nº 1634 – Homilia do 4º Domingo da Quaresma (26.03.17)

“Cristo é a Luz” 

Eu sou a luz do mundo.

Tanto no Advento como na Quaresma temos um domingo chamado domingo da alegria. Nele vemos os primeiros clarões da festa alegre que se aproxima. Temos assim o quarto domingo chamado ‘Laetare’ (alegrai-vos!) que nos indica a proximidade da festa da Páscoa. Somos convidados a “correr ao encontro das festas que se aproximam cheios de fervor e exultando de fé” (oração). Desponta o sol no horizonte e as cores inundam o céu na alegria de um novo dia. Continuamos a temática batismal. No ritual do batismo de adultos estamos na terceira etapa. Jesus faz um milagre que é assumido como símbolo do batismo. É a Iluminação. Aquele que se prepara para o batismo é iluminado por Cristo que é a Luz. Notamos que o cego não pede para ser curado, pois não conhece Jesus. A fé é gratuita. A iluminação leva ao ato de fé. Jesus fez lama com saliva e barro e passou nos olhos dele mandando se lavar na fonte chamada Siloé, que quer dizer enviado. Ele é o Enviado de Deus que lava os olhos para que veja pela fé. Antes de curar o cego, Jesus se declara luz do mundo (Jo 9,8). A cura do cego simboliza que a cegueira que impede acreditar em Jesus pode ser curada acolhendo Jesus como enviado do Pai: “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). O fechamento vem da auto-suficiência. Jesus afirma: “Eu vim ao mundo para que os que não enxergam vejam e os que vêem se tornem cegos” (Jo 9,39). Afirmando que vê, sendo cego – não iluminado por Cristo, permanece no pecado que é a cegueira.

Agora sois luz no Senhor

Ao sermos batizados somos iluminados e nos tornamos “luz no Senhor” (Ef 5,8). Essa iluminação torna-se um modo de vida: “Vivei como filhos da Luz” (8). A luz tem seus frutos: bondade, justiça, verdade (Ef 5,9), e não associar-se às obras das trevas (11). No caminho batismal, recebemos a água viva (vimos domingo passado); Cristo é a vida nova (veremos domingo que vem). Vivei como filhos da luz ensina S. Paulo. A Quaresma, sendo memória de nosso batismo, conduz-nos à renovação de nossa vida de fé. Nossa luz deve resplandecer. O batismo não é um rito que celebramos, mas uma vida que iniciamos. É um novo nascimento. Lavados e purificados pela água, somos iluminados pela graça salvadora que nos faz ver as dimensões da vida nova na novidade de Cristo. Lemos aqui o salmo 22. Ele é o Pastor que nos conduz. Leva às águas, dá alimento e repouso. Ele guia por caminhos seguros, mesmo que se passe pelo vale tenebroso. Essa é a alegria que a fé: “Felicidade e todo bem hão de seguir-me, por toda a minha vida” (Sl 22).

Deus vê o coração.

Jesus é o Ungido de Deus. Davi foi ungido por Samuel para ser rei no lugar de Saul. É escolhido entre os filhos de Isaí. Não foi nem a estatura nem a bela aparência que impressionaram a Deus nessa escolha. “O homem vê as aparências, Deus vê o coração” (1Sm 16,7). Davi era jovem e de belos olhos. Ele se torna o ungido do Senhor. Assim também o Senhor vê nosso coração e nos unge para uma missão de ser luz, para que vivamos como filhos da Luz. São Leão Magno diz aos batizados: “Cristão, reconhece tua dignidade”. Na Eucaristia, pela Palavra e pelo Pão da Vida somos iluminados para ser luz de Cristo no mundo. O cego foi ungido por Jesus com a lama feita de pó e saliva. Ao ser lavado na piscina de Siloé, que significa Enviado, voltou enxergando. Cristo é a água que lava e purifica para que veja com clareza e professe a fé em Jesus: “Eu creio, Senhor” (Jo 9,38).

Leituras: 1Samuel  16,1b.6-7.10-13ª; Salmo 22/Ef 5,8-14/Jo 9,1-41

Ficha nº 1634 – Homilia do 4º Domingo da Quaresma (26.03.17)

  1. Domingo da alegria que anuncia a Páscoa. Curando o cego Jesus nos mostra que é luz. Quem acolhe Cristo é iluminado.
  1. Ser iluminado é viver com a luz de Cristo em todas as obras.
  1. Jesus unge o cego com barro feito de saliva e pó. Davi é ungido rei para o povo. A unção ilumina para que se veja e se professe a fé.

            Lavando com barro 

            Muitos gostam de banho de lama. É muito bom para a pele. Até os animais apreciam. Mas depois do barro, tem que se lavar bem. Jesus cura o cego com lama feita de saliva e terra. A saliva tem ricos significados. Era considerada como semente da palavra. Tem poderes curativos e de destruição. O beijo está ligado à saliva num sentido de vida que é comunicada.

Jesus, ao curar o cego com a lama da saliva dando-lhe a visão, indica que o dom da fé ilumina os olhos. Éreis trevas, agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, diz Paulo. Convida: “Não vos associeis às obras das trevas” (Ef 5,8-14).

            Lavado nas águas, o cego tem a luz. No batismo somos iluminados. A fé nos faz ver a Luz. Jesus diz que somos luz do mundo: “Brilhe vossa luz diante dos homens, para que, vendo vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,14.16).

Davi foi ungido com óleo como escolhido de Deus. É uma iluminação.

nº 1632 – Homilia do 3º Domingo da Quaresma (19.03.17)

“Dá-me também desta água” 

Água da Vida

O tempo da Quaresma nos instrui como preparar melhor a Páscoa do Senhor. Este mistério de Morte e Ressurreição de Jesus chega a cada cristão através do Batismo e de sua vivência de cada dia. Por isso, neste ano, temos um temário batismal para os três domingos que se seguem. Os evangelhos apresentam Jesus como Água Viva, como lemos no evangelho que nos fala da samaritana; no quarto domingo temos o fato do cego de nascença que Jesus cura. Ele é Luz; no quinto domingo temos a ressurreição de Lázaro, pois Jesus é Vida. Com estes três temas podemos seguir o caminho de preparação para renovar o ato de fé e a graça do Batismo. A água sempre teve muita importância na vida das pessoas. É a substância mãe da qual é criado o mundo, é fonte de vida e de purificação. O Dilúvio veio purificar o universo. No Evangelho a água é símbolo da ação do Espírito Santo. A água, fecundada pelo Espírito, é fonte de vida e mata a sede de vida eterna. Jesus diz à samaritana: “Quem beber desta água nunca mais terá sede” (Jo 4,13). Esse poço, à borda do qual Jesus estava sentado, traz memórias da história do povo. O poço estava na terra em que Jacó dera a seu filho José (Gn 33,18-20). Jesus abre agora uma fonte de água viva onde tantas gerações vieram buscar água. Jesus é a Água Viva, fonte aberta a todos. É o símbolo do Batismo que nos dá Jesus, Água Viva que sacia toda sede.

Jesus é a Água Viva

Ouvindo hoje o evangelho de João que nos fala do encontro com a samaritana, recordamos Jesus que vai ao mundo diferente sem fé e oferece a água viva, que é Ele próprio, para saciar toda sede e purificar de todos os males. Ter fé é acolher a pessoa de Jesus. Assim é o batismo: pelo símbolo da água e a profissão de fé acolhemos o Salvador e temos a vida nova nascida pela água e pelo Espírito Santo, como diz o rito do Batismo. A primeira leitura mostra-nos Moisés batendo na pedra para fazer brotar uma fonte de água abundante. Deus não abandona seu povo no deserto. Esta água explica a gratuidade das maravilhas de Deus. Esta gratuidade, como nos diz Paulo na carta aos Romanos, está na prova de amor de Deus que nos dá o Filho que morreu por nós quando ainda éramos pecadores. “Quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós” (Rm 5,8).

O diálogo que salva

Desta Palavra de Deus podemos tirar algumas conseqüências para nossa vida. O contato de Jesus com a samaritana leva-a a desejar a água viva. Jesus provoca-nos o desejo de estar com Ele e conversar com Ele. Podemos conversar com Ele. Depois deste contato conhecemo-nos a nós mesmos. Jesus torna-se um espelho de nossa realidade. A mulher disse: “Ele disse tudo quanto fiz”. Depois que se conhece Jesus, não há modo de não anunciá-lo: “Vinde ver o homem que disse tudo quanto eu tenho feito. Não será Ele o Cristo?” No caminho da Páscoa passamos pelo deserto onde Moisés bate o rochedo para dar água. O coração aberto pelo golpe da lança jorra água viva para saciar a sede do povo (Jo 19,34). Essa fonte de água que jorra do coração de Cristo, lembra o Batismo e o sangue lembra a Eucaristia, sacramentos pascais. O Apocalipse fala do rio de água da vida que saía do trono de Deus e do Cordeiro que dão fertilidade e remédio para curar as nações  (Ap 22,1-2). Todos os sacramentos da Igreja nos fecundam, purificam e fortificam.

 Leituras: Êxodo 17,3-7;Salmo 94;Romanos 5, 1-2.5-8;João 4,5-42

Ficha nº 1632  – Homilia do 3º Domingo da Quaresma (19.03.17)

  1. O encontro de Jesus com a samaritana, na preparação da Páscoa, é uma catequese batismal sobre o símbolo da água que lembra Jesus Água Viva que purifica e fecunda.
  1. No símbolo da água e na profissão de fé acolhes o Salvador e temos a vida nova nascida da água pelo Espírito Santo.
  1. A cena é uma provocação ao diálogo da busca e da resposta. A samaritana, tendo acolhido, anuncia.

            Com calor, um banho vai bem.           

O tempo da Quaresma é sempre batismal. Por isso temos diversos textos que nos falam dos diversos símbolos e resultados do Batismo em nós: a água viva (samaritana). A luz (cego de nascença) e a vida (ressurreição de Lázaro).

A fé em Jesus é simbolizada pela água que dá vida. A samaritana veio ao poço buscar água e Jesus lhe dá a água viva. No deserto, Moisés tirou água da pedra para saciar a sede do povo. Deus sempre chega primeiro. Ele oferece a água viva à mulher. “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). A mulher acredita e se torna anunciadora. Jesus é a fonte de água viva. Temos acesso a esta água pela fé. Batismo não é só um rito, mas um encontro de fé que, pelo símbolo da água, nos lembra a vida que a água dá, a pureza que restitui e a fecundidade que toma conta de nossa vida.

            Assim temos o banho espiritual que nos lava do mal e faz brotar a vida.

nº 1631 Artigo -“Indicando caminhos”

  1. Formação dos bons hábitos

            Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia entra também na reflexão sobre a educação dos filhos sob o aspecto da correção. Não é liberal nem rigoroso. É humano e indica caminhos muito saudáveis: A formação ética válida implica mostrar à pessoa como é conveniente agir bem, isso para ela mesma. Muitas vezes, hoje, é ineficaz pedir algo que exija esforços e renúncias, sem mostrar claramente o bem que poderia alcançar com isso” (AL 266). Não se trata de imposição, mas de atitudes que atraiam para o bem. Por isso diz que é preciso “maturar os hábitos que levem a traduzir em comportamentos externos sadios e estáveis os valores interiorizados”. Explica que é um aprendizado a partir da repetição dos atos: “Mesmo tendo sentimentos sociáveis e uma boa disposição para com os outros, mas se não for habituada durante muito tempo, tal disposição não se traduzirá em expressões. A boa conduta se constrói com o fortalecimento da vontade e a repetição de determinadas ações” (AL 266). Lembramos o velho provérbio latino: a gota fura a pedra, não pela força, mas batendo muitas vezes. Assim o homem tem bons hábitos não pela força, mas pela repetição dos bons princípios. Vemos claramente, o que se torna mais difícil ainda a formação é a situação da família. Por isso voltamos ao que já vimos na leitura desse documento sobre o amor na família. A família está eivada dos problemas da sociedade. As ideologias influem sobre a sociedade e a mídia sabe usar o sistema de influir com idéias. Como sair desse massacre? Formação em todos os sentidos.

  1. Fazer liberdade

            Papa Francisco coloca como fundamental a formação para a liberdade e na liberdade: “A liberdade é algo de grandioso, mas podemos perdê-la. A educação moral é cultivar a liberdade através de propostas, motivações, aplicações prática, estímulos, prêmios, exemplos, modelos, símbolo, reflexos, exortações revisões do modo de agir e diálogos que ajudem a desenvolver aqueles princípios estáveis que movem a praticar espontaneamente o bem”. Voltamos sempre ao princípio do respeito à dignidade humana “que exige cada um proceda segundo a própria consciência e por livre adesão, ou seja, movido e induzido pessoalmente desde dentro” (GS 17). “A vida virtuosa constrói a liberdade” (AL 267). Na verdade, o que vemos é que, os que exigem respeito à liberdade, não respeitam a liberdade dos outros, sobretudo quando entra em meio a formação religiosa. Nessa questão, como já vimos, a família tem direito de acompanhar a educação de seus filhos na escola. A ofensa à liberdade e opções religiosas temos visto que os jovens são massacrados por pressões que destroem seu interior religioso, em lugar de promover a reflexão.

  1. Saber perceber-se

A educação almejada supõe o reconhecimento do erro não como condenação, mas como oportunidade de crescimento: “É indispensável sensibilizar as crianças e adolescentes para se darem conta de que as más ações têm consequências… devem aprender a reparar o mal causado e pedir perdão”.  O filho deve ser corrigido, não como um inimigo, com ira. “A condição fundamental é que a disciplina não se transforme numa mutilação do desejo, mas se torne um estímulo para ir sempre além”… “Deve ser construtiva de um caminho que a criança deve empreender e não um muro que aniquile” (AL 270). Se pudéssemos entender que minha liberdade vai até onde começa a liberdade do outro, seria melhor os relacionamentos e mais frutuosa a correção.

nº 1630 – Homilia do 2º Domingo da Quaresma (12.03.17)

Visão da Glória” 

Purificado o olhar da fé

               No primeiro domingo da Quaresma contemplamos as tentações de Jesus. A apresentação das tentações permite sentir a fragilidade de Jesus e a insegurança sobre a vida cristã. Os discípulos, vendo o sofrimento e a morte de Jesus, necessitavam de contemplar também sua glória para superar todo sofrimento. Agora vivemos a serenidade de sua transfiguração. Estava tão bom que Pedro disse: “É bom estarmos aqui”. Nossa fé não é só passar por tentação. “É alegria e paz no Espírito Santo” (Rm 14,17). Esse evangelho mostra o futuro glorioso da Ressurreição, depois de passada a Paixão dolorosa. Jesus se mostra transfigurado e glorificado. Assim serão seus discípulos. Um ensinamento do evangelho é a centralidade de Jesus no Novo Testamento: “Aparecem Moisés e Elias falando com Ele” (Mt 17,3). Jesus de agora em diante é a Lei e a Profecia. Não há outro a ser ouvido. Certamente os primeiros cristãos ainda estavam ligados demais à lei antiga. Isso se nota no desejo de Pedro de construir três tendas, quer dizer, viver ainda o Antigo Testamento. A Transfiguração é uma alerta aos cristãos que querem fazer um cristianismo com o espírito do Antigo Testamento sem a novidade de Jesus. O Pai ensina que agora, quem fala é Jesus, o Filho Amado. Por isso, “escutai-O!”. A vida cristã é um processo de transformação. Purificado o olhar de nossa fé (oração), nós vamos à verdade de Jesus. Não podemos fazer um cristianismo sem Jesus, baseado só em fórmulas, idéias e teorias. Cristianismo é aceitação de uma pessoa muito concreta: Jesus. É Ele que deve orientar nossa vida. Toda espiritualidade deve partir do conhecimento de Cristo e da transformação de nossa vida na sua.

 Vocação Santa

                A vida cristã tem como vocação nossa transformação em Cristo. A partir do momento em que aceitamos Jesus, iniciamos essa transfiguração. O que aconteceu com Jesus é figura da Ressurreição. Sua Ressurreição em nossa vida realiza esta transfiguração. Já participamos na terra das coisas do céu (pós-comunhão). Não vivemos de novidades, mas batalhamos como Jesus o fez. Ele sempre fez o que o Pai mandou fazer (Jo 5,36). Sofremos pelo Evangelho, como Paulo convida a Timóteo: “Sofre comigo pelo evangelho, fortificado pela graça de Deus” (2Tm 1,8b). O sofrimento não é a dor, mas o empenho de crescer e se transformar em Cristo. O processo de transformação é interior e silencioso. Deus age em nós no silêncio de seu Espírito. Ele nos conforma a Cristo de modo a sermos uma apresentação viva de sua pessoa e missão. Todo agir será modelado a partir dessa experiência pessoal. Não se doa totalmente quem não foi totalmente transformado.

Ouvir o Filho

               Rezamos: “Alimentai nosso espírito com vossa palavra… para que nos alegremos com a visão de vossa glória” (Oração). A solução que o evangelista Mateus sugere para superar a tentação de voltar atrás é ouvir a Palavra do Filho. Ouvindo a Palavra participamos do amor que o Pai tem pelo Filho, o Dileto. A transformação é realizada pelo esforço, mas também pela graça. Esta é o fruto dos sacramentos que celebramos, de modo particular a Eucaristia. “Estas oferendas nos transfiguram interiormente para celebrarmos a Páscoa” (oferendas). Celebrar a Páscoa em cada Eucaristia é ser transformado para continuar a missão de anunciar. Superada a primeira “crise” da Quaresma que foram as tentações, somos estimulados e celebrar com intensidade a Ressurreição, preparando-a através da celebração dos sacramentos pascais, Batismo, Crisma e Eucaristia.

Leituras: Gênesis 12,1-4ª; Salmo 32; 2 Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9

Ficha nº 1630 – Homilia do 2º Domingo da Quaresma (12.03.17)

  1. A transfiguração de Jesus lembra que, se temos pecado, temos uma esperança na mudança radical como foi em Jesus. Ele foi morto, mas a Ressurreição trouxe a vida. Basta ouvir o Filho. 
  1. O processo de transformação é lento, interior e silencioso. 
  1. Ouvir a Palavra é um processo que inicia a renovação para chegar à transfiguração. 

            Conta de luz! 

            Todos os anos iniciamos a Quaresma, caminhada para a Páscoa, com os evangelhos da tentação e da transfiguração.  O pecado, que é treva, é vencido por Cristo que é luz. Ele fez brilhar a vida e a imortalidade.

            Jesus aparece em sua condição de ressuscitado: brilhante. Está em Deus. Foi muito bom. Os discípulos assim não pararam nas trevas de sua Morte, mas na luz de sua Ressurreição. Estavam na presença de Deus, com Moisés e Elias.

            Para que se realize em nós essa transformação de trevas em luz, é preciso ouvir a palavra do Filho: “Escutai-o”. Mesmo que tenhamos o sofrimento pelo evangelho (2Tm 1,8b).

nº 1629 Artigo – “Falando de filhos”

 E os filhos, onde estão?

            Estamos no tempo da Quaresma. É tempo de uma reflexão aprofundada sobre a vida cristã em sua correspondência ao momento forte da vida de Jesus em sua morte e ressurreição. Continuamos a temática do matrimônio, refletindo agora sobre os filhos. O Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia – Alegria do amor – dedica-se a clarear a relação matrimônio e seu maior fruto, o amor que gera filhos. Ele mesmo afirma: “Uma vez que esta função educativa das famílias é tão importante e se tornou muito complexa, quero deter-me de modo especial neste ponto” (AL 259). A família é a educadora: “A família não pode renunciar ao seu lugar de apoio, acompanhamento, guia, embora tenha que reinventar os seus métodos e encontrar novos recursos. Por isso não deve deixar de se interrogar sobre quem se ocupa de oferecer a seus filhos a diversão, que conteúdo entra em suas casas através da televisão etc…, a quem os entrega para que os guie nos seus tempos livres” (AL 260). É difícil o equilíbrio entre o controle e a vigilância e a orientação. Tudo é necessário. O importante é o processo. Mais que controlar os movimentos é preciso controlar os espaços. “É importante gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento de sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia. Só assim terá elementos para defender-se e agir com  inteligência” (AL 261). Acentua: “não é importante saber onde o filho está ou com quem está naquele momento, mas onde se encontra em sentido existencial, onde está posicionado do ponto de vista das suas convicções de seus objetivos e dos seus desejos, e o seu projeto de vida… onde está sua alma” (AL 261).

  1. Liberdade de viver bem.

            Falando de maturidade, o Papa diz que não é só uma questão genética. O crescimento se dá em toda uma cadeia de elementos que se sintetizam no íntimo da pessoa, isto é, no centro da sua liberdade. Aí crescem a prudência, o reto juízo e a sensatez. “A educação envolve a tarefa de promover liberdades responsáveis que, nas encruzilhadas, saibam optar com sensatez e inteligência” (AL 262). Os demais instrumentos oferecidos pela sociedade são necessários, “mas a formação moral dos filhos nunca a podem delegar totalmente”. Não podemos confundir moral com moralismo que é uma falta de compreensão do que seja moral. “O desenvolvimento afetivo e ético de uma pessoa requer uma experiência fundamental: crer que seus pais são dignos de confiança” (AL 263). Sem isso se criam feridas profundas no seu amadurecimento.

  1. Escola doméstica

            “A tarefa de casa”, junto a tantas outras obrigações do dia a dia consiste na educação da vontade, o desenvolvimento dos bons hábitos e tendências afetivas para o bem. Essa é a lenta maturação que supõe a imperfeição até chegar à plenitude maior. Essa educação consiste também em saber renunciar a uma satisfação imediata para se adequar a uma norma e garantir uma boa convivência. A formação moral deveria realizar-se com métodos ativos e com um diálogo educativo que integre a sensibilidade e a linguagem própria dos filhos. Podemos ver por experiência que os defeitos de uma família se tornam como uma segunda natureza. O acolhimento que os pais têm pelos outros penetra também os filhos. O amor e a dedicação aos outros se fazem na prática com as crianças. É por isso que faz muita falta a “Escola de Pais” para preparar e acompanhar a formação dos filhos. Os valores se aprendem em casa, com o leite da mãe e o carinho do pai.

nº 1628 – Homilia do 1º domingo da Quaresma (05.03.17)

“O pecado entrou no mundo” 

A fruta atraente!

Iniciamos a caminhada rumo à Páscoa. Na Quaresma desse ano, a partir do terceiro domingo, a temática é batismal. A Páscoa é o centro de toda vida da Igreja, pois nela celebramos a Morte e Ressurreição de Jesus, centro de nossa vida. Sempre, no primeiro domingo, meditamos sobre as tentações de Jesus e a tentação do homem. No segundo domingo, todos os anos, contemplaremos a transfiguração de Jesus. Nos três domingos seguintes temos os temas batismais. O caminho espiritual da Quaresma está explícitado na oração: “Possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa”. Lemos: Jesus está no deserto. Faminto e só, Jesus é presa fácil da tentação. O homem e a mulher, felizes no Paraíso, distraídos pela a riqueza que lhes é oferecida, buscam ter mais. São presas fáceis da tentação. Contudo, a realidade humana e cristã não termina na queda do pecado, mas na vitória de Cristo. Jesus é a redenção abundante. Por mais que o pecado tenha suas garras penetradas em nosso coração, a graça de Cristo é muito mais forte, pois venceu o mal. E nós somos vencedores Nele. A vida cristã não se modela pelo pecado, mas pela graça. Não vivemos para o pecado, mas para a graça. A vitória de Cristo é total. Basta fazermos nossa parte. A narrativa do pecado de Adão e Eva mostra o estado da graça como estar com Deus num paraíso e como o estado de pecado que nos despe da graça. Tentamos nos encobrir com frágeis folhas. O pecado não gera vida. “A fruta era atraente e desejável para os olhos para se alcançar o conhecimento” (Gn 2,6). Estamos no exterior.

A tentação de todo homem

Por que são três tentações e não duas, quatro ou dez? Nestas três propostas de Satanás estão condensadas todas as tendências do coração humano. E Jesus não estava isento delas. São elas: pão, poder e prazer. São João coloca em outros termos: concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho das riquezas. É o que domina o mundo: cobiça, orgulho e sensualidade. Isso está sempre presente em cada um de nós. O mistério do pecado está explícito nas atitudes humanas. Estas três tentações se manifestam em nossas atitudes. São sempre atitudes vazias, como disse Eva: “a fruta é agradável aos olhos e apta para adquirir conhecimento.  Busca-se o vazio. A meta da prática quaresmal é superar a força desse mistério de pecado que nos circunda através do conhecimento de Jesus Cristo e levando uma vida santa. Esta é a nossa correspondência a todo amor manifestado na Paixão e Morte de Cristo. Quanto mais vida de comunidade tivermos, mais solidários formos, mais poderemos vencer todas estas tentações.

Em Cristo nós vencemos

Quais são as armas para vencer a tentação? O tempo quaresmal propõe a esmola, a oração e o jejum. Jesus diz que para vencer a ganância do pão e do possuir, deve-se ter fome da Palavra de Deus. Para vencer o orgulho é preciso a humildade de servir a Deus nos irmãos. Para vencer a fome de prazer é necessário prestar a Deus o culto amoroso da adoração. “Então o diabo deixou Jesus e os anjos se aproximaram e O serviram”. “Ele, tendo sofrido a tentação, é capaz de socorrer os que são tentados” (Hb 2,18). O exemplo dos santos é justamente este: dominar a tentação. Jesus põe-se ao lado dos tentados, para que sejam vencedores. O pecado é um mal, mas a graça é maior e mais proveitosa. A vitória de Jesus garante que podemos vencer sempre. Não há pecado que não poderemos vencer.

Leituras: Genesis 2,7-9; 3,1-7; Salmo 50; Romanos 5,12-19; Mateus 4,1-11

Ficha nº 1628 – Homilia do 1º domingo da Quaresma (05.03.17)

  1. Preparamo-nos para Páscoa, centro da vida cristã, meditando a situação de pecado e a vitória de Cristo pela graça. O pecado dos primeiros pais invade o mundo. Em Cristo temos o perdão total.
  1. Conhecemos as três tentações de Jesus que são o resumo de todas as tentações. Venceremos através do conhecimento de Jesus levando uma vida santa.
  1. Vencemos as três tentações fundamentais através da Palavra, do serviço e da adoração, acolhimento de Deus e dos irmãos.

Xô, satanás. 

            A Quaresma é um tempo de graça. Existe o pecado que vem desde o primeiro homem. Jesus      nos dá a graça do perdão através de sua morte e ressurreição. O homem, pela desobediência pecou. Jesus, pela sua obediência nos salvou.

            Adão pecou no jardim do Paraíso, símbolo da graça. Jesus demonstrou sua obediência vencendo o tentador no deserto. Ali foi tentado três vezes. As três tentações sintetizam tudo o que há de errado no ser humano: ganância pelos bens materiais, orgulho do poder e do prazer sem Deus.

            Para vencer Jesus usou a Palavra de Deus, a humildade e a adoração amorosa do Pai. Passamos pela mesma tentação. Então temos que usar os mesmos meios que Jesus usou. Um elemento forte para vencer é a vida da comunidade: “Então o diabos o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus”. Sendo fraternos podemos vencer. Esses anjos, todos nós podemos ser.

nº 1627 Artigo – “A alegre fragilidade do ser humano”!

1852.Fragilmente forte

Apenas terminados os festejos do Carnaval, a comunidade reúne-se novamente em respeitoso e sagrado silêncio para receber as cinzas. São duas celebrações diferentes que manifestam a beleza do ser humano. Quando se pergunta quem somos nós, podemos responder que somos a alegria na fragilidade esperançosa. Parece estranho que a alegria se misture tão bem com a fragilidade. A alegria não é frágil, nem a fragilidade é triste e desesperadora. O ser humano (o homem e a mulher) em sua constituição, tem a fragilidade como projeto. Ele é um contínuo construir-se, ajustar-se, modelar-se. Não é ser acabado e  imutável. A celebração das cinzas, marcando o início do tempo santo da Quaresma indica nossa origem e fim: “Lembra-te homem que és pó e em pó te tornarás”. É um alerta duro que nos coloca diante de nossa realidade frágil e efêmera. Lembra-nos que um dia éramos pó, de acordo com a simpática narração da criação do homem. Esta lembrança comunica-nos o respeito e a necessidade de reconhecer a Deus. Contudo, justamente por ser cinza é que podemos nos alegrar. É nossa condição: frágil. Somos um ser aberto e não um bloco de pedra imutável. Neste barro mole e frágil está nossa maior riqueza. Não somos definitivos. Crescemos, nos moldamos, nos adaptamos e nos construímos incessantemente. Parece um baile de Carnaval onde o corpo se move e se alegra. A massa do corpo vibrante vive e faz felicidade a partir daquilo que é frágil, o pó.  A colocação das cinzas em nossas cabeças não tem sentido de bênção, mas de estímulo.

  1. Construção na fragilidade

Mesmo na dor desta fragilidade, o ser humano é capaz de edificar na alegria e na paz. Diante disso, podemos concluir que a vida humana é projeto que se realiza e se reconstrói. Não há nada que seja totalmente definitivo, como não há nada que seja totalmente triste. Triste é quando esta fragilidade e leveza são destruídas por aqueles que querem ser donos do ser humano e dominá-lo. Uma flor é bela se respeitado seu tempo de se abrir, quando não é violentada sua liberdade de ter sol e vento, quando não é cortada e jogada fora, como quando não se lhe reconhece o direito a mover-se, crescer, construir-se e participar.  No altar da vida, todas as alegrias e toda compunção das cinzas são duas faces do mesmo ofertório. O que faz nossa grandeza diante de Deus é estar nas mãos Dele, deixar-se moldar, ou melhor, construir-se diante dele, olhando o projeto que tem para todo ser humano: ser feliz, mesmo sendo frágil. E nesta fragilidade, construir-se como um desfile alegre por pertencer a Deus e nele viver e mover-se.

  1. Convertei-vos e crede no Evangelho

            A fórmula “convertei-vos” é a mais usada atualmente. Ela dá mais o sentido da Quaresma como tempo de conversão. Essa conversão se reverte em ações de caridade para com os fragilizados. São dois efeitos: muda o nosso coração e a situação social das pessoas. Não existe caridade voando por aí. Ela caminha nas estradas do mundo buscando distribuir o amor que Deus nos dá. A proposta quaresmal é oração, jejum e esmola que convergem para o mesmo fim. Assim, a Páscoa celebrada se prepara pela Páscoa atualizada na salvação integral da pessoa. Purificados dos pecados podemos ver os irmãos com os olhos de Jesus que a todos socorria. Sem isso a celebração fica vazia. A oração nos põe em contato com Deus e o jejum nos esvazia para que o amor seja fecundo. A liturgia da Palavra desse tempo santo é rica e nos forma para celebrar profundamente o mistério.

nº 1626 – Homilia do 8º Domingo Comum (26.02.17)

“Olhai as aves do céu” 

Buscai o Reino de Deus

Jesus instrui os discípulos sobre o modo autêntico de viver e diz que os valores da vida não estão acima do valor do Reino de Deus. O Reino não impede os verdadeiros valores, mas lhes dá sentido. Jesus não quer seus discípulos divididos entre dois senhores. “Ninguém pode servir a dois senhores; pois, ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro (Mt 6,24). Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Os dois senhores, de que Jesus fala, são o Reino e os bens materiais, por exemplo, comida, bebida e roupa etc. … Podemos procurar esses bens. Devemos, contudo, buscar em primeiro lugar a justiça do Reino. A justiça do Reino é a bondade, a misericórdia e o amor. Ela não nos tira a responsabilidade, mas ensina o caminho de consegui-las no amor. Jesus ensina a colocar a confiança absoluta no Pai e na implantação do Reino. É magnífica a imagem das flores e dos pássaros que superam em beleza o ser humano. O Pai, que alimenta os passarinhos e veste as flores, cuidará com mais atenção ainda de seus filhos. Deus cuida deles com carinho. O que Deus quer é nossa tranqüilidade e não a agitação dizendo “o que vamos comer, beber e vestir?”… “Vosso Pai, que está nos Céus, sabe que precisais de tudo isso” (Mt 6,31-32). O profeta usa a expressão do amor materno para mostrar como Deus cuida de nós muito mais que nossa mãe: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer eu, porém, não me esquecerei de ti”(Is 4915).  Ninguém pode dizer: “Deus Se esqueceu de mim”.

Em Deus repousa minh’alma

            O salmo canta o resultado do abandono em Deus: “Só em Deus a minha alma tem repouso, porque é Dele que me vem a salvação. Só Ele é meu rochedo e salvação, a fortaleza onde encontro segurança” (Sl 61,7). Essa mesma confiança em Deus é expressa pelo salmo: “Fiz calar e repousar meus desejos, como criança amamentada, no colo da mãe, como criança amamentada estão em mim meus desejos” (Sl 131,2). Isso não pode parecer uma utopia, um sonho. Se sossegarmos as ganâncias que nos levam ao consumismo, podemos sossegar nosso coração diante de Deus e, com isso, dar valor ao Reino como primeira opção. Sabemos que Deus garante o sustento. Aliás, tendo o Reino, não vamos querer tanta coisa. Tendo toda a riqueza maior, não precisamos de bijuterias.  A confiança em Deus é expressa pelo profeta através da imagem do bebezinho que se alimentou e dorme tranquilo.  A mãe com um nenezinho adormecido e feliz nos braços da mãe é a imagem síntese do resultado da opção pelo único Senhor. Não se trata de preocupação, mas ocupação. Jesus convida a viver o presente. Assim estamos prontos para o amanhã.

Para cada dia, basta seu cuidado

            Jesus diz que “são os pagãos é que se preocupam com essas coisas. Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e toda essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,32-33). Será que a toda essa crise atual de agitação e depressão não são conseqüência do resultado dessa busca do vazio? E continua Jesus: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia bastam seus próprios problemas” (Mt 6,34). A sabedoria de Jesus nos ensina que buscar o Reino hoje é o melhor modo de viver bem amanhã. Depois mostrar os que se preocupam com a justiça do Reino que é a bondade, a misericórdia e o amor.

Leituras: Isaias 49,14-15;Salmo 61; 1Coríntios 4,1-5;Mateus 6,24-34

Ficha nº 1626 – Homilia do 8º Domingo Comum (26.02.17)

  1. Jesus ensina que a busca dos valores do Reino dá melhor resultado que a busca desenfreada dos bens materiais. São os dois senhores.
  1. É preciso calar a ganância dos desejos para se ter a serenidade do Reino.
  1. Jesus ensina a viver o memento presente. 

Quem paga a conta 

Quando se tem que pagar a conta, sabe-se o peso do que se comeu. Assim Jesus libera a gente dessa preocupação.

Jesus faz uma bela comparação: devemos viver despreocupados com a vida, com o dinheiro, com a comida, com o vestido. Quem escolhe o Reino de Deus vai ter tudo de sobra.  Nem Salomão se vestiu tão bem como um lírio que não fez nada para ser tão bonito. Deus cuida dos passarinhos, das flores e de nossa vida.

Se buscarmos o Reino de Deus e sua justiça, o resto vem com sobra. Buscar o Reino de Deus dá garantia de que Deus paga a conta.

Ensina a viver o momento presente. Vivemos tão atacados e nervosos para garantir o dia de amanhã. E deixamos de viver o hoje. Isso quer dizer que não viveremos. Vivamos bem o dia de hoje, que o de amanhã fica garantido. Deus é como uma mãe que não esquece seu filhinho.

nº 1625 Artigo – “Amor que parte”

  1. Quando o amor nos deixa

            Continuando as reflexões do Papa Francisco sobre o matrimônio, Amoris Laetitae – Alegria do Amor, chegamos a um aspecto importante e ao mesmo tempo duro da vida matrimonial: a separação do casal pela morte. Por mais doloroso que seja o momento, saber encarar de um lado positivo: a morte como uma nova dimensão do amor. A beleza do matrimônio tem muitas facetas. Uma delas é quando a vida chega ao fim. Não vamos durar eternamente sobre a terra. Nenhuma morte é bem-vinda. Salienta o Papa: “Abandonar a família atribulada por uma morte, seria uma falta de misericórdia, seria perder uma oportunidade pastoral, e tal atitude pode fechar-nos as portas para qualquer eventual ação evangelizadora” (AL 253). É o momento de levar aos feridos pela morte, a mesma presença de Jesus que se comoveu e chorou no velório do amigo (Jo 11,33.35). Ele é a vida. Assim podemos compreender que a presença da Igreja nesses momentos dá vida aos que perdem a esperança, e chegam a se magoar com Deus como sendo culpado. Nessa fase de dor é importante a presença da comunidade. É necessária essa pastoral junto a esses que sofrem. Não se trata de conservar a vida, mas o amor. Há uma tendência a querer manter uma presença como viva como conservar o quarto e suas coisas no estado em que deixou. Achei bonito a atitude de uma parente, gente simples, que perdeu o marido. Ela disse: “Hoje lá em casa foi dia triste. Fomos distribuir as coisas de meu marido. Serviram tanto a ele, agora vão servir a outros”. Assim se encara a vida e a morte.

  1. Uma missão permanente

            Não vamos conservar a presença física, mas as preciosas lembranças dos bons tempos vividos, das boas obras praticadas e os pensamentos que norteavam. É bom não apagar a pessoa, mas também não se apagar por ela.  A morte é um bem quando continua dando vida. É o momento da libertação.  A missão dos mortos continua em nós, sobretudo quando recolhemos suas heranças espirituais para continuá-las. Continuamos o amor. Como se diz: “saudade é o amor que fica”. “O amor possui uma intuição que lhe permite escutar sem sons e ver o invisível. Isso não é imaginar o ente querido como era, mas poder aceitá-lo transformado, como é agora, à imagem de Cristo ressuscitado, como disse à Madalena que queria abraçar seus pés, que não O tocasse, para a levar a um encontro diferente” (AL 255).

  1. Igreja recolhe as lágrimas

            Há um descaso muito grande em muitas áreas da Igreja, como instituição, com respeito à doença, ao falecimento e à dor. É justamente aí o momento mais importante. Jesus sabia estar presente, como vimos. E continua presente e nos atrai. Paulo diz: “Desejo ardentemente partir para estar com Cristo” (Fl 1,23). Há o desejo de revermos aqueles queridos que se foram. Há os que até exploram os sentimentos com possíveis contatos. Mas o contato que acontece não é a nível humano, pois já passaram, mas na oração. Esta sim estabelece o diálogo em Deus. Quanto mais estamos em Deus, mais estamos com nossos queridos. A Igreja ensina: “Rezar por eles pode não só ajudá-los, mas também tornar mais eficaz a sua intercessão em nosso favor” (Catecismo, 958). “De modo nenhum se interrompe a união dos que ainda caminham sobre a terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo; mas é reforçada pela comunicação dos bens espirituais” (LG, 49). “Quanto melhor vivermos nesta terra, tanto maior felicidade podemos partilhar com os nossos queridos no Céu” (AL 258).

nº 1624 – Homilia do 7º Domingo Comum (19.02.17)

“A novidade de Jesus”

 O amor acima do ódio

               O sermão da montanha é o núcleo da fé cristã. E nele, a maior novidade de Jesus, está no amor aos inimigos. Em sua morte na cruz, reza ao Pai: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Está assim em direção contrária a ensinamentos e práticas do Antigo Testamento. Este ódio está no coração do homem desde o começo da humanidade, como nos retrata o livro do Gênesis. A lei antiga ensinava: “Olho por olho, dente por dente” (Lv 24,20). Vemos a mudança: ensina a não resistir ao malvado, oferecer a outra face, deixar que te levem a roupa, andar dois km a quem te força andar um.  Cristo assim o fez. Ensina o amor ao próximo como o seu mandamento e, este amor inclui o amor ao inimigo, para sermos como o Pai. Diz: “Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque Ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,44-45). A razão fundamental é ser perfeito como o Pai celeste é perfeito, sendo “misericordiosos como o Pai é misericordioso” (Lc 3,36). Ser perfeito é ser misericordioso. Amor aos inimigos, critério da verdadeira fé em Jesus. Para Jesus, o modelo é sempre o Pai. É sua escola. Assim chegamos à santidade. Com esses ensinamentos Jesus nos põe no caminho da santidade. Esta acontece nas coisas simples do amor e exigentes para que a vida seja plena. Não é esse o conceito de santidade apresentado e vivido por muitos. O Evangelho é tão claro e os métodos são tão outros.

Resposta que cura

            Vivemos num mundo de guerras. As piores são as guerras internas dentro das comunidades e das famílias. Jesus quer amortecer a força do mal pelo bem. Paulo resume este pensamento de Jesus com estas palavras: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem” (Rm 12,21). Defender-se não significa aumentar a violência. Por isso dá seu ensinamento: “Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!… . É o que dizemos: Quando um não quer, dois não brigam. Não aumentar a força da maldade. O ensinamento de Jesus desmonta todo esquema de maldade, agressividade e guerra. Não adianta continuar a briga jogando gasolina no fogo. Assim se rompe a carreira do mal. É a estratégia cristã. “Vós ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!” (Mt 5,39.43-45). Inimigos sempre existirão, então, rezemos por eles e busquemos a paz. É uma característica cristã o perdão do inimigo e mais, não criar inimizades nem promover a discórdia.

Ser como o Pai.

A referência de Jesus é sempre seu Pai, como rezamos no salmo 102 que revela o amor de Deus: “O Senhor é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo. Não nos trata como exigem nossas faltas, nem nos pune em proporção às nossas culpas”. No Antigo Testamento temos como razão de ser santos: “Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (Lv 19,1-2). O projeto de vida do fiel, espelhado no Pai e revelado por Jesus, tem um modo de ser: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Na Eucaristia comungamos também sua mentalidade de paz. É o momento de rezar pelos inimigos e criar uma onda de amor que vença o ódio. É o que chamamos de cultura do amor. Se nos amarmos damos nossa maior contribuição para a vida do mundo.

Leituras: Levítico 19,1-2.17-18; Salmo 10; 1Coríntios 3,16-23; Mateus 5,38-48

Ficha nº 1624 – Homilia do 7º Domingo Comum (19.02.17)

  1. O sermão da montanha é o núcleo da fé cristã. E nele, a maior novidade de Jesus, está no amor aos inimigos.
  1. Defender-se não significa agir com violência, aumentado o mal.
  1. O projeto de vida do fiel, espelhado no Pai e revelado por Jesus, tem um modo de ser: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito” 

Empresta-me seus óculos 

É preciso uma visão nova para entender o Evangelho de Jesus. Temos que ser como o Pai do Céu. Os antigos diziam: “olho por olho, dente por dente”. Assim a briga não acaba. Jesus corta esse ensinamento de antigamente que entrou na Bíblia vinda de leis pagãs. Jesus limpa a lente para que vejamos mais apuradamente.

A síntese de seu ensinamento é esta: ir além do que é exigido pela lei; ir ao amor maior que faz a diferença. Aqui temos o maior ensinamento de Jesus: amar os inimigos. Somos chamados a ser santos como Deus é Santo. Deus ama todos e não faz distinção de pessoas.

nº 1623 Artigo – “Amor partido”

  1. Divórcio – uma situação

Já há tempo refletimos sobre a Exortação do Santo Padre, Papa Francisco sobre o matrimônio – Amoris Laetitia – A Alegria do Amor. No capítulo sexto, nº 241-152, trata do divórcio. É interessante e comovente o carinho e o respeito que o Papa devota aos divorciados e separados.  Sempre procura o lado positivo. Não condena, mas estimula a viver bem e chama a comunidade apoiar em todas as circunstâncias. Não nega a indissolubilidade do matrimônio, mas sabe entender a situação de cada um, sempre com misericórdia e numa atitude curativa. Os separados e divorciados recebiam um tratamento de pecador público. Há um sentimento comum, e há os que assim dizem, que os separados não podem comungar. Podem sim. Outra é a situação do recasados. Estamos diante de uma das grandes polêmicas do momento. Grupos conservadores têm maltratado o Papa. Seria bom ler o texto na íntegra, pois é muito rico. Resumindo diz que há casos em que é inevitável separação. Por exemplo: injustiça, violência, defesa dos filhos, exploração, indiferença… Diz: “Mas deve ser considerado um remédio extremo, depois que se tenham demonstradas vãs todas as tentativas razoáveis!” (AL 141). Diz também: “As pessoas divorciadas que não voltaram a casar devem ser encorajadas a encontrar na Eucaristia alimento que a sustente nesse seu estado” (AL 243). A comunidade deve dar apoio, sobretudo se há pobreza. Mais ainda, diz que os divorciados “devem sentir que fazem parte da Igreja e não estão excomungados”(AL 243). Isso não destrói a doutrina sobre o casamento.

  1. Soluções

             Além de ser sensível ao sofrimento das pessoas separadas, é sensível também à solução da situação através da declaração da nulidade. Não anula o casamento. Declara que foi nulo. Os fiéis têm direito à justiça. A pastoral familiar deve entrar na questão dos divorciados, pois seu número cresce dia a dia. Por ai vemos a necessidade de preparar o casamento. Para muitos que se casam na Igreja, o que vale é só o espetáculo. Nas separações o Papa lembra que os filhos não podem ficar reféns da situação. Não sejam usados. “É irresponsável arruinar a imagem do pai ou da mãe para monopolizar o afeto do filho, se vingar ou defender… isso provocará feridas difíceis de curar” (AL 145). Os pais divorciados devem ser integrados na comunidade para continuarem a educação religiosa dos filhos. A assistência religiosa pode curar as feridas (AL 246).

  1. Situações complexas

            Lembra ainda o documento papal a questão dos casamentos mistos: católico com evangélicos ou com não batizados. São os casamentos mistos. O Papa diz que “se convém valorizar quer pelo seu valor intrínseco, quer pela ajuda que podem dar ao movimento ecumênico” (AL 247). A respeito da comunhão dos cônjuges, sigam-se as normas já dadas pelo Conselho da Unidade dos Cristãos em 25 de março de 1993. Quanto aos casamentos com não batizados, “eles representam um lugar privilegiado de diálogo inter religioso” (AL 247-248). Quanto a esses, pedem que a liberdade religiosa seja respeitada. Com respeito às situações pessoais de outras tendências, a Igreja pede respeito e é contra toda discriminação. Não se pode fazer a equiparação com desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família (AL 251). Cada um, em sua condição e situação pessoal, é chamado a fazer um caminho de santidade que não é de repressão, mas libertação. Refere-se por fim aos filhos onde falta o pai ou a mãe. A comunidade deve ser a família ampliada que dá suporte e afeto. Lembra as famílias pobres que sofrem com uma morte ou separação sejam apoiadas.

nº 1622 – Homilia do 6º Domingo Comum (12.02.17)

“O Evangelho exige mudança”

 “Um novo modo de viver”

               A diferença que fez Jesus não foi revogar a Lei, mas levá-la à plena realização. Jesus não era contra a Lei de Deus, mas contra as interpretações que dela faziam. Ensina que a nova justiça aprofunda o sentido dos mandamentos. Há um desenvolvimento do conhecimento da Palavra de Deus. Jesus ensina, pois ele é a Sabedoria do Pai. As propostas de Jesus propõem que façamos uma opção. É um caminho novo que exige totalidade em nossa resposta. Não basta seguir os mandamentos na letra, é preciso ir ao espírito e a seu sentido mais profundo dado por Jesus. No que se refere ao quinto mandamento, não matarás, afirma o respeito à vida física, mas também o amor ao próximo. A palavra pode ferir e matar. Pelo próximo, deve-se até interromper o sacrifício iniciado para ir se reconciliar (Mt 5,23-24); deve-se ceder ao inimigo para evitar que aumente o espiral da violência (25). O adultério não é só uma atitude exterior, mas vai ao coração. Está unido à fidelidade de Deus. Quanto ao juramento: Todo aquele que mente, fere a verdade de Deus. Toda mentira é do maligno. A fidelidade à verdade não precisa de documentos. Basta o sim, sim; o não, não. Notamos que Jesus interpreta o mandamento no fundo do coração. O amor ao próximo deve ser total. Vai à coerência do coração.  Corremos o risco de dar mais valor às interpretações do que à Lei Nova de Jesus que se funda na misericórdia e na caridade. Batemos o pé em coisas secundárias, quando o importante ensinado por Jesus, é deixado de lado.

Sabedoria de Deus.

A lei é a sabedoria. Falamos, sim, da misteriosa sabedoria de Deus…. Sabedoria escondida que desde a eternidade Deus a destinou para nossa glória” (1Cor 2,6-7). A revelação de Deus para nós não é uma comunicação de verdades, mas participação de sua Sabedoria. Sem ela não entendemos a novidade de Jesus e continuamos repetindo os mesmos erros do passado. Jesus tem a autoridade para levar a lei à perfeição, purificá-la e instaurar a sabedoria de Deus. A nova lei é a sabedoria de Deus em nosso meio. Nossa sabedoria é viver o mandamento no íntimo do coração. O pecado não é solução para nosso coração. O livro do Eclesiástico ensina que Deus não mandou ninguém agir como o ímpio e a ninguém deu licença para pecar (Eclo 15,20). Há pessoas que se fazem donos da verdade e criam costumes que obscurecem a sabedoria de Jesus. Não podemos ficar às margens e nas práticas sem fundamento. Podem ser ótimas suas idéias, mas primeiro vem o mandamento de Deus. O pecado não se justifica em nenhuma hipótese. É sempre prejudicial ao ser humano. É o que vemos pelo mundo. O fruto do pecado destrói nações inteiras.

Surpresas de Deus.

            “A nós Deus revelou esse mistério através do Espírito. Pois o Espírito esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus” (1Cor 2,10). Recebemos a sabedoria de Deus pelo Espírito que nos foi dado. Os que vivem esta sabedoria podem perceber “o que Deus preparou para os que O amam, é algo que os olhos jamais viram nem os ouvidos ouviram nem coração algum jamais pressentiu” (1Cor 2,9). Recebemos o convite para purificar nossa fé de tudo aquilo que fere a beleza do mandamento e a nova lei de Jesus. Por isso, em cada Eucaristia, ouvimos a Palavra que nos instrui na sabedoria. Rezamos: “Feliz o homem sem pecado, que na lei de Deus vai progredindo. Feliz o homem que observa seus preceitos e de todo o coração procura a Deus” (Sl 118).

Leituras: Eclesiástico 15,16-21; Salmo 118; 1Coríntios 2,6-10; Mateus 5,17-37

Ficha nº 1622 – Homilia do 6º Domingo Comum (12.02.17)

  1. Jesus aprofunda a lei antiga indo ao coração que é o amor sem limites.
  1. A Sabedoria de Deus ensina a viver o mandamento em sua profundidade.

O pecado não foi ensinado por Deus.

  1. Do Espírito nos vem a sabedoria. Recebemos o convite para purificar nossa fé. 

 Mudando a Bíblia 

Para muitos a letra da Bíblia tem que ser conservada ao máximo. Mas Jesus deu exemplo ao contrário. A Palavra do Antigo Testamento tem que ser entendida a partir Dele. Ele muda concepções do passado colocando nelas o aperfeiçoamento da nova Lei. Sobretudo quando essa lei foi mal interpretada pelos fariseus.

A Palavra nos ensina que, ao aceitar Jesus, temos que reformar nossos conceitos, como Ele reformou conceitos e prática do Antigo Testamento a partir Dele que é a Palavra viva.

Ensina ir mais profundo na Palavra. É uma renovação do homem todo no seu relacionamento com os outros, baseados no amor. É a pessoa íntegra na verdade. A lei fundamental deve estar no coração e não somente na prática externa.

nº 1621 Artigo – “Tempos conturbados”

  1. Vinho velho do amor

            Nosso querido Papa Francisco, na Exortação Amoris Laetitia – Alegria do amor,  refletindo sobre o matrimônio, apresenta uma riqueza de sugestões para a vida dos casais, sobretudo dos casais novos. Aconselho a leitura desse texto dos números 217 – 230. Não se dirige somente aos casais, mas também aos que se preocupam com essa pastoral. Vai a detalhes da vida amorosa do casal como também às práticas espirituais. É singelo, e muito rico. Vamos refletir agora sobre o lado mais difícil que são as crises e angústias. Casa-se para ser feliz, mas a felicidade tem seus momentos de crise. Por felicidade Deus nos oferece um meio que tudo pode salvar: o amor. O amor é o melhor remédio para os males do casamento. Esse amor é partilhado por aqueles que podem dar uma contribuição. Papa Francisco inicia sua reflexão mostrando o sabor do vinho amadurecido. Cita S. João da Cruz: “Os velhos amantes são os já treinados e testados. Eles já não têm aqueles fervores sensíveis nem aquelas ebulições e chamas externas do ardor, mas saboreiam a suavidade do vinho do amor bem sedimentado na substância… assente dentro da alma”. Conclui: “Isso supõe que foram capazes de superar juntos as crises e os momentos de angústia sem fugir aos desafios nem esconder as dificuldades” (AL 231). Crise é sinal de crescimento.

  1. Crises ajudam crescer

             A melhor solução da crise está antes dela chegar. Se formos capazes de dialogar no tempo bom, saberemos dialogar no temporal. Crises são normais no matrimônio. Ser um só coração e uma só alma é um desafio permanente. A crise ensina, fortalece e esconde uma boa notícia, diz o Papa. O primeiro passo é não isolar (dormir no sofá) e não cortar a comunicação. Na discussão, no momento de lavar a roupa suja, cada um lave primeiro a sua e depois ajude o companheiro lavar a que sujaram juntos. Não se trata de dizer: aqui você errou. Mas… aqui está meu erro. Não se podem entregar os pontos na primeira desavença. Quem quer conquistar uma lagoa tem que engolir um punhado de sapos. O casamento é perfeito porque tem imperfeições e fragilidades. É humano. É sobre essas fraquezas que se constrói a força. O risco da imaturidade pode danificar muito. Somos imaturos. E tornamo-nos maduros no momento em que sabemos assumir imaturidade e crescer. Aparecem  doenças, mudanças físicas, dificuldades do tempo em que vivemos. Outras vezes são as heranças da família. É comum ouvir que lá em casa era assim. Por isso a bíblia diz que “o homem deixará o pai e a mãe e se unirá a sua mulher e serão os dois uma só carne” (Gn 2,24). Esse desligar-se vai além da residência, mas é algo novo que se inicia. Por isso é preciso desmamar. O Papa Francisco o diz em outras palavras (AL 132-138).

  1. Velhas feridas

            Nada é ideal. Casamento perfeito não existe. As tensões sempre existiram. Um dos motivos é que trazemos uma carga de nossa família, de nossa educação etc… São as feridas que nos acompanham desde a infância, adolescência, situação familiar, social e cultural. Muitos nunca foram amados ou perderam a família ou tiveram uma vida familiar complicada ou foram abusados de tantos modos. É preciso uma cura pessoal. Há muitos meios. O casamento pode realizar essa cura no momento em que se abre para superar. O primeiro passo é reconhecer a própria imaturidades com serenidade. E aparecem situações novas de vícios e manias que destroem toda a expectativa de felicidade. Então se busca fora ou se degrada no sofrimento que pode durar uma vida. Ao aceitar a fragilidade do outro num processo de recuperação a felicidade cresce. Nada é sem solução.

nº 1620 – Homilia do 5º Domingo Comum (05.02.17)

“Brilhe vossa luz!”
Luz do mundo
O sermão da montanha, de modo especial as bem-aventuranças, é uma síntese do ser cristão. A nova lei não é uma “ordem”, mas o reconhecimento do que Deus faz em cada um. Ao dizer “vós sois o sal a terra… vós sois a luz do mundo” (Mt 5,1.14), está ensinando que as bem-aventuranças são o ser do cristão. É delas que vem a luminosidade e o sabor. A “salubridade e a luminosidade” do discípulo vêm de sua união com Cristo que, com sua vida, deu luz e sabor ao mundo. O Verbo de Deus, Jesus, é Luz e Vida (João 8,12). Dizendo que o cristão é luz do mundo, ensina que essa luz vem de sua união a Cristo na prática das bem-aventuranças. Paulo ensina: “Agora que sois luz no Senhor, andai como filhos da luz” (Ef 5,8). A luz é colocada no alto para irradiar a fim de que todos vejam. Essa luz é vida, como Jesus era a luz dos homens (Jo 1,4). A luz das boas obras brilhará diante dos homens, como Jesus brilhou e iluminou. Isaias proclama que, com as boas obras, a luz brilhará como a aurora. Ela é saúde e garantia na oração. “Nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio dia” (Is 58.7-10). Paulo dá o exemplo ao explicar seu modo de pregação: “Ao anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada…Não julguei saber coisa alguma. A não ser Jesus Cristo, e este foi crucificado” Ele se baseava no poder de Deus e não na sabedoria dos homens (1Cor 2, 1-2.5).
Sal da terra
“Vós sois o sal da terra”. Se o cristão não for sal, torna-se inútil. Como a luz, o sal é fundamental para o bem viver. Há também uma referência ao aspecto cultual. Nos sacrifícios do templo era necessário colocar um pouco de sal sobre as vítimas: “Salgarás toda oblação que ofereceres e não deixarás de por na tua oblação o sal da aliança de teu Deus” (Lv 2,13).  Tem sentido de conservação da aliança para sua estabilidade. Por se ligar ao sacrifício torna a vida comum um sacrifício agradável a Deus. Pedro diz que devemos “oferecer sacrifícios espirituais a Deus em Jesus Cristo” (1Pd 2,5). Toda a dimensão de sacrifício que é exigido para a vida cristã e as muitas propostas de sacrifício, há só um que vale por completo: o sacrifício da vontade, isto é, procurar a vontade de Deus que está expressa nas bem-aventuranças. Elas são o caminho para a vida. O sacrifício e a penitência não se medem pela dor, mas pelo amor com que levamos as cruzes do dia a dia. O profeta Isaías também nos oferece um caminho semelhante: repartir o pão com o faminto, acolher peregrinos, destruir os instrumentos de opressão, deixar os hábitos autoritários e a linguagem maldosa, acolher o indigente e socorrer o necessitado (Is 58, 7-10)
Para que glorifiquem o Pai
O sabor da vida que as boas obras dos cristãos oferecem é para o louvor de Deus: “Para que, vendo vossas boas obras, glorifiquem o Pai” (Mt 5,16).  Esta é a liturgia fundamental que culmina na celebração. Com sua vida, Jesus foi uma oferta agradável que culminou na oferta sacrifical da Cruz. O discípulo assimila-se ao Mestre: É sacrifício “vivo, santo, agradável a Deus: É o culto espiritual” (Rm 12,1). Os sacrifícios são as obras das bem-aventuranças para que “glorifiquem o Pai que está no céu”. Glorificar é entrar em comunhão. É a função redentora da vida dos cristãos. O primeiro testemunho é a fé manifestada nas boas obras. Ser sal e luz é viver o evangelho sintetizado nas bem-aventuranças. Cada Eucaristia nos desvela a presença da Palavra e do Pão que são sustento e luz no caminho.
Leituras: Isaias 58,7-10; Salmo 111;1Cor 2,1-5; Mt 5,13-16

Ficha nº 1620 – Homilia do 5º Domingo Comum (05.02.17)

1.     As bem-aventuranças são síntese do ser cristão. Vivendo-as somos luz e sal para o mundo.

2.    Sem ser sal e luz o cristão é inútil. A vida cristã tem um aspecto cultual, pois é sacrifício espiritual.

3.    A vida cristã tem como finalidade o louvor ao Pai.

Doce de sal

Parece muito esquisito fazer doce de sal. Claro que estamos fazendo uma comparação com a grande transformação que a Palavra de Deus realiza em nossa vida: “Vós sois o sal da terra” é como se transformasse o sal em doce.

Depois de anunciar as bem-aventuranças, Jesus afirma que elas nos tornam sal da terra e luz do mundo. Quer dizer que as pessoas que vivem esse novo modo passam por uma transformação como na vida pessoal que vai influir na comunidade como o sal que tempera e a luz que ilumina.

Nada esconde ma luz de Jesus em quem crê Nele.

A atitude nova da vida dará soluções para os necessitados. Deus ouvirá nossa oração. Essa vida brilhará para o bem do mundo. Para isso acontecer temos que centrar nossa vida em Jesus, como fez Paulo.

Felizes também, plantaremos felicidade. Essa brota!

nº 1619 Artigo – “Amor cultivado”

  1. Casamos… e agora?

Casados. Maravilha! Como dizemos: “Quem casa quer casa”, isto é, constituir uma vida nova. Toda a beleza dessa etapa da vida é a realização de um sonho tão bem cultivado e alimentado por tantas esperanças. Quando se realiza um matrimônio se ouve um sim para a eternidade. Acreditamos no casal e acreditamos que possam levar avante essa nova vida como uma missão vinda do alto. Tantos passaram pelo altar e levaram o casamento para a vida toda, mesmo não tendo as ditas preparações que são propostas. E foram felizes. Continuando a reflexão do Papa Francisco, lemos na Exortação Apostólica Amoris Laetitia – Alegria do Amor –  orientações muito concretas para a vida em família, de modo particular, como refletimos agora, para a vida de noivado e dos recém-casados. Acentua que a preparação do noivado continua na vida de casal. Aliás, estamos sempre aprendendo. É sabedoria ter abertura para aprender sempre mais. Ninguém está pronto. Por isso insiste que no primeiro tempo da vida de casal há questões que merecem reflexão. Ninguém é perfeito e nem sabe tudo. A sabedoria não é saber, mas querer aprender sempre mais. O Papa Francisco insiste no acompanhamento dos noivos depois do casamento. Nas primeiras dificuldades há necessidade de acompanhamento (AL 217). Os primeiros passos precisam de outros olhos para olhar e outras mãos para orientar caminhar. É claro que sem interferência. O matrimônio, mesmo bem assumido, ainda cresce. É uma construção do dia a dia (AL 218). Ninguém trabalha sozinho. Mas… não é isso que as pessoas pensam. Para todos os problemas temos especialistas, a família é um desses.

  1. Força do ser diálogo

            O Papa Francisco continua mostrando sua experiência. Explica que quando um começa a ver os defeitos do outro com um olhar crítico, torna-se incapaz de se apoiarem para o amadurecimento. “O sim que deram um ao outro é o início de um itinerário cujo objetivo é superar as circunstâncias que surgirem e os obstáculos que se interpuserem”. A graça recebida e o SIM proferido não é apenas para o momento, mas se torna um impulso para esse caminho sempre aberto e seerá a força para os contornos necessários do dia a dia. É o momento do diálogo para elaborar o seu projeto concreto com os seus objetivos e detalhes (AL 218).  Como o casamento é uma construção a dois, num diálogo completo de corpo, alma e potências intelectuais, o amor será sempre o controlador desse diálogo. É preciso lançar longe nossa esperança para onde ela nos atrai. O amadurecimento do amor implica em saber negociar e saber ceder para ganhar. Em cada nova etapa do casamento, urge dialogar e analisar as situações. A maior imaturidade matrimonial é não ter capacidade para conversar, colocar os problemas em comum, saber discutir e levar adiante uma reflexão que seja orientadora. Ter problemas não é um problema. Não discuti-los sim.

  1. Um amor que encanta

O casamento sonhado nem sempre corresponde ao casamento vivido. Esse vai além.

Cada casamento é uma história de salvação. Supõe partir de uma fragilidade que, graças ao dom de Deus e uma resposta criativa e generosa, pouco a pouco vai dando lugar a uma realidade cada vez mais sólida e preciosa. Salienta o Santo Padre que “a missão maior de um homem e de uma mulher no amor seja esta: a de se tornarem, um ao outro, mais homem e mais mulher” (AL 21). Lembramos a surpresa de Adão diante de Eva, saída das mãos de Deus: “Então o homem exclamou: Esta sim, esta sim” (Gn 2,23). Meta: ser uma eterna surpresa. A beleza continua na criação dos filhos na paternidade responsável e no respeito à vida.

nº 1618 – Homilia do 4º Domingo Comum (29.01.17)

 “Felizes sois vós”

 Um ensinamento de vida!

O Evangelho de Mateus compõe-se de discursos nos quais coleta os ensinamentos fundamentais de Jesus. Temos na liturgia de hoje a leitura da introdução ao discurso da Montanha. Como Moisés que, do alto do Monte Sinai trouxe e lei de Deus, Jesus apresenta a Nova Lei. Aquela lei fora promulgada entre raios e trovões. Aí nasceu o povo. No monte das Bem-Aventuranças Jesus delineia o caminho do novo homem. Quem O ouve fica feliz. Jesus inicia propondo oito pilares desse novo povo. Basta dar estes oito passos para entrar no Reino. As bem-aventuranças são um retrato de Jesus a ser feito em nós. Jesus enfrentou inimigos fortes que O recusavam. Mas teve sempre uma palavra e um acolhimento carinhoso para com os fracos, os doentes e os pobres. A opção de Jesus para atender primeiro os frágeis, vem justamente da situação da maioria do povo que estava fragilizada de tantos modos. Desde o Antigo Testamento Deus deu particular atenção aos fracos como lemos no salmo 145. As leis protegiam os necessitados, mas não eram seguidas. As esperanças do povo se concretizaram num pequeno grupo que o profeta chama de resto de Israel. Eles colocaram sua esperança em Deus. Nele se estabelece a certeza da salvação que Deus oferece. Eles acolheram Jesus. É por isso que Jesus vai descrevê-los deste modo tão bonito: “Bem aventurados os pobres em espírito!” São eles o resto fiel. Maria, José e os primeiros discípulos pertenciam a esse grupo que tinha a esperança.

Perfil do cristão feliz

Cada cristão apresenta um aspecto das bem-aventuranças. A pobreza do cristão significa ser empobrecido e necessitado de Deus. Deus é a única riqueza que nos faz felizes. Nas dores sabem ter o consolo em Deus. É manso porque sabe estar bem com tudo. O que tem fome e sede de justiça Divina quer o bem de todos. O misericordioso é o que tem o coração do Pai. O puro de coração é o que vem de Deus. O promotor da paz vive a paz em si pelo contato com Deus e assim pode implantá-lo no mundo. O perseguido por causa da justiça sofre o que Ele sofreu e recebe que Ele recebeu. É o que se constata nas atitudes de Jesus e em suas palavras: pensa diferente do mundo. Com isso surge a oposição. Para o mundo a felicidade é o contrário das bem-aventuranças: riqueza, poder, despreocupação, injustiça, falta de perdão, agressividade, oposição a Cristo e seus fiéis. A salvação que Jesus oferece quer tirar o homem da situação do mal que tem seus inúmeros frutos perniciosos. Jesus cura o homem por dentro.

Um projeto de vida

Como realizar essas bem-aventuranças? O primeiro passo é estar unido a Cristo que é a Bem-Aventurança. Nele estão todas as virtudes, pois Ele é a Virtude. Os bons atos e o esforço pessoal são necessários. As bem-aventuranças não são bolas de Natal colocadas na árvore, mas frutos que vêm da árvore que é Cristo. É Ele quem produz fruto em nós e nós cooperamos para que sejam abundantes. O primeiro testemunho que os cristãos podem oferecer será sempre sua vida curtida no projeto de Jesus. Assim foi Jesus, assim devem ser seus seguidores. A Eucaristia é meio de nos unirmos a Cristo que é a seiva Divina que produz os frutos em nós. A educação cristã do discípulo deve passar por esses pontos fundamentais. É inútil uma fé, sem uma vivência concreta do projeto de Jesus. Nele podemos amadurecer Naquele que, por primeiro, viveu as bem-aventuranças.

Leituras: Sofonias 2,3;3,12-13; Salmo 145; 1Coríntios 1,26-31; Mateus 5,1-12ª

Ficha nº 1618 – Homilia do 4º Domingo Comum (29.01.17) 

  1. Jesus propõe as oito bem-aventuranças como o caminho para o novo povo de Deus viver o Reino.
  1. Cada cristão apresenta um aspecto das bem-aventuranças. Que não acolhe Jesus gera males que não dão produzem a felicidade.
  1. As bem-aventuranças são a seiva da árvore que é Cristo que produz frutos em nós. Acolhendo Cristo, somos o que Ele é.

Aprendendo a ser gente 

  1. Mateus, ao narrar o início da missão de Jesus, faz em poucas palavras, uma síntese de tudo o que iria ensinar. Primeiramente narra o início da vida de Jesus e no final a Paixão. Entre esses dois pólos, coloca cinco partes que englobam o ensinamento de Jesus. Iniciamos com o sermão da montanha. E neste, as bem-aventuranças. Elas são o fio que une e resume todo ensinamento de Jesus. Não são somente palavras, mas é o retrato falado de Jesus. Ele era assim. Às vezes procuramos o tipo físico de Jesus. Esse não é necessário. É bom saber seu tipo humano-espiritual. Assim como Ele foi, assim devemos ser.

            Gastamos muitas palavras para explicar a doutrina. Jesus com poucas frases apresentava tudo. É como vemos no texto de hoje. Primeiramente notemos que a primeira leitura nos diz quem são os humildes. Eles mantêm viva a esperança. E Deus cuida deles, como nos conta o salmo 145.

            Jesus enumera oito atitudes de vida que servem para orientar em nosso cotidiano. Está a dizer: Vivendo desse jeito, estão vivendo o evangelho. É curioso que procuramos tantos modos de viver e deixamos de lado aquele que Jesus oferece.

            O que nos ensina: Ser pobre de espírito, desapegado de tudo o que possa destruir a riqueza do Evangelho. Quem é pobre se preocupa em viver bem e que os outros vivam bem. Essa preocupação não prejudica o relacionamento, pois a mansidão cabe em qualquer lugar. Desse modo, com serenidade vai buscar a justiça em todos os sentidos, pois sem ela não se vive bem. Para não prejudicar os outros, quando vivemos procurando o bem, temos que ter misericórdia. Assim seremos entendidos. O que buscamos não tem má intenção. A pureza de o coração não é só afeto, mas é transparência dos olhos e das atitudes. Isso nos deixa em paz e não atropelamos os outros.

Certamente que nem todo mundo concorda com esse nosso caminho. Daí surge a perseguição por causa de Jesus e seu ensinamento. Não há problema, pois já conquistamos o Céu e com grandes recompensas. A maior delas é ver que outros creram em Jesus e seguem o mesmo caminho.

Tudo muito simples. Quanto mais fazemos como Jesus, mais gente seremos.

nº 1617 Artigo – “Crescendo amor”

 A caminho do altar

            É inesquecível aquela maravilhosa entrada da noiva rumo ao altar. E lá, ele, vendo-a em todo seu esplendor. Música, flores, convidados, sonhos, lágrimas e enfim a palavra mágica: “Promete amá-la”? Não querendo brincar, no momento atual a mala se torna importante no casamento. Partir… e buscar outros caminhos. Aumentam sensivelmente o número dos divórcios no Brasil. Diante desse fato, Papa Francisco sobre a preparação para o sacramento do matrimônio. Como a expectativa é para a vida, então é urgente dar vida à preparação. Casar e ajuntar são coisas diferentes. Casar-se na Igreja é um sacramento que supõe a fé e o compromisso de fidelidade e empenho total nessa causa que é a mútua entrega. Toda a preparação não é um ato isolado, mas envolve toda a vida pastoral da Igreja. O futuro da Igreja está na família. Quem tem convivência com as questões de casamento na Igreja sabe que o que menos interessa é o aspecto religioso. Tudo mais vem primeiro. Tudo isso passa. O que sobra não sustenta o casamento. Por isso há uma insistência na preparação. A comunidade participa para o bem dos noivos, pois ela “tem consciência que os que se casam são um recurso precioso, porque, esforçando-se sinceramente por crescer no amor e no dom recíproco, eles podem contribuir para renovar o próprio tecido de todo corpo eclesial” (AL 207). A preparação não significa acumular temas e textos de reflexão, mas é preparação na vivência da comunidade. É uma iniciação ao sacramento do matrimônio. É necessária muita abertura dos noivos de saber ouvir e ver a sabedoria. Casamento se aprende também. Assim resumo um pouco as palavras do Papa.

Passos de um noivado

             O primeiro elemento rico para um futuro matrimônio é a vida da família. Por isso é bom os jovens participarem, com a família, da vida religiosa da comunidade. É um aprendizado na escola do saber amar. O tempo de namoro e noivado é tempo de aprender a conhecer a outra pessoa e ver se são capazes de se amar no modo próprio que cada um é. Não há curso para aprender a amar. O Papa lembra que a preparação para o matrimônio está em ação desde o nascimento. Digamos que já na gestação. O matrimônio dos pais é a primeira escola. A pastoral poderá e deverá criar momentos de celebração para o dia dos namorados, aniversários de namoro, benção de anéis de compromisso etc… A pastoral não se preocupa com os namorados e noivos. Na verdade não sabe o que fazer. Certo que os noivos também demonstram pouco interesse. Sempre fica a pergunta: viveram tanto tempo de namoro e noivado e se separam logo depois. Por quê? Não aprenderam a amar? Pode ser que a família não proporcione esses elementos de formação por um testemunho negativo. Temos outras famílias para testemunho. A idade dos noivos já ajuda discernir.

Caminhando com responsabilidade

            O namoro e sua concretização em um noivado é o tempo da graça de Deus trabalhar o coração para o maior conhecimento do parceiro. É o momento de selar o conhecimento do outro. O afeto é fundamental, mas não sustenta o casamento se não estiver alimentado por um conhecimento responsável do parceiro. Os conflitos não terão como serem resolvidos. É importante que no namoro e no noivado se conheçam para não terem a decepção diante dos primeiros problemas. O afeto e o carinho são necessários. Conhecer um ao outro sustentará o afeto. É tempo de namorar, saber quem é a outra pessoa. Sem esse conhecimento está fadado ao fracasso. As durezas da vida de casal se vencem porque são sustentadas no conhecimento do amor.

nº 1616 – Homilia do 3º Domingo Comum (22.01.17)

 “O Reino de Deus está próximo”

 A começar dos mais fracos.

Jesus inicia seu ministério na Galiléia, tendo inclusive mudado de residência, passando a viver em Cafarnaum, uma cidade mais populosa, movimentada com comércio, caminho do mar e na margem do lago da Galiléia. Jesus começa sua atividade numa região mal afamada. É chamada Galiléia dos pagãos (Mt 4,15 – Is 8,23b) . Era uma população que sofrera uma mistura de povos. Os galileus eram mal vistos. Jesus ensina até com a geografia que Deus procura os necessitados. A mentalidade de Jesus era procurar a ovelha perdida, misturar-se com os pecadores, receber publicanos e prostitutas, conversar com mulheres e crianças, estar com gente que não conhecia a lei (Jo 7,49). Era uma posição social sim, mas nascida do amor de Deus pelos abandonados. Ele ouve sempre o grito do povo que sofre a escravidão, como podemos ver no Êxodo, nos salmos, nos evangelhos etc. Notemos que, o modo de Jesus iniciar seu ministério, vai ser a maneira de conduzi-lo. Que nossa pastoral, em lugar de privilegiar os bons, procurasse os necessitados e estimulasse os “bons” para fazer o mesmo caminho. O início do ministério de Jesus é o chamado à conversão. Esta se dá no coração da pessoa, como se dá o início da pregação de Jesus: anuncia num mundo imerso em trevas para que sejam iluminados por uma nova luz. Saíram do escuro do desconhecimento para a vida nova do Reino. A conversão é a chave da missão de Jesus. Sem ela permanecem as trevas.

Passando, disse: “Segui-me”!

Jesus usa a mesma mentalidade para escolher seus apóstolos. Os apóstolos que chama são pessoas humildes e fracas, gente do povo. Ele parte dos pobres para anunciar a riqueza do Reino. Nesta escolha convoca-nos a acreditar nas pessoas e dar chance a todos de poderem exercer o seu dom na comunidade. A formação do apóstolo se dá na convivência com Jesus. Estar com Ele é o modo de aprender a ser missionário do Reino, continuar o que fazia e como fazia. Aceitar o convite é se comprometer com uma pessoa concreta. A Igreja sempre contou com ministros sagrados para as celebrações e para a pregação. A vocação consiste sempre no chamado oficial da Igreja. Para saber se o chamado se dirige a uma pessoa autêntica, é preciso saber da conversão ao Reino. Aí temos os desencantos da vocação. Se, pelo contrário, a resposta parte de um coração convertido aos valores do Reino, podemos ter certeza de um autentico chamado. Ministério não é um emprego, mas um processo permanente de conversão, sempre saindo das trevas para a luz.

Tudo por um Reino.

O ambiente do Mar da Galiléia é uma constante na pregação de Jesus. Jesus usa a palavra pescar quando convida os discípulos para segui-Lo. Pescar nas águas profundas significa tirar as pessoas do mar do obscuro e do desconhecimento e do abandono total. É preciso lutar, remar e se esforçar. Lançar as redes é contar com a força da palavra de Jesus. A presença de Jesus é a garantia de boa pesca no lago profundo do mundo. Assim somos convocados a segui-Lo, estar com Ele e com Ele exercer a missão. Esta missão é a chamada à conversão para que o Reino de Deus se estabeleça entre nós. Por isso Paulo diz na carta aos Coríntios que todos são de Cristo. Não temos partidos. A Eucaristia nos põe em missão, como Jesus. Não podemos nos acomodar com as estruturas da Igreja e dizer que sempre foi assim. É necessário ver se essa estrutura corresponde ao que se necessita no momento. É preciso sempre voltar à fonte saindo das trevas para a Luz que é Jesus e seu Reino. Jesus continua passando e chamando. Quer um mundo que se renova.

Leituras: Isaias  8,23b-9,3; Salmo 26;1Coríntios 1,10-13.17; Mateus 4,12-23

Ficha nº 1616- Homilia do 3º Domingo Comum (22.01.17)

  1. Jesus inicia sua missão nas trevas da Galiléia para conduzi-la à luz através da conversão.
  1. Os apóstolos farão o mesmo caminho. Para quem segue Jesus é preciso o comprometimento da conversão.
  1. Somos convocados a seguir Jesus, estar com Ele e com Ele exercer a missão. 

            O que não brilha pode ter ouro. 

            No garimpo se luta por uma pedrinha dourada. O que não fazem para encontrá-la? O que não serve vai sendo jogado fora. Jesus começou o contrário. Viveu na Galiléia dos gentios, quer dizer, pagãos. Era uma terra meio pagã. Na destruição de Samaria, capital do reino do Norte (721 AC), os judeus são levados para Nínive e em seu lugar são trazidos estrangeiros pagãos. Assim se misturam. Acabam por ser meio judeus e meio pagãos. Por isso os samaritanos e judeus legítimos estarão sempre em briga.

            Jesus escolheu gente dali para ser discípulo seu. Eram muito humildes e simples. Jesus conhecia o valor daquela gente e sabia escolher o que iria brilhar. Os judeus diziam: pode vir alguma coisa de Nazaré (Jo 1,46)? Era da Galiléia. Nenhum profeta viera da Galiléia (Jo 7,52). Maria e José eram simples. Jesus igualmente, pois admiravam sua sabedoria, tendo vivido ali. Os sumos sacerdotes se admiraram dos apóstolos serem tão firmes em suas palavras, sabendo que eram iletrados.

            O profeta Isaias anuncia um tempo novo. “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte uma luz resplandeceu” (Is 9,1).

            Jesus era essa luz: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz” (Mt 4,16). Estamos no início da pregação de Jesus que escolhe seus discípulos à beira mar para serem os libertadores dos homens das profundas trevas. Somente conhecendo o sofrimento podemos saber ajudar na libertação.

            Os pobres são os herdeiros das promessas de Deus e recebem também a missão de levar a outros as notícias da conversão. Os pobres, para Mateus, são todos os que se abrem à riqueza de Deus e vêem o mundo com os olhos de Deus.       

 

nº 1615 Artigo – “Anunciar o Evangelho da família”

Evangelho da família é alegria

            Interrompemos, no tempo do Natal, nossas reflexões sobre a Exortação Apostólica do Papa Francisco, Amoris Laetitia – A alegria do amor – Retomamos o documento, lendo agora o capítulo sexto. É uma oportunidade de participar de uma reflexão importante para o momento da Igreja que é formada de famílias. A família não está em crise, ela procura crescer. Há problemas e muitos. Antes existiam problemas também, e muitos, que eram abafados por algumas afirmações fortes que acabavam por oprimir e não promover a vida. Vamos ler juntos “as perspectivas pastorais para a família no momento presente”. Alguns afirmam: “Antigamente era assim e dava certo”. O antigamente não existe mais. Os problemas são um desafio agora. O Papa Francisco é muito próximo aos problemas tanto da preparação do casamento como das dificuldades enfrentadas pelos esposos. Convida a levar “os esposos a experimentar que o Evangelho da família é alegria que enche o coração e a vida inteira” (AL 200). A Igreja não é dona, mas cooperadora na obra de Deus. Reconhece que o ensinamento sobre a família “é sinal de contradição”. Quer dizer: O mundo pensa diferente. Mas assim fizeram com Jesus. Foi e é sinal de contradição. Ela se põe com “humilde compreensão para chegar às famílias, a fim de que descubram a melhor maneira de superar as dificuldades que encontram no seu caminho” Não bastam posições genéricas. É preciso uma catequese orientada para a família (AL 200). Não bastam teorias desligadas da vida. Não bastam normas e leis. E preciso corresponder à necessidade.

Coragem de anunciar

            “Exige-se a toda a Igreja uma conversão missionária: é preciso não se contentar com um anúncio puramente teórico e desligado dos problemas reais das pessoas… mas propor valores, correspondendo à necessidade que se constata hoje, mesmo nos países mais secularizados”. A evangelização deve também denunciar “os condicionamentos culturais, sociais, políticos e econômicos, bem como o espaço excessivo dado à lógica do mercado, que impedem uma vida familiar autêntica, gerando discriminação, pobreza, exclusão e violência” (AL 201). Por mais que devamos acompanhar o mundo, não precisamos seguir seus erros cujos resultados são visíveis. Por isso, salienta o Papa, é muito importante o apoio dos leigos comprometidos. Nota também que sacerdotes, diáconos, religiosos e agentes pastorais não são formados adequadamente para tratar dos problemas atuais da família. Pede que a formação dos seminaristas não seja limitada só à doutrina. Mas que parta também da experiência. Muitos vêm de famílias feridas. É importante o contato com as famílias. A formação seja feita no contexto da diversidade das vocações no mundo. Os leigos da pastoral familiar sejam formados numa forma interdisciplinar.

Formação para o matrimônio

            Há uma insistência muito grande na formação dos jovens para o casamento para descobrir a riqueza e o valor do matrimônio. Conhecemos a realidade e a mentalidade dos que buscam o casamento religioso. Não passa de um rito social. Poucos o fazem por sua opção cristã. O tesouro do matrimônio se inicia no namoro e no noivado. É o dom do amor. Não se trata de um acúmulo de ensinamentos, mas de saborear interiormente as riquezas do amor. É o momento de se encontrarem novas formas de introduzi-los na vida matrimonial. É diferente casar na Igreja do casar-se em Cristo. Se os orientadores do povo de Deus não estão preparados e não têm conhecimento da realidade, podem prejudicar os casais. Há necessidade de renovar a formação e não ficar só no ritualismo e na superficialidade.

nº 1614 – Homilia do 2º Domingo Comum (15.01.17)

“Eis o Cordeiro de Deus” 

 Celebrando o Mistério de Cristo

Iniciamos o Tempo Comum do Ano Litúrgico no qual não celebramos uma memória particular da vida do Senhor, como Natal, Páscoa, Ascensão, mas o Mistério de Cristo na sua globalidade. Neste tempo damos importância especial ao domingo como dia do Senhor e ao cotidiano da vida celebrado como presença do Senhor. Usamos a cor verde significando que vivemos voltados para a realização do Mistério Pascal de Cristo. Nada de nossa vida está fora da luz que emana de Cristo. No segundo domingo dos anos A, B e C, lemos o evangelho de João. É a apresentação de Jesus aos discípulos, como o faz hoje João Batista. Esse segundo domingo tem uma característica particular. Em Caná, manifestou-se sua glória e os discípulos creram nele. É uma continuação da Manifestação do Senhor no Natal e abertura da manifestação de Jesus no tempo de sua obra de anúncio do Reino. No período do Tempo Comum, também chamado Ordinário – segue a ordem – temos também a celebração dos santos e da Santíssima Virgem Maria, sempre chamada de Mãe de Deus. É o mistério de Cristo vivido pelos fiéis, como foi vivido em totalidade por Maria. Os santos são apresentados como modelos e intercessores. Eles viveram o Evangelho. Unidos a nós no Corpo de Cristo intercedem por nós na intercessão e mediação de Cristo. Maria, por ter estado unida a Cristo em todo o mistério da Salvação, continua unida a Ele na obra da Redenção. Cristo, seu Filho, unido a ela pela encarnação, continua unido na glorificação.

Eis o Cordeiro de Deus!

Jesus é chamado de Cordeiro de Deus. Colocamo-nos junto como os discípulos no seguimento de Jesus. A palavra de João Batista é clara: “Eis é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo… Este é o Filho de Deus. Ele está cheio do Espírito Santo” (Jo 1,29-34). Ele é a salvação que vai chegar até os confins do mundo. Esta salvação acontece quando acolhemos Jesus em nossa vida. Deus. A palavra cordeiro, talyâ’ em aramaico, significa servo, cordeiro, jovem, jovem de confiança e ainda pedaço de pão (Tomás Frederici). Abraão oferece um cordeiro no lugar de seu filho Isaac (Gn 22.13). No templo são oferecidos dois cordeiros por dia (Ex 29,39). Jeremias usa a imagem do cordeiro: “Mas eu, como um cordeiro manso, sou levado ao matadouro” (Jr 11,19; Is 53.7). São as atitudes de Cristo como redentor. Ele é sacrificado silenciosamente por nossos pecados.  Os nômades usavam o sangue dos cordeirinhos sacrificados para afastar os maus espíritos e proteger os rebanhos. No Êxodo, os judeus passaram o sangue do cordeiro pascal nos umbrais das portas para serem protegidos. Assim Jesus com seu sangue perdoa os pecados, afasta de nós o mal e nos dá nova vida. Cristo é verdadeiro cordeiro pascal (1Cor 5,7). O Cordeiro sacrificado na Cruz é a luz das nações (Is 49,6). O livro do Apocalipse mostra que Ele é digno de toda honra. Ele estará no trono com Deus. Jesus é o Servo que é luz das nações (Is 49,6).

Seguidores de Cordeiro.

O Cordeiro os conduzirá (Ap. 7,17).  Somos todos seguidores do Cordeiro. Jesus é o Servo que é luz das nações (Is 49,6). O sangue redentor de Jesus não é para poucos. A missão do Cordeiro continua no mundo através de seus discípulos, entre os quais sobressai Paulo que foi o primeiro a evangelizar os povos. Sua missão provém de um chamado especial: “Vai ao longe, é aos gentios que eu quero te enviar” (At 22.21). Seremos anunciadores na na força do Espírito Santo. Seremos luz para as nações, como o foram tantos santos.  Sendo servos participamos do sacrifício de Cristo que veio para fazer a vontade do Pai (Sl 39,9).

Leituras: Isaias 49,3.5-6; Salmo 39; 1Coríntios 1,1-3; João 1,29-34

Ficha nº 1614 – Homilia do 2º Domingo Comum (15.01.17) 

  1. O segundo domingo nos traz a manifestação do Senhor aos discípulos e o início de seu ministério.
  1. Jesus é apresentado como o Cordeiro que vem para a salvação de todos.
  1. Como Paulo, seremos anunciadores de Cristo a todos.

          Tem para todo mundo 

Jesus se manifestou revelando para nós a bondade e a misericórdia do Pai para com todos. Em Belém, no Natal, manifestou-se aos pobres pastores. Depois se revelou aos Magos, pessoas sábias e por isso humildes. No batismo de João revelou-se aos judeus. Nesse segundo domingo temos todos os anos a manifestação aos discípulos. João Batista diz: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).

          Iniciando o tempo comum, após as festividades do Natal, temos essa passagem para o Filho, que inicia seu ministério.

          Isaias apresenta o Servo de Deus (que aplicamos a Jesus) como sendo luz das nações: “Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue aos confins da terra” (Is 49,6). Essa é a descrição da missão do Cordeiro que oferecido a Deus (como eram sacrificados os cordeiros no templo) e que purifica o pecado do mundo. É a visão universal da salvação.

          Os coríntios, evangelizados por Paulo, são a primeira geração dos que recebem o evangelho destinado a todos. Essa é a vontade de Deus, por isso rezamos no salmo: “Eis que venho para fazer a vossa vontade” (Sl 39).

          O Evangelho não pode ficar guardado num livro que lemos com piedade. Ele é uma força nova que renova e propulsora que renova o mundo. Ela tem a presença do Espírito Santo.

          Continuamos essa missão de Jesus abrindo a todos o Evangelho. Francisco, nosso querido Papa, insiste numa Igreja em saída, aberta a todos e que se adianta, mesmo sem ser chamada. Chega primeiro.

nº 1613 Artigo – “Um Deus para todos”

 Magos homens da comunicação

            A narrativa da visita dos Magos a Jesus sugere muitas interpretações e indagações. O importante é a riqueza do texto que orienta. Não podemos ficar somente narrando uma historinha bonita, sem aprender o ensinamento evangélico dessas pessoas. Podemos ver que são o instrumento de Deus para mostrar a universalidade da salvação. Deus veio para todos e não só para um povo. Chegaram procurando o rei dos judeus, mas voltaram por outro caminho (Mt 2,2.12). Voltaram não para contar sobre o rei dos judeus que acabava de nascer, mas o Senhor de todos que chegara. O sentido de sua visita é a destinação da salvação para todos. Até a tradição diz que cada um deles veio de um continente e ali se encontraram. Significa justamente isso. Os Magos serão os primeiros missionários do Menino de Belém. Aprendemos dessa narrativa a universalidade da missão de Jesus. O povo judeu recebeu uma missão de acolher a revelação de Deus e ser um  instrumento maravilhoso para que a verdade chegasse a todos. Apesar das palavras dos profetas, não compreenderam. Os Magos abrem aos povos a boa notícia do nascimento de Jesus. Realizam-se as profecias. Quando os apóstolos começam a pregar o Evangelho, terão encontrado uma terra fértil. Chegada a plenitude dos tempos, diz Paulo, Deus enviou seu Filho nascido de uma mulher (Gl 4,4). A plenitude refere-se também aos outros povos que Deus preparara para acolher o Evangelho. Eles O amarão sem o terem conhecido (1 Cor 8,3).

Missão de levar aos outros

             Deus age através de seus mensageiros. Em sua condição Divina, torna-se impossível a comunicação. Essa comunicação Deus a faz através de seus mensageiros. A encarnação de Jesus que veio como Palavra do Pai, deu-nos a oportunidade de ver Deus face a face. Jesus envia seus mensageiros, os apóstolos e os discípulos para anunciarem a Boa Nova – Evangelho. Acolhendo essa comunicação entramos em comunhão com a Trindade. Como o Espírito sopra onde quer (Jo 3,8), aquele que acolhe Jesus, está sempre em movimento de acolhimento e de anúncio. Não guarda para si, mas está em contínua comunicação. Essa força vem da presença do Comunicador do Pai. Quem conhece o Amado, diz, Beata Maria Celeste Crostarosa, tudo faz para que seja conhecido e amado. Para isso não desanima, mesmo que as condições, mesmo físicas, sejam insuficientes. Impressionava muito S. João Paulo II em seu vigor de anunciar, mesmo em estado de saúde precário. A evangelização não nasce de uma decisão pastoral, embora já seja bom, mas de uma decisão de vida: “O meu amado é para mim e eu sou para Ele” (Ct 2,16). É isso que podemos chamar de mística. A mística da evangelização nasce do Amor que foi amado. Sem Jesus comunicador do Pai, a evangelização não acontece.

Fortaleza na fé

            Todos os tempos são difíceis, dizem todos os tempos. São difíceis, pois há sempre desafio. Aqui entra o papel da fé. Fé não é somente crer em um punhado de verdades, mas ver a vida e o mundo com a verdade de Deus. A palavra fé na escrita cuneiforme da Babilônia é desenhada como uma fortaleza bem defendida. Ela está acima do próprio viver da pessoa que é capaz de dar a vida sustentada por ela. Por ela as pessoas se dedicam ao bem, sem se entregar à moleza do comodismo. Assim são os que se dedicam em levar aos outros o que encontraram, como os Magos. Partiram por outro caminho. Não era mais a busca de um recém nascido, mas o anúncio a todos os povos do Salvador que chegou para todos. Os Magos nos dão ensinam a universalidade da salvação e a missão de anúncio dessa verdade.

 

nº 1612 – Homilia da Epifania do Senhor (08.01.17)

Deus veio para todos 

Vimos sua estrela no Oriente.

 A Epifania é o segundo momento da Manifestação do Senhor. É o mesmo Mistério visto sob outro ângulo. O primeiro é o Natal, o terceiro é o Batismo de Jesus e o quarto é a manifestação aos discípulos em Caná. Deus se manifesta aos humildes do povo, aos Magos, aos judeus no batismo e por fim aos discípulos.  Os Magos eram estudiosos do movimento dos astros. Eram homens de verdadeira ciência, pois conheciam os caminhos de Deus. Conheciam a profecia de Balaão: “Vejo, mas não agora, contemplo, mas não de perto: Um astro se levanta dos acampamentos de Jacó e se torna chefe” (Números, 24.17). Este astro não é a estrela dos presépios, mas o próprio Cristo. Quando a viram sobre o lugar onde estava Jesus, sentiram uma alegria muito grande. Entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe. Adoraram e depois abriram seus cofres e ofereceram-Lhe presentes: ouro incenso e mirra. Sobre os Magos ficamos mais no nível da simbologia do que da história. O mais importante é ver o que significa a narrativa. Para isso temos as outras leituras. Os nomes Gaspar, Baltazar e Melquior também são simbólicos. São tradições bem posteriores. Suas “prováveis” relíquias estão em Colônia desde o ano de 1164. Tinham sido trazidas da Palestina para Constantinopla, levadas para Milão e daí para a Alemanha. O principal é a verdade do Evangelho: Jesus veio para todos.

A grande revelação

O profeta Isaias diz a Jerusalém: “Levanta-te Jerusalém porque chegou a tua luz”. Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti… O mundo em trevas vê uma luz (Is 60,2). Os Magos representam todos os povos pagãos que buscam Deus e O encontram em Jesus, revelação do Pai. São Paulo ensina na carta aos Efésios, que recebeu a revelação de Deus e teve conhecimento do mistério: “Todos os povos são admitidos à mesma herança, como membros do mesmo corpo são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do Evangelho”. Deus é o Deus de todos. Não era essa a mentalidade judaica. Cristo veio para todos. Infelizmente, depois de 2.000 anos ainda temos uma imensa humanidade que ainda não recebeu este anúncio. Ainda temos que anunciar. No momento, em lugar de buscar novas formas, estamos esfriando o ardor missionário. Pode ser que nossa fé não seja suficiente para entusiasmar a missão. A Igreja está se embaraçando e se perdendo em ritualismos e legalismos, sem lembrar os males que obscurecem o anúncio do Evangelho. Há os que pensam que Deus não serve a nada.

                                                            Ofertas dos povos              

A oferta de ouro, incenso e mirra significa que o Cristo que nasce e, que eles adoram, é o Senhor rei do universo a quem oferecem o ouro. É Deus, a quem oferecem o incenso de adoração. Mas é também o homem das dores, que participa de nossas fraquezas, dores e morte, por isso a mirra. Ela é uma resina que era usada para embalsamar cadáveres e servia de anestésico para a dor. Esta é a resposta que podemos dar ao Menino que nos foi dado. Herodes recusou e quis matá-Lo. Os Magos acolheram, adoraram e voltaram por outro caminho. Não fizeram o jogo de Herodes. Herodes continua vivo em tantos projetos que destroem a vida ou o coração dos pequeninos. Uma renovação da fé deve se espelhar na atitude manifestada por esses homens. Procurar Deus, mesmo através das ciências humanas. O conhecimento da Palavra de Deus fundamentará essa busca. E por-se a caminho, não deixando se envolver por ideologias que querem eliminar o Menino.

Leituras:Isaias 60, 1-6; Salmo 71; Efésios 3, 2-3a.5-6;Mateus 2, 1-12

Ficha nº 1612 – Homilia da Epifania do Senhor (08.01.17) 

  1. A celebração Epifania do Senhor, manifestação de Deus, é cercada de muitos símbolos que nos fazem entender a missão de Jesus.
  1. Como Paulo, entendemos que Jesus veio para todos os povos. Os reis são o símbolo.
  1. Os presentes de ouro, incenso e mirra exprimem a condição de Jesus: Deus, Homem e sofredor. Os Magos são um modelo de busca de Deus.

            Velhinhos danados.

Não sabemos se eram velhos, pois a sabedoria é um dom dado também aos jovens. Não sabemos o que eram, como eram, de onde eram e o que faziam. Não tinham nomes. Os nomes que damos vieram muito mais tarde. Não eram reis, nem feiticeiros. Uma coisa é certa: Eram sábios. Estavam seguindo uma estrela. Eram gente boa, pacífica e sincera.

Quando chegaram a Jerusalém procurando o rei dos judeus que acabava de nascer, a cidade pegou fogo. Até Herodes se ouriçou. Ainda mais ele que era cioso de seu poder e para isso matava para se defender.

Herodes reúne os entendidos na religião para saber o lugar do nascimento do Messias. Todos sabiam, menos ele. É interessante que nossos poderosos são de uma ignorância religiosa que dá vergonha. Nem todos, mas a maioria. Por isso fazem tanta danura.

Vão a Belém e a estrela brilha sobre o lugar onde estava o Menino. Na verdade, o Menino Jesus é a estrela. O evangelho diz que se alegraram com uma alegria muito grande. É a alegria divina. Adoraram e abriram seus presentes: ouro, incenso e mirra. Não se trata só de um presente, mas o reconhecimento de Jesus como Rei, Deus e Homem das dores.

            Eles, espertos, percebendo o golpe que Herodes queria dar e que acabaria também com eles, voltaram para suas terras por outro caminho. Depois que a gente encontra Jesus, sempre mudamos os caminhos.

            Lembramos que são pagãos esses homens. Deus se abre a todos que O procuram. Entramos em seu pensamento de vamos levar o Messias a outros, porque Ele tem muito a oferecer a cada pessoa. A salvação é para todos os povos.

nº 1611 – Artigo “Frutos do Natal”

A Família se Renova

Os dias de Natal privilegiam a união da família. Procura-se ir longe para poder estar com aqueles que amamos. Os que são solitários sofrem com a ausência de alguém com quem compartilhar. Criticamos o comércio do Natal. Apesar de ser verdade, entendemos que dar presentes é uma alegria. A exploração não destrói o aspecto de fraternidade que o Natal cria. A simbologia da ternura torna-se a rainha do momento. Deus que se fez homem na pessoa de Jesus, o Filho eterno do Pai, uma criança filho da mulher. Essa ternura se transmite aos que vivem esse momento, mesmo que não seja da mesma fé. Tudo é fruto da ternura de Deus. Esse momento privilegiado da família pode ser uma fonte de renovação da família. Os presentes expressam bem aquilo que Deus nos oferece como presente em seu Filho. Há uma oração do dia de Natal que diz: “Acolhei, oh Deus, a oferenda da festa de hoje, na qual o céu e a terra trocam seus presentes. Dai-nos participar da Divindade Daquele que uniu a Vós a nossa humanidade”. Diz também: “Oh admirável comércio”! Deus nos deu sua divindade e nós lhe damos nossa humanidade. A troca de presente expressa essa verdade de nossa fé. Esse clima orienta a vida de nossa família na qual cada um é um presente para o outro. Mais que coisas, o presente expressa a doação que fazemos de nós mesmos. A família se enriquece na fraternidade. Quanto mais irmãos, mais o Natal acontece em nossa vida.

Amigos de Deus

Há sempre uma preocupação com aqueles que não têm nada para o Natal. Por isso temos a distribuição de presentes, atenção às crianças pobres e cestas de Natal. Há um desejo que haja um Natal sem fome. Os queridos de Deus são procurados e atendidos. O nascimento de Jesus traz uma preocupação de solidariedade. Não pensemos que o Natal seja universal. Há culturas que não sabem nada de Jesus. Os que sabem se dedicam com carinho, querendo ser a mão de Deus acariciando a todos. Jesus é a máxima expressão do carinho de Deus. É um aprendizado grandioso. Como Deus foi solidário conosco em nossa situação de miséria criada pelo pecado que nos fechou as portas do Paraíso, assim queremos ser solidários, continuado o gesto de Deus. A pobreza de Cristo não quer canonizar a pobreza como sendo a melhor condição de vida. Quem faz opção pela pobreza é para ser solidário para que todos saiam da pobreza que destrói os valores humanos. Nenhum homem ou mulher pode se sentir menos humano. Deus escolheu a pobreza para nascer, para evangelizar e para constituir o seu povo. O absurdo é não pensar em ser solidário. O bem que temos é para repartir. Ninguém vai ficar menos rico por ser solidário.

Nada se perca

A solidariedade de um dia só pode aumentar a ausência dos bens necessários para a vida. A fraternidade nos leva à solidariedade o ano todo. O gesto do Natal seja uma escola para que aprendamos a servir os mais necessitados. Tudo pode sair melhor se a comunidade se organiza. Jesus disse aos discípulos depois da multiplicação: recolhei os pedaços que sobraram para que nada se perca. Quanto se perde em nossa sociedade! O meu supérfluo é de direito do necessitado. Os bens da terra são para todos. Ninguém é dono de tudo de modo a dispor a seu bel prazer. Tudo o que temos, mesmo feito por nós, pertence de algum modo ao mundo. Quem tem é porque recebeu algo já feito, desde o ar até ao trabalho das pessoas. Não podemos responder como Caim: “Então o Senhor perguntou a Caim: “Onde está seu irmão Abel? “Respondeu ele: “Não sei; sou eu o responsável por meu irmão?” (Gn 4,9). O irmão está em nosso coração, onde habita Deus.

nº 1610 – Homilia da Santa Mãe de Deus (01.01.17)

“SANTA MÃE DE DEUS” 

Cristo é nosso astro guia

No início do ano civil a Igreja celebra a festa de Santa Maria, Mãe de Deus. Rezamos na oração: “Ela nos trouxe o Autor da Vida”. Pela virgindade fecunda de Maria, Deus nos deu a salvação eterna, pois nos trouxe o Autor da Vida. O ano novo brota também desta relação bonita da humanidade com a divindade nos braços da Mãe. Esta é a nascente de toda benção: “O Senhor faça brilhar sobre ti sua face e te dê a paz” (Nm 6,26). Não acredito em e nem leio horóscopo. Não me baseio em astros, pois não passam de belas estrelas que um dia estarão apagadas. Formam figuras imaginárias. Tenho um astro vivo e eterno, Jesus, imagem do Pai, rosto de todo homem e mulher. Neste início de Ano Novo vamos recorrer um horóscopo cristão que oriente todo nosso ano de 2017. São três elementos que orientam: O sol, não aquele que ilumina de dia e se esconde de noite. O Sol que veio nos visitar. Não ficou no alto, desceu e nasceu de uma Virgem. Depois do Sol, temos a figura dos pastores. Eles foram a Belém para ver o que os anjos lhes anunciaram. Encontraram o Menino na manjedoura (Lc 2,8-20). O terceiro elemento é você mesmo, pois, nos horóscopos, somos marionetes e escravos nas garras de astros e de um monte de fantasias. Mas você é filho adotivo, “predestinados a ser a imagem de seu Filho” (Rm 8,29). Por isso podemos dizer Abbá, Pai. “Somos filhos, e se somos filhos, somos herdeiros de Deus” (Gl 4,7). A vida, conduzida pelo Sol Nascente, será iluminada. Para Ele, mesmo as trevas não são escuras… e a escuridão é tão brilhante como a luz (Sl 139,12).

Receita para bem viver:

O primeiro elemento de nosso horóscopo cristão: você não recebe uma mensagem de fora, numa lei cega de rotas de astros com mensagens forjadas. É você, que olhando o Astro do presépio, Jesus, sabe a direção a tomar em sua vida, pois Ele é o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,60). Ele dá a palavra orientadora. A palavra que dirá o que somos é a Palavra de Deus. Ela orientará o que devemos fazer para chegar à felicidade e vencer o mal. O segundo elemento é você que saberá madura e livremente buscar as soluções dando os passos para ir até Belém como os pastores; saberá ouvir como Maria e meditar no coração o que vê e ouve. O pastor é o terceiro elemento: Jesus, Astro Rei, foi apresentado aos pastores. Sem a dimensão do irmão necessitado, não poderemos jamais nos considerar cristãos sérios e santos. A orientação da Palavra de Deus, dada pelo Astro Jesus, vai nos endereçar a atenção, o carinho e a caridade para com os mais necessitados. O diálogo com os pobres é elemento fundamental na pessoa de Jesus. Assim poderemos viver um ano feliz, pois “o Astro, Jesus” nos guiará. Só teremos força para ir aos pobres, se formos pobres diante de Deus, isto é, vazios de nós mesmos e cheios do amor que constrói.

Bênção que se constrói

O Senhor te dê a paz (Nm 6,22-27). Queremos paz! Queremos um caminho seguro sem guerras, violência e tiranias. Basta fazê-lo. Queremos a bênção de Deus. Jesus é esta bênção. A bênção é um dom e uma missão: recebemos uma bênção para que sejamos uma bênção para todos, mostrando-lhes a face de Deus. Receita de felicidade: Ter um coração como o de Maria: “Guardar tudo que acontecer, meditando no coração” (Lc 2,19). Tenha certeza: Não se mede a quantidade de anos de nossa vida, mas a vida que colocamos nesses anos. Teremos todas as bênçãos que desejarmos se, primeiro formos uma bênção para os outros.

Leituras:  Números  6,22-27; Salmo 66; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21

Ficha nº 1610 – Homilia da Santa Mãe de Deus (01.01.17)

  1. Jesus é o astro que nos orienta nesse novo ano.
  1. Buscará em Jesus palavras orientadoras para sua vida. Estas o levarão a buscar os necessitados.
  1. Receita para o Ano: Ter um coração como o de Maria e ser uma bênção. 

            Nome certo 

 Maria, aquela de Nazaré que deu à luz um menino que tinha mãe e não tinha pai terreno. Ela tinha marido, mas o pai era outro, que já era Pai. O Pai gerara o Filho eterno. A mãe gera o Filho que é Deus. Se ela fosse fazer a carteira de identidade tinha que colocar como nome, Maria, Mãe de Deus. Era sua identidade. Quando vai visitar Isabel, essa já usa o nome certo: “De onde me vem que a Mãe do meu Senhor me visite” (Lc 1,43). Senhor, para os judeus era o Todo Poderoso. Está na Bíblia! Maria reconhece essa sua identidade quando diz: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada, pois o Todo Poderoso fez grandes coisas por mim. Santo é seu nome” (Lc 1,48-49). Tem consciência do que ela é.

As mães são assim. Um dia escrevi um livro e disse à mamãe que não interessava dar o livro para ela, pois era um assunto que não lhe interessava. Olha o que me disse: “Interessa sim, pois fui eu que escrevi”. Tem consciência que aquilo que há em mim está unido a ela. Mãe é mãe. Maria não renunciou seu direito.

Esta festa é celebrada na lembrança da proclamação do dogma da Maternidade Divina. Negar que Maria seja chamada Mãe de Deus é negar que Jesus seja Deus. Então Ele seria só um homem e não Homem-Deus, como nos reafirma o Concílio de Éfeso (23 de junho de 431). Podemos rezar com entusiasmo: “Santa Maria, Mãe de Deus”. O povo fez festa a noite toda.

Iniciamos o ano no colo da Mãe recebendo as bênçãos do Pai. A bênção que Deus nos oferece é mostrar seu rosto bondoso para nós. Vai ser um ano bom. Sugestão: Fazer como Maria, nossa Mãe, fazia: Guardava tudo meditando em seu coração.

Mesmo com toda essa grandeza ela mantém sua simplicidade de mulher do povo, pobre, morando num fim de mundo, mal afamado. Sabe de sua humildade e aceita: “O Senhor olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,48). Assim Jesus aprendeu de pequeno com a Mãe a amar e cuidar dos necessitados e a ser simples, sem vergonha de ser pobre. Essa é a bênção que fica.

nº 1609 – Artigo “Na casa de Nazaré”

  1. Consagrar-se a Deus

            O Beato Paulo VI, quando foi em peregrinação à terra de Jesus, Israel, fez uma visita a Nazaré. Fez uma bela reflexão a partir do que sentia por estar naquele lugar santificado pela presença de Jesus, Maria e José. Diz: “Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho. Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa manifestação tão simples, tão humilde e tão bela, do Filho de Deus” (Alocuções 05.01.64). Que podemos aprender de Nazaré? A Sagrada Família mostra muito bem como viver para Deus num mundo que insiste em é negá-lo. Certamente podemos pensar que o povo de Israel tinha fé, era religioso e devoto. Mas… acabaram com Jesus e recusaram o Evangelho. Já desde o Antigo Testamento, na linguagem dos profetas, se fala de um resto fiel, os pobres de Javé (Sf 3,13). A família de Jesus, seus discípulos e seguidores eram os pobres. Viviam para Deus, nas muitas dificuldades e até violências da vida. A vida da família de Jesus por viver em Nazaré, que era lugar pobre e sem expressão, vive a intensidade da vida. Inclusive religiosa, pois ali não havia uma organização do culto como nas grandes cidades. Ser consagrado a Deus (nazareno) exige essa abertura total a Deus na simplicidade. É uma escola. Percebemos isso na vida de Jesus. Nessa vida foi educado. Sempre para Deus, em qualquer situação e circunstância. Cantamos: “Na casa de Nazaré, o sim ecoou sereno e Deus se fez pequeno”. Responder a Deus é simples e discreto.

  1. Pobreza como riqueza

             Nazaré, segundo os estudos arqueológicos, era um lugarejo fora das rotas das estradas. Devia ter uns duzentos habitantes. Eram muito humildes e pobres. Eram capazes de viver intensamente com o pouco que tinham. A pobreza que se prega, não é tanto a falta de coisas, mas a abertura para Deus como maior riqueza. Então tudo é grande, é precioso, é rico. Podemos dizer que o melhor recheio para um pão sofrido é o amor. O desapego faz de qualquer coisa uma grande riqueza. Receita para uma boa saúde: pão com amor. Procuramos encher nossa vida com tanta coisa. O pouco quando é amado é grande riqueza. Não procuramos que faltem coisas. Queremos a fartura para todos. Mas a fartura sem o sentido da riqueza de Deus nunca satisfaz. A pobreza que aprendemos em Nazaré é a riqueza do coração. Quanto faz falta para nós a simplicidade, a capacidade de servir, de ficar feliz em todo lugar, mesmo se falta alguma coisa. Vivendo no amor, tudo é gostoso e rico. Um colega missionário, vivendo na Angola durante a guerra dizia: “A gente comia folhas e era feliz”. Faltava tudo. Tinha o alimento para o coração.  Não se quer miséria.

  1. Buscar água no poço

            A família de Nazaré ensina também a viver com os outros. Quantas vezes Jesus e Maria terão ido ao poço buscar a água. As casas eram extremamente humildes. Quem sabe um cômodo para a família e algum ambiente para animais e as poucas reservas. Jesus era filho do carpinteiro, mas suas parábolas são sobre o campo e o lago. Ali cada um tinha sua pequena plantação e alguns animais. Era uma grande família. Viviam próximos e dedicados uns aos outros. Tudo era comum. Problemas não faltavam. É nesse ambiente que devemos procurar as virtudes da Sagrada Família e fazer sagrada a nossa família. Nesse ambiente simples, a simples família foi suficiente para educar o Filho de Deus feito Homem. Em qualquer circunstância podemos ter um coração capaz de amar e servir a Deus. Assim o povo sofrido poderá encontrar nova sorte.

nº 1608 – Homilia do Natal de N. S. Jesus Cristo (25.12.16)

“Vimos Deus” 

Nasceu-nos um menino

            O povo de Israel tinha consciência da impossibilidade de ver Deus (Ex 33,20). Ver Deus significava morrer. Que mais existe no mundo depois que se vê a Deus? É o que celebramos no Natal: Deus se manifestou e nós vimos sua face. Deus se manifestou em seu Filho. A festa do Natal celebra o nascimento do Filho de Deus no mundo, como um de nós, desvestido da glória da divindade. A celebração não é como uma comemoração de um aniversário, mas a presença do Mistério Pascal de Cristo em sua manifestação. Participamos do Mistério e recebemos a graça: “Todos que O receberam aos que creram no seu nomedeu o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). “Pois o Verbo se fez carne e habitou entre nós; e nós vimos sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1,14). Não basta só parar diante do presépio e contemplar a ternura e beleza, mas ir mais adiante, acolher a manifestação de Deus. O Menino que nasce é a manifestação de Deus para que todos creiam e acolham para que tenham vida e vida em abundância (Jo 10,10). Veio para atrair a todos a seu Amor e sua Vida. Veio gerar comunhão com a Divindade. Devemos ir além da ternura e chegar à graça que é a vida de Deus que nos é comunicada. Não se trata do início de uma nova religião, mas o retorno do homem a sua origem, ao paraíso. É preciso sair dos mitos, dos contos bonitos, e entrar no coração de Deus. Aquele Menino deitado num cocho é o Unigênito Filho do Pai. Por isso os Anjos cantam. É um acontecimento que envolve o Céu e a terra.

Resgatou-nos da maldade

            A liturgia, ao proclamar o texto de Isaias (Is 9,1-6), manifesta a alegria e a compara com coisas tão humanas como a colheita e a vitória. Acabou o sofrimento do povo durante uma guerra. Resgatou o povo do sofrimento, pois “manifestou-se a graça de Deus trazendo a salvação para todos os homens” (Tt 2,11). A encarnação do Filho de Deus não é uma lenda, mas uma realidade libertadora: “Ele se entregou por nós para nos resgatar de toda a maldade e purificar para Si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem” (Tt 2,14). A redenção, que é expressão do amor de Deus, modifica o homem na sua condição de pecador para que pratique o bem e se restaure o universo. O próprio nome Jesus indica que Deus é salvação, “pois ele salvará seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21). Pecados não são aquelas coisas que chamamos de moralismo, mas atuará na raiz no mal. A redenção não visa em primeiro lugar o mal, mas, sobretudo a união com a Divindade. Em Cristo a humanidade se uniu à divindade. Essa humanidade é a nossa. Ele a recebeu de Maria, pois o anjo disse a ela: “O Filho que nascer de ti será chamado Filho do Altíssimo”. Jesus tomou a carne de Maria que é de nossa humanidade. Jesus não é só um personagem da história. Ele é a irrupção do Divino no humano. A beleza no Natal não pode afogar Jesus.

A glória do futuro

            A oração da Eucaristia da noite, chamada missa do galo porque começava com o canto do galo à meia noite, nos ilumina: “Ó Deus, que fizestes resplandecer esta noite santa com a claridade da verdadeira luz, concedei que vislumbrando na terra esse mistério, possamos gozar no céu sua plenitude”. A celebração do Natal nos leva a buscar o Céu. Lá é que estão as verdadeiras alegrias. Conhecer e acolher Jesus é entrar em um novo modo de vida. O Natal não é um dia, é uma eternidade. Deus vem a nós e nós vamos a Deus para partilhar da comunhão eterna, já, enquanto peregrinos. Feliz Natal em Jesus.

Leituras: Missa da noite: Is 9,1-6; Sl 95; Tt 2,11-14;Lc , 2,1-14 -jo 1,1-18 –

Missa do Dia: Is 52,7-10;Sl 97; Hb 1,1-6;Jo 1,1-18.

Ficha nº 1608 – Homilia do Natal de N. S. Jesus Cristo (25.12.16)

  1. No Natal celebramos a manifestação de Deus na carne humana. É Homem.
  1. A encarnação do Filho de Deus não é uma lenda, mas uma realidade libertadora: Ele é a irrupção do Divino no humano.
  1. Conhecer e acolher Jesus é entrar em um novo modo de vida.                                  

                        Um dicionário de carne

              No dia de Natal temos três missas diferentes: uma à noite em que celebramos o nascimento de Jesus, outra na manhã lembrando os pastores e outra durante o dia celebrando o Verbo de Deus encarnado. Essa tradição vem dos usos do Papa em Roma que celebrava em três comunidades diferentes.

              Estamos diante do mistério de um Deus que nasce entre os animais, numa gruta, em Belém, cidade originária da família de Davi. Estavam ali para o recenseamento. Ali oficialmente está colocado na lista dos cidadãos do mundo. O imperador quis contar todos os cidadãos da terra.

              No evangelho de S. João esse Menino é o Verbo Eterno de Deus nascido do Pai antes de todos os séculos. Ele é um com o Pai. Com Ele é o Criador. Esse Filho se encarnou e habitou entre nós, não como um passageiro, mas como participantes de nossa vida e nossas atividades.

              “Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens”.  Essa luz que brilhou foi recusada, pois as trevas não conseguiram dominá-la.

              O Natal continua vivo e presente entre nós, sobretudo quando ouvimos a Palavra de Jesus e assumimos sua vida. Nasceu para dar vida. Assim o Natal pode durar o ano todo.

              Vendo a alegria dos pastores podemos ser para os humilhados um momento de alegria que os conduza também a Belém.

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nº 1607 – Artigo “Chego amanhã”

  1. Liturgia que encanta

            A liturgia do tempo do Natal procura levar o cristão a compreender o mistério do nascimento de Jesus e sua encarnação numa linguagem consistente de ensinamento e extremamente terna, como terno é o Deus que nos deu seu Filho. A própria liturgia mostra seu encanto diante da benignidade de nosso Deus como diz S. Paulo a Tito: “Quando a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, se manifestaram, Ele salvou-nos… por sua misericórdia fomos lavados” (Tt 3,4-5). Os ensinamentos nos conduzem ao presépio, forma visível de seu nascimento, e encontrá-Lo na solene liturgia. Ali se realiza sacramentalmente. Ao celebrar estamos não diante de um presépio, mas participando da realidade de modo sacramental. Recebemos tudo que Deus nos ofereceu em seu Filho e ofertamos tudo o que somos e temos. Quando algo nos atrai e encanta, nada pode tirá-lo de dentro de nós. Aqui temos a importância de não perder de vista o mistério que celebramos, mesmo participando das alegrias que a data oferece. Nesses dias de preparação, há como que uma recordação atualizante, isto é, faz acontecer de modo místico, a história da salvação que culmina no Deus Conosco. Na proximidade do Natal estamos participamos dessa história de Salvação. Num jogo de palavras da liturgia de preparação, podemos ouvir a resposta de Deus às nossas súplicas: Estou chegando amanha! Notícia boa. Ele é Emanuel, Deus Conosco.

  1. Festa de irmãos

            “Nasceu-nos um menino, um filho nos foi dado!” (Is 9,5). Traz nossa marca humana. A carta aos Hebreus nos ensina: “Tanto o Santificador quanto os santificados descendem de um só: razão porque não se envergonha de nos chamar de irmãos (Hb 2,11). A fraternidade do Natal não está nas alegrias da festa, o que já é um bom sinal, mas na profunda identidade que temos com Cristo, como filhos do mesmo Pai. Além do mais, o Filho de Deus, feito homem, participa de nossa condição humana. “Convinha, por isso, que em tudo se tornasse semelhante aos irmãos, para ser, em relação a Deus um sumo sacerdote misericordioso e fiel… Pois Ele mesmo, tendo sofrido pela tentação é capaz de socorrer os que são tentados”(Hb 2,17-18). Somos irmãos no mesmo sangue que corre nas veias de Cristo. Mais ainda, por participarmos de sua natureza que é unida à Natureza Divina. Desse modo a celebração do Natal está mais na fraternidade que nasce do Cristo que numa celebração amiga onde nos abraçamos e damos presentes.

  1. Festa de filhos .

            “Vede que prova de amor nos deu o Pai que sejamos chamados filhos de Deus e nós o somos” (1Jo 3,1). Todo o mistério do Natal, isto é manifestação de Deus da qual participamos, não é algo distante de nós ao qual assistimos. Participar não significa fazer alguma coisa. Participar do “Mistério”, é viver, através dos símbolos, aquilo que nos é apresentado. Vivemos o Mistério da Encarnação e do Nascimento do Senhor não somente como assistentes, mas como participantes no que se refere a nós. À medida que acolhemos, recebemos a graça dada por Deus nesse acontecimento Divino e humano. Estamos acostumados a rezar para pedir ou agradecer. Mas o rezar é acolher o Deus que se revela. Por isso é festa dos filhos, como donos da casa e atores da ação sagrada. Podemos dizer que estamos mais perto do nascimento de Jesus do que aqueles que estavam ali junto, pois participamos pela fé que nos une ao Senhor que realiza essa maravilha. Dizer “chego amanhã, é a resposta que Deus dá ao nosso envolvimento com seu nascimento.

nº 1606 – Homilia do 4º Domingo do Advento (18.12.16)

“Ele vai salvar seu povo” 

José, esposo de Maria

            A partir do dia 17 de dezembro já estamos na preparação imediata do Natal, por isso, o quarto domingo do Advento nos traz a narrativa do anúncio do nascimento de Jesus a José. José e Maria estavam já na primeira fase do casamento que era o contrato. Já eram casal. Depois vinha a festa quando a noiva era levada para casa do noivo. Maria está grávida por ação do Espírito Santo. Sem saber, José pensa em abandonar e não denunciar a esposa que seria condenada à morte. Durante o sonho Deus comunica o que acontecera. Sonho era um modo de conhecer a vontade de Deus. É comum no Antigo Testamento essa comunicação da vontade de Deus. José é chamado filho de Davi, pois daria o nome a Jesus e a descendência de Davi. A gravidez de Maria é por ação do Espírito Santo. Pertence a Deus. O nome da criança é simbólico, e já é logo explicado: “pois vai salvar seu povo de seus pecados” (Mt 1,21). Vemos a seguir que, para anunciar a virgindade de Maria, Mateus procura o fundamento na Escritura no oráculo da virgem que daria à luz um filho. Vemos como se usa a Escritura para confirmar. Deus dá um sinal a um rei que não quer saber de sinais. A profecia não se refere a um parto virginal. A tradução para o grego já faz a interpretação. Essa tradução é anterior a Cristo. Recebendo Maria como esposa, José simboliza a Igreja que acolhe Cristo. Assim se interpreta a fé desse homem que recebeu a missão de ser o pai legítimo de Jesus perante a lei, pois o acolheu e deu o nome. É a atitude de fé que sabe ouvir o Espírito Santo nas decisões fundamentais da vida.

Nasceu para todos

            Os textos do evangelho contam a situação na encarnação do Filho de Deus. Contudo, o nascimento de Jesus não é uma questão familiar. Paulo, escrevendo aos romanos coloca clara a questão da universalidade da salvação. Foi escolhido para o Evangelho de Deus. Sua vocação é um chamado para o apostolado “a fim de que poder trazer à obediência da fé todos os povos pagãos para a glória de seu nome” (Rm 1,5). O salmo convida a que se abram as portas para que o Rei da Glória possa entrar (Sl 23). O acontecimento não é somente uma questão local, mas abrange todo o universo. Além do mais, a terra e o mundo interno pertencem a ele. Toda a beleza do Natal que ainda resta, é um testemunho ao mundo que Ele nasceu para todos. Ainda sobrevive a ideia do rei Acaz de que não vai importunar Deus: “Não pedirei nem tentarei ao Senhor” (Is 7,12). Descartar Deus é o que, inclusive os bons cristãos, fazem. A vida não é direcionada a Deus, nem por Ele dirigida. Erigiram-se templos e altares a deuses feitos por nossas mãos. Quando a gruta de Belém perde seu calor é porque o ser humano já perdeu seu sentido.

Espírito de Belém

            Na última semana do Advento temos a preparação imediata que nos coloca em relacionamento com Cristo em seus títulos. Ele é a Sabedoria, o Senhor, a Raiz de Jessé, a Chave de Davi, o Emanuel, o Sol Nascente e o Rei e Senhor das Nações. Ensinam-nos a conhecer a Cristo e desejá-Lo. Por isso o Advento é um clamor: “Vinde, Senhor Jesus!”. O espírito de Belém é a abertura para acolher. Por isso o símbolo da gruta aconchegante, quentinha (os animais aquecem o ambiente) pelo calor humano da fraternidade. Acolher Jesus na pessoa do outro, sobretudo os familiares e também, no gesto da fraternidade, com os necessitados. Os presentes respondem ao presente de Deus para nós que é Jesus. Encontrar Deus é sair de si. Reunir-se é esquecer o egoísmo. Belém é aqui.

Leituras: Isaias 7,10-14; Salmo 23; Romanos 1,1-7;Mateus 1,18-24

Ficha nº 1606 – Homilia do 4º Domingo do Advento (18.12.16)

  1. José entra na História da Salvação como um personagem e como um símbolo nos diversos sinais que estão no texto. Ele se deixa dirigir pela fé. Assim define a vida.
  1. Paulo em sua missão proclama que a salvação veio para todos, mesmo tendo Jesus nascido de um povo.
  1. Jesus recebe diversos nomes que manifestam sua missão. No Advento gritamos: Vinde! O espírito de Belém é a abertura para acolher na fraternidade.

  Um sonho bem bom 

              Acordar depois de um sonho gostoso é muito bom.

              No Antigo Testamento o sonho era tido como um dos meios das comunicações de Deus. Podemos entender que, quando trabalhamos as realidades na fé, é como um sonho. Deus fala por meio dela. Foi o que aconteceu com José.

              Sendo Maria prometida em casamento, aconteceu a gravidez pela ação do Espírito. Sendo prometida esposa, eles já estavam casado. Faltava a festa do casamento e o início da vida em comum. Maria aparece grávida. Explicar o quê? José pensa em abandoná-la e não expô-la, inclusive com o risco de ser morta. Foi capaz de elaborar, com o auxílio da graça, a resposta a Deus.

              Esse texto do evangelho do quarto domingo nos ensina a missão de Jesus. Como profetiza Isaias: Uma virgem dará à luz. Ele será Deus Conosco. Em Maria se cumpre essa profecia. Como rezamos no salmo, Ele é o Senhor a quem tudo pertence. É o Rei Glorioso que Se encarna. Ele é o descendente de Davi, depositário das promessas. É Dele que vem a graça do apostolado.

              Esse texto de Mateus é claro quanto à geração Divina de Jesus, nascido de uma mulher, da família de Davi. Ele tem definitivamente o trono de Davi, para sempre. Ele será o Salvador da humanidade.

              A oração da coleta da missa é uma expressão muito clara de todo o Mistério Pascal que acontece em cada acontecimento da vida de Jesus: “Derramai a graça em nossos corações, para que, conhecendo… a encarnação de vosso Filho, cheguemos por sua Paixão e Cruz à glória da Ressurreição”. É um único mistério que acontece em manifestações diferentes.

              A encarnação de Jesus não se refere só ao corpo de Maria, mas a toda a humanidade.

nº 1605 – Artigo “Um Advento diferente”

Era Natal

                        Quando morava na África, numa situação de guerra (1989-1992), celebrei a missa da noite do dia 24 às 16 h porque de noite não se poderia andar por aquelas áreas. Não havia presépio. Eram umas folhas de bananeira num canto da capela muito humilde e mais nada que lembrasse o presépio… Foi tudo cantado. Bonito. No final da missa, como não tinha um Menino Jesus, pedi que uma mamãe com o filhinho se assentasse na cadeira do padre. Beijei o pezinho dele e todos fizeram o mesmo. A criança se assustou e olhava como querendo entender aquele tanto de gente beijando seus pés. Ali estava o Menino Jesus. Ao terminar, os jovens fizeram as danças locais e cantavam: “Não podemos voltar para nossas casas porque o capim cobriu os caminhos”. Era a guerra. Em alguns países não se pode celebrar a missa de Natal porque os “contrários à fé” atacam a Igreja. É Natal. Pior guerra contra o Natal é feito em nossas casas e em nossos estabelecimentos que tiraram Jesus do presépio. Puseram só o papai Noel. Pior é ainda no primeiro mundo europeu onde não há nem estrelinhas. Jesus, por motivos bem orquestrados, também foi para o depósito. Então temos que procurar um Advento diferente e um Natal verdadeiro. Também não podemos ficar só nas cascas. Pelas leituras do Advento, vemos verter rios de esperança. A gente pode ficar até desanimado, pois já são dois mil anos e parece que ele desaparece sempre mais mesmo entre cristãos. O aniversariante não é convidado para seu aniversário.

Presépio do coração

            A estrela desse presépio é a vigilância: estar atento ao Senhor que vem. Perdemos muito da noção que o Cristo virá. Não é uma ameaça de fim de tempos, de um mundo que se acaba. Isso pode durar ainda milhões de anos. Ou pode acabar amanhã. Só o Pai sabe. O Cristo virá. Isso basta. Estar vigilante é ter os sentimentos de Cristo que estava sempre voltado para a vontade do Pai. Vivemos uma fé muito de nosso jeito e pouco do jeito do Pai. Preparar o Natal é assumir o espírito que Jesus tinha ao sair do seio de Maria, como o sol que nasce e ilumina. Nasceu de uma Virgem que continuou virgem, pois Cristo não destrói nada. Lembro a trovinha mineira: “No ventre da Virgem Santa, entrou a Divina graça. Como entrou, também saiu como o sol pela vidraça”. Sua vinda foi silenciosa como o orvalho sobre a relva. Foi no silêncio da noite. O bem de Deus não faz mal. Deus não se impõe, nos respeita. A humildade de Deus está estampada no rosto de Jesus. Humildade que ama. Deus não faz barulho e não cria holofote. Ele é Luz que ilumina e aquece sem se consumir. Preparar é assumir essas atitudes. É presépio do Natal no coração.

Bomba de efeito silencioso

Não basta uma mudança espiritual íntima, necessária também, mas que penetre nossa maneira de viver e agir. Penetre também às estruturas do mundo. Sabemos que, apesar de tudo, o mundo tem aumentado a violência e a destruição também da natureza. Não podemos nos cansar de esperar. Há tantos séculos o profeta Isaias dizia: “Estes quebrarão suas espadas, transformando-as em arados, e as suas lanças em foices. Uma nação não levantará a espada contra a outra e nem se aprenderá mais a fazer a guerra” (Is 2,4). É preciso esperança e mudança nas atitudes. Se cada um faz sua parte, todos estarão na mesma direção. O Advento preparando a Vinda do Senhor provoca uma mudança que pode levar o mundo à paz que Cristo oferece. Jerusalém não acolheu, preferiu caminho diverso. “A todos os que O receberam, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12).

nº 1604 – Homilia do 3º Domingo do Advento (11.12.16)

“Esperar o Natal do Senhor”

 Realizada a profecia

            A oração da Eucaristia de hoje nos convida a voltarmos para o mistério da Vinda do Senhor. A segunda vinda de Cristo estimula a nos voltarmos para a primeira vinda na noite do Natal. O Senhor sempre vem ao nosso encontro. Tantas profecias anunciaram e descreveram com detalhes sua chegada entre nós. O último profeta do Antigo Testamento atesta que Ele está presente. Somos convidados na celebração a celebrar essa vinda. Rezamos: “Deus, que vedes vosso povo esperando fervoroso o Natal do Senhor, dai chegarmos às alegrias da Salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia”. Celebrar não é só lembrar, mas atualizar esses acontecimentos para que nos fortaleçam para viver o mistério na vida. A celebração sempre conduz à vivência. A realização das profecias se dá também nas atividades do Messias. Isaias anima o povo a se levantar do sofrimento e ver o quanto Deus o fortalece. Deus vem a seu encontro. Jesus realiza concretamente essa transformação. João Batista, para confirmar com o próprio Jesus se Ele era o Messias, manda discípulos perguntar: “És tu aquele que deve vir ou devemos esperar outro?” (Mt 11,3). Jesus não responde com palavras, mas com gestos: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,4,-5). Jesus tece, então, um grandioso elogio a João dizendo que ele é um profeta verdadeiro e o maior entre os nascidos, mas menor que qualquer um do Reino. O menor é Jesus que maior que João.

Vinde salvar o povo

            A vinda de Jesus ao mundo foi para dar a salvação, isto é, para abrir-nos o caminho da comunhão com Deus no perdão total dos pecados. Esta salvação traz profunda alegria.  É o que o profeta quer dizer com as profecias: “Então se abrirão os olhos dos cegos, e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos” (Is 35,5-6ª).            Todos os sentidos do homem serão atingidos pela renovação que Deus trará. O salmo traz as mesmas palavras lembra a misericórdia para com os sofredores (Sl 145). A libertação social e política tornam-se símbolo da libertação espiritual quando Jesus lhe dá o sentido do Reino que liberta a pessoa em todos os sentidos. Aqui encontramos um fundamento para um projeto de evangelização e pastoral: cuidar do homem todo, sobretudo dos mais abandonados, pois Jesus dá um sinal de garantia de sua missão: “Os pobres são evangelizados” (Mt 11,4-5). Esse é o Reino de Deus entre nós. Jesus é aquele que deveria vir. Ele acrescenta: “Feliz é aquele que não se escandaliza por causa de mim” (id 6). Quando isso nos incomoda é porque Jesus está nos incomodando. Esta é a verdadeira política.

Ficai firmes

            O profeta anima a estarmos firmes: “Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados… Criai ânimo… Ele vem para nos salvar (Is 35,3-4). Tiago nos sustenta: “Ficai firmes e fortalecei vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima” (Tg 5,8). A vinda de Jesus no Natal estimula a nos despojarmos de tudo o que possa obscurecer sua revelação. Agora a preocupação de muitos da Igreja está um pouco longe do Menino de Belém. Mas ela tem pela frente o Glorioso que virá para nos perguntar pelo que fizemos pelos nossos pobres. Precisamos de uma conversão que nos desvista de exterioridades para ir ao fundo do coração sofredor. Que a escola de Belém não se feche para nós.

Leituras: Isaias 35,1-6ª.10; Salmo 145;Tiago 5,7-10; Mateus 11,2-22.                                        

Ficha nº 1604 – Homilia do 3º Domingo do Advento (11.12.16)

  1. Jesus realiza as profecias ao confirmar a João que Ele é o Messias.
  1. A vinda do Messias foi para dar a salvação, isto é, abrir-nos o caminho para a comunhão com Deus e o perdão dos pecados. Essa salvação é total. E se completa na evangelização dos pobres. Escandalizar-se de Jesus é incomodar-se com essa libertação.
  1. Somos animados pelo profeta e por Tiago a nos firmarmos nele e realizar uma salvação que nos oferecida.

                        O homem em maiúsculo 

            É comum ouvirmos que este é um homem com H maiúsculo. Não basta iniciar. É preciso ir até o fim. Ser grande não é fazer grandes coisas: é levar adiante sua missão, mesmo que isso custe.

            João quer confirmar se Jesus é o Messias enviado por Deus. Isaias promete uma mudança radical para o povo. Essa renovação Jesus a realiza acrescentando a transformação do mundo pelo evangelho. Não aceitar é escandalizar-se.

            Nesse Advento somos conduzidos pela grandiosa figura de João Batista. Jesus gostava de seu primo e o admirava a ponto de dizer que, “de todos os homens que já nasceram nenhum é maior do que João. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (Mt 11,11). Quem é o menor? Jesus se coloca como o menor. Podemos entender também que João, como é aquele que fecha o Antigo Testamento, é menor do que quem vive a novidade do Reino.

nº 1603 – Artigo “Imaculada Conceição de Maria”

 Do pecado à graça

            Na Igreja temos dogmas que verdades da fé não criadas pela vontade humana. São reconhecidos como verdades inegociáveis. É a fé dada por Deus. Dela nos fala na Escritura ou na Sagrada Tradição que tem fundamento nas mesmas Escrituras. São verdades da fé cristã. Os dogmas foram estudados e reconhecidos pelos Concílios Ecumênicos ou proclamados solenemente pela autoridade do Magistério dos Papas. Eles não inventam dogmas. Reconheceram que são da fé e definidos como verdade a ser acreditada sem dúvida. Há quem diga: sou católico, mas não aceito muitas coisas. Preciso aceitar todas as verdades de fé. Não há meio católico. Ou crê tudo ou não crê nada. O que se deve crer são as verdades da fé e não coisas que surgiram durante a história. O Papa Pio IX, no exercício do Ministério Pontifício, depois de consultar toda a Igreja, de conhecer o que a Tradição nos ensinou, proclamou que Maria foi concebida sem pecado original. Pelo pecado dos primeiros pais toda a humanidade foi manchada. Por isso, o Filho de Deus se encarnou (é dogma) no seio da Virgem Maria (é dogma) e realizou a redenção da humanidade (é dogma). Paulo ensina que a graça de Deus foi muito maior que o pecado, pois quem fez o pecado o homem, a graça nos foi dada por Jesus Cristo. “Se pela falta de um só, todos morreram, com quanta maior profusão de graça Deus e o dom gratuito de um só homem Jesus Cristo se derramou sobre todos” (Rm 5,15). O pecado atingiu toda a humanidade e a natureza também sofreu por conta dele (Rm 8,20-22).

Foi preservada

A festa da Imaculada Conceição de Maria celebra não somente um dom pessoal dada à Mãe de Jesus, mas a grandeza do dom infinito da santidade de Deus que é garantida à humanidade. Maria é a primeira a usufruir tão precioso dom, como rezamos na oração: “Ó Deus, que preparaste uma digna habitação para vosso Filho pela imaculada conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo o pecado em previsão dos méritos de Cristo”. Esse dom era necessário para que Jesus não fosse concebido na linhagem de pecado de Adão e Eva. A narrativa sobre o pecado, cometido no Paraíso depois que Eva caiu na tentação do diabo (a serpente) ensina que o homem perdeu a graça original e começou a corrente de mal invadindo o mundo. A leitura de Paulo aos Efésios nos mostra que fomos escolhidos “para sermos santos e imaculados a seu olhar no amor”. O projeto de Deus era a graça, o homem inventou o pecado. Maria foi libertada do pecado original antes de ter sido concebida. Nela se restaura o Paraíso para nós. É uma graça por pura graça de Deus. Como foi libertada? A redenção de Jesus é para

todos os tempos, não só para os que vieram depois. Por isso, ela foi redimida “em vista dos méritos de Jesus”. O mesmo Espírito Santo que a fecundou para conceber Jesus, a fecundou com a graça para não ser presa do pecado. É nossa fé. Por isso o Anjo lhe diz: Salve, cheia de Graça. Nela já estava toda a graça. Nela não havia mancha de pecado.

Purificados por sua intercessão

Para nós interessa vencer o pecado e viver na graça para mais e mais podermos gerar Jesus no mundo e ser morada de Deus. Rezamos na oração: “Concedei-nos chegar até Vós purificados também de toda a culpa por sua materna intercessão”. Maria recebeu o dom da redenção na sua concepção, quando todos os humanos recebem a mancha do pecado.  Mas ela correspondeu à graça acolhendo a mensagem do Anjo na encarnação, gerando Jesus, cuidado Dele e com Ele estava no Calvário na geração dos filhos da redenção: “Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí a tua mãe” (Jo 19,26-27). Somos filhos, irmãos do Redentor que ela gerou.

nº 1602 – Homilia do 2º domingo do Advento (04.12.16)

“Ir ao encontro de Jesus”

 Produzi frutos

O Advento, tão caro e precioso, nos traz João Batista que apresenta Jesus ao mundo. Não se pode separar Jesus de João Batista que vem preparar seus caminhos. Essa preparação se dá com a conversão de vida. João não admite a falsa religião. Ensina que Jesus é Aquele que vem com o Espírito Santo e o fogo. Reconhece a missão de Jesus. Não podemos pensar sua missão como um recado. Ele tem uma vocação Divina. Tem personalidade espiritual e profética. Está associado “Àquele que vem”. João tem zelo pelo que é de Deus. Sabe defender a lei. Prega uma conversão que seja uma verdadeira mudança de mente. É o sentido original da palavra conversão. Não basta só a mudança. É preciso produzir frutos bons (Mt 3,10). Celebrar o Advento é entrar em clima de vigilância para participar dos mistérios de Cristo: “O próprio Senhor nos dá a alegria de entrarmos agora no mistério do seu Natal para que sua chegada nos encontre vigilantes na oração e celebrando seus louvores”  (Prefácio). Para isso, pedimos que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do vosso Filho, mas instruídos pela vossa sabedoria, participemos da plenitude de sua vida” (Oração). A celebração não é somente uma comemoração, mas um aprofundamento da vida. Para ir ao encontro de Jesus no fim dos tempos e no Natal é exigido de nós o empenho em assumir essas verdades como um modo de vida. A conversão é o primeiro momento da preparação para espera do Senhor que vem no fim dos tempos e no Natal.

Conversão universal

            O Advento tem também como meta a conversão universal como segundo momento da preparação para a Vinda do Senhor. Isaias profetiza que a raiz de Jessé, isto é, o herdeiro do trono de Davi (Jessé é o pai de Isaí e avô de Davi), será cheio do Espírito do Senhor. Terá o Espírito de sabedoria e discernimento, conselho e fortaleza, ciência e temor de Deus. Ele exercerá a justiça para os pobres (Is 11,1ss). A seguir profetiza uma mudança no relacionamento entre espécies selvagens diferentes e mesmo com as crianças. Esse será o sinal de uma conversão profunda no mundo. Teremos um mundo de paz na busca de Cristo. Essa conversão se realiza a partir de nossas escolhas fundamentais que reforçamos com os sacramentos para bem julgar os valores terrenos: Pela participação na eucaristia, nos ensineis a julgar com sabedoria os valores terrenos e colocar nossa esperança nos bens eternos” (Pós-Comunhão). Não basta só esperar. É preciso mudar os valores e saber ver o Reino de Deus entre nós acontecendo também através das atitudes coerentes de conversão que atinge também as estruturas da sociais. Fugir do mundo é ceder espaço para o mal.

Acolhei-vos como Cristo

            São Paulo nos oferece o terceiro momento muito concreto: “Deus vos dê a graça da harmonia e da concórdia uns com os outros. Por isso, acolhei-vos uns aos outros, como Cristo vos acolheu” (Rm 15,5). Toda mudança tem que começar no coração voltado para o outro. O acolhimento gera nos cristãos um só coração e uma só voz (6). A conversão conduzirá sempre mais para o próximo. Jesus não pregou uma vida espiritual desencarnada. Sempre encarnado, quis que sua Igreja fosse encarnada. Esse modo de viver não nos leva a perder o valor da atividade terrena. “e aprendamos a julgar com sabedoria os valores terrenos colocando nossas esperanças nos bens eternos” (Pós-comunhão). Uma espiritualidade intimista não vem nem de João Batista, nem de Jesus nem de São Paulo.

Leituras: Isaias 11,1-10;Sal o 71; Romanos 15,4-9;Mateus 3,1-12

Ficha nº 1602 – Homilia do 2º domingo do Advento (04.12.16)

  1. A pregação de João é para a conversão em preparação para “Aquele que vem”. Conversão exige frutos. Que nada nos impeça de ir ao encontro do Senhor. É o primeiro modo de conversão
  1. Isaias propõe uma conversão universal que envolva a própria natureza.
  1. Paulo ensina que a conversão se dá no coração e no acolhimento do outro.

            O homem fera

            Quando vemos uma pessoa forte e marcante com sua atividade, dizemos que “o homem é uma fera”. João Batista tinha esse tipo. Além do mais, era um homem provado pelo deserto. Vestia roupa feita de pelo de camelo e com um cinturão de couro. Seu alimento era gafanhoto e mel silvestre. Tinha tudo de um profeta. E não havia profetas já uns 400 anos.  O povo entendeu que era o homem de Deus do momento.

            João prega a conversão e ataca os falsos piedosos. E anuncia a chegada próxima de Jesus.

            Temos três modos de conversão proposto pela Palavra de Deus nesse domingo:

            “Produzi frutos que provem vossa conversão”. O risco de uma árvore que não produz fruto é ser cortada. João pede consistência e não grãos chochos.          Isaias proclama um modo de conversão universal: simbolicamente fala da convivência pacífica na qual os animais ferozes convivem entre si e com os humanos. Será a restauração universal proveniente de Cristo, raiz de Jessé (significa da família de Davi).

            São Paulo nos apresenta a terceira modalidade. E muito concreta: “Deus vos dê a graça da harmonia e concórdia uns com os outros. Por isso, acolhei-vos uns aos outros, como Cristo vos acolheu”.

Diante do anúncio de conversão e preparação para um mundo novo, sabemos que isso se realiza em primeiro lugar dentro de nosso coração: “Nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro de vosso Filho, mas instruídos por vossa sabedoria, participemos da plenitude da vida” (Coleta)… “e aprendamos a julgar com sabedoria os valores terrenos colocando nossas esperanças nos bens eternos” (Pós-comunhão).

 

 nº 1601 – Artigo “Família, fonte de fraternidade”

  1. Irmão educa o irmão

            O Papa Francisco presenteou-nos com a Exortação Apostólica Amoris Laetitia na qual reflete sobre a família. Sobre ela temos nos debruçado. O Papa nos alerta no capítulo quinto sobre os irmãos e a família alargada. A família é grande não pelo número dos filhos, mas pela capacidade de gerar fraternidade. Pudemos conhecer em nossa vivência, famílias de muitos filhos. Vimos como os irmãos mais crescidos se fazem cuidadores e educadores dos irmãos menores. Não ter irmão deve ser diferente. Não há uma intenção que todos tenham muitos filhos, mas há muito que se aprender sobre o valor de um irmão. Falando aos peregrinos na Praça S. Pedro, assim reflete sobre o “irmão”: “ O laço de fraternidade que se forma na família entre os filhos, quando se verifica em um clima de educação para a abertura aos outros, é uma grande escola de liberdade e de paz. Em família, entre irmãos, aprendemos a convivência humana… É precisamente a família que introduz a fraternidade no mundo. A partir desta primeira experiência de fraternidade, alimentada pelos afetos e pela educação familiar, o estilo da fraternidade se irradia como  uma promessa sobre a sociedade inteira” (AL 194) (Catequese 18.02.15). Continua o Papa com tanta experiência: “Crescer entre irmãos proporciona a bela experiência de cuidar uns dos outros, de ajudar e ser ajudado. Por isso a fraternidade na família resplandece de modo especial quando vemos a solicitude, a paciência e o carinho com que é circundado o irmãozinho mais frágil, o doente, ou o especial” (AL 195). Mesmo quando a família não pode ter mais filhos, é preciso encontrar formas de a criança não crescer sozinha ou isolada (AL 195). A visão do Papa não é o mundinho fechado do casal, mas aberto ao mundo, onde a criança vai viver e crescer.

  1. Família de famílias

Ao lado dos cônjuges, temos a família alargada. A tendência no momento é do fechamento que aumenta sempre mais, isolando as pessoas dos demais e provocando o distanciamento de familiares, vizinhos e amigos. Há problemas. Mas a vida não se mede a partir dos problemas, mas dos dons que ela possui. Por isso crê na sua vida inserida no mundo,  falamos da família alargada. Mesmo nas grandes cidades podemos constatar o bem que faz ter familiares e amigos. E são fiéis. “O amor entre o homem e a mulher… é animado por um dinamismo interior e incessante, que leva a família a uma comunhão profunda e intensa, fundamento e alma da comunidade conjugal e familiar” (AL 196). Continua explicando que nesse amor se integram também os amigos e as famílias amigas e mesmo as comunidades de famílias que se apoiam nas dificuldades, no seu compromisso social e na fé (Id). No casamento se deve notar bem que a união do casal une duas famílias. E se não for assim, já se cria instabilidade no casal. A união das duas famílias é um reforço humano e espiritual ao casal. A abertura vai ter em conta outros necessitados de amor.

  1. O casamento une e separa

            Ao unir duas famílias na vida do novo casal, há também a certeza de uma separação. Por que Jesus insiste no termo deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher? Esta frase está já na criação do homem (Gn 2,24) e Jesus a repete quando fala sobre o divórcio (Mt 19,5). É a constituição da nova família na liberdade de formação de um novo lar livrando-se do peso que aniquila a individualidade. Parece que está dizendo que o novo casal é único e o primeiro. É sempre uma nova criação. Juntam-se duas famílias para algo totalmente novo, sem perder as raízes, o que deve ser respeitado pelos cônjuges. Ser uma só carne é unir também as diferenças sem as destruir. Benditas nossas famílias.

nº 1600 – Homilia do 1º Domingo do Advento (27.11.16)

“É hora de despertar” 

Viver na esperança

O Advento é tempo em que celebramos a vinda de Cristo. Não se trata somente de sua vinda no Natal, mas também de sua vinda no fim dos tempos. Com fé rezamos no Creio: “Ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo Poderoso, donde há de vir julgar os vivos e os mortos”. Essa vinda dá-nos a impressão de ser perigosa. Ele não virá para condenar, mas para dar a todos o prêmio. Virá de um momento para o outro. A palavra de Deus acentua não a gravidade do momento, mas o fato de ser uma vinda inesperada. Por isso somos convidados a estar sempre prontos. A partir do dia 17.12 celebramos sua vinda no Natal. Por ela participamos pessoalmente da redenção que Deus nos deu em seu Filho. Para essa segunda vinda vivemos um tempo não de angustiosa espera, mas de uma alegre esperança de encontrarmos o Senhor. Rezamos no Salmo: “Que alegria quando me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor’” (Sl 121). O Cristo que vem como rezamos, nos estimula a “ter o ardente desejo de possuir o Reino celeste”. S. Paulo nos alerta: “Já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé” (Rm 13,11). A vinda inesperada é um estímulo a vivermos revestidos de Cristo (Rm 13,14ª). Revestir-se de Cristo é viver como Ele viveu sempre voltado para o Pai fazendo sua vontade. A vinda de Cristo já está cansando. Esta espera é para dar mais tempo de buscar o Senhor. Na oração pós-comunhão rezamos: “Fazei que os sacramentos nos ajudem a amar desde agora o que é dos Céus, e caminhando entre as coisas que passam, abraçar as que não passam”.

Advento é transformação

            O Advento que prepara a vinda do Senhor tanto no fim dos tempos, como no Natal é uma oportunidade de nos preocuparmos em transformar o mundo a partir de nosso coração. O profeta Isaias é atual e nos convida a ter a coragem de mudança radical: “Ele há de julgar as nações e argüir os povos; estes transformarão as espadas em arados e as lanças em foices; Não pegarão em armas e não mais travarão combates” (Is 2,4). Não adianta celebrar essa vinda, se não mudarmos também a situação tão distorcida da vontade de Jesus. É preciso preparar o homem para acolher o Senhor. Essa é a missão primeira dos cristãos. Por isso esperamos. Rezamos: “Concedei a vossos fiéis o ardente desejo de possuir o Reino Celeste para que, acorrendo com nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos a sua direita na comunidade dos justos” (Oração). Vamos conseguir essa vitória quando começarmos a “amar o desde agora o que é do Céu e, caminhando entre as coisas que passam, abraçar as que não passam” (Pós comunhão).

Vamos à casa do Senhor.

O salmo nos faz cantar com esperança: “Que alegria quando me disseram: Vamos à casa do Senhor”. O Pai nos abre o caminho da salvação (prefácio). Tudo é maravilhoso. Há, contudo o compromisso de uma vida coerente: Paulo nos convida a uma preparação eficiente  viver honestamente. Na perspectiva da Vinda diz: “A noite já vai adiantada, o dia vem chegando; Despojemo-nos das ações das trevas e vistamo-nos das armas da luz… procedamos honestamente como em pleno dia” (Rm 3,12-13). É muito bom não perder de vista que o Senhor virá. Mas voltemos o pensamento e as atenções à sua vinda no Natal. A liturgia do Advento é rica.  uma quaresma de abertura do coração para acolher Aquele que vem, seja nas nuvens, seja na palha do presépio. Ele sempre vai encher nosso coração.

Leituras: Isaias 2,1-5; Salmo 121; Romanos 13,11-14ª;Mateus 24,37-44

Ficha nº 1600 – Homilia do 1º Domingo do Advento (27.11.16)

  1. O Advento nos prepara para as duas vindas de Cristo: no fim dos tempos e no Natal. O Senhor não vem para castigar, mas para premiar. Não é uma espera angustiante, mas de uma alegre esperança.
  1. O Advento nos estimula a transformar aas pessoas através das boas obras.
  1. Advento, tempo do compromisso coerente. 

            Quem avisa amigo é

Advento significa chegada, vinda. Na reflexão da Igreja, no Advento só se dava atenção para vinda de Cristo no Natal. Após a reforma se retornou ao tema mais amplo: preparação para a segunda vinda de Cristo. Fazemos essa preparação levando em conta o Cristo que vem cada dia ao nosso encontro. Por isso rezamos que os sacramentos nos ajudem a amar desde agora o que é do Céu e, caminhando entre as coisas que passam abraçar as que não passam (Pós-Comunhão). A preparação imediata para o Natal se faz a partir do dia 17de dezembro.

A segunda Vinda é importante em nossa fé: Cremos que Ele voltará. Não se trata de ficar dizendo que Jesus vai voltar, mas preparar sua vinda através de uma vida coerente. Aí não vamos precisar ter medo.

Jesus diz no Evangelho: “Ficai preparados! Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá” (Lc 24,44). Como podemos estar preparados? Rezamos na oração da missa: “Concedei a vossos fiéis o ardente desejo de possuir o Reino celeste, para que, acorrendo com as boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos a sua direita na comunidade dos justos”. Viver bem é estar esperando a vinda de Cristo. É essa a transformação que podemos fazer no mundo. Nossa vida de acordo com o Evangelho é a melhor maneira de torná-lo presente. S. Paulo diz: “Procedamos honestamente, como em pleno dia” e enumera o que não podemos fazer.  Quem avisa amigo é.

São Paulo continua exortando : “ Já é hora de despertar…a hora já vai adiantada e o dia vai chegando; despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz”. É preciso revestir-se de Cristo (Rm 13,11-14).

Vamos ao encontro de Cristo. Só assim podemos entender porque veio morar conosco. Veio indicar o caminho de ir a seu encontro.

 

nº 1599 – Artigo “A Família se alarga”

Amor que acolhe

                        Em sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia – Alegria do Amor, o Papa Francisco reflete todas as questões que envolvem a família. Nos próximos números vai se dedicar à extensão que a família possui além de seu pequeno mundo. Toca em primeiro lugar, no caso das famílias que não têm filhos. Mesmo assim, o casamento não perde seu valor. A maternidade e paternidade se manifestam de outro modo. O casal sem filhos não é incompleto. Tem a possibilidade de fazer de seu matrimônio uma fonte de vida para os outros. Trata a seguir da adoção de filhos. É uma responsabilidade maravilhosa, mas por outro lado muito difícil. É uma grande oportunidade promover a vida. “Adotar é um ato de amor que oferece uma família a quem não tem… tornam-se assim, mediação do amor de Deus” (AL 179). “A escolha da adoção e do acolhimento expressa uma fecundidade particular da experiência conjugal” (AL 180). A leitura do Evangelho nos faz notar que a Família de Nazaré era muito alargada, onde encontra os parentes e amigos. “O casal que experimenta a força do amor, sabe que esse amor é chamado a sarar as feridas dos abandonados, estabelecendo a cultura do encontro e a luta pela justiça… e chegar a sentir cada ser humano como um irmão” (AL 183). O casal também fala de Jesus aos outros, transmite a fé, desperta o desejo de Deus e mostra a beleza do Evangelho e do estilo de vida que nos propõe (AL 184). Paulo nos convida a distinguir o Corpo do Senhor. Aqui está reclamando também a necessidade de reconhecer o Corpo do Senhor nos sofredores num exercício de fraternidade. A Eucaristia é fonte de vida espiritual e fraternidade para com todos.

Família no sentido amplo

            Entramos numa questão que vai contra a corrente. A família se dilui e se reduz ao pai, mãe e filho (a). Mas a fé cristã não está aí para fazer acordos, nem ceder os princípios fundamentais. Ela quer iluminar onde começam a surgir as trevas, frutos do pecado. Como a família se torna cada vez mais restrita, o Papa Francisco diz: “O núcleo familiar restrito não deveria isolar-se da família alargada, onde estão os pais, os tios, os primos e até os vizinhos”. Continua dizendo que há pessoas que necessitam de companhia, gestos de carinhos e ajuda. Os outros não são incômodos. Como o amor não é egoísta e fechado em si, o amor do casal transborda para a família alargada. É comum encontrarmos reunião de todos que têm sobrenome comum. Fizemos uma dessa para os netos de meu avô materno. Eram mais de 200 pessoas. Lembra ainda que a consciência de ser filho é muito rica. Recebemos o dom da vida. Há algo Divino e comporta até um mandamento. Aqui está o vínculo das gerações. O fato de deixar os pais para unir-se e fundar um novo lar não destrói a união, mas fortalece pela continuidade da vida (AL 188-190).

Muitos e um só corpo

            A comunidade da família se constitui também de idosos e irmãos. Os idosos são tesouros que necessitam muito trabalho para serem descobertos. Por isso, são facilmente descartados, abandonados e rejeitados. O carinho com eles é um investimento em nosso futuro. Foram heróis. Hoje podemos comprar tudo feito. Eles foram capazes de criar e levar adiante os filhos com poucas condições. Não podem ser descartados, muito menos pela Igreja. A história não começa conosco. Eles nos transmitem valores e fazem a passagem. A família que recorda é uma família de futuro (AL 193). Tive a felicidade de ter os pais por longos anos. Chegaram aos 75 anos de casados. Foram muito amados pelos filhos, netos e bisnetos. Foi uma bênção. Eles estarão sempre melhores quando nosso amor por eles for melhor.

nº 1598 – Homilia de Jesus Cristo Rei do Universo (20.11.16)

“Pregamos Cristo Crucificado” 

Um rei diferente!

            Desde a saída do Egito o povo de Israel era comandado por homens carismáticos que os dirigiam e socorriam nas desgraças. Em certo momento, no século onze exigiu que Samuel lhe dê um Rei “como têm os outros povos” (1Sm 8,5). O profeta e dirigente do povo, interpretou que o povo não quer Deus como seu rei. “É a mim que não querem”, diz Deus (7). O escolhido e ungido foi Saul. Desagradou a Deus e lhe retirado o Espírito. Davi foi ungido (1Sm 16,13). Deus lhe prometeu uma “casa que duraria para sempre”. A realeza judaica foi efêmera, tendo seu auge em Salomão. Os outros reis se deram à idolatria e exploração. Em Jesus, descendente de Davi, é cumprida a promessa. Os judeus esperavam um Messias glorioso que os libertasse dos inimigos. Mas Ele é um rei diferente e institui um Reino diferente, não para uma raça particular, mas para todos que O aceitam. A Igreja, continuando a missão de Jesus nem sempre pôs em prática seu ensinamento sobre a autoridade serviço: “O maior é aquele que serve. Eu que sou entre vós como aquele que serve” (Lc 22,27).  O povo acolheu Jesus. Os chefes O recusaram. O motivo foi sua realeza. Não estava conforme seus modelos. O modelo de Jesus corresponde ao desígnio do Pai: “Buscar as ovelhas perdida que eram os pecadores e os pobres que não tinham nenhuma esperança”. Quando está na cruz, recebe as zombarias dos chefes, dos soldados e dos ladrões crucificados com Ele. Foi um fracasso. Provocam dizendo: “Salva-Te a Ti mesmo, se de fato é o Cristo de Deus, o Escolhido” … Se és o rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo!”(Lc 23,35-39). Interrogado por Pilatos responde: “Meu Reino não é desse mundo”…(Jo 18,36)

Estarás comigo no Paraíso

            Jesus passou pela tentação do poder que possuía como Filho de Deus. Foi a mesma tentação que passou no deserto: “Se Tu és o Filho de Deus…”. Na cruz o ladrão O insultava: “Tu não és o Cristo? Salva-Te a Ti mesmo e a nós!” Jesus quis permanecer no seu Paraíso que era sua entrega ao Pai pelo mundo. Ao ladrão que ficou bom ladrão, ao assumir Jesus recebe a melhor promessa do mundo. Diz: “‘Jesus, lembra-Te de mim, quando entrares no teu reinado’. Reponde: ‘Ainda hoje mesmo estarás comigo no Paraíso’” (Lc 23,35-43). Jesus supera a tentação do poder tendo diante de si a imagem do Paraíso que era o Pai. Superou todo o desejo de glória. Todos nós que desejamos o Paraíso só o conseguiremos se buscarmos sempre o serviço humildade que crucifica todo orgulho, tendência ao poder e à mania de querer aparecer e dominar. A comunidade cristã é convocada a ser o Paraíso que é o Reino da verdade e da vida, da santidade e da graça, da justiça, do amor e da paz (Prefácio). A realeza de Jesus não é um projeto humano. É divino.

Trocar de coroa

            Cristo morre prestando um grande serviço ao mundo de todos os tempos: Humilhou-Se. É o que vemos por todo lado, com dor, dentro da Igreja, mesmo nas comunidades pequeninas. Infelizmente A Igreja foi um reino ao lado dos outros, com a supremacia sobre o espiritual e o temporal. Papa era um rei como os monarcas medievais e renascentistas. Onde ficou o Jesus da Galiléia? Quando as Palavras de Papa Francisco ecoam como mudança, há uma rejeição injustificada. A pregação deve consistir num esforço conversão ao Cristo Crucificado, loucura para os gregos, escândalo para os judeus Para os que crêem … (Cor 1,24). Não podemos pregar uma mudança se não tivermos em conta que a coroa que cinge a Igreja e cada cristão é a coroa do serviço e o amor dedicado.

Leituras:2º Samuel 5,1-3; Salmo 121;Colossenses 1,12-20; Lucas 23,35-43

Ficha nº 1598 – Homilia de Jesus Cristo Rei do Universo (20.11.16)

  1. A realeza de Jesus cumpre a promessa feita a Davi de uma casa eterna. Os chefes do povo recusaram Jesus porque não correspondia a suas idéias sofre o Messias. Jesus apresenta um rei que põe sua vida a serviço.
  1. Recusado pelos chefes, soldados e ladrões, Jesus se mantém no seu Paraíso que era cumprir a vontade do Pai: servir a todos. Assim também deve ser a Igreja.
  1. Cristo, com sua encarnação humilhou-se despojando sua realizada do sentido de poder e domínio. Esse é o caminho da Igreja. 

            O perigo do se…. 

            No momento da morte de Jesus os chefes do povo zombavam de Jesus, os soldados caçoavam e diziam: “Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!”  Quando Jesus foi tentado pelo demônio, este dizia: “Se tu és o Filho de Deus….” (Mt 4,3ss). Era a grande tentação de Jesus. Tão humano que era, passava pela tentação e a vencia com a Palavra de Deus.

            A perseguição feita a Jesus culmina em condenação e morte. No momento extremo é aclamado como Rei e Senhor pelo ladrão que o reconhece: ‘“Lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado’, Respondeu-lhe Jesus: ‘ainda hoje estará comigo no Paraíso”’ (Lc 23,42).

            Jesus não se improvisa rei, nem toma o poder por uma decisão pessoal. Deus encaminhara a história de seu povo e, depois dos juízes, dá-lhe um rei. O Reino de Israel se consolida em Davi que recebe a promessa de uma casa eterna. Essa promessa se concretiza em Jesus. De um reino terreno que tem como herança, abre a todos a herança de um reino eterno.

Na carta aos Colossenses ensina-nos quem é esse Rei que foi rejeitado, crucificado e ressuscitado: Ele é a imagem do Deus invisível, por Ele foram feitas todas as coisas, tudo foi criado por meio Dele e para Ele. Ele é a Cabeça do Corpo que é a Igreja, princípio e primogênito dentro os mortos. Deus fez habitar Nele toda sua plenitude e por meio Dele reconciliar consigo todos os seres por meio do sangue da sua cruz (Cl 1,12-20). Em poucas palavras temos a grandeza desse Homem que é Deus. Nossa fé assim crê e assim vive. Como o ladrão que chamamos de bom, conseguiu ser acolhido imediatamente no Reino, nós também, pela fé e dedicação de vida, podemos ser acolhidos e tomar posse com Ele do Reino.

            “Se tu és o Filho de Deus….”. Sim, somos filhos de Deus e herdeiros com Cristo.

 

nº 1597 – Artigo “Tudo pelo carinho”

O amor tem precedência

             É bonito ver um casal com um filho no colo. É como uma fruta de uma árvore que amadurece e pode ser colhida quando é seu tempo. Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica, Amoris Laetitia – Alegria do Amor, lembra questões da vida familiar de um modo tão simples que parecem banais, quando na verdade, são fundamentais. Ao refletir sobre a gestação e o crescimento dos folhos, tem uma importância muito grande à presença do pai e da mãe para a formação da criança, inclusive no espiritual. É missão a não ser delegada a outros. Não se trata da tradicional família, mas da família que transmite valores e vida. A presença da mãe é necessária, sobretudo nos primeiros meses de vida. “O enfraquecimento da presença materna, com suas qualidades femininas, é um risco grave para nossa terra… o gênio feminino é indispensável para a sociedade… uma sociedade sem mães, seria desumana porque elas sabem testemunhar sempre, mesmo nos piores momentos, a ternura, a dedicação e a força moral. As mães transmitem, muitas vezes, também sentido mais profundo da prática religiosa” (AL 173-174). Sintetizando as palavras do Papa podemos dizer que, como o mundo da criança é a mãe, assim ela concebe como é o mundo e como enfrentá-lo. A mãe é, para ela o retrato da mãe. O mundo consumista exigiu da mãe o trabalho para poder sustentar a família. É uma necessidade, mas não uma solução. Em sociedades menos consumistas poderemos desenvolver melhor a formação dos filhos. Não basta dizer que a juventude tem tantos problemas. É necessário ver de onde surgem esses problemas.

Meu velho pai

            É tão bom redescobrir a figura do pai que fica um pouco distante pelas circunstâncias da vida. É gostoso vê-lo já bem envelhecido e buscar nessa fonte de vida as riquezas que oferece. Quando morei na Angola ouvia a expressão: “Quando morre um idoso, queimou-se uma biblioteca”. Nessas culturas a figura do idoso é muito importante e orientadora. O “Sekulu” = o mais velho – tem a sabedoria. Pena que muitas dessas bibliotecas se queimam sem o uso necessário. O Papa Francisco continua sua instrução: “A figura do pai ajuda a perceber os limites da realidade, caracterizando-se mais pela orientação, pela saída para o mundo mais amplo e rico de desafio e pelo convite a esforçar-se a lutar” (AL 175). “A presença clara e bem definida das duas figuras, masculina e feminina, cria o âmbito mais adequado para o amadurecimento da criança” (id). A mãe cuida do ninho o pai estimula a voar. A figura dos idosos abandonados é desoladora. Os problemas que possuem são uma escola para se manifestar o amor.

Sociedade sem pais

            De um pai dominador e patrão, como pudemos ver na sociedade tradicional, passou-se a outro extremo da ausência do pai. O pai não está presente por motivos de trabalho e dos interesses pessoais. “A presença paterna e sua autoridade são afetadas pelo tempo cada vez maior que se dedica aos meios de comunicação e à tecnologia da distração. Além disso, hoje, a autoridade é olhada com suspeita e os adultos são duramente postos em discussão. Eles próprios abandonam as certezas, e por isso, não dão orientações seguras e bem fundamentadas a seus filhos… isso prejudica o processo adequado de amadurecimento pelo qual as crianças precisam passar e nega-lhes um amor capaz de orientá-las e que as ajude a maturar” (AL 176). Não se negam os ganhos atuais, lamentam-se as perdas.

nº 1596 – Homilia do 33º Domingo Comum (13.11.16)

01“Permanecei firmes” 

Não vos preocupeis

            Depois de ensinar os discípulos no caminho para Jerusalém, Jesus dedica-se ao chamado discurso escatológico, isto é, trata das questões do fim dos tempos, referindo-se à destruição de Jerusalém e sua vinda. E adianta: as vítimas mais procuradas serão os discípulos. Primeiramente demonstra a situação da destruição do templo do qual não ficará pedra sobre pedra. Como os sinais se voltam sempre para a vinda do Messias no fim dos tempos, os discípulos perguntam pelo tempo de sua vinda. O tempo é de Deus. Nesse período aparecerão muitos falsos profetas que pretenderão ser o Messias, isto é, a resposta para tudo. Sempre há gente querendo se passar por mestre de todas as coisas e enganam o povo. Anuncia tempos difíceis de guerras e revoluções e desastres da natureza. Mesmo com o pavor que provocarão, Jesus insiste que não devem ficar apavorados. Tudo isso deve acontecer. E tem acontecido sempre. Quando alguém diz que o tempo chegou, é preciso não ter medo, pois os tempos de Deus são outros. Sempre aconteceram esses sinais pavorosos e essas intermináveis guerras, e o fim não chegou. É sinal que devemos entender no sentido figurado, isto é, no gênero literário apocalíptico que tem um sentido mais amplo. A bíblia tem muitos modos de dizer as verdades. Se não entendermos o gênero literário, isto é, a linguagem, podemos aprender e ensinar coisas erradas. Isso é fundamentalismo tão ruim quanto à negação da verdade.

Ocasião para testemunhar a fé

            Juntamente com os sinais pavorosos da natureza, Jesus alerta sobre a perseguição aos discípulos; “Antes que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos… por causa de meu nome” (Lc 21,12). A perseguição aos discípulos é continuação da perseguição e da recusa sofridas por Jesus. Simeão profetizara: “Este Menino será sinal de contradição” (Lc 2,34). Disse ainda no caminho para o Calvário: “Se assim fazem com o lenho verde, o que não farão ao seco?” (Lc 23,31). A perseguição é uma constante na Igreja durante todos os séculos, principalmente agora. Devemos reconhecer que não se persegue ao discípulo. Mas o Mal que atingir o Mestre na pessoa dos discípulos. Jesus garante a força e a resistência: “Mas vós não perdereis um só fio de cabelo de vossa cabeça. É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida” (Lc 21.18-19). Não está excluído que poderemos ser mortos, mas temos a recompensa da Vida. E “Será ocasião em que testemunhareis a vossa fé” (Lc 21,13).  Somos chamados pelo salmo a esperar alegremente. Acolher a vinda do Senhor (Sl 97). O profeta Malaquias garante que depois de toda a conturbação no Dia do Senhor, não há destruição para o discípulo: Para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo a salvação em suas asas” (Ml 3,20ª).

 Transformar o mundo

             A esta espera no meio de tanta dificuldade, Paulo nos dá um conselho muito prático. Como não sabemos quando o Senhor virá, não podemos fazer a opção pela preguiça e desocupação. Ele mesmo dá o exemplo não sendo pesado para a comunidade e suprindo suas necessidades com o trabalho com esforço e cansaço dia e noite para não ser pesado a ninguém… em nome de Jesus Cristo ordenamos  a que, trabalhando, comam na tranqüilidade o seu próprio pão” (2Ts 3,8ss). Desse modo, a vinda do Senhor não é um terror, mas a construção de uma vida tranqüila, segura e frutuosa na expectativa. Não basta a fé, é preciso a caridade operosa” (). A fé sem obras é morta.

Leituras:Malaquias 3,19-20;Salmo 97; 2 Tessalonicenses 3,17-12; Lucas 21,5-19

Ficha nº 1596 – Homilia do 33º Domingo Comum (13.11.16)

  1. Jesus instrui os discípulos sobre a destruição do templo e indica e alerta sobre os terrores e sua perseguição. Usa a linguagem apocalíptica, comum no tempo.
  1. A perseguição a Jesus continua na pessoa do discípulo. A resposta do discípulo é manter-se firme.
  1. Paulo aconselha a ocupar-se com o trabalho pelo próprio alimento. A vinda do Senhor não é para o terror, mas para a construção de uma vida frutuosa na caridade. 

                Escapando do bombardeio 

            No final do Ano Litúrgico e no início do Advento temos a proclamação de uma das maiores verdades da fé como rezamos no “Creio”: “Subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos”. A manifestação de Deus teve seu início e tem sua consumação. Antes do fim, os que acolheram Cristo passaram pelos sofrimentos de sua Paixão. Deus não quer o sofrimento pela fé, mas, que fiquemos firmes: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!” (Lc 21,19).

            O profeta Malaquias profetiza a vinda do Senhor como um fogo que queima os maus. Mas, para os que têm a Deus nascerá o sol da justiça” (Ml 3,20ª). O Salmo interpreta esse texto como uma grande aclamação ao Senhor que vem. Não é para ter medo do Juiz, pois Ele vem premiar os que viveram na justiça. Não é condenação.

            Será o nosso momento de alegria, não de temor.

            Os discípulos estavam encantados com a beleza do templo. Jesus então diz que o futuro vai ser duro. O templo será destruído. Ele era o encanto do povo e a casa de Deus. Jesus também o amava muito, pois era a casa do seu Pai. Jesus começou então a dizer o que iria acontecer: muitos vão querer enganar com outras doutrinas e revelações. Vejamos quanta gente apareceu ao longo da história querendo mostrar um caminho diferente para a salvação.

            Pior ainda: Jesus anuncia guerras, revolução, terremotos e tantas desgraças. Ajunta ainda a perseguição aos fiéis e uma matança por causa da fé. Vivemos hoje uma grande perseguição contra os católicos. Até dentro de nossas casas. Nas famílias onde há gente de outra religião, é um inferno para os familiares. Já não é mais religião.

É o momento de testemunhar a fé, pois é uma pregação muito forte, quando é feita com própria vida. Onde é grande a perseguição, surge depois uma grande conversão. Os antigos já diziam: “sangue dos mártires, semente de cristãos”. Vendo a sua fé, enxergam o caminho.

E o Senhor promete proteção: “Mas vós não perdereis um só fio de cabelo de vossa cabeça” (Id 18).

Sendo parte de nossa fé, viver na expectativa e na esperança, purificamos nosso modo de viver e fortalecemos a Igreja.

 

nº 1595 Artigo – “O amor que se torna fecundo”

 Vida nova

            O amor sempre dá vida. O amor norteia a leitura da Exortação Apostólica do Papa Francisco, Amoris Laetitia – Alegria do amor. Papa Francisco tem nos explicado as profundezas do amor. Entramos agora na reflexão sobre sua fecundidade. S. João Paulo II ensina que o nascimento de um filho é a continuação do casal:  “Enquanto se doam entre si, doam para além de si mesmos na realidade do filho, reflexo vivo do seu amor, sinal permanente da unidade do casal e síntese viva e inseparável do ser pai e mãe” (Familiaris Consortio 14). Falar de gravidez é sempre um susto para alguns ou grande alegria para outros. Fica esquecido o fato da vida do casal que se doa não só ao filho, mas vai além de si. Celebramos o acolhimento da vida que chega como um presente de Deus. A profundidade da criação de uma nova vida é insondável. Assim como Deus nos amou antes de O conhecermos, assim a criança é amada. Não há criança indesejada. Há uma vida a ser amada. Se não coincide com nossas opções, pode coincidir com nossas escolhas. Todo filho gerado é um dom que é nos confiado. O mistério da criação de um novo ser, seja animal, humano, vegetal é um mistério insondável. Podemos explicar como funciona, mas não como a vida é dada. Certamente que a procriação não é ilimitada, mas realizada na liberdade sábia e responsável. Podemos ver nos países onde foi coibida a procriação como sofreram e tem que sofrer as consequências da coibição, pois contraria o natural de Deus.

Amor na expectativa própria da gravidez

            Na gravidez a mãe colabora com Deus para que se verifique o milagre de uma vida nova. A maravilha da gravidez não é somente um acontecimento na vida de uma mulher, mas a participação no mistério da Criação. Essa missão criadora é renovação da humanidade. Diz o Papa, citando S. João Paulo II: “Cada mulher participa do mistério da criação, que se renova na geração humana”. A riqueza da vida que se inicia está desde toda eternidade no projeto de Deus. Não existe gravidez por acaso. Desde o primeiro instante da concepção ali está o olhar amoroso de Deus. Os pais sonham o futuro dos filhos. Sonhar é preciso. “Uma família, quando perde a capacidade de sonhar, os filhos não crescem, o amor não cresce; a vida debilita-se e apaga-se” (AL 169). Assim se liga também ao Batismo. Podemos saber muita coisa sobre a criança durante a gestação, “mas conhecê-la em plenitude, só o faz o Pai do Céu que a criou: o mais precioso e o mais importante só Ele conhece, pois é Ele que sabe quem é aquela criança e qual é sua identidade mais profunda” (AL 170). Não é possível desligar a gravidez do projeto de Deus. O filho, venha como vier é sempre o filho. O amor dos pais é para a criança a primeira expressão do amor de Deus. Uma gravidez deve ser conduzida no relacionamento com Deus que a deu.

Canal por onde chega Deus

            Todos os cuidados que a criança recebe é a confirmação das qualidades espirituais do amor. O amor é uma centelha de Deus. Por isso a importância de a criança sentir o amor do pai e da mãe, o que é um direito natural, muito necessário para o amadurecimento humano. Sente necessidade de sentir o amor de um pelo outro. A falta de um dos dois deve ser compensada de modo que favoreça o amadurecimento adequado do filho. (Al 712). A presença paterna é, por mais que a vida traga urgências que o absorva, de necessidade vital. Nos primeiros meses e tempos, a presença da mãe é fundamental pois que a missão da maternidade e da continuada gestação e proteção.

nº 1594 – Homilia Solenidade de Todos os Santos (06.11.16)

“Unidos aos Anjos e Santos” 

Evangelho que transforma

            Desde o início da Igreja encontramos a veneração dos santos. A Deus se adora, aos santos se venera. Católico não adora santo. Certamente que há pessoas que negam, outros exageram. Mas há um caminho claro para dizer quem é santo: É santo aquele que viveu no amor e na justiça mesmo não sendo cristão. Santo canonizado é aquele que foi reconhecido oficialmente e que, por sua intercessão (oração) Deus realizou um milagre. O santo viveu de modo heróico o evangelho. Temos os mártires, as virgens e os confessores. Estes são os que não morreram por Cristo, mas viveram por ele. O Céu tem os 144 mil assinalados e uma multidão que ninguém pode contar vinda de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro (Ap 7,9). São justamente esses que celebramos. São nossos parentes, amigos, conhecidos e desconhecidos, desde todos os tempos, mesmo que o universo tenha bilhões de anos. A salvação é para todos, desde o primeiro homem. Mesmo Jesus tendo vindo somente agora, há dois mil anos. Isso nós professamos em nossa fé: “E desceu à mansão dos mortos”. O caminho da santidade é o evangelho de Jesus, de modo particular em “seu mandamento”, o amor ao próximo. Este mandamento se explicita nas bem-aventuranças que nos põem em relacionamento com Deus e com o próximo. Há muita gente que se esfola por coisas tão inúteis. Pelo amor ao próximo não se vê ninguém se esfolar. Os santos foram os que fizeram assim. São pobres de espírito, isto é, humildes, mansos aflitos pelo bem, famintos e sedentos de justiça, puros de coração, misericordiosos, promotores da paz e perseguidos pela justiça por crerem em Jesus.

 Intercessores

            Por que podemos pedir a intercessão dos santos? Paulo nos ensina que Cristo é o único mediador. A salvação só acontece através do HOMEM CRISTO JESUS (1Tm 2,5). Jesus, em sua qualidade humana é o único mediador e o único intercessor. Mas a Palavra ensina através do mesmo Paulo aos Coríntios 12,27: “Vós sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte”. O que Cristo é, nós o somos com Ele, pois até nossos pecados Ele assumiu. Pedro explica: “Sobre a cruz, levou os nossos pecados em seu próprio corpo… (1Pd 2,24). Tudo o que Cristo faz em sua relação com o Pai, nós o fazemos com Ele, pois somos parte de seu corpo e participamos de sua ações. Por isso quando é mediador e intercessor, nós o somos com Ele. Assim são os que estão na Glória, os do Purgatório e os que caminham nessa terra. Se podemos pedir aos vivos que rezem por nós… mais ainda aos que estão no Pai. Jesus disse que fareis milagres maiores que eu fiz (Jo 14,12). E também: “O que pedirdes ao Pai em meu nome, (isto é, unidos a Mim), Eu o farei”.

Somos o Corpo de Cristo. É bom ler a Escritura no seu todo, não em frases soltas.

Modelos de santidade

            O Concílio Vaticano II ensina no capítulo quinto que todos são chamados à santidade. Jesus é o modelo da santidade que se realiza em nós pelo Espírito Santo e pela nossa correspondência à graça dos sacramentos. Os santos são modelos, não tanto no modo como viveram, mas como responderam à graça de Deus. Cada um fez um caminho. Cada um faça o seu caminho de santidade. Agora a santidade exige a participação na vida da comunidade, no testemunho de vida, na evangelização e na solidariedade para com os necessitados. A caridade é fundamental porque o primeiro mandamento é amor a Deus e o segundo, amor ao próximo. Os dois são um só mandamento. Só com a fé não se salva.

Leituras: Apocalipse 7,2-4.9-14; Salmo 23; 1Jo 3,1-3;Mateus 5,1-12

Ficha nº 1594 – Homilia Solenidade de Todos os Santos (06.11.16)

  1. Celebramos todos os habitantes do Céu. Os canonizados são os reconhecidos. O caminho da santidade é viver o Evangelho com o modelo das bem-aventuranças.
  1. Cristo é o único intercessor e o mediador. Por estarmos unidos a Ele pela natureza humana que possui, somos intercessores e mediadores com Ele. Participamos de seu Corpo Místico. Os santos também participam no dom e na missão de Jesus.
  1. Todos são chamados à santidade. Jesus é o modelo. Os santos são modelo, não do modo como vivem, mas como corresponderam à graça de Deus. Agora se exige a participação da vida da comunidade e o testemunho da caridade.

            Um santo sem milagre

A comemoração desta festa começou quando, em 13 de maio de 610, o Papa Bonifácio IV dedicou o Panteão (o templo romano em honra a todos os deuses) a Maria e a todos os mártires. A partir de então temos essa celebração na Igreja. A oração da missa orienta o sentido da celebração: “Deus… que nos dais celebrar numa só festa os méritos de todos os santos”.

Todos os que crêem em Jesus são chamados de santos, como dizia S. Paulo: “Aos santos e fiéis em Cristo… (Ef 1,1). Mais ainda são chamados de santos os que vivem na Glória de Deus. Costumamos chamar de santos os que foram beatificados e canonizados, isto é, foram reconhecidos pela sua vida cristã vivida com intensidade e pelo testemunho de seus milagres. Não são nem maiores nem menores nem mais fortes ou mais fracos que todos que estão no Céu, pois são grandes e fortes em Deus.

A celebração de hoje quer louvar a Deus por todos os que estão no Céu. O Inferno existe, mas não podemos dizer quem está lá. Então, julgamos que todos estão no Céu. Alguns pensam que só eles, os de sua religião ou de seu movimento, é que vão para o Céu. O critério quem tem é o Pai misericordioso e generoso que perdoa nossos pecados. Lá estão todos os seres humanos que existiram nesse mundo ou em outros. João narra no Apocalipse 7,2-14 que viu uma multidão que ninguém podia contar vindas de todas as nações, tribos, povos e línguas. Lá estão nossos amigos e parentes. É uma festa de família.

Jesus mostra o caminho fácil para chegar ao Céu: as bem-aventuranças. Poucas coisas são necessárias para conquistar todo Céu. Ser feliz é muito fácil. Além do caminho, temos uma certeza de Jesus: Somos filhos de Deus, pois seremos semelhantes Ele quando vier.

A finalidade dessa festa nós a colhemos da oração da missa: “Concedei-nos, por intercessores tão numerosos, a plenitude da vossa misericórdia” (Coleta). Podemos pedir a oração aos outros: “Reze por mim”. Podemos pedir também aos santos, pois estamos todos no Corpo de Cristo. Pedimos que rezem por nós. Eles nos aproximam de Deus. Assim rezamos a Nossa Senhora.

 E concluímos a celebração com a oração: “Desta mesa de peregrinos, passemos ao banquete de vosso Reino (Pós-Comunhão). É nosso futuro. Quem não vive na terra com a cabeça no Céu, pode ter dificuldades de entender essa preciosidade e andar na terra.

 

nº 1593 – Artigo “Ele transformará nosso corpo”

  1. Por que rezamos pelos falecidos?

A Igreja católica sempre rezou pelos mortos. Os primeiros testemunhos estão nas catacumbas. Estas eram cemitérios subterrâneos. Há mais de 60 catacumbas em Roma com milhares de túmulos. Eram cavados na parede e, na lápide que o fechava, tinha inscrições e símbolos. As celebrações dos mortos, sempre foram muito queridas em toda a história da humanidade. Todos os povos criaram seus ritos e monumentos que significavam sua fé na continuação da vida da pessoa. Se nada mais existe, não há o que celebrar. A doutrina católica crê na ressurreição e na possibilidade e no poder da oração pelos mortos. Outros pensam  diferente, mas temos nossa doutrina que vem desde os inícios do cristianismo. Não temos satisfação a dar a respeito de nossa fé. Podemos dar razões. A fé cristã é coerente com seus princípios fundamentais. A Santa Tradição, fundada da Escritura, como lemos no 2º Livros dos Macabeus 12,43-46, atesta a fé do povo judeu e dos cristãos: Numa batalha perdida Judas Macabeu viu amuletos pagãos nas vestes dos soldados mortos. Atribuiu a isso a causa de sua morte. Fez uma coleta e enviou a Jerusalém para que se oferecesse um sacrifício pelo pecado. Lemos ali: “Ação justa e nobre, inspirada na sua crença na ressurreição… santo e piedoso pensamento, este de orar pelos mortos. Por isso ele ofereceu um sacrifício expiatório pelos defuntos, para que fossem livres dos seus pecados” (2Mc 12.43-46). Por isso em todas as missas temos oração pelos mortos celebramos a liturgia. A Eucaristia é um sacrifício reparador dos pecados, pois nela recebemos a salvação.

1802.Para que rezamos

            Os cristãos deram aos ritos um sentido novo de respeito ao corpo na fé. Esse modo de agir é um testemunho claro da fé na ressurreição. A liturgia do dia de Finados é muito rica e variada. Há diversos esquemas de celebração. Nesse ano a liturgia ensina-nos que Jesus recebeu do Pai uma missão: “A vontade do Pai é que Eu não perca nenhuma daqueles que Ele me deu, mas os ressuscite no último dia” (Jo 6,39). Quem crê no Filho tem a vida eterna. Por que essa preocupação do Pai para conosco? Porque somos seus filhos amados, como nos escreve S. João (1Jo 3,1). E na Ressurreição seremos semelhantes a Ele, permanecendo para sempre. Será que não vai ter um cuidado especial conosco, mesmo depois que morrermos? Rezamos na oração da missa: “Concedei a vossos filhos e filhas superar a mortalidade desta vida e contemplar eternamente a vós, Criador e Redentor de todos”. Na oração pós-comunhão rezamos: “Derramai vossa misericórdia sobre vossos filhos e filhas falecidos. E aos que destes a graça do batismo, concedei-lhe a plenitude da vida eterna”. Na oração das oferendas: “colhei, ó Deus a nossa oferenda em favor de todos os que adormeceram no Cristo, para que, por este sacrifício, livres dos laços da morte, obtenham a vida eterna”. Pedimos sua purificação pois são filhos amados de Deus (1Jo 3,1). E Jesus não quer perder nenhuma das ovelhas do Pai, pois essa é sua missão.

1803.Um grande banquete

O Profeta Isaías explica a vida futura como um grande banquete preparado para todos depois da morte. Não vamos perder. Nosso sonho é contemplar a face de Deus para sempre. Podemos sentir saudades e até remorsos do mal que fizemos à pessoa que recordamos. Podemos, contudo, como Corpo de Cristo, rezar como meio de estar unidos aos falecidos e ajudar na sua purificação. S. Mônica, mãe de Santo Agostinho, em seus últimos momentos pediu: “Só vos peço que vos lembreis de mim no altar de Deus, onde quer que estiverdes”. Já era consciência do povo no poder purificador dos pecados dos falecidos. É bom não perder, um dia rezarão por nós.

 

nº 1592 – Homilia do 31º Domingo Comum (30.10.16)

“Hoje a salvação chegou a esta casa”

 Jesus busca os perdidos

            Há algo muito importante no encontro de Cristo com Zaqueu que era um pecador público e odiado por sua profissão de arrecadar impostos para o dominador estrangeiro. E era o chefe. Era de baixa estatura. Nele há o grande desejo de ver Jesus, mas era impedido pela multidão. Não mede esforços para vê-Lo. Elevou-se interior e fisicamente subindo numa árvore. Jesus viu seu esforço de encontrá-Lo. Deus não rejeita a quem O busca. Zaqueu corre à frente e sobe numa figueira para ver Jesus que devia passar por ali. Jesus lhe disse: Zaqueu, desce depressa! Hoje devo ficar em tua casa. O evangelista acentua a palavra hoje, pois a retoma quando diz: “Hoje a salvação entrou nesta casa” (Lc 19,5.9). Podemos retomar essa palavra como o momento permanente da ação de Deus. O Pai que envia o Filho para a salvação realiza uma obra sempre nova. Deus é sempre o mesmo. Para Ele tudo é sempre hoje. Por isso os mistérios de Cristo são realizados sempre em uma total novidade. Deus escolhe o povo: “Hoje Deus te escolheu para seres seu povo” (Dt 26,17). Rezamos no Pai Nosso: “Dá-nos hoje o pão nosso” (Mt 6,11). Disse ao ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). Todo momento de salvação está no Hoje de Deus. Com essa salvação estão todos os dons de Deus presentes no seu Hoje eterno. Zaqueu recebe Jesus como salvação. Esta salvação é oferecida sem ser pedida. O pequeno homem só queria ver Jesus passar. E viu Jesus ficar. Como sempre, toda ação de Deus tem iniciativa Nele. O pequeno homem foi acolhido no Hoje de Deus.

A salvação entrou nessa casa

            A salvação é para todos. Jesus disse: “Também esse homem é um filho de Abraão. Jesus revela mais ainda sua missão: Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,9-10). Jesus tem como fundamental de sua vida buscar a ovelha perdida sem fazer distinção nem colocar condições. Os judeus comentavam: “Ele foi hospedar-se em casa de um pecador” (Lc 19,7). Ele tem motivos: A salvação é dada a todos. Compreendemos também que a atitude de Zaqueu de distribuir os bens e pagar a quem roubou é fruto de uma conversão do coração. A injustiça só será eliminada quando houver uma conversão do coração e uma disposição de reparar o erro feito. Por que devolver quatro vezes? A lei previa que, quem roubasse, teria que devolver quatro vezes o valor (Ex 21,37). Escreve o livro da Sabedoria comentando as atitudes de Deus: “O teu espírito incorruptível está em todas as coisas. É por isso que corriges com carinho os que caem e os repreendes, lembrando-lhes seus pecados, para que se afastem do mal e creiam em ti, Senhor (Sb 12,1-2). É um processo de ressurreição.

Não impedir os pequenos

            Que possamos correr livremente ao encontro de tuas promessas (Oração). A Palavra salienta o quanto Deus reconhece todos, sobretudo os pequenos e frágeis. Isso é um indicativo para a pastoral. Às vezes somos grandes, fazemos grandes coisas, e os pequenos e frágeis não têm espaço. E mesmo são desvalorizadas as pequenas coisas, os detalhes e o que é pequeno aos nossos olhos, mas grande aos olhos de Deus. Lembramos também as crianças e mesmo os jovens que não têm espaço nas celebrações e na vida da Igreja. Excluir pequenos, frágeis, jovens e crianças é perdê-los definitivamente. A missão da Igreja é a mesma de Jesus e não pode esquecer que ela também deve buscar o que estava perdido. Como Jesus vem em busca do homem perdido, também devemos fazer o mesmo.

Leituras: Sabedoria 11,22-12,2; Salmo 144; 2 Tessalonicenses 1,11-2,2; Lucas 19,1-10

Ficha nº 1592 – Homilia do 31º Domingo Comum (30.10.16)

  1. A cena do encontro com Zaqueu mostra que Jesus nos busca respondendo às nossas mínimas atitudes de busca.
  1. Jesus oferece a salvação a todos, sem colocar condições.
  1. Na pastoral não podemos deixar fora as crianças os jovens e os pobres. 

            Baixinho que ficou grande.

            Era de pequena estatura e ficou grande.

            Lemos no livro da Sabedoria que diante de Deus tudo é muito pequeno. O universo é um grão de areia na balança. Não muda o peso. É uma gota de orvalho. Esse Deus tão imenso tem compaixão, ama tudo e todos, pois foi Ele mesmo que nos fez assim.

            Em seu tratamento conosco Ele é misericórdia e piedade, é amor e paciência. É compaixão. O Senhor é muito bom para com todos. Sua ternura abraça toda criatura. Assim reza o salmo 144.

            O evangelho desse domingo nos traz um fato muito conhecido e marcante: a conversão de Zaqueu, o homem pequeno que subiu a uma árvore para ver Jesus. Era muito rico. Mas sendo baixinho, o povo o impedia de ver Jesus. Era algo natural, mas reflete o quanto podemos impedir que as pessoas vejam Jesus. Ele baixo, se humilhou e subiu a uma árvore.

            Jesus o viu. Mandou descer e lhe disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa. Ele desceu depressa e O recebeu com alegria” (Lc 19,5-6). Jesus se abaixa e vai à casa de um pecador.  Aí começa o diz que diz: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador” (id. 7). A atitude de Jesus é contrária ao pensamento puro dos fariseus. Jesus, hospedando-se em casa de um homem pecador, se faz igual. Deus se abaixou justamente para buscar o que estava perdido.

            Zaqueu se põe em atitude de conversão, não só espiritual, mas a verdadeira conversão que reestrutura a vida: “Dou a metade de meus bens aos pobres”. Jesus quando nos visita quer uma mudança total.

            Nas últimas palavras do texto Jesus afirma que todos são filhos de Deus: “Também este homem é filho de Abraão”. E confirma sua missão como redentor: “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Id. 9-10).

 

nº 1591 – Artigo “A transformação do amor”  

  1. Evolução no amor

            O amor é tão misterioso que sempre tem uma face nova a nos encantar. Pensamos que seremos eternamente jovens com as belezas da juventude e todas as potencialidades. O brilho do sol na beleza da flor a faz ainda mais bela. As gotas da chuva e o sereno da noite são vitais para que a semente, no fruto que veio da flor, produza sementes novas para um amor sempre novo. Vemos tantos casais novos que se separam em tão pouco tempo de casados. A resposta é esta: “O amor acabou”. Se acabou não chegou a ser amor. Depois de tanto tempo de namoro, com uma vida de casados, surgem separações incompreensíveis. Perguntamos: “Não se conheciam?”. Sexo não sustenta um casamento. Só o amor constrói, já cantamos. Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia – Alegria do Amor –  finaliza o capitulo IV com uma reflexão sobre as transformações do amor. Lembra que o tempo de casamento é muito mais longo, o que exige uma vivência muito maior que vai além dos aspectos físicos: “Talvez o cônjuge já não esteja apaixonado com um desejo sexual intenso que o atraia para a outra pessoa, mas sente o prazer de lhe pertencer e que esta pessoa lhe pertença, de saber que não está só, de ser um ‘cúmplice’ que conhece tudo da sua vida e de sua história e tudo partilha” (AL 163). É outro modo de amar. “É um querer-se bem mais profundo, com uma decisão do coração que envolve toda a existência” (Id). Amar como Deus ama: amor de acolhimento, amor doação.

  1. Frutos do amor

“O amor que se promete, supera toda emoção, toda forma de erotismo, sentimento ou estado de ânimo. É um querer-se bem mais profundo, com uma decisão do coração que envolve toda existência… No meio de um conflito não resolvido e, ainda que muitos sentimentos confusos girem dentro do coração, mantém-se viva dia a dia a decisão de amar, de se pertencer, de partilhar a vida inteira e continuar a amar-se e perdoar-se” (AL 163). É preciso saber perder partes para ganhar o todo. Minha mamãe dizia: “De vez em quando é preciso por água benta”. Isto é, saber fazer o que pode melhorar a situação e não tacar lenha na fogueira. Quando um não quer dois não brigam. O amor do casal supera a forma física e passa à beleza do coração. Há algo mais profundo, lembra o Papa Francisco, que é a identidade própria. Foi por ela que se enamorou. Assim podemos entender o amor de idosos, de doentes, de problemáticos. Há algo mais profundo que supera esses “detalhes” da vida. Foi isso que vi em papai e mamãe. Ela na cama e ele sempre ao lado. Sempre. Se percebia que ela estava sozinha, largava os outros e ia para o lado dela. Mesmo não falando nada, ele estava ali. Ela começava a chamar: Zé, Zé, … A senhora quer o papai? – É. Ela não queria nada. Queria ele, o Zé. Ele lhe pegava na mão. O fruto do amor é amar sempre

  1. Com amor eterno

            Como o matrimônio foi feito por amor, o amor permanece sempre novo, com cara nova, sempre o mesmo. “A nobreza da opção pelo outro, por ser intensa e profunda, desperta uma nova forma de emoção no cumprimento dessa missão conjugal. ‘A emoção provocada por outro ser humano como pessoa… não tende, de per si, para o ato conjugal’”(JPaulo II).  O Papa lembra que “adquire outras expressões sensíveis, porque o amor é a única realidade, embora com distintas dimensões” (AL 164). O amor é sempre o mesmo, expresso diferentemente diante de situações diferentes da vida do casal. Será sempre uma busca constante de expressar o amor. Para isso é necessário também o Espírito Santo, pois o amor vem de Deus.

nº 1590 – Homilia do 30º Domingo Comum (23.10.16)

“O humilde é elevado”

Quem se humilha

            Há pessoas que pedem uma oração forte para se verem livres de certos males. A oração mais forte é aquela que chega ao Céu. Essa vem da humildade diante de Deus e dos outros. Jesus quer mostrar com essa parábola que há dois tipos de oração: a do humilde que reconhece suas fragilidades e a do orgulhoso que despreza os outros, achando-se melhor e se esquece de suas fraquezas. Ser fariseu não era um mal. Paulo era fariseu. Ele mesmo diz: Eu sou fariseu, filho de fariseus (At 23,6). Mas foi tocado por Jesus e era humilde. O publicano era um judeu que colaborava com o império romano na cobrança de impostos que era um sofrimento para o povo. Por isso era odiado. O fariseu reza de pé. Era a posição normal de se rezar. É fiel e cumpre todos os mandamentos e tradições. Afirma que não é como os outros homens e acrescenta “nem como esse publicano” (Lc 18,11). O fariseu elogia a si mesmo dizendo-se melhor que os outros, colocando sua segurança espiritual na execução da lei de Deus. O que ele faz está certo e até é muito. Mas o conteúdo de sua oração não é a busca de Deus, mas de si mesmo. Ao contrário, o publicano, que o fariseu colocou na lista dos pecadores, faz uma oração diferente pedindo a misericórdia de Deus. Tem somente seu coração humilhado para apresentar para Deus: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador”. Ser humil’de é reconhecer a Deus como Senhor. Por isso Jesus afirma: “Este voltou para casa perdoado. O outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 18,14). Essa atitude é comum nas comunidades. Alguns desprezam os outros porque não são iguais a eles. Não fazem parte de seu movimento, de sua associação e não sabem nada. Só eles sabem.

Deus escuta o pobre

              A quem Deus escuta? Escuta o humilde, responde Jesus no Evangelho. Jesus é o modelo do humilde. Veio e nos deu o exemplo da humildade. Não só falou sobre a humildade. Afirma com sua vida e suas palavras. Por que a insistência sobre a humildade? No paraíso terrestre quando a cobra, na linguagem simbólica, diz à mulher: “Sereis iguais a Deus” (Gn 3,5). Ali faltou a humildade. O orgulho bloqueia o contato com Deus. O Eclesiástico afirma que “Deus não faz discriminação das pessoas, não é parcial em prejuízo do pobre, mas escuta, sim, as súplicas dos oprimidos” (Eclo 37.15-16). “A prece do humilde atravessa as nuvens” (21). Reconhecer a própria realidade e não se fazer melhor que os outros, saber reconhecer e tratar com respeito às pessoas, de modo particular os humildes, não se colocar como o fim de todas as coisas e os donos de todo saber será um remédio para criar em nós a humildade verdadeira. Não se trata de esconder os dons, mas usá-los para o bem das pessoas. No salmo rezamos: “O pobre clama a Deus e Ele escuta. Quem é o pobre de espírito? É aquele que, mesmo tendo bens, vive para os outros e para Deus.

Combati o bom combate

              Paulo, na Segunda Carta a Timóteo, faz como que um testamento dizendo o que fez e como está seu coração naquele momento que julga ser o final de sua vida. É humilde ao dizer: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”. Não se põe acima dos outros, mas reconhece que o Senhor esteve a seu lado e lhe deu forças (2Tm 4,7.17). Tem a humildade de reconhecer o que Deus fez nele para a evangelização dos povos. Ele foi fiel e é humilde trabalhador do Evangelho, tendo sempre Cristo como sua vida e sua missão. Paulo dá o testemunho da humildade que salva.

Leituras:Eclesiástico 35,15-17.20-22ª;Salmo 33;2Timóteo 4,6-8.16-18; Lucas 18,9-14

Ficha nº 1590 – Homilia do 30º Domingo Comum (23.10.16)

  1. Jesus ensina a humildade com a parábola do fariseu e do pecador que vão ao templo rezar. Será ouvida a oração que vem da humildade. O orgulhoso despreza os outros e assim não é ouvido por Deus.
  1. Jesus é humildade e ensinou a humildade. O orgulho, fruto do pecado, bloqueia o contato com Deus que é imparcial e ouve a oração do humilde.
  1. Paulo dá testemunho da humildade ao dizer que fez tudo por Cristo e agora espera a coroa de tudo que é o seu Reino.

              Conversa mole não convence.

              A Palavra de Deus nesse trigésimo domingo nos apresenta a parábola do fariseu e do cobrador de impostos. O fariseu não era mau por ser fariseu, pois era um modo de viver a fé. Paulo era fariseu antes de sua conversão. O que Jesus não engolia era a religião de fachada. Eles se apresentavam como santos, mas na verdade havia falsidade. O publicano era uma classe de gente que era reconhecida como pecadora pelos abusos que faziam na cobrança dos impostos, que era sua profissão.

              O fariseu fazia tudo direitinho na religião, mas faltava o coração. Tinha orgulho pelo que era e condenava os outros. O pecador publicano tem a humildade de reconhecer seu pecado e pedir perdão.

              Temos aí um caminho de vida cristã: nada do orgulho de pensar que é melhor que os outros e não saber ver os próprios pecados.

              O livro do Eclesiástico, para superar essas situações, coloca Deus como modelo. Age sempre com justiça e escuta as súplicas dos oprimidos. Ensina que “quem serve a Deus como Ele o quer, será bem acolhido e suas súplicas subirão até às nuvens” (Eclo 35,20). Confirma: “A prece do humilde atravessa as nuvens” (Id 21). Essa oração é insistente: não descansa até que Deus atenda.

              O Salmo é muito claro e confirma as palavras de Jesus sobre a oração do humilde pecador: “O pobre clama a Deus e ele escuta; O Senhor liberta a vida de seus servos (Sl 33).

A humildade é o sinal mais claro que estamos em Deus.

 

 

nº 1589 – Artigo “O Amor no amor”

  1. Felicidade do amor

            Na beleza do amor estão compreendidas todas as energias humanas. Quanto mais é amor, mais nos aproxima de Deus. Por isso o casamento é o caminho mais natural para a santidade da pessoa humana. O amor carnal supõe seu enriquecimento no amor de amizade para chegar ao amor Divino, que chamamos de ágape. É a conjunção dessas três dimensões que realiza a pessoa humana e a santifica. Não é sufocando o amor humano carnal que teremos o amor Divino. A manifestação de Deus ao mundo se deu na carne de Jesus que sabia amar. As penitências que afligem o corpo não são para matar a carne, mas para nos abrir também ao espiritual. Encontramos Deus em nosso ser total de carne, alma e dimensões psicológicas e intelectuais. O desvio do erótico se dá na falta de alteridade, pois está na exploração do outro. Os extravios não dignificam o homem e a mulher. A auto-educação, diz o Papa, realiza mais intensamente a pessoa e não renuncia ao intenso prazer, diz S. Tomás. Quando mais buscamos o amor ao outro, em suas mais diversas dimensões, mais encontramos Deus na pessoa do outro. Por isso o matrimônio insiste que os dois serão uma só carne. Deus está também na dimensão do prazer.  Lembra ainda o livro do Eclesiástico: “Num dia feliz desfruta dos bens” (Eclo 7,14). O limite do prazer será sempre o prazer do outro. O egoísmo destrói o amor, pois é seu contrário. S. João Paulo IIensina que “o ser humano é chamado à plena e matura espontaneidade das relações que é o fruto gradual do discernimento dos impulsos do próprio coração”. O erotismo é um assunto a ser aprofundado para superar a má formação e os abusos (AL 151-152).

  1. Violência não cabe no amor

            Há problemas e patologias (doenças) na sexualidade matrimonial. O ideal é bonito, mas a realidade às vezes maltrata e destrói. Não pode ser “ocasião e instrumento de afirmação do próprio eu e da satisfação egoísta dos próprios desejos e instintos” (AL 153). Papa Francisco descreve uma situação constante no campo da sexualidade e pergunta: “Podem-se ignorar ou dissimular as formas constantes de domínio, prepotência, abuso, perversão e violência sexual que resultam de uma distorção do significado da sexualidade, sepultam a dignidade dos outros e o apelo ao amor sob uma obscura procura de si mesmo?” (AL 153). Mesmo no matrimônio, a sexualidade pode tornar-se fonte de sofrimento e manipulação… O ato sexual imposto ao cônjuge, sem consideração ….não é um ato de amor…” (Al 154). Ninguém pode ser colocado a “serviço do outro”; nenhum dos cônjuges fique fora da alegria do amor. Papa Bento XVI afirma em sua encíclica, Deus é Amor: “Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem sua dignidade” (DCE nº 5).

  1. Os que não se casaram

            Toda a beleza do matrimônio não desaparece quando alguém não se casa. Há diversas situações, contudo essa vida não pode ser vazia de amor. “Há pessoas que não se casam porque consagram a vida por amor a Cristo e aos irmãos. Na Igreja e na sociedade, a família é enriquecida pela sua dedicação” (AL 158). “A virgindade é uma forma de amor”. Jesus escolheu esse caminho e foi um homem completo porque viveu o amor como caridade. O solteiro vive já o mundo definitivo. Matrimônio e virgindade são modalidades diferentes de amar (AL 161), sempre no serviço oblativo. Não ser casado não pode ser uma fonte de vazio e de amargura, mas capacidade de vida que se doa ao extremo justamente onde o amor se torna vida compartilhada. Exige a sexualidade como entrega aos outros.

nº 1588 – Homilia do 29º Domingo Comum (16.10.16)

“Não desistir de rezar” 

Insistir na oração

               A antífona de entrada da celebração nos aponta um caminho para compreendermos o evangelho desse domingo: “Clamo a Vós, meu Deus, porque me atendestes… Guardai-me como a pupila dos olhos; à sombra de vossas asas abrigai-me” (Sl 16,6.8). O orante clama porque sabe que Deus é o socorro permanente. E diz que a meta da oração é ser guardado por Deus que é seu abrigo seguro. Dizer, acolher-me sobre as asas de Deus, lembra a Arca da Aliança que estava sob dois Querubins. Trata-se da presença de Deus. É ali que a oração nos conduz. A catequese de Jesus sobre a oração vai ao núcleo de nossas necessidades e de nossa fragilidade. Ao contar a parábola da viúva indefesa diante de um juiz que não atendia as pessoas, ensina que devemos rezar sempre e com insistência. A liturgia traz o livro do Êxodo que nos relata a oração de Moisés pela vitória de Israel sobre os amalecitas. Ele rezou com insistência, o dia todo. Na parábola estamos diante de um juiz iníquo que, pela insistência, cede às súplicas da viúva. Não tendo forças para pressioná-lo, tem a força da insistência. Quanto mais seremos ouvidos por Deus que sempre socorre seus escolhidos (Lc 18,7). A oração perseverante sempre obtem o resultado. Lembremos que Deus sabendo o que  precisamos, mesmo antes de o pedirmos (Mt 7,7), saberá quando e como atender-nos. Na verdade, o que vale da oração não é o resultado do que pedimos, mas entrar em contato permanente com Deus que é mais que tudo o que possamos pedir. Somos mesquinhos, e queremos resolver só nossos problemas, quando Deus oferece soluções maiores. Jesus, conhecendo nossa fragilidade e falta de fé, sabe que não somos insistentes e firmes na fé quando rezamos.

Rezar com o corpo

            Não saia do corpo para rezar só com a mente. O corpo faz parte de nossa totalidade. O espiritual e o corporal caminham juntos. Em sua história a Igreja sofreu influências de mentalidades do tempo e até as justificou. Houve desprezo do corpo, oprimindo-o para libertar a alma. Deus não fez nenhuma parte errada em nós. O mal ou o bem provém de nosso coração como disse Jesus. É uma opção pessoal que produz o mal. Nossas tendências podem ser educadas. Procurou-se castigar o burrinho que somos. Ele pode ser selvagem, mas pode ser educado e fica bom. Vemos Moisés rezando com os braços levantados. Se os abaixava, os judeus começavam a perder a batalha. Por isso puseram duas pedras sob seus braços para que não abaixassem e os hebreus vencessem. A insistência da velhinha supôs muitas idas e vindas para conseguir. Rezamos com a totalidade de nosso corpo. Por isso podemos e devemos tomar posições que expressem o que rezamos. Estar diante de Deus em silêncio, já é oração. Rezamos em nossa realidade.

Rezar com a Escritura

            Quando refletimos sobre a oração ficamos sempre em dificuldades e pensamos que não sabemos rezar. Os discípulos apresentaram esse problema a Jesus: “Mestre, ensina-nos a rezar como João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1). Naquele momento Jesus estava orando. E responde: Quando orardes, dizei: “Pai Nosso…”. Esta é a oração fundamental que tem tudo o que precisamos. A seguir temos os salmos que perpassam por todas as necessidades humanas. Há tanta gente que conhece salmos de cor. Uma leitura meditada da Escritura nos coloca em diálogo com Deus e sustenta nossa vida espiritual. Temos que ver na Palavra de Deus, aquilo que ocorre conosco. Por isso, pedi e recebereis (Mt 7,7).

Leituras: Êxodo 17,8-13; Salmo 120; 2 Timóteo 3,14-4,2 ; Lucas 18,1-8

Ficha nº 1588 – Homilia do 29º Domingo Comum (16.10.16) 

  1. Na parábola Jesus ensina que a oração deve ser insistente e perseverante. Temos o exemplo de Moisés. Deus nos atenderá, pois sabe o que precisamos e atende.
  1. Rezamos com nosso corpo que, mesmo frágil, pode ser educado.
  1. Rezamos com a Escritura como Jesus ensinou. Rezamos com os salmos que tratam de toda nossa realidade. Rezamos meditando a Palavra. 

             Correndo das velhas. 

            Há um mau costume de achar que as pessoas idosas, que chamamos de “velhas”, são inúteis. Alguns chegam a dizer que na Igreja só há velhas. Ser velho é um grande privilégio, pois muitos não chegaram a essa idade. Então há nelas um maior vigor de vida, também de vida espiritual. Muitas são benzedeiras, isto é, são capazes de orar para o bem dos outros com grandes resultados. Deus as ouve, pois se conhecem há tempo.

            Jesus, no evangelho desse domingo, ensina seus discípulos a rezaram com insistência. Se até os maus, como no caso do juiz injusto, cedem diante da insistência e fazem justiça, “será que Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por Ele? Será que vai fazer esperar? Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa” (Lc 18,6-8).

            Uma das noções de oração nos é dada pelo próprio Jesus que insiste que não usemos um palavreado excessivo (Mt 6,7).  Um santo dos tempos modernos, Charles de Foucauld, diz: “Rezar não é dizer muitas coisas, mas a mesma coisa muitas vezes”. Rezar não é convencer Deus a respeito de nossas coisas, mas convencer-nos sobre Deus. Parece que Deus demora a atender a gente. É que Ele quer ficar conosco mais tempo. Parece que gosta de nós. Por isso temos o exemplo de Moisés que durante a batalha dos israelitas ficou o tempo todo de braços abertos em oração para que vencessem. É o que dizemos: o homem mais alto é aquele que está de joelhos. Quando minha avó Rita estava já no fim eu lhe mostrei um tercinho de anel e ela me disse: “As rezas nunca chegam”, quer dizer: nunca são suficientes.

            A oração deve ser baseada na Sagrada Escritura. Paulo diz a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada e útil para ensinar e para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra” (2Tm 3,16-17).

            Aprendamos com nossas velhinhas a conversar com Deus.

 

nº  1587 – Artigo “O Rei se encante com tua beleza”

  1. Viva Nossa Senhora Aparecida!

            Que beleza ver o povo feliz na casa da Mãe! Por que um símbolo tão pequeno atrai tanta gente? Dizia um intelectual francês ateu que foi a Aparecida no tempo do império e viu a grande fila do beijamento: “Será que todos eles estão errados e só eu que estou certo?” Essa observação já é um sinal de sabedoria. Vendo as multidões felizes que por aqui passam dizemos com alegria: “Essas têm a certeza que aqui é um lugar da ação maravilhosa de Deus por Maria”. Maria quer a alegria do povo. Nossa Senhora gosta de festa, pois, onde ela é padroeira, a festa é de primeira. O povo gosta. Ela traz alegria. A imagem querida de Nossa Senhora Aparecida é sorridente. Foi esse sorriso que os pescadores viram quando a pescaram nas águas do Rio Paraíba. Eles puderam sorrir e também diante da pesca milagrosa. Temos muitas aparições de Nossa Senhora pelo mundo afora. Às vezes ouvimos de revelações que falam de perigos, destruição, um futuro de sofrimento. A descoberta da imagem de Nossa Senhora não veio acompanhada de mensagens nem de ameaças. Ela somente sorriu. Não precisava mais nada. Esse mesmo sorriso atrai e comunica a grande verdade do amor misericordioso. Essa imagem retrata muito a Maria de Nazaré que esteve presente na vida de Jesus e agora está em nossa vida. Maria nunca vem de mãos vazias. Socorre mesmo quando quer salvar uma festa. Em Caná viu a dificuldade dos noivos e já deu um jeito de colocar Jesus em ação. Aí a festa ficou boa mesmo.

  1. Mensagem de uma festa

            Que mensagem a festa da Padroeira nos traz? A oração da missa convida a viver na paz e na justiça: “Concedei ao povo brasileiro, fiel a sua vocação e vivendo na paz e na justiça, possa chegar um dia à pátria definitiva”. Ela nos estimula a ser um povo diferente. É um chamado aos nossos chefes para serem justos. Maria canta com o povo: “O Senhor fez em mim maravilhas, santo é seu nome”. O Apocalipse narra as perseguições que são feitas a Jesus e a sua Mãe. Mas Deus vem sempre em seu socorro (Ap 12,15-16). O povo de Deus, perseguido por tantos males suplica a vitória sobre o grande inimigo que é o mal que invade o povo e toma conta dos poderosos. Vamos vencer na fé. Os milhões de peregrinos e devotos devem “irmanar-se nas tarefas de cada dia para a construção do Reino de Deus” (oração pós comunhão). Proclamar Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil não é fazer somente um ato religioso, mas é fazer um projeto de unidade nacional em torno do amor de mãe para uma mãe pátria mais feliz e fecunda. Maria se torna um modelo para o projeto nacional de fraternidade em torno de Jesus.

1794.Um sorriso a todos

            Ela permanece sempre como a rainha que encanta o Rei. Por isso, “entre cantos e festa e com grande alegria entram no palácio real” (Sl 44). Esse palácio são os grandes templos, mas também as pequenas pobres capelas e os corações dos filhos queridos. A maravilhosa multidão que canta as glórias de Maria, faz longas caminhadas para vir ao santuário, a casa da Mãe, como dizem. Por que sentem essa necessidade? Nos momentos de perigo, temos a sensação que devemos voltar para o útero da mãe. Espiritualmente estamos reunidos todos buscando encontrar nesse útero santíssimo que gerou Jesus, um lugar seguro para encontrar Deus e buscar força para a caminhada.

nº 1586 – Homilia do 28º Domingo Comum (09.10.16)

“Tua fé te salvou” 

Agradecer é sinal da fé

            Em seu caminho para Jerusalém Jesus instrui seus discípulos. Na cura dos dez leprosos ensina sobre milagre e sua presença na obra da Redenção. O milagre é o anúncio da inauguração do Reino de Deus: “Se é pelo dedo de Deus que expulso demônios, então, com toda certeza é chegado a vós o Reino de Deus (Lc 11,20). Mas é também um momento da fé em Jesus como Salvador, não somente como curador. Como vimos no evangelho do 27º domingo comum, a fé tem uma força transformante e nos põe a serviço do Reino na gratuidade do dom que nos foi feito. O texto que narra a cura dos 10 leprosos ensina que a fé não é somente crer e receber um “milagre”, mas colocar-se em relacionamento com Deus em Cristo. Jesus, ao fazer o milagre, espera que haja uma mudança no coração. Dez foram curados. Somente um veio louvando a Deus e agradecendo. Jesus reclama com certa dor: “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” (Lc 17,17-18). Os outros foram apresentar-se aos sacerdotes responsáveis para o atestado de cura da lepra. Assim eram reintegrados na comunidade para todos os efeitos. Estavam puros. Por que essa atitude de Jesus? A cura que Ele realiza é para provocar a fé Nele como Salvador. A fé se desenvolveu no samaritano e o levou a  Jesus e, por Ele, à glorificação do Pai. Jesus lhe diz: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou” (19). Foi o mesmo gesto do general sírio leproso depois de sua cura: “Teu servo já não  oferecerá holocausto ou sacrifício a outros deuses, mas somente ao Senhor” (2 Rs 5,17). O milagre conduz ao louvor que é o reconhecimento de Deus.

A salvação dos povos pela fé

            A fé que Jesus exige é exemplificada na cura de Naamã, general sírio. O profeta manda                                                                                          que se lave sete vezes no rio Jordão. O número sete quer dizer uma ação completa. Naamã muda sua mentalidade. Quer viver uma fé pura, por isso leva terra de Israel para celebrar sobre ela. Devemos fazer um culto puro. Louvar é sair de si e aceitar Deus como origem de todos os bens. O agradecimento é fundamental para a fé. Agradecer é tomar as atitudes de Jesus para com seu Pai. Essa é a salvação que queremos anunciar aos povos. E que seja pura, isenta de nossos egoísmos que se tornam vícios do poder, do prazer e do ter, expressões da idolatria. Os outros nove cumpriram a lei do reconhecimento da cura e se foram. Não se voltaram para Deus. Preocuparam-se somente com os ritos a serem cumpridos. É chocante ver como Deus faz tantos milagres e a fé das pessoas não cresce. Foram curados, mas não salvos. Jesus afirma: “Tua fé te salvou”. Por isso é necessário o banho purificador da fé.

A Palavra não está algemada

O ministério de Paulo está voltado para o anúncio de Cristo Ressuscitado. Essa pregação foi causa de suas prisões, como fosse um malfeitor (2Tm 2,8-9). A fé em Cristo Ressuscitado é a purificação total daquele que crê. Ela nos coloca em atitude de culto a Deus pelo agradecimento do grande benefício da Redenção. Deus é sempre fiel. A fidelidade Divina exige a correspondência da fé. Deus é fiel. Nós também podemos ser. Esse é o milagre que agradecemos. “Com Ele morremos, com Ele viveremos. Se com Ele ficamos firmes, com Ele reinaremos. Se nós O negamos, também Ele nos negará. Se lhe somos infiéis, Ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2,11-13). Paulo, mesmo prisioneiro, anuncia a fé, pois a palavra não está algemada.

Leituras: 2 Reis 5,14-17; Salmo 97; 2Timóteo 2,8-13; Lucas 17,11-19

Ficha nº 1586 – Homilia do 28º Domingo Comum (09.10.16)

  1. Jesus ensina com a cura dos dez leprosos que o milagre que salva é o que corresponde à fé que agradece e louva. Exige uma mudança de mentalidade.
  1. A fé tem que ser pura, sem os vícios que a abafam. A cura exige o agradecimento para ser salvadora.
  1. A fidelidade Divina exige a correspondência da fé.

            Que delícia de banho!

Em seu caminho Jesus ensina e faz milagres que explicitam seu ensinamento. Podemos entender no evangelho da cura dos dez leprosos que o agradecimento faz parte da fé no Deus generoso que cura sempre. Mas cobra nosso reconhecimento. A fé tem sua dimensão humana e o humano tem uma dimensão de fé. Jesus não se queixava das perseguições, das adversidades, mas se queixou da falta de educação, também espiritual, dos leprosos que não voltaram para agradecer.

Jesus se queixa porque o milagre ficou incompleto: faltou acolher o dom com a alegria da ação de graças reconhecendo Deus como autor de todo bem. Jesus diz ao samaritano que era um estrangeiro e indesejado: “Não foram dez os curados? Os outros nove, onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” E disse-lhe: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou” (Lc 17,17-19). O milagre não é tanto a cura física, mas a cura espiritual que é colocar a pessoa em atitude de agradecimento a Deus, autor da renovação do homem. Os outros ficaram curados, mas não mudaram o coração.

Vemos que as pessoas pedem graças e milagres, mas estes não os levam a um relacionamento diferente com Deus. Acham que “pagando a promessa” já pagaram o milagre. Foi o que fizeram os outros nove. Foram a Jerusalém para cumprir a lei e receber o documento de purificado.

Naamã é purificado obedecendo (depois de relutar) a ordem do profeta Eliseu: “Vai e lava-te sete vezes no rio Jordão”. O banho lhe trouxe a cura. Águas deliciosas! Mais que um banho, foi uma conversão a Deus: “Agora estou convencido que não há outro Deus… senão o que há em Israel (2Rs 5,15).

O fato de ser um samaritano, um herege e os outros nove, judeus, mostra que a verdadeira religião está no coração agradecido a Deus por seus imensos dons. Essa água nos deliciará.

 

nº1585 Artigo – “Aprendendo a falar o amor”

  1. O direito de ser ouvido

            Na experiência sacerdotal do atendimento das confissões, o que fica mesmo não são as palavras que o padre diz, mas o que a pessoa diz a si mesma. Ouvimos, depois que a pessoa falou o tempo todo, palavras de agradecimento pela orientação. A pessoa, enquanto fala, já elabora as respostas. É claro que há orientações. Mas o importante é ouvir. Assim também no casamento, o diálogo se torna o ponto de entrosamento físico e espiritual. O diálogo é a porta para todo o entrosamento matrimonial. Nosso querido Papa Francisco continua nos orientando com sua Exortação Apostólica Alegria do Amor (Amoris Laetitia). Ele afirma que “o diálogo é uma modalidade privilegiada e indispensável para viver, exprimir e maturar o amor na vida matrimonial e familiar. É uma aprendizagem” (AL 136). Apresenta diversas atitudes necessárias. Em primeiro lugar acentua a qualidade do ouvir. Não se trata de ouvir palavras, mas ouvir com todo ser. Temos até a expressão: “Sou todo ouvidos”. Aprofundando o sentido da expressão, o diálogo é um aprendizado. Ele exige tempo, atenção, silêncio interior dando valor a tudo o que é dito. Quando dizemos isso não tem importância, podemos nos enganar, pois é importante para a outra pessoa. É importante porque se trata de uma pessoa que não pode ser subestimada nem subestimar o que diz. É preciso colocar-se no lugar do outro para entendê-lo (AL 136-137). No diálogo matrimonial colocar as próprias ideias é um modo de enriquecer a vida. É a “riqueza na diversidade”. O diálogo requer gestos de carinho que se expressam na conversa amiga. Diante do diálogo do amor os problemas podem continuar, mas muda o modo de conduzir.

  1. O amor apaixonado

            O diálogo toma toda pessoa no amor conjugal. O Vaticano II ensina que “compreende o bem de toda a pessoa e, por conseguinte, pode conferir especial dignidade às manifestações do corpo e do espírito, enobrecendo-as como elementos e sinais peculiares do amor conjugal” (GS 49). O amor só é amor se existir na totalidade, pois ele se expressa na pessoa toda. Esse amor é tão sublime que se tornou a maneira de compreender o amor a Deus. Suas expressões são bastante próprias para exprimir os estados da alma no seu relacionamento com Deus. Amor apaixonado assume todas as maneiras de existir da paixão. Todas as paixões são boas, desde que domesticadas, isto é, estarem a serviço do amor. A paixão só pode ser controlada pelo amor apaixonado.

  1. O amor é emotivo

            O ser humano é um todo e as emoções são parte importante. A parte afetiva e psicológica é fundamental. Por isso, na preparação para o casamento é necessário ver bem esse aspecto. Se faltar, pode prejudicar o relacionamento. Jesus não escondia sua emotividade. Também a fé tem que estar unida ao ser total do homem e da mulher em suas condições pessoais e diferentes. Justamente a diferença é que enriquece. O afeto será sadio quando é para o bem do outro e não numa procura de si mesmo no egoísmo. Diz Papa Francisco: “O amor matrimonial leva a procurar que toda a vida emotiva se torne um bem para a família e esteja a serviço da vida em comum. A maturidade chega a uma família, quando a vida emotiva dos seus membros se transforma em uma sensibilidade que não domina nem obscurece as grandes opções e valores, mas segue a sua liberdade, brota dela, enriquece-a, embeleza-a e torna-a mais harmoniosa para o bem de todos” (AL 146). Vemos o Papa indo fundo na questão do amor, porque, para falar de matrimônio tem que se ir à base. Do contrário é pura fantasia.

nº 1584 – Homilia do 27º Domingo Comum (02.10.16)

A fé é transformadora e serviçal! 

Como uma sementinha

                 A vida cristã se desenvolve na fé. Por isso, profeta Habacuc afirma que “o justo viverá por sua fé” (Hab 2,4). A fé acompanhou os patriarcas, alimentou os profetas e sustentou os que creram em Jesus. Esta fé depende também de nosso desejo de crescer. Por isso Paulo insiste que devemos soprar as brasas e reavivar o fogo do dom que nos foi dado.

Os discípulos, na convivência com Jesus, pediam que lhes ensinasse as realidades do Reino. Ora querem aprender a rezar. Jesus ensina o Pai Nosso. Ora pedem para aumentar sua fé. Jesus diz que sua fé, mesmo sendo muito pequena, teria a força para arrancar uma planta e plantá-la no mar. Duas maravilhas: a força de transplantar e fazê-la crescer onde não é lugar apropriado: no mar. Fé tem uma força sem limites porque está unida ao próprio Deus que a doa gratuitamente. Como é dom gratuito, quando servimos Deus não fazemos nada de especial. Estamos agradecendo e fazendo o que devíamos fazer. Deus não tem obrigações para conosco. Por isso fazemos coisas maravilhosas pela força da fé. Abraão partiu para uma terra que ele não sabia onde era… Moisés conduziu o povo no deserto, como se visse o invisível (Hb 11,27) – como lemos na carta aos Hebreus. Jesus dá o testemunho dessa fé quando se encarna não usando as prerrogativas de sua divindade. Assim ensina que como viver. Por isso o justo vive da fé. Viver a fé exigirá despojamento para viver no serviço.

A fé é serviçal

            A fé é responder e aderir com amor a Deus que chama a si para os irmãos. É dom gratuito dado a todos. Torna-se necessário corresponder a Ele com totalidade. Os santos não ficaram santos por dons especiais, mas porque acolheram com totalidade a fé e se puseram a serviço dos irmãos. Jesus faz uma comparação difícil no primeiro momento: fazer tudo e dizer: “somos servos inúteis; fizemos o que devia ser feito” (Lc 17,10). Significa que nada que fizermos será grande para pagar a fé que recebemos e o que fizemos por ela. Só podemos agradecer. Servir já é agradecer. Como Cristo se faz servo. todo aquele que está no serviço do Reino é sempre servo como Cristo que sente sua realização no cumprimento da vontade do Pai. Como é gratuita a graça, a correspondência também é gratuita. A fé não é crer num punhado de grandes verdades, mas acolher um dom ao qual respondemos com o serviço a Deus feito pelos irmãos. Deus não deve nada a ninguém. Nossa fé reascende na medida em que damos o testemunho e guardamos o precioso depósito da fé com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós (2Tm 1,14). Quanto menos cobramos de Deus, mais seremos enriquecidos.

A vida é um dom

                 A vida é plena em todos os momentos. A fé nos leva a aceitar a presença de Deus em cada ser humano desde o primeiro instante de sua concepção. Respeitar a vida do nascituro é crer na esperança colocada em cada pessoa. Respeitar a vida é também dar condições para que se viva a fé. Se a vida é um dom, maior é o dom da fé que nos eleva a viver com plenitude a vida. Paulo insiste com Timóteo que tenha não “um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e sobriedade” (2Tm 2,7). Para isso é necessário estar sempre pronto a ouvir o que o Senhor tem a nos dizer: “Não fecheis o vosso coração” (Sl 94). Mesmo nas maiores dificuldades e sofrimentos, como nos narra Habacuc (1,2-3), é preciso viver da fé.

Leituras: Habacuc 1,2-3; 2, 2-4; Salmo 94; 2Timoteo 1,6-8.13-14; Lucas 17,5

Ficha nº 1584 – Homilia do 27º Domingo Comum (02.10.2016)

  1. A fé é grande e sustenta, mesmo que seja pequenina como uma semente.
  1. Por-se a serviço, como o Servidor Cristo, é o caminho da fé. Como dom gratuito, gratuita é nossa correspondência.
  1. A fé está ligada à vida. Ela é um bem supremo a ser sustentado pela fé. É preciso fortaleza, amor e sobriedade. 

Dieta garantida

            Quer vender um produto? Diga que é bom para emagrecer. Mas há produtos que não só nos equilibram como nos dão mais condições de vida. Também o espiritual tem que ser cuidado. Senão corremos o risco de viver pela metade. Para isso temos a receita de hoje, a fé: “O justo viverá por sua fé” (Hab 2,4). A fé nos sustenta nas maiores dificuldades.

Para receber o dom da fé é preciso ter o coração aberto, como rezamos no responsório do salmo 94: “Não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor”. Recebe a fé aquele que abre o coração e não se fecha por cabeçudice, como fez o povo no deserto.

            A fé é como uma sementinha muito miúda que tem uma força muito grande. Jesus diz que sua força pode remover uma montanha. Pode modificar também nosso coração para que se entregue para Deus.

            A seguir, no texto do evangelho desse domingo, temos uma situação difícil. A fé que nos sustenta nos põe a serviço do Reino na total gratuidade, não por recompensas. Depois de trabalhar pelo Reino, servindo ao Senhor, não estaremos fazendo favor a Deus. E temos que dizer que recebemos o direito de servir o Senhor em seu Reino. O que fizemos foi um dom da fé.

            Por isso Paulo convida a “soprar as brasas do dom de Deus que recebemos”. Antigamente o fogo era conservado nas brasas sob as cinzas. Depois bastava afastar a cinzas e soprar as brasas. Temos tantos dons dados por Deus. É preciso sempre reavivá-los pela fé.

Nossa dieta espiritual é viver a fé.