nº 1604 – Homilia do 3º Domingo do Advento (11.12.16)

“Esperar o Natal do Senhor”

 Realizada a profecia

            A oração da Eucaristia de hoje nos convida a voltarmos para o mistério da Vinda do Senhor. A segunda vinda de Cristo estimula a nos voltarmos para a primeira vinda na noite do Natal. O Senhor sempre vem ao nosso encontro. Tantas profecias anunciaram e descreveram com detalhes sua chegada entre nós. O último profeta do Antigo Testamento atesta que Ele está presente. Somos convidados na celebração a celebrar essa vinda. Rezamos: “Deus, que vedes vosso povo esperando fervoroso o Natal do Senhor, dai chegarmos às alegrias da Salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia”. Celebrar não é só lembrar, mas atualizar esses acontecimentos para que nos fortaleçam para viver o mistério na vida. A celebração sempre conduz à vivência. A realização das profecias se dá também nas atividades do Messias. Isaias anima o povo a se levantar do sofrimento e ver o quanto Deus o fortalece. Deus vem a seu encontro. Jesus realiza concretamente essa transformação. João Batista, para confirmar com o próprio Jesus se Ele era o Messias, manda discípulos perguntar: “És tu aquele que deve vir ou devemos esperar outro?” (Mt 11,3). Jesus não responde com palavras, mas com gestos: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,4,-5). Jesus tece, então, um grandioso elogio a João dizendo que ele é um profeta verdadeiro e o maior entre os nascidos, mas menor que qualquer um do Reino. O menor é Jesus que maior que João.

Vinde salvar o povo

            A vinda de Jesus ao mundo foi para dar a salvação, isto é, para abrir-nos o caminho da comunhão com Deus no perdão total dos pecados. Esta salvação traz profunda alegria.  É o que o profeta quer dizer com as profecias: “Então se abrirão os olhos dos cegos, e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos” (Is 35,5-6ª).            Todos os sentidos do homem serão atingidos pela renovação que Deus trará. O salmo traz as mesmas palavras lembra a misericórdia para com os sofredores (Sl 145). A libertação social e política tornam-se símbolo da libertação espiritual quando Jesus lhe dá o sentido do Reino que liberta a pessoa em todos os sentidos. Aqui encontramos um fundamento para um projeto de evangelização e pastoral: cuidar do homem todo, sobretudo dos mais abandonados, pois Jesus dá um sinal de garantia de sua missão: “Os pobres são evangelizados” (Mt 11,4-5). Esse é o Reino de Deus entre nós. Jesus é aquele que deveria vir. Ele acrescenta: “Feliz é aquele que não se escandaliza por causa de mim” (id 6). Quando isso nos incomoda é porque Jesus está nos incomodando. Esta é a verdadeira política.

Ficai firmes

            O profeta anima a estarmos firmes: “Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados… Criai ânimo… Ele vem para nos salvar (Is 35,3-4). Tiago nos sustenta: “Ficai firmes e fortalecei vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima” (Tg 5,8). A vinda de Jesus no Natal estimula a nos despojarmos de tudo o que possa obscurecer sua revelação. Agora a preocupação de muitos da Igreja está um pouco longe do Menino de Belém. Mas ela tem pela frente o Glorioso que virá para nos perguntar pelo que fizemos pelos nossos pobres. Precisamos de uma conversão que nos desvista de exterioridades para ir ao fundo do coração sofredor. Que a escola de Belém não se feche para nós.

Leituras: Isaias 35,1-6ª.10; Salmo 145;Tiago 5,7-10; Mateus 11,2-22.                                        

Ficha nº 1604 – Homilia do 3º Domingo do Advento (11.12.16)

  1. Jesus realiza as profecias ao confirmar a João que Ele é o Messias.
  1. A vinda do Messias foi para dar a salvação, isto é, abrir-nos o caminho para a comunhão com Deus e o perdão dos pecados. Essa salvação é total. E se completa na evangelização dos pobres. Escandalizar-se de Jesus é incomodar-se com essa libertação.
  1. Somos animados pelo profeta e por Tiago a nos firmarmos nele e realizar uma salvação que nos oferecida.

                        O homem em maiúsculo 

            É comum ouvirmos que este é um homem com H maiúsculo. Não basta iniciar. É preciso ir até o fim. Ser grande não é fazer grandes coisas: é levar adiante sua missão, mesmo que isso custe.

            João quer confirmar se Jesus é o Messias enviado por Deus. Isaias promete uma mudança radical para o povo. Essa renovação Jesus a realiza acrescentando a transformação do mundo pelo evangelho. Não aceitar é escandalizar-se.

            Nesse Advento somos conduzidos pela grandiosa figura de João Batista. Jesus gostava de seu primo e o admirava a ponto de dizer que, “de todos os homens que já nasceram nenhum é maior do que João. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (Mt 11,11). Quem é o menor? Jesus se coloca como o menor. Podemos entender também que João, como é aquele que fecha o Antigo Testamento, é menor do que quem vive a novidade do Reino.

nº 1603 – Artigo “Imaculada Conceição de Maria”

 Do pecado à graça

            Na Igreja temos dogmas que verdades da fé não criadas pela vontade humana. São reconhecidos como verdades inegociáveis. É a fé dada por Deus. Dela nos fala na Escritura ou na Sagrada Tradição que tem fundamento nas mesmas Escrituras. São verdades da fé cristã. Os dogmas foram estudados e reconhecidos pelos Concílios Ecumênicos ou proclamados solenemente pela autoridade do Magistério dos Papas. Eles não inventam dogmas. Reconheceram que são da fé e definidos como verdade a ser acreditada sem dúvida. Há quem diga: sou católico, mas não aceito muitas coisas. Preciso aceitar todas as verdades de fé. Não há meio católico. Ou crê tudo ou não crê nada. O que se deve crer são as verdades da fé e não coisas que surgiram durante a história. O Papa Pio IX, no exercício do Ministério Pontifício, depois de consultar toda a Igreja, de conhecer o que a Tradição nos ensinou, proclamou que Maria foi concebida sem pecado original. Pelo pecado dos primeiros pais toda a humanidade foi manchada. Por isso, o Filho de Deus se encarnou (é dogma) no seio da Virgem Maria (é dogma) e realizou a redenção da humanidade (é dogma). Paulo ensina que a graça de Deus foi muito maior que o pecado, pois quem fez o pecado o homem, a graça nos foi dada por Jesus Cristo. “Se pela falta de um só, todos morreram, com quanta maior profusão de graça Deus e o dom gratuito de um só homem Jesus Cristo se derramou sobre todos” (Rm 5,15). O pecado atingiu toda a humanidade e a natureza também sofreu por conta dele (Rm 8,20-22).

Foi preservada

A festa da Imaculada Conceição de Maria celebra não somente um dom pessoal dada à Mãe de Jesus, mas a grandeza do dom infinito da santidade de Deus que é garantida à humanidade. Maria é a primeira a usufruir tão precioso dom, como rezamos na oração: “Ó Deus, que preparaste uma digna habitação para vosso Filho pela imaculada conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo o pecado em previsão dos méritos de Cristo”. Esse dom era necessário para que Jesus não fosse concebido na linhagem de pecado de Adão e Eva. A narrativa sobre o pecado, cometido no Paraíso depois que Eva caiu na tentação do diabo (a serpente) ensina que o homem perdeu a graça original e começou a corrente de mal invadindo o mundo. A leitura de Paulo aos Efésios nos mostra que fomos escolhidos “para sermos santos e imaculados a seu olhar no amor”. O projeto de Deus era a graça, o homem inventou o pecado. Maria foi libertada do pecado original antes de ter sido concebida. Nela se restaura o Paraíso para nós. É uma graça por pura graça de Deus. Como foi libertada? A redenção de Jesus é para

todos os tempos, não só para os que vieram depois. Por isso, ela foi redimida “em vista dos méritos de Jesus”. O mesmo Espírito Santo que a fecundou para conceber Jesus, a fecundou com a graça para não ser presa do pecado. É nossa fé. Por isso o Anjo lhe diz: Salve, cheia de Graça. Nela já estava toda a graça. Nela não havia mancha de pecado.

Purificados por sua intercessão

Para nós interessa vencer o pecado e viver na graça para mais e mais podermos gerar Jesus no mundo e ser morada de Deus. Rezamos na oração: “Concedei-nos chegar até Vós purificados também de toda a culpa por sua materna intercessão”. Maria recebeu o dom da redenção na sua concepção, quando todos os humanos recebem a mancha do pecado.  Mas ela correspondeu à graça acolhendo a mensagem do Anjo na encarnação, gerando Jesus, cuidado Dele e com Ele estava no Calvário na geração dos filhos da redenção: “Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí a tua mãe” (Jo 19,26-27). Somos filhos, irmãos do Redentor que ela gerou.

nº 1602 – Homilia do 2º domingo do Advento (04.12.16)

“Ir ao encontro de Jesus”

 Produzi frutos

O Advento, tão caro e precioso, nos traz João Batista que apresenta Jesus ao mundo. Não se pode separar Jesus de João Batista que vem preparar seus caminhos. Essa preparação se dá com a conversão de vida. João não admite a falsa religião. Ensina que Jesus é Aquele que vem com o Espírito Santo e o fogo. Reconhece a missão de Jesus. Não podemos pensar sua missão como um recado. Ele tem uma vocação Divina. Tem personalidade espiritual e profética. Está associado “Àquele que vem”. João tem zelo pelo que é de Deus. Sabe defender a lei. Prega uma conversão que seja uma verdadeira mudança de mente. É o sentido original da palavra conversão. Não basta só a mudança. É preciso produzir frutos bons (Mt 3,10). Celebrar o Advento é entrar em clima de vigilância para participar dos mistérios de Cristo: “O próprio Senhor nos dá a alegria de entrarmos agora no mistério do seu Natal para que sua chegada nos encontre vigilantes na oração e celebrando seus louvores”  (Prefácio). Para isso, pedimos que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do vosso Filho, mas instruídos pela vossa sabedoria, participemos da plenitude de sua vida” (Oração). A celebração não é somente uma comemoração, mas um aprofundamento da vida. Para ir ao encontro de Jesus no fim dos tempos e no Natal é exigido de nós o empenho em assumir essas verdades como um modo de vida. A conversão é o primeiro momento da preparação para espera do Senhor que vem no fim dos tempos e no Natal.

Conversão universal

            O Advento tem também como meta a conversão universal como segundo momento da preparação para a Vinda do Senhor. Isaias profetiza que a raiz de Jessé, isto é, o herdeiro do trono de Davi (Jessé é o pai de Isaí e avô de Davi), será cheio do Espírito do Senhor. Terá o Espírito de sabedoria e discernimento, conselho e fortaleza, ciência e temor de Deus. Ele exercerá a justiça para os pobres (Is 11,1ss). A seguir profetiza uma mudança no relacionamento entre espécies selvagens diferentes e mesmo com as crianças. Esse será o sinal de uma conversão profunda no mundo. Teremos um mundo de paz na busca de Cristo. Essa conversão se realiza a partir de nossas escolhas fundamentais que reforçamos com os sacramentos para bem julgar os valores terrenos: Pela participação na eucaristia, nos ensineis a julgar com sabedoria os valores terrenos e colocar nossa esperança nos bens eternos” (Pós-Comunhão). Não basta só esperar. É preciso mudar os valores e saber ver o Reino de Deus entre nós acontecendo também através das atitudes coerentes de conversão que atinge também as estruturas da sociais. Fugir do mundo é ceder espaço para o mal.

Acolhei-vos como Cristo

            São Paulo nos oferece o terceiro momento muito concreto: “Deus vos dê a graça da harmonia e da concórdia uns com os outros. Por isso, acolhei-vos uns aos outros, como Cristo vos acolheu” (Rm 15,5). Toda mudança tem que começar no coração voltado para o outro. O acolhimento gera nos cristãos um só coração e uma só voz (6). A conversão conduzirá sempre mais para o próximo. Jesus não pregou uma vida espiritual desencarnada. Sempre encarnado, quis que sua Igreja fosse encarnada. Esse modo de viver não nos leva a perder o valor da atividade terrena. “e aprendamos a julgar com sabedoria os valores terrenos colocando nossas esperanças nos bens eternos” (Pós-comunhão). Uma espiritualidade intimista não vem nem de João Batista, nem de Jesus nem de São Paulo.

Leituras: Isaias 11,1-10;Sal o 71; Romanos 15,4-9;Mateus 3,1-12

Ficha nº 1602 – Homilia do 2º domingo do Advento (04.12.16)

  1. A pregação de João é para a conversão em preparação para “Aquele que vem”. Conversão exige frutos. Que nada nos impeça de ir ao encontro do Senhor. É o primeiro modo de conversão
  1. Isaias propõe uma conversão universal que envolva a própria natureza.
  1. Paulo ensina que a conversão se dá no coração e no acolhimento do outro.

            O homem fera

            Quando vemos uma pessoa forte e marcante com sua atividade, dizemos que “o homem é uma fera”. João Batista tinha esse tipo. Além do mais, era um homem provado pelo deserto. Vestia roupa feita de pelo de camelo e com um cinturão de couro. Seu alimento era gafanhoto e mel silvestre. Tinha tudo de um profeta. E não havia profetas já uns 400 anos.  O povo entendeu que era o homem de Deus do momento.

            João prega a conversão e ataca os falsos piedosos. E anuncia a chegada próxima de Jesus.

            Temos três modos de conversão proposto pela Palavra de Deus nesse domingo:

            “Produzi frutos que provem vossa conversão”. O risco de uma árvore que não produz fruto é ser cortada. João pede consistência e não grãos chochos.          Isaias proclama um modo de conversão universal: simbolicamente fala da convivência pacífica na qual os animais ferozes convivem entre si e com os humanos. Será a restauração universal proveniente de Cristo, raiz de Jessé (significa da família de Davi).

            São Paulo nos apresenta a terceira modalidade. E muito concreta: “Deus vos dê a graça da harmonia e concórdia uns com os outros. Por isso, acolhei-vos uns aos outros, como Cristo vos acolheu”.

Diante do anúncio de conversão e preparação para um mundo novo, sabemos que isso se realiza em primeiro lugar dentro de nosso coração: “Nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro de vosso Filho, mas instruídos por vossa sabedoria, participemos da plenitude da vida” (Coleta)… “e aprendamos a julgar com sabedoria os valores terrenos colocando nossas esperanças nos bens eternos” (Pós-comunhão).

 

 nº 1601 – Artigo “Família, fonte de fraternidade”

  1. Irmão educa o irmão

            O Papa Francisco presenteou-nos com a Exortação Apostólica Amoris Laetitia na qual reflete sobre a família. Sobre ela temos nos debruçado. O Papa nos alerta no capítulo quinto sobre os irmãos e a família alargada. A família é grande não pelo número dos filhos, mas pela capacidade de gerar fraternidade. Pudemos conhecer em nossa vivência, famílias de muitos filhos. Vimos como os irmãos mais crescidos se fazem cuidadores e educadores dos irmãos menores. Não ter irmão deve ser diferente. Não há uma intenção que todos tenham muitos filhos, mas há muito que se aprender sobre o valor de um irmão. Falando aos peregrinos na Praça S. Pedro, assim reflete sobre o “irmão”: “ O laço de fraternidade que se forma na família entre os filhos, quando se verifica em um clima de educação para a abertura aos outros, é uma grande escola de liberdade e de paz. Em família, entre irmãos, aprendemos a convivência humana… É precisamente a família que introduz a fraternidade no mundo. A partir desta primeira experiência de fraternidade, alimentada pelos afetos e pela educação familiar, o estilo da fraternidade se irradia como  uma promessa sobre a sociedade inteira” (AL 194) (Catequese 18.02.15). Continua o Papa com tanta experiência: “Crescer entre irmãos proporciona a bela experiência de cuidar uns dos outros, de ajudar e ser ajudado. Por isso a fraternidade na família resplandece de modo especial quando vemos a solicitude, a paciência e o carinho com que é circundado o irmãozinho mais frágil, o doente, ou o especial” (AL 195). Mesmo quando a família não pode ter mais filhos, é preciso encontrar formas de a criança não crescer sozinha ou isolada (AL 195). A visão do Papa não é o mundinho fechado do casal, mas aberto ao mundo, onde a criança vai viver e crescer.

  1. Família de famílias

Ao lado dos cônjuges, temos a família alargada. A tendência no momento é do fechamento que aumenta sempre mais, isolando as pessoas dos demais e provocando o distanciamento de familiares, vizinhos e amigos. Há problemas. Mas a vida não se mede a partir dos problemas, mas dos dons que ela possui. Por isso crê na sua vida inserida no mundo,  falamos da família alargada. Mesmo nas grandes cidades podemos constatar o bem que faz ter familiares e amigos. E são fiéis. “O amor entre o homem e a mulher… é animado por um dinamismo interior e incessante, que leva a família a uma comunhão profunda e intensa, fundamento e alma da comunidade conjugal e familiar” (AL 196). Continua explicando que nesse amor se integram também os amigos e as famílias amigas e mesmo as comunidades de famílias que se apoiam nas dificuldades, no seu compromisso social e na fé (Id). No casamento se deve notar bem que a união do casal une duas famílias. E se não for assim, já se cria instabilidade no casal. A união das duas famílias é um reforço humano e espiritual ao casal. A abertura vai ter em conta outros necessitados de amor.

  1. O casamento une e separa

            Ao unir duas famílias na vida do novo casal, há também a certeza de uma separação. Por que Jesus insiste no termo deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher? Esta frase está já na criação do homem (Gn 2,24) e Jesus a repete quando fala sobre o divórcio (Mt 19,5). É a constituição da nova família na liberdade de formação de um novo lar livrando-se do peso que aniquila a individualidade. Parece que está dizendo que o novo casal é único e o primeiro. É sempre uma nova criação. Juntam-se duas famílias para algo totalmente novo, sem perder as raízes, o que deve ser respeitado pelos cônjuges. Ser uma só carne é unir também as diferenças sem as destruir. Benditas nossas famílias.

nº 1600 – Homilia do 1º Domingo do Advento (27.11.16)

“É hora de despertar” 

Viver na esperança

O Advento é tempo em que celebramos a vinda de Cristo. Não se trata somente de sua vinda no Natal, mas também de sua vinda no fim dos tempos. Com fé rezamos no Creio: “Ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo Poderoso, donde há de vir julgar os vivos e os mortos”. Essa vinda dá-nos a impressão de ser perigosa. Ele não virá para condenar, mas para dar a todos o prêmio. Virá de um momento para o outro. A palavra de Deus acentua não a gravidade do momento, mas o fato de ser uma vinda inesperada. Por isso somos convidados a estar sempre prontos. A partir do dia 17.12 celebramos sua vinda no Natal. Por ela participamos pessoalmente da redenção que Deus nos deu em seu Filho. Para essa segunda vinda vivemos um tempo não de angustiosa espera, mas de uma alegre esperança de encontrarmos o Senhor. Rezamos no Salmo: “Que alegria quando me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor’” (Sl 121). O Cristo que vem como rezamos, nos estimula a “ter o ardente desejo de possuir o Reino celeste”. S. Paulo nos alerta: “Já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé” (Rm 13,11). A vinda inesperada é um estímulo a vivermos revestidos de Cristo (Rm 13,14ª). Revestir-se de Cristo é viver como Ele viveu sempre voltado para o Pai fazendo sua vontade. A vinda de Cristo já está cansando. Esta espera é para dar mais tempo de buscar o Senhor. Na oração pós-comunhão rezamos: “Fazei que os sacramentos nos ajudem a amar desde agora o que é dos Céus, e caminhando entre as coisas que passam, abraçar as que não passam”.

Advento é transformação

            O Advento que prepara a vinda do Senhor tanto no fim dos tempos, como no Natal é uma oportunidade de nos preocuparmos em transformar o mundo a partir de nosso coração. O profeta Isaias é atual e nos convida a ter a coragem de mudança radical: “Ele há de julgar as nações e argüir os povos; estes transformarão as espadas em arados e as lanças em foices; Não pegarão em armas e não mais travarão combates” (Is 2,4). Não adianta celebrar essa vinda, se não mudarmos também a situação tão distorcida da vontade de Jesus. É preciso preparar o homem para acolher o Senhor. Essa é a missão primeira dos cristãos. Por isso esperamos. Rezamos: “Concedei a vossos fiéis o ardente desejo de possuir o Reino Celeste para que, acorrendo com nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos a sua direita na comunidade dos justos” (Oração). Vamos conseguir essa vitória quando começarmos a “amar o desde agora o que é do Céu e, caminhando entre as coisas que passam, abraçar as que não passam” (Pós comunhão).

Vamos à casa do Senhor.

O salmo nos faz cantar com esperança: “Que alegria quando me disseram: Vamos à casa do Senhor”. O Pai nos abre o caminho da salvação (prefácio). Tudo é maravilhoso. Há, contudo o compromisso de uma vida coerente: Paulo nos convida a uma preparação eficiente  viver honestamente. Na perspectiva da Vinda diz: “A noite já vai adiantada, o dia vem chegando; Despojemo-nos das ações das trevas e vistamo-nos das armas da luz… procedamos honestamente como em pleno dia” (Rm 3,12-13). É muito bom não perder de vista que o Senhor virá. Mas voltemos o pensamento e as atenções à sua vinda no Natal. A liturgia do Advento é rica.  uma quaresma de abertura do coração para acolher Aquele que vem, seja nas nuvens, seja na palha do presépio. Ele sempre vai encher nosso coração.

Leituras: Isaias 2,1-5; Salmo 121; Romanos 13,11-14ª;Mateus 24,37-44

Ficha nº 1600 – Homilia do 1º Domingo do Advento (27.11.16)

  1. O Advento nos prepara para as duas vindas de Cristo: no fim dos tempos e no Natal. O Senhor não vem para castigar, mas para premiar. Não é uma espera angustiante, mas de uma alegre esperança.
  1. O Advento nos estimula a transformar aas pessoas através das boas obras.
  1. Advento, tempo do compromisso coerente. 

            Quem avisa amigo é

Advento significa chegada, vinda. Na reflexão da Igreja, no Advento só se dava atenção para vinda de Cristo no Natal. Após a reforma se retornou ao tema mais amplo: preparação para a segunda vinda de Cristo. Fazemos essa preparação levando em conta o Cristo que vem cada dia ao nosso encontro. Por isso rezamos que os sacramentos nos ajudem a amar desde agora o que é do Céu e, caminhando entre as coisas que passam abraçar as que não passam (Pós-Comunhão). A preparação imediata para o Natal se faz a partir do dia 17de dezembro.

A segunda Vinda é importante em nossa fé: Cremos que Ele voltará. Não se trata de ficar dizendo que Jesus vai voltar, mas preparar sua vinda através de uma vida coerente. Aí não vamos precisar ter medo.

Jesus diz no Evangelho: “Ficai preparados! Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá” (Lc 24,44). Como podemos estar preparados? Rezamos na oração da missa: “Concedei a vossos fiéis o ardente desejo de possuir o Reino celeste, para que, acorrendo com as boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos a sua direita na comunidade dos justos”. Viver bem é estar esperando a vinda de Cristo. É essa a transformação que podemos fazer no mundo. Nossa vida de acordo com o Evangelho é a melhor maneira de torná-lo presente. S. Paulo diz: “Procedamos honestamente, como em pleno dia” e enumera o que não podemos fazer.  Quem avisa amigo é.

São Paulo continua exortando : “ Já é hora de despertar…a hora já vai adiantada e o dia vai chegando; despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz”. É preciso revestir-se de Cristo (Rm 13,11-14).

Vamos ao encontro de Cristo. Só assim podemos entender porque veio morar conosco. Veio indicar o caminho de ir a seu encontro.

 

nº 1599 – Artigo “A Família se alarga”

Amor que acolhe

                        Em sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia – Alegria do Amor, o Papa Francisco reflete todas as questões que envolvem a família. Nos próximos números vai se dedicar à extensão que a família possui além de seu pequeno mundo. Toca em primeiro lugar, no caso das famílias que não têm filhos. Mesmo assim, o casamento não perde seu valor. A maternidade e paternidade se manifestam de outro modo. O casal sem filhos não é incompleto. Tem a possibilidade de fazer de seu matrimônio uma fonte de vida para os outros. Trata a seguir da adoção de filhos. É uma responsabilidade maravilhosa, mas por outro lado muito difícil. É uma grande oportunidade promover a vida. “Adotar é um ato de amor que oferece uma família a quem não tem… tornam-se assim, mediação do amor de Deus” (AL 179). “A escolha da adoção e do acolhimento expressa uma fecundidade particular da experiência conjugal” (AL 180). A leitura do Evangelho nos faz notar que a Família de Nazaré era muito alargada, onde encontra os parentes e amigos. “O casal que experimenta a força do amor, sabe que esse amor é chamado a sarar as feridas dos abandonados, estabelecendo a cultura do encontro e a luta pela justiça… e chegar a sentir cada ser humano como um irmão” (AL 183). O casal também fala de Jesus aos outros, transmite a fé, desperta o desejo de Deus e mostra a beleza do Evangelho e do estilo de vida que nos propõe (AL 184). Paulo nos convida a distinguir o Corpo do Senhor. Aqui está reclamando também a necessidade de reconhecer o Corpo do Senhor nos sofredores num exercício de fraternidade. A Eucaristia é fonte de vida espiritual e fraternidade para com todos.

Família no sentido amplo

            Entramos numa questão que vai contra a corrente. A família se dilui e se reduz ao pai, mãe e filho (a). Mas a fé cristã não está aí para fazer acordos, nem ceder os princípios fundamentais. Ela quer iluminar onde começam a surgir as trevas, frutos do pecado. Como a família se torna cada vez mais restrita, o Papa Francisco diz: “O núcleo familiar restrito não deveria isolar-se da família alargada, onde estão os pais, os tios, os primos e até os vizinhos”. Continua dizendo que há pessoas que necessitam de companhia, gestos de carinhos e ajuda. Os outros não são incômodos. Como o amor não é egoísta e fechado em si, o amor do casal transborda para a família alargada. É comum encontrarmos reunião de todos que têm sobrenome comum. Fizemos uma dessa para os netos de meu avô materno. Eram mais de 200 pessoas. Lembra ainda que a consciência de ser filho é muito rica. Recebemos o dom da vida. Há algo Divino e comporta até um mandamento. Aqui está o vínculo das gerações. O fato de deixar os pais para unir-se e fundar um novo lar não destrói a união, mas fortalece pela continuidade da vida (AL 188-190).

Muitos e um só corpo

            A comunidade da família se constitui também de idosos e irmãos. Os idosos são tesouros que necessitam muito trabalho para serem descobertos. Por isso, são facilmente descartados, abandonados e rejeitados. O carinho com eles é um investimento em nosso futuro. Foram heróis. Hoje podemos comprar tudo feito. Eles foram capazes de criar e levar adiante os filhos com poucas condições. Não podem ser descartados, muito menos pela Igreja. A história não começa conosco. Eles nos transmitem valores e fazem a passagem. A família que recorda é uma família de futuro (AL 193). Tive a felicidade de ter os pais por longos anos. Chegaram aos 75 anos de casados. Foram muito amados pelos filhos, netos e bisnetos. Foi uma bênção. Eles estarão sempre melhores quando nosso amor por eles for melhor.

nº 1598 – Homilia de Jesus Cristo Rei do Universo (20.11.16)

“Pregamos Cristo Crucificado” 

Um rei diferente!

            Desde a saída do Egito o povo de Israel era comandado por homens carismáticos que os dirigiam e socorriam nas desgraças. Em certo momento, no século onze exigiu que Samuel lhe dê um Rei “como têm os outros povos” (1Sm 8,5). O profeta e dirigente do povo, interpretou que o povo não quer Deus como seu rei. “É a mim que não querem”, diz Deus (7). O escolhido e ungido foi Saul. Desagradou a Deus e lhe retirado o Espírito. Davi foi ungido (1Sm 16,13). Deus lhe prometeu uma “casa que duraria para sempre”. A realeza judaica foi efêmera, tendo seu auge em Salomão. Os outros reis se deram à idolatria e exploração. Em Jesus, descendente de Davi, é cumprida a promessa. Os judeus esperavam um Messias glorioso que os libertasse dos inimigos. Mas Ele é um rei diferente e institui um Reino diferente, não para uma raça particular, mas para todos que O aceitam. A Igreja, continuando a missão de Jesus nem sempre pôs em prática seu ensinamento sobre a autoridade serviço: “O maior é aquele que serve. Eu que sou entre vós como aquele que serve” (Lc 22,27).  O povo acolheu Jesus. Os chefes O recusaram. O motivo foi sua realeza. Não estava conforme seus modelos. O modelo de Jesus corresponde ao desígnio do Pai: “Buscar as ovelhas perdida que eram os pecadores e os pobres que não tinham nenhuma esperança”. Quando está na cruz, recebe as zombarias dos chefes, dos soldados e dos ladrões crucificados com Ele. Foi um fracasso. Provocam dizendo: “Salva-Te a Ti mesmo, se de fato é o Cristo de Deus, o Escolhido” … Se és o rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo!”(Lc 23,35-39). Interrogado por Pilatos responde: “Meu Reino não é desse mundo”…(Jo 18,36)

Estarás comigo no Paraíso

            Jesus passou pela tentação do poder que possuía como Filho de Deus. Foi a mesma tentação que passou no deserto: “Se Tu és o Filho de Deus…”. Na cruz o ladrão O insultava: “Tu não és o Cristo? Salva-Te a Ti mesmo e a nós!” Jesus quis permanecer no seu Paraíso que era sua entrega ao Pai pelo mundo. Ao ladrão que ficou bom ladrão, ao assumir Jesus recebe a melhor promessa do mundo. Diz: “‘Jesus, lembra-Te de mim, quando entrares no teu reinado’. Reponde: ‘Ainda hoje mesmo estarás comigo no Paraíso’” (Lc 23,35-43). Jesus supera a tentação do poder tendo diante de si a imagem do Paraíso que era o Pai. Superou todo o desejo de glória. Todos nós que desejamos o Paraíso só o conseguiremos se buscarmos sempre o serviço humildade que crucifica todo orgulho, tendência ao poder e à mania de querer aparecer e dominar. A comunidade cristã é convocada a ser o Paraíso que é o Reino da verdade e da vida, da santidade e da graça, da justiça, do amor e da paz (Prefácio). A realeza de Jesus não é um projeto humano. É divino.

Trocar de coroa

            Cristo morre prestando um grande serviço ao mundo de todos os tempos: Humilhou-Se. É o que vemos por todo lado, com dor, dentro da Igreja, mesmo nas comunidades pequeninas. Infelizmente A Igreja foi um reino ao lado dos outros, com a supremacia sobre o espiritual e o temporal. Papa era um rei como os monarcas medievais e renascentistas. Onde ficou o Jesus da Galiléia? Quando as Palavras de Papa Francisco ecoam como mudança, há uma rejeição injustificada. A pregação deve consistir num esforço conversão ao Cristo Crucificado, loucura para os gregos, escândalo para os judeus Para os que crêem … (Cor 1,24). Não podemos pregar uma mudança se não tivermos em conta que a coroa que cinge a Igreja e cada cristão é a coroa do serviço e o amor dedicado.

Leituras:2º Samuel 5,1-3; Salmo 121;Colossenses 1,12-20; Lucas 23,35-43

Ficha nº 1598 – Homilia de Jesus Cristo Rei do Universo (20.11.16)

  1. A realeza de Jesus cumpre a promessa feita a Davi de uma casa eterna. Os chefes do povo recusaram Jesus porque não correspondia a suas idéias sofre o Messias. Jesus apresenta um rei que põe sua vida a serviço.
  1. Recusado pelos chefes, soldados e ladrões, Jesus se mantém no seu Paraíso que era cumprir a vontade do Pai: servir a todos. Assim também deve ser a Igreja.
  1. Cristo, com sua encarnação humilhou-se despojando sua realizada do sentido de poder e domínio. Esse é o caminho da Igreja. 

            O perigo do se…. 

            No momento da morte de Jesus os chefes do povo zombavam de Jesus, os soldados caçoavam e diziam: “Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!”  Quando Jesus foi tentado pelo demônio, este dizia: “Se tu és o Filho de Deus….” (Mt 4,3ss). Era a grande tentação de Jesus. Tão humano que era, passava pela tentação e a vencia com a Palavra de Deus.

            A perseguição feita a Jesus culmina em condenação e morte. No momento extremo é aclamado como Rei e Senhor pelo ladrão que o reconhece: ‘“Lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado’, Respondeu-lhe Jesus: ‘ainda hoje estará comigo no Paraíso”’ (Lc 23,42).

            Jesus não se improvisa rei, nem toma o poder por uma decisão pessoal. Deus encaminhara a história de seu povo e, depois dos juízes, dá-lhe um rei. O Reino de Israel se consolida em Davi que recebe a promessa de uma casa eterna. Essa promessa se concretiza em Jesus. De um reino terreno que tem como herança, abre a todos a herança de um reino eterno.

Na carta aos Colossenses ensina-nos quem é esse Rei que foi rejeitado, crucificado e ressuscitado: Ele é a imagem do Deus invisível, por Ele foram feitas todas as coisas, tudo foi criado por meio Dele e para Ele. Ele é a Cabeça do Corpo que é a Igreja, princípio e primogênito dentro os mortos. Deus fez habitar Nele toda sua plenitude e por meio Dele reconciliar consigo todos os seres por meio do sangue da sua cruz (Cl 1,12-20). Em poucas palavras temos a grandeza desse Homem que é Deus. Nossa fé assim crê e assim vive. Como o ladrão que chamamos de bom, conseguiu ser acolhido imediatamente no Reino, nós também, pela fé e dedicação de vida, podemos ser acolhidos e tomar posse com Ele do Reino.

            “Se tu és o Filho de Deus….”. Sim, somos filhos de Deus e herdeiros com Cristo.

 

nº 1597 – Artigo “Tudo pelo carinho”

O amor tem precedência

             É bonito ver um casal com um filho no colo. É como uma fruta de uma árvore que amadurece e pode ser colhida quando é seu tempo. Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica, Amoris Laetitia – Alegria do Amor, lembra questões da vida familiar de um modo tão simples que parecem banais, quando na verdade, são fundamentais. Ao refletir sobre a gestação e o crescimento dos folhos, tem uma importância muito grande à presença do pai e da mãe para a formação da criança, inclusive no espiritual. É missão a não ser delegada a outros. Não se trata da tradicional família, mas da família que transmite valores e vida. A presença da mãe é necessária, sobretudo nos primeiros meses de vida. “O enfraquecimento da presença materna, com suas qualidades femininas, é um risco grave para nossa terra… o gênio feminino é indispensável para a sociedade… uma sociedade sem mães, seria desumana porque elas sabem testemunhar sempre, mesmo nos piores momentos, a ternura, a dedicação e a força moral. As mães transmitem, muitas vezes, também sentido mais profundo da prática religiosa” (AL 173-174). Sintetizando as palavras do Papa podemos dizer que, como o mundo da criança é a mãe, assim ela concebe como é o mundo e como enfrentá-lo. A mãe é, para ela o retrato da mãe. O mundo consumista exigiu da mãe o trabalho para poder sustentar a família. É uma necessidade, mas não uma solução. Em sociedades menos consumistas poderemos desenvolver melhor a formação dos filhos. Não basta dizer que a juventude tem tantos problemas. É necessário ver de onde surgem esses problemas.

Meu velho pai

            É tão bom redescobrir a figura do pai que fica um pouco distante pelas circunstâncias da vida. É gostoso vê-lo já bem envelhecido e buscar nessa fonte de vida as riquezas que oferece. Quando morei na Angola ouvia a expressão: “Quando morre um idoso, queimou-se uma biblioteca”. Nessas culturas a figura do idoso é muito importante e orientadora. O “Sekulu” = o mais velho – tem a sabedoria. Pena que muitas dessas bibliotecas se queimam sem o uso necessário. O Papa Francisco continua sua instrução: “A figura do pai ajuda a perceber os limites da realidade, caracterizando-se mais pela orientação, pela saída para o mundo mais amplo e rico de desafio e pelo convite a esforçar-se a lutar” (AL 175). “A presença clara e bem definida das duas figuras, masculina e feminina, cria o âmbito mais adequado para o amadurecimento da criança” (id). A mãe cuida do ninho o pai estimula a voar. A figura dos idosos abandonados é desoladora. Os problemas que possuem são uma escola para se manifestar o amor.

Sociedade sem pais

            De um pai dominador e patrão, como pudemos ver na sociedade tradicional, passou-se a outro extremo da ausência do pai. O pai não está presente por motivos de trabalho e dos interesses pessoais. “A presença paterna e sua autoridade são afetadas pelo tempo cada vez maior que se dedica aos meios de comunicação e à tecnologia da distração. Além disso, hoje, a autoridade é olhada com suspeita e os adultos são duramente postos em discussão. Eles próprios abandonam as certezas, e por isso, não dão orientações seguras e bem fundamentadas a seus filhos… isso prejudica o processo adequado de amadurecimento pelo qual as crianças precisam passar e nega-lhes um amor capaz de orientá-las e que as ajude a maturar” (AL 176). Não se negam os ganhos atuais, lamentam-se as perdas.

nº 1596 – Homilia do 33º Domingo Comum (13.11.16)

01“Permanecei firmes” 

Não vos preocupeis

            Depois de ensinar os discípulos no caminho para Jerusalém, Jesus dedica-se ao chamado discurso escatológico, isto é, trata das questões do fim dos tempos, referindo-se à destruição de Jerusalém e sua vinda. E adianta: as vítimas mais procuradas serão os discípulos. Primeiramente demonstra a situação da destruição do templo do qual não ficará pedra sobre pedra. Como os sinais se voltam sempre para a vinda do Messias no fim dos tempos, os discípulos perguntam pelo tempo de sua vinda. O tempo é de Deus. Nesse período aparecerão muitos falsos profetas que pretenderão ser o Messias, isto é, a resposta para tudo. Sempre há gente querendo se passar por mestre de todas as coisas e enganam o povo. Anuncia tempos difíceis de guerras e revoluções e desastres da natureza. Mesmo com o pavor que provocarão, Jesus insiste que não devem ficar apavorados. Tudo isso deve acontecer. E tem acontecido sempre. Quando alguém diz que o tempo chegou, é preciso não ter medo, pois os tempos de Deus são outros. Sempre aconteceram esses sinais pavorosos e essas intermináveis guerras, e o fim não chegou. É sinal que devemos entender no sentido figurado, isto é, no gênero literário apocalíptico que tem um sentido mais amplo. A bíblia tem muitos modos de dizer as verdades. Se não entendermos o gênero literário, isto é, a linguagem, podemos aprender e ensinar coisas erradas. Isso é fundamentalismo tão ruim quanto à negação da verdade.

Ocasião para testemunhar a fé

            Juntamente com os sinais pavorosos da natureza, Jesus alerta sobre a perseguição aos discípulos; “Antes que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos… por causa de meu nome” (Lc 21,12). A perseguição aos discípulos é continuação da perseguição e da recusa sofridas por Jesus. Simeão profetizara: “Este Menino será sinal de contradição” (Lc 2,34). Disse ainda no caminho para o Calvário: “Se assim fazem com o lenho verde, o que não farão ao seco?” (Lc 23,31). A perseguição é uma constante na Igreja durante todos os séculos, principalmente agora. Devemos reconhecer que não se persegue ao discípulo. Mas o Mal que atingir o Mestre na pessoa dos discípulos. Jesus garante a força e a resistência: “Mas vós não perdereis um só fio de cabelo de vossa cabeça. É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida” (Lc 21.18-19). Não está excluído que poderemos ser mortos, mas temos a recompensa da Vida. E “Será ocasião em que testemunhareis a vossa fé” (Lc 21,13).  Somos chamados pelo salmo a esperar alegremente. Acolher a vinda do Senhor (Sl 97). O profeta Malaquias garante que depois de toda a conturbação no Dia do Senhor, não há destruição para o discípulo: Para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo a salvação em suas asas” (Ml 3,20ª).

 Transformar o mundo

             A esta espera no meio de tanta dificuldade, Paulo nos dá um conselho muito prático. Como não sabemos quando o Senhor virá, não podemos fazer a opção pela preguiça e desocupação. Ele mesmo dá o exemplo não sendo pesado para a comunidade e suprindo suas necessidades com o trabalho com esforço e cansaço dia e noite para não ser pesado a ninguém… em nome de Jesus Cristo ordenamos  a que, trabalhando, comam na tranqüilidade o seu próprio pão” (2Ts 3,8ss). Desse modo, a vinda do Senhor não é um terror, mas a construção de uma vida tranqüila, segura e frutuosa na expectativa. Não basta a fé, é preciso a caridade operosa” (). A fé sem obras é morta.

Leituras:Malaquias 3,19-20;Salmo 97; 2 Tessalonicenses 3,17-12; Lucas 21,5-19

Ficha nº 1596 – Homilia do 33º Domingo Comum (13.11.16)

  1. Jesus instrui os discípulos sobre a destruição do templo e indica e alerta sobre os terrores e sua perseguição. Usa a linguagem apocalíptica, comum no tempo.
  1. A perseguição a Jesus continua na pessoa do discípulo. A resposta do discípulo é manter-se firme.
  1. Paulo aconselha a ocupar-se com o trabalho pelo próprio alimento. A vinda do Senhor não é para o terror, mas para a construção de uma vida frutuosa na caridade. 

                Escapando do bombardeio 

            No final do Ano Litúrgico e no início do Advento temos a proclamação de uma das maiores verdades da fé como rezamos no “Creio”: “Subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos”. A manifestação de Deus teve seu início e tem sua consumação. Antes do fim, os que acolheram Cristo passaram pelos sofrimentos de sua Paixão. Deus não quer o sofrimento pela fé, mas, que fiquemos firmes: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!” (Lc 21,19).

            O profeta Malaquias profetiza a vinda do Senhor como um fogo que queima os maus. Mas, para os que têm a Deus nascerá o sol da justiça” (Ml 3,20ª). O Salmo interpreta esse texto como uma grande aclamação ao Senhor que vem. Não é para ter medo do Juiz, pois Ele vem premiar os que viveram na justiça. Não é condenação.

            Será o nosso momento de alegria, não de temor.

            Os discípulos estavam encantados com a beleza do templo. Jesus então diz que o futuro vai ser duro. O templo será destruído. Ele era o encanto do povo e a casa de Deus. Jesus também o amava muito, pois era a casa do seu Pai. Jesus começou então a dizer o que iria acontecer: muitos vão querer enganar com outras doutrinas e revelações. Vejamos quanta gente apareceu ao longo da história querendo mostrar um caminho diferente para a salvação.

            Pior ainda: Jesus anuncia guerras, revolução, terremotos e tantas desgraças. Ajunta ainda a perseguição aos fiéis e uma matança por causa da fé. Vivemos hoje uma grande perseguição contra os católicos. Até dentro de nossas casas. Nas famílias onde há gente de outra religião, é um inferno para os familiares. Já não é mais religião.

É o momento de testemunhar a fé, pois é uma pregação muito forte, quando é feita com própria vida. Onde é grande a perseguição, surge depois uma grande conversão. Os antigos já diziam: “sangue dos mártires, semente de cristãos”. Vendo a sua fé, enxergam o caminho.

E o Senhor promete proteção: “Mas vós não perdereis um só fio de cabelo de vossa cabeça” (Id 18).

Sendo parte de nossa fé, viver na expectativa e na esperança, purificamos nosso modo de viver e fortalecemos a Igreja.

 

nº 1595 Artigo – “O amor que se torna fecundo”

 Vida nova

            O amor sempre dá vida. O amor norteia a leitura da Exortação Apostólica do Papa Francisco, Amoris Laetitia – Alegria do amor. Papa Francisco tem nos explicado as profundezas do amor. Entramos agora na reflexão sobre sua fecundidade. S. João Paulo II ensina que o nascimento de um filho é a continuação do casal:  “Enquanto se doam entre si, doam para além de si mesmos na realidade do filho, reflexo vivo do seu amor, sinal permanente da unidade do casal e síntese viva e inseparável do ser pai e mãe” (Familiaris Consortio 14). Falar de gravidez é sempre um susto para alguns ou grande alegria para outros. Fica esquecido o fato da vida do casal que se doa não só ao filho, mas vai além de si. Celebramos o acolhimento da vida que chega como um presente de Deus. A profundidade da criação de uma nova vida é insondável. Assim como Deus nos amou antes de O conhecermos, assim a criança é amada. Não há criança indesejada. Há uma vida a ser amada. Se não coincide com nossas opções, pode coincidir com nossas escolhas. Todo filho gerado é um dom que é nos confiado. O mistério da criação de um novo ser, seja animal, humano, vegetal é um mistério insondável. Podemos explicar como funciona, mas não como a vida é dada. Certamente que a procriação não é ilimitada, mas realizada na liberdade sábia e responsável. Podemos ver nos países onde foi coibida a procriação como sofreram e tem que sofrer as consequências da coibição, pois contraria o natural de Deus.

Amor na expectativa própria da gravidez

            Na gravidez a mãe colabora com Deus para que se verifique o milagre de uma vida nova. A maravilha da gravidez não é somente um acontecimento na vida de uma mulher, mas a participação no mistério da Criação. Essa missão criadora é renovação da humanidade. Diz o Papa, citando S. João Paulo II: “Cada mulher participa do mistério da criação, que se renova na geração humana”. A riqueza da vida que se inicia está desde toda eternidade no projeto de Deus. Não existe gravidez por acaso. Desde o primeiro instante da concepção ali está o olhar amoroso de Deus. Os pais sonham o futuro dos filhos. Sonhar é preciso. “Uma família, quando perde a capacidade de sonhar, os filhos não crescem, o amor não cresce; a vida debilita-se e apaga-se” (AL 169). Assim se liga também ao Batismo. Podemos saber muita coisa sobre a criança durante a gestação, “mas conhecê-la em plenitude, só o faz o Pai do Céu que a criou: o mais precioso e o mais importante só Ele conhece, pois é Ele que sabe quem é aquela criança e qual é sua identidade mais profunda” (AL 170). Não é possível desligar a gravidez do projeto de Deus. O filho, venha como vier é sempre o filho. O amor dos pais é para a criança a primeira expressão do amor de Deus. Uma gravidez deve ser conduzida no relacionamento com Deus que a deu.

Canal por onde chega Deus

            Todos os cuidados que a criança recebe é a confirmação das qualidades espirituais do amor. O amor é uma centelha de Deus. Por isso a importância de a criança sentir o amor do pai e da mãe, o que é um direito natural, muito necessário para o amadurecimento humano. Sente necessidade de sentir o amor de um pelo outro. A falta de um dos dois deve ser compensada de modo que favoreça o amadurecimento adequado do filho. (Al 712). A presença paterna é, por mais que a vida traga urgências que o absorva, de necessidade vital. Nos primeiros meses e tempos, a presença da mãe é fundamental pois que a missão da maternidade e da continuada gestação e proteção.

nº 1594 – Homilia Solenidade de Todos os Santos (06.11.16)

“Unidos aos Anjos e Santos” 

Evangelho que transforma

            Desde o início da Igreja encontramos a veneração dos santos. A Deus se adora, aos santos se venera. Católico não adora santo. Certamente que há pessoas que negam, outros exageram. Mas há um caminho claro para dizer quem é santo: É santo aquele que viveu no amor e na justiça mesmo não sendo cristão. Santo canonizado é aquele que foi reconhecido oficialmente e que, por sua intercessão (oração) Deus realizou um milagre. O santo viveu de modo heróico o evangelho. Temos os mártires, as virgens e os confessores. Estes são os que não morreram por Cristo, mas viveram por ele. O Céu tem os 144 mil assinalados e uma multidão que ninguém pode contar vinda de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro (Ap 7,9). São justamente esses que celebramos. São nossos parentes, amigos, conhecidos e desconhecidos, desde todos os tempos, mesmo que o universo tenha bilhões de anos. A salvação é para todos, desde o primeiro homem. Mesmo Jesus tendo vindo somente agora, há dois mil anos. Isso nós professamos em nossa fé: “E desceu à mansão dos mortos”. O caminho da santidade é o evangelho de Jesus, de modo particular em “seu mandamento”, o amor ao próximo. Este mandamento se explicita nas bem-aventuranças que nos põem em relacionamento com Deus e com o próximo. Há muita gente que se esfola por coisas tão inúteis. Pelo amor ao próximo não se vê ninguém se esfolar. Os santos foram os que fizeram assim. São pobres de espírito, isto é, humildes, mansos aflitos pelo bem, famintos e sedentos de justiça, puros de coração, misericordiosos, promotores da paz e perseguidos pela justiça por crerem em Jesus.

 Intercessores

            Por que podemos pedir a intercessão dos santos? Paulo nos ensina que Cristo é o único mediador. A salvação só acontece através do HOMEM CRISTO JESUS (1Tm 2,5). Jesus, em sua qualidade humana é o único mediador e o único intercessor. Mas a Palavra ensina através do mesmo Paulo aos Coríntios 12,27: “Vós sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte”. O que Cristo é, nós o somos com Ele, pois até nossos pecados Ele assumiu. Pedro explica: “Sobre a cruz, levou os nossos pecados em seu próprio corpo… (1Pd 2,24). Tudo o que Cristo faz em sua relação com o Pai, nós o fazemos com Ele, pois somos parte de seu corpo e participamos de sua ações. Por isso quando é mediador e intercessor, nós o somos com Ele. Assim são os que estão na Glória, os do Purgatório e os que caminham nessa terra. Se podemos pedir aos vivos que rezem por nós… mais ainda aos que estão no Pai. Jesus disse que fareis milagres maiores que eu fiz (Jo 14,12). E também: “O que pedirdes ao Pai em meu nome, (isto é, unidos a Mim), Eu o farei”.

Somos o Corpo de Cristo. É bom ler a Escritura no seu todo, não em frases soltas.

Modelos de santidade

            O Concílio Vaticano II ensina no capítulo quinto que todos são chamados à santidade. Jesus é o modelo da santidade que se realiza em nós pelo Espírito Santo e pela nossa correspondência à graça dos sacramentos. Os santos são modelos, não tanto no modo como viveram, mas como responderam à graça de Deus. Cada um fez um caminho. Cada um faça o seu caminho de santidade. Agora a santidade exige a participação na vida da comunidade, no testemunho de vida, na evangelização e na solidariedade para com os necessitados. A caridade é fundamental porque o primeiro mandamento é amor a Deus e o segundo, amor ao próximo. Os dois são um só mandamento. Só com a fé não se salva.

Leituras: Apocalipse 7,2-4.9-14; Salmo 23; 1Jo 3,1-3;Mateus 5,1-12

Ficha nº 1594 – Homilia Solenidade de Todos os Santos (06.11.16)

  1. Celebramos todos os habitantes do Céu. Os canonizados são os reconhecidos. O caminho da santidade é viver o Evangelho com o modelo das bem-aventuranças.
  1. Cristo é o único intercessor e o mediador. Por estarmos unidos a Ele pela natureza humana que possui, somos intercessores e mediadores com Ele. Participamos de seu Corpo Místico. Os santos também participam no dom e na missão de Jesus.
  1. Todos são chamados à santidade. Jesus é o modelo. Os santos são modelo, não do modo como vivem, mas como corresponderam à graça de Deus. Agora se exige a participação da vida da comunidade e o testemunho da caridade.

            Um santo sem milagre

A comemoração desta festa começou quando, em 13 de maio de 610, o Papa Bonifácio IV dedicou o Panteão (o templo romano em honra a todos os deuses) a Maria e a todos os mártires. A partir de então temos essa celebração na Igreja. A oração da missa orienta o sentido da celebração: “Deus… que nos dais celebrar numa só festa os méritos de todos os santos”.

Todos os que crêem em Jesus são chamados de santos, como dizia S. Paulo: “Aos santos e fiéis em Cristo… (Ef 1,1). Mais ainda são chamados de santos os que vivem na Glória de Deus. Costumamos chamar de santos os que foram beatificados e canonizados, isto é, foram reconhecidos pela sua vida cristã vivida com intensidade e pelo testemunho de seus milagres. Não são nem maiores nem menores nem mais fortes ou mais fracos que todos que estão no Céu, pois são grandes e fortes em Deus.

A celebração de hoje quer louvar a Deus por todos os que estão no Céu. O Inferno existe, mas não podemos dizer quem está lá. Então, julgamos que todos estão no Céu. Alguns pensam que só eles, os de sua religião ou de seu movimento, é que vão para o Céu. O critério quem tem é o Pai misericordioso e generoso que perdoa nossos pecados. Lá estão todos os seres humanos que existiram nesse mundo ou em outros. João narra no Apocalipse 7,2-14 que viu uma multidão que ninguém podia contar vindas de todas as nações, tribos, povos e línguas. Lá estão nossos amigos e parentes. É uma festa de família.

Jesus mostra o caminho fácil para chegar ao Céu: as bem-aventuranças. Poucas coisas são necessárias para conquistar todo Céu. Ser feliz é muito fácil. Além do caminho, temos uma certeza de Jesus: Somos filhos de Deus, pois seremos semelhantes Ele quando vier.

A finalidade dessa festa nós a colhemos da oração da missa: “Concedei-nos, por intercessores tão numerosos, a plenitude da vossa misericórdia” (Coleta). Podemos pedir a oração aos outros: “Reze por mim”. Podemos pedir também aos santos, pois estamos todos no Corpo de Cristo. Pedimos que rezem por nós. Eles nos aproximam de Deus. Assim rezamos a Nossa Senhora.

 E concluímos a celebração com a oração: “Desta mesa de peregrinos, passemos ao banquete de vosso Reino (Pós-Comunhão). É nosso futuro. Quem não vive na terra com a cabeça no Céu, pode ter dificuldades de entender essa preciosidade e andar na terra.

 

nº 1593 – Artigo “Ele transformará nosso corpo”

  1. Por que rezamos pelos falecidos?

A Igreja católica sempre rezou pelos mortos. Os primeiros testemunhos estão nas catacumbas. Estas eram cemitérios subterrâneos. Há mais de 60 catacumbas em Roma com milhares de túmulos. Eram cavados na parede e, na lápide que o fechava, tinha inscrições e símbolos. As celebrações dos mortos, sempre foram muito queridas em toda a história da humanidade. Todos os povos criaram seus ritos e monumentos que significavam sua fé na continuação da vida da pessoa. Se nada mais existe, não há o que celebrar. A doutrina católica crê na ressurreição e na possibilidade e no poder da oração pelos mortos. Outros pensam  diferente, mas temos nossa doutrina que vem desde os inícios do cristianismo. Não temos satisfação a dar a respeito de nossa fé. Podemos dar razões. A fé cristã é coerente com seus princípios fundamentais. A Santa Tradição, fundada da Escritura, como lemos no 2º Livros dos Macabeus 12,43-46, atesta a fé do povo judeu e dos cristãos: Numa batalha perdida Judas Macabeu viu amuletos pagãos nas vestes dos soldados mortos. Atribuiu a isso a causa de sua morte. Fez uma coleta e enviou a Jerusalém para que se oferecesse um sacrifício pelo pecado. Lemos ali: “Ação justa e nobre, inspirada na sua crença na ressurreição… santo e piedoso pensamento, este de orar pelos mortos. Por isso ele ofereceu um sacrifício expiatório pelos defuntos, para que fossem livres dos seus pecados” (2Mc 12.43-46). Por isso em todas as missas temos oração pelos mortos celebramos a liturgia. A Eucaristia é um sacrifício reparador dos pecados, pois nela recebemos a salvação.

1802.Para que rezamos

            Os cristãos deram aos ritos um sentido novo de respeito ao corpo na fé. Esse modo de agir é um testemunho claro da fé na ressurreição. A liturgia do dia de Finados é muito rica e variada. Há diversos esquemas de celebração. Nesse ano a liturgia ensina-nos que Jesus recebeu do Pai uma missão: “A vontade do Pai é que Eu não perca nenhuma daqueles que Ele me deu, mas os ressuscite no último dia” (Jo 6,39). Quem crê no Filho tem a vida eterna. Por que essa preocupação do Pai para conosco? Porque somos seus filhos amados, como nos escreve S. João (1Jo 3,1). E na Ressurreição seremos semelhantes a Ele, permanecendo para sempre. Será que não vai ter um cuidado especial conosco, mesmo depois que morrermos? Rezamos na oração da missa: “Concedei a vossos filhos e filhas superar a mortalidade desta vida e contemplar eternamente a vós, Criador e Redentor de todos”. Na oração pós-comunhão rezamos: “Derramai vossa misericórdia sobre vossos filhos e filhas falecidos. E aos que destes a graça do batismo, concedei-lhe a plenitude da vida eterna”. Na oração das oferendas: “colhei, ó Deus a nossa oferenda em favor de todos os que adormeceram no Cristo, para que, por este sacrifício, livres dos laços da morte, obtenham a vida eterna”. Pedimos sua purificação pois são filhos amados de Deus (1Jo 3,1). E Jesus não quer perder nenhuma das ovelhas do Pai, pois essa é sua missão.

1803.Um grande banquete

O Profeta Isaías explica a vida futura como um grande banquete preparado para todos depois da morte. Não vamos perder. Nosso sonho é contemplar a face de Deus para sempre. Podemos sentir saudades e até remorsos do mal que fizemos à pessoa que recordamos. Podemos, contudo, como Corpo de Cristo, rezar como meio de estar unidos aos falecidos e ajudar na sua purificação. S. Mônica, mãe de Santo Agostinho, em seus últimos momentos pediu: “Só vos peço que vos lembreis de mim no altar de Deus, onde quer que estiverdes”. Já era consciência do povo no poder purificador dos pecados dos falecidos. É bom não perder, um dia rezarão por nós.

 

nº 1592 – Homilia do 31º Domingo Comum (30.10.16)

“Hoje a salvação chegou a esta casa”

 Jesus busca os perdidos

            Há algo muito importante no encontro de Cristo com Zaqueu que era um pecador público e odiado por sua profissão de arrecadar impostos para o dominador estrangeiro. E era o chefe. Era de baixa estatura. Nele há o grande desejo de ver Jesus, mas era impedido pela multidão. Não mede esforços para vê-Lo. Elevou-se interior e fisicamente subindo numa árvore. Jesus viu seu esforço de encontrá-Lo. Deus não rejeita a quem O busca. Zaqueu corre à frente e sobe numa figueira para ver Jesus que devia passar por ali. Jesus lhe disse: Zaqueu, desce depressa! Hoje devo ficar em tua casa. O evangelista acentua a palavra hoje, pois a retoma quando diz: “Hoje a salvação entrou nesta casa” (Lc 19,5.9). Podemos retomar essa palavra como o momento permanente da ação de Deus. O Pai que envia o Filho para a salvação realiza uma obra sempre nova. Deus é sempre o mesmo. Para Ele tudo é sempre hoje. Por isso os mistérios de Cristo são realizados sempre em uma total novidade. Deus escolhe o povo: “Hoje Deus te escolheu para seres seu povo” (Dt 26,17). Rezamos no Pai Nosso: “Dá-nos hoje o pão nosso” (Mt 6,11). Disse ao ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). Todo momento de salvação está no Hoje de Deus. Com essa salvação estão todos os dons de Deus presentes no seu Hoje eterno. Zaqueu recebe Jesus como salvação. Esta salvação é oferecida sem ser pedida. O pequeno homem só queria ver Jesus passar. E viu Jesus ficar. Como sempre, toda ação de Deus tem iniciativa Nele. O pequeno homem foi acolhido no Hoje de Deus.

A salvação entrou nessa casa

            A salvação é para todos. Jesus disse: “Também esse homem é um filho de Abraão. Jesus revela mais ainda sua missão: Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,9-10). Jesus tem como fundamental de sua vida buscar a ovelha perdida sem fazer distinção nem colocar condições. Os judeus comentavam: “Ele foi hospedar-se em casa de um pecador” (Lc 19,7). Ele tem motivos: A salvação é dada a todos. Compreendemos também que a atitude de Zaqueu de distribuir os bens e pagar a quem roubou é fruto de uma conversão do coração. A injustiça só será eliminada quando houver uma conversão do coração e uma disposição de reparar o erro feito. Por que devolver quatro vezes? A lei previa que, quem roubasse, teria que devolver quatro vezes o valor (Ex 21,37). Escreve o livro da Sabedoria comentando as atitudes de Deus: “O teu espírito incorruptível está em todas as coisas. É por isso que corriges com carinho os que caem e os repreendes, lembrando-lhes seus pecados, para que se afastem do mal e creiam em ti, Senhor (Sb 12,1-2). É um processo de ressurreição.

Não impedir os pequenos

            Que possamos correr livremente ao encontro de tuas promessas (Oração). A Palavra salienta o quanto Deus reconhece todos, sobretudo os pequenos e frágeis. Isso é um indicativo para a pastoral. Às vezes somos grandes, fazemos grandes coisas, e os pequenos e frágeis não têm espaço. E mesmo são desvalorizadas as pequenas coisas, os detalhes e o que é pequeno aos nossos olhos, mas grande aos olhos de Deus. Lembramos também as crianças e mesmo os jovens que não têm espaço nas celebrações e na vida da Igreja. Excluir pequenos, frágeis, jovens e crianças é perdê-los definitivamente. A missão da Igreja é a mesma de Jesus e não pode esquecer que ela também deve buscar o que estava perdido. Como Jesus vem em busca do homem perdido, também devemos fazer o mesmo.

Leituras: Sabedoria 11,22-12,2; Salmo 144; 2 Tessalonicenses 1,11-2,2; Lucas 19,1-10

Ficha nº 1592 – Homilia do 31º Domingo Comum (30.10.16)

  1. A cena do encontro com Zaqueu mostra que Jesus nos busca respondendo às nossas mínimas atitudes de busca.
  1. Jesus oferece a salvação a todos, sem colocar condições.
  1. Na pastoral não podemos deixar fora as crianças os jovens e os pobres. 

            Baixinho que ficou grande.

            Era de pequena estatura e ficou grande.

            Lemos no livro da Sabedoria que diante de Deus tudo é muito pequeno. O universo é um grão de areia na balança. Não muda o peso. É uma gota de orvalho. Esse Deus tão imenso tem compaixão, ama tudo e todos, pois foi Ele mesmo que nos fez assim.

            Em seu tratamento conosco Ele é misericórdia e piedade, é amor e paciência. É compaixão. O Senhor é muito bom para com todos. Sua ternura abraça toda criatura. Assim reza o salmo 144.

            O evangelho desse domingo nos traz um fato muito conhecido e marcante: a conversão de Zaqueu, o homem pequeno que subiu a uma árvore para ver Jesus. Era muito rico. Mas sendo baixinho, o povo o impedia de ver Jesus. Era algo natural, mas reflete o quanto podemos impedir que as pessoas vejam Jesus. Ele baixo, se humilhou e subiu a uma árvore.

            Jesus o viu. Mandou descer e lhe disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa. Ele desceu depressa e O recebeu com alegria” (Lc 19,5-6). Jesus se abaixa e vai à casa de um pecador.  Aí começa o diz que diz: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador” (id. 7). A atitude de Jesus é contrária ao pensamento puro dos fariseus. Jesus, hospedando-se em casa de um homem pecador, se faz igual. Deus se abaixou justamente para buscar o que estava perdido.

            Zaqueu se põe em atitude de conversão, não só espiritual, mas a verdadeira conversão que reestrutura a vida: “Dou a metade de meus bens aos pobres”. Jesus quando nos visita quer uma mudança total.

            Nas últimas palavras do texto Jesus afirma que todos são filhos de Deus: “Também este homem é filho de Abraão”. E confirma sua missão como redentor: “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Id. 9-10).

 

nº 1591 – Artigo “A transformação do amor”  

  1. Evolução no amor

            O amor é tão misterioso que sempre tem uma face nova a nos encantar. Pensamos que seremos eternamente jovens com as belezas da juventude e todas as potencialidades. O brilho do sol na beleza da flor a faz ainda mais bela. As gotas da chuva e o sereno da noite são vitais para que a semente, no fruto que veio da flor, produza sementes novas para um amor sempre novo. Vemos tantos casais novos que se separam em tão pouco tempo de casados. A resposta é esta: “O amor acabou”. Se acabou não chegou a ser amor. Depois de tanto tempo de namoro, com uma vida de casados, surgem separações incompreensíveis. Perguntamos: “Não se conheciam?”. Sexo não sustenta um casamento. Só o amor constrói, já cantamos. Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia – Alegria do Amor –  finaliza o capitulo IV com uma reflexão sobre as transformações do amor. Lembra que o tempo de casamento é muito mais longo, o que exige uma vivência muito maior que vai além dos aspectos físicos: “Talvez o cônjuge já não esteja apaixonado com um desejo sexual intenso que o atraia para a outra pessoa, mas sente o prazer de lhe pertencer e que esta pessoa lhe pertença, de saber que não está só, de ser um ‘cúmplice’ que conhece tudo da sua vida e de sua história e tudo partilha” (AL 163). É outro modo de amar. “É um querer-se bem mais profundo, com uma decisão do coração que envolve toda a existência” (Id). Amar como Deus ama: amor de acolhimento, amor doação.

  1. Frutos do amor

“O amor que se promete, supera toda emoção, toda forma de erotismo, sentimento ou estado de ânimo. É um querer-se bem mais profundo, com uma decisão do coração que envolve toda existência… No meio de um conflito não resolvido e, ainda que muitos sentimentos confusos girem dentro do coração, mantém-se viva dia a dia a decisão de amar, de se pertencer, de partilhar a vida inteira e continuar a amar-se e perdoar-se” (AL 163). É preciso saber perder partes para ganhar o todo. Minha mamãe dizia: “De vez em quando é preciso por água benta”. Isto é, saber fazer o que pode melhorar a situação e não tacar lenha na fogueira. Quando um não quer dois não brigam. O amor do casal supera a forma física e passa à beleza do coração. Há algo mais profundo, lembra o Papa Francisco, que é a identidade própria. Foi por ela que se enamorou. Assim podemos entender o amor de idosos, de doentes, de problemáticos. Há algo mais profundo que supera esses “detalhes” da vida. Foi isso que vi em papai e mamãe. Ela na cama e ele sempre ao lado. Sempre. Se percebia que ela estava sozinha, largava os outros e ia para o lado dela. Mesmo não falando nada, ele estava ali. Ela começava a chamar: Zé, Zé, … A senhora quer o papai? – É. Ela não queria nada. Queria ele, o Zé. Ele lhe pegava na mão. O fruto do amor é amar sempre

  1. Com amor eterno

            Como o matrimônio foi feito por amor, o amor permanece sempre novo, com cara nova, sempre o mesmo. “A nobreza da opção pelo outro, por ser intensa e profunda, desperta uma nova forma de emoção no cumprimento dessa missão conjugal. ‘A emoção provocada por outro ser humano como pessoa… não tende, de per si, para o ato conjugal’”(JPaulo II).  O Papa lembra que “adquire outras expressões sensíveis, porque o amor é a única realidade, embora com distintas dimensões” (AL 164). O amor é sempre o mesmo, expresso diferentemente diante de situações diferentes da vida do casal. Será sempre uma busca constante de expressar o amor. Para isso é necessário também o Espírito Santo, pois o amor vem de Deus.

nº 1590 – Homilia do 30º Domingo Comum (23.10.16)

“O humilde é elevado”

Quem se humilha

            Há pessoas que pedem uma oração forte para se verem livres de certos males. A oração mais forte é aquela que chega ao Céu. Essa vem da humildade diante de Deus e dos outros. Jesus quer mostrar com essa parábola que há dois tipos de oração: a do humilde que reconhece suas fragilidades e a do orgulhoso que despreza os outros, achando-se melhor e se esquece de suas fraquezas. Ser fariseu não era um mal. Paulo era fariseu. Ele mesmo diz: Eu sou fariseu, filho de fariseus (At 23,6). Mas foi tocado por Jesus e era humilde. O publicano era um judeu que colaborava com o império romano na cobrança de impostos que era um sofrimento para o povo. Por isso era odiado. O fariseu reza de pé. Era a posição normal de se rezar. É fiel e cumpre todos os mandamentos e tradições. Afirma que não é como os outros homens e acrescenta “nem como esse publicano” (Lc 18,11). O fariseu elogia a si mesmo dizendo-se melhor que os outros, colocando sua segurança espiritual na execução da lei de Deus. O que ele faz está certo e até é muito. Mas o conteúdo de sua oração não é a busca de Deus, mas de si mesmo. Ao contrário, o publicano, que o fariseu colocou na lista dos pecadores, faz uma oração diferente pedindo a misericórdia de Deus. Tem somente seu coração humilhado para apresentar para Deus: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador”. Ser humil’de é reconhecer a Deus como Senhor. Por isso Jesus afirma: “Este voltou para casa perdoado. O outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 18,14). Essa atitude é comum nas comunidades. Alguns desprezam os outros porque não são iguais a eles. Não fazem parte de seu movimento, de sua associação e não sabem nada. Só eles sabem.

Deus escuta o pobre

              A quem Deus escuta? Escuta o humilde, responde Jesus no Evangelho. Jesus é o modelo do humilde. Veio e nos deu o exemplo da humildade. Não só falou sobre a humildade. Afirma com sua vida e suas palavras. Por que a insistência sobre a humildade? No paraíso terrestre quando a cobra, na linguagem simbólica, diz à mulher: “Sereis iguais a Deus” (Gn 3,5). Ali faltou a humildade. O orgulho bloqueia o contato com Deus. O Eclesiástico afirma que “Deus não faz discriminação das pessoas, não é parcial em prejuízo do pobre, mas escuta, sim, as súplicas dos oprimidos” (Eclo 37.15-16). “A prece do humilde atravessa as nuvens” (21). Reconhecer a própria realidade e não se fazer melhor que os outros, saber reconhecer e tratar com respeito às pessoas, de modo particular os humildes, não se colocar como o fim de todas as coisas e os donos de todo saber será um remédio para criar em nós a humildade verdadeira. Não se trata de esconder os dons, mas usá-los para o bem das pessoas. No salmo rezamos: “O pobre clama a Deus e Ele escuta. Quem é o pobre de espírito? É aquele que, mesmo tendo bens, vive para os outros e para Deus.

Combati o bom combate

              Paulo, na Segunda Carta a Timóteo, faz como que um testamento dizendo o que fez e como está seu coração naquele momento que julga ser o final de sua vida. É humilde ao dizer: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”. Não se põe acima dos outros, mas reconhece que o Senhor esteve a seu lado e lhe deu forças (2Tm 4,7.17). Tem a humildade de reconhecer o que Deus fez nele para a evangelização dos povos. Ele foi fiel e é humilde trabalhador do Evangelho, tendo sempre Cristo como sua vida e sua missão. Paulo dá o testemunho da humildade que salva.

Leituras:Eclesiástico 35,15-17.20-22ª;Salmo 33;2Timóteo 4,6-8.16-18; Lucas 18,9-14

Ficha nº 1590 – Homilia do 30º Domingo Comum (23.10.16)

  1. Jesus ensina a humildade com a parábola do fariseu e do pecador que vão ao templo rezar. Será ouvida a oração que vem da humildade. O orgulhoso despreza os outros e assim não é ouvido por Deus.
  1. Jesus é humildade e ensinou a humildade. O orgulho, fruto do pecado, bloqueia o contato com Deus que é imparcial e ouve a oração do humilde.
  1. Paulo dá testemunho da humildade ao dizer que fez tudo por Cristo e agora espera a coroa de tudo que é o seu Reino.

              Conversa mole não convence.

              A Palavra de Deus nesse trigésimo domingo nos apresenta a parábola do fariseu e do cobrador de impostos. O fariseu não era mau por ser fariseu, pois era um modo de viver a fé. Paulo era fariseu antes de sua conversão. O que Jesus não engolia era a religião de fachada. Eles se apresentavam como santos, mas na verdade havia falsidade. O publicano era uma classe de gente que era reconhecida como pecadora pelos abusos que faziam na cobrança dos impostos, que era sua profissão.

              O fariseu fazia tudo direitinho na religião, mas faltava o coração. Tinha orgulho pelo que era e condenava os outros. O pecador publicano tem a humildade de reconhecer seu pecado e pedir perdão.

              Temos aí um caminho de vida cristã: nada do orgulho de pensar que é melhor que os outros e não saber ver os próprios pecados.

              O livro do Eclesiástico, para superar essas situações, coloca Deus como modelo. Age sempre com justiça e escuta as súplicas dos oprimidos. Ensina que “quem serve a Deus como Ele o quer, será bem acolhido e suas súplicas subirão até às nuvens” (Eclo 35,20). Confirma: “A prece do humilde atravessa as nuvens” (Id 21). Essa oração é insistente: não descansa até que Deus atenda.

              O Salmo é muito claro e confirma as palavras de Jesus sobre a oração do humilde pecador: “O pobre clama a Deus e ele escuta; O Senhor liberta a vida de seus servos (Sl 33).

A humildade é o sinal mais claro que estamos em Deus.

 

 

nº 1589 – Artigo “O Amor no amor”

  1. Felicidade do amor

            Na beleza do amor estão compreendidas todas as energias humanas. Quanto mais é amor, mais nos aproxima de Deus. Por isso o casamento é o caminho mais natural para a santidade da pessoa humana. O amor carnal supõe seu enriquecimento no amor de amizade para chegar ao amor Divino, que chamamos de ágape. É a conjunção dessas três dimensões que realiza a pessoa humana e a santifica. Não é sufocando o amor humano carnal que teremos o amor Divino. A manifestação de Deus ao mundo se deu na carne de Jesus que sabia amar. As penitências que afligem o corpo não são para matar a carne, mas para nos abrir também ao espiritual. Encontramos Deus em nosso ser total de carne, alma e dimensões psicológicas e intelectuais. O desvio do erótico se dá na falta de alteridade, pois está na exploração do outro. Os extravios não dignificam o homem e a mulher. A auto-educação, diz o Papa, realiza mais intensamente a pessoa e não renuncia ao intenso prazer, diz S. Tomás. Quando mais buscamos o amor ao outro, em suas mais diversas dimensões, mais encontramos Deus na pessoa do outro. Por isso o matrimônio insiste que os dois serão uma só carne. Deus está também na dimensão do prazer.  Lembra ainda o livro do Eclesiástico: “Num dia feliz desfruta dos bens” (Eclo 7,14). O limite do prazer será sempre o prazer do outro. O egoísmo destrói o amor, pois é seu contrário. S. João Paulo IIensina que “o ser humano é chamado à plena e matura espontaneidade das relações que é o fruto gradual do discernimento dos impulsos do próprio coração”. O erotismo é um assunto a ser aprofundado para superar a má formação e os abusos (AL 151-152).

  1. Violência não cabe no amor

            Há problemas e patologias (doenças) na sexualidade matrimonial. O ideal é bonito, mas a realidade às vezes maltrata e destrói. Não pode ser “ocasião e instrumento de afirmação do próprio eu e da satisfação egoísta dos próprios desejos e instintos” (AL 153). Papa Francisco descreve uma situação constante no campo da sexualidade e pergunta: “Podem-se ignorar ou dissimular as formas constantes de domínio, prepotência, abuso, perversão e violência sexual que resultam de uma distorção do significado da sexualidade, sepultam a dignidade dos outros e o apelo ao amor sob uma obscura procura de si mesmo?” (AL 153). Mesmo no matrimônio, a sexualidade pode tornar-se fonte de sofrimento e manipulação… O ato sexual imposto ao cônjuge, sem consideração ….não é um ato de amor…” (Al 154). Ninguém pode ser colocado a “serviço do outro”; nenhum dos cônjuges fique fora da alegria do amor. Papa Bento XVI afirma em sua encíclica, Deus é Amor: “Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem sua dignidade” (DCE nº 5).

  1. Os que não se casaram

            Toda a beleza do matrimônio não desaparece quando alguém não se casa. Há diversas situações, contudo essa vida não pode ser vazia de amor. “Há pessoas que não se casam porque consagram a vida por amor a Cristo e aos irmãos. Na Igreja e na sociedade, a família é enriquecida pela sua dedicação” (AL 158). “A virgindade é uma forma de amor”. Jesus escolheu esse caminho e foi um homem completo porque viveu o amor como caridade. O solteiro vive já o mundo definitivo. Matrimônio e virgindade são modalidades diferentes de amar (AL 161), sempre no serviço oblativo. Não ser casado não pode ser uma fonte de vazio e de amargura, mas capacidade de vida que se doa ao extremo justamente onde o amor se torna vida compartilhada. Exige a sexualidade como entrega aos outros.

nº 1588 – Homilia do 29º Domingo Comum (16.10.16)

“Não desistir de rezar” 

Insistir na oração

               A antífona de entrada da celebração nos aponta um caminho para compreendermos o evangelho desse domingo: “Clamo a Vós, meu Deus, porque me atendestes… Guardai-me como a pupila dos olhos; à sombra de vossas asas abrigai-me” (Sl 16,6.8). O orante clama porque sabe que Deus é o socorro permanente. E diz que a meta da oração é ser guardado por Deus que é seu abrigo seguro. Dizer, acolher-me sobre as asas de Deus, lembra a Arca da Aliança que estava sob dois Querubins. Trata-se da presença de Deus. É ali que a oração nos conduz. A catequese de Jesus sobre a oração vai ao núcleo de nossas necessidades e de nossa fragilidade. Ao contar a parábola da viúva indefesa diante de um juiz que não atendia as pessoas, ensina que devemos rezar sempre e com insistência. A liturgia traz o livro do Êxodo que nos relata a oração de Moisés pela vitória de Israel sobre os amalecitas. Ele rezou com insistência, o dia todo. Na parábola estamos diante de um juiz iníquo que, pela insistência, cede às súplicas da viúva. Não tendo forças para pressioná-lo, tem a força da insistência. Quanto mais seremos ouvidos por Deus que sempre socorre seus escolhidos (Lc 18,7). A oração perseverante sempre obtem o resultado. Lembremos que Deus sabendo o que  precisamos, mesmo antes de o pedirmos (Mt 7,7), saberá quando e como atender-nos. Na verdade, o que vale da oração não é o resultado do que pedimos, mas entrar em contato permanente com Deus que é mais que tudo o que possamos pedir. Somos mesquinhos, e queremos resolver só nossos problemas, quando Deus oferece soluções maiores. Jesus, conhecendo nossa fragilidade e falta de fé, sabe que não somos insistentes e firmes na fé quando rezamos.

Rezar com o corpo

            Não saia do corpo para rezar só com a mente. O corpo faz parte de nossa totalidade. O espiritual e o corporal caminham juntos. Em sua história a Igreja sofreu influências de mentalidades do tempo e até as justificou. Houve desprezo do corpo, oprimindo-o para libertar a alma. Deus não fez nenhuma parte errada em nós. O mal ou o bem provém de nosso coração como disse Jesus. É uma opção pessoal que produz o mal. Nossas tendências podem ser educadas. Procurou-se castigar o burrinho que somos. Ele pode ser selvagem, mas pode ser educado e fica bom. Vemos Moisés rezando com os braços levantados. Se os abaixava, os judeus começavam a perder a batalha. Por isso puseram duas pedras sob seus braços para que não abaixassem e os hebreus vencessem. A insistência da velhinha supôs muitas idas e vindas para conseguir. Rezamos com a totalidade de nosso corpo. Por isso podemos e devemos tomar posições que expressem o que rezamos. Estar diante de Deus em silêncio, já é oração. Rezamos em nossa realidade.

Rezar com a Escritura

            Quando refletimos sobre a oração ficamos sempre em dificuldades e pensamos que não sabemos rezar. Os discípulos apresentaram esse problema a Jesus: “Mestre, ensina-nos a rezar como João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1). Naquele momento Jesus estava orando. E responde: Quando orardes, dizei: “Pai Nosso…”. Esta é a oração fundamental que tem tudo o que precisamos. A seguir temos os salmos que perpassam por todas as necessidades humanas. Há tanta gente que conhece salmos de cor. Uma leitura meditada da Escritura nos coloca em diálogo com Deus e sustenta nossa vida espiritual. Temos que ver na Palavra de Deus, aquilo que ocorre conosco. Por isso, pedi e recebereis (Mt 7,7).

Leituras: Êxodo 17,8-13; Salmo 120; 2 Timóteo 3,14-4,2 ; Lucas 18,1-8

Ficha nº 1588 – Homilia do 29º Domingo Comum (16.10.16) 

  1. Na parábola Jesus ensina que a oração deve ser insistente e perseverante. Temos o exemplo de Moisés. Deus nos atenderá, pois sabe o que precisamos e atende.
  1. Rezamos com nosso corpo que, mesmo frágil, pode ser educado.
  1. Rezamos com a Escritura como Jesus ensinou. Rezamos com os salmos que tratam de toda nossa realidade. Rezamos meditando a Palavra. 

             Correndo das velhas. 

            Há um mau costume de achar que as pessoas idosas, que chamamos de “velhas”, são inúteis. Alguns chegam a dizer que na Igreja só há velhas. Ser velho é um grande privilégio, pois muitos não chegaram a essa idade. Então há nelas um maior vigor de vida, também de vida espiritual. Muitas são benzedeiras, isto é, são capazes de orar para o bem dos outros com grandes resultados. Deus as ouve, pois se conhecem há tempo.

            Jesus, no evangelho desse domingo, ensina seus discípulos a rezaram com insistência. Se até os maus, como no caso do juiz injusto, cedem diante da insistência e fazem justiça, “será que Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por Ele? Será que vai fazer esperar? Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa” (Lc 18,6-8).

            Uma das noções de oração nos é dada pelo próprio Jesus que insiste que não usemos um palavreado excessivo (Mt 6,7).  Um santo dos tempos modernos, Charles de Foucauld, diz: “Rezar não é dizer muitas coisas, mas a mesma coisa muitas vezes”. Rezar não é convencer Deus a respeito de nossas coisas, mas convencer-nos sobre Deus. Parece que Deus demora a atender a gente. É que Ele quer ficar conosco mais tempo. Parece que gosta de nós. Por isso temos o exemplo de Moisés que durante a batalha dos israelitas ficou o tempo todo de braços abertos em oração para que vencessem. É o que dizemos: o homem mais alto é aquele que está de joelhos. Quando minha avó Rita estava já no fim eu lhe mostrei um tercinho de anel e ela me disse: “As rezas nunca chegam”, quer dizer: nunca são suficientes.

            A oração deve ser baseada na Sagrada Escritura. Paulo diz a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada e útil para ensinar e para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra” (2Tm 3,16-17).

            Aprendamos com nossas velhinhas a conversar com Deus.

 

nº  1587 – Artigo “O Rei se encante com tua beleza”

  1. Viva Nossa Senhora Aparecida!

            Que beleza ver o povo feliz na casa da Mãe! Por que um símbolo tão pequeno atrai tanta gente? Dizia um intelectual francês ateu que foi a Aparecida no tempo do império e viu a grande fila do beijamento: “Será que todos eles estão errados e só eu que estou certo?” Essa observação já é um sinal de sabedoria. Vendo as multidões felizes que por aqui passam dizemos com alegria: “Essas têm a certeza que aqui é um lugar da ação maravilhosa de Deus por Maria”. Maria quer a alegria do povo. Nossa Senhora gosta de festa, pois, onde ela é padroeira, a festa é de primeira. O povo gosta. Ela traz alegria. A imagem querida de Nossa Senhora Aparecida é sorridente. Foi esse sorriso que os pescadores viram quando a pescaram nas águas do Rio Paraíba. Eles puderam sorrir e também diante da pesca milagrosa. Temos muitas aparições de Nossa Senhora pelo mundo afora. Às vezes ouvimos de revelações que falam de perigos, destruição, um futuro de sofrimento. A descoberta da imagem de Nossa Senhora não veio acompanhada de mensagens nem de ameaças. Ela somente sorriu. Não precisava mais nada. Esse mesmo sorriso atrai e comunica a grande verdade do amor misericordioso. Essa imagem retrata muito a Maria de Nazaré que esteve presente na vida de Jesus e agora está em nossa vida. Maria nunca vem de mãos vazias. Socorre mesmo quando quer salvar uma festa. Em Caná viu a dificuldade dos noivos e já deu um jeito de colocar Jesus em ação. Aí a festa ficou boa mesmo.

  1. Mensagem de uma festa

            Que mensagem a festa da Padroeira nos traz? A oração da missa convida a viver na paz e na justiça: “Concedei ao povo brasileiro, fiel a sua vocação e vivendo na paz e na justiça, possa chegar um dia à pátria definitiva”. Ela nos estimula a ser um povo diferente. É um chamado aos nossos chefes para serem justos. Maria canta com o povo: “O Senhor fez em mim maravilhas, santo é seu nome”. O Apocalipse narra as perseguições que são feitas a Jesus e a sua Mãe. Mas Deus vem sempre em seu socorro (Ap 12,15-16). O povo de Deus, perseguido por tantos males suplica a vitória sobre o grande inimigo que é o mal que invade o povo e toma conta dos poderosos. Vamos vencer na fé. Os milhões de peregrinos e devotos devem “irmanar-se nas tarefas de cada dia para a construção do Reino de Deus” (oração pós comunhão). Proclamar Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil não é fazer somente um ato religioso, mas é fazer um projeto de unidade nacional em torno do amor de mãe para uma mãe pátria mais feliz e fecunda. Maria se torna um modelo para o projeto nacional de fraternidade em torno de Jesus.

1794.Um sorriso a todos

            Ela permanece sempre como a rainha que encanta o Rei. Por isso, “entre cantos e festa e com grande alegria entram no palácio real” (Sl 44). Esse palácio são os grandes templos, mas também as pequenas pobres capelas e os corações dos filhos queridos. A maravilhosa multidão que canta as glórias de Maria, faz longas caminhadas para vir ao santuário, a casa da Mãe, como dizem. Por que sentem essa necessidade? Nos momentos de perigo, temos a sensação que devemos voltar para o útero da mãe. Espiritualmente estamos reunidos todos buscando encontrar nesse útero santíssimo que gerou Jesus, um lugar seguro para encontrar Deus e buscar força para a caminhada.

nº 1586 – Homilia do 28º Domingo Comum (09.10.16)

“Tua fé te salvou” 

Agradecer é sinal da fé

            Em seu caminho para Jerusalém Jesus instrui seus discípulos. Na cura dos dez leprosos ensina sobre milagre e sua presença na obra da Redenção. O milagre é o anúncio da inauguração do Reino de Deus: “Se é pelo dedo de Deus que expulso demônios, então, com toda certeza é chegado a vós o Reino de Deus (Lc 11,20). Mas é também um momento da fé em Jesus como Salvador, não somente como curador. Como vimos no evangelho do 27º domingo comum, a fé tem uma força transformante e nos põe a serviço do Reino na gratuidade do dom que nos foi feito. O texto que narra a cura dos 10 leprosos ensina que a fé não é somente crer e receber um “milagre”, mas colocar-se em relacionamento com Deus em Cristo. Jesus, ao fazer o milagre, espera que haja uma mudança no coração. Dez foram curados. Somente um veio louvando a Deus e agradecendo. Jesus reclama com certa dor: “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” (Lc 17,17-18). Os outros foram apresentar-se aos sacerdotes responsáveis para o atestado de cura da lepra. Assim eram reintegrados na comunidade para todos os efeitos. Estavam puros. Por que essa atitude de Jesus? A cura que Ele realiza é para provocar a fé Nele como Salvador. A fé se desenvolveu no samaritano e o levou a  Jesus e, por Ele, à glorificação do Pai. Jesus lhe diz: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou” (19). Foi o mesmo gesto do general sírio leproso depois de sua cura: “Teu servo já não  oferecerá holocausto ou sacrifício a outros deuses, mas somente ao Senhor” (2 Rs 5,17). O milagre conduz ao louvor que é o reconhecimento de Deus.

A salvação dos povos pela fé

            A fé que Jesus exige é exemplificada na cura de Naamã, general sírio. O profeta manda                                                                                          que se lave sete vezes no rio Jordão. O número sete quer dizer uma ação completa. Naamã muda sua mentalidade. Quer viver uma fé pura, por isso leva terra de Israel para celebrar sobre ela. Devemos fazer um culto puro. Louvar é sair de si e aceitar Deus como origem de todos os bens. O agradecimento é fundamental para a fé. Agradecer é tomar as atitudes de Jesus para com seu Pai. Essa é a salvação que queremos anunciar aos povos. E que seja pura, isenta de nossos egoísmos que se tornam vícios do poder, do prazer e do ter, expressões da idolatria. Os outros nove cumpriram a lei do reconhecimento da cura e se foram. Não se voltaram para Deus. Preocuparam-se somente com os ritos a serem cumpridos. É chocante ver como Deus faz tantos milagres e a fé das pessoas não cresce. Foram curados, mas não salvos. Jesus afirma: “Tua fé te salvou”. Por isso é necessário o banho purificador da fé.

A Palavra não está algemada

O ministério de Paulo está voltado para o anúncio de Cristo Ressuscitado. Essa pregação foi causa de suas prisões, como fosse um malfeitor (2Tm 2,8-9). A fé em Cristo Ressuscitado é a purificação total daquele que crê. Ela nos coloca em atitude de culto a Deus pelo agradecimento do grande benefício da Redenção. Deus é sempre fiel. A fidelidade Divina exige a correspondência da fé. Deus é fiel. Nós também podemos ser. Esse é o milagre que agradecemos. “Com Ele morremos, com Ele viveremos. Se com Ele ficamos firmes, com Ele reinaremos. Se nós O negamos, também Ele nos negará. Se lhe somos infiéis, Ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2,11-13). Paulo, mesmo prisioneiro, anuncia a fé, pois a palavra não está algemada.

Leituras: 2 Reis 5,14-17; Salmo 97; 2Timóteo 2,8-13; Lucas 17,11-19

Ficha nº 1586 – Homilia do 28º Domingo Comum (09.10.16)

  1. Jesus ensina com a cura dos dez leprosos que o milagre que salva é o que corresponde à fé que agradece e louva. Exige uma mudança de mentalidade.
  1. A fé tem que ser pura, sem os vícios que a abafam. A cura exige o agradecimento para ser salvadora.
  1. A fidelidade Divina exige a correspondência da fé.

            Que delícia de banho!

Em seu caminho Jesus ensina e faz milagres que explicitam seu ensinamento. Podemos entender no evangelho da cura dos dez leprosos que o agradecimento faz parte da fé no Deus generoso que cura sempre. Mas cobra nosso reconhecimento. A fé tem sua dimensão humana e o humano tem uma dimensão de fé. Jesus não se queixava das perseguições, das adversidades, mas se queixou da falta de educação, também espiritual, dos leprosos que não voltaram para agradecer.

Jesus se queixa porque o milagre ficou incompleto: faltou acolher o dom com a alegria da ação de graças reconhecendo Deus como autor de todo bem. Jesus diz ao samaritano que era um estrangeiro e indesejado: “Não foram dez os curados? Os outros nove, onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” E disse-lhe: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou” (Lc 17,17-19). O milagre não é tanto a cura física, mas a cura espiritual que é colocar a pessoa em atitude de agradecimento a Deus, autor da renovação do homem. Os outros ficaram curados, mas não mudaram o coração.

Vemos que as pessoas pedem graças e milagres, mas estes não os levam a um relacionamento diferente com Deus. Acham que “pagando a promessa” já pagaram o milagre. Foi o que fizeram os outros nove. Foram a Jerusalém para cumprir a lei e receber o documento de purificado.

Naamã é purificado obedecendo (depois de relutar) a ordem do profeta Eliseu: “Vai e lava-te sete vezes no rio Jordão”. O banho lhe trouxe a cura. Águas deliciosas! Mais que um banho, foi uma conversão a Deus: “Agora estou convencido que não há outro Deus… senão o que há em Israel (2Rs 5,15).

O fato de ser um samaritano, um herege e os outros nove, judeus, mostra que a verdadeira religião está no coração agradecido a Deus por seus imensos dons. Essa água nos deliciará.

 

nº1585 Artigo – “Aprendendo a falar o amor”

  1. O direito de ser ouvido

            Na experiência sacerdotal do atendimento das confissões, o que fica mesmo não são as palavras que o padre diz, mas o que a pessoa diz a si mesma. Ouvimos, depois que a pessoa falou o tempo todo, palavras de agradecimento pela orientação. A pessoa, enquanto fala, já elabora as respostas. É claro que há orientações. Mas o importante é ouvir. Assim também no casamento, o diálogo se torna o ponto de entrosamento físico e espiritual. O diálogo é a porta para todo o entrosamento matrimonial. Nosso querido Papa Francisco continua nos orientando com sua Exortação Apostólica Alegria do Amor (Amoris Laetitia). Ele afirma que “o diálogo é uma modalidade privilegiada e indispensável para viver, exprimir e maturar o amor na vida matrimonial e familiar. É uma aprendizagem” (AL 136). Apresenta diversas atitudes necessárias. Em primeiro lugar acentua a qualidade do ouvir. Não se trata de ouvir palavras, mas ouvir com todo ser. Temos até a expressão: “Sou todo ouvidos”. Aprofundando o sentido da expressão, o diálogo é um aprendizado. Ele exige tempo, atenção, silêncio interior dando valor a tudo o que é dito. Quando dizemos isso não tem importância, podemos nos enganar, pois é importante para a outra pessoa. É importante porque se trata de uma pessoa que não pode ser subestimada nem subestimar o que diz. É preciso colocar-se no lugar do outro para entendê-lo (AL 136-137). No diálogo matrimonial colocar as próprias ideias é um modo de enriquecer a vida. É a “riqueza na diversidade”. O diálogo requer gestos de carinho que se expressam na conversa amiga. Diante do diálogo do amor os problemas podem continuar, mas muda o modo de conduzir.

  1. O amor apaixonado

            O diálogo toma toda pessoa no amor conjugal. O Vaticano II ensina que “compreende o bem de toda a pessoa e, por conseguinte, pode conferir especial dignidade às manifestações do corpo e do espírito, enobrecendo-as como elementos e sinais peculiares do amor conjugal” (GS 49). O amor só é amor se existir na totalidade, pois ele se expressa na pessoa toda. Esse amor é tão sublime que se tornou a maneira de compreender o amor a Deus. Suas expressões são bastante próprias para exprimir os estados da alma no seu relacionamento com Deus. Amor apaixonado assume todas as maneiras de existir da paixão. Todas as paixões são boas, desde que domesticadas, isto é, estarem a serviço do amor. A paixão só pode ser controlada pelo amor apaixonado.

  1. O amor é emotivo

            O ser humano é um todo e as emoções são parte importante. A parte afetiva e psicológica é fundamental. Por isso, na preparação para o casamento é necessário ver bem esse aspecto. Se faltar, pode prejudicar o relacionamento. Jesus não escondia sua emotividade. Também a fé tem que estar unida ao ser total do homem e da mulher em suas condições pessoais e diferentes. Justamente a diferença é que enriquece. O afeto será sadio quando é para o bem do outro e não numa procura de si mesmo no egoísmo. Diz Papa Francisco: “O amor matrimonial leva a procurar que toda a vida emotiva se torne um bem para a família e esteja a serviço da vida em comum. A maturidade chega a uma família, quando a vida emotiva dos seus membros se transforma em uma sensibilidade que não domina nem obscurece as grandes opções e valores, mas segue a sua liberdade, brota dela, enriquece-a, embeleza-a e torna-a mais harmoniosa para o bem de todos” (AL 146). Vemos o Papa indo fundo na questão do amor, porque, para falar de matrimônio tem que se ir à base. Do contrário é pura fantasia.

nº 1584 – Homilia do 27º Domingo Comum (02.10.16)

A fé é transformadora e serviçal! 

Como uma sementinha

                 A vida cristã se desenvolve na fé. Por isso, profeta Habacuc afirma que “o justo viverá por sua fé” (Hab 2,4). A fé acompanhou os patriarcas, alimentou os profetas e sustentou os que creram em Jesus. Esta fé depende também de nosso desejo de crescer. Por isso Paulo insiste que devemos soprar as brasas e reavivar o fogo do dom que nos foi dado.

Os discípulos, na convivência com Jesus, pediam que lhes ensinasse as realidades do Reino. Ora querem aprender a rezar. Jesus ensina o Pai Nosso. Ora pedem para aumentar sua fé. Jesus diz que sua fé, mesmo sendo muito pequena, teria a força para arrancar uma planta e plantá-la no mar. Duas maravilhas: a força de transplantar e fazê-la crescer onde não é lugar apropriado: no mar. Fé tem uma força sem limites porque está unida ao próprio Deus que a doa gratuitamente. Como é dom gratuito, quando servimos Deus não fazemos nada de especial. Estamos agradecendo e fazendo o que devíamos fazer. Deus não tem obrigações para conosco. Por isso fazemos coisas maravilhosas pela força da fé. Abraão partiu para uma terra que ele não sabia onde era… Moisés conduziu o povo no deserto, como se visse o invisível (Hb 11,27) – como lemos na carta aos Hebreus. Jesus dá o testemunho dessa fé quando se encarna não usando as prerrogativas de sua divindade. Assim ensina que como viver. Por isso o justo vive da fé. Viver a fé exigirá despojamento para viver no serviço.

A fé é serviçal

            A fé é responder e aderir com amor a Deus que chama a si para os irmãos. É dom gratuito dado a todos. Torna-se necessário corresponder a Ele com totalidade. Os santos não ficaram santos por dons especiais, mas porque acolheram com totalidade a fé e se puseram a serviço dos irmãos. Jesus faz uma comparação difícil no primeiro momento: fazer tudo e dizer: “somos servos inúteis; fizemos o que devia ser feito” (Lc 17,10). Significa que nada que fizermos será grande para pagar a fé que recebemos e o que fizemos por ela. Só podemos agradecer. Servir já é agradecer. Como Cristo se faz servo. todo aquele que está no serviço do Reino é sempre servo como Cristo que sente sua realização no cumprimento da vontade do Pai. Como é gratuita a graça, a correspondência também é gratuita. A fé não é crer num punhado de grandes verdades, mas acolher um dom ao qual respondemos com o serviço a Deus feito pelos irmãos. Deus não deve nada a ninguém. Nossa fé reascende na medida em que damos o testemunho e guardamos o precioso depósito da fé com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós (2Tm 1,14). Quanto menos cobramos de Deus, mais seremos enriquecidos.

A vida é um dom

                 A vida é plena em todos os momentos. A fé nos leva a aceitar a presença de Deus em cada ser humano desde o primeiro instante de sua concepção. Respeitar a vida do nascituro é crer na esperança colocada em cada pessoa. Respeitar a vida é também dar condições para que se viva a fé. Se a vida é um dom, maior é o dom da fé que nos eleva a viver com plenitude a vida. Paulo insiste com Timóteo que tenha não “um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e sobriedade” (2Tm 2,7). Para isso é necessário estar sempre pronto a ouvir o que o Senhor tem a nos dizer: “Não fecheis o vosso coração” (Sl 94). Mesmo nas maiores dificuldades e sofrimentos, como nos narra Habacuc (1,2-3), é preciso viver da fé.

Leituras: Habacuc 1,2-3; 2, 2-4; Salmo 94; 2Timoteo 1,6-8.13-14; Lucas 17,5

Ficha nº 1584 – Homilia do 27º Domingo Comum (02.10.2016)

  1. A fé é grande e sustenta, mesmo que seja pequenina como uma semente.
  1. Por-se a serviço, como o Servidor Cristo, é o caminho da fé. Como dom gratuito, gratuita é nossa correspondência.
  1. A fé está ligada à vida. Ela é um bem supremo a ser sustentado pela fé. É preciso fortaleza, amor e sobriedade. 

Dieta garantida

            Quer vender um produto? Diga que é bom para emagrecer. Mas há produtos que não só nos equilibram como nos dão mais condições de vida. Também o espiritual tem que ser cuidado. Senão corremos o risco de viver pela metade. Para isso temos a receita de hoje, a fé: “O justo viverá por sua fé” (Hab 2,4). A fé nos sustenta nas maiores dificuldades.

Para receber o dom da fé é preciso ter o coração aberto, como rezamos no responsório do salmo 94: “Não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor”. Recebe a fé aquele que abre o coração e não se fecha por cabeçudice, como fez o povo no deserto.

            A fé é como uma sementinha muito miúda que tem uma força muito grande. Jesus diz que sua força pode remover uma montanha. Pode modificar também nosso coração para que se entregue para Deus.

            A seguir, no texto do evangelho desse domingo, temos uma situação difícil. A fé que nos sustenta nos põe a serviço do Reino na total gratuidade, não por recompensas. Depois de trabalhar pelo Reino, servindo ao Senhor, não estaremos fazendo favor a Deus. E temos que dizer que recebemos o direito de servir o Senhor em seu Reino. O que fizemos foi um dom da fé.

            Por isso Paulo convida a “soprar as brasas do dom de Deus que recebemos”. Antigamente o fogo era conservado nas brasas sob as cinzas. Depois bastava afastar a cinzas e soprar as brasas. Temos tantos dons dados por Deus. É preciso sempre reavivá-los pela fé.

Nossa dieta espiritual é viver a fé.

 

 

nº 1583 – Artigo  “Alegria do amor”

  1. Amplitude do coração

               Cada vez mais entramos no santuário do amor para compreender as riquezas insondáveis que Deus colocou no coração humano. Em cada nicho desse santuário novas belezas enriquecem a vida.  Como o Papa Francisco nos ensina em sua Exortação Apostólica – Amoris Laetitia (AL)  (Alegria do Amor) – aprendemos a ver as alegrias e riquezas do amor. Recomenda que “no matrimônio convém cuidar da alegria do amor. A alegria se distingue da busca desenfreada do prazer que não permite encontrar outros tipos de satisfações. “A alegria expande a capacidade de desfrutar e permite-nos encontrar prazer em realidades variadas, mesmo nas fases da vida em que o prazer se apaga… A alegria dilata a amplitude do coração. “A alegria matrimonial pode ser vivenciada mesmo em meio aos sofrimentos” (AL 126).  “Esse amor de amizade chama-se caridade quando aprecia o valor sublime do outro” (AL 127). Esse valor vai além da beleza exterior e faz ver o desejo egoísta. É preciso sair de si para olhar com amor. Papa Francisco faz uma descrição da necessidade de olhar o outro. A ausência do olhar destrói o relacionamento e anula as pessoas. O olhar contemplativo na alegria se delicia com o bem do outro. A alegria renova-se no sofrimento. Depois do sofrimento se pode perceber o quanto valeu o amor na sua intensidade de acolhimento e de participação no sofrimento do outro. Papai dizia: “sua mãe foi uma grande companheira”. Ela dizia: “De vez em quando é preciso de por um pouco de água benta” isto é, deixar passar o momento difícil.

  1. Casar por amor

            Faço uma observação pessoal: “muito casamento não dá certo porque a pessoa casa-se consigo mesma”. A união conjugal no sacramento do matrimônio é uma instituição que não prejudica o amor, diz o Papa. Certamente sabemos que o amor é muito mais que um consentimento externo, ou contrato, mas um modo de dar ao matrimônio uma configuração visível na sociedade e expressa a pertença de um ao outro. É um passo, uma definição de vida. É um sinal externo do compromisso interior. “Semelhante opção pelo matrimônio expressa a decisão real e afetiva de transformar dois caminhos em um só” (AL 132). O sim do matrimônio é a entrega sem reservas nem restrições. Há uma promessa que é expressão do desejo de se entregar totalmente pelo outro, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Ao dizer “eu te prometo ser fiel”, compreende a fidelidade não só de não buscar outra pessoa, mas de ser fiel no exercício de todos os dons do sacramento. Amar e respeitar são dons dessa entrega. As palavras não são pedido de compromisso do cônjuge, mas um compromisso pessoal. O compromisso é vida e não recitação de um texto.

  1. Três palavrinhas só

            Papa Francisco, didaticamente, diz que bastam três palavrinhas para manter o amor sempre vivo: “com licença, obrigado, desculpa”. É o respeito pela individualidade do outro, o reconhecimento de sua pessoa, vida e a força de buscar sempre um caminho melhor quando se danificou o rotineiro. Assim poderá haver o crescimento no amor. Quando se diz de um casamento falido: “quebrou o cristal”, se está reconhecendo que não se casou por amor ao outro, mas pôs o outro a seu serviço. O amor é como uma planta que quando mais cresce, mais frutos dá. Todo amor é um apelo a um amor maior. Esse é o amor Divino. O amor nunca será perfeito. Será um caminho de constante crescimento. Como somos limitados, limitado é o amor. O limite não é uma cerca, mas um estímulo ao um crescimento maior. O limite é o infinito.

nº 1582 – Homilia do 26º Domingo Comum (25.09.16)  

Deus nos fez iguais 

 Esquecer do pobre é abandonar Deus!

  1. Lucas faz uma reflexão sobre a vida da comunidade, acentuando hoje a problemática das desigualdades. Esse tema, tão antigo e tão atual, alerta para a desigualdade na comunidade. Uns não têm e outros consomem o que têm com inutilidades e vaidades, colocando sua esperança exclusivamente nos bens materiais sem se incomodar com os que sofrem. Por que somos diferentes? Jesus explica a diferença narrando a parábola do rico e do pobre Lázaro. Ela é um ensinamento e não um fato histórico. A descrição do rico retrata os grandes senhores de classe muito alta. Diante de sua porta está o pobre Lázaro chagado, doente, ferido pela miséria. Deseja comer os restos de comida, mas nem isso lhe davam. O profeta Amós, que conhecia o sofrimento do povo humilde, recrimina fortemente a vida desses nababos, não pelo que possuíam, mas por não se preocuparem com a ruína do povo. É um retrato da atualidade. Basta mudar a data do jornal que a notícia é atual. A mídia desperta no povo necessidades que o levam mais fundo ainda em seu sofrimento por não ter o que lhe é sugerido pela propaganda. É a frustração existencial. Será pobre, não só por ser pobre, mas por não ter o mesmo nível. Estimula as necessidades para se enriquecer à custa da ganância. A alta sociedade vende seu modelo. Este gera maior carência e aniquilamento humano. E continuam não se preocupando com a ruína do povo, como diz Amós (Am 6,6). Deus nos fez iguais. O mundo nos faz diferentes. Igualdade não é nivelar, mas buscar que todos tenham vida digna satisfazendo as necessidades básicas da pessoa humana.

Bem-aventurados os pobres de espírito

A continuação da parábola mostra a mudança de situação. Lázaro morre e é levado ao Céu (seio de Abraão). Morre o rico e é enterrado. Do meio dos tormentos vê Lázaro no Céu com Abraão. Então começa o diálogo. Pede que Abraão mande Lázaro. Agora ele o conhece. Antes não. Agora não é possível o intercâmbio. Abraão lembra que ele já teve vida boa, e Lázaro não. Agora os papéis mudaram. Ele sofre e Lázaro é feliz. O rico, como não pode merecer para si, pede que Abraão mande alertar os irmãos. O pai Abraão diz que só há um meio de converter-se: Ouvir a Palavra de Deus. Susto não converte. É preciso mudar o coração, ter uma vida coerente com a Palavra e ter um espírito de pobre, mesmo tendo muitos bens. Esse espírito é saber partilhar, pois os pobres têm mais dom de partilha em sua miséria que os grandes em sua ganância. É o que Paulo aconselha a Timóteo: “Tu que és um homem de Deus, procura a justiça… combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna” (1Tm 6,11-12).

Transformação do mundo pela Eucaristia

           A vida da comunidade na Eucaristia pode criar um modo de vida onde todos tenham e se orientem pela partilha como nos ensina a celebração eucarística. O pão partido e partilhado se multiplica. O amor multiplica e não divide.  Todos comemos do mesmo pão que nos põe em comunhão. Não haverá lázaros à porta querendo resto de comida nem ricos, que percam a vida por se fecharem em si mesmos. Há muitos modelos de reforma social. Jesus já apresentou o seu que não foi assumido. Participamos da Eucaristia com piedade e adoramos a presença preciosa do Senhor. Falta só fazer o que o Senhor quis nos ensinar com o sacramento da Eucaristia: partir e repartir. É certo que o culto deve ter dignidade, mas a dignidade do homem não pode ser esquecida.

Leituras: Amós 6,1a.4-7; Salmo 145; 1Timoteo 6,11-16; Lucas 16,19-31

Ficha nº 1582 – Homilia do 26º Domingo Comum (25.09.2016)      

  1. As leituras apresentam o drama da desigualdade. Ricos que não tomam conhecimento do sofrimento do povo. Essa situação continua.
  1. Para conquistar a vida eterna é preciso conversão ouvindo a Palavra de Deus.
  1. A Eucaristia é um modo de transformar a realidade: partir e repartir. 

                É chato ser rico 

            Conhecemos a parábola do rico e do pobre Lázaro. Um vivia na abundância das festas e o pobre vivia na miséria da fome. Depois da morte os papéis se inverteram. O pobre está feliz no Céu e o rico sofrendo nas agruras do inferno.

            O rico que foi para o inferno pede socorro de Abraão, que significa ali a felicidade conquistada no Céu. Abraão lhe diz que não tem solução, pois não há como ter contato. Então ele pede que vá avisar a família. Abraão responde que a conversão não acontecerá, nem que apareça um morto. A conversão deve ser do coração, a partir de uma escolha definitiva a partir da Palavra de Deus.

            A primeira leitura mostra que os ricos que viviam despreocupados e na abundância não tinham futuro, pois serão levados para o exílio de sofrimentos. O problema não é porque que vivam bem, mas porque não se preocupam com a sorte do povo. O problema não é ser rico, mas não conhecer, pela conversão, a necessidade de cuidar dos pobres e carentes. Deus protege.

            Timóteo era um homem de Deus, vivia da fé e dava um belo testemunho. É o modelo da vida de quem quer realmente servir Jesus: combater o combate da fé e conquistar a vida eterna.

 

 

 

nº 1581 – Artigo “Amor que cresce”

  1. Um amor que é total

             Deus nos permite conhecer sempre mais seu mistério através de meios tão simples e tão humanos, tão ao alcance de nossa mão. É o que estamos refletindo na Exortação Apostólica do Papa Francisco, Amoris Laetitia – Alegria do amor. Esse documento é um passo muito grande no conhecimento da moral matrimonial vista em sua totalidade. Por enquanto estamos aprendendo os fundamentos. A partir do número 120, passamos a conhecer mais ainda como crescer na caridade conjugal. A graça do sacramento do matrimônio ilumina o amor que une os cônjuges. Temos que ultrapassar a barreira do simplesmente humano e entrar no Divino que penetra a realidade humana. Esse amor é total: “É uma união afetiva, espiritual e oblativa, mas que reúne em si a ternura da amizade, a paixão erótica, embora seja capaz de subsistir mesmo quando os sentimentos e a paixão enfraquecem” (AL 120). Papa Francisco cita S. João Paulo II explicitando a grandeza do amor matrimonial: “O Espírito que o Senhor infunde, dá um coração novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem como Cristo amou” (FC 13). Esta é a dimensão fundamental do matrimônio. Esse amor está unido ao amor com que Cristo salvou a humanidade e nos uniu a Deus. É um amor de comunhão. Como a união das três Pessoas Divinas forma a Unidade, assim o casal forma a unidade. Sabemos que todos esses ensinamentos revelam a realidade, mas a verdade de cada casal parece estar distante. Se houver esforço por compreender e buscar, cresceremos sempre mais. Deus vai nos modelando  lentamente. O triste é não tomar conhecimento dessas verdades.

  1. Tudo em comum

            Quando há um casamento, tanto noivos, como familiares e amigos não fazem uma projeção de algo provisório, uma experiência ou até uma brincadeira de se casarem. O amor é intenso e atinge toda a pessoa, não tem ares de provisório. Como é amor, é sempre eterno. A primeira característica do amor é a “amizade maior”. Este termo é usado por Aristóteles e Santo Tomás de Aquino. Essa amizade é “busca do bem do outro, reciprocidade, intimidade, ternura, estabilidade e suma semelhança entre os amigos que se vai construindo com a vida partilhada. No matrimônio acrescenta a tudo isso uma exclusividade indissolúvel que se expressa no projeto estável de partilhar e construir juntos toda a existência” (AL 123). O matrimônio tem um segredo que o faz durar, como meus pais, 75 anos: “ser casado”. Exige um desafio, começar sempre de novo e não viver no provisório.  Ao se colocarem o desejo de ser um para o outro totalmente, nada faltará no casamento. As demais coisas, a vida faz.

  1. Amor de paixão

               Citando o Concílio, na Constituição Gaudium et Spes, nº 50, Papa Francisco anota algo que supera a mentalidade de ver o fundamento do matrimônio somente na procriação: “O matrimonio não foi instituído só em ordem à procriação, mas para que o amor mútuo se exprima convenientemente, aumente e chegue à maturidade”. O amor matrimonial tem o aspecto totalizante, isto é, corpo e alma. Tudo o que é divino dado ao casal concorre para que o amor seja total. Igualmente, tudo o que é humano, afetivo, carnal e psicológico participa totalmente dessa maravilha. Não há casamento somente espiritual nem só carnal. Se faltar um elemento, destrói-se o sacramento. O espiritual enriquece o humano, como o humano faz a manifestação do espiritual, como na pessoa de Jesus. Ele, em Si, explicita o sacramento do matrimônio como união da Natureza Divina e Humana em Cristo.

nº 1580 – Homilia do 25º Domingo Comum (18.09.16)

01“Ser cristão é ser honesto”

A injustiça institucionalizada.

A liturgia da Palavra orienta a vida da comunidade. Ela deve ser conduzida na misericórdia, na fidelidade e também na justiça. Saber usar bem os bens materiais é um requisito para o uso dos bens espirituais. Religião não é para ser praticada só dentro das igrejas, mas deve penetrar todos os segmentos da vida. Ser cristão e ser honesto é o normal da vida. O profeta Amós, no século VIII antes de Cristo, critica duramente a ganância dos ricos e faz a defesa dos pobres. É o mesmo que encontramos cada dia, lemos nas páginas dos jornais e vemos nos noticiários. Há um bilhão e meio de pobres no mundo. E isso não nos toca? O mal continua presente. O pecado da ganância e da exploração permanece como um mal que provoca tantas chagas na vida e nos corpos de tantos homens e mulheres de todo o mundo. Não ver isso, já é a cegueira que o pecado provoca em nós. Esse pecado já está institucionalizado como política e economia. É o que vemos em nosso país. O bem do povo não é critério de política para os donos do poder. Explorar já é normal e sinal de esperteza. Quando morrem não levam nada. Nunca vi caminhão de mudança atrás de um caixão, diz Papa Francisco. A ganância pelo dinheiro cega a ponto de não vermos a situação dos outros nem o ridículo em que se fica.  Deus é desnecessário e não se compromete com Ele no Evangelho de Jesus.

Jesus e a riqueza

Jesus contou uma parábola sobre o administrador que usou um estratagema para arranjar outro bom emprego, ao ser despedido de seu trabalho. Ele não agiu com maldade, mas com esperteza. Tirou do que era seu para encontrar quem o acolhesse. Jesus não nega a riqueza e o bem estar. Nega o uso dos bens para o puro egoísmo e prazer. Recrimina não usá-los com justiça. A parábola é um estimulo a sabermos usar os bens com sabedoria. Jesus ensina que é preciso enriquecer-se espiritualmente usando bem seus bens materiais para reverter o quadro da miséria. É preciso ser fiel no dinheiro “injusto”. Injusto está a significar que não é um bem espiritual. Se não soubermos lidar com ele, como saberemos usar os bens espirituais? Ser fiel nas coisas pequenas é a garantia de ser fiel também nos grandes negócios. A parábola do administrador alerta para a usarmos bem os bens materiais com justiça e retidão, pois assim conquistamos os bens espirituais.

Opção pelos pobres.

Não adianta falar contra os males da injustiça social se não fizermos uma opção clara e convincente pelos necessitados. Essa é a missão que Deus nos confere, como ao profeta Amós. Deus nos coloca em seu lugar para defendê-los. O profeta também não agradou os ricos poderosos de seu tempo. O pior ainda é ver que muitos dos poderosos que vivem na corrupção e exploração estudaram em colégios católicos ou se dizem salvos por Jesus. Onde está a evangelização? Somos convocados também a viver o espírito pobreza e tomar as atitudes de Jesus que sendo rico se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza, (2Cor 8,9). Dinheiro não entra no céu. Quem que com seus bens soube enriquecer-se de obras de serviço ao próximo está no Reino de Deus. O fundamento é sempre a vontade salvífica de Deus. Não adianta só denunciar os males, é preciso também rezar pelas autoridades para que tenhamos uma vida tranquila e serena (1Tm 2,2). A oração tem grande poder. Se rezássemos mais pelas autoridades e para a superação dos males que nos cercam, certamente haveria mudanças no mundo. A Eucaristia ensina a partilhar.

Leituras: Amós 8,4-7; Salmo 112; 1Timóteo 2,1-8 / Lc 16,1-13

Ficha nº1580 – Homilia do 25º Domingo Comum (18.09.16)

  1. Saber usar bem nos bens materiais é um requisito para o uso dos bens espirituais. A exploração é um mal constante na sociedade. É uma cegueira.
  1. Jesus não nega o bem dos bens materiais, mas seu mau uso. Exige-se do cristão que saiba administrar bem o “dinheiro injusto”, pois como se lhe vai confiar o tesouro espiritual?
  1. A opção pelos necessitados deve ser autêntica. Quem sabe enriquecer-se nas obras a serviço do próximo, está no Reino de Deus. 

            Bom negociante         

            Jesus narra uma parábola de um administrador que estava prejudicando o patrão, esbanjando seus bens. Como ficaria desempregado, já deu um jeitinho de arranjar um lugar de se encostar. Então começou a chamar os credores do patrão e diminuir o preço do que ele vendera. Nesse caso ele não tocou nos direitos do patrão, mas no que ele receberia com aquelas vendas. Foi esperto. Soube administrar. Seu patrão elogiou sua esperteza.

            O que Jesus quer dizer com essa parábola? Está estimulado os discípulos a saberem usar bem os bens materiais, o dinheiro. O administrador foi esperto para garantir seu futuro. Os discípulos são estimulados a saberem usar com esperteza os bens materiais para conquistarem o que é espiritual. Não se compra Deus, mas se usa para as obras da caridade para se enriquecer dos bens espirituais.

            Somos chamados igualmente a sermos justos nos bens materiais. Como Deus vai nos confiar riquezas espirituais, se nem o dinheiro injusto sabemos usar! É necessário ser fiel e correto no uso dos bens materiais, mesmo pequenos. Do contrário, quem terá confiança de nos confiar coisas maiores.

            Pior ainda é o que diz o profeta: Os maus administradores são os que exploram o povo, sobretudo o povo pobre. A ganância é muito prejudicial.

Para as situações políticas e econômicas complicadas é importante a oração. Não para conseguir graças, mas para que se ande nos caminhos de Jesus. Assim a vida de todo mundo melhora.

 

nº 1579 – Artigo  “A força está em nós”

  1. Experiência de ser perdoado

            O amor constrói um matrimônio feliz. E o que o destrói? O Papa Francisco nos orienta em sua Exortação Apostólica sobre o amor na família, Amoris Laetitia, Alegria do Amor. Espero que essas reflexões simples tenham animado muitos a lerem diretamente o documento do Papa e perceberem sua riqueza. Falando do amor, o Papa comenta o texto de S. Paulo da Primeira Epístola aos Coríntios 13,4-7. É bonito ver como retira de palavras tão simples, tanta sabedoria e tanto empenho. Na vivência cristã podemos perceber que vamos viver bem com os outros, na medida em que vivermos bem conosco mesmos. O que fazemos aos outros, nós o encontramos em nós. O amor matrimonial nasce de Deus, mas passa pela pessoa para que possa atribuir ao outro. Esse amor vivenciado é o que podemos oferecer. Papa Francisco analisa o perdão explicando que quando absorvemos um mau sentimento, “ali ele fica gravado”. O contrário é o perdão que procura compreender a fraqueza alheia e encontrar desculpas (AL 105). O ressentimento cria raízes. No matrimônio há o risco de acusar o outro de seus defeitos. O segredo para evitar que um erro se transforme em um problema é cada um procurar o próprio defeito e não acusar o outro. As Equipes de Nossa Senhora usam esse método, que não é uma técnica, mas é fruto do amor. Evita que o erro se transforme em uma batalha e o ressentimento se enraíze. Há uma frase triste nos casamentos mal preparados: “Vou procurar meus direitos”. Melhor: vou rever meus deveres. Há uma exigência de sacrifício. “Exige de cada um, diz o Papa, pronta e generosa disponibilidade à compreensão, à tolerância, ao perdão, à reconciliação” (AL 106).

  1. Perdoar-se para perdoar

            Somente quem se perdoa pode perdoar. Não podemos nos esconder de nossos erros.  Diz-se que a pessoa mais madura é aquela que ri dos próprios erros. O Papa diz: “Sabemos que, para se poder perdoar, precisamos passar pela experiência libertadora de nos compreendermos e perdoarmos a nós mesmos” (AL 107). Perdoando-nos e aceitando nossas limitações, seremos capazes de perdoar. O perdão tem sua fonte no perdão Divino. Aceitando o perdão incondicional de Deus, poderemos perdoar os outros. Essa capacidade de perdoar gera também a capacidade de se alegrar. Nosso modo de viver egoísta não gosta da alegria dos outros. Para alguns, gera a inveja e o desconforto. Sofremos quando vemos a alegria dos outros. Mesmo que não digamos nada, somos corroídos porque o outro está acima. Às vezes dizemos que a vingança a Deus pertence. Pior que isso, pois queremos que Deus aja com os outros como nós agiríamos. Diz-se: “A vingança a Deus pertence”. Deus vingue por mim. O contrário é Divino: alegrar-se com o bem do outro.

  1. Quatro esteios

            Na Primeira Carta aos Coríntios temos estas palavras: A caridade “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera e tudo suporta” (1Cor 13,7). É estar contra corrente da falta de amor. Desculpar é aceitar o outro e não dizer mal dele. Aí entra a fofoca que o Papa sempre condena, pois sabe o mal que produz. Um fato desagradável não é a totalidade do ser do outro (AL 113). O amor convive com a imperfeição. A confiança é ter fé no outro. Fé aqui não é a virtude da fé. Não há julgamentos nem suspeitas. Há sinceridade e transparência. Assim dá esperança de futuro. Tudo espera. As limitações podem mudar. Confia-se na futura ressurreição. Suporta as contrariedades. É amor, que apesar de tudo não desiste. No outro, mesmo na dificuldade, vê a imagem de Deus. O importante é romper a cadeia do ódio. Isso faz forte um matrimônio. O amor, apesar de tudo não desiste (AL 117-119)

nº 1578 – Homilia 24º Domingo Comum (11.09.16)

“A misericórdia refaz a vida!

  Encontrei misericórdia

            A liturgia da Palavra deste domingo é uma síntese da condição humana marcada pela fragilidade e pelo pecado como vemos na parábola da ovelha extraviada, da moeda perdida, do povo pecador que faz um bezerro de ouro e de um apóstolo que confessa sua antiga situação de pecador. Por outro lado, é uma demonstração estupenda de um Deus misericordioso que acolhe, perdoa e restaura. Este é o retrato do Pai que Jesus apresenta nesta parábola. Assim, Ele agiu e ensinou a agir. Paulo, em sua trajetória espiritual, faz a passagem de uma fé que o levava a perseguir os que acreditavam em Jesus para uma experiência profunda da misericórdia de Deus. As leituras deste domingo então centradas no binômio pecado do homem e misericórdia de Deus. O povo no deserto fez um bezerro de ouro. Deus se irritou e quis destruí-lo. Moisés lembrou a Deus seu compromisso de aliança. Deus perdoou. A ovelha que se extraviou é procurada com carinho. E, depois de encontrada, é carregada nos ombros. Jesus centraliza todo seu ensinamento na misericórdia porque ela é a atitude do Pai para com os que se arrependem e voltam.

Misericórdia é atitude de vida

               A parábola de Jesus da ovelha perdida e reencontrada é uma resposta às críticas dos fariseus que acusavam Jesus de se misturar com os pecadores fazendo-se igual a eles.  Tomar a refeição juntos é se igualar. Jesus então responde com a parábola. Como os fariseus, nossas comunidades correm o risco de se organizarem só para os que são bons e já “estão salvos”. Tudo o que fazemos é para os que já têm tudo. É o momento, e Papa Francisco insiste nesse ponto, de sairmos ao encontro dos necessitados mostrando através de nossas atitudes, a misericórdia de Deus. As exigências que fazemos ao povo simples e aos pecadores (difícil saber quem é o pecador, se eles ou nós), demonstram claramente que não entendemos a mensagem de Jesus. Deste modo a Igreja perde o sentido de sua missão. Padres, bispos e pessoas de responsabilidade na comunidade que não têm misericórdia, devem se lembrar que eles também precisam dela, pois todos somos pecadores e Deus é misericordioso para com todos. É bom que as pessoas sintam através, das pessoas da Igreja, a misericórdia que ela tem como missão.

Buscando as ovelhas

 Mais ainda: Jesus não só acolhe, como vai procurar as ovelhas perdidas pelos penhascos do mal. A misericórdia não é só um sentimento, mas uma atitude de vida e um modo de Deus agir. Jesus diz: “Eu vim buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). Temos a experiência de uma religião que recebe os que vêm e não vamos atrás dos que não vêm. Isso deixou as massas simples e pobres no abandono e vítimas de espertos.  A religião se concentrou nos centros da cidade, que na verdade não têm uma população religiosa. Por estarem bem na vida, não precisam de Deus. Pior ainda quando querem dominar a instituição religiosa a seu favor. É o momento de buscar não uma ovelhinha perdida, mas rebanhos inteiros. As igrejas se esvaziam. É preciso mudar os métodos pastorais para ir ao encontro e a pôr-se a serviços dessas populações. Jesus era criticado por misturar-se com os pecadores. Essa busca dos pobres e dos fragilizados pelo pecado deve envolver toda a comunidade, não somente os “padres”. Esses também devem fazer essa opção, e mais que os outros. Toda a comunidade é responsável para que a missão de Jesus chegue a todos.  Isso é a santidade que vai nos salvar.

Leituras: Êxodo 32,7-11.13-14; Salmo 50; 1Timóteo 1,12-17; Lucas 15,1-32

Ficha nº 1578 – Homilia 24º Domingo Comum (11.09.16)

  1. Jesus se mistura com os pecadores para levar-lhes a misericórdia do Pai. A Palavra nos mostra a fragilidade e a misericórdia de Deus para com os pecadores.
  1. Misericórdia é uma atitude. É fundamental acolher os necessitados. Temos rebanhos inteiros perdidos.
  1. Jesus não só acolhe como vai também atrás das ovelhas perdidas. Isso deve ser um método pastoral.                     

            Sujando-se para limpar

             Essa é a atitude de Jesus quando é criticado por se misturar com os pecadores e fazer refeição com eles. Fazer refeição significa fazer-se igual. Jesus explica que essa é a atitude de Deus Pai ao enviá-lo ao mundo. Não veio para cuidar de ovelhas gordas e sadias, mas para buscar as perdidas.

            Em sua encarnação Ele se misturou com nossa humanidade falha e toda lambuzada pelos males que carregamos. Isso não o fez menor.  Ele veio buscar os pecadores. Conta então a parábola da ovelha perdida. Uma ovelha perdida está totalmente perdida, pois é um animal frágil e sozinho não se resolve. É como uma moeda de prata, ou dizemos, uma jóia. Se não vamos atrás, é certo que ela não vai nos procurar. É preciso ir buscar o que estava perdido. Os perdidos somos nós. Ele nos procurou de todos os modos.

            O povo de Deus no deserto fez um bezerro de ouro porque Moisés já havia tempo que subira a montanha para falar com Deus e não voltava. O povo se perdeu na idolatria. Moisés intercede pelo povo para que não seja condenado nem destruído.

            Paulo não era um distante de Deus. Não era malvado, mas perseguia a Igreja de Deus. Não queria saber de Jesus. E Jesus foi atrás dele. A graça misericordiosa de Deus sempre é maior.

Essa parábola da ovelha perdida é uma lição para nós. O método pastoral das comunidades e das paróquias é sempre cuidar das gordinhas e deixar ao lobo as que se extraviaram. O que se faz pelos “pecadores”, pelos “pobres”? Não nos misturamos. Não sujamos as mãos pelos necessitados. Por isso tanta gente perdeu o rumo da Igreja.

nº 1577 – Artigo  “Amar é mais que gostar”

  1. Amar é tornar-se amável

            Para falar de amor é preciso saber amar. Há uma grande distância entre o discurso sobre o amor e a verdade do amor. Os gestos do amor são expressões do amor. Por exemplo: Cristo na cruz é uma expressão ao demonstrar como se ama. “Ele nos amou até o extremo do amor” (Jo 13,1). Papa Francisco, em sua exortação apostólica “Amoris Laetitia – Alegria do Amor”, reflete sobre as qualidades do amor. Entre elas ensina a amabilidade como uma característica fundamental. O amor não age rudemente. Não é possível amar e ser grosseiro. “Seus modos, suas palavras e seus gestos são agradáveis. Não são ásperos nem rígidos… A cortesia é uma escola de sensibilidade e altruísmo” (AL 99). Ser cordial não é um jeito pessoal de alguns. Faz parte do amor, por isso ‘todo o ser humano está obrigado a ser afável com aqueles que o rodeiam’ (Idem). O amor, por ser total, atinge a pessoa toda em todas suas manifestações. É impossível amar se esse amor não é total. Desse modo é amar a si mesmo porque impõe limites ao amor. Quando um casamento termina, ouvimos: ‘quebrou o cristal’. Talvez nunca tenha existido amor. Amor não é gostar de alguém para si, mas gostar de alguém em tudo que há em si. É um ideal que se busca sempre mesmo em meio às dificuldades. Francisco conclui: “Diariamente entrar na vida do outro, mesmo quando faz parte da nossa existência, exige a delicadeza de uma atitude não invasiva, que provoca a confiança e o respeito… E quanto mais íntimo e mais profundo for o amor, tanto mais exigirá o respeito pela liberdade e a capacidade de esperar que o outro abra a porta do seu coração”. Some-se que cada um tem seu tempo.

  1. Sair de si

                O olhar amável respeita o limite do outro. “Quem é antissocial pensa que os outros existem para satisfazer suas necessidades e, quando o fazem estão cumprindo seu dever”. Quem ama sai de si para reconhecer, incentivar, reconfortar, fortalecer estimular o outro. Lembramos o exemplo do pai que vai ao jogo de futebol do filho pequeno e torce com entusiasmo. Jesus agia assim: “Coragem, filho, teus pecados estão perdoados” (Mt 9,2). Para amar é preciso sair de si, como diz Paulo: “Não cuide somente do que é seu, mas também do que é dos outros” (Fl 2,4). S. Tomás diz: “é próprio da caridade, do amor, mais amar do que ser amado” (S.Th II-II, q 27, Art 1). O fato de ter muito amor, não tem necessidade de procurar amor, mas sim levar amor. Não tem necessidade de ficar esperando recompensa (Lc 6,35), pois já tem muito, chegando mesmo a entregar a vida, sobretudo nas pequenas coisas do dia a dia. E também ser capaz de dar a vida pelos outros (Jo 15,13). Foi o que Jesus fez.  É seu princípio: “De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,8).

  1. Coração sempre calmo

            Somos dados à fácil violência justificando nossa atitude. É a violência que habita em nós. Somos incontroláveis em nossas reações. Quem domina sobre nós? Há uma grande agressividade guardada dentro de nós. Ela não pode estar em nossas atitudes no relacionamento com os outros. Por que as coisas têm que ser assim, se podem ser de outro modo? O Papa Francisco lembra as palavras: “Não te deixes vencer pelo mal” (Rm 12,21). Ele é o exemplo da reação pacífica: nas violências do mundo diz que temos para oferecer o amor. Lembra que não devemos terminar o dia sem fazer as pazes. Que fazer? Um pequeno gesto de amor é suficiente. Quanto aos que nos fazem mal, o melhor é abençoá-los. É fundamental criar uma cultura de não ofender para não ter problemas para recuperar a paz. Desfazer uma confusão é mais difícil que promover o bom entendimento.

nº 1576 – Homilia do 23º Domingo Comum (04.09.16)

Discípulo-missionário do Senhor!

 Quando perder significa ganhar

A Palavra de Deus desse domingo nos apresenta Jesus convidando a segui-Lo. Para entender sua proposta, levamos em conta nossa fragilidade. Com a sabedoria de Deus seus desígnios se tornam possíveis. É o que podemos ver em Paulo que se relaciona com seus amigos na simplicidade e no respeito, mesmo nas situações que possam parecer complicadas. Ser discípulo de Jesus tem exigências que podem nos assustar: “Se alguém vem a mim, mas não odeia seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da própria vida, não pode ser meu discípulo” (Jo 14,26). A exigência é total. Não que Deus cobre caro de nós. Mas exige exclusividade. Para compreender estas palavras não podemos partir de nossos sentimentos, mas da vida de Jesus. Quando ensina que devemos deixar pai e mãe, não diz oposição, mas preferência do bem maior. Essa proposta de Jesus mal entendida significa desobediência ao maior mandamento do amor: “Amar pai e mãe”. Desapegar-se significa dar o devido valor ao fundamental, deixando de lado apegos inúteis e secundários. O tudo que deixamos será mais útil sob a luz de desapego. Quem segue Jesus como o primeiro e ponto de partida para tudo na vida, vai amar muito mais os pais, os irmãos, as belezas da vida e os prazeres que a vida oferece. Jesus oferece duas parábolas para dizer que devemos pensar bem antes de assumir a decisão por Ele, pois do contrário, depois, vai ver que não deu certo. Por isso a sabedoria nos sacia com seu amor e nos ensina a escolher

Quem não carrega sua cruz

Temos outro ponto de conflito que é a cruz. Não se trata de escolher a dor, o peso da penitência e a falta de liberdade. Cruz não é opressão, mas chave da plena liberdade como rezamos na oração do domingo de hoje: “… Concedei aos que crêem em Cristo a verdadeira liberdade e a herança eterna”. Não seguimos Jesus porque sofre na dor, mas porque se entrega por amor. Vemos em Jesus uma pessoa sempre feliz, alegre e cheio de vitalidade mesmo em meio aos sofrimentos. Jesus não quer o sofrimento de ninguém, tanto que nos promete a ressurreição e a vida eterna. O conhecimento do plano de Deus para nós é seguir a Cristo em seu caminho de Paixão para chegar à Ressurreição, leva-nos a rezar: “Ensina-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração a sabedoria… saciai-nos de manhã com vosso amor e exultaremos de alegria o dia todo (Sl 89). A vida cristã é um contínuo aprendizado a viver como Cristo viveu caminhado decididamente para cumprir o desígnio do Pai em Jerusalém.

O corpo pesa a alma

Somos frágeis e pecadores. Nem sempre acertamos. Mas a Sabedoria nos fortalece e nos orienta. Não podemos ter medo da fragilidade. Somos barro que nas mãos de Deus toma forma. É bom ser frágil, pois o orgulho não nos pega. Paulo mostra essa simplicidade quando pede a Filêmon que seu escravo fugido e, agora convertido a Cristo, fique ajudando-o na pregação. Ele poderia impor, mas preferiu agir com a sabedoria de Deus. Desse modo o escravo é irmão e está a serviço de Paulo que está na prisão. Quando nos desapegamos do que escraviza o corpo e a alma, vivemos a plena liberdade de crescer de corpo e alma. Se tivermos dificuldades no conhecimento e seguimento de Jesus é por que deixamos que o corruptível tome conta de nossa vida. Em cada Eucaristia podemos ouvir a Palavra para orientar nossa inteligência e nos estimular ao seguimento de Jesus.

Leituras: Sabedoria 9,13-18; Salmo 89 / Filemon 9b-10.12-17; Lucas 14,25-33

Ficha nº -1576 – Homilia do 23º Domingo Comum (04.09.16)

  1. Jesus convida a segui-lo exigindo totalidade, sem outros apegos. O termo odiar ou desapegar-se significa dar maior valor a seu seguimento.
  1. A cruz que Jesus oferece não é opressão, mas amor, liberdade e herança eterna.
  1. Somos frágeis e pecadores. Nem sempre acertamos. Mas a Sabedoria nos fortalece e nos orienta.

            Fazendo a conta certa. 

            Temos medo das exigências. Achamos que elas nos diminuem e nos oprimem. Um atleta tem horas de treinamento todos os dias. Para fazer uma recuperação de saúde é preciso um regime que sacrifica. Mas dá resultado. Quem quer emagrecer sabe o preço.

            O seguimento de Jesus não é uma brincadeira espiritual. É um esforço, um empenho.

O pulo certo no seguimento de Jesus não é fazer o que a gente quer para nosso bem estar, mas assumir a proposta de Jesus para ter um bem maior.  Seguir Jesus é uma ousadia de buscar sempre o modo viver do Mestre. É deixar tudo para ter tudo. Ser seu discípulo compreende acolher sua orientação fundamental: Quem quiser ser seu discípulo vai ter que fazer três coisas: desapegar-se de tudo, até da própria vida, carregar a cruz e caminhar atrás de Jesus.

            Desse modo poderá ser discípulo. Discípulo é aquele que faz o que o mestre faz.

            Somos frágeis, limitados e de pouco conhecimento. Somos pó, nossos dias passam como o sono da manhã e como a erva. Por isso é preciso contar bem os dias, como rezamos, e aprender a sabedoria. Seremos saciados com o amor.

            Paulo nos dá um exemplo de seguimento. É o grande apóstolo, mas se faz pequeno ao pedir que o escravo fugido Onésimo, possa ficar ao seu serviço. Não seria um escravo, mas um irmão querido.

            O evangelho nos diz ainda que, se não tivermos esses sentimentos, seremos insensatos como o rei que não examina sua tropa para ver se poderá enfrentar o inimigo, ou como o homem que começou a construir uma torre e não deu conta de acabar.

            Se não renunciarmos tudo o que temos, não podemos ser discípulos.

 

nº 1575 Artigo – “Ser feliz com o outro”

  1. O bem do outro

O matrimônio tem crescimento que vai ao seu definitivo que se encontra em Deus. Não se pode exigir do casal uma perfeição imediata, para se dizer que está correspondendo, pois é limitado (AL 122). Por isso temos um caminho de virtudes seguindo as orientações da Exortação Apostólica de Papa Francisco, Amoris Laetitia – A Alegria do Amor. O Papa reflete sobre a caridade em suas diversas manifestações, como nos apresenta S. Paulo em 1ª Coríntios 13,4-7. Refletimos sobre a paciência. Agora abordamos a liberdade que o amor dá diante do outro. Há necessidade, antes do casamento, de se conhecer profundamente a pessoa amada com a qual se quer viver uma vida. Sabemos que se ocupa pouco tempo no conhecimento do parceiro para saber se poderão levar adiante tão sublime modo de vida. Uma coisa é o conhecimento superficial e outra é o dia a dia quando realmente um se manifesta ao outro em sua realidade. Quando fala de ciúme e de inveja, Papa Francisco explica que cada um está voltado para si. Certamente que a imaturidade do cônjuge pode levar a provocar situações desagradáveis. O que amadurece um matrimônio é o esforço de cada um em promover o outro. O que há no outro é sempre um dom a ser acolhido. Por isso “aprecia os sucessos alheios e não os sente como ameaça. Libertando-se do amargor e da inveja” (AL 95). Dizia uma preciosa tia em minha família: “Para quem ama, o mau odor é perfume”. Conhecemos o estrago que o ciúme e a inveja fazem dentro do casamento. Preciosa riqueza é a complementaridade na mútua aceitação das diferenças.

  1. Vendo com os olhos de Deus.

              A grande diferença que pode haver no matrimônio estruturado no amor de Deus de outro fundado só nas condições humanas, está nesta afirmação do Papa: “Amo aquela pessoa, vendo-a com o olhar de Deus Pai, que dá tudo ‘para nosso bem’(2ª Tm 6,17) e consequentemente aceito, no meu íntimo, que ela possa usufruir de um momento bom” (AL 96). Isto é alegrar-se com o bem do outro. Esse modo de ser leva também à preocupação com o outro que precisa ser cuidado. Ver com os olhos de Deus, induz a ver-nos como Deus nos vê, não se colocando como centro. Pior ainda é fazer-se mais do que é, tanto na espiritualidade como no conhecimento. Falando grosseiramente, isso acontece quando temos o costume de ter os outros como ignorantes. Dentro do casamento é uma desgraça. É aquela frase: “você não sabe nada”. Achata, amassa e destrói a outra pessoa. É certo que os verdadeiros sábios sempre sabem aprender dos outros e ensinar com respeito e educação. A vida da família se torna uma escola. Isso me faz lembrar meu papai que sempre me punha em aperto perguntando o significado de palavras. Gostava de saber o que os filhos estavam fazendo em seus empreendimentos. Uma vez, lá no sertão de Goiás, vi um menino pequeno perguntando ao pai como funcionava um motor. E pai explicou com muito detalhe.

  1. Amor que constrói

            “O que nos faz grandes é o amor que compreende, cuida, integra e está atento aos fracos”. Paulo critica esses que “se encheram de presunção” (1 Cor 4,18). Papa Francisco conclui: “na realidade, tem mais palavreado que verdadeiro ‘poder’ do Espírito (1Cor 4,19). A humildade no trato faz parte do amor e cura o orgulho do poder. Maior sempre será aquele que serve mais. Pedro nos adverte: “Revesti-vos de humildade no relacionamento mútuo, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (1Pd 5,5).

nº 1574 – Homilia do 22º Domingo Comum (28.08.16)

“A força da simplicidade”

Alimentar o que é bom (oração)

            A oração da Missa dá um estímulo a viver a palavra deste 17º domingo: “Derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco, para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes”. A mensagem desse domingo ensina a viver um dos ensinamentos fundamentais de Jesus. Tudo o que é humildade e simplicidade. O que Jesus ensina é um retrato de seu modo de viver. Não se trata de diminuir-se ou rebaixar-se, mas ser humano, normal, sem necessitar do orgulho e da vaidade para se impor. Como somos completos, realizados e coerentes, não temos necessidade de disputar lugares e querer parecer importantes. O último lugar é tão bom quanto o primeiro desde que estejamos bem. A mentalidade que nos domina é de tirar vantagens em tudo e sair na frente ganhando sempre mais. Assim pensam as pessoas. Ninguém disputa o primeiro lugar em servir, ser útil e cooperar. Jesus mostra outro caminho que rende muito mais: Em primeiro lugar dá uma aula de civilidade e boa educação. Não é de bom tom querer aparecer e desfilar como mais importante. Para quem está bem com a Palavra, está bem consigo mesmo. Então, qualquer lugar é bom. O livro do Eclesiástico ensina que, quanto mais poderoso se é, mais humilde se deve sê-lo (Eclo 3,20). Vemos a luta pelo poder. O importante é que Deus veja a gente. E Deus vê o que é humilde e a ele revela seus mistérios (Eclo 3,22). O orgulho é uma doença tão ruim que não tem remédio. Diz o Eclesiástico: “Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado esta enraizada nele, e ele não compreende” (Eclo 3.30). A simplicidade é maior.

Convida os pobres e aleijados

            Jesus continua ensinando que perdemos muito em viver na vaidade. Referindo-se ao banquete oferecido diz que sempre traz consigo a obrigação em retribuir com presentes do mesmo valor. E diz em relação às festas: “Quando deres um banquete, não convides teus amigos, nem teus irmãos… nem teus amigos ricos. Estes vão te convidar e assim já serás pago. Quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados e os cegos. Então tu serás feliz por que eles não podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14). Deus é quem paga a conta do pobre. Essa modalidade de vida na vaidade não leva a nada e empobrece o coração. A recompensa que a oferta feita aos pobres nos traz, será dada na ressurreição. Esta é a festa que dura para sempre onde o Pai é quem paga. E retribui com abundância. O banquete que o Pai nos prepara em recompensa ao que fizemos a seus queridos, dura para a eternidade. A Igreja também está envenenada pelo orgulho, vaidade, prepotência e luta por melhores lugares e cargos. É preciso conversão.

Tocados pela fé

            Viver os ensinamentos de Jesus não é só uma opção de vida, mas o resultado da fé que nos tocou. A carta aos Hebreus compara esse momento ao encontro de Deus com o povo no Monte Sinai. Lá era palpável. Agora são as realidades espirituais e as coisas do Céu que nos tocam. Desse modo somos convocados à transformação de nossa vida. Passamos a viver as exigências da conversão ao novo modo de vida a partir do Evangelho.

Vamos entender esses sentimentos de humildade e simplicidade quando percebermos que estamos em contato com o Deus que nos tratou com tanto carinho. A ressurreição final está longe, mas está presente em nosso cotidiano quando somos capazes de transformar nosso orgulho em humildade e nossa vaidade em serviço fraterno.

Leituras:Eclesiástico 3,19-21.30-31;Salmo 67; Hebreus 12,18-19.22-24ª; Lucas 14,1.7-14

Ficha nº 1574 – Homilia do 22º Domingo Comum (28.08.16)

  1. Jesus usa o banquete do qual participa, para ensinar pontos fundamentais de sua doutrina: a humildade e a simplicidade. O orgulho e a prepotência não ajudam o ser humano.
  1. Em lugar de convidar amigos ricos que podem retribuir, ensina a dar banquetes aos pobres que não podem retribuir. Deus é quem retribuirá na ressurreição.
  1. Esse modo de pensar e agir não é só um sentimento humanitário, mas vem do fato de se ter tocado as realidades espirituais, não somente os fenômenos exteriores. 

            De graça rende mais

            A mentalidade que nos domina é tirar vantagens em tudo e sair na frente ganhando sempre mais. É a cabeça do mundo. Jesus mostra outro caminho que rende muito mais: Em primeiro lugar dá uma aula de civilidade e boa educação. É de bom tom querer aparecer e desfilar como mais importante. Para quem está bem consigo mesmo qualquer lugar é bom.

            O livro do Eclesiástico ensina que quanto mais poderoso a gente é, mas humilde deve ser. Vemos a luta pelo poder. O importante é que Deus veja a gente. E Deus vê o que é humilde e a ele revela seus mistérios (Eclo 3,22).

            O orgulho é uma doença tão ruim que não tem remédio. Diz o Eclesiástico: “Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado esta enraizada nele, e ele não compreende” (Eclo 3.30).

            Em seu ensinamento Jesus continua refletindo sobre o risco desses favores que recebemos e devemos retribuir. Vejamos ainda na questão das festas: “Quando deres um banquete não convides teus amigos, nem teus irmãos… nem teus amigos ricos. Estes vão te convidar e assim já fica pago. Quando deres uma festa convida os pobres, os aleijados, os cegos. Então tu serás feliz por que eles não podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14). Deus é quem paga a conta do pobre. E paga com juros.

            Quanto temos que mudar em nossa vaidade e orgulho.

            Vamos entender esses sentimentos quando percebermos que estamos em contato com o Deus que nos tratou com tanto carinho.

 

nº 1573 – Artigo “O amor no matrimônio”

  1. Matrimônio, a casa do amor

            Temos refletido sobre a “Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Papa Francisco” Amoris Laetitia – Alegria do Amor, sobre o amor na família. Alguns veem o documento só pelo lado dos graves problemas que enfrentam no momento atual. Mas o Papa vai mais longe e apresenta o ideal do matrimônio. É a partir desse ideal é que devem ser abordados os problemas. Nesse quarto capítulo são refletidos os aspectos do amor colhidos na Palavra de Deus presente na primeira epístola de São Paulo aos Coríntios (13.4-7). O apóstolo descreve as características do amor. É o hino ao amor. É um modo novo de escrever.  O Papa penetra as emoções dos cônjuges e vai até a dimensão erótica do amor. Uma reflexão sobre a doutrina do matrimônio não pode esquecer que isso tem o “pão nosso de cada dia” com a alegria e a tristeza do dia a dia. Matrimônio é vida e só o entendem quem o vive. Ele é grande através dos pequenos gestos que abrem à dimensão do infinito e definitivo. Falamos de casa do amor. É importante termos sempre diante dos olhos que Deus usou a família para expressar, mesmo na penumbra, aquilo que a Trindade vive. A família não é um fato social que pode se mudar ou anular, mas é um reflexo da Vida Divina. Esse capítulo é um catecismo para o amor de Deus vivido na comunhão matrimonial. Vamos lê-lo juntos: “O amor á paciente, só faz o bem, não é invejoso, não se enche de orgulho, não é interesseiro…” e assim por diante.

  1. Amor paciente

A atitude de paciência, explica o Papa, é o modo de agir do Deus da Aliança: “É lento para a ira” (Ex 34,6). Lendo a história do povo de Deus, podemos comprovar sua paciência em suportar as fragilidades e pecados do povo. Ter paciência, diz o Papa, “não é deixar que nos maltratem permanentemente nem tolerar agressões físicas ou permitir que nos tratem como objetos” (AL 92). Por outro lado não podemos maltratar os outros colocando-nos como centro e esperando que cumpram nossa vontade. É comum vermos essa atitude dos que dizem: “só eu tenho razão” e, deste modo, passa-se a um processo de opressão que provoca constante desgosto. No matrimônio isso é uma tortura. “Se tudo nos impacienta, tudo nos leva a reagir com agressividade”. É forte a expressão do Papa: “Esta paciência reforça-se quando reconheço que o outro, assim como é, também tem direito a viver comigo nesta terra”… “O amor possui sempre um sentido de profunda compaixão que leva a aceitar o outro como parte deste mundo, mesmo quando age de modo diferente do que eu desejaria” (AL 92). Essas coisas pequeninas são as células que fazem todo um corpo.

  1. Amor a serviço

                    A paciência como reflete Papa Francisco, não é passiva na base do só agüentar. O amor paciente está a serviço. “A paciência é acompanhada por uma atividade, uma reação dinâmica e criativa perante os outros. Indica que o amor beneficia e promove os outros. Paulo escreve: “A paciência faz o bem” (1Cor 13,4). Amor não é apenas um sentimento. Lembra o sentido hebraico da palavra amar: “fazer o bem” . Lembra S. Inácio: “o amor deve ser colocado mais nas obras que nas palavras” (Exercícios Espirituais, 230 – Al 94). Como a fé, o amor sem obras é morto. A paciência é altamente comunitária, especial para o casal, pois um promove o bem e o crescimento do outro aceitando as diferenças no mútuo serviço. No processo formativo é preciso paciência para que cada um possa crescer em suas qualidades pessoais. No casamento corremos o risco de não deixar o outro crescer ao impor seu modo pessoal. A felicidade não é um olhar para o outro, mas o dois para o mesmo fim.

nº 1572 – Homilia da Assunção de Maria (21.08.16)

“Assunção de Maria”

Maria do povo

             Há um grande carinho do povo de Deus para com uma mulher, Maria de Nazaré, que fez parte do povo e vive com ele e para ele. Estamos acostumados a ver imagens e pinturas de Nossa Senhora, a Mãe de Deus e nossa. São de rara beleza. Mas nos esquecemos que sua imagem mais autêntica é de sua humanidade que é nossa humanidade. Por maiores que sejam os privilégios que tenha recebido, nada diminui seu ser mulher do povo, identificando-se com cada mulher. Certamente que as imagens e pinturas são bonitas e expressam nosso carinho e nossos sentimentos. A melhor imagem da Mãe de Deus e nossa, contudo, está no rosto queimado da mulher trabalhadora do campo e da cidade. Não é socialismo colocar Nossa Senhora como uma mulher do povo e pobre. Ser de Nazaré significava ser muito pouco. Já disseram sobre Jesus: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (Jo 1,46). Nazaré era realmente, conforme estudos de arqueologia, um lugar muito pobre. Não diz que são maus, mas são humildes e simples, de beleza diferente. O Antigo Testamento diz que desse “resto fiel” viria a salvação. Só eles permaneceram fiéis a Deus. A simplicidade de Maria condiz bem com as palavras que diz: “O Senhor olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,46). Essa pequenez e humildade não são atitudes somente espirituais, mas reais. São os humildes. Fugir da Maria simplesinha, mulher do povo, é um jeito de não assumir o compromisso com o povo. O evangelista fala dela com muita simplicidade, pois foi isso que compreendeu a partir de seu contato pessoal ou através dos relatos dos contemporâneos. Falar de sua Assunção é apontar nosso futuro.

Maria de Deus

            Deus tem um carinho especial para cada uma de suas criaturas. Deus é todo para cada uma. Todos são amados intensamente por Deus. Dele, não temos nada a receber, pois em Cristo já nos deu tudo (Rm 8,32). Quis que todos fôssemos seus filhos adotivos, filhos do coração. A todos deu os dons necessários para a vida e a salvação. A cada um deu dons para sua missão nesse mundo. Cada um participa do grande projeto de Deus de acordo com um plano misericordioso do Pai para participarmos da redenção e construção do mundo e de sua Igreja. Assim Maria, como todo ser humano, como todo cristão participa do plano de Deus e recebe uma missão particular. Ela foi escolhida para ser a Mãe de seu dileto Filho. É um dom e uma missão. A Igreja não inventa dogmas, verdades sobre Maria. Ela simplesmente reconhece o que a sagrada Tradição ensinou. A Escritura, entendida no seu sentido pleno, justificou. Encontramos no Antigo Testamento as profecias que ensinam o futuro Messias. Ensinam também sobre a vida da Igreja.  Por isso podemos nos apoiar nas Escrituras para conhecer o Mistério de Cristo e de tudo que a Ele se refere. Não é a letra, mas a Vida Divina que dá vida a essas letras. A Palavra de Deus é viva e eficaz (Hb 4,12). Por isso podemos dizer que ela foi levada ao Céu.

Rogai por nós

            Maria faz parte do Corpo de Cristo, faz parte também de sua vida e vitalidade. Ela, membro mais perfeito depois de Cristo, tem nesse Corpo de Cristo parte na saúde que o fortalece. E ela o faz por sua intercessão misericordiosa. Cristo é o único Mediador (1Tm 2,4). Maria participa dessa mediação enquanto parte de seu Corpo. Ela o faz como mediação suplicante. Com todo povo de Deus é intercessora: reza pela vida desse corpo. Tirar Maria do Mistério de Cristo é negar a Palavra. Subindo ao Céu leva nossa humanidade.

Leituras: Apocalipse 11,19ª;12,1-3-6ª.10ª; Salmo 44;1Cor 15,20-27ª;Lucas, 1,39-56

Ficha nº – Homilia da Assunção de Maria (21.08.16)

  1. Maria é uma mulher simples. As pinturas são belas, mas a verdadeira Maria está em Nazaré, nas condições de mulher do povo. Nazaré era terra humilde.
  1. Deus ama todas as pessoas. Cada um participa do projeto de Deus de acordo com seu plano. Para isso recebe dons e missão. A Escritura nos ilumina.
  1. No Corpo de Cristo Mediador é mediadora na intercessão misericordiosa.           

            No Céu com os pés na terra 

            A gente fala muito de Nossa Senhora. Se a gente a conhecesse mais, mais ainda falaria. Por que ela tem essa presença tão forte na Igreja Católica?  Quem de fato ama Jesus e O tem como seu Salvador vai amar muito aquele que deu para nós esse Homem Deus tão grande. Quem gosta do fruto, não corta a árvore.  Ela continua intimamente unida a seu Filho como na gestação. Jesus, como era um bom filho, seguia os mandamentos de Deus com perfeição amando seu pai e sua mãe, como o Pai do Céu manda.

            Dizer que Maria foi levada ao Céu depois do fim de sua vida, é um dogma da Igreja Não sabemos como morreu. Ou foi levada para o Céu. Tanto coisa como outra são boas. Lembremos que Elias, um grande profeta, foi levado ao Céu num carro de fogo.

            A Igreja não inventou essa verdade, pois a comunidade dos primeiros cristãos são as testemunhas desse fato e ensinaram para nós, antes de os evangelhos serem escritos. Faz parte da sagrada Tradição que é também uma fonte da fé. A Igreja ensina que “Maria, terminado o curso de sua vida terrestre, foi levada em corpo e alma ao Céu”. Ela é a mulher gloriosa de que fala o Apocalipse.

            O ensinamento tem fundamento na Palavra de Deus, pois todos ressuscitaremos. E Maria, sendo a primeira em corpo e alma, garante que o ensinamento de Jesus funciona e é para todos. A promessa da ressurreição já é realidade em Maria.

            No seu canto, minha alma engrandece o Senhor, ela conta que todas as gerações a chamarão bem-aventurada. Não por ela, pois Deus é quem age.

Ela ensina também que o caminho do Céu passa pelo cuidado dos necessitados. Quem diz ter religião e não procura modificar o mundo para socorrer os humilhados, não conhece a Deus. É do mal.

A gente vai para o Céu com os pés na terra.

 

nº 1571 – Artigo  “O amor que se estende”

  1. Casa do amor

            A exortação apostólica “Amoris Laetitia – Alegria do amor” do Papa Francisco,  reflete no final do terceiro capítulo sobre os filhos no matrimônio. “O matrimônio é, em primeiro lugar, ‘uma íntima comunidade de vida e do amor conjugal’ que constitui um bem para os próprios esposos” (AL 80). Salienta-se aqui a certeza que o matrimônio se constitui no amor. O amor não é fruto, mas realidade primeira da vida do casal. Ele é fonte do amor que gera mais amor. Este amor está destinado à geração. “O bebê que chega “não vem de fora acrescentar-se ao amor mútuo dos esposos; surge no próprio amor dessa doação mútua, da qual é fruto e realização” (AL 80). Por isso nenhum filho vem por caso, mas é fruto do amor que é fundamento do matrimônio. Não só de um amor sentimento, mas do amor que o constitui. Ele é sempre aberto à fecundidade, embora nem sempre possa efetivamente gerar uma nova vida (Id). Nesse amor está a participação do casal na obra criadora de Deus. Deus confiou ao casal a responsabilidade do futuro da humanidade através da transmissão da vida (AL 81). A geração da vida não é projeto individual, mas faz parte de um desígnio maior de Deus para o casal e para o mundo. Por isso ninguém pode dispor da vida de um feto, pois ele não pertence exclusivamente ao casal. É fruto de um amor que não é só do casal, e está destinado a uma vida que lhe pertence.

  1. Escola do amor

            Vivemos momentos difíceis para a educação. Quem educa nossos filhos? A família perdeu sua missão de educar. Há outros meios que interferem fortemente na educação dos filhos. Educar os filhos é um dever e um direito. A família tem também o dever e o direito de controlar a educação que é dada pelas instituições. Sabemos que estas podem estar penetradas por ideologias diversas, contrárias à opção dos pais. Todas as demais instâncias de educação são subsidiárias e colaboram na educação, inclusive a educação religiosa. A primeira escola da família é o amor que se vive. O Papa insiste que um dos modos de formação, sobretudo de formação religiosa, é a participação da família no processo educativo dos filhos. Há muitas observações sobre a escola atual em nosso país. É preciso abrir um canal para um aprofundamento das questões.

  1. A família e a Igreja

            Papa Francisco, seguindo as afirmações do Sínodo dos bispos sobre a família, lembra o lado positivo de nossas famílias que permanecem fiéis aos ensinamentos do Evangelho. Agradece pelo testemunho que dão. “Por essas famílias pode-se tornar crível a beleza do matrimônio indissolúvel e fiel para sempre”. Nota ainda que “na família, como Igreja Doméstica (LG 11), amadurece a primeira experiência eclesial da comunhão entre as pessoas na qual, por graça, se reflete o mistério da Santíssima Trindade”. Quando dizemos que a família é a Igreja Doméstica, não é um conceito vazio, pois, continua o Papa: “É aqui que se aprende a tenacidade e a alegria no trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e sempre renovado, e sobretudo, o culto divino pela oração e pelo oferecimento da própria vida”, diz, citando o Catecismo da Igreja Católica 1657 (AL 86).  A Igreja é família de famílias (AL 87). Destruir a família é destruir a Igreja e encerrar o aprendizado das coisas do Céu. “O amor vivido nas famílias é uma força permanente para a vida da Igreja” (AL 88). Refletindo sobre a Igreja temos que compreender que o espelho é a família, célula mãe do povo de Deus.

nº 1570 – Homilia do 20º Domingo Comum (14.08.16)

“Fogo sobre a terra”

Proposta radical

            No caminho para Jerusalém, Jesus continua instruindo seus discípulos. Ensina que passarão pela recusa dos que estão envenenados pelo mal. À custa de sua vida, Jesus quer fazer a vontade do Pai e  implantar o Reino. Propõe o mesmo ao discípulo para que tenha a vida. Radical quer dizer que atinge a raiz e passa a alimentar a vida. Se fizermos a opção fundamental por Jesus, vamos viver o que Ele viveu e sofrer o que sofreu por parte de seus perseguidores, seguidores do mal. O inimigo usa os que optaram pelo mau caminho recusando a proposta de Jesus. Por isso diz claramente que não veio trazer a paz, mas a espada e a divisão (Lc 12,51). Não podemos nos esquecer que o fogo de que fala o evangelista é o fogo do Espírito. “Sereis batizados com o Espírito e com o fogo” (Mt 3,11). O fogo do Espírito é o amor que orienta a vida e fortalece no sofrimento pelo Reino. Sua vontade em receber logo o batismo significa que quer concluir a obra da redenção sofrendo o batismo de sangue pelo qual vai realizar nossa purificação. Lembramos o que diz aos dois irmãos Tiago e João: “Vocês podem ser batizados no batismo em que vou ser batizado? (Mc 10,38-39). A opção por Jesus vai causar divisão nas famílias. É o que vemos em nossas comunidades. É bom ter consciência de que a perseguição contra a Igreja e os cristãos é por causa da recusa do adversário contra Jesus.

O profeta perseguido

            Jeremias é o exemplo do profeta sofredor. Fiel a Deus não compactuou com o paganismo e a insolência dos que mudaram da religião para a política. A cidade está para ser destruída e ele não prega falsidade para enganar o povo numa falsa esperança. O profeta sofre violenta perseguição. Durante toda a vida sofreu. Diziam que era o profeta chorão, mas na verdade era a dor da perseguição. Quem prega a verdade da Palavra é perseguido até por gente de dentro da Igreja. Há uma tentativa de abafar as exigências do Evangelho apoiando-se em doutrinas que não tem nada a ver com Jesus que nos compromete a viver com integridade a verdade da justiça e do amor. Dizem que é política, marxismo, socialismo etc. … Alguns pretendem justificar o dinheiro, o poder e o prazer. Usam uma política que apóia a exploração do povo e identificam isso com doutrinas da Igreja e de santos. Devemos respeitar as posições políticas, mas elas devem ser sempre inspiradas pela Palavra de Deus. A perseguição continua. Pobres profetas!

Com os olhos fixos em Jesus

            Só podemos entender os sofrimentos que nos atingem se mantivermos os olhares fixos em Jesus. Ele não foi somente vítima, mas assumiu o sofrimento, pois lhe era proposto algo maior, a glorificação: “Ele, em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz  … e assentou-se à direita de Deus” (Hb 12,2). Esse combate é forte. “Empenhemo-nos com perseverança no combate que nos é proposto, com os olhos fixos em Jesus, que em nós começa e completa a obra da fé” (Id. 12,1-2). Para não nos desanimarmos devemos contemplar Jesus que enfrentou muita oposição por parte dos pecadores (3). E encerra com uma frase muito forte que nos alerta que não estamos reclamando sem razão, pois “ainda não resististes até ao sangue na vossa luta contra o pecado” (Id 4).  Todos esses males vêm do pecado. Por isso é necessário estarmos sempre atentos a ver se nossas idéias não são fruto do pecado. Cada Eucaristia é momento de rever nossa vida. Ela nos reforça na fé e nos sustenta nos sofrimentos.

Leituras: Jeremias 38,4-6.8-10; Salmo 39; Hebreus 12,1-4; Lucas 12,39-53

Ficha nº1570 – Homilia do 20º Domingo Comum (14.08.16)

  1. Jesus ensina a opção radical por Ele, em favor de seu Reino. Isso acarretará perseguição ao discípulo como causou a Ele.
  1. O profeta é perseguido. A perseguição continua no mundo. Ela é obra do demônio que continua perseguindo os que anunciam o Evangelho.
  1. Paulo anima os cristãos que sofrem a verem como Jesus superou os sofrimentos. Ter os olhos fixos Nele é a condição para suportar. 

            Bombeiro que acende fogo 

            Parece que Jesus gosta da confusão. Nós é que somos confusos e não sabemos alinhar com Ele. O que é botar fogo na terra? O que significa que veio trazer a espada? É um projeto de paz, pois o fogo é seu Reino que se instaura; a espada é a batalha pela verdade;  a divisão que ocorre é a recusa de muitos ao projeto de vida nova que propõe. É muito sofrido passar por isso. A recusa a Jesus culmina sempre em muito sofrimento.

É isso que vemos no profeta Jeremias que, por sua coerência com a Palavra de Deus que anunciava, passa pelos maiores sofrimentos. Mesmo no mundo de hoje há muita perseguição dos que querem um mundo novo a partir da Palavra de Deus. Ele não foi ouvido e o povo pagou por ter sido desobediente.

A Carta aos Hebreus convida à perseverança no combate que nos é proposto. Sabemos que Jesus passou por isso. Diz o texto: “Ele, em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, não se importando com a infâmia. Depois se assentou à direita do trono de Deus” (Hb 12,2). Cristo passou por tantos sofrimentos para que não nos desanimemos. E diz uma palavra que nos envergonha: “Vocês ainda não resistiram até o sangue na luta contra o pecado” (Hb 12,4). Estar na graça de Deus exige coragem e disposição.

 

nº 1569 – Artigo  “A graça e a carne”

  1. Matrimonio e casamento

Estamos refletindo sobre a Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre o amor na família – Amoris Laetitia (AL). Quando dizemos matrimônio e casamento estamos usando duas palavras que querem dizer a mesma coisa. Há, contudo, uma dimensão diferente. Casamento é a realidade humana que conhecemos em tantas religiões e culturas. Matrimônio tem a dimensão espiritual – sacramental. Seria bom distinguir para aprofundar melhor a riqueza dessa realidade. A dimensão espiritual não acontece se não há a dimensão humana. Estão intimamente unidas como no ser humano que é carnal e espiritual. Assim o matrimônio, para ser completo, exige a parte carnal como componente necessário. Sendo um sacramento exige o sinal sensível que explica a graça invisível. O sacramento do matrimônio é carne e espírito. O espiritual é a graça de participação na vida de Cristo. Tudo que há em Cristo para nossa salvação acontece no sacramento do matrimônio. O sacrifício pascal de Cristo se dá com sua total entrega ao Pai. A entrega do casal realiza essa dimensão. Na entrega corpórea recebem esse dom. “Seu consentimento e a união de seus corpos são os instrumentos da ação divina que os torna uma só carne” (AL 75).  O aspecto religioso do sacramento do matrimônio não está, em primeiro lugar, na celebração, mas na própria realidade sacramental que acontece na vida do casal. A celebração é o atestado dessa ação de Cristo. Com o batismo, o matrimônio é fonte de vida espiritual para toda a vida. Não são atos, mas o sacramento que atua pela vida. É comum se ouvir: o amor acabou. Se acabar é porque nunca houve. Quanto mais a sociedade elimina a família, mais vemos crescer a consciência do matrimônio como um todo, corpo e espírito.

  1. Projeto humano no projeto de Deus

            Como o espiritual tem sido colocado em oposição ao que é humano, dizemos carnal, torna-se difícil compreender a dimensão espiritual da sexualidade. O projeto da energia carnal incluiu sua característica de demonstrar a dimensão espiritual do ser humano. Quando se diz que “não separe o homem o que Deus uniu” (Mc 10,9), referindo-se ao matrimônio, podemos entender que não sejam separadas santidade e sexualidade nem  opostas, pois dão sentido e completam o matrimônio. Se tivéssemos entendido o sentido espiritual da sexualidade, não estaríamos passando pela situação de perversão que se vive no momento. O Papa lembra que tudo foi criado por Cristo e para Cristo (Cl 1,16). Com a vinda de Cristo, torna-se mais clara a criação (AL 77). Pelo Evangelho se clarificam e purificam os elementos que a frágil condição humana absorveu e se recuperam elementos do desígnio divino. Como o matrimônio faz parte da condição humana na criação, temos muito a receber e nos enriquecer de outras culturas, purificando-as do que seja nocivo.

  1. Famílias feridas

A Igreja e as instituições devem ter o olhar de Cristo sobre as multidões sofridas. Cristo não só acolhe como ilumina oferecendo sempre caminhos para a cura dos corações. Por ser uma instituição de santidade não dispensa a contínua conversão não só das chagas do pecado, como indicações para os caminhos da graça. O matrimônio sempre poderá ser melhor. A conversão penetra também as condições humanas da família e da sexualidade. A meta é sempre dispor-se ao melhor. O amor se modifica com a idade e circunstâncias. Quando mais maduro, mais atinge sua condição de promover a felicidade humana e espiritual. Eu presenciei meu papai e minha mamãe namorando até os 75 anos de casamento quando partiram.

nº 1568 – Homilia do 19º Domingo Comum (07.08.16)

“Não tenhais medo” 

O pequeno rebanho

No caminho para Jerusalém, para cumprir o que o Pai lhe dera como missão, Jesus instruiu os discípulos. Tem em volta de si um pequeno grupo de discípulos que O segue. A eles Jesus dirige essa palavra: “Não tenhais medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar-vos o Reino” (Lc 12,32). Mesmo numa situação de fragilidade, eles são a presença do Reino no mundo. São estimulados a estarem despojados para viver o Reino. O tesouro que lhes é proposto é guardado nos céus aonde o ladrão não chega nem a traça corrói. Ali estará também o coração que é a sede de todos os afetos e esperanças (Lc 12,33-34). O pequeno rebanho também deve ser vigilante. É necessário estar sempre pronto para poder ir ao encontro do Senhor quando vier. É preciso estar pronto, pois o Senhor pode vir a qualquer momento. A vida do pequeno rebanho deve ser organizada em vista da vinda do Senhor. Os discípulos mantêm a vigilância na espera de sua vinda que está próxima. E o fazem vivendo os valores do Reino. Não esperam desocupados. Paulo chama a atenção dizendo: “Quem não quer trabalhar, também não deve comer” (2Ts3,4). É uma vigilância ativa. O Senhor virá como um ladrão. “Vós também, ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos O esperardes” (Lc 12,40). O discípulo é alertado a assumir sua condição e corresponder ao muito que lhe foi dado. Essa correspondência não se trata somente de encargos, mas da responsabilidade para com o Reino. Este é o muito que nos foi dado. É preciso corresponder.

Páscoa e vigilância

            O livro da Sabedoria traz um belo texto sobre a Páscoa que celebra a espera e a vitória. Refletindo sobre a vigilância, lembramos que ela foi celebrada durante a noite numa situação difícil. Era o momento em que os primogênitos dos egípcios eram mortos e os filhos dos santos, isto é, o povo, preservados. “A noite da libertação fora predita… ela foi esperada como salvação para os justos e perdição para os inimigos” (Sb 18,6-7). A celebração da Páscoa na saída do Egito tem a característica de espera da libertação e vitória sobre o inimigo opressor. Ensina-nos que ela liberta e é destruição do mal que afeta os filhos de Deus que é o pecado, isto é, a recusa do Reino. A Páscoa  celebrada através do ritual do batismo é purificação do mal, infusão da Vida Divina e introdução na comunidade dos justos. É sempre a vinda do Senhor.

Fé como espera.

            Os pais de nossa fé esperaram, confiaram e viram os prodígios de Deus. Jesus disse que “Abraão viu o meu dia e se alegrou” (Jo 8,56). A carta aos Hebreus faz uma bela reflexão sobre sua fé. Ensina que os patriarcas tiveram a fé, viveram na fé, não viram a realização, mas nem por isso desanimaram. Sua fé garantia a certeza da realização das promessas de Deus. Por isso a definição de fé está unida à esperança: “A fé é um modo de possuir já o que ainda se espera e a convicção cerca de realidades que não se vêem” (Hb 11,1). Assim lemos sobre Abraão: “Foi pela fé que Abraão obedeceu à ordem de partir para uma terra que devia receber como herança, e partiu sem saber para onde ia” (id. 2). Vivendo da fé, podemos esperar que o Senhor venha. A fé nos faz viver essa presença através de nossa vida renovada. A celebração da Eucaristia é sempre um anúncio dessa vinda quando dizemos depois da consagração: “Vinde, Senhor Jesus”. Temos que recuperar a noção de esperança que se firma na vigilância.

Leituras: Sabedoria 18,6-9; Salmo 32;Hebreus 11,1-2.8-19; L nucas 12,32-48

Ficha nº – Homilia do 19º Domingo Comum (07.08.16)

  1. Jesus instrui os discípulos sobre a vigilância. Devem despojar-se para acolher o Reino e ter um tesouro no Céu. Devem estar vigilantes ocupados com o Reino.
  1. A Páscoa para os judeus é o momento da libertação e do castigo do inimigo. Tudo isso está presente na noite pascal com outro sentido.
  1. O texto da carta aos Hebreus ensina que os pais do povo viveram da fé na esperança. O fato de não verem, não tirou a força da fé. 

            Melhor prevenir que remediar 

Jesus insiste sobre a vigilância, pois Ele pode chegar a qualquer momento. Não se trata de amedrontar-nos, mas estimular-nos a viver bem e a sermos fiéis administradores dos bens e da casa de Deus.

O pequeno rebanho de Jesus é animado a fazer o caminho da boa administração que consiste em aplicar os bens no cuidado dos pobres. Esse é o tesouro que não acaba. Assim nosso coração estará onde estiver nosso tesouro, isto é, no Céu. De nós será pedido bastante, pois o tesouro que nos foi confiado é muito grande. Lemos no final do texto de hoje: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido” (Lc 12,48). Diz isso aos discípulos a quem foram confiadas as riquezas de Deus.

Não tenhamos medo de enfrentar, pois nos foi dada a inteligência espiritual.

Tudo brota da fé, como nos narra a Carta aos Hebreus. Abraão e Sara tiveram fé e conseguiram dar vida a uma multidão de povos. Seus descendentes foram capazes de, em segredo, fazerem um sagrado pacto de união no sofrimento e nos momentos bons. A fé dá realmente essa garantia e fortalece na espera.

Somente pela fé podemos entender a força da vigilância, esperando o Senhor chegar. Por isso dizemos que o homem prevenido vale por dois.

 

nº 1567 – Artigo  “A vocação da família”

  1. O olhar fixo em Jesus

          O terceiro capítulo do documento papal Amoris Laetitia (Alegria do amor) é dedicado aos ensinamentos essenciais da Igreja sobre o matrimônio e a família. É fundamental buscar nas Sagradas Escrituras a proposta de Jesus para a família. Em trinta parágrafos temos uma síntese sobre essa vocação de acordo com o Evangelho, como ela foi recebida pela Igreja ao longo da história. Trata da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimônio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Papa Francisco está em consonância com os ensinamentos dos Papas dos últimos tempos. No parágrafo 59 dá a razão porque tratar o assunto a partir da vocação fundamental da família que é o amor de Deus. Diz que o ensinamento “não pode deixar de se inspirar e transfigurar à luz deste anúncio de amor e ternura, senão quiser tornar-se mera defesa de uma doutrina fria e sem vida. Com efeito, o próprio mistério da família cristã só se compreende plenamente à luz do amor infinito de Pai, que se manifestou em Cristo entregue até o fim e vivo entre nós” (AL 59). Salienta que “o matrimônio é um dom do Senhor” (1Cor 7,7). E acrescenta a Carta aos Hebreus “que o matrimônio seja honrado por todos e o leito conjugal, sem mancha (Hb 13,4). A partir da Palavra afirma a indissolubilidade do matrimônio, não como uma cadeia, mas como um dom dado ao casal. É o projeto originário de Deus, como lembra Jesus (Mt 19,4). Ele esteve presente na vida da família, como em Caná, na casa de Pedro e

  1. Jesus foi família

          Nem precisamos lembrar que Jesus, em seu mistério de salvação, o fez na condição de família. Jesus nasceu tendo um homem chamado de pai e uma mãe. Sua vida foi dentro da família em suas condições humanas e espirituais de seu povo. }O Beato Paulo VI, citado, diz que “a aliança de amor e fidelidade, da qual vive a Sagrada Família de Nazaré, ilumina o princípio que dá forma a cada família, tornando-a capaz de enfrentar melhor as vicissitudes da vida e da história”. A família de Nazaré é o modelo. Retomando os ensinamentos da Igreja, o Papa cita o Concílio e os Papas João Paulo II e Bento XVI. A família é considerada em sua dignidade como comunidade de amor, enraizados em Cristo. Edificando o Corpo de Cristo tem uma missão própria na Igreja destinada ao amor conjugal, à procriação e educação dos filhos. Só em Cristo podemos entender essa missão.

1764.Matrimônio é um sacramento

          Lemos no parágrafo 71: “A Escritura e a Tradição abrem-nos o acesso a um conhecimento da Trindade que se revela com traços da família A família é imagem de Deus… é comunhão de Pessoas” como na Trindade . Conhecemos Deus a partir da noção de família. Por Jesus, o matrimônio natural foi elevado à condição de Sacramento. Aquilo que Deus pôs em nós na criação, nós o temos como meio de santificação, isto é, realiza em nós a vida de Deus, iniciada em nós pelo Batismo. Não se trata só de um rito, “mas é o próprio Cristo que vem ao encontro dos cônjuges cristãos pelo sacramento do matrimônio. Permanece com eles, concede-lhes a força de seguí-Lo, de levantar-se depois da queda, perdoar-se mutuamente e carregar o fardo uns dos outros”. Torna-se presente no matrimônio o amor de Cristo pela Igreja (seu povo). “Quando se unem numa só carne, representam o esponsal do Filho de Deus com a natureza humana” (AL 73). Essa união prefigura a felicidade da união de todos em Cristo. Nas fragilidades e temores estão igualmente unidos a Cristo que passou por nossas dores. Pelo que vemos, o matrimônio não pode ser tratado só como um fenômeno social

nº 1566 – Homilia do 18º Domingo Comum (31.07.16)

“Ser rico diante de Deus” 

Vaidade das vaidades

         O livro do Eclesiastes difere dos outros livros da Bíblia porque tem uma filosofia diferente da hebraica. Mostra a fragilidade e a transitoriedade das coisas. Por isso diz: “Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade”. Vê que tudo o que se faz acaba em nada. “Toda a vida é sofrimento, sua ocupação, um tormento. Nem mesmo de noite repousa seu coração” (Ecl 1,23). Esse texto vem como comentário à Palavra de Deus sobre o homem a quem Jesus chama de louco (Lc 12,20). O homem teve grande colheita e queria aumentar os armazéns e aproveitar a vida. Na mesma noite ele se vai. Que adiantou? Jesus conclui: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus” (Lc 12,21). Os bens materiais são necessários, úteis e importantes. Mas não devem ser a fonte da vida. Não se deve fazer do dinheiro um deus. Isso é vaidade. O mal não é ter riquezas. Mas não saber usá-las. Há quem pense que, porque é rico, pode colocar Deus a seu serviço, escravizar o irmão e abusar da natureza. Se vivermos a mensagem do Evangelho não criaremos o desequilíbrio por causa dos bens. É absurdo o fato de alguns serem ricos sem se darem conta que são os pobres que trabalham para eles. E continuam pobres e eles mais ricos. Lembramos também que tudo o que temos não foi adquirido sem a participação de Deus. Por que deixar seus filhos de fora. A vida é insegura. Só Deus é o fundamento seguro. Isso é o que significa ser rico diante de Deus. Deus não inibe, mas promove a vida na qual os bens materiais dão suporte aos espirituais e estes orientam a vivência dos bens materiais.

Buscai as coisas do alto

         Ser batizado não é somente um rito, mas uma definição por um modo de vida. Sem isso a fé perde o sentido. Fé e vida estão intimamente unidas.  São Paulo nos estimula a buscar a coisas do alto. Este é o modo normal de viver de quem diz ter fé. Trata-se de revestir-se de Cristo. Não exteriormente, mas interiormente gerando ações coerentes. Pela opção por Cristo é preciso despojar-se do homem velho e de sua maneira de agir fazendo o que pertence ao mundo: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e cobiça que é uma idolatria”. Basta olhar em volta que vamos ver a desespero para ter coisas, o egoísmo , a insensibilidade e até a burrice. Para vencer os vícios é necessária  a prática das virtudes que anulam a vaidade. A parábola de Jesus é uma resposta ao homem que lhe disse: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. E diz: “Tomai cuidado contra todo o tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (Lc 12,13.15). Jesus não entrou na questão do pedido do homem, mas diz que tudo deve ser resolvido na dentro de um novo modo de vida.

Dai ao nosso coração sabedoria

         A oração do salmo nos coloca nos lábios essa súplica: “Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria”(Sl 89). A sabedoria é a ciência de Deus encarnada em Jesus. Ele é a Sabedoria e nos dá a sabedoria do Evangelho para sabermos discernir. Por isso rezamos também: “Saciai-nos de manhã com vosso amor e exultaremos de alegria todo o dia”. Vemos que a sabedoria não é mecânica, como algo material, mas é um relacionamento. Aprendemos “tocando” a origem de todos os bens no diálogo amoroso da abertura para Deus e pela oração, principalmente a Eucaristia que é a oração maior. Os anos “passam como o sonho da manhã, são iguais a erva verde pelos campos. De manhã ela floresce vicejante, mas à tarde é cortada e logo seca”.

Leituras:Eclesiastes 1,2;2,21-23;Salmo 89;Colossenses 3,1-5.9-11; Lucas  12,13-21

Ficha nº 1566 – Homilia do 18º Domingo Comum (31.07.16)

  1. Diante da fragilidade dos bens materiais, o Eclesiastes reflete sobre sua vaidade. Jesus ensina como ser rico para Deus. Os bens são bons, mas para produzir o bem.
  1. Paulo ensina a buscar as coisas do alto e despojar-se do homem velho e seus vícios.
  1. O salmo nos convida a ter a sabedoria de Deus para ter os dias bem contados. 

         Burrice não faz bem. 

         O livro do Eclesiastes analisa a vida humana e mostra a fragilidade que vai a desvarios porque se apóia na vaidade. Tudo é vaidade, diz o autor sagrado. Jesus comprova essa verdade contando a parábola do homem que teve uma colheita abundante. Para isso faz armazéns maiores e diz a si mesmo: “Tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita”. Assim a vaidade humana se junta à estupidez.

         Mas o homem se esquece da dimensão espiritual da vida. Deus lhe dá a resposta: “Louco! Ainda esta noite, pedirão de volta tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?” E Jesus faz a conclusão do assunto: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si, mas não é rico diante de Deus” (Lc 12,20).

São Paulo apresenta o caminho para vivermos em meio a todas as coisas boas do mundo sem nos perder: Buscar a vida do alto. Esta é a vida de quem ressuscitou com Cristo. O caminho é reconhecer que “nossa vida está escondida em Cristo” e nosso modo de viver é “despojarmo-nos do homem velho e revestirmo-nos do homem novo que se renova segundo a imagem de seu Criador” (Cl 3,1.3.9-10). Vencidos os vícios através da prática das virtudes, podemos sair da vaidade.

 

nº 1565 – Artigo  “Desafios da família”

  1. Situações que deve suportar

          Continuando a reflexão sobre a família no documento “Amoris Laetitia” (A Alegria do Amor), Papa Francisco alerta para algumas dificuldades. Essas foram nascidas das informações que recebeu dos Sínodos sobre a Família. Uma delas é a dificuldade que se refere à função educativa da família. Diz com palavras simples: “Eles chegam em casa cansados, sem vontade de conversar; em muitas famílias, já não há sequer o hábito de comerem juntos, e cresce uma grande variedade de ofertas de distração, para além da dependência da televisão” (AL 50). Ficando longe dos filhos por causa do trabalho, os pais perderam muito em sua função educadora. Quem educa é a TV, meios de comunicação, a rua, a escola e os companheiros que também estão distantes da família. A escola também padece de muitas ideologias que contrastam com o modelo ideal de família. O documento continua alertando sobre a insegurança do futuro. Perder um emprego é sempre um fantasma. Cria-se a ansiedade. Junte-se a isso a questão das drogas que é um flagelo de nosso tempo. Somam-se os vícios da bebida, do jogo e de outras dependências. Outro mal que distancia os filhos dos pais é a dificuldade de se chegar ao trabalho nas grandes cidades. São horas dentro de uma condução nas piores condições humanas. As conseqüência são grandes: “Observamos as consequências desta ruptura em famílias destruídas, filhos desenraizados, idosos abandonados, crianças órfãs de pais vivos, jovens desorientados e sem regras”. Anotamos ainda a questão da violência que educa para o ódio.

  1. Forças da família

          Dizemos que a família tradicional não existe. Ela também tinha suas fraquezas. A família, contudo, tem forças para mover a sociedade. Ela é benéfica e própria para o amadurecimento das pessoas, para o cultivo dos valores comunitário e para desenvolvimento ético das cidades. Vejamos as palavras firmes do Papa: “Já não se adverte claramente que só a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher realiza uma função social plena, por ser um compromisso estável tornando possível a fecundidade” (AL 52). E apresenta uma resposta às “outras” uniões: “Devemos reconhecer a grande variedade de situações familiares que podem fornecer certa regra de vida, mas as uniões de fato ou entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, não podem ser simplesmente equiparadas ao matrimônio nem tão pouco ao modelo de família que se assemelha à Família de Nazaré. Nenhuma união precária ou fechada à transmissão da vida garante o futuro da sociedade” (Id), diz o Papa. E ainda diz que não há incentivo aos casais quanto ao papel educativo, nem incentiva a estabilidade da união conjugal.

  1. Ainda pesa sobre a família

          Há questões que ainda danificam a família: sociedades nas quais ainda vigora a prática da poligamia, convivência pré-matrimonial e, até mesmo sem o sentido de seguir depois ao matrimônio. Dizer que a Igreja é antiquada já é um mal. A força da família está na capacidade de amar, por mais ferida que seja. Há melhoras na situação da mulher vencendo a situação inferior. Mas ainda há muito que mudar (AL 54). É prejudicial a ausência do pai. Por mais difícil que seja, os pais precisam estar juntos. A ideologia de gênero destrói o ser família. É um assunto difícil e está invadindo a orientação educacional. A questão da tecnologia da procriação humana pode ajudar, mas pode destruir o fundamento da família (AL 56). E conclui: “Os grandes valores do matrimonio e da família cristã correspondem à busca que atravessa a existência humana” (AL 57).

nº 1564 – Homilia do 17º Domingo Comum (24.07.16)

“Ensina-nos a rezar” 

Quando orardes, dizei.

         São Paulo, dizendo que com Cristo fomos sepultados no batismo e com Ele fomos ressuscitados por meio da fé (Cl2,12), assegura-nos o direito de falar com Deus através da oração. Jesus mesmo é o mestre da oração. Os discípulos, vendo-O rezar, disseram-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar como João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1). Jesus faz então a catequese sobre a oração. Não somente ensina a rezar, mas dá-nos sua própria oração. Era o que rezava. A maior lição é seu exemplo. Jesus, em sua condição divino-humana reza ao Pai. Assim permanece para sempre como o mestre da oração. Ele revela: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome”… Lucas inicia a oração chamando a Deus de “Abbá” (Paizinho) em aramaico, termo jamais usado assim no Antigo Testamento. Jesus nos revela a ternura de Deus comunicada para ser caminho da oração. Santificar o nome de Deus é fazê-Lo conhecido. É uma dimensão missionária. Conhecer resulta em anunciar. O Reino que chamamos é o próprio Jesus e seu Espírito que se manifestam. Lucas não diz “seja feita a vossa vontade”, pois usa um texto mais primitivo. A seguir apresenta três pedidos para as necessidades cotidianas: O pão de cada dia. Também se refere ao pão da Palavra e ao Pão da Eucaristia que são simbolizados pelo pão cotidiano; o perdão dos pecados é a promessa de Deus para a remissão total, dom do Espírito Santo; ser livre da tentação é ser livre do mal pelo dom do Espírito. O Pai-Nosso, abraço querido no Pai chamado de Paizinho, é o caminho da oração. O que devo rezar? O Pai Nosso. O perdão que pedimos está ligado ao perdão que damos. A oração passa pelo perdão.

Pedi com insistência

         Jesus narra a parábola do amigo inoportuno para ensinar a perseverança na oração. Deus não retarda na resposta e atende imediato. Se nos parece demorada a resposta, lembremos que ela é o abraço do Paizinho. Que mais precisamos além de estar em afeto com o Pai? Se nos deu Jesus, que mais precisa nos dar? (Rm 8,32). Temos tudo ou podemos dizer: com Ele temos todas as soluções porque com Ele saberemos viver. Abraão pechinchou com Deus tentando evitar a destruição de Sodoma. O importante é o diálogo com Deus.  Que criança não é atendida quando vem manhosamente pedindo ao paizinho alguma coisa. A insistência e a perseverança são partes integrantes da oração. É comum se ouvir que “Deus não me atendeu. Então fui procurar outro rumo”. Na verdade o Pai atende sempre. O que acontece é que não esperamos que atenda. Às vezes não prestamos atenção na resposta. É preciso fé e confiança. Quem pede com confiança pode ter certeza que já o recebeu. O Salmo nos leva a rezar: “Naquele dia em que gritei, Vós, Senhor, me escutastes… (Sl 137). Por isso vale a pena bater, insistir e procurar.

O Pai não dá uma pedra

         A parábola continua com uma conclusão na qual Jesus afirma que Deus sabe atender muito melhor do que nós. Sendo Pai bom, não vai dar uma pedra a um filhinho que pede um pão nem uma cobra a quem pede um peixe nem um escorpião a quem pede um ovo. Três alimentos importantes não faltarão aos filhos. O Pai é muito bom. Nós, em nossas fragilidades e maldades, sabemos dar coisas boas aos nossos filhos. Quanto mais o Pai que é bom, dará o Espírito Santo aos que O pedirem. Dá mais do que precisamos quando pedimos. Dá o Espírito Santo que nos dará todos os dons. Por que repetimos sempre as orações na liturgia. O importante é o vigor da perseverança.

Leituras: Genesis 18,20-32;Salmo 137; Colossenses 2,12-14; Lucas 11,01-13

Ficha nº – Homilia do 17º Domingo Comum (24.07.16)

  1. Jesus ensina a rezar dando-nos sua oração que preenche toda a necessidade e riqueza. A base da oração é a ternura do Pai e do filho que o acaricia com o Abbá.A oração do Pai Nosso contém tudo o que precisamos: o Espírito Santo.
  1. A oração deve ser insistente e perseverante. A demora da resposta se justifica na ternura do diálogo com o Pai. Abraão foi insistente com Deus. Nem sempre esperamos a resposta de Deus ou entendemos que já respondeu.
  1. O Pai atende melhor do que nós que somos maus. Não faltará nada ao filhinho. 

         Sujeito chato! 

         O tema da liturgia do 17º domingo comum é a oração. Os discípulos disseram: “Mestre, ensina-nos a rezar, como João ensinou seus discípulos.

Jesus era um homem de oração e dava testemunho de sua oração. Jesus lhes passa sua experiência pessoal de oração, mais ainda, passa sua oração para que eles a façam. Rezar é unir-se a Jesus em sua oração.

         A seguir Jesus conta a parábola do amigo chato. Quer pão emprestado e não desiste enquanto não o recebe. A oração não é um discurso bonito para Deus, mas um pedido insistente até incomodar.

         É o que vemos no diálogo de Abraão com Deus para livrar Sodoma da destruição. Como todo oriental, “negocia” com Deus. É a lição da persistência. Deus quer ser incomodado para que esteja mais tempo conosco. Oração não é para ter coisas, mas para ter Deus.

         A oração de Jesus implorando para ser livre da morte foi ouvida por Deus dando-Lhe o alívio do sofrimento, mas a glorificação pela ressurreição.

         Nossos pedidos a Deus não caem num coração maldoso, e sim, no coração bondoso do Pai que não dá pedra a quem pede um pão, não cobra se pede um peixe. Não dá escorpião se pede um ovo. O Pai é bom demais.

         Por isso podemos dizer: Ó Senhor, de coração e

u Vos dou graça, porque ouvistes as palavras de meus lábios (Sl 137). Pedimos ainda que Deus leve a cabo a obra que iniciou em nós. Afinal, a obra é Dele.

         Batamos à porta, com insistência. Ela será aberta sempre

 

nº 1563 – Artigo  “A Família e sua realidade”

  1. Situação atual da família

Papa Francisco em seu ensinamento, chamado Alegria do Amor, pretende tocar os pontos mais importantes da realidade familiar. Ele tem larga experiência e se assessorou muito bem para escrever, sobretudo ouvindo os dois Sínodos sobre a Família. Vamos refletir agora a situação atual da família. Temos experiência disso. Lembrando o Vaticano II relembra as mudanças que ocorreram na família. Muita coisa melhorou, mas outras pioraram. Há uma tendência ao individualismo a ponto de levar a família a ser um lugar de passagem aonde se vai só por interesses. Como cristãos, continuamos a propor e defender matrimônio, pois estaríamos privando o mundo de valores que podemos e devemos oferecer. Temos defeitos e damos exemplos contrários aos princípios que pregamos. Ou pregamos fora da realidade. Não basta impor uma doutrina e uma moral, distantes da realidade, esquecendo-nos dos aspectos humanos. É preciso ensinar a graça que o matrimônio carrega em si. Graças a Deus, acentua o Papa, há tantos elementos positivos, tanto humanos quanto da graça da penitência e da Eucaristia. Em alguns países temos ainda os bons aspectos da tradição. Há também que advertir sobre a decadência cultural que não promove o amor e a doação. É a “cultura do provisório”. Com facilidade muda-se de amor. Desconecta-se com facilidade, diz Papa Francisco. Tudo é descartável (AL 31-439).

  1. As culpas do mundo

             A situação familiar depende muito das ideologias e das situações sociais. Há uma cultura que impede os jovens de não formar uma família. Há um adiamento das núpcias devido aos problemas econômicos, de estudo ou de trabalho. Outros desvalorizam a família. É preciso, diz o Papa, animar os jovens (AL 40). Temos o risco da afetividade narcisista e instável promovidos pelo uso indevido da internet. As crises conjugais são enfrentadas de modo apressado deixando de lado os valores da coragem, paciência, perdão e até o sacrifício (AL 41). A queda demográfica causa uma mentalidade antinatalista promovida pelas políticas mundiais. Ter filho, para alguns, é arranjar problema. A Igreja rejeita as decisões dos Estados de promover a contracepção, a esterilização e o aborto (AL 42). O enfraquecimento da fé e da prática religiosa em algumas sociedades, afeta as famílias deixando-as ainda mais só com as suas dificuldades. As famílias se sentem abandonadas. A presença de idosos passa a ser um peso. O Estado tem obrigação de criar as condições para garantir o futuro dos jovens para construírem suas famílias (AL 43).

  1. Dificuldades do dia-a-dia

            A família além das situações globais da sociedade,            encontra os problemas que ferem ferem a carne: dificuldades de habitação, o que causa muita dor e preocupação. A família tem seus direitos, pois cumpre os deveres dos impostos. Daí os problemas dos serviços adequados de saúde, de emprego, de educação, de acesso à vida cultural e social ativa. Tudo reflete na família (AL 44). Os países são ricos, mas usam os bens só para os privilegiados. Tudo isso é sabido, mas não sai do lugar. Soma-se a isso a problemática dos filhos nascidos fora do casamento, crescem sem um dos pais, são explorados pelos abusos dos pervertidos, caem na criminalidade (AL 45). As famílias sofrem com a migração tanto interna no país como externas. O Estado e das Igrejas que não se preocupam. Some-se a isso a situação dos deficientes e idosos a serem cuidados. Lembra o Papa das famílias que caíram na miséria e no abandono. A Igreja tem que se constituir em socorro e promoção (AL 46-49). É preciso uma atitude corajosa para mudar.01

nº 1562 – Homilia do 16º Domingo Comum (17.07.16)

“Encontro com Deus”

Sabia ser amigo

Os evangelhos sempre nos apresentam Jesus ensinando com sua própria vida. É um caleidoscópio que sempre oferece uma face nova. A temática apresentada hoje é a hospitalidade e seus frutos. Lemos a misteriosa narrativa da visita dos três personagens a Abraão. Este os recebe com todas as honras orientais devidas a um hóspede. A hospitalidade tem o sentido de uma visita Divina. O texto é de difícil de interpretação. Na liturgia deste domingo é usado aqui para acompanhar o texto da visita de Jesus à casa de Marta e Maria. Esta visita, já costumeira, se reveste de um ensinamento profundo: acolher Jesus em sua vida está acima de todas as preocupações. É o convite a ir ao único necessário que não nos será tirado. Não se trata de um desleixar-se das coisas necessárias à vida, mas de dar-lhes o sentido de abertura ao encontro com Deus. Abraão realizou um intenso cerimonial de acolhida para colocar em ação a presença de Deus que o animava. Sair de si para acolher é já um anúncio da presença de Deus em nós. É o que ocorre com Marta e Maria. Maria acolhe Jesus e Marta O acolhe também, mas através de coisas que desviam do sentido de sua visita: estar com Ele. Abraão “permanece de pé junto deles debaixo da árvore enquanto comiam” (Gn 18,8). Ao terminarem o encontro, um deles deixa a promessa de um filho a Sara que ri por isso quando Isaac nasce, Sara diz: “Deu me deu motivo de sorrir” (Gn 2,16). Ela já passara da idade de ter filhos. À Marta Jesus diz: “Marta, você vive muito atarefada com as coisas. Uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10,41-42). O fruto mais precioso é estar com Jesus ouvindo sua palavra e participando de sua convivência. Isso é vitalidade.

Quem morará em vossa casa

         O que significa habitar a casa de Deus como rezamos no salmo? A morada Divina não é algo exterior, mas viver na presença de Deus que habita nosso coração. O sinal da presença de Deus, isto é, “morar em sua casa”, é viver as condições propostas pelo salmo 14. Estas se referem ao respeito ao outro na justiça, na verdade, no respeito sem exploração. Fruto dessa habitação: acolher Deus gera uma descendência de vitalidade. Os frutos de Deus são perenes. Isaac é o filho da promessa, como uma recompensa da hospitalidade de Abraão. Essa promessa culminará no Filho da promessa que é Jesus do qual Isaac é uma imagem. Jesus sendo acolhido por Maria e Marta continua na missão de ser o Hospede que chamamos de Hóspede de nossa alma. Aqui somos convocados a dar espaço a uma escuta privilegiada de Jesus. Esses momentos de intimidade com o Senhor vão além e permanecem como um lugar onde podemos nos refugiar nos momentos quentes da vida, como ocorreu com os três homens.

Corpo sofredor.

Cristo Jesus exerce a hospitalidade para conosco, unindo-nos a seu corpo. No Corpo de Cristo não participamos somente das riquezas de Cristo e dos membros. Estamos unidos também a seus sofrimentos. Paulo se alegra pelo que sofreu por Cristo para completar em sua carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com seu corpo, isto é, a Igreja (Cl 1,214). Cristo exerce uma hospitalidade de nos acolher em seu Corpo, a Igreja. Exercemos a hospitalidade quando acolhemos aos sofrimentos dos outros participando deles. O sofrimento é momento do encontro amoroso com Deus em Cristo. Nossa união a Cristo cobra de nossa parte esse “sofrimento” de serenar nosso coração.

Leituras: Genesis 18,1-10; Salmo 14; Colossenses 1,24-28;Lucas 10,31-42 

Ficha nº 1562 – Homilia do 16º Domingo Comum (17.07.16)

  1. A temática de hoje é a hospitalidade e seus frutos. Jesus hospeda-sena casa de Lázaro, Marta e Maria. A primeira leitura aprofunda a reflexão com a visita dos três personagens a Abraão. A hospitalidade é acolher o próprio Deus. Ela produz frutos.
  1. O salmo convida a morar na casa de Deus que será viver na presença de Deus que habita nosso coração. Para isso é preciso viver as condições de relacionamento com o outro na justiça e na verdade. A hospitalidade gera uma recompensa a Abraão e Marta e Maria.
  1. Cristo exerce hospitalidade para conosco unindo-nos a seus sofrimentos. Acolhendo os sofrimentos de nossos irmãos, estamos unidos ao Corpo de Cristo que é a Igreja. 

         O salário do descanso 

         O evangelho que narra a visita de Jesus à casa de Lázaro, Maria e Marta é um retrato do ser humano de Jesus. Ele era gente como nós. Ser Deus para Ele combinava com sua condição humana.

         Jesus tinha amigos e sabia ser amigo. Tinha liberdade de hospedar-se na casa desses amigos. A convivência com Ele devia ser muito gostosa. Era muito proveitoso papear com Ele. Quando Deus cria o sábado para o descanso do homem, incluiu nesse descanso, descansar em Deus.

         Não existe em Jesus uma falsa mania de dizer que repousar é perda de tempo. Todos nós gostamos. Jesus quer mais que isso. Quer também que repousemos com Ele.

O repouso dá abundantes frutos. Abraão foi hospitaleiro e recebeu com grande atenção os Três Homens (Anjos) que passaram por sua casa. Fez o melhor que podia. Abraão descansou ao dar repouso às três misteriosas personalidades. Eles descansaram da viagem e Abraão descansou em Deus.

         Jesus visita seus amigos e se hospeda em suas casas. Marta estava atarefada com a preparação da comida. Maria conversava com Jesus e se alimentava de suas palavras. Marta reclama da irmã. Jesus não nega a importância do trabalho, mas estar com Ele é muito mais importante. É como a dizer: vamos conversar, depois vamos juntos trabalhar.

         Quem não sabe descansar em Deus, jamais terá um repouso frutuoso.

 

nº 1561 – Artigo  “Matrimônio à luz da Palavra”

  1. Feliz quem teme o Senhor

            Para iniciar a reflexão sobre a Palavra de Deus como luz para a família, o Papa Francisco medita o Salmo 128, característico da liturgia nupcial: “Feliz quem teme o Senhor e segue seus caminhos”. Lembra que a Bíblia está cheia de famílias, gerações, histórias de amor, de crises familiares, desde Adão e Eva… até as últimas páginas do Apocalipse” (AL 8). No Genesis, o casal é o centro de uma história de amor: “Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá a sua mulher, e eles serão uma só carne” (Gn 2,24). Os três primeiros capítulos da Bíblia oferecem-nos a representação do casal humano em sua realidade fundamental. São três elementos: O casal é imagem de Deus, não cada um individualmente. Como Deus é criador, a fecundidade do casal é imagem viva e eficaz, sinal visível do ato criador. O casal que ama e gera a vida, é a verdadeira “escultura” viva, capaz de manifestar o Deus criador e salvador. No casal se desenrola a História da Salvação. “Torna-se uma imagem para descobrir e descrever o mistério de Deus”. “A Trindade é comunhão de amor, e a família, o seu reflexo vivente”. Adão sente solidão e não encontra solução nos animais. Deus não é solidão. É comunhão do Pai, Filho e Espírito. É comunhão não de palavras, mas o Tu que dialoga no amor e entrega: “O meu amado é todo meu e sou toda dele” (Ct 22,16). Deste encontro surge a geração da família. A união não é só corpórea, mas doação voluntária de amor, genética e espiritual (AL 9-13).

  1. Filhos, brotos de oliveira

            Junto aos pais estão os filhos lembrando a energia e a vitalidade. São pedras vivas dessa construção. Filho é a plenitude da família. Atualmente parece um peso, mas isso passa. Além da beleza humana, a família é a igreja doméstica. Papa Francisco escreve: “O espaço vital de uma família transforma-se em igreja doméstica, em local da Eucaristia, da presença do Cristo sentado à mesa” (AL 15). É na família que se dá a primeira catequese. Os judeus conservam essa mentalidade, sobretudo quando transmitem o sentido de sua vida aos filhos durante a celebração da ceia Pascal. Francisco diz: “A família é o lugar onde os pais se tornam os primeiros mestres da fé para seus filhos. É uma tarefa ‘artesanal’ – pessoa a pessoa. Cita: ‘E quando teu filho, amanhã, te perguntar … tu lhe dirás’” (Ex 13.14). Não se pode relegar a catequese somente para as aulas de catecismo. Ela deve partir dos fatos da vida. É na família que vai discernir o futuro. Os filhos são filhos de Deus. Os filhos têm o direito de conhecer Deus, seus caminhos e fazer suas escolhas.

  1. 1755. Entre cruzes e dores

A Bíblia “aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares” (AL 8) e a partir deste dado se pode meditar como a família não é um ideal abstrato, mas uma tarefa “artesanal” (AL 16) que se exprime com ternura (AL 28), mas que se viu confrontada desde o início também pelo pecado, quando a relação de amor se transformou em domínio (AL 19). Então, a Palavra de Deus “não se apresenta como uma sequência de teses abstratas, mas como uma companheira de viagem, mesmo para as famílias que estão em crise ou imersas em alguma tribulação, mostrando-lhes a meta do caminho” (AL 22). O documento ensina também a dignidade do trabalho do homem e as dificuldades que deve suportar. A doação de vida dentro da família cumpre a Palavra: “Não tem maior amor do que aquele que d a vida pelos amigos” (Jo 15,13). A ternura rege a vida familiar em todos os aspectos. A família cristã se torna o primeiro evangelho sobre o amor de Deus e de seu Filho que nos remiu. Esse amor é ação do Espírito.

nº 1560 – Homilia 15º do Domingo Comum (10.07.16)

“Jesus, o bom samaritano” 

Jesus se apresenta

            Jesus, em sua caminhada para Jerusalém para cumprir o desígnio do Pai, instrui seus discípulos. Acontece que um homem lhe pergunta o que deve fazer para merecer a vida eterna. Jesus pergunta o que diz a Lei? Ele recita o mandamento do amor a Deus e ao próximo. “Respondeste bem”, disse Jesus. O homem pergunta: “E quem é meu próximo?” Jesus então conta a parábola sobre o homem que descia de Jerusalém a Jericó e foi assaltado, ferido e abandonado no caminho. Passam três pessoas. Duas delas são importantes: o sacerdote e o levita. Olham e passam adiante. O sacerdote era quem explicava a lei que proclamava a caridade. O levita era responsável pelo culto. O samaritano era o impuro por sua condição de herético com respeito a Israel. Ele não passou adiante. Parou, sentiu compaixão, tratou do homem. Depois colocou no seu cavalo, levou para uma pensão, cuidou e, na hora de ir adiante, deixou dinheiro para os cuidados e promete volta para completar o necessário. Suas atitudes são as mesmas de Deus para com seu povo. Jesus faz a pergunta: “Quem é o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? “O que usou de misericórdia”, responde o homem. Esse quadro nos alerta para a caridade para com o próximo. Somos o próximo dos necessitados.

Jesus é o modelo

            Na parábola há um ensinamento fundamental para a vida cristã. Mais que um ensinamento é uma explicação sobre o que vai acontecer em Jerusalém. Dizemos parábola do bom samaritano. O bom samaritano é o que se faz próximo de cada pessoa. Jesus é o Bom Samaritano. Os gestos desse homem explicitam as atitudes de Jesus em seu caminho de redenção. Desceu do Céu, se encarnou, sentiu compaixão da humanidade caída e ferida sem solução, tomou-nos nos seus braços e carregando a cruz nos redimiu para a vida. Ele se fez o próximo de todos nós assumindo nossas dores. Por suas chagas fomos curados (1Pd 2,24). Seu ministério de ensinamento e culto não se identificam com o sacerdote e o levita que passam ao lado. Toda a Palavra conduz para o amor. O culto só será autêntico se for acompanhado da caridade, como lemos também nos profetas. Ao encerrar a parábola Jesus pergunta quem é o próximo do homem que fora ferido. O mestre da lei responde: “Aquele que usou de misericórdia para com ele” (Lc 10,37). Jesus não responde à pergunta quem é meu próximo, mas afirma que eu sou o próximo de cada pessoa que sofre. Ele se fez o próximo de todos nós, assumiu sobre si nossa realidade pecadora.

Vai e faze a mesma coisa (Lc 10,38).

A compreensão da parábola está nestas palavras de Jesus: “Vai e faze o mesmo”. Para isso é preciso ter entranhas de misericórdia. É muito mais fácil fazer uma religião de fachada usando o culto, a palavra vazia de vida. O homem que quis provocar Jesus era um mestre da lei. Conhecia a Palavra de Deus. A religião verdadeira é cuidar dos órfãos e das viúvas em suas necessidades (Tg 1,27).  Continuamos vendo a busca do prazer espiritual que nunca sacia. Essa lei do amor não está distante de nós como algo impossível e reservado a poucos. Rerá descer de nossas falsas seguranças e pegar o caminho de Jesus sua entrega total. Paulo nos mostra que esse Jesus Cristo que se abaixa é Deus, cabeça de tudo. Assumiu humanidade para reconciliar consigo todos os seres (Cl 1,20). Não se pode perder de vista que somos bons não pelo cargo que ocupamos nem pela sabedoria que temos, mas porque temos a capacidade de sermos próximos de todos. Isso vai nos dar a paz

Leituras: Deuteronômio 30,10-14; Salmo 18b; Colossenses 1,15-20; Lucas 10,25-37.

Ficha nº – Homilia do 15º Domingo Comum (10.07.16)

  1. Jesus narra a parábola do samaritano que cuidou do homem ferido. Quem é o próximo? O samaritano foi o próximo do homem ferido. Somos o próximo dos necessitados.
  1. Os gestos do samaritano lembram as atitudes de Deus para com o povo sofrido. Jesus foi nosso samaritano. Ele teve compaixão e tomou atitudes concretas encarnando-se e assumindo nossas dores e nos curando.
  1. Jesus diz ao homem que ele respondera bem: Vai e faze o mesmo. Para seguir Jesus é preciso ter entranhas de misericórdia. Esse Jesus misericordioso é Deus, cabeça de tudo e em seu corpo reconciliou todas as coisas. 

Serviço de saúde com segurança 

            Os donos do poder religioso e político do tempo de Jesus estavam sempre procurando um jeito de pegá-lo em alguma palavra. Faziam armadilhas perigosas.  Mas Jesus era mais esperto. Sempre tinha uma resposta completa que ia além do que queriam. Tentaram de todos os jeitos no campo espiritual, político e jurídico. Lembramos o caso do tributo a Cesar. O que dissesse dava errado. Mas deu certo.

            No evangelho desse domingo, lemos que armam para pegá-lo pelo lado religioso. Querem saber de Jesus qual era o fundamento de toda a lei de Deus. Uns diziam que eram os sacrifícios, outros a Palavra e outros pontos. O mestre da lei, isto é, o entendido nas coisas da lei de Deus, faz a pergunta sobre o que devia fazer para ter a vida eterna.

Jesus responde perguntando: “O que a Bíblia diz?” Ele responde: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração… e teu próximo como a ti mesmo”. É isso aí mesmo, responde Jesus. Para complicar, o homem ainda diz: E quem é meu próximo?

            Jesus conta a parábola do bom samaritano que já conhecemos bem. Um homem é assaltado, ferido e abandonado na estrada. Passa um sacerdote do templo; olhou e foi embora;  passou uma pessoa religiosa; olhou e passou. Veio o “mau” que era o samaritano, odiado pelos judeus. Viu, sentiu compaixão, desceu do cavalo, fez os curativos, pôs no seu cavalo, levou para a pensão, cuidou, deixou dinheiro para que fosse cuidado e voltou para terminar sua caridade. Quem foi o próximo? Aquele que cuidou, respondeu.

            Jesus ensina que nós somos o próximo de quem precisa. Os outros não são os próximos. Somos nós. Jesus foi o bom samaritano que desceu dos céus, cuidou da criatura ferida pelo pecado, pôs nas costas com a cruz, e cuidou de nós até o extremo.

            Deus sempre se abaixa para cuidar de nós com carinho.

            A liturgia ensina que a lei do amor é fácil de ser cumprida. Unidos a Jesus continuamos sua missão no corpo Dele que é a Igreja.

            Para ir para o Céu é preciso fazer caridade. Sem isso, pode tirar cavalo da chuva.

 

nº 1559 – Artigo  “Alegria do Amor”

  1. De amor para o amor

            No dia 19 de março de 2016, Papa Francisco apresentou uma “Exortação Apostólica Pós-Sinodal” sobre o amor na família cujo nome é “Amoris Laetitia”, isto é, Alegria do Amor. Do amor pela família a Igreja se dedica à preservação e animação da vida familiar na qual se realiza o amor de Deus manifestado através do amor humano. Papa Francisco diz que “o caminho do Sínodo dos Bispos permitiu analisar a situação das famílias no mundo atual, alargar a nossa perspectiva e reavivar a nossa consciência sobre a importância do matrimônio”(AL 2). Nesse documento de nove capítulos com 325 parágrafos, procura tratar todas as dimensões do tema. Entra em temas polêmicos que provocam discussões. Para escrever o documento, além de seu ministério de Guia da Igreja, traz sua experiência de trabalho direto com o povo. Além disso, acolheu as resoluções dos dois sínodos sobre a família acontecidos recentemente. Buscou também ensinamentos de Conferências Episcopais do mundo, de personalidades, como Martin Luther King e até de um filme “A Festa de Babette”, que o Papa recorda para explicar o conceito de gratuidade. Alerta no nº 2, que alguns “têm um desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão” e “a atitude dos que pretendem resolver tudo através da aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de reflexões teológicas”. Na introdução diz: “Além da necessidade de unidade de doutrina, é preciso ver que em cada país é possível buscar soluções mais inculturadas atentas às tradições e aos desafios locais” (AL 3).

  1. O caminho de uma reflexão

            Um dos caminhos para a leitura do documento Alegria do amor é a celebração do Jubileu da Misericórdia. O ponto de partida para entender o matrimônio e vivê-lo é a misericórdia. Temos que ter por certo que misericórdia não se reduz a ter dó ou procurar resolver os problemas dos sofredores, mas é uma “proposta de vida para as famílias cristãs”. O Papa se dirige à família e não só a problemas de casais. Quer em primeiro lugar estimular a “apreciar os dons do matrimônio e da família e a manter um amor forte e cheio de valores como a generosidade, o compromisso, a fidelidade e a paciência”. Em segundo lugar “se propõe a encorajar todos a serem sinais de misericórdia e de proximidade para a vida familiar, onde esta não se realiza ou não se desenrole em paz e alegria” (AL 5).

  1. Passos do documento

            No parágrafo seis, Papa Francisco apresenta as divisões do documento. Ele inicia a reflexão pelas Sagradas Escrituras. Inspirando-se na Palavra de Deus, passa a considerar a situação atual das famílias para “manter os pés no chão”. Belo pensamento de Francisco que quer falar às pessoas vivas e situadas, não a uma família que não existe. A seguir busca alguns elementos essenciais da doutrina da Igreja. Seguem dois capítulos centrais dedicados ao amor. O matrimônio não é um sacramento que se conhece somente a partir do direito e das leis, mas do amor. Nos próximos três capítulos dedica-se aos aspectos pastorais do matrimônio que levem a construir famílias sólidas e fecundas segundo o plano de Deus e à educação dos filhos. Continuando faz um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral perante situações que não correspondem ao que o Senhor nos propõe. Por fim traça breves linhas de espiritualidade familiar. No parágrafo sete dá orientações para fazer a leitura com proveito. É um documento amplo e que exige muita atenção. Espero que as breves reflexões que fazemos nos ajudem a ler o documento

nº 1558 – Homilia da festa de Pedro e Paulo (03.07.16)

“Pilares da Igreja” 

Fé para evangelizar

            A leitura dos Atos dos Apóstolos e da 2ª epístola a Timóteo narra o sofrimento e a fortaleza de Pedro e Paulo. Por serem discípulos de Jesus foram perseguidos. Em sua fé encontraram força na certeza da presença de Jesus. Paulo diz: “O Senhor esteve ao meu lado e me deu forças” (2Tm 4,17). Pedro tem o mesmo sentimento: “Sei que o Senhor enviou o seu anjo para libertar-me do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava” (At 12,11). A fé é a garantia dessa certeza: “Tu és o Messias, Filho de Deus vivo”, diz Pedro (Mt 16,16). Paulo proclama: “Combati o bom, combate, completei minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7). A missão dos dois apóstolos não é só uma obra apostólica, mas fruto de uma fé. Esta fé não é uma atitude primeiramente humana, mas vem do próprio Pai. Jesus o afirma: “Feliz és tu, Simão, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está nos céus” (Mt 16,17). O fundamento de toda a fé é o dom do Pai, acolhido pelo homem. Isto porque a fé supõe também a condição humana. Jesus afirma categoricamente: “Por isso Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Id 18). Aqui tem um jogo de palavras: Pedro e pedra são a mesma palavra em hebraico – Cefas. A fé está em uma pessoa. Lembramos que Jesus se encarnou na “humanidade” e os sacramentos têm a parte material, por exemplo, o pão e o vinho, a água etc… Por isso temos a missão de Pedro que é continuada pela Igreja, tendo Pedro, o Papa, como cabeça. O modo de o Papa ser Papa, varia de acordo com os tempos. Cada Papa nos abre uma compreensão de um aspecto de seu ministério. Nenhum Papa é igual ao outro, mas todos continuam a missão de Pedro de confirmar na fé (Lc 22,32).

Um modo de viver da Igreja

Entre os muitos ensinamentos da festa dos dois apóstolos, podemos refletir a partir de sua missão que é a unidade de fé missão de Cristo na diversidade. A unidade se faz na fé. A mesma fé em situações diferentes traz um modo de ser Igreja. Esta não se fixa nas formas, mas no dinamismo da fé. Havia uma grande questão que incomodava as comunidades: “Os cristãos provindos do paganismo deveriam praticar a lei judaica?” Foi definido pelos apóstolos que os judeus convertidos seguiriam a lei de Moisés e as tradições e crendo em Jesus como Messias. Os gentios não teriam obrigação de seguir os preceitos da tradição judaica, mesmo sendo cristãos. São dois modos de ser Igreja. O modo judeu durou algum tempo. É importante para a Igreja abrir às pessoas o conhecimento de Jesus para que lhes seja dada a fé como foi dada a Pedro. Mas deve-se estar atento à diversidade das culturas para que não se atrele a fé a uma cultura, como aconteceu por séculos. Não se nega o valor da cultura de romana, mas as culturas dos povos também têm grandes valores. Esse é o ensinamento do Vaticano II no documento Ad Gentes sobre a missão (AG nº 10 e 22).

Viver a fé na adversidade

            A liturgia do dia lembra um resultado da pregação dos apóstolos e ao mesmo tempo indica como devemos viver: “Concedei-nos viver de tal modo na vossa Igreja que, perseverando na fração do pão e na doutrina dos apóstolos e enraizados no vosso amor, sejamos um só coração e uma só alma” (Pós-Comunhão). Viver a fé exige que a vida de comunidade seja completa acolhendo a Palavra, formando a comunidade, unindo-se na oração e na festiva fraternidade. Não existe uma fé só para si. Cremos e entramos em um corpo que é a Igreja. Pedro, por ser mais próximo de nós, é mais conhecido que Paulo.

Leituras: Atos dos Apóstolos 12.1-11;Salmo 33; 2 Timóteo 4,6-8.17-18;  Mateus 16,13-19.

Ficha nº 1558 – Homilia da festa de S. Pedro e S. Paulo (03.07.16) 

  1. Os apóstolos Pedro e Paulo são perseguidos, sofrem, mas sentem a força na fé em Jesus. Sua fé subsiste em sua condição humana. O Papa continua a missão de Pedro de confirmar na fé.
  1. Pedro e Paulo tiveram a mesma missão e a realizaram de modo diferente levando em conta a condição dos cristãos vindos do judaísmo e do paganismo. A Igreja deve estar atenta à diversidade de culturas como ensina o Vaticano II.
  1. A fé que recebemos nos leva a viver o espírito da comunidade primitiva que estava firme nos ensinamentos dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. 

            Dois homens e um mundo 

             A festa de S. Pedro e S. Paulo, reunindo estes dois pilares da Igreja, ressalta a unidade da missão de Cristo na diversidade das situações. É uma visão ampla e aberta a todos os povos.

Jesus não abandonou o povo da antiga aliança. Por isso confiou a Pedro sua evangelização.  Ele proclamou para os judeus Jesus como realizador das promessas.

Paulo, não abandonou a tradição dos pais, pois realizou a missão do povo de Deus anunciando o Messias. Deus fez um povo para chegar a todos os povos, e não para que todos os povos chegassem a esse povo.

Ensinamento dos dois apóstolos é um caminho de espiritualidade. Mesmo no sofrimento têm a presença de Jesus, pois assumiram sua vida e sua missão, continuavam o ministério, vivendo seu mistério.

Celebrar os dois apóstolos é constituir comunidades completas perseverando na fração do pão e na doutrina dos apóstolos, enraizados no amor, tendo um só coração e uma só alma (Pós-comunhão).

Como colunas da Igreja, souberam equilibrar o edifício feito de pedras vivas com duas tendências diferentes. A Igreja se estabeleceu no mundo pagão e no mundo judeu

Os dois apóstolos nos dão as primícias da fé (prefácio): Temos o fundamento na profissão de fé de Pedro e no combate de Paulo pela fé. Somos chamados a derrubar as barreiras e manter a unidade. E sejamos fiéis.

 

nº 1557 Artigo –  “A festa do povo”

1747 –  Gente de Deus e do povo

            No mês de junho e julho temos as festas populares que foram trazidas pelos colonizadores e assumidas com gosto pelas populações. São festas que honram três santos queridos do povo: Antônio, João Batista e Pedro. Estas festas são propícias para aumentar a vida da comunidade. Isso nos traz uma reflexão oportuna sobre a piedade popular, as devoções e ritos do povo. Há os que condenam por seu aspecto folclórico. Outros por um falso intelectualismo. Outros condenam por uma indevida interpretação da Palavra e por um biblismo fundamentalista. Junto a essas festas devemos colocar o modo de viver a fé no meio popular. Por que existe devoção popular? Com a dificuldade de entender a linguagem litúrgica e sem a devida formação, o povo procurou um modo mais compreensível de viver a fé, salientando a devoção aos santos, a Maria e aos mistérios de Jesus em sua dimensão humana. Surgiram muitas devoções e algumas foram infectadas de superstições. Esse modo de ser contribuiu para manter viva a fé do povo (Documento de Aparecida – 37.43). Papa Bento XVI chama a religiosidade popular de “rico tesouro da Igreja católica na América Latina” e convidou a promovê-la e protegê-la. E também “dar a catequese apropriada que acompanhe a fé já presente na religiosidade popular (DA 300). Não podemos desprezar a fé do povo pois ela também vem de Deus. O modo de expressar pode ser purificado, mas não anulado. Algumas coisas devem ser revistas, como por exemplo, uma promessa que é atrapalhada.  A pessoa fica doente e não pode fazer o que prometeu. E daí?

1748 – O santo é gente como nós

            O culto aos santos se distingue do culto a Deus. A Deus adoramos. À Virgem Maria temos um culto de hiperdulia, isto é, grande veneração. Aos Anjos e Santos temos a veneração, reconhecendo suas virtudes e pedindo intercessão. Jesus é o único mediador, Maria e os santos são intercessores na mediação suplicante. Os santos são pessoas normais como nós que viveram em profundidade sua fé e foram reconhecidos em vida e operam milagres por sua intercessão. Por que não ir direto a Deus? Já na sociedade usamos mediadores e intercessores, pessoas que nos ajudam. Como todos nós, vivos e mortos estamos unidos ao Corpo de Cristo. Como um corpo tem todos os membros unidos e vivem uma única vida. S. Paulo explica a união de todos em Cristo a partir da imagem do corpo. Assim também acontece com Cristo diz S. Paulo. “Vós sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte” (1Cor 12,12.27). Como os membros estão unidos e se ajudam, podemos receber ajuda uns dos outros, também na oração, pois rezamos uns pelos outros. Os santos nos ajudam e nós rezamos a eles unidos a Cristo. Os santos continuam gente como nós no estado de glorificação. Somos um corpo, uma família, uma Igreja.

1749 – Com os anjos e santos

Na festa do povo reconhecemos a presença de Deus que une seus filhos num único amor alimentados pela fé. Essa união se faz pelo amor que se vive. A Igreja de Deus foi sempre aberta. Participamos da glória dos santos e dos anjos quando estamos unidos pela fé em Cristo. A evangelização não é cortar o que existe, tirando a pessoa de sua cultura e da realidade. Convém anunciar o evangelho puro. Esse evangelho deve salientar Cristo Salvador de todo homem, misericordioso com os fracos e pobres. Ele reconhece os seus quando praticam o amor e o cuidado com os necessitados. Não tenho uma vida santa, se não cumpro o mandamento do amor. Preservar a piedade popular é aumentar a fé do povo.

nº 1556 – Homilia 13º Domingo Comum (26.06.16)

“Seguimento de Cristo” 

Seguir-Te-ei

            Jesus era decidido, como escreve o evangelista Lucas: “Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (Lc 9,51). Era firme em suas decisões. E quer igualmente que seus seguidores sejam firmes na decisão. A primeira leitura narra a vocação de Eliseu. O profeta Elias lança o manto sobre ele para comunicar sua vocação como posse Divina. Eliseu imediatamente sacrificou sua junta de bois, assando-a com a madeira do arado. Decisão firme. No evangelho Jesus cobra também firmeza de decisão. Quais os que não servem para seguir Jesus? Tem um caminho claro que exige decisão e rompimentos. O primeiro grupo que não está apto a seguir Jesus é dos que não se dispõem ao desapego e sua liberdade. Mais sofridas que a vida foi sua paixão e morte. Outro tipo são os apegados às questões familiares. Jesus não está dizendo que se deve desprezar a família e seus negócios. Mas o Reino exige uma exclusividade. Mortos, aos quais Jesus se refere, não em sentido de desprezo, são os que têm compromissos que os envolvem e não permitem tempo para o Reino. Outro tipo são os apegos aos pais: “Deixa ir despedir-me de meus pais”.  O afeto é bom e deve ser dosado com a disposição de servir ao Reino. A resposta de Jesus mostra seu conhecimento da vida do campo. Quem não presta atenção no sulco do arado, não faz um serviço bem feito e atrapalha o trabalho. Jesus não é exigente. O que quer é exclusividade para o Reino. Ou tudo ou nada. Foi essa sua maneira de viver.

Espírito e carne

            Paulo insiste que Deus nos chamou para a liberdade. Não podemos nos amarrar com outro vínculo (Gl 5,1). O Apóstolo faz uma reflexão sobre a liberdade e a libertinagem. Temos liberdade para fazer todo o bem. Libertinagem não vem do bem, mas nos amarra como uma escravidão. Se for preciso força para sair de um vício, é sinal que nos escraviza. O amor não escraviza; o apego sim. E acrescenta que devemos proceder segundo o Espírito e não satisfazer os desejos da carne. Carne não é o dom de nossa natureza humana, mas o desvio. Carne significa aqui a oposição ao Espírito e também a prática externa da lei dos judeus que estava cheia de prescrições. Não se trata da Lei de Deus, mas das leis humanas que podem ser mudadas e não devem ser absolutizadas. Jesus era avesso a isso tipo de observância que chegava a anular a lei de Deus. S. Paulo luta contra os judeus por isso, inclusive enfrentou os outros apóstolos contra a lei da circuncisão que queriam impor aos pagãos. No concílio de Jerusalém vão definir: os pagãos convertidos não precisam seguir a lei dos judeus. Na Igreja está voltando a tentação de fazer leis para tudo. É o medo da liberdade. Paulo insiste que amor resume todas as leis (Gl 5,14).

Vós me ensinais o caminho

            Os samaritanos recusaram Jesus. Os discípulos João e Tiago querem uma vingança vinda do alto. O caminho de Jesus, contudo, é sempre composto pela misericórdia e pelo acolhimento. Já é uma escola e um caminho na evangelização para os discípulos. As imposições que não correspondem ao Reino devem ser eliminadas. E há muitas. Jesus nos dá a liberdade de viver bem em qualquer circunstância. O salmo 15 nos faz rezar e nos dispor sempre mais ao Reino de Deus. Somente a partir de um relacionamento com Deus podemos nos definir pelo Reino. A formação do povo na Eucaristia leva a essa opção.

Leituras: 1 Reis, 19,16b.19-21; Salmo 15; Gl 5,1.13-L18;Lucas 9,51-62 

Ficha nº – Homilia do 13º Domingo Comum (26.06.16)

  1. Jesus é decidido em seu caminho e cobra o mesmo dos escolhidos. Assim foi Eliseu. Jesus enumera os que não servem: os apegados aos afetos e não assumem.
  1. Paulo insiste que Deus chamou à liberdade. Entramos no jogo da carne e do Espírito. As leis humanas não podem predominar sobre a lei Divina que é o evangelho.
  1. O caminho de Jesus é a misericórdia e o acolhimento. Jesus nos dá a liberdade de viver bem em qualquer momento. O salmo 15 nos abre ao Reino. 

            Passarinho sem ninho 

            O seguimento de Jesus é fácil, só precisa de firmeza na decisão. De todos que queriam segui-Lo, Ele cobra decisão. Não se pode enrolar. As diversas situações mostram critérios de discernimento no seguimento. Podemos fazer a pergunta: ‘Quem não serve para seguir Jesus?’

 Primeiramente os que querem comodidade: “As raposas têm suas tocas e os pássaros têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Lc 9,58). A vida de Jesus não era moleza.

            Outro tipo que não serve para Jesus: “’Deixa-me primeiro enterrar meu pai’. Jesus respondeu: ‘Deixa que os mortos enterrem seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus’” (Lc 9,59-60). Parece grosseira essa resposta. Quem são os mortos que vão enterrar? São os outros familiares. Seu pai tem quem cuida dele. Jesus não despreza a obrigação dos filhos. O excessivo apego à família prejudica o seguimento. É bom saber que os filhos consagrados a Deus têm muito mais amor aos familiares.

            Outro tipo perigoso: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa que eu vá primeiro despedir-me dos meus familiares”. E Jesus responde com uma frase muito forte que mostra sua experiência: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus (Lc 9,61-62). Não se trata de uma indelicadeza com a família, mas Jesus não quer que fiquemos envolvidos com tantas coisas secundárias. Por que a comparação com o arado? Quem segura o arado deve estar atento ao sulco, pois senão fica tudo torto. A decisão tem que estar centrada em Jesus. Buscar muitas coisas ao mesmo tempo não ajuda.

            Vimos no início do texto que os samaritanos não querem receber Jesus. João e Tiago já querem jogar fogo neles. Conversão se faz no coração e não com raios. Quem segue Jesus tem que ter sua paciência.

            A escolha dos candidatos não é fácil. Elias escolheu Eliseu que correspondeu.

            Paulo nos ensina que temos liberdade, mas para fazer o bem e não desperdiçar com os desejos da carne, mas usar com o Espírito. O fundamental é a opção como rezamos no salmo 15. Amar será sempre um bom caminho.

 

nº 1555 – Artigo  “Uma mulher para hoje”

  1. Beata Maria Celeste.

            Quando se ouve dizer que uma pessoa é beata, tem um sentido de carola, chata, metida a religiosa, mas, na terminologia da Igreja referente aos Santos, é uma das maiores expressões da vida da comunidade cristã. A Igreja católica reconhece que a vida dessa cristã foi heróica nos seus múltiplos relacionamentos na comunidade. Não elimina que tenha tido pecados, mas que teve força vencê-los com a graça de Deus. Sua vida foi analisada em tudo, foi comprovada sua virtude e demonstrada sua oração poderosa diante de Deus a ponto de se realizar um milagre por sua intercessão. O reconhecimento da santidade é feito pela Igreja mediante um longo processo. Após o milagre, o Papa dá autorização para que seja declarada beata, isto é, bem-aventurada. Ao fazer mais um milagre reconhecido, é colocada no catálogo dos santos, isto é, canonizada. Há muito mais gente que pode ser declarada santa. Os canonizados são colocados como modelos de vida cristã e humana. Beata Maria Celeste nasceu em 31.10.1696. Foi religiosa carm0101elita, depois fundou em Scala, na Itália, a Ordem do Santíssimo Redentor em 13.05.1731, a partir das revelações que recebeu. Estimulou S. Afonso a fundar a Congregação dos missionários redentoristas em 09.11.1732. Tendo sido expulsa de Scala por motivos da fragilidade e maldade de pessoas de sua convivência, estabeleceu-se em Foggia (Itália) onde estabeleceu a vida conforme a regra de vida escrita por ela. Ali se desenvolveu como escritora. Tinha como grande amigo, um jovem irmão leigo São Geraldo Majella, que era diretor espiritual de seu mosteiro. Marica Celeste morreu dia 14.09.1755. Seu corpo se conserva incorrupto. O processo de beatificação teve muitas dificuldades.

  1. Cristo como centro

            Maria Celeste é ainda desconhecida e vai demorar a ter uma influência na Igreja porque sua doutrina está bem adiante do que se pensa hoje sobre vida espiritual e religiosa. Ela fala a partir de sua experiência com Jesus Cristo que se iniciou quando tinha apenas 5 anos. Cristo a educava lentamente para essa missão. O ponto fundamental de sua espiritualidade é a centralidade de Jesus Cristo em sua vida. Com Ele dialoga, não somente com palavras, mas com a vida. Sua vida é lentamente transformada em Cristo para que Ele possa transparecer. O fundamento da espiritualidade é o amor de Cristo como Vida. Esse amor é missionário. Quem O escolhe como centro torna-se uma Viva Memória de sua vida e suas ações. Cristo continua sua missão pelo mundo como quando andava como homem a caminho para o anúncio do Evangelho. Cada um que assume essa vida torna-se um retrato vivo de Cristo. Também a comunidade é presença de Cristo pelo amor fraterno que se vive.

1746.Uma missão nova

            Essa beatificação traz muita alegria e muita esperança. A Ordem do Santíssimo Redentor, por ela fundada, é de clausura. Seu hábito é vermelho escuro, significa o amor que se vive. São 52 mosteiros no mundo, com mais de 400 religiosas. A Ordem está muito frágil em alguns países e crescendo em outros. Sua missão é viver na caridade e expandir-se no amor. Estão unidas aos missionários redentoristas pelo suporte dado à evangelização. A comunidade não é fechada em si, mas expande-se em abertura para que outros também busquem a Cristo no amor. Sendo Viva Memória do Redentor continuaremos sua vida e missão para a salvação e a construção de um mundo fundado no amor. A  vida cristão não se faz só de atitudes boas e atos de piedade, mas é uma transformação em Cristo.