e recebe todo seu amor e atenção. A Ressurreição abre as portas do Paraíso, fechado pelo pecado do primeiro  homem. O paraíso terrestre simboliza a vida na familiaridade com Deus. Perdemos esse dom e agora Cristo o recupera para nós. Somos família de Deus, vivemos de sua bondade e participamos de sua vida. Não vemos o que acontece no espiritual. Pela caridade vemos o que acontece em nosso mundo humano e carnal. O amor vivido vem de Deus. Ninguém tem gesto algum de amor a não ser por Deus que o gera em nós como também para os que não conhecem Jesus como conhecemos. Cada celebração reanima esse dom. Assim se cria a grande família, o edifício espiritual, o povo de Deus e a agricultura de Deus (1Cor 3,9), como nos explica S.Paulo. A Ressurreição não é misteriosa, é um mistério a ser vivido.

nº 1640 – Homilia do Domingo da Páscoa (16.04.17)

04“A Ressurreição do Senhor” 

Este é o dia que o Senhor fez

A Ressurreição de Jesus é o primeiro dia da nova criação. Por isso o guardamos como o dia do Senhor Ressuscitado. João escreve no Apocalipse: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). É o começo de um novo mundo. Agora é o tempo de Deus inaugurado na Ressurreição do Senhor. Jesus é o Homem Novo ao receber o sopro de vida do Espírito que O ressuscitou. Com sua vitória sobre o pecado e a morte, carregou consigo todo o universo. A Ressurreição é fundamental para nossa vida. Participando da Vigília Pascal, pudemos viver esse mistério na celebração litúrgica. Os símbolos celebrados nos introduziram no mistério do Cristo Ressuscitado. Passamos da morte para a vida com Ele. Segundo o evangelho do dia, Maria Madalena é o símbolo da busca. Procura um corpo que desaparecera. Há um sepulcro vazio, com um pano dobrado, como um invólucro que se esvaziou. Dois discípulos correm. Pedro entrou no sepulcro e viu. João, entrou, viu e acreditou. “Eles não tinham compreendido a Escritura segundo a qual, Ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20,9). Após a vinda do Espírito torna-se claro para eles a realidade da Ressurreição. Esse Cristo que vive é o mesmo que esteve com eles e passou por toda parte fazendo o bem. Ele esteve com eles na normalidade da vida. Sabem também que isso deve ser testemunhado para que se creia e tenha o perdão (At 10,34 ss).

O véu que cobria o rosto

              Somente à luz do Espírito podemos compreender o mistério da Ressurreição. É preciso tirar o véu da incredulidade, para ver o Ressuscitado. Notamos que o evangelho acentua que o pano que cobria o rosto estava de lado. Seu rosto está descoberto. Ao judeu, ao ser enterrado, cobria-se-lhe o rosto. Em Jesus, sua natureza humana era como um pano que cobria sua divindade. Agora podemos ver Deus em Sua face. Em Cristo podemos contemplar a face do Pai: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). De agora em diante, “Todo aquele que crê em Jesus, recebe, em seu nome, o perdão dos pecados” (At 10,43). Há outro véu que não encobre a visão, mas nos une a Cristo como vida escondida na vida de Cristo. Só veremos face a face, como agora somos vistos. Só veremos completamente quando “Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com Ele revestidos de gloria”(Cl 3,4). Os discípulos foram os escolhidos para verem Cristo ressuscitado.

Vida escondida com Cristo

            Rezamos nessa Eucaristia: “Concedei que, celebrando a Ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos na luz da vida nova”. A vida nova é a união com Cristo e fazer o bem.  Diz Pedro: “Ele andou por toda a parte fazendo o bem”. Por isso Paulo estimula os cristãos “a buscar a vida do alto onde está Cristo… pois nascestes de novo e vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus” (Cl 3,2-3). Na Eucaristia nos alimentamos desse mistério. Rezamos na oração das oferendas: Oferecemos esse sacrifício pelo qual a vossa Igreja renasce e se alimenta”. O mesmo Espírito Santo pelo qual ressuscitou Jesus tem a mesma força de ressurreição em nós. A Ressurreição transforma a vida dos discípulos. O vigor com que anunciam Jesus só tem explicação na força da fé transmitida por Cristo Ressuscitado. Podemos interpretar nossa acomodação em não anunciar o evangelho com vigor com uma fé que não parte de Cristo Vivo Ressuscitado. Se creio anuncio.

Leituras: Atos 10, 34-43; Salmo 117; Colossenses 3,1-4; João 20, 1-9.

Ficha nº 1640 – Homilia do Domingo da Páscoa (16.04.17)

  1. Com a Ressurreição de Jesus começa um mundo novo. Os discípulos foram ao túmulo, mas não conseguiram entender. Com a vida do Espírito eles se transformaram.
  1. O véu da incredulidade impedia de ver o Cristo ressuscitado. Nossa vida está escondida em Cristo como sob um véu. Um dia veremos face a face.
  1. A vida nova é viver unido a Cristo e fazer o bem. Sem fé na Ressurreição temos uma fé sem vigor.                   

                    Jesus não é coelho 

            Que dor ver a Páscoa ter se transformado em um ovo de chocolate. Isso é pau mandado. Mas nós vemos dentro das muitas imagens da Páscoa, o ovo que se rompe e gera uma vida nova. O coelhinho não bota ovo. É símbolo da vida nova que surge depois do inverno nos países de neve. Ele é o primeiro que sai da toca depois do inverno.

                    A Ressurreição vai além dos símbolos vazios, pois ela é o símbolo maior de toda a História da humanidade. É o símbolo e a realização de todas as esperanças de uma vida que seja total e a imagem do homem renovado, e a abertura garantida de um futuro eterno.

                    Nossa meta é buscar a vida do alto onde está Cristo junto ao Pai. Lá é nosso lugar. Isso leva a renovação ao mundo inteiro, pois tudo caminha para Cristo (Cl 1,19-20).

                    O dia da Páscoa proclama a ressurreição de Jesus diante de um túmulo vazio. A mulher, Madalena, vai ao túmulo e o encontra aberto. Avisa aos discípulos que correm e comprovam. Pela fé, vão aos poucos entendendo. Quando receberem o Espírito Santo terão força total para anunciar esse acontecimento que mudou suas vidas.

 

nº 1639 Artigo – “Eu vos dei o exemplo”

  1. Dar um exemplo

            A celebração do Mistério Pascal de Cristo torna-se presente nas celebrações litúrgicas. Participamos do mistério na mística ação de Cristo que envolve tempo e eternidade. A celebração do rito não fecha o acontecimento. Ele passa à vida como um ensinamento e um exemplo. Assim nos mostra o que fazer e como fazer. Esse pensamento está já na oração do Domingo de Ramos: “Deus eterno e todo poderoso, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e morresse na Cruz. Concedei-nos aprender o ensinamento da Paixão e ressuscitar com Ele em sua glória”. O Mistério Pascal é também um ensinamento. Esse ensinamento está na humildade do Filho de Deus que se encarna e morre na cruz. Por que Jesus sofreu tanto? Para dar um exemplo de humildade. Toda a vida de Cristo acontece numa permanente demonstração da humildade da Trindade que é o mútuo acolhimento das Pessoas Divinas. A Encarnação é um momento de abaixamento de Deus sobre nós. Não se trata de aniquilar-se, mas inclinar-se para nos tomar nos braços, como uma mãe faz com o filhinho. Só ama quem é humilde. Sua vida foi de humildade, simplicidade, desapego, liberdade e amor. Por isso foi acolhido. A altivez não faz parte da vida de Jesus. Era o que Ele não aceitava e recriminava pesado. Essa humildade é um ensinamento a ser seguido por todos da Igreja. Jesus, na Ceia, lava os pés dos apóstolos e manda que façam o mesmo: “Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que Eu fiz” (Jo 13,15).

  1. Continuar o exemplo

            Quando dizemos que deu o exemplo, pensamos que olhamos o que fez e fazemos igual. Ele é modelo da ação. Seguir o exemplo tem também uma característica de personalizar sua ação. Cristo continua em nós sua humildade. Jesus continua unido a seus discípulos em seu coração e em suas atitudes. Nossa humildade é uma extensão da sua. Por isso os discípulos se identificam com o Mestre. Se continuarmos seus sofrimentos em seu corpo que é a Igreja (Cl 1,24), continuamos também suas virtudes, suas opções e sua mentalidade: “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 2,5). O sentimento de humildade é explicado por Paulo pelo esvaziamento. Não aniquilação. Torna o homem mais homem, pois o faz senhor de si mesmo na entrega, como o fez o Filho Unigênito do Pai. O caminho da Encarnação está presente em toda a vida de Cristo até sua morte e sepultura. Total esvaziamento, mesmo da vida humana. Notamos também que na Eucaristia, perde a característica humana e se faz matéria que retorna ao seu máximo que é a carne de Cristo Glorificado.

  1. Por isso Deus o exaltou.

            Podemos entender a Ressurreição como a resposta do Pai à humildade do Filho. O desapego vence todas as barreiras da morte do pecado que nos domina. Ele venceu a morte com sua entrega total ao Pai. Não temeu a morte. No caminho da espiritualidade cristã, o motor fundamental é a humildade. Por isso perdemos o caminho da verdade quando no voltamos só para nós mesmos. Possuir-se é sair de si. Acolher é possuir os outros. sContinuamos o exemplo de Cristo vivendo esse seu ensinamento. Assim Cristo continua seu caminho de redenção no mundo. Unidos a Ele podemos evangelizar pela palavra e pelo testemunho. Assim vivemos e celebramos o Mistério Pascal que é nossa vida e ressurreição. Maria se coloca na mesma linha ao reconhecer-se nessa humildade. Papa Francisco insiste na virtude da humildade e é avesso à altivez.

nº 1638 – Homilia do Domingo de Ramos (09.04.17)

“Bendito o que vem em nome do Senhor”

 Exulta, filha de Sião.

            A liturgia deste domingo tem dois momentos: A alegria da procissão de Ramos e uma séria missa de Quaresma. Abrem-se para nós as comemorações dos dias em que o Senhor se entregou à morte e chegou à glorificação. Jerusalém estava cheia de gente que viera para a festa da Páscoa, festa da libertação da escravidão do Egito e festa de toda a salvação que Deus oferecera ao povo. Jesus vem à festa e faz o ingresso triunfal, como o rei prometido, como diz o Profeta Zacarias: “Exulta! Solta gritos de alegria Jerusalém, eis que o teu rei vem a ti; Ele é justo e vitorioso, humilde montado sobre um jumentinho, filho da jumenta” (Za 9,9). Ele é o grande rei, descendente de Davi, o Messias. Ele não vem como um glorioso príncipe cavalgando cavalo de guerra, mas o humilde jumento, como o fizera Davi. E o povo entendeu. O povo O acolheu. Os chefes O recusaram e mataram. Quiseram silenciar o povo: “manda que eles se calem! Jesus respondeu: “Se eles se calarem as pedras gritarão!” (Lc 19,40). Jesus não foge de sua missão de humildade e simplicidade. Esta é a grande missão que dá à Igreja. A Igreja quer continuar a acolher seu Rei glorioso e imitar-lhe a humildade. Infelizmente a tentação do poder e da glória é muito em muitos da Igreja, sobretudo no campo do poder. Às vezes percebemos que os prediletos de Jesus ficam de lado na estrutura da Igreja e de sua pastoral. Por isso ficam abandonados à sanha de aproveitadores.

 O Servo Sofredor

Na segunda parte da missa, na primeira leitura, ouvimos a narrativa de Isaías sobre o servo sofredor que não perde sua confiança em Deus e está pronto a aprender através do sofrimento. Continuando a conhecer Jesus, S. Paulo em Filipenses mostra-nos o caminho de Jesus para salvar: faz-se humilde, servo, toma a forma humana e em tudo se faz como um de nós. Faz-se obediente, como se diz em Isaías. Obediente quer dizer aquele que tem os ouvidos abertos para saber o que Deus quer e seguir seus caminhos. Pelo seu sofrimento é ouvido por Deus e glorificado. Agora, em Jesus, está glorificada nossa humanidade assumida por Ele na condição de fragilidade para restaurá-la e glorificá-la com Ele. Nesta missa temos a leitura da Paixão de Jesus. Ler a Paixão significa aprender, recordar para viver melhor. Não podemos perder de vista a história e os acontecimentos de nossa Redenção. Proclamar o acontecimento é fazê-lo vivo entre nós e fazer-nos participantes dos frutos deste mistério. Temos que retratar em nós a vida de Jesus em seu momento de glória, humildade e sofrimento.

Memória que dá vida

Vivemos num mundo que pode ser chamado de ateu, descrente. Os cristãos não ficam atrás. Fazemos um cristianismo  nossa imagem, com a mentalidade do mundo, avessa ao evangelho. A renovação anual da celebração pascal quer trazer à nossa memória o que Deus fez por nós em Cristo. É fundamental que isso se concretize, pois lembrando os fatos, podemos retomar a estrada. Assim nos voltamos para Ele e renovamos nosso coração. Vamos à procissão de ramos e levamos os ramos para casa. Este gesto simpático significa tomar uma atitude de comprometimento com Cristo de ser de seu Reino e ser dDele. Toda celebração é memorial: realizamos os gestos, ouvimos o anúncio da Palavra que concretiza a realidade e nos dá condições de participar da mesma verdade anunciada. Por isso é bom procurar conhecer os textos e participar dos mistérios celebrados.

Leituras: Mateus 21,1-11; Isaias 50,4-7; Salmo 21; Filipenses 2,6-11; Mateus 27,11-45.

Ficha nº 1638 – Homilia do Domingo de Ramos (09.04.17)

  1. A liturgia de Ramos nos leva à glória o acolhimento de Jesus e a seu sofrimento. Participando, acolhemos em nós seu mistério e participamos de sua glória.
  1. Na liturgia eucarística vivemos o mistério do Cristo sofredor que se humilha para ser exaltado pelo Pai. A Igreja é convocada a viver sua humildade no poder.
  1. O cristianismo não pode ser feito a partir da mentalidade do mundo. É momento de renovar o coração. Celebrar é viver o mistério e atualizá-lo em nossa vida. 

            Escolinha de Jesus 

            Há muitos tipos de escola. Jesus abriu a sua: Ele é o primeiro aluno do Pai que abriu vagas para quem quisesse. Na primeira leitura lemos: “Ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo” (Is 50,4). São Paulo nos pede para ter os mesmos sentimentos de Cristo na sua humildade que vai ao extremo. O diploma dessa escola é a Ressurreição: “Por isso Deus o exaltou” (Fl 2,9).

A tarefa de Jesus é a humildade. Na oração rezamos: “Deus, para dar aos homens um exemplo de humildade… concedei-nos aprender o ensinamento da Paixão e ressuscitar com Ele na glória”.

É este o ensinamento do Domingo de Ramos: A Glória e a Paixão. É apresentado Jesus em sua glória ao entrar em Jerusalém. Isso sustentará os discípulos na Paixão. Jesus vem como Rei para ser proclamado no alto da Cruz. A espiritualidade é acompanhar Jesus nos seus passos.

 

nº 1637 Artigo – “Uma Semana muito Santa”

  1. A história do povo de Deus

            A história do povo de Deus não termina com Jesus, mas continua fazendo seu caminho até a consumação dos tempos “quando Cristo entregar o Reino a Deus Pai” (1Cor 15,24). Nós fazemos parte dela. Damos nossa contribuição e recebemos seus ensinamentos. Celebrando os acontecimentos e pela memória sacramental, participamos da graça da salvação. Refazemos o caminho e o caminho nos refaz. As celebrações da Igreja começam com o domingo que é o dia da reunião da comunidade com o Senhor. Assim nos relatam os Atos dos Apóstolos narrando que as aparições do Ressuscitado que se davam no oitavo dia, o domingo. Depois, já no século II temos notícias da preparação da Páscoa com dias de jejum. Surgem a seguir os 40 dias de Jejum que chamamos Quaresma. Já pelo ano 380 temos o testemunho de uma monja espanhola, Etheria, que visitou todos os lugares bíblicos e narrou como eram as celebrações. A liturgia de Jerusalém inspira a liturgia da Igreja, sobretudo na Semana Santa. Jerusalém tem uma característica só sua de ser uma liturgia geográfica, isto é, celebra os acontecimentos nos lugares onde ocorreram. Estas se concluíam sempre na basílica da Ressurreição, chamada também Santo Sepulcro pelos cruzados. Esses ritos estão presentes em nossas celebrações desta Santa Semana. Basta ver a procissão do domingo de Ramos. Toda a celebração da Páscoa está preparada para a celebração dos batismos que eram realizados somente na Vigília Pascal. O Batismo é a passagem da morte para a vida, em Jesus que passou da morte para a Vida. Por isso a celebração da Vigília Pascal tem diversos ritos que explicitam a graça do Batismo.

  1. Ensinamento da Paixão

            Não podemos falar mais de Semana Santa, mas sim, de Tríduo Pascal que são a Sexta-Feira Santa, começando com a Ceia do Senhor, o Sábado Santo, e o domingo da Páscoa que se encerra na tarde do domingo. São três momentos da mesma Páscoa. Notemos que o dia litúrgico inicia-se na véspera. A Vigília é o centro de toda vida da Igreja. Ali é que se dá o momento da celebração da Ressurreição. Começamos com a Ceia na qual Jesus institui a Eucaristia que torna presente sua Morte e Ressurreição. O Mistério Pascal de Cristo envolve toda a vida de Cristo, centrando-se em sua Paixão e Ressurreição. Lembrando sua Paixão na Sexta-Feira Santa podemos compreender como Deus quis nos remir. Precisava tanto sofrimento? Não. Aconteceu assim, porque o mal dominou o coração dos homens. E Jesus suportou porque quis amar até o extremo do amor. Sem nos unirmos aos sofrimentos de Cristo, através de nossos sofrimentos e também nossa participação litúrgica e espiritual, não podemos entender o que significa

  1. Glória da Ressurreição

A Ressurreição é o ponto máximo da vida da Igreja. Ali está a garantia total dos ensinamentos de Jesus e a certeza que também seremos ressuscitados. “Se Cristo não ressuscitou, vazia é nossa pregação, vazia também é vossa fé” (1Cor 15,14). Por isso celebramos com intensidade esse momento. A celebração não é só a lembrança de um fato, mas sua realização para nós. Não fatos em que lembramos, mas verdades das quais participamos recebendo toda a graça correspondente a esse mistério celebrado. A fé católica ensina que participamos e não assistimos a um teatro. As leituras proclamadas anunciam o acontecimento. Os ritos sacramentais realizam os acontecimentos para nós. Por isso dizemos: participamos. Quando dizemos memória, dizemos no sentido hebraico, como vemos na Ceia Pascal. Paulo ensina que fazemos memória (1Cor 11,24).

nº 1636 – Homilia do 5º Domingo da Quaresma (02.04.17)

“Não morrerá para sempre”

 Jesus é Vida

                O salmo “de profundos abismos clamo a Vós, Senhor, escutai minha voz” (Sl 129), revela a consciência da presença do sofrimento, do mal e da morte. Nossa vida, às vezes, nos leva às portas da morte. O salmo reafirma a esperança: “No Senhor ponho minha esperança, espero em sua palavra”. O cristão não tem a morte como opção nem os instrumentos de morte. Optou pela Vida. Jesus é Vida. A narrativa da ressurreição de Lázaro proclama o núcleo da vida e missão de Jesus: Ser Vida e dá-la a todos. Ele dissera: “Eu vim para que tenham Vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Jesus esperou que Lázaro morresse. Ele poderia não tê-lo deixado morrer, mas quis mostrar que é Senhor da Vida. Essa vida é dada a quem tem fé. Marta crê na ressurreição após a morte. Mas Jesus dá a vida agora: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. Todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês nisso?”(Jo 11,25-26). Marta responde: “Creio firmemente que Tu és o Messias, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (27). Esse milagre de Jesus é o prenúncio de sua Ressurreição. É fundamental para a fé cristã crer que Jesus ressuscitou dos mortos. Jesus é a Água Viva, é a Luz, é a Vida. Tudo isso nos dá o Batismo. A ressurreição de Lázaro é a maior garantia que Jesus é o Senhor da vida e pode dar a vida. Não se trata somente da vida humana, mas também da vida divina em nós. É a explicação do que acontece conosco no Batismo. Por isso sabemos que somos novas criaturas, pois nascemos de novo para a Vida Eterna. A vida eterna não é uma distante ventura, mas se inicia com o Batismo e a alimentamos com os sacramentos que recebemos, de modo particular, a Eucaristia.

O Espírito dará a Vida

            Rezamos: “Compadecendo-se da humanidade que jaz na morte do pecado, por seus sagrados mistérios Ele nos eleva ao Reino da Vida Nova”. É o resultado da Ressurreição de Jesus: dá vida aos que estão mortos pelo pecado e é garantia de Vida Eterna aos que creram e foram batizados. O Espírito Santo garante esta vida: “Se Cristo está em vós, embora vosso corpo esteja ferido de morte por causa do pecado, vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça” (Rm 8,10). O Espírito vivificará nossos corpos. A Vida Eterna é a presença de Deus em nós. A vida cristã é um dom que recebemos ao qual correspondemos com nossas atitudes. Por isso dizemos Espírito Santo Santificador. A santificação é ação de Deus e promoção do amor que transforma o dom em ação. Paulo diz que “a fé opera pelo amor” (Gl 5,6). Temos que evitar a concepção que o Espírito Santo é somente um mero distribuir de dons a nosso serviço.

Caminhar com o mesmo amor

               A oração da missa apresenta o modo de seguir Cristo. Como Ele nos convidou a tomar a cruz e segui-lo, convida-nos também a ter sua mentalidade: viver no amor dar a vida por amor. O seguimento de Cristo é sustentado pela prática dos sacramentos, como rezamos: “Compadecendo-se da humanidade, que jaz na morte o pecado, por seus sagrados mistérios (sacramentos), Ele nos eleva ao Reino da Vida Nova” (Prefácio). A fé em Jesus ressuscita de toda a morte do pecado, dá-nos a Vida de Jesus que é a Vida Eterna. Todo o processo de vida que o mundo tanto procura nasce desta Vida Nova. Normalmente fazemos uma separação da vida espiritual e a vida humana. Essa dicotomia é prejudicial e destrói a integridade da pessoa.

Leituras: Ezequiel 37,12-14; Salmo 129/; Romanos 8,8-11;João 11,1-45

Ficha nº 1636 – Homilia do 5º Domingo da Quaresma (02.04.17)

  1. O milagre da ressurreição de Lázaro é o prenúncio da Ressurreição de Jesus e a garantia da nossa ressurreição.
  1. A vida cristã é um dom que recebemos e ao qual correspondemos com nossas atitudes.
  1. Seguir Cristo é também seguir sua mentalidade que nasce da vida nova. 

            A vida por um fio 

            Jesus vai ao túmulo de Lázaro que já estava enterrado. Ela crê, mas não chega a crer tanto, pois, quando Jesus pede para abrir o túmulo. Ela diz: “Já cheira mal, pois há quatro dias está morto” (Jo 11,39). Jesus gritou forte: “Lázaro, vem para fora”. Ele saiu de mãos e pés atados. Depois Jesus mandou que o desatassem para que pudesse andar. Vem-me à mente que pela força da palavra de Jesus ele recupera a vida, ressuscita e sai do túmulo. Mas para andar teve que ser desamarrado. Para viver na fé é necessário caminhar. Há a ressurreição do corpo e da fé.

            Marta professa sua fé não que Jesus pode ressuscitar os mortos, mas que Jesus é o Messias, Filho de Deus (Jo 11,27).  Viver segundo o Espírito é estar cheio de vida. Se o Espírito do Pai que ressuscitou Jesus dentro os mortos está em nós, aquele que ressuscitou Jesus dos mortos vivificará nossos corpos mortais por meio do Espírito que mora em nós.

            Tendo diante de nós esse quadro da ressurreição de Lázaro, fazemos a preparação da Páscoa através da temática batismal. Jesus é a água viva, a luz e a vida. É isso que recebemos no batismo.

 

nº 1635 Artigo – “O amor é uma brincadeira”  

  1. É tão fácil amar

O amor é um ar que faz viver mais que qualquer outro estímulo. O amor é um nada, mas domina tudo. É tão fácil amar e tão fácil não saber amar. Até as plantas e animais são sensíveis ao amor. Entramos num tema difícil de ser abordado porque não se conhece o amor. Paulo escreve aos Coríntios (1Cor 13,1-13) o hino ao amor. É o retrato de Jesus, o homem completo. Em sua exortação apostólica Amoris Laetitia – Alegria do Amor, Papa Francisco nos instrui para a educação sexual. É um tema difícil, por diferentes serem as concepções sobre a sexualidade. Não se dispensam as inúmeras ciências humanas na “educação sexual positiva e prudente” diz o Vaticano II na Gravissimum Educationis 1. Por outro lado, as ciências não poderiam abstrair-se de ver também o aspecto divino do amor.. Sem essa conjunção, torna-se insuficiente tanto a formação espiritual quanto a humana. Essa formação é gradual, respeitando as etapas da vida num processo de maturação (Al 280). Escreve o Papa: “É possível cultivar o impulso sexual em um percurso e conhecimento de si mesmo e no desenvolvimento de uma capacidade de autodomínio que podem ajudar a trazer à luz as capacidades da alegria e do encontro amoroso” (AL 280). O bombardeio que sofrem da pornografia desfigura a sexualidade prejudicando o desenvolvimento.

  1. Capacidade de amar

            “É necessária uma linguagem nova e mais adequada para introduzir as crianças e os adolescentes ao tema da sexualidade” (AL 281). Nessa educação o Papa salienta a importância do “pudor para que a pessoa não seja transformada em objeto”. Confunde-se sexualidade com gentilidade. Sexualidade é muito mais. Por isso vemos tantas doenças sexuais, pois se deforma a capacidade de amar. Resumindo um de seus ensinamentos em uma frase podemos dizer: Ensina-se a fazer sexo, mas não se ensina a amar. Desse modo se mutila muito mais a pessoa humana. Sexo sem amor é o máximo do egoísmo e do abuso. No número 285 diz sobre o necessário respeito e a valorização da diferença, o que abre à aceitação do outro, aceitação do próprio corpo, da masculinidade ou feminilidade para poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente. Veja que belo: “Assim é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente” (AL 285). “A educação deve ajudar a aceitar o próprio corpo de modo que a pessoa não pretenda cancelar a diferença sexual”.

  1. Transmitindo a fé

É preciso formar para o amor e não mitificar o amor sexual como sendo fonte de mal e de pecado. O amor sexual é fonte de vida e de santidade. A educação da fé vem junto com a educação em seu sentido global. Na formação da sexualidade, a fé é elemento fundamental para uma boa sexualidade, pois vê a pessoa no seu todo. Não diminui, mas amplia o ser humano para viver intensamente como homem e mulher, filhos de Deus para a geração e o prazer. O Papa, nos números 287 a 290, trata da educação religiosa que começa na família. A criança desde a gravidez vive unida à fé dos pais e tem o direito de receber a graça Divina. A família é a primeira evangelizadora (AL 289). “A família constitui-se protagonista da ação pastoral através do anúncio do evangelho e da herança de múltiplas formas de testemunho: a solidariedade para com os pobres, a abertura à diversidade das pessoas, a preservação da criação, a solidariedade para com os necessitados…” (AL 290). Viver o amor é tão fácil, como disse, uma brincadeira. A sexualidade vivida como santidade nos torna mais gente.

nº 1634 – Homilia do 4º Domingo da Quaresma (26.03.17)

“Cristo é a Luz” 

Eu sou a luz do mundo.

Tanto no Advento como na Quaresma temos um domingo chamado domingo da alegria. Nele vemos os primeiros clarões da festa alegre que se aproxima. Temos assim o quarto domingo chamado ‘Laetare’ (alegrai-vos!) que nos indica a proximidade da festa da Páscoa. Somos convidados a “correr ao encontro das festas que se aproximam cheios de fervor e exultando de fé” (oração). Desponta o sol no horizonte e as cores inundam o céu na alegria de um novo dia. Continuamos a temática batismal. No ritual do batismo de adultos estamos na terceira etapa. Jesus faz um milagre que é assumido como símbolo do batismo. É a Iluminação. Aquele que se prepara para o batismo é iluminado por Cristo que é a Luz. Notamos que o cego não pede para ser curado, pois não conhece Jesus. A fé é gratuita. A iluminação leva ao ato de fé. Jesus fez lama com saliva e barro e passou nos olhos dele mandando se lavar na fonte chamada Siloé, que quer dizer enviado. Ele é o Enviado de Deus que lava os olhos para que veja pela fé. Antes de curar o cego, Jesus se declara luz do mundo (Jo 9,8). A cura do cego simboliza que a cegueira que impede acreditar em Jesus pode ser curada acolhendo Jesus como enviado do Pai: “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). O fechamento vem da auto-suficiência. Jesus afirma: “Eu vim ao mundo para que os que não enxergam vejam e os que vêem se tornem cegos” (Jo 9,39). Afirmando que vê, sendo cego – não iluminado por Cristo, permanece no pecado que é a cegueira.

Agora sois luz no Senhor

Ao sermos batizados somos iluminados e nos tornamos “luz no Senhor” (Ef 5,8). Essa iluminação torna-se um modo de vida: “Vivei como filhos da Luz” (8). A luz tem seus frutos: bondade, justiça, verdade (Ef 5,9), e não associar-se às obras das trevas (11). No caminho batismal, recebemos a água viva (vimos domingo passado); Cristo é a vida nova (veremos domingo que vem). Vivei como filhos da luz ensina S. Paulo. A Quaresma, sendo memória de nosso batismo, conduz-nos à renovação de nossa vida de fé. Nossa luz deve resplandecer. O batismo não é um rito que celebramos, mas uma vida que iniciamos. É um novo nascimento. Lavados e purificados pela água, somos iluminados pela graça salvadora que nos faz ver as dimensões da vida nova na novidade de Cristo. Lemos aqui o salmo 22. Ele é o Pastor que nos conduz. Leva às águas, dá alimento e repouso. Ele guia por caminhos seguros, mesmo que se passe pelo vale tenebroso. Essa é a alegria que a fé: “Felicidade e todo bem hão de seguir-me, por toda a minha vida” (Sl 22).

Deus vê o coração.

Jesus é o Ungido de Deus. Davi foi ungido por Samuel para ser rei no lugar de Saul. É escolhido entre os filhos de Isaí. Não foi nem a estatura nem a bela aparência que impressionaram a Deus nessa escolha. “O homem vê as aparências, Deus vê o coração” (1Sm 16,7). Davi era jovem e de belos olhos. Ele se torna o ungido do Senhor. Assim também o Senhor vê nosso coração e nos unge para uma missão de ser luz, para que vivamos como filhos da Luz. São Leão Magno diz aos batizados: “Cristão, reconhece tua dignidade”. Na Eucaristia, pela Palavra e pelo Pão da Vida somos iluminados para ser luz de Cristo no mundo. O cego foi ungido por Jesus com a lama feita de pó e saliva. Ao ser lavado na piscina de Siloé, que significa Enviado, voltou enxergando. Cristo é a água que lava e purifica para que veja com clareza e professe a fé em Jesus: “Eu creio, Senhor” (Jo 9,38).

Leituras: 1Samuel  16,1b.6-7.10-13ª; Salmo 22/Ef 5,8-14/Jo 9,1-41

Ficha nº 1634 – Homilia do 4º Domingo da Quaresma (26.03.17)

  1. Domingo da alegria que anuncia a Páscoa. Curando o cego Jesus nos mostra que é luz. Quem acolhe Cristo é iluminado.
  1. Ser iluminado é viver com a luz de Cristo em todas as obras.
  1. Jesus unge o cego com barro feito de saliva e pó. Davi é ungido rei para o povo. A unção ilumina para que se veja e se professe a fé.

            Lavando com barro 

            Muitos gostam de banho de lama. É muito bom para a pele. Até os animais apreciam. Mas depois do barro, tem que se lavar bem. Jesus cura o cego com lama feita de saliva e terra. A saliva tem ricos significados. Era considerada como semente da palavra. Tem poderes curativos e de destruição. O beijo está ligado à saliva num sentido de vida que é comunicada.

Jesus, ao curar o cego com a lama da saliva dando-lhe a visão, indica que o dom da fé ilumina os olhos. Éreis trevas, agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, diz Paulo. Convida: “Não vos associeis às obras das trevas” (Ef 5,8-14).

            Lavado nas águas, o cego tem a luz. No batismo somos iluminados. A fé nos faz ver a Luz. Jesus diz que somos luz do mundo: “Brilhe vossa luz diante dos homens, para que, vendo vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,14.16).

Davi foi ungido com óleo como escolhido de Deus. É uma iluminação.

nº 1633 Artigo – “Formação para o Bem”

  1. O bem não faz mal

O bem, o verdadeiro e o belo estão unidos. O bem é a riqueza maior que podemos ter na vida, pois com ele temos todas as coisas boas e os bons caminhos para viver. O bem não é uma prisão, não é repressão, um estraga prazer e não produz tristeza.  O bem é a verdade que nos sustenta.  Verdade é aquilo que a coisa é. Para se chegar a assumir o bem na vida é preciso crer na verdade daquilo que a realidade é. Para isso damos passos e lentos. Por isso chamamos de educação, quer dizer, encaminhar, tirando da ignorância. É um processo. Quando se fala de moral, não significa prisões espirituais, repressão da pessoa, mas refere-se ao modo de viver integralmente. A verdade está no coração das pessoas pela consciência e é aprendida pela convivência e pela instrução. É a construção do ser humano. Papa Francisco em sua exortação apostólica Amoris Laetitia (Alegria do Amor), nos orienta nesse caminho. Ensina que não se trata de pedir esforço e renúncia, mas em passos lentos que levem a assumir. É conhecido como há uma recusa muito forte à orientação dos pais. E o Papa tem conhecimento disso. Assim diz: “Uma vez que as resistências dos jovens estão muito ligadas a experiências negativas, é preciso ao mesmo tempo ajudá-los a percorrer um itinerário de cura deste mundo interior ferido, para poderem ter acesso à compreensão e à reconciliação com as pessoas e com a sociedade” (AL 272). Esse rompimento entre filhos e pais está muito acentuado. É uma perda muito grande das experiências e riquezas pessoais. Sabemos que a sociedade impõe aos jovens esse modo e pensar e agir. Devemos mostrar que há outros caminhos.

  1. Livres para crescer

Por causa dessa situação conflituosa, quase uma lide familiar, temos que trabalhar a formação das comunidades onde crescem. Essa formação deverá ser sempre gradual, respeitando a idade e as possibilidades concretas, sem pretender aplicar metodologias rígidas e imutáveis (AL 273). Tudo deve ser feito na liberdade. Aqui o Papa faz uma reflexão filosófica entre liberdade e vontade. Dizemos: Tenho direito de escolher o que quero. Mas não tenho a liberdade de escolher, pois estou condicionado por uma por pressão interior. Usa o exemplo da droga. Eu quero, pois não sou capaz de tomar outra decisão. Não se trata mais de liberdade. Não é livre para escolher diferentemente. O mal não faz bem. Entra aqui o processo educativo e a ajuda que o liberte da compulsão. Para isso o Papa Francisco alerta para a presença na família no processo educativo. “A família é a primeira escola dos valores humanos…” desde a infância. A formação, no meio tantos apelativos digitais, dificulta a aceitação das crianças e adolescentes de saberem esperar. Querem tudo mediatamente. Prejudica o crescimento autônomo. Ficam dependentes. Não se trata de tê-los como adultos, mas eles têm capacidade de maturar na experiência familiar (Al 274).

  1. Família geradora de vida

A família não só dá a vida, mas gera vida em sua totalidade.  O Papa esmiúça a função da família na educação dos filhos. “Ela é o primeiro âmbito da socialização primária”… nela se aprende a se fazer gente, comunicar-se, estar com os outros, com o mundo, mesmo no meio das dificuldades e dores. O Papa convida a superar a crise da excessiva comunicação que leva ao ‘autismo tecnológico’. Reflete também sobre o risco da onipotência sobre os filhos. Convida a perceber a importância do processo de socialização. “As comunidades cristãs são chamadas a dar seu apoio à missão educativa das famílias” em particular através da catequese de iniciação. Participar é mais receber que doar.

nº 1632 – Homilia do 3º Domingo da Quaresma (19.03.17)

“Dá-me também desta água” 

Água da Vida

O tempo da Quaresma nos instrui como preparar melhor a Páscoa do Senhor. Este mistério de Morte e Ressurreição de Jesus chega a cada cristão através do Batismo e de sua vivência de cada dia. Por isso, neste ano, temos um temário batismal para os três domingos que se seguem. Os evangelhos apresentam Jesus como Água Viva, como lemos no evangelho que nos fala da samaritana; no quarto domingo temos o fato do cego de nascença que Jesus cura. Ele é Luz; no quinto domingo temos a ressurreição de Lázaro, pois Jesus é Vida. Com estes três temas podemos seguir o caminho de preparação para renovar o ato de fé e a graça do Batismo. A água sempre teve muita importância na vida das pessoas. É a substância mãe da qual é criado o mundo, é fonte de vida e de purificação. O Dilúvio veio purificar o universo. No Evangelho a água é símbolo da ação do Espírito Santo. A água, fecundada pelo Espírito, é fonte de vida e mata a sede de vida eterna. Jesus diz à samaritana: “Quem beber desta água nunca mais terá sede” (Jo 4,13). Esse poço, à borda do qual Jesus estava sentado, traz memórias da história do povo. O poço estava na terra em que Jacó dera a seu filho José (Gn 33,18-20). Jesus abre agora uma fonte de água viva onde tantas gerações vieram buscar água. Jesus é a Água Viva, fonte aberta a todos. É o símbolo do Batismo que nos dá Jesus, Água Viva que sacia toda sede.

Jesus é a Água Viva

Ouvindo hoje o evangelho de João que nos fala do encontro com a samaritana, recordamos Jesus que vai ao mundo diferente sem fé e oferece a água viva, que é Ele próprio, para saciar toda sede e purificar de todos os males. Ter fé é acolher a pessoa de Jesus. Assim é o batismo: pelo símbolo da água e a profissão de fé acolhemos o Salvador e temos a vida nova nascida pela água e pelo Espírito Santo, como diz o rito do Batismo. A primeira leitura mostra-nos Moisés batendo na pedra para fazer brotar uma fonte de água abundante. Deus não abandona seu povo no deserto. Esta água explica a gratuidade das maravilhas de Deus. Esta gratuidade, como nos diz Paulo na carta aos Romanos, está na prova de amor de Deus que nos dá o Filho que morreu por nós quando ainda éramos pecadores. “Quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós” (Rm 5,8).

O diálogo que salva

Desta Palavra de Deus podemos tirar algumas conseqüências para nossa vida. O contato de Jesus com a samaritana leva-a a desejar a água viva. Jesus provoca-nos o desejo de estar com Ele e conversar com Ele. Podemos conversar com Ele. Depois deste contato conhecemo-nos a nós mesmos. Jesus torna-se um espelho de nossa realidade. A mulher disse: “Ele disse tudo quanto fiz”. Depois que se conhece Jesus, não há modo de não anunciá-lo: “Vinde ver o homem que disse tudo quanto eu tenho feito. Não será Ele o Cristo?” No caminho da Páscoa passamos pelo deserto onde Moisés bate o rochedo para dar água. O coração aberto pelo golpe da lança jorra água viva para saciar a sede do povo (Jo 19,34). Essa fonte de água que jorra do coração de Cristo, lembra o Batismo e o sangue lembra a Eucaristia, sacramentos pascais. O Apocalipse fala do rio de água da vida que saía do trono de Deus e do Cordeiro que dão fertilidade e remédio para curar as nações  (Ap 22,1-2). Todos os sacramentos da Igreja nos fecundam, purificam e fortificam.

 Leituras: Êxodo 17,3-7;Salmo 94;Romanos 5, 1-2.5-8;João 4,5-42

Ficha nº 1632  – Homilia do 3º Domingo da Quaresma (19.03.17)

  1. O encontro de Jesus com a samaritana, na preparação da Páscoa, é uma catequese batismal sobre o símbolo da água que lembra Jesus Água Viva que purifica e fecunda.
  1. No símbolo da água e na profissão de fé acolhes o Salvador e temos a vida nova nascida da água pelo Espírito Santo.
  1. A cena é uma provocação ao diálogo da busca e da resposta. A samaritana, tendo acolhido, anuncia.

            Com calor, um banho vai bem.           

O tempo da Quaresma é sempre batismal. Por isso temos diversos textos que nos falam dos diversos símbolos e resultados do Batismo em nós: a água viva (samaritana). A luz (cego de nascença) e a vida (ressurreição de Lázaro).

A fé em Jesus é simbolizada pela água que dá vida. A samaritana veio ao poço buscar água e Jesus lhe dá a água viva. No deserto, Moisés tirou água da pedra para saciar a sede do povo. Deus sempre chega primeiro. Ele oferece a água viva à mulher. “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). A mulher acredita e se torna anunciadora. Jesus é a fonte de água viva. Temos acesso a esta água pela fé. Batismo não é só um rito, mas um encontro de fé que, pelo símbolo da água, nos lembra a vida que a água dá, a pureza que restitui e a fecundidade que toma conta de nossa vida.

            Assim temos o banho espiritual que nos lava do mal e faz brotar a vida.

nº 1631 Artigo -“Indicando caminhos”

  1. Formação dos bons hábitos

            Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia entra também na reflexão sobre a educação dos filhos sob o aspecto da correção. Não é liberal nem rigoroso. É humano e indica caminhos muito saudáveis: A formação ética válida implica mostrar à pessoa como é conveniente agir bem, isso para ela mesma. Muitas vezes, hoje, é ineficaz pedir algo que exija esforços e renúncias, sem mostrar claramente o bem que poderia alcançar com isso” (AL 266). Não se trata de imposição, mas de atitudes que atraiam para o bem. Por isso diz que é preciso “maturar os hábitos que levem a traduzir em comportamentos externos sadios e estáveis os valores interiorizados”. Explica que é um aprendizado a partir da repetição dos atos: “Mesmo tendo sentimentos sociáveis e uma boa disposição para com os outros, mas se não for habituada durante muito tempo, tal disposição não se traduzirá em expressões. A boa conduta se constrói com o fortalecimento da vontade e a repetição de determinadas ações” (AL 266). Lembramos o velho provérbio latino: a gota fura a pedra, não pela força, mas batendo muitas vezes. Assim o homem tem bons hábitos não pela força, mas pela repetição dos bons princípios. Vemos claramente, o que se torna mais difícil ainda a formação é a situação da família. Por isso voltamos ao que já vimos na leitura desse documento sobre o amor na família. A família está eivada dos problemas da sociedade. As ideologias influem sobre a sociedade e a mídia sabe usar o sistema de influir com idéias. Como sair desse massacre? Formação em todos os sentidos.

  1. Fazer liberdade

            Papa Francisco coloca como fundamental a formação para a liberdade e na liberdade: “A liberdade é algo de grandioso, mas podemos perdê-la. A educação moral é cultivar a liberdade através de propostas, motivações, aplicações prática, estímulos, prêmios, exemplos, modelos, símbolo, reflexos, exortações revisões do modo de agir e diálogos que ajudem a desenvolver aqueles princípios estáveis que movem a praticar espontaneamente o bem”. Voltamos sempre ao princípio do respeito à dignidade humana “que exige cada um proceda segundo a própria consciência e por livre adesão, ou seja, movido e induzido pessoalmente desde dentro” (GS 17). “A vida virtuosa constrói a liberdade” (AL 267). Na verdade, o que vemos é que, os que exigem respeito à liberdade, não respeitam a liberdade dos outros, sobretudo quando entra em meio a formação religiosa. Nessa questão, como já vimos, a família tem direito de acompanhar a educação de seus filhos na escola. A ofensa à liberdade e opções religiosas temos visto que os jovens são massacrados por pressões que destroem seu interior religioso, em lugar de promover a reflexão.

  1. Saber perceber-se

A educação almejada supõe o reconhecimento do erro não como condenação, mas como oportunidade de crescimento: “É indispensável sensibilizar as crianças e adolescentes para se darem conta de que as más ações têm consequências… devem aprender a reparar o mal causado e pedir perdão”.  O filho deve ser corrigido, não como um inimigo, com ira. “A condição fundamental é que a disciplina não se transforme numa mutilação do desejo, mas se torne um estímulo para ir sempre além”… “Deve ser construtiva de um caminho que a criança deve empreender e não um muro que aniquile” (AL 270). Se pudéssemos entender que minha liberdade vai até onde começa a liberdade do outro, seria melhor os relacionamentos e mais frutuosa a correção.

nº 1630 – Homilia do 2º Domingo da Quaresma (12.03.17)

Visão da Glória” 

Purificado o olhar da fé

               No primeiro domingo da Quaresma contemplamos as tentações de Jesus. A apresentação das tentações permite sentir a fragilidade de Jesus e a insegurança sobre a vida cristã. Os discípulos, vendo o sofrimento e a morte de Jesus, necessitavam de contemplar também sua glória para superar todo sofrimento. Agora vivemos a serenidade de sua transfiguração. Estava tão bom que Pedro disse: “É bom estarmos aqui”. Nossa fé não é só passar por tentação. “É alegria e paz no Espírito Santo” (Rm 14,17). Esse evangelho mostra o futuro glorioso da Ressurreição, depois de passada a Paixão dolorosa. Jesus se mostra transfigurado e glorificado. Assim serão seus discípulos. Um ensinamento do evangelho é a centralidade de Jesus no Novo Testamento: “Aparecem Moisés e Elias falando com Ele” (Mt 17,3). Jesus de agora em diante é a Lei e a Profecia. Não há outro a ser ouvido. Certamente os primeiros cristãos ainda estavam ligados demais à lei antiga. Isso se nota no desejo de Pedro de construir três tendas, quer dizer, viver ainda o Antigo Testamento. A Transfiguração é uma alerta aos cristãos que querem fazer um cristianismo com o espírito do Antigo Testamento sem a novidade de Jesus. O Pai ensina que agora, quem fala é Jesus, o Filho Amado. Por isso, “escutai-O!”. A vida cristã é um processo de transformação. Purificado o olhar de nossa fé (oração), nós vamos à verdade de Jesus. Não podemos fazer um cristianismo sem Jesus, baseado só em fórmulas, idéias e teorias. Cristianismo é aceitação de uma pessoa muito concreta: Jesus. É Ele que deve orientar nossa vida. Toda espiritualidade deve partir do conhecimento de Cristo e da transformação de nossa vida na sua.

 Vocação Santa

                A vida cristã tem como vocação nossa transformação em Cristo. A partir do momento em que aceitamos Jesus, iniciamos essa transfiguração. O que aconteceu com Jesus é figura da Ressurreição. Sua Ressurreição em nossa vida realiza esta transfiguração. Já participamos na terra das coisas do céu (pós-comunhão). Não vivemos de novidades, mas batalhamos como Jesus o fez. Ele sempre fez o que o Pai mandou fazer (Jo 5,36). Sofremos pelo Evangelho, como Paulo convida a Timóteo: “Sofre comigo pelo evangelho, fortificado pela graça de Deus” (2Tm 1,8b). O sofrimento não é a dor, mas o empenho de crescer e se transformar em Cristo. O processo de transformação é interior e silencioso. Deus age em nós no silêncio de seu Espírito. Ele nos conforma a Cristo de modo a sermos uma apresentação viva de sua pessoa e missão. Todo agir será modelado a partir dessa experiência pessoal. Não se doa totalmente quem não foi totalmente transformado.

Ouvir o Filho

               Rezamos: “Alimentai nosso espírito com vossa palavra… para que nos alegremos com a visão de vossa glória” (Oração). A solução que o evangelista Mateus sugere para superar a tentação de voltar atrás é ouvir a Palavra do Filho. Ouvindo a Palavra participamos do amor que o Pai tem pelo Filho, o Dileto. A transformação é realizada pelo esforço, mas também pela graça. Esta é o fruto dos sacramentos que celebramos, de modo particular a Eucaristia. “Estas oferendas nos transfiguram interiormente para celebrarmos a Páscoa” (oferendas). Celebrar a Páscoa em cada Eucaristia é ser transformado para continuar a missão de anunciar. Superada a primeira “crise” da Quaresma que foram as tentações, somos estimulados e celebrar com intensidade a Ressurreição, preparando-a através da celebração dos sacramentos pascais, Batismo, Crisma e Eucaristia.

Leituras: Gênesis 12,1-4ª; Salmo 32; 2 Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9

Ficha nº 1630 – Homilia do 2º Domingo da Quaresma (12.03.17)

  1. A transfiguração de Jesus lembra que, se temos pecado, temos uma esperança na mudança radical como foi em Jesus. Ele foi morto, mas a Ressurreição trouxe a vida. Basta ouvir o Filho. 
  1. O processo de transformação é lento, interior e silencioso. 
  1. Ouvir a Palavra é um processo que inicia a renovação para chegar à transfiguração. 

            Conta de luz! 

            Todos os anos iniciamos a Quaresma, caminhada para a Páscoa, com os evangelhos da tentação e da transfiguração.  O pecado, que é treva, é vencido por Cristo que é luz. Ele fez brilhar a vida e a imortalidade.

            Jesus aparece em sua condição de ressuscitado: brilhante. Está em Deus. Foi muito bom. Os discípulos assim não pararam nas trevas de sua Morte, mas na luz de sua Ressurreição. Estavam na presença de Deus, com Moisés e Elias.

            Para que se realize em nós essa transformação de trevas em luz, é preciso ouvir a palavra do Filho: “Escutai-o”. Mesmo que tenhamos o sofrimento pelo evangelho (2Tm 1,8b).

nº 1629 Artigo – “Falando de filhos”

 E os filhos, onde estão?

            Estamos no tempo da Quaresma. É tempo de uma reflexão aprofundada sobre a vida cristã em sua correspondência ao momento forte da vida de Jesus em sua morte e ressurreição. Continuamos a temática do matrimônio, refletindo agora sobre os filhos. O Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia – Alegria do amor – dedica-se a clarear a relação matrimônio e seu maior fruto, o amor que gera filhos. Ele mesmo afirma: “Uma vez que esta função educativa das famílias é tão importante e se tornou muito complexa, quero deter-me de modo especial neste ponto” (AL 259). A família é a educadora: “A família não pode renunciar ao seu lugar de apoio, acompanhamento, guia, embora tenha que reinventar os seus métodos e encontrar novos recursos. Por isso não deve deixar de se interrogar sobre quem se ocupa de oferecer a seus filhos a diversão, que conteúdo entra em suas casas através da televisão etc…, a quem os entrega para que os guie nos seus tempos livres” (AL 260). É difícil o equilíbrio entre o controle e a vigilância e a orientação. Tudo é necessário. O importante é o processo. Mais que controlar os movimentos é preciso controlar os espaços. “É importante gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento de sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia. Só assim terá elementos para defender-se e agir com  inteligência” (AL 261). Acentua: “não é importante saber onde o filho está ou com quem está naquele momento, mas onde se encontra em sentido existencial, onde está posicionado do ponto de vista das suas convicções de seus objetivos e dos seus desejos, e o seu projeto de vida… onde está sua alma” (AL 261).

  1. Liberdade de viver bem.

            Falando de maturidade, o Papa diz que não é só uma questão genética. O crescimento se dá em toda uma cadeia de elementos que se sintetizam no íntimo da pessoa, isto é, no centro da sua liberdade. Aí crescem a prudência, o reto juízo e a sensatez. “A educação envolve a tarefa de promover liberdades responsáveis que, nas encruzilhadas, saibam optar com sensatez e inteligência” (AL 262). Os demais instrumentos oferecidos pela sociedade são necessários, “mas a formação moral dos filhos nunca a podem delegar totalmente”. Não podemos confundir moral com moralismo que é uma falta de compreensão do que seja moral. “O desenvolvimento afetivo e ético de uma pessoa requer uma experiência fundamental: crer que seus pais são dignos de confiança” (AL 263). Sem isso se criam feridas profundas no seu amadurecimento.

  1. Escola doméstica

            “A tarefa de casa”, junto a tantas outras obrigações do dia a dia consiste na educação da vontade, o desenvolvimento dos bons hábitos e tendências afetivas para o bem. Essa é a lenta maturação que supõe a imperfeição até chegar à plenitude maior. Essa educação consiste também em saber renunciar a uma satisfação imediata para se adequar a uma norma e garantir uma boa convivência. A formação moral deveria realizar-se com métodos ativos e com um diálogo educativo que integre a sensibilidade e a linguagem própria dos filhos. Podemos ver por experiência que os defeitos de uma família se tornam como uma segunda natureza. O acolhimento que os pais têm pelos outros penetra também os filhos. O amor e a dedicação aos outros se fazem na prática com as crianças. É por isso que faz muita falta a “Escola de Pais” para preparar e acompanhar a formação dos filhos. Os valores se aprendem em casa, com o leite da mãe e o carinho do pai.

nº 1628 – Homilia do 1º domingo da Quaresma (05.03.17)

“O pecado entrou no mundo” 

A fruta atraente!

Iniciamos a caminhada rumo à Páscoa. Na Quaresma desse ano, a partir do terceiro domingo, a temática é batismal. A Páscoa é o centro de toda vida da Igreja, pois nela celebramos a Morte e Ressurreição de Jesus, centro de nossa vida. Sempre, no primeiro domingo, meditamos sobre as tentações de Jesus e a tentação do homem. No segundo domingo, todos os anos, contemplaremos a transfiguração de Jesus. Nos três domingos seguintes temos os temas batismais. O caminho espiritual da Quaresma está explícitado na oração: “Possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa”. Lemos: Jesus está no deserto. Faminto e só, Jesus é presa fácil da tentação. O homem e a mulher, felizes no Paraíso, distraídos pela a riqueza que lhes é oferecida, buscam ter mais. São presas fáceis da tentação. Contudo, a realidade humana e cristã não termina na queda do pecado, mas na vitória de Cristo. Jesus é a redenção abundante. Por mais que o pecado tenha suas garras penetradas em nosso coração, a graça de Cristo é muito mais forte, pois venceu o mal. E nós somos vencedores Nele. A vida cristã não se modela pelo pecado, mas pela graça. Não vivemos para o pecado, mas para a graça. A vitória de Cristo é total. Basta fazermos nossa parte. A narrativa do pecado de Adão e Eva mostra o estado da graça como estar com Deus num paraíso e como o estado de pecado que nos despe da graça. Tentamos nos encobrir com frágeis folhas. O pecado não gera vida. “A fruta era atraente e desejável para os olhos para se alcançar o conhecimento” (Gn 2,6). Estamos no exterior.

A tentação de todo homem

Por que são três tentações e não duas, quatro ou dez? Nestas três propostas de Satanás estão condensadas todas as tendências do coração humano. E Jesus não estava isento delas. São elas: pão, poder e prazer. São João coloca em outros termos: concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho das riquezas. É o que domina o mundo: cobiça, orgulho e sensualidade. Isso está sempre presente em cada um de nós. O mistério do pecado está explícito nas atitudes humanas. Estas três tentações se manifestam em nossas atitudes. São sempre atitudes vazias, como disse Eva: “a fruta é agradável aos olhos e apta para adquirir conhecimento.  Busca-se o vazio. A meta da prática quaresmal é superar a força desse mistério de pecado que nos circunda através do conhecimento de Jesus Cristo e levando uma vida santa. Esta é a nossa correspondência a todo amor manifestado na Paixão e Morte de Cristo. Quanto mais vida de comunidade tivermos, mais solidários formos, mais poderemos vencer todas estas tentações.

Em Cristo nós vencemos

Quais são as armas para vencer a tentação? O tempo quaresmal propõe a esmola, a oração e o jejum. Jesus diz que para vencer a ganância do pão e do possuir, deve-se ter fome da Palavra de Deus. Para vencer o orgulho é preciso a humildade de servir a Deus nos irmãos. Para vencer a fome de prazer é necessário prestar a Deus o culto amoroso da adoração. “Então o diabo deixou Jesus e os anjos se aproximaram e O serviram”. “Ele, tendo sofrido a tentação, é capaz de socorrer os que são tentados” (Hb 2,18). O exemplo dos santos é justamente este: dominar a tentação. Jesus põe-se ao lado dos tentados, para que sejam vencedores. O pecado é um mal, mas a graça é maior e mais proveitosa. A vitória de Jesus garante que podemos vencer sempre. Não há pecado que não poderemos vencer.

Leituras: Genesis 2,7-9; 3,1-7; Salmo 50; Romanos 5,12-19; Mateus 4,1-11

Ficha nº 1628 – Homilia do 1º domingo da Quaresma (05.03.17)

  1. Preparamo-nos para Páscoa, centro da vida cristã, meditando a situação de pecado e a vitória de Cristo pela graça. O pecado dos primeiros pais invade o mundo. Em Cristo temos o perdão total.
  1. Conhecemos as três tentações de Jesus que são o resumo de todas as tentações. Venceremos através do conhecimento de Jesus levando uma vida santa.
  1. Vencemos as três tentações fundamentais através da Palavra, do serviço e da adoração, acolhimento de Deus e dos irmãos.

Xô, satanás. 

            A Quaresma é um tempo de graça. Existe o pecado que vem desde o primeiro homem. Jesus      nos dá a graça do perdão através de sua morte e ressurreição. O homem, pela desobediência pecou. Jesus, pela sua obediência nos salvou.

            Adão pecou no jardim do Paraíso, símbolo da graça. Jesus demonstrou sua obediência vencendo o tentador no deserto. Ali foi tentado três vezes. As três tentações sintetizam tudo o que há de errado no ser humano: ganância pelos bens materiais, orgulho do poder e do prazer sem Deus.

            Para vencer Jesus usou a Palavra de Deus, a humildade e a adoração amorosa do Pai. Passamos pela mesma tentação. Então temos que usar os mesmos meios que Jesus usou. Um elemento forte para vencer é a vida da comunidade: “Então o diabos o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus”. Sendo fraternos podemos vencer. Esses anjos, todos nós podemos ser.

nº 1627 Artigo – “A alegre fragilidade do ser humano”!

1852.Fragilmente forte

Apenas terminados os festejos do Carnaval, a comunidade reúne-se novamente em respeitoso e sagrado silêncio para receber as cinzas. São duas celebrações diferentes que manifestam a beleza do ser humano. Quando se pergunta quem somos nós, podemos responder que somos a alegria na fragilidade esperançosa. Parece estranho que a alegria se misture tão bem com a fragilidade. A alegria não é frágil, nem a fragilidade é triste e desesperadora. O ser humano (o homem e a mulher) em sua constituição, tem a fragilidade como projeto. Ele é um contínuo construir-se, ajustar-se, modelar-se. Não é ser acabado e  imutável. A celebração das cinzas, marcando o início do tempo santo da Quaresma indica nossa origem e fim: “Lembra-te homem que és pó e em pó te tornarás”. É um alerta duro que nos coloca diante de nossa realidade frágil e efêmera. Lembra-nos que um dia éramos pó, de acordo com a simpática narração da criação do homem. Esta lembrança comunica-nos o respeito e a necessidade de reconhecer a Deus. Contudo, justamente por ser cinza é que podemos nos alegrar. É nossa condição: frágil. Somos um ser aberto e não um bloco de pedra imutável. Neste barro mole e frágil está nossa maior riqueza. Não somos definitivos. Crescemos, nos moldamos, nos adaptamos e nos construímos incessantemente. Parece um baile de Carnaval onde o corpo se move e se alegra. A massa do corpo vibrante vive e faz felicidade a partir daquilo que é frágil, o pó.  A colocação das cinzas em nossas cabeças não tem sentido de bênção, mas de estímulo.

  1. Construção na fragilidade

Mesmo na dor desta fragilidade, o ser humano é capaz de edificar na alegria e na paz. Diante disso, podemos concluir que a vida humana é projeto que se realiza e se reconstrói. Não há nada que seja totalmente definitivo, como não há nada que seja totalmente triste. Triste é quando esta fragilidade e leveza são destruídas por aqueles que querem ser donos do ser humano e dominá-lo. Uma flor é bela se respeitado seu tempo de se abrir, quando não é violentada sua liberdade de ter sol e vento, quando não é cortada e jogada fora, como quando não se lhe reconhece o direito a mover-se, crescer, construir-se e participar.  No altar da vida, todas as alegrias e toda compunção das cinzas são duas faces do mesmo ofertório. O que faz nossa grandeza diante de Deus é estar nas mãos Dele, deixar-se moldar, ou melhor, construir-se diante dele, olhando o projeto que tem para todo ser humano: ser feliz, mesmo sendo frágil. E nesta fragilidade, construir-se como um desfile alegre por pertencer a Deus e nele viver e mover-se.

  1. Convertei-vos e crede no Evangelho

            A fórmula “convertei-vos” é a mais usada atualmente. Ela dá mais o sentido da Quaresma como tempo de conversão. Essa conversão se reverte em ações de caridade para com os fragilizados. São dois efeitos: muda o nosso coração e a situação social das pessoas. Não existe caridade voando por aí. Ela caminha nas estradas do mundo buscando distribuir o amor que Deus nos dá. A proposta quaresmal é oração, jejum e esmola que convergem para o mesmo fim. Assim, a Páscoa celebrada se prepara pela Páscoa atualizada na salvação integral da pessoa. Purificados dos pecados podemos ver os irmãos com os olhos de Jesus que a todos socorria. Sem isso a celebração fica vazia. A oração nos põe em contato com Deus e o jejum nos esvazia para que o amor seja fecundo. A liturgia da Palavra desse tempo santo é rica e nos forma para celebrar profundamente o mistério.

nº 1626 – Homilia do 8º Domingo Comum (26.02.17)

“Olhai as aves do céu” 

Buscai o Reino de Deus

Jesus instrui os discípulos sobre o modo autêntico de viver e diz que os valores da vida não estão acima do valor do Reino de Deus. O Reino não impede os verdadeiros valores, mas lhes dá sentido. Jesus não quer seus discípulos divididos entre dois senhores. “Ninguém pode servir a dois senhores; pois, ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro (Mt 6,24). Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Os dois senhores, de que Jesus fala, são o Reino e os bens materiais, por exemplo, comida, bebida e roupa etc. … Podemos procurar esses bens. Devemos, contudo, buscar em primeiro lugar a justiça do Reino. A justiça do Reino é a bondade, a misericórdia e o amor. Ela não nos tira a responsabilidade, mas ensina o caminho de consegui-las no amor. Jesus ensina a colocar a confiança absoluta no Pai e na implantação do Reino. É magnífica a imagem das flores e dos pássaros que superam em beleza o ser humano. O Pai, que alimenta os passarinhos e veste as flores, cuidará com mais atenção ainda de seus filhos. Deus cuida deles com carinho. O que Deus quer é nossa tranqüilidade e não a agitação dizendo “o que vamos comer, beber e vestir?”… “Vosso Pai, que está nos Céus, sabe que precisais de tudo isso” (Mt 6,31-32). O profeta usa a expressão do amor materno para mostrar como Deus cuida de nós muito mais que nossa mãe: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer eu, porém, não me esquecerei de ti”(Is 4915).  Ninguém pode dizer: “Deus Se esqueceu de mim”.

Em Deus repousa minh’alma

            O salmo canta o resultado do abandono em Deus: “Só em Deus a minha alma tem repouso, porque é Dele que me vem a salvação. Só Ele é meu rochedo e salvação, a fortaleza onde encontro segurança” (Sl 61,7). Essa mesma confiança em Deus é expressa pelo salmo: “Fiz calar e repousar meus desejos, como criança amamentada, no colo da mãe, como criança amamentada estão em mim meus desejos” (Sl 131,2). Isso não pode parecer uma utopia, um sonho. Se sossegarmos as ganâncias que nos levam ao consumismo, podemos sossegar nosso coração diante de Deus e, com isso, dar valor ao Reino como primeira opção. Sabemos que Deus garante o sustento. Aliás, tendo o Reino, não vamos querer tanta coisa. Tendo toda a riqueza maior, não precisamos de bijuterias.  A confiança em Deus é expressa pelo profeta através da imagem do bebezinho que se alimentou e dorme tranquilo.  A mãe com um nenezinho adormecido e feliz nos braços da mãe é a imagem síntese do resultado da opção pelo único Senhor. Não se trata de preocupação, mas ocupação. Jesus convida a viver o presente. Assim estamos prontos para o amanhã.

Para cada dia, basta seu cuidado

            Jesus diz que “são os pagãos é que se preocupam com essas coisas. Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e toda essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,32-33). Será que a toda essa crise atual de agitação e depressão não são conseqüência do resultado dessa busca do vazio? E continua Jesus: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia bastam seus próprios problemas” (Mt 6,34). A sabedoria de Jesus nos ensina que buscar o Reino hoje é o melhor modo de viver bem amanhã. Depois mostrar os que se preocupam com a justiça do Reino que é a bondade, a misericórdia e o amor.

Leituras: Isaias 49,14-15;Salmo 61; 1Coríntios 4,1-5;Mateus 6,24-34

Ficha nº 1626 – Homilia do 8º Domingo Comum (26.02.17)

  1. Jesus ensina que a busca dos valores do Reino dá melhor resultado que a busca desenfreada dos bens materiais. São os dois senhores.
  1. É preciso calar a ganância dos desejos para se ter a serenidade do Reino.
  1. Jesus ensina a viver o memento presente. 

Quem paga a conta 

Quando se tem que pagar a conta, sabe-se o peso do que se comeu. Assim Jesus libera a gente dessa preocupação.

Jesus faz uma bela comparação: devemos viver despreocupados com a vida, com o dinheiro, com a comida, com o vestido. Quem escolhe o Reino de Deus vai ter tudo de sobra.  Nem Salomão se vestiu tão bem como um lírio que não fez nada para ser tão bonito. Deus cuida dos passarinhos, das flores e de nossa vida.

Se buscarmos o Reino de Deus e sua justiça, o resto vem com sobra. Buscar o Reino de Deus dá garantia de que Deus paga a conta.

Ensina a viver o momento presente. Vivemos tão atacados e nervosos para garantir o dia de amanhã. E deixamos de viver o hoje. Isso quer dizer que não viveremos. Vivamos bem o dia de hoje, que o de amanhã fica garantido. Deus é como uma mãe que não esquece seu filhinho.

nº 1625 Artigo – “Amor que parte”

  1. Quando o amor nos deixa

            Continuando as reflexões do Papa Francisco sobre o matrimônio, Amoris Laetitae – Alegria do Amor, chegamos a um aspecto importante e ao mesmo tempo duro da vida matrimonial: a separação do casal pela morte. Por mais doloroso que seja o momento, saber encarar de um lado positivo: a morte como uma nova dimensão do amor. A beleza do matrimônio tem muitas facetas. Uma delas é quando a vida chega ao fim. Não vamos durar eternamente sobre a terra. Nenhuma morte é bem-vinda. Salienta o Papa: “Abandonar a família atribulada por uma morte, seria uma falta de misericórdia, seria perder uma oportunidade pastoral, e tal atitude pode fechar-nos as portas para qualquer eventual ação evangelizadora” (AL 253). É o momento de levar aos feridos pela morte, a mesma presença de Jesus que se comoveu e chorou no velório do amigo (Jo 11,33.35). Ele é a vida. Assim podemos compreender que a presença da Igreja nesses momentos dá vida aos que perdem a esperança, e chegam a se magoar com Deus como sendo culpado. Nessa fase de dor é importante a presença da comunidade. É necessária essa pastoral junto a esses que sofrem. Não se trata de conservar a vida, mas o amor. Há uma tendência a querer manter uma presença como viva como conservar o quarto e suas coisas no estado em que deixou. Achei bonito a atitude de uma parente, gente simples, que perdeu o marido. Ela disse: “Hoje lá em casa foi dia triste. Fomos distribuir as coisas de meu marido. Serviram tanto a ele, agora vão servir a outros”. Assim se encara a vida e a morte.

  1. Uma missão permanente

            Não vamos conservar a presença física, mas as preciosas lembranças dos bons tempos vividos, das boas obras praticadas e os pensamentos que norteavam. É bom não apagar a pessoa, mas também não se apagar por ela.  A morte é um bem quando continua dando vida. É o momento da libertação.  A missão dos mortos continua em nós, sobretudo quando recolhemos suas heranças espirituais para continuá-las. Continuamos o amor. Como se diz: “saudade é o amor que fica”. “O amor possui uma intuição que lhe permite escutar sem sons e ver o invisível. Isso não é imaginar o ente querido como era, mas poder aceitá-lo transformado, como é agora, à imagem de Cristo ressuscitado, como disse à Madalena que queria abraçar seus pés, que não O tocasse, para a levar a um encontro diferente” (AL 255).

  1. Igreja recolhe as lágrimas

            Há um descaso muito grande em muitas áreas da Igreja, como instituição, com respeito à doença, ao falecimento e à dor. É justamente aí o momento mais importante. Jesus sabia estar presente, como vimos. E continua presente e nos atrai. Paulo diz: “Desejo ardentemente partir para estar com Cristo” (Fl 1,23). Há o desejo de revermos aqueles queridos que se foram. Há os que até exploram os sentimentos com possíveis contatos. Mas o contato que acontece não é a nível humano, pois já passaram, mas na oração. Esta sim estabelece o diálogo em Deus. Quanto mais estamos em Deus, mais estamos com nossos queridos. A Igreja ensina: “Rezar por eles pode não só ajudá-los, mas também tornar mais eficaz a sua intercessão em nosso favor” (Catecismo, 958). “De modo nenhum se interrompe a união dos que ainda caminham sobre a terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo; mas é reforçada pela comunicação dos bens espirituais” (LG, 49). “Quanto melhor vivermos nesta terra, tanto maior felicidade podemos partilhar com os nossos queridos no Céu” (AL 258).

nº 1624 – Homilia do 7º Domingo Comum (19.02.17)

“A novidade de Jesus”

 O amor acima do ódio

               O sermão da montanha é o núcleo da fé cristã. E nele, a maior novidade de Jesus, está no amor aos inimigos. Em sua morte na cruz, reza ao Pai: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Está assim em direção contrária a ensinamentos e práticas do Antigo Testamento. Este ódio está no coração do homem desde o começo da humanidade, como nos retrata o livro do Gênesis. A lei antiga ensinava: “Olho por olho, dente por dente” (Lv 24,20). Vemos a mudança: ensina a não resistir ao malvado, oferecer a outra face, deixar que te levem a roupa, andar dois km a quem te força andar um.  Cristo assim o fez. Ensina o amor ao próximo como o seu mandamento e, este amor inclui o amor ao inimigo, para sermos como o Pai. Diz: “Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque Ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,44-45). A razão fundamental é ser perfeito como o Pai celeste é perfeito, sendo “misericordiosos como o Pai é misericordioso” (Lc 3,36). Ser perfeito é ser misericordioso. Amor aos inimigos, critério da verdadeira fé em Jesus. Para Jesus, o modelo é sempre o Pai. É sua escola. Assim chegamos à santidade. Com esses ensinamentos Jesus nos põe no caminho da santidade. Esta acontece nas coisas simples do amor e exigentes para que a vida seja plena. Não é esse o conceito de santidade apresentado e vivido por muitos. O Evangelho é tão claro e os métodos são tão outros.

Resposta que cura

            Vivemos num mundo de guerras. As piores são as guerras internas dentro das comunidades e das famílias. Jesus quer amortecer a força do mal pelo bem. Paulo resume este pensamento de Jesus com estas palavras: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem” (Rm 12,21). Defender-se não significa aumentar a violência. Por isso dá seu ensinamento: “Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!… . É o que dizemos: Quando um não quer, dois não brigam. Não aumentar a força da maldade. O ensinamento de Jesus desmonta todo esquema de maldade, agressividade e guerra. Não adianta continuar a briga jogando gasolina no fogo. Assim se rompe a carreira do mal. É a estratégia cristã. “Vós ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!” (Mt 5,39.43-45). Inimigos sempre existirão, então, rezemos por eles e busquemos a paz. É uma característica cristã o perdão do inimigo e mais, não criar inimizades nem promover a discórdia.

Ser como o Pai.

A referência de Jesus é sempre seu Pai, como rezamos no salmo 102 que revela o amor de Deus: “O Senhor é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo. Não nos trata como exigem nossas faltas, nem nos pune em proporção às nossas culpas”. No Antigo Testamento temos como razão de ser santos: “Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (Lv 19,1-2). O projeto de vida do fiel, espelhado no Pai e revelado por Jesus, tem um modo de ser: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Na Eucaristia comungamos também sua mentalidade de paz. É o momento de rezar pelos inimigos e criar uma onda de amor que vença o ódio. É o que chamamos de cultura do amor. Se nos amarmos damos nossa maior contribuição para a vida do mundo.

Leituras: Levítico 19,1-2.17-18; Salmo 10; 1Coríntios 3,16-23; Mateus 5,38-48

Ficha nº 1624 – Homilia do 7º Domingo Comum (19.02.17)

  1. O sermão da montanha é o núcleo da fé cristã. E nele, a maior novidade de Jesus, está no amor aos inimigos.
  1. Defender-se não significa agir com violência, aumentado o mal.
  1. O projeto de vida do fiel, espelhado no Pai e revelado por Jesus, tem um modo de ser: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito” 

Empresta-me seus óculos 

É preciso uma visão nova para entender o Evangelho de Jesus. Temos que ser como o Pai do Céu. Os antigos diziam: “olho por olho, dente por dente”. Assim a briga não acaba. Jesus corta esse ensinamento de antigamente que entrou na Bíblia vinda de leis pagãs. Jesus limpa a lente para que vejamos mais apuradamente.

A síntese de seu ensinamento é esta: ir além do que é exigido pela lei; ir ao amor maior que faz a diferença. Aqui temos o maior ensinamento de Jesus: amar os inimigos. Somos chamados a ser santos como Deus é Santo. Deus ama todos e não faz distinção de pessoas.

nº 1623 Artigo – “Amor partido”

  1. Divórcio – uma situação

Já há tempo refletimos sobre a Exortação do Santo Padre, Papa Francisco sobre o matrimônio – Amoris Laetitia – A Alegria do Amor. No capítulo sexto, nº 241-152, trata do divórcio. É interessante e comovente o carinho e o respeito que o Papa devota aos divorciados e separados.  Sempre procura o lado positivo. Não condena, mas estimula a viver bem e chama a comunidade apoiar em todas as circunstâncias. Não nega a indissolubilidade do matrimônio, mas sabe entender a situação de cada um, sempre com misericórdia e numa atitude curativa. Os separados e divorciados recebiam um tratamento de pecador público. Há um sentimento comum, e há os que assim dizem, que os separados não podem comungar. Podem sim. Outra é a situação do recasados. Estamos diante de uma das grandes polêmicas do momento. Grupos conservadores têm maltratado o Papa. Seria bom ler o texto na íntegra, pois é muito rico. Resumindo diz que há casos em que é inevitável separação. Por exemplo: injustiça, violência, defesa dos filhos, exploração, indiferença… Diz: “Mas deve ser considerado um remédio extremo, depois que se tenham demonstradas vãs todas as tentativas razoáveis!” (AL 141). Diz também: “As pessoas divorciadas que não voltaram a casar devem ser encorajadas a encontrar na Eucaristia alimento que a sustente nesse seu estado” (AL 243). A comunidade deve dar apoio, sobretudo se há pobreza. Mais ainda, diz que os divorciados “devem sentir que fazem parte da Igreja e não estão excomungados”(AL 243). Isso não destrói a doutrina sobre o casamento.

  1. Soluções

             Além de ser sensível ao sofrimento das pessoas separadas, é sensível também à solução da situação através da declaração da nulidade. Não anula o casamento. Declara que foi nulo. Os fiéis têm direito à justiça. A pastoral familiar deve entrar na questão dos divorciados, pois seu número cresce dia a dia. Por ai vemos a necessidade de preparar o casamento. Para muitos que se casam na Igreja, o que vale é só o espetáculo. Nas separações o Papa lembra que os filhos não podem ficar reféns da situação. Não sejam usados. “É irresponsável arruinar a imagem do pai ou da mãe para monopolizar o afeto do filho, se vingar ou defender… isso provocará feridas difíceis de curar” (AL 145). Os pais divorciados devem ser integrados na comunidade para continuarem a educação religiosa dos filhos. A assistência religiosa pode curar as feridas (AL 246).

  1. Situações complexas

            Lembra ainda o documento papal a questão dos casamentos mistos: católico com evangélicos ou com não batizados. São os casamentos mistos. O Papa diz que “se convém valorizar quer pelo seu valor intrínseco, quer pela ajuda que podem dar ao movimento ecumênico” (AL 247). A respeito da comunhão dos cônjuges, sigam-se as normas já dadas pelo Conselho da Unidade dos Cristãos em 25 de março de 1993. Quanto aos casamentos com não batizados, “eles representam um lugar privilegiado de diálogo inter religioso” (AL 247-248). Quanto a esses, pedem que a liberdade religiosa seja respeitada. Com respeito às situações pessoais de outras tendências, a Igreja pede respeito e é contra toda discriminação. Não se pode fazer a equiparação com desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família (AL 251). Cada um, em sua condição e situação pessoal, é chamado a fazer um caminho de santidade que não é de repressão, mas libertação. Refere-se por fim aos filhos onde falta o pai ou a mãe. A comunidade deve ser a família ampliada que dá suporte e afeto. Lembra as famílias pobres que sofrem com uma morte ou separação sejam apoiadas.

nº 1622 – Homilia do 6º Domingo Comum (12.02.17)

“O Evangelho exige mudança”

 “Um novo modo de viver”

               A diferença que fez Jesus não foi revogar a Lei, mas levá-la à plena realização. Jesus não era contra a Lei de Deus, mas contra as interpretações que dela faziam. Ensina que a nova justiça aprofunda o sentido dos mandamentos. Há um desenvolvimento do conhecimento da Palavra de Deus. Jesus ensina, pois ele é a Sabedoria do Pai. As propostas de Jesus propõem que façamos uma opção. É um caminho novo que exige totalidade em nossa resposta. Não basta seguir os mandamentos na letra, é preciso ir ao espírito e a seu sentido mais profundo dado por Jesus. No que se refere ao quinto mandamento, não matarás, afirma o respeito à vida física, mas também o amor ao próximo. A palavra pode ferir e matar. Pelo próximo, deve-se até interromper o sacrifício iniciado para ir se reconciliar (Mt 5,23-24); deve-se ceder ao inimigo para evitar que aumente o espiral da violência (25). O adultério não é só uma atitude exterior, mas vai ao coração. Está unido à fidelidade de Deus. Quanto ao juramento: Todo aquele que mente, fere a verdade de Deus. Toda mentira é do maligno. A fidelidade à verdade não precisa de documentos. Basta o sim, sim; o não, não. Notamos que Jesus interpreta o mandamento no fundo do coração. O amor ao próximo deve ser total. Vai à coerência do coração.  Corremos o risco de dar mais valor às interpretações do que à Lei Nova de Jesus que se funda na misericórdia e na caridade. Batemos o pé em coisas secundárias, quando o importante ensinado por Jesus, é deixado de lado.

Sabedoria de Deus.

A lei é a sabedoria. Falamos, sim, da misteriosa sabedoria de Deus…. Sabedoria escondida que desde a eternidade Deus a destinou para nossa glória” (1Cor 2,6-7). A revelação de Deus para nós não é uma comunicação de verdades, mas participação de sua Sabedoria. Sem ela não entendemos a novidade de Jesus e continuamos repetindo os mesmos erros do passado. Jesus tem a autoridade para levar a lei à perfeição, purificá-la e instaurar a sabedoria de Deus. A nova lei é a sabedoria de Deus em nosso meio. Nossa sabedoria é viver o mandamento no íntimo do coração. O pecado não é solução para nosso coração. O livro do Eclesiástico ensina que Deus não mandou ninguém agir como o ímpio e a ninguém deu licença para pecar (Eclo 15,20). Há pessoas que se fazem donos da verdade e criam costumes que obscurecem a sabedoria de Jesus. Não podemos ficar às margens e nas práticas sem fundamento. Podem ser ótimas suas idéias, mas primeiro vem o mandamento de Deus. O pecado não se justifica em nenhuma hipótese. É sempre prejudicial ao ser humano. É o que vemos pelo mundo. O fruto do pecado destrói nações inteiras.

Surpresas de Deus.

            “A nós Deus revelou esse mistério através do Espírito. Pois o Espírito esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus” (1Cor 2,10). Recebemos a sabedoria de Deus pelo Espírito que nos foi dado. Os que vivem esta sabedoria podem perceber “o que Deus preparou para os que O amam, é algo que os olhos jamais viram nem os ouvidos ouviram nem coração algum jamais pressentiu” (1Cor 2,9). Recebemos o convite para purificar nossa fé de tudo aquilo que fere a beleza do mandamento e a nova lei de Jesus. Por isso, em cada Eucaristia, ouvimos a Palavra que nos instrui na sabedoria. Rezamos: “Feliz o homem sem pecado, que na lei de Deus vai progredindo. Feliz o homem que observa seus preceitos e de todo o coração procura a Deus” (Sl 118).

Leituras: Eclesiástico 15,16-21; Salmo 118; 1Coríntios 2,6-10; Mateus 5,17-37

Ficha nº 1622 – Homilia do 6º Domingo Comum (12.02.17)

  1. Jesus aprofunda a lei antiga indo ao coração que é o amor sem limites.
  1. A Sabedoria de Deus ensina a viver o mandamento em sua profundidade.

O pecado não foi ensinado por Deus.

  1. Do Espírito nos vem a sabedoria. Recebemos o convite para purificar nossa fé. 

 Mudando a Bíblia 

Para muitos a letra da Bíblia tem que ser conservada ao máximo. Mas Jesus deu exemplo ao contrário. A Palavra do Antigo Testamento tem que ser entendida a partir Dele. Ele muda concepções do passado colocando nelas o aperfeiçoamento da nova Lei. Sobretudo quando essa lei foi mal interpretada pelos fariseus.

A Palavra nos ensina que, ao aceitar Jesus, temos que reformar nossos conceitos, como Ele reformou conceitos e prática do Antigo Testamento a partir Dele que é a Palavra viva.

Ensina ir mais profundo na Palavra. É uma renovação do homem todo no seu relacionamento com os outros, baseados no amor. É a pessoa íntegra na verdade. A lei fundamental deve estar no coração e não somente na prática externa.

nº 1621 Artigo – “Tempos conturbados”

  1. Vinho velho do amor

            Nosso querido Papa Francisco, na Exortação Amoris Laetitia – Alegria do amor,  refletindo sobre o matrimônio, apresenta uma riqueza de sugestões para a vida dos casais, sobretudo dos casais novos. Aconselho a leitura desse texto dos números 217 – 230. Não se dirige somente aos casais, mas também aos que se preocupam com essa pastoral. Vai a detalhes da vida amorosa do casal como também às práticas espirituais. É singelo, e muito rico. Vamos refletir agora sobre o lado mais difícil que são as crises e angústias. Casa-se para ser feliz, mas a felicidade tem seus momentos de crise. Por felicidade Deus nos oferece um meio que tudo pode salvar: o amor. O amor é o melhor remédio para os males do casamento. Esse amor é partilhado por aqueles que podem dar uma contribuição. Papa Francisco inicia sua reflexão mostrando o sabor do vinho amadurecido. Cita S. João da Cruz: “Os velhos amantes são os já treinados e testados. Eles já não têm aqueles fervores sensíveis nem aquelas ebulições e chamas externas do ardor, mas saboreiam a suavidade do vinho do amor bem sedimentado na substância… assente dentro da alma”. Conclui: “Isso supõe que foram capazes de superar juntos as crises e os momentos de angústia sem fugir aos desafios nem esconder as dificuldades” (AL 231). Crise é sinal de crescimento.

  1. Crises ajudam crescer

             A melhor solução da crise está antes dela chegar. Se formos capazes de dialogar no tempo bom, saberemos dialogar no temporal. Crises são normais no matrimônio. Ser um só coração e uma só alma é um desafio permanente. A crise ensina, fortalece e esconde uma boa notícia, diz o Papa. O primeiro passo é não isolar (dormir no sofá) e não cortar a comunicação. Na discussão, no momento de lavar a roupa suja, cada um lave primeiro a sua e depois ajude o companheiro lavar a que sujaram juntos. Não se trata de dizer: aqui você errou. Mas… aqui está meu erro. Não se podem entregar os pontos na primeira desavença. Quem quer conquistar uma lagoa tem que engolir um punhado de sapos. O casamento é perfeito porque tem imperfeições e fragilidades. É humano. É sobre essas fraquezas que se constrói a força. O risco da imaturidade pode danificar muito. Somos imaturos. E tornamo-nos maduros no momento em que sabemos assumir imaturidade e crescer. Aparecem  doenças, mudanças físicas, dificuldades do tempo em que vivemos. Outras vezes são as heranças da família. É comum ouvir que lá em casa era assim. Por isso a bíblia diz que “o homem deixará o pai e a mãe e se unirá a sua mulher e serão os dois uma só carne” (Gn 2,24). Esse desligar-se vai além da residência, mas é algo novo que se inicia. Por isso é preciso desmamar. O Papa Francisco o diz em outras palavras (AL 132-138).

  1. Velhas feridas

            Nada é ideal. Casamento perfeito não existe. As tensões sempre existiram. Um dos motivos é que trazemos uma carga de nossa família, de nossa educação etc… São as feridas que nos acompanham desde a infância, adolescência, situação familiar, social e cultural. Muitos nunca foram amados ou perderam a família ou tiveram uma vida familiar complicada ou foram abusados de tantos modos. É preciso uma cura pessoal. Há muitos meios. O casamento pode realizar essa cura no momento em que se abre para superar. O primeiro passo é reconhecer a própria imaturidades com serenidade. E aparecem situações novas de vícios e manias que destroem toda a expectativa de felicidade. Então se busca fora ou se degrada no sofrimento que pode durar uma vida. Ao aceitar a fragilidade do outro num processo de recuperação a felicidade cresce. Nada é sem solução.

nº 1620 – Homilia do 5º Domingo Comum (05.02.17)

“Brilhe vossa luz!”
Luz do mundo
O sermão da montanha, de modo especial as bem-aventuranças, é uma síntese do ser cristão. A nova lei não é uma “ordem”, mas o reconhecimento do que Deus faz em cada um. Ao dizer “vós sois o sal a terra… vós sois a luz do mundo” (Mt 5,1.14), está ensinando que as bem-aventuranças são o ser do cristão. É delas que vem a luminosidade e o sabor. A “salubridade e a luminosidade” do discípulo vêm de sua união com Cristo que, com sua vida, deu luz e sabor ao mundo. O Verbo de Deus, Jesus, é Luz e Vida (João 8,12). Dizendo que o cristão é luz do mundo, ensina que essa luz vem de sua união a Cristo na prática das bem-aventuranças. Paulo ensina: “Agora que sois luz no Senhor, andai como filhos da luz” (Ef 5,8). A luz é colocada no alto para irradiar a fim de que todos vejam. Essa luz é vida, como Jesus era a luz dos homens (Jo 1,4). A luz das boas obras brilhará diante dos homens, como Jesus brilhou e iluminou. Isaias proclama que, com as boas obras, a luz brilhará como a aurora. Ela é saúde e garantia na oração. “Nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio dia” (Is 58.7-10). Paulo dá o exemplo ao explicar seu modo de pregação: “Ao anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada…Não julguei saber coisa alguma. A não ser Jesus Cristo, e este foi crucificado” Ele se baseava no poder de Deus e não na sabedoria dos homens (1Cor 2, 1-2.5).
Sal da terra
“Vós sois o sal da terra”. Se o cristão não for sal, torna-se inútil. Como a luz, o sal é fundamental para o bem viver. Há também uma referência ao aspecto cultual. Nos sacrifícios do templo era necessário colocar um pouco de sal sobre as vítimas: “Salgarás toda oblação que ofereceres e não deixarás de por na tua oblação o sal da aliança de teu Deus” (Lv 2,13).  Tem sentido de conservação da aliança para sua estabilidade. Por se ligar ao sacrifício torna a vida comum um sacrifício agradável a Deus. Pedro diz que devemos “oferecer sacrifícios espirituais a Deus em Jesus Cristo” (1Pd 2,5). Toda a dimensão de sacrifício que é exigido para a vida cristã e as muitas propostas de sacrifício, há só um que vale por completo: o sacrifício da vontade, isto é, procurar a vontade de Deus que está expressa nas bem-aventuranças. Elas são o caminho para a vida. O sacrifício e a penitência não se medem pela dor, mas pelo amor com que levamos as cruzes do dia a dia. O profeta Isaías também nos oferece um caminho semelhante: repartir o pão com o faminto, acolher peregrinos, destruir os instrumentos de opressão, deixar os hábitos autoritários e a linguagem maldosa, acolher o indigente e socorrer o necessitado (Is 58, 7-10)
Para que glorifiquem o Pai
O sabor da vida que as boas obras dos cristãos oferecem é para o louvor de Deus: “Para que, vendo vossas boas obras, glorifiquem o Pai” (Mt 5,16).  Esta é a liturgia fundamental que culmina na celebração. Com sua vida, Jesus foi uma oferta agradável que culminou na oferta sacrifical da Cruz. O discípulo assimila-se ao Mestre: É sacrifício “vivo, santo, agradável a Deus: É o culto espiritual” (Rm 12,1). Os sacrifícios são as obras das bem-aventuranças para que “glorifiquem o Pai que está no céu”. Glorificar é entrar em comunhão. É a função redentora da vida dos cristãos. O primeiro testemunho é a fé manifestada nas boas obras. Ser sal e luz é viver o evangelho sintetizado nas bem-aventuranças. Cada Eucaristia nos desvela a presença da Palavra e do Pão que são sustento e luz no caminho.
Leituras: Isaias 58,7-10; Salmo 111;1Cor 2,1-5; Mt 5,13-16

Ficha nº 1620 – Homilia do 5º Domingo Comum (05.02.17)

1.     As bem-aventuranças são síntese do ser cristão. Vivendo-as somos luz e sal para o mundo.

2.    Sem ser sal e luz o cristão é inútil. A vida cristã tem um aspecto cultual, pois é sacrifício espiritual.

3.    A vida cristã tem como finalidade o louvor ao Pai.

Doce de sal

Parece muito esquisito fazer doce de sal. Claro que estamos fazendo uma comparação com a grande transformação que a Palavra de Deus realiza em nossa vida: “Vós sois o sal da terra” é como se transformasse o sal em doce.

Depois de anunciar as bem-aventuranças, Jesus afirma que elas nos tornam sal da terra e luz do mundo. Quer dizer que as pessoas que vivem esse novo modo passam por uma transformação como na vida pessoal que vai influir na comunidade como o sal que tempera e a luz que ilumina.

Nada esconde ma luz de Jesus em quem crê Nele.

A atitude nova da vida dará soluções para os necessitados. Deus ouvirá nossa oração. Essa vida brilhará para o bem do mundo. Para isso acontecer temos que centrar nossa vida em Jesus, como fez Paulo.

Felizes também, plantaremos felicidade. Essa brota!

nº 1619 Artigo – “Amor cultivado”

  1. Casamos… e agora?

Casados. Maravilha! Como dizemos: “Quem casa quer casa”, isto é, constituir uma vida nova. Toda a beleza dessa etapa da vida é a realização de um sonho tão bem cultivado e alimentado por tantas esperanças. Quando se realiza um matrimônio se ouve um sim para a eternidade. Acreditamos no casal e acreditamos que possam levar avante essa nova vida como uma missão vinda do alto. Tantos passaram pelo altar e levaram o casamento para a vida toda, mesmo não tendo as ditas preparações que são propostas. E foram felizes. Continuando a reflexão do Papa Francisco, lemos na Exortação Apostólica Amoris Laetitia – Alegria do Amor –  orientações muito concretas para a vida em família, de modo particular, como refletimos agora, para a vida de noivado e dos recém-casados. Acentua que a preparação do noivado continua na vida de casal. Aliás, estamos sempre aprendendo. É sabedoria ter abertura para aprender sempre mais. Ninguém está pronto. Por isso insiste que no primeiro tempo da vida de casal há questões que merecem reflexão. Ninguém é perfeito e nem sabe tudo. A sabedoria não é saber, mas querer aprender sempre mais. O Papa Francisco insiste no acompanhamento dos noivos depois do casamento. Nas primeiras dificuldades há necessidade de acompanhamento (AL 217). Os primeiros passos precisam de outros olhos para olhar e outras mãos para orientar caminhar. É claro que sem interferência. O matrimônio, mesmo bem assumido, ainda cresce. É uma construção do dia a dia (AL 218). Ninguém trabalha sozinho. Mas… não é isso que as pessoas pensam. Para todos os problemas temos especialistas, a família é um desses.

  1. Força do ser diálogo

            O Papa Francisco continua mostrando sua experiência. Explica que quando um começa a ver os defeitos do outro com um olhar crítico, torna-se incapaz de se apoiarem para o amadurecimento. “O sim que deram um ao outro é o início de um itinerário cujo objetivo é superar as circunstâncias que surgirem e os obstáculos que se interpuserem”. A graça recebida e o SIM proferido não é apenas para o momento, mas se torna um impulso para esse caminho sempre aberto e seerá a força para os contornos necessários do dia a dia. É o momento do diálogo para elaborar o seu projeto concreto com os seus objetivos e detalhes (AL 218).  Como o casamento é uma construção a dois, num diálogo completo de corpo, alma e potências intelectuais, o amor será sempre o controlador desse diálogo. É preciso lançar longe nossa esperança para onde ela nos atrai. O amadurecimento do amor implica em saber negociar e saber ceder para ganhar. Em cada nova etapa do casamento, urge dialogar e analisar as situações. A maior imaturidade matrimonial é não ter capacidade para conversar, colocar os problemas em comum, saber discutir e levar adiante uma reflexão que seja orientadora. Ter problemas não é um problema. Não discuti-los sim.

  1. Um amor que encanta

O casamento sonhado nem sempre corresponde ao casamento vivido. Esse vai além.

Cada casamento é uma história de salvação. Supõe partir de uma fragilidade que, graças ao dom de Deus e uma resposta criativa e generosa, pouco a pouco vai dando lugar a uma realidade cada vez mais sólida e preciosa. Salienta o Santo Padre que “a missão maior de um homem e de uma mulher no amor seja esta: a de se tornarem, um ao outro, mais homem e mais mulher” (AL 21). Lembramos a surpresa de Adão diante de Eva, saída das mãos de Deus: “Então o homem exclamou: Esta sim, esta sim” (Gn 2,23). Meta: ser uma eterna surpresa. A beleza continua na criação dos filhos na paternidade responsável e no respeito à vida.

nº 1618 – Homilia do 4º Domingo Comum (29.01.17)

 “Felizes sois vós”

 Um ensinamento de vida!

O Evangelho de Mateus compõe-se de discursos nos quais coleta os ensinamentos fundamentais de Jesus. Temos na liturgia de hoje a leitura da introdução ao discurso da Montanha. Como Moisés que, do alto do Monte Sinai trouxe e lei de Deus, Jesus apresenta a Nova Lei. Aquela lei fora promulgada entre raios e trovões. Aí nasceu o povo. No monte das Bem-Aventuranças Jesus delineia o caminho do novo homem. Quem O ouve fica feliz. Jesus inicia propondo oito pilares desse novo povo. Basta dar estes oito passos para entrar no Reino. As bem-aventuranças são um retrato de Jesus a ser feito em nós. Jesus enfrentou inimigos fortes que O recusavam. Mas teve sempre uma palavra e um acolhimento carinhoso para com os fracos, os doentes e os pobres. A opção de Jesus para atender primeiro os frágeis, vem justamente da situação da maioria do povo que estava fragilizada de tantos modos. Desde o Antigo Testamento Deus deu particular atenção aos fracos como lemos no salmo 145. As leis protegiam os necessitados, mas não eram seguidas. As esperanças do povo se concretizaram num pequeno grupo que o profeta chama de resto de Israel. Eles colocaram sua esperança em Deus. Nele se estabelece a certeza da salvação que Deus oferece. Eles acolheram Jesus. É por isso que Jesus vai descrevê-los deste modo tão bonito: “Bem aventurados os pobres em espírito!” São eles o resto fiel. Maria, José e os primeiros discípulos pertenciam a esse grupo que tinha a esperança.

Perfil do cristão feliz

Cada cristão apresenta um aspecto das bem-aventuranças. A pobreza do cristão significa ser empobrecido e necessitado de Deus. Deus é a única riqueza que nos faz felizes. Nas dores sabem ter o consolo em Deus. É manso porque sabe estar bem com tudo. O que tem fome e sede de justiça Divina quer o bem de todos. O misericordioso é o que tem o coração do Pai. O puro de coração é o que vem de Deus. O promotor da paz vive a paz em si pelo contato com Deus e assim pode implantá-lo no mundo. O perseguido por causa da justiça sofre o que Ele sofreu e recebe que Ele recebeu. É o que se constata nas atitudes de Jesus e em suas palavras: pensa diferente do mundo. Com isso surge a oposição. Para o mundo a felicidade é o contrário das bem-aventuranças: riqueza, poder, despreocupação, injustiça, falta de perdão, agressividade, oposição a Cristo e seus fiéis. A salvação que Jesus oferece quer tirar o homem da situação do mal que tem seus inúmeros frutos perniciosos. Jesus cura o homem por dentro.

Um projeto de vida

Como realizar essas bem-aventuranças? O primeiro passo é estar unido a Cristo que é a Bem-Aventurança. Nele estão todas as virtudes, pois Ele é a Virtude. Os bons atos e o esforço pessoal são necessários. As bem-aventuranças não são bolas de Natal colocadas na árvore, mas frutos que vêm da árvore que é Cristo. É Ele quem produz fruto em nós e nós cooperamos para que sejam abundantes. O primeiro testemunho que os cristãos podem oferecer será sempre sua vida curtida no projeto de Jesus. Assim foi Jesus, assim devem ser seus seguidores. A Eucaristia é meio de nos unirmos a Cristo que é a seiva Divina que produz os frutos em nós. A educação cristã do discípulo deve passar por esses pontos fundamentais. É inútil uma fé, sem uma vivência concreta do projeto de Jesus. Nele podemos amadurecer Naquele que, por primeiro, viveu as bem-aventuranças.

Leituras: Sofonias 2,3;3,12-13; Salmo 145; 1Coríntios 1,26-31; Mateus 5,1-12ª

Ficha nº 1618 – Homilia do 4º Domingo Comum (29.01.17) 

  1. Jesus propõe as oito bem-aventuranças como o caminho para o novo povo de Deus viver o Reino.
  1. Cada cristão apresenta um aspecto das bem-aventuranças. Que não acolhe Jesus gera males que não dão produzem a felicidade.
  1. As bem-aventuranças são a seiva da árvore que é Cristo que produz frutos em nós. Acolhendo Cristo, somos o que Ele é.

Aprendendo a ser gente 

  1. Mateus, ao narrar o início da missão de Jesus, faz em poucas palavras, uma síntese de tudo o que iria ensinar. Primeiramente narra o início da vida de Jesus e no final a Paixão. Entre esses dois pólos, coloca cinco partes que englobam o ensinamento de Jesus. Iniciamos com o sermão da montanha. E neste, as bem-aventuranças. Elas são o fio que une e resume todo ensinamento de Jesus. Não são somente palavras, mas é o retrato falado de Jesus. Ele era assim. Às vezes procuramos o tipo físico de Jesus. Esse não é necessário. É bom saber seu tipo humano-espiritual. Assim como Ele foi, assim devemos ser.

            Gastamos muitas palavras para explicar a doutrina. Jesus com poucas frases apresentava tudo. É como vemos no texto de hoje. Primeiramente notemos que a primeira leitura nos diz quem são os humildes. Eles mantêm viva a esperança. E Deus cuida deles, como nos conta o salmo 145.

            Jesus enumera oito atitudes de vida que servem para orientar em nosso cotidiano. Está a dizer: Vivendo desse jeito, estão vivendo o evangelho. É curioso que procuramos tantos modos de viver e deixamos de lado aquele que Jesus oferece.

            O que nos ensina: Ser pobre de espírito, desapegado de tudo o que possa destruir a riqueza do Evangelho. Quem é pobre se preocupa em viver bem e que os outros vivam bem. Essa preocupação não prejudica o relacionamento, pois a mansidão cabe em qualquer lugar. Desse modo, com serenidade vai buscar a justiça em todos os sentidos, pois sem ela não se vive bem. Para não prejudicar os outros, quando vivemos procurando o bem, temos que ter misericórdia. Assim seremos entendidos. O que buscamos não tem má intenção. A pureza de o coração não é só afeto, mas é transparência dos olhos e das atitudes. Isso nos deixa em paz e não atropelamos os outros.

Certamente que nem todo mundo concorda com esse nosso caminho. Daí surge a perseguição por causa de Jesus e seu ensinamento. Não há problema, pois já conquistamos o Céu e com grandes recompensas. A maior delas é ver que outros creram em Jesus e seguem o mesmo caminho.

Tudo muito simples. Quanto mais fazemos como Jesus, mais gente seremos.

nº 1617 Artigo – “Crescendo amor”

 A caminho do altar

            É inesquecível aquela maravilhosa entrada da noiva rumo ao altar. E lá, ele, vendo-a em todo seu esplendor. Música, flores, convidados, sonhos, lágrimas e enfim a palavra mágica: “Promete amá-la”? Não querendo brincar, no momento atual a mala se torna importante no casamento. Partir… e buscar outros caminhos. Aumentam sensivelmente o número dos divórcios no Brasil. Diante desse fato, Papa Francisco sobre a preparação para o sacramento do matrimônio. Como a expectativa é para a vida, então é urgente dar vida à preparação. Casar e ajuntar são coisas diferentes. Casar-se na Igreja é um sacramento que supõe a fé e o compromisso de fidelidade e empenho total nessa causa que é a mútua entrega. Toda a preparação não é um ato isolado, mas envolve toda a vida pastoral da Igreja. O futuro da Igreja está na família. Quem tem convivência com as questões de casamento na Igreja sabe que o que menos interessa é o aspecto religioso. Tudo mais vem primeiro. Tudo isso passa. O que sobra não sustenta o casamento. Por isso há uma insistência na preparação. A comunidade participa para o bem dos noivos, pois ela “tem consciência que os que se casam são um recurso precioso, porque, esforçando-se sinceramente por crescer no amor e no dom recíproco, eles podem contribuir para renovar o próprio tecido de todo corpo eclesial” (AL 207). A preparação não significa acumular temas e textos de reflexão, mas é preparação na vivência da comunidade. É uma iniciação ao sacramento do matrimônio. É necessária muita abertura dos noivos de saber ouvir e ver a sabedoria. Casamento se aprende também. Assim resumo um pouco as palavras do Papa.

Passos de um noivado

             O primeiro elemento rico para um futuro matrimônio é a vida da família. Por isso é bom os jovens participarem, com a família, da vida religiosa da comunidade. É um aprendizado na escola do saber amar. O tempo de namoro e noivado é tempo de aprender a conhecer a outra pessoa e ver se são capazes de se amar no modo próprio que cada um é. Não há curso para aprender a amar. O Papa lembra que a preparação para o matrimônio está em ação desde o nascimento. Digamos que já na gestação. O matrimônio dos pais é a primeira escola. A pastoral poderá e deverá criar momentos de celebração para o dia dos namorados, aniversários de namoro, benção de anéis de compromisso etc… A pastoral não se preocupa com os namorados e noivos. Na verdade não sabe o que fazer. Certo que os noivos também demonstram pouco interesse. Sempre fica a pergunta: viveram tanto tempo de namoro e noivado e se separam logo depois. Por quê? Não aprenderam a amar? Pode ser que a família não proporcione esses elementos de formação por um testemunho negativo. Temos outras famílias para testemunho. A idade dos noivos já ajuda discernir.

Caminhando com responsabilidade

            O namoro e sua concretização em um noivado é o tempo da graça de Deus trabalhar o coração para o maior conhecimento do parceiro. É o momento de selar o conhecimento do outro. O afeto é fundamental, mas não sustenta o casamento se não estiver alimentado por um conhecimento responsável do parceiro. Os conflitos não terão como serem resolvidos. É importante que no namoro e no noivado se conheçam para não terem a decepção diante dos primeiros problemas. O afeto e o carinho são necessários. Conhecer um ao outro sustentará o afeto. É tempo de namorar, saber quem é a outra pessoa. Sem esse conhecimento está fadado ao fracasso. As durezas da vida de casal se vencem porque são sustentadas no conhecimento do amor.

nº 1616 – Homilia do 3º Domingo Comum (22.01.17)

 “O Reino de Deus está próximo”

 A começar dos mais fracos.

Jesus inicia seu ministério na Galiléia, tendo inclusive mudado de residência, passando a viver em Cafarnaum, uma cidade mais populosa, movimentada com comércio, caminho do mar e na margem do lago da Galiléia. Jesus começa sua atividade numa região mal afamada. É chamada Galiléia dos pagãos (Mt 4,15 – Is 8,23b) . Era uma população que sofrera uma mistura de povos. Os galileus eram mal vistos. Jesus ensina até com a geografia que Deus procura os necessitados. A mentalidade de Jesus era procurar a ovelha perdida, misturar-se com os pecadores, receber publicanos e prostitutas, conversar com mulheres e crianças, estar com gente que não conhecia a lei (Jo 7,49). Era uma posição social sim, mas nascida do amor de Deus pelos abandonados. Ele ouve sempre o grito do povo que sofre a escravidão, como podemos ver no Êxodo, nos salmos, nos evangelhos etc. Notemos que, o modo de Jesus iniciar seu ministério, vai ser a maneira de conduzi-lo. Que nossa pastoral, em lugar de privilegiar os bons, procurasse os necessitados e estimulasse os “bons” para fazer o mesmo caminho. O início do ministério de Jesus é o chamado à conversão. Esta se dá no coração da pessoa, como se dá o início da pregação de Jesus: anuncia num mundo imerso em trevas para que sejam iluminados por uma nova luz. Saíram do escuro do desconhecimento para a vida nova do Reino. A conversão é a chave da missão de Jesus. Sem ela permanecem as trevas.

Passando, disse: “Segui-me”!

Jesus usa a mesma mentalidade para escolher seus apóstolos. Os apóstolos que chama são pessoas humildes e fracas, gente do povo. Ele parte dos pobres para anunciar a riqueza do Reino. Nesta escolha convoca-nos a acreditar nas pessoas e dar chance a todos de poderem exercer o seu dom na comunidade. A formação do apóstolo se dá na convivência com Jesus. Estar com Ele é o modo de aprender a ser missionário do Reino, continuar o que fazia e como fazia. Aceitar o convite é se comprometer com uma pessoa concreta. A Igreja sempre contou com ministros sagrados para as celebrações e para a pregação. A vocação consiste sempre no chamado oficial da Igreja. Para saber se o chamado se dirige a uma pessoa autêntica, é preciso saber da conversão ao Reino. Aí temos os desencantos da vocação. Se, pelo contrário, a resposta parte de um coração convertido aos valores do Reino, podemos ter certeza de um autentico chamado. Ministério não é um emprego, mas um processo permanente de conversão, sempre saindo das trevas para a luz.

Tudo por um Reino.

O ambiente do Mar da Galiléia é uma constante na pregação de Jesus. Jesus usa a palavra pescar quando convida os discípulos para segui-Lo. Pescar nas águas profundas significa tirar as pessoas do mar do obscuro e do desconhecimento e do abandono total. É preciso lutar, remar e se esforçar. Lançar as redes é contar com a força da palavra de Jesus. A presença de Jesus é a garantia de boa pesca no lago profundo do mundo. Assim somos convocados a segui-Lo, estar com Ele e com Ele exercer a missão. Esta missão é a chamada à conversão para que o Reino de Deus se estabeleça entre nós. Por isso Paulo diz na carta aos Coríntios que todos são de Cristo. Não temos partidos. A Eucaristia nos põe em missão, como Jesus. Não podemos nos acomodar com as estruturas da Igreja e dizer que sempre foi assim. É necessário ver se essa estrutura corresponde ao que se necessita no momento. É preciso sempre voltar à fonte saindo das trevas para a Luz que é Jesus e seu Reino. Jesus continua passando e chamando. Quer um mundo que se renova.

Leituras: Isaias  8,23b-9,3; Salmo 26;1Coríntios 1,10-13.17; Mateus 4,12-23

Ficha nº 1616- Homilia do 3º Domingo Comum (22.01.17)

  1. Jesus inicia sua missão nas trevas da Galiléia para conduzi-la à luz através da conversão.
  1. Os apóstolos farão o mesmo caminho. Para quem segue Jesus é preciso o comprometimento da conversão.
  1. Somos convocados a seguir Jesus, estar com Ele e com Ele exercer a missão. 

            O que não brilha pode ter ouro. 

            No garimpo se luta por uma pedrinha dourada. O que não fazem para encontrá-la? O que não serve vai sendo jogado fora. Jesus começou o contrário. Viveu na Galiléia dos gentios, quer dizer, pagãos. Era uma terra meio pagã. Na destruição de Samaria, capital do reino do Norte (721 AC), os judeus são levados para Nínive e em seu lugar são trazidos estrangeiros pagãos. Assim se misturam. Acabam por ser meio judeus e meio pagãos. Por isso os samaritanos e judeus legítimos estarão sempre em briga.

            Jesus escolheu gente dali para ser discípulo seu. Eram muito humildes e simples. Jesus conhecia o valor daquela gente e sabia escolher o que iria brilhar. Os judeus diziam: pode vir alguma coisa de Nazaré (Jo 1,46)? Era da Galiléia. Nenhum profeta viera da Galiléia (Jo 7,52). Maria e José eram simples. Jesus igualmente, pois admiravam sua sabedoria, tendo vivido ali. Os sumos sacerdotes se admiraram dos apóstolos serem tão firmes em suas palavras, sabendo que eram iletrados.

            O profeta Isaias anuncia um tempo novo. “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte uma luz resplandeceu” (Is 9,1).

            Jesus era essa luz: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz” (Mt 4,16). Estamos no início da pregação de Jesus que escolhe seus discípulos à beira mar para serem os libertadores dos homens das profundas trevas. Somente conhecendo o sofrimento podemos saber ajudar na libertação.

            Os pobres são os herdeiros das promessas de Deus e recebem também a missão de levar a outros as notícias da conversão. Os pobres, para Mateus, são todos os que se abrem à riqueza de Deus e vêem o mundo com os olhos de Deus.       

 

nº 1615 Artigo – “Anunciar o Evangelho da família”

Evangelho da família é alegria

            Interrompemos, no tempo do Natal, nossas reflexões sobre a Exortação Apostólica do Papa Francisco, Amoris Laetitia – A alegria do amor – Retomamos o documento, lendo agora o capítulo sexto. É uma oportunidade de participar de uma reflexão importante para o momento da Igreja que é formada de famílias. A família não está em crise, ela procura crescer. Há problemas e muitos. Antes existiam problemas também, e muitos, que eram abafados por algumas afirmações fortes que acabavam por oprimir e não promover a vida. Vamos ler juntos “as perspectivas pastorais para a família no momento presente”. Alguns afirmam: “Antigamente era assim e dava certo”. O antigamente não existe mais. Os problemas são um desafio agora. O Papa Francisco é muito próximo aos problemas tanto da preparação do casamento como das dificuldades enfrentadas pelos esposos. Convida a levar “os esposos a experimentar que o Evangelho da família é alegria que enche o coração e a vida inteira” (AL 200). A Igreja não é dona, mas cooperadora na obra de Deus. Reconhece que o ensinamento sobre a família “é sinal de contradição”. Quer dizer: O mundo pensa diferente. Mas assim fizeram com Jesus. Foi e é sinal de contradição. Ela se põe com “humilde compreensão para chegar às famílias, a fim de que descubram a melhor maneira de superar as dificuldades que encontram no seu caminho” Não bastam posições genéricas. É preciso uma catequese orientada para a família (AL 200). Não bastam teorias desligadas da vida. Não bastam normas e leis. E preciso corresponder à necessidade.

Coragem de anunciar

            “Exige-se a toda a Igreja uma conversão missionária: é preciso não se contentar com um anúncio puramente teórico e desligado dos problemas reais das pessoas… mas propor valores, correspondendo à necessidade que se constata hoje, mesmo nos países mais secularizados”. A evangelização deve também denunciar “os condicionamentos culturais, sociais, políticos e econômicos, bem como o espaço excessivo dado à lógica do mercado, que impedem uma vida familiar autêntica, gerando discriminação, pobreza, exclusão e violência” (AL 201). Por mais que devamos acompanhar o mundo, não precisamos seguir seus erros cujos resultados são visíveis. Por isso, salienta o Papa, é muito importante o apoio dos leigos comprometidos. Nota também que sacerdotes, diáconos, religiosos e agentes pastorais não são formados adequadamente para tratar dos problemas atuais da família. Pede que a formação dos seminaristas não seja limitada só à doutrina. Mas que parta também da experiência. Muitos vêm de famílias feridas. É importante o contato com as famílias. A formação seja feita no contexto da diversidade das vocações no mundo. Os leigos da pastoral familiar sejam formados numa forma interdisciplinar.

Formação para o matrimônio

            Há uma insistência muito grande na formação dos jovens para o casamento para descobrir a riqueza e o valor do matrimônio. Conhecemos a realidade e a mentalidade dos que buscam o casamento religioso. Não passa de um rito social. Poucos o fazem por sua opção cristã. O tesouro do matrimônio se inicia no namoro e no noivado. É o dom do amor. Não se trata de um acúmulo de ensinamentos, mas de saborear interiormente as riquezas do amor. É o momento de se encontrarem novas formas de introduzi-los na vida matrimonial. É diferente casar na Igreja do casar-se em Cristo. Se os orientadores do povo de Deus não estão preparados e não têm conhecimento da realidade, podem prejudicar os casais. Há necessidade de renovar a formação e não ficar só no ritualismo e na superficialidade.

nº 1614 – Homilia do 2º Domingo Comum (15.01.17)

“Eis o Cordeiro de Deus” 

 Celebrando o Mistério de Cristo

Iniciamos o Tempo Comum do Ano Litúrgico no qual não celebramos uma memória particular da vida do Senhor, como Natal, Páscoa, Ascensão, mas o Mistério de Cristo na sua globalidade. Neste tempo damos importância especial ao domingo como dia do Senhor e ao cotidiano da vida celebrado como presença do Senhor. Usamos a cor verde significando que vivemos voltados para a realização do Mistério Pascal de Cristo. Nada de nossa vida está fora da luz que emana de Cristo. No segundo domingo dos anos A, B e C, lemos o evangelho de João. É a apresentação de Jesus aos discípulos, como o faz hoje João Batista. Esse segundo domingo tem uma característica particular. Em Caná, manifestou-se sua glória e os discípulos creram nele. É uma continuação da Manifestação do Senhor no Natal e abertura da manifestação de Jesus no tempo de sua obra de anúncio do Reino. No período do Tempo Comum, também chamado Ordinário – segue a ordem – temos também a celebração dos santos e da Santíssima Virgem Maria, sempre chamada de Mãe de Deus. É o mistério de Cristo vivido pelos fiéis, como foi vivido em totalidade por Maria. Os santos são apresentados como modelos e intercessores. Eles viveram o Evangelho. Unidos a nós no Corpo de Cristo intercedem por nós na intercessão e mediação de Cristo. Maria, por ter estado unida a Cristo em todo o mistério da Salvação, continua unida a Ele na obra da Redenção. Cristo, seu Filho, unido a ela pela encarnação, continua unido na glorificação.

Eis o Cordeiro de Deus!

Jesus é chamado de Cordeiro de Deus. Colocamo-nos junto como os discípulos no seguimento de Jesus. A palavra de João Batista é clara: “Eis é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo… Este é o Filho de Deus. Ele está cheio do Espírito Santo” (Jo 1,29-34). Ele é a salvação que vai chegar até os confins do mundo. Esta salvação acontece quando acolhemos Jesus em nossa vida. Deus. A palavra cordeiro, talyâ’ em aramaico, significa servo, cordeiro, jovem, jovem de confiança e ainda pedaço de pão (Tomás Frederici). Abraão oferece um cordeiro no lugar de seu filho Isaac (Gn 22.13). No templo são oferecidos dois cordeiros por dia (Ex 29,39). Jeremias usa a imagem do cordeiro: “Mas eu, como um cordeiro manso, sou levado ao matadouro” (Jr 11,19; Is 53.7). São as atitudes de Cristo como redentor. Ele é sacrificado silenciosamente por nossos pecados.  Os nômades usavam o sangue dos cordeirinhos sacrificados para afastar os maus espíritos e proteger os rebanhos. No Êxodo, os judeus passaram o sangue do cordeiro pascal nos umbrais das portas para serem protegidos. Assim Jesus com seu sangue perdoa os pecados, afasta de nós o mal e nos dá nova vida. Cristo é verdadeiro cordeiro pascal (1Cor 5,7). O Cordeiro sacrificado na Cruz é a luz das nações (Is 49,6). O livro do Apocalipse mostra que Ele é digno de toda honra. Ele estará no trono com Deus. Jesus é o Servo que é luz das nações (Is 49,6).

Seguidores de Cordeiro.

O Cordeiro os conduzirá (Ap. 7,17).  Somos todos seguidores do Cordeiro. Jesus é o Servo que é luz das nações (Is 49,6). O sangue redentor de Jesus não é para poucos. A missão do Cordeiro continua no mundo através de seus discípulos, entre os quais sobressai Paulo que foi o primeiro a evangelizar os povos. Sua missão provém de um chamado especial: “Vai ao longe, é aos gentios que eu quero te enviar” (At 22.21). Seremos anunciadores na na força do Espírito Santo. Seremos luz para as nações, como o foram tantos santos.  Sendo servos participamos do sacrifício de Cristo que veio para fazer a vontade do Pai (Sl 39,9).

Leituras: Isaias 49,3.5-6; Salmo 39; 1Coríntios 1,1-3; João 1,29-34

Ficha nº 1614 – Homilia do 2º Domingo Comum (15.01.17) 

  1. O segundo domingo nos traz a manifestação do Senhor aos discípulos e o início de seu ministério.
  1. Jesus é apresentado como o Cordeiro que vem para a salvação de todos.
  1. Como Paulo, seremos anunciadores de Cristo a todos.

          Tem para todo mundo 

Jesus se manifestou revelando para nós a bondade e a misericórdia do Pai para com todos. Em Belém, no Natal, manifestou-se aos pobres pastores. Depois se revelou aos Magos, pessoas sábias e por isso humildes. No batismo de João revelou-se aos judeus. Nesse segundo domingo temos todos os anos a manifestação aos discípulos. João Batista diz: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).

          Iniciando o tempo comum, após as festividades do Natal, temos essa passagem para o Filho, que inicia seu ministério.

          Isaias apresenta o Servo de Deus (que aplicamos a Jesus) como sendo luz das nações: “Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue aos confins da terra” (Is 49,6). Essa é a descrição da missão do Cordeiro que oferecido a Deus (como eram sacrificados os cordeiros no templo) e que purifica o pecado do mundo. É a visão universal da salvação.

          Os coríntios, evangelizados por Paulo, são a primeira geração dos que recebem o evangelho destinado a todos. Essa é a vontade de Deus, por isso rezamos no salmo: “Eis que venho para fazer a vossa vontade” (Sl 39).

          O Evangelho não pode ficar guardado num livro que lemos com piedade. Ele é uma força nova que renova e propulsora que renova o mundo. Ela tem a presença do Espírito Santo.

          Continuamos essa missão de Jesus abrindo a todos o Evangelho. Francisco, nosso querido Papa, insiste numa Igreja em saída, aberta a todos e que se adianta, mesmo sem ser chamada. Chega primeiro.

nº 1613 Artigo – “Um Deus para todos”

 Magos homens da comunicação

            A narrativa da visita dos Magos a Jesus sugere muitas interpretações e indagações. O importante é a riqueza do texto que orienta. Não podemos ficar somente narrando uma historinha bonita, sem aprender o ensinamento evangélico dessas pessoas. Podemos ver que são o instrumento de Deus para mostrar a universalidade da salvação. Deus veio para todos e não só para um povo. Chegaram procurando o rei dos judeus, mas voltaram por outro caminho (Mt 2,2.12). Voltaram não para contar sobre o rei dos judeus que acabava de nascer, mas o Senhor de todos que chegara. O sentido de sua visita é a destinação da salvação para todos. Até a tradição diz que cada um deles veio de um continente e ali se encontraram. Significa justamente isso. Os Magos serão os primeiros missionários do Menino de Belém. Aprendemos dessa narrativa a universalidade da missão de Jesus. O povo judeu recebeu uma missão de acolher a revelação de Deus e ser um  instrumento maravilhoso para que a verdade chegasse a todos. Apesar das palavras dos profetas, não compreenderam. Os Magos abrem aos povos a boa notícia do nascimento de Jesus. Realizam-se as profecias. Quando os apóstolos começam a pregar o Evangelho, terão encontrado uma terra fértil. Chegada a plenitude dos tempos, diz Paulo, Deus enviou seu Filho nascido de uma mulher (Gl 4,4). A plenitude refere-se também aos outros povos que Deus preparara para acolher o Evangelho. Eles O amarão sem o terem conhecido (1 Cor 8,3).

Missão de levar aos outros

             Deus age através de seus mensageiros. Em sua condição Divina, torna-se impossível a comunicação. Essa comunicação Deus a faz através de seus mensageiros. A encarnação de Jesus que veio como Palavra do Pai, deu-nos a oportunidade de ver Deus face a face. Jesus envia seus mensageiros, os apóstolos e os discípulos para anunciarem a Boa Nova – Evangelho. Acolhendo essa comunicação entramos em comunhão com a Trindade. Como o Espírito sopra onde quer (Jo 3,8), aquele que acolhe Jesus, está sempre em movimento de acolhimento e de anúncio. Não guarda para si, mas está em contínua comunicação. Essa força vem da presença do Comunicador do Pai. Quem conhece o Amado, diz, Beata Maria Celeste Crostarosa, tudo faz para que seja conhecido e amado. Para isso não desanima, mesmo que as condições, mesmo físicas, sejam insuficientes. Impressionava muito S. João Paulo II em seu vigor de anunciar, mesmo em estado de saúde precário. A evangelização não nasce de uma decisão pastoral, embora já seja bom, mas de uma decisão de vida: “O meu amado é para mim e eu sou para Ele” (Ct 2,16). É isso que podemos chamar de mística. A mística da evangelização nasce do Amor que foi amado. Sem Jesus comunicador do Pai, a evangelização não acontece.

Fortaleza na fé

            Todos os tempos são difíceis, dizem todos os tempos. São difíceis, pois há sempre desafio. Aqui entra o papel da fé. Fé não é somente crer em um punhado de verdades, mas ver a vida e o mundo com a verdade de Deus. A palavra fé na escrita cuneiforme da Babilônia é desenhada como uma fortaleza bem defendida. Ela está acima do próprio viver da pessoa que é capaz de dar a vida sustentada por ela. Por ela as pessoas se dedicam ao bem, sem se entregar à moleza do comodismo. Assim são os que se dedicam em levar aos outros o que encontraram, como os Magos. Partiram por outro caminho. Não era mais a busca de um recém nascido, mas o anúncio a todos os povos do Salvador que chegou para todos. Os Magos nos dão ensinam a universalidade da salvação e a missão de anúncio dessa verdade.

 

nº 1612 – Homilia da Epifania do Senhor (08.01.17)

Deus veio para todos 

Vimos sua estrela no Oriente.

 A Epifania é o segundo momento da Manifestação do Senhor. É o mesmo Mistério visto sob outro ângulo. O primeiro é o Natal, o terceiro é o Batismo de Jesus e o quarto é a manifestação aos discípulos em Caná. Deus se manifesta aos humildes do povo, aos Magos, aos judeus no batismo e por fim aos discípulos.  Os Magos eram estudiosos do movimento dos astros. Eram homens de verdadeira ciência, pois conheciam os caminhos de Deus. Conheciam a profecia de Balaão: “Vejo, mas não agora, contemplo, mas não de perto: Um astro se levanta dos acampamentos de Jacó e se torna chefe” (Números, 24.17). Este astro não é a estrela dos presépios, mas o próprio Cristo. Quando a viram sobre o lugar onde estava Jesus, sentiram uma alegria muito grande. Entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe. Adoraram e depois abriram seus cofres e ofereceram-Lhe presentes: ouro incenso e mirra. Sobre os Magos ficamos mais no nível da simbologia do que da história. O mais importante é ver o que significa a narrativa. Para isso temos as outras leituras. Os nomes Gaspar, Baltazar e Melquior também são simbólicos. São tradições bem posteriores. Suas “prováveis” relíquias estão em Colônia desde o ano de 1164. Tinham sido trazidas da Palestina para Constantinopla, levadas para Milão e daí para a Alemanha. O principal é a verdade do Evangelho: Jesus veio para todos.

A grande revelação

O profeta Isaias diz a Jerusalém: “Levanta-te Jerusalém porque chegou a tua luz”. Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti… O mundo em trevas vê uma luz (Is 60,2). Os Magos representam todos os povos pagãos que buscam Deus e O encontram em Jesus, revelação do Pai. São Paulo ensina na carta aos Efésios, que recebeu a revelação de Deus e teve conhecimento do mistério: “Todos os povos são admitidos à mesma herança, como membros do mesmo corpo são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do Evangelho”. Deus é o Deus de todos. Não era essa a mentalidade judaica. Cristo veio para todos. Infelizmente, depois de 2.000 anos ainda temos uma imensa humanidade que ainda não recebeu este anúncio. Ainda temos que anunciar. No momento, em lugar de buscar novas formas, estamos esfriando o ardor missionário. Pode ser que nossa fé não seja suficiente para entusiasmar a missão. A Igreja está se embaraçando e se perdendo em ritualismos e legalismos, sem lembrar os males que obscurecem o anúncio do Evangelho. Há os que pensam que Deus não serve a nada.

                                                            Ofertas dos povos              

A oferta de ouro, incenso e mirra significa que o Cristo que nasce e, que eles adoram, é o Senhor rei do universo a quem oferecem o ouro. É Deus, a quem oferecem o incenso de adoração. Mas é também o homem das dores, que participa de nossas fraquezas, dores e morte, por isso a mirra. Ela é uma resina que era usada para embalsamar cadáveres e servia de anestésico para a dor. Esta é a resposta que podemos dar ao Menino que nos foi dado. Herodes recusou e quis matá-Lo. Os Magos acolheram, adoraram e voltaram por outro caminho. Não fizeram o jogo de Herodes. Herodes continua vivo em tantos projetos que destroem a vida ou o coração dos pequeninos. Uma renovação da fé deve se espelhar na atitude manifestada por esses homens. Procurar Deus, mesmo através das ciências humanas. O conhecimento da Palavra de Deus fundamentará essa busca. E por-se a caminho, não deixando se envolver por ideologias que querem eliminar o Menino.

Leituras:Isaias 60, 1-6; Salmo 71; Efésios 3, 2-3a.5-6;Mateus 2, 1-12

Ficha nº 1612 – Homilia da Epifania do Senhor (08.01.17) 

  1. A celebração Epifania do Senhor, manifestação de Deus, é cercada de muitos símbolos que nos fazem entender a missão de Jesus.
  1. Como Paulo, entendemos que Jesus veio para todos os povos. Os reis são o símbolo.
  1. Os presentes de ouro, incenso e mirra exprimem a condição de Jesus: Deus, Homem e sofredor. Os Magos são um modelo de busca de Deus.

            Velhinhos danados.

Não sabemos se eram velhos, pois a sabedoria é um dom dado também aos jovens. Não sabemos o que eram, como eram, de onde eram e o que faziam. Não tinham nomes. Os nomes que damos vieram muito mais tarde. Não eram reis, nem feiticeiros. Uma coisa é certa: Eram sábios. Estavam seguindo uma estrela. Eram gente boa, pacífica e sincera.

Quando chegaram a Jerusalém procurando o rei dos judeus que acabava de nascer, a cidade pegou fogo. Até Herodes se ouriçou. Ainda mais ele que era cioso de seu poder e para isso matava para se defender.

Herodes reúne os entendidos na religião para saber o lugar do nascimento do Messias. Todos sabiam, menos ele. É interessante que nossos poderosos são de uma ignorância religiosa que dá vergonha. Nem todos, mas a maioria. Por isso fazem tanta danura.

Vão a Belém e a estrela brilha sobre o lugar onde estava o Menino. Na verdade, o Menino Jesus é a estrela. O evangelho diz que se alegraram com uma alegria muito grande. É a alegria divina. Adoraram e abriram seus presentes: ouro, incenso e mirra. Não se trata só de um presente, mas o reconhecimento de Jesus como Rei, Deus e Homem das dores.

            Eles, espertos, percebendo o golpe que Herodes queria dar e que acabaria também com eles, voltaram para suas terras por outro caminho. Depois que a gente encontra Jesus, sempre mudamos os caminhos.

            Lembramos que são pagãos esses homens. Deus se abre a todos que O procuram. Entramos em seu pensamento de vamos levar o Messias a outros, porque Ele tem muito a oferecer a cada pessoa. A salvação é para todos os povos.

nº 1611 – Artigo “Frutos do Natal”

A Família se Renova

Os dias de Natal privilegiam a união da família. Procura-se ir longe para poder estar com aqueles que amamos. Os que são solitários sofrem com a ausência de alguém com quem compartilhar. Criticamos o comércio do Natal. Apesar de ser verdade, entendemos que dar presentes é uma alegria. A exploração não destrói o aspecto de fraternidade que o Natal cria. A simbologia da ternura torna-se a rainha do momento. Deus que se fez homem na pessoa de Jesus, o Filho eterno do Pai, uma criança filho da mulher. Essa ternura se transmite aos que vivem esse momento, mesmo que não seja da mesma fé. Tudo é fruto da ternura de Deus. Esse momento privilegiado da família pode ser uma fonte de renovação da família. Os presentes expressam bem aquilo que Deus nos oferece como presente em seu Filho. Há uma oração do dia de Natal que diz: “Acolhei, oh Deus, a oferenda da festa de hoje, na qual o céu e a terra trocam seus presentes. Dai-nos participar da Divindade Daquele que uniu a Vós a nossa humanidade”. Diz também: “Oh admirável comércio”! Deus nos deu sua divindade e nós lhe damos nossa humanidade. A troca de presente expressa essa verdade de nossa fé. Esse clima orienta a vida de nossa família na qual cada um é um presente para o outro. Mais que coisas, o presente expressa a doação que fazemos de nós mesmos. A família se enriquece na fraternidade. Quanto mais irmãos, mais o Natal acontece em nossa vida.

Amigos de Deus

Há sempre uma preocupação com aqueles que não têm nada para o Natal. Por isso temos a distribuição de presentes, atenção às crianças pobres e cestas de Natal. Há um desejo que haja um Natal sem fome. Os queridos de Deus são procurados e atendidos. O nascimento de Jesus traz uma preocupação de solidariedade. Não pensemos que o Natal seja universal. Há culturas que não sabem nada de Jesus. Os que sabem se dedicam com carinho, querendo ser a mão de Deus acariciando a todos. Jesus é a máxima expressão do carinho de Deus. É um aprendizado grandioso. Como Deus foi solidário conosco em nossa situação de miséria criada pelo pecado que nos fechou as portas do Paraíso, assim queremos ser solidários, continuado o gesto de Deus. A pobreza de Cristo não quer canonizar a pobreza como sendo a melhor condição de vida. Quem faz opção pela pobreza é para ser solidário para que todos saiam da pobreza que destrói os valores humanos. Nenhum homem ou mulher pode se sentir menos humano. Deus escolheu a pobreza para nascer, para evangelizar e para constituir o seu povo. O absurdo é não pensar em ser solidário. O bem que temos é para repartir. Ninguém vai ficar menos rico por ser solidário.

Nada se perca

A solidariedade de um dia só pode aumentar a ausência dos bens necessários para a vida. A fraternidade nos leva à solidariedade o ano todo. O gesto do Natal seja uma escola para que aprendamos a servir os mais necessitados. Tudo pode sair melhor se a comunidade se organiza. Jesus disse aos discípulos depois da multiplicação: recolhei os pedaços que sobraram para que nada se perca. Quanto se perde em nossa sociedade! O meu supérfluo é de direito do necessitado. Os bens da terra são para todos. Ninguém é dono de tudo de modo a dispor a seu bel prazer. Tudo o que temos, mesmo feito por nós, pertence de algum modo ao mundo. Quem tem é porque recebeu algo já feito, desde o ar até ao trabalho das pessoas. Não podemos responder como Caim: “Então o Senhor perguntou a Caim: “Onde está seu irmão Abel? “Respondeu ele: “Não sei; sou eu o responsável por meu irmão?” (Gn 4,9). O irmão está em nosso coração, onde habita Deus.

nº 1610 – Homilia da Santa Mãe de Deus (01.01.17)

“SANTA MÃE DE DEUS” 

Cristo é nosso astro guia

No início do ano civil a Igreja celebra a festa de Santa Maria, Mãe de Deus. Rezamos na oração: “Ela nos trouxe o Autor da Vida”. Pela virgindade fecunda de Maria, Deus nos deu a salvação eterna, pois nos trouxe o Autor da Vida. O ano novo brota também desta relação bonita da humanidade com a divindade nos braços da Mãe. Esta é a nascente de toda benção: “O Senhor faça brilhar sobre ti sua face e te dê a paz” (Nm 6,26). Não acredito em e nem leio horóscopo. Não me baseio em astros, pois não passam de belas estrelas que um dia estarão apagadas. Formam figuras imaginárias. Tenho um astro vivo e eterno, Jesus, imagem do Pai, rosto de todo homem e mulher. Neste início de Ano Novo vamos recorrer um horóscopo cristão que oriente todo nosso ano de 2017. São três elementos que orientam: O sol, não aquele que ilumina de dia e se esconde de noite. O Sol que veio nos visitar. Não ficou no alto, desceu e nasceu de uma Virgem. Depois do Sol, temos a figura dos pastores. Eles foram a Belém para ver o que os anjos lhes anunciaram. Encontraram o Menino na manjedoura (Lc 2,8-20). O terceiro elemento é você mesmo, pois, nos horóscopos, somos marionetes e escravos nas garras de astros e de um monte de fantasias. Mas você é filho adotivo, “predestinados a ser a imagem de seu Filho” (Rm 8,29). Por isso podemos dizer Abbá, Pai. “Somos filhos, e se somos filhos, somos herdeiros de Deus” (Gl 4,7). A vida, conduzida pelo Sol Nascente, será iluminada. Para Ele, mesmo as trevas não são escuras… e a escuridão é tão brilhante como a luz (Sl 139,12).

Receita para bem viver:

O primeiro elemento de nosso horóscopo cristão: você não recebe uma mensagem de fora, numa lei cega de rotas de astros com mensagens forjadas. É você, que olhando o Astro do presépio, Jesus, sabe a direção a tomar em sua vida, pois Ele é o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,60). Ele dá a palavra orientadora. A palavra que dirá o que somos é a Palavra de Deus. Ela orientará o que devemos fazer para chegar à felicidade e vencer o mal. O segundo elemento é você que saberá madura e livremente buscar as soluções dando os passos para ir até Belém como os pastores; saberá ouvir como Maria e meditar no coração o que vê e ouve. O pastor é o terceiro elemento: Jesus, Astro Rei, foi apresentado aos pastores. Sem a dimensão do irmão necessitado, não poderemos jamais nos considerar cristãos sérios e santos. A orientação da Palavra de Deus, dada pelo Astro Jesus, vai nos endereçar a atenção, o carinho e a caridade para com os mais necessitados. O diálogo com os pobres é elemento fundamental na pessoa de Jesus. Assim poderemos viver um ano feliz, pois “o Astro, Jesus” nos guiará. Só teremos força para ir aos pobres, se formos pobres diante de Deus, isto é, vazios de nós mesmos e cheios do amor que constrói.

Bênção que se constrói

O Senhor te dê a paz (Nm 6,22-27). Queremos paz! Queremos um caminho seguro sem guerras, violência e tiranias. Basta fazê-lo. Queremos a bênção de Deus. Jesus é esta bênção. A bênção é um dom e uma missão: recebemos uma bênção para que sejamos uma bênção para todos, mostrando-lhes a face de Deus. Receita de felicidade: Ter um coração como o de Maria: “Guardar tudo que acontecer, meditando no coração” (Lc 2,19). Tenha certeza: Não se mede a quantidade de anos de nossa vida, mas a vida que colocamos nesses anos. Teremos todas as bênçãos que desejarmos se, primeiro formos uma bênção para os outros.

Leituras:  Números  6,22-27; Salmo 66; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21

Ficha nº 1610 – Homilia da Santa Mãe de Deus (01.01.17)

  1. Jesus é o astro que nos orienta nesse novo ano.
  1. Buscará em Jesus palavras orientadoras para sua vida. Estas o levarão a buscar os necessitados.
  1. Receita para o Ano: Ter um coração como o de Maria e ser uma bênção. 

            Nome certo 

 Maria, aquela de Nazaré que deu à luz um menino que tinha mãe e não tinha pai terreno. Ela tinha marido, mas o pai era outro, que já era Pai. O Pai gerara o Filho eterno. A mãe gera o Filho que é Deus. Se ela fosse fazer a carteira de identidade tinha que colocar como nome, Maria, Mãe de Deus. Era sua identidade. Quando vai visitar Isabel, essa já usa o nome certo: “De onde me vem que a Mãe do meu Senhor me visite” (Lc 1,43). Senhor, para os judeus era o Todo Poderoso. Está na Bíblia! Maria reconhece essa sua identidade quando diz: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada, pois o Todo Poderoso fez grandes coisas por mim. Santo é seu nome” (Lc 1,48-49). Tem consciência do que ela é.

As mães são assim. Um dia escrevi um livro e disse à mamãe que não interessava dar o livro para ela, pois era um assunto que não lhe interessava. Olha o que me disse: “Interessa sim, pois fui eu que escrevi”. Tem consciência que aquilo que há em mim está unido a ela. Mãe é mãe. Maria não renunciou seu direito.

Esta festa é celebrada na lembrança da proclamação do dogma da Maternidade Divina. Negar que Maria seja chamada Mãe de Deus é negar que Jesus seja Deus. Então Ele seria só um homem e não Homem-Deus, como nos reafirma o Concílio de Éfeso (23 de junho de 431). Podemos rezar com entusiasmo: “Santa Maria, Mãe de Deus”. O povo fez festa a noite toda.

Iniciamos o ano no colo da Mãe recebendo as bênçãos do Pai. A bênção que Deus nos oferece é mostrar seu rosto bondoso para nós. Vai ser um ano bom. Sugestão: Fazer como Maria, nossa Mãe, fazia: Guardava tudo meditando em seu coração.

Mesmo com toda essa grandeza ela mantém sua simplicidade de mulher do povo, pobre, morando num fim de mundo, mal afamado. Sabe de sua humildade e aceita: “O Senhor olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,48). Assim Jesus aprendeu de pequeno com a Mãe a amar e cuidar dos necessitados e a ser simples, sem vergonha de ser pobre. Essa é a bênção que fica.

nº 1609 – Artigo “Na casa de Nazaré”

  1. Consagrar-se a Deus

            O Beato Paulo VI, quando foi em peregrinação à terra de Jesus, Israel, fez uma visita a Nazaré. Fez uma bela reflexão a partir do que sentia por estar naquele lugar santificado pela presença de Jesus, Maria e José. Diz: “Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho. Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa manifestação tão simples, tão humilde e tão bela, do Filho de Deus” (Alocuções 05.01.64). Que podemos aprender de Nazaré? A Sagrada Família mostra muito bem como viver para Deus num mundo que insiste em é negá-lo. Certamente podemos pensar que o povo de Israel tinha fé, era religioso e devoto. Mas… acabaram com Jesus e recusaram o Evangelho. Já desde o Antigo Testamento, na linguagem dos profetas, se fala de um resto fiel, os pobres de Javé (Sf 3,13). A família de Jesus, seus discípulos e seguidores eram os pobres. Viviam para Deus, nas muitas dificuldades e até violências da vida. A vida da família de Jesus por viver em Nazaré, que era lugar pobre e sem expressão, vive a intensidade da vida. Inclusive religiosa, pois ali não havia uma organização do culto como nas grandes cidades. Ser consagrado a Deus (nazareno) exige essa abertura total a Deus na simplicidade. É uma escola. Percebemos isso na vida de Jesus. Nessa vida foi educado. Sempre para Deus, em qualquer situação e circunstância. Cantamos: “Na casa de Nazaré, o sim ecoou sereno e Deus se fez pequeno”. Responder a Deus é simples e discreto.

  1. Pobreza como riqueza

             Nazaré, segundo os estudos arqueológicos, era um lugarejo fora das rotas das estradas. Devia ter uns duzentos habitantes. Eram muito humildes e pobres. Eram capazes de viver intensamente com o pouco que tinham. A pobreza que se prega, não é tanto a falta de coisas, mas a abertura para Deus como maior riqueza. Então tudo é grande, é precioso, é rico. Podemos dizer que o melhor recheio para um pão sofrido é o amor. O desapego faz de qualquer coisa uma grande riqueza. Receita para uma boa saúde: pão com amor. Procuramos encher nossa vida com tanta coisa. O pouco quando é amado é grande riqueza. Não procuramos que faltem coisas. Queremos a fartura para todos. Mas a fartura sem o sentido da riqueza de Deus nunca satisfaz. A pobreza que aprendemos em Nazaré é a riqueza do coração. Quanto faz falta para nós a simplicidade, a capacidade de servir, de ficar feliz em todo lugar, mesmo se falta alguma coisa. Vivendo no amor, tudo é gostoso e rico. Um colega missionário, vivendo na Angola durante a guerra dizia: “A gente comia folhas e era feliz”. Faltava tudo. Tinha o alimento para o coração.  Não se quer miséria.

  1. Buscar água no poço

            A família de Nazaré ensina também a viver com os outros. Quantas vezes Jesus e Maria terão ido ao poço buscar a água. As casas eram extremamente humildes. Quem sabe um cômodo para a família e algum ambiente para animais e as poucas reservas. Jesus era filho do carpinteiro, mas suas parábolas são sobre o campo e o lago. Ali cada um tinha sua pequena plantação e alguns animais. Era uma grande família. Viviam próximos e dedicados uns aos outros. Tudo era comum. Problemas não faltavam. É nesse ambiente que devemos procurar as virtudes da Sagrada Família e fazer sagrada a nossa família. Nesse ambiente simples, a simples família foi suficiente para educar o Filho de Deus feito Homem. Em qualquer circunstância podemos ter um coração capaz de amar e servir a Deus. Assim o povo sofrido poderá encontrar nova sorte.

nº 1608 – Homilia do Natal de N. S. Jesus Cristo (25.12.16)

“Vimos Deus” 

Nasceu-nos um menino

            O povo de Israel tinha consciência da impossibilidade de ver Deus (Ex 33,20). Ver Deus significava morrer. Que mais existe no mundo depois que se vê a Deus? É o que celebramos no Natal: Deus se manifestou e nós vimos sua face. Deus se manifestou em seu Filho. A festa do Natal celebra o nascimento do Filho de Deus no mundo, como um de nós, desvestido da glória da divindade. A celebração não é como uma comemoração de um aniversário, mas a presença do Mistério Pascal de Cristo em sua manifestação. Participamos do Mistério e recebemos a graça: “Todos que O receberam aos que creram no seu nomedeu o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). “Pois o Verbo se fez carne e habitou entre nós; e nós vimos sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1,14). Não basta só parar diante do presépio e contemplar a ternura e beleza, mas ir mais adiante, acolher a manifestação de Deus. O Menino que nasce é a manifestação de Deus para que todos creiam e acolham para que tenham vida e vida em abundância (Jo 10,10). Veio para atrair a todos a seu Amor e sua Vida. Veio gerar comunhão com a Divindade. Devemos ir além da ternura e chegar à graça que é a vida de Deus que nos é comunicada. Não se trata do início de uma nova religião, mas o retorno do homem a sua origem, ao paraíso. É preciso sair dos mitos, dos contos bonitos, e entrar no coração de Deus. Aquele Menino deitado num cocho é o Unigênito Filho do Pai. Por isso os Anjos cantam. É um acontecimento que envolve o Céu e a terra.

Resgatou-nos da maldade

            A liturgia, ao proclamar o texto de Isaias (Is 9,1-6), manifesta a alegria e a compara com coisas tão humanas como a colheita e a vitória. Acabou o sofrimento do povo durante uma guerra. Resgatou o povo do sofrimento, pois “manifestou-se a graça de Deus trazendo a salvação para todos os homens” (Tt 2,11). A encarnação do Filho de Deus não é uma lenda, mas uma realidade libertadora: “Ele se entregou por nós para nos resgatar de toda a maldade e purificar para Si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem” (Tt 2,14). A redenção, que é expressão do amor de Deus, modifica o homem na sua condição de pecador para que pratique o bem e se restaure o universo. O próprio nome Jesus indica que Deus é salvação, “pois ele salvará seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21). Pecados não são aquelas coisas que chamamos de moralismo, mas atuará na raiz no mal. A redenção não visa em primeiro lugar o mal, mas, sobretudo a união com a Divindade. Em Cristo a humanidade se uniu à divindade. Essa humanidade é a nossa. Ele a recebeu de Maria, pois o anjo disse a ela: “O Filho que nascer de ti será chamado Filho do Altíssimo”. Jesus tomou a carne de Maria que é de nossa humanidade. Jesus não é só um personagem da história. Ele é a irrupção do Divino no humano. A beleza no Natal não pode afogar Jesus.

A glória do futuro

            A oração da Eucaristia da noite, chamada missa do galo porque começava com o canto do galo à meia noite, nos ilumina: “Ó Deus, que fizestes resplandecer esta noite santa com a claridade da verdadeira luz, concedei que vislumbrando na terra esse mistério, possamos gozar no céu sua plenitude”. A celebração do Natal nos leva a buscar o Céu. Lá é que estão as verdadeiras alegrias. Conhecer e acolher Jesus é entrar em um novo modo de vida. O Natal não é um dia, é uma eternidade. Deus vem a nós e nós vamos a Deus para partilhar da comunhão eterna, já, enquanto peregrinos. Feliz Natal em Jesus.

Leituras: Missa da noite: Is 9,1-6; Sl 95; Tt 2,11-14;Lc , 2,1-14 -jo 1,1-18 –

Missa do Dia: Is 52,7-10;Sl 97; Hb 1,1-6;Jo 1,1-18.

Ficha nº 1608 – Homilia do Natal de N. S. Jesus Cristo (25.12.16)

  1. No Natal celebramos a manifestação de Deus na carne humana. É Homem.
  1. A encarnação do Filho de Deus não é uma lenda, mas uma realidade libertadora: Ele é a irrupção do Divino no humano.
  1. Conhecer e acolher Jesus é entrar em um novo modo de vida.                                  

                        Um dicionário de carne

              No dia de Natal temos três missas diferentes: uma à noite em que celebramos o nascimento de Jesus, outra na manhã lembrando os pastores e outra durante o dia celebrando o Verbo de Deus encarnado. Essa tradição vem dos usos do Papa em Roma que celebrava em três comunidades diferentes.

              Estamos diante do mistério de um Deus que nasce entre os animais, numa gruta, em Belém, cidade originária da família de Davi. Estavam ali para o recenseamento. Ali oficialmente está colocado na lista dos cidadãos do mundo. O imperador quis contar todos os cidadãos da terra.

              No evangelho de S. João esse Menino é o Verbo Eterno de Deus nascido do Pai antes de todos os séculos. Ele é um com o Pai. Com Ele é o Criador. Esse Filho se encarnou e habitou entre nós, não como um passageiro, mas como participantes de nossa vida e nossas atividades.

              “Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens”.  Essa luz que brilhou foi recusada, pois as trevas não conseguiram dominá-la.

              O Natal continua vivo e presente entre nós, sobretudo quando ouvimos a Palavra de Jesus e assumimos sua vida. Nasceu para dar vida. Assim o Natal pode durar o ano todo.

              Vendo a alegria dos pastores podemos ser para os humilhados um momento de alegria que os conduza também a Belém.

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nº 1607 – Artigo “Chego amanhã”

  1. Liturgia que encanta

            A liturgia do tempo do Natal procura levar o cristão a compreender o mistério do nascimento de Jesus e sua encarnação numa linguagem consistente de ensinamento e extremamente terna, como terno é o Deus que nos deu seu Filho. A própria liturgia mostra seu encanto diante da benignidade de nosso Deus como diz S. Paulo a Tito: “Quando a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, se manifestaram, Ele salvou-nos… por sua misericórdia fomos lavados” (Tt 3,4-5). Os ensinamentos nos conduzem ao presépio, forma visível de seu nascimento, e encontrá-Lo na solene liturgia. Ali se realiza sacramentalmente. Ao celebrar estamos não diante de um presépio, mas participando da realidade de modo sacramental. Recebemos tudo que Deus nos ofereceu em seu Filho e ofertamos tudo o que somos e temos. Quando algo nos atrai e encanta, nada pode tirá-lo de dentro de nós. Aqui temos a importância de não perder de vista o mistério que celebramos, mesmo participando das alegrias que a data oferece. Nesses dias de preparação, há como que uma recordação atualizante, isto é, faz acontecer de modo místico, a história da salvação que culmina no Deus Conosco. Na proximidade do Natal estamos participamos dessa história de Salvação. Num jogo de palavras da liturgia de preparação, podemos ouvir a resposta de Deus às nossas súplicas: Estou chegando amanha! Notícia boa. Ele é Emanuel, Deus Conosco.

  1. Festa de irmãos

            “Nasceu-nos um menino, um filho nos foi dado!” (Is 9,5). Traz nossa marca humana. A carta aos Hebreus nos ensina: “Tanto o Santificador quanto os santificados descendem de um só: razão porque não se envergonha de nos chamar de irmãos (Hb 2,11). A fraternidade do Natal não está nas alegrias da festa, o que já é um bom sinal, mas na profunda identidade que temos com Cristo, como filhos do mesmo Pai. Além do mais, o Filho de Deus, feito homem, participa de nossa condição humana. “Convinha, por isso, que em tudo se tornasse semelhante aos irmãos, para ser, em relação a Deus um sumo sacerdote misericordioso e fiel… Pois Ele mesmo, tendo sofrido pela tentação é capaz de socorrer os que são tentados”(Hb 2,17-18). Somos irmãos no mesmo sangue que corre nas veias de Cristo. Mais ainda, por participarmos de sua natureza que é unida à Natureza Divina. Desse modo a celebração do Natal está mais na fraternidade que nasce do Cristo que numa celebração amiga onde nos abraçamos e damos presentes.

  1. Festa de filhos .

            “Vede que prova de amor nos deu o Pai que sejamos chamados filhos de Deus e nós o somos” (1Jo 3,1). Todo o mistério do Natal, isto é manifestação de Deus da qual participamos, não é algo distante de nós ao qual assistimos. Participar não significa fazer alguma coisa. Participar do “Mistério”, é viver, através dos símbolos, aquilo que nos é apresentado. Vivemos o Mistério da Encarnação e do Nascimento do Senhor não somente como assistentes, mas como participantes no que se refere a nós. À medida que acolhemos, recebemos a graça dada por Deus nesse acontecimento Divino e humano. Estamos acostumados a rezar para pedir ou agradecer. Mas o rezar é acolher o Deus que se revela. Por isso é festa dos filhos, como donos da casa e atores da ação sagrada. Podemos dizer que estamos mais perto do nascimento de Jesus do que aqueles que estavam ali junto, pois participamos pela fé que nos une ao Senhor que realiza essa maravilha. Dizer “chego amanhã, é a resposta que Deus dá ao nosso envolvimento com seu nascimento.

nº 1606 – Homilia do 4º Domingo do Advento (18.12.16)

“Ele vai salvar seu povo” 

José, esposo de Maria

            A partir do dia 17 de dezembro já estamos na preparação imediata do Natal, por isso, o quarto domingo do Advento nos traz a narrativa do anúncio do nascimento de Jesus a José. José e Maria estavam já na primeira fase do casamento que era o contrato. Já eram casal. Depois vinha a festa quando a noiva era levada para casa do noivo. Maria está grávida por ação do Espírito Santo. Sem saber, José pensa em abandonar e não denunciar a esposa que seria condenada à morte. Durante o sonho Deus comunica o que acontecera. Sonho era um modo de conhecer a vontade de Deus. É comum no Antigo Testamento essa comunicação da vontade de Deus. José é chamado filho de Davi, pois daria o nome a Jesus e a descendência de Davi. A gravidez de Maria é por ação do Espírito Santo. Pertence a Deus. O nome da criança é simbólico, e já é logo explicado: “pois vai salvar seu povo de seus pecados” (Mt 1,21). Vemos a seguir que, para anunciar a virgindade de Maria, Mateus procura o fundamento na Escritura no oráculo da virgem que daria à luz um filho. Vemos como se usa a Escritura para confirmar. Deus dá um sinal a um rei que não quer saber de sinais. A profecia não se refere a um parto virginal. A tradução para o grego já faz a interpretação. Essa tradução é anterior a Cristo. Recebendo Maria como esposa, José simboliza a Igreja que acolhe Cristo. Assim se interpreta a fé desse homem que recebeu a missão de ser o pai legítimo de Jesus perante a lei, pois o acolheu e deu o nome. É a atitude de fé que sabe ouvir o Espírito Santo nas decisões fundamentais da vida.

Nasceu para todos

            Os textos do evangelho contam a situação na encarnação do Filho de Deus. Contudo, o nascimento de Jesus não é uma questão familiar. Paulo, escrevendo aos romanos coloca clara a questão da universalidade da salvação. Foi escolhido para o Evangelho de Deus. Sua vocação é um chamado para o apostolado “a fim de que poder trazer à obediência da fé todos os povos pagãos para a glória de seu nome” (Rm 1,5). O salmo convida a que se abram as portas para que o Rei da Glória possa entrar (Sl 23). O acontecimento não é somente uma questão local, mas abrange todo o universo. Além do mais, a terra e o mundo interno pertencem a ele. Toda a beleza do Natal que ainda resta, é um testemunho ao mundo que Ele nasceu para todos. Ainda sobrevive a ideia do rei Acaz de que não vai importunar Deus: “Não pedirei nem tentarei ao Senhor” (Is 7,12). Descartar Deus é o que, inclusive os bons cristãos, fazem. A vida não é direcionada a Deus, nem por Ele dirigida. Erigiram-se templos e altares a deuses feitos por nossas mãos. Quando a gruta de Belém perde seu calor é porque o ser humano já perdeu seu sentido.

Espírito de Belém

            Na última semana do Advento temos a preparação imediata que nos coloca em relacionamento com Cristo em seus títulos. Ele é a Sabedoria, o Senhor, a Raiz de Jessé, a Chave de Davi, o Emanuel, o Sol Nascente e o Rei e Senhor das Nações. Ensinam-nos a conhecer a Cristo e desejá-Lo. Por isso o Advento é um clamor: “Vinde, Senhor Jesus!”. O espírito de Belém é a abertura para acolher. Por isso o símbolo da gruta aconchegante, quentinha (os animais aquecem o ambiente) pelo calor humano da fraternidade. Acolher Jesus na pessoa do outro, sobretudo os familiares e também, no gesto da fraternidade, com os necessitados. Os presentes respondem ao presente de Deus para nós que é Jesus. Encontrar Deus é sair de si. Reunir-se é esquecer o egoísmo. Belém é aqui.

Leituras: Isaias 7,10-14; Salmo 23; Romanos 1,1-7;Mateus 1,18-24

Ficha nº 1606 – Homilia do 4º Domingo do Advento (18.12.16)

  1. José entra na História da Salvação como um personagem e como um símbolo nos diversos sinais que estão no texto. Ele se deixa dirigir pela fé. Assim define a vida.
  1. Paulo em sua missão proclama que a salvação veio para todos, mesmo tendo Jesus nascido de um povo.
  1. Jesus recebe diversos nomes que manifestam sua missão. No Advento gritamos: Vinde! O espírito de Belém é a abertura para acolher na fraternidade.

  Um sonho bem bom 

              Acordar depois de um sonho gostoso é muito bom.

              No Antigo Testamento o sonho era tido como um dos meios das comunicações de Deus. Podemos entender que, quando trabalhamos as realidades na fé, é como um sonho. Deus fala por meio dela. Foi o que aconteceu com José.

              Sendo Maria prometida em casamento, aconteceu a gravidez pela ação do Espírito. Sendo prometida esposa, eles já estavam casado. Faltava a festa do casamento e o início da vida em comum. Maria aparece grávida. Explicar o quê? José pensa em abandoná-la e não expô-la, inclusive com o risco de ser morta. Foi capaz de elaborar, com o auxílio da graça, a resposta a Deus.

              Esse texto do evangelho do quarto domingo nos ensina a missão de Jesus. Como profetiza Isaias: Uma virgem dará à luz. Ele será Deus Conosco. Em Maria se cumpre essa profecia. Como rezamos no salmo, Ele é o Senhor a quem tudo pertence. É o Rei Glorioso que Se encarna. Ele é o descendente de Davi, depositário das promessas. É Dele que vem a graça do apostolado.

              Esse texto de Mateus é claro quanto à geração Divina de Jesus, nascido de uma mulher, da família de Davi. Ele tem definitivamente o trono de Davi, para sempre. Ele será o Salvador da humanidade.

              A oração da coleta da missa é uma expressão muito clara de todo o Mistério Pascal que acontece em cada acontecimento da vida de Jesus: “Derramai a graça em nossos corações, para que, conhecendo… a encarnação de vosso Filho, cheguemos por sua Paixão e Cruz à glória da Ressurreição”. É um único mistério que acontece em manifestações diferentes.

              A encarnação de Jesus não se refere só ao corpo de Maria, mas a toda a humanidade.

nº 1605 – Artigo “Um Advento diferente”

Era Natal

                        Quando morava na África, numa situação de guerra (1989-1992), celebrei a missa da noite do dia 24 às 16 h porque de noite não se poderia andar por aquelas áreas. Não havia presépio. Eram umas folhas de bananeira num canto da capela muito humilde e mais nada que lembrasse o presépio… Foi tudo cantado. Bonito. No final da missa, como não tinha um Menino Jesus, pedi que uma mamãe com o filhinho se assentasse na cadeira do padre. Beijei o pezinho dele e todos fizeram o mesmo. A criança se assustou e olhava como querendo entender aquele tanto de gente beijando seus pés. Ali estava o Menino Jesus. Ao terminar, os jovens fizeram as danças locais e cantavam: “Não podemos voltar para nossas casas porque o capim cobriu os caminhos”. Era a guerra. Em alguns países não se pode celebrar a missa de Natal porque os “contrários à fé” atacam a Igreja. É Natal. Pior guerra contra o Natal é feito em nossas casas e em nossos estabelecimentos que tiraram Jesus do presépio. Puseram só o papai Noel. Pior é ainda no primeiro mundo europeu onde não há nem estrelinhas. Jesus, por motivos bem orquestrados, também foi para o depósito. Então temos que procurar um Advento diferente e um Natal verdadeiro. Também não podemos ficar só nas cascas. Pelas leituras do Advento, vemos verter rios de esperança. A gente pode ficar até desanimado, pois já são dois mil anos e parece que ele desaparece sempre mais mesmo entre cristãos. O aniversariante não é convidado para seu aniversário.

Presépio do coração

            A estrela desse presépio é a vigilância: estar atento ao Senhor que vem. Perdemos muito da noção que o Cristo virá. Não é uma ameaça de fim de tempos, de um mundo que se acaba. Isso pode durar ainda milhões de anos. Ou pode acabar amanhã. Só o Pai sabe. O Cristo virá. Isso basta. Estar vigilante é ter os sentimentos de Cristo que estava sempre voltado para a vontade do Pai. Vivemos uma fé muito de nosso jeito e pouco do jeito do Pai. Preparar o Natal é assumir o espírito que Jesus tinha ao sair do seio de Maria, como o sol que nasce e ilumina. Nasceu de uma Virgem que continuou virgem, pois Cristo não destrói nada. Lembro a trovinha mineira: “No ventre da Virgem Santa, entrou a Divina graça. Como entrou, também saiu como o sol pela vidraça”. Sua vinda foi silenciosa como o orvalho sobre a relva. Foi no silêncio da noite. O bem de Deus não faz mal. Deus não se impõe, nos respeita. A humildade de Deus está estampada no rosto de Jesus. Humildade que ama. Deus não faz barulho e não cria holofote. Ele é Luz que ilumina e aquece sem se consumir. Preparar é assumir essas atitudes. É presépio do Natal no coração.

Bomba de efeito silencioso

Não basta uma mudança espiritual íntima, necessária também, mas que penetre nossa maneira de viver e agir. Penetre também às estruturas do mundo. Sabemos que, apesar de tudo, o mundo tem aumentado a violência e a destruição também da natureza. Não podemos nos cansar de esperar. Há tantos séculos o profeta Isaias dizia: “Estes quebrarão suas espadas, transformando-as em arados, e as suas lanças em foices. Uma nação não levantará a espada contra a outra e nem se aprenderá mais a fazer a guerra” (Is 2,4). É preciso esperança e mudança nas atitudes. Se cada um faz sua parte, todos estarão na mesma direção. O Advento preparando a Vinda do Senhor provoca uma mudança que pode levar o mundo à paz que Cristo oferece. Jerusalém não acolheu, preferiu caminho diverso. “A todos os que O receberam, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12).