nº 1691 Artigo – “Uma imagem que fala”

  1. Contemplando para amar

                        Há momentos em que o olhar substitui todas as palavras. Diante da imagenzinha de N.S.Aparecida sou convidado a contemplar. São poucos centímetros de altura. Vale a pena conhecer os detalhes de sua história. Ficamos contemplando. Ela é bonita e feita com muito sentimento que se expressa, à primeira vista, em seu discreto sorriso de mãe. É um primeiro passo para entrar nesse mistério da manifestação de Deus através de sua Mãe, Maria. A bondade de Deus se mostra como encanto por sua misericórdia para com todos. Deus não tem ódio do ser humano. Ela o ama, pois o fez assim. A firmeza do olhar recorda a certeza de um Deus que é próximo. Não usa Anjos ou seres assustadores, mas sua própria Mãe. Jesus dá o primeiro testemunho de sua obra de redenção como Filho amoroso. A serenidade do rosto de Maria é fruto de seu encontro por Deus que acontece no olhar permanente sobre seu Filho. Olhar que cuida, ama e protege. O porte bonito apresentado pela imagem mostra que a beleza de Deus é para nossa alegria e prazer. Ser de Deus é mais gostoso. As vestes belas, soltas e livres deixam ver que Deus em nós é prazer e alegria, leveza e candura. Desde o primeiro instante de seu encontro com os pescadores foi só alegria. Aqueles homens se alegraram com os peixes, mas muito mais pelo carinho de Deus para com eles. Conheceram Deus mais pelo amor que pelo milagre. Os milagres passam, o amor fica. As mãos postas em oração revelam a atitude permanente de Maria que reza por nós, mais ainda, que reza conosco: Vamos rezar, filhos!

  1. Aprendendo a lição

              A veneração dos santos não é adoração, mas o reconhecimento de Deus através de um sinal acessível a nossa compreensão. A fé não se faz somente em nossa mente ou em nossa fé intelectual. Como dizemos: vemos com as mãos e cremos com todo nosso corpo. Tirar os sinais sensíveis é negar a Encarnação de Jesus que se fez homem em nossa realidade. João diz: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos, e nossas mãos apalparam da Palavra da Vida…” (1Jo 1,1). João diz que creu com as mãos, com os olhos e ouvidos. Assim os símbolos religiosos se tornam um ensinamento. No encontro da imagem vemos muito de fraternidade. Ninguém a fez para si. Por isso ela se fez para todos. Como o Pai do Céu tem cuidado dos pequeninos, vemos no encontro da imagem e em toda a história dessa devoção, que são os pequenos e humildes que buscam. Assim era com Jesus: Tal Mãe, tal Filho. A fé que remove montanhas (Mt 17,20-21) é a força da fé humilde. Creram e continuam crendo com simplicidade. A humildade fez os pescadores se perguntarem: “Por que justamente a nós ela quis se mostrar dessa forma?”. São justamente esses os prediletos das ações de Deus. O orgulho assusta até Deus. Terão se alegrado grandemente no profundo de seus corações pelas predileções de Deus. Os milagres se repetem em abundância.

  1. A Mãe brasileira

            Os Papas, de modo particular Papa Francisco, demonstraram seu carinho e atenção para com Aparecida. Este foi de um carinho especial para com a querida imagem. O símbolo não diminui a fé, e abre espaço para um desenvolvimento integral da mesma fé. Por isso o povo brasileiro se identificou tanto com N.S.Aparecida. Ela é tipo branco, cor negra e cabelos de índio. Todos se identificam com ela. Somos parecidos com a Mãe. Vamos à casa da Mãe, dizem os romeiros. Aqui se sentem em casa. Testemunhamos esse sentimento quando transitam pelo santuário. É bonito ver as pessoas andando ajoelhadas. Vi uma senhora se arrastando deitada ao solo. Cada um se faz pequeno agradecendo o grande dom do milagre que recebeu.

Anúncios

nº 1689 Artigo – “Nascida das águas”

  1. O silêncio que fala

             Celebramos 300 anos de uma devoção mariana. Aquela pequena imagem enegrecida, pescada nas águas do Rio Paraíba do Sul, tornou-se um símbolo da catolicidade brasileira. Desde sua descoberta o país está à sombra da cruz e do manto da Imaculada Conceição. A imagem de Nossa Senhora Aparecida é a Imaculada. Buscando ouvir o que fala de si mesma, temos a resposta em seu silêncio. As aparições sempre trazem consigo mensagens deixadas de Nossa Senhora. A pequena imagem é a Mãe do Silêncio, pois suas origens são pouco conhecidas; ficou no silêncio do fundo de um rio de águas barrentas e fortes; pescada por homens que ficaram no silêncio. Não entraram para a história como os demais videntes. Maria de Aparecida é o silêncio que fala. Que gostoso é ver seu sorriso feliz. É a mãe silenciosa que tudo prepara para os filhos que chegam alegres. Ela tem olhos grandes que vêem longe, como que já os seguem nos caminhos que os trazem como peregrinos e os levam de volta com o coração cheio de alegria. Contam as maravilhas da visita e da viagem, mas o que Deus faz em seu coração fica no silêncio. É a Mãe que continua falando ao coração. Por que tanto silêncio? Maria de Aparecida não deixou mensagens. Como está sempre presente, continua sendo mensagens de acolhimento, de ternura e de fraternidade. Aqui estão todos seus filhos, de norte a sul do país. É comum ver um do Norte e do Nordeste ao lado de um do Sul e outro do Oeste.

  1. Acompanhando no caminho

              Nossa Senhora Aparecida, não apareceu, foi encontrada. “Na curva de um rio brasileiro, Maria aparece à luz do cruzeiro” canta o povo. Nas curvas da vida ela está sempre presente. Essas curvas estão cheias de dor, de sofrimentos, de angústias. Mas também trazem a alegria da festa na casa da Mãe. A alegria do povo. Mesmo quando é multidão de centenas de milhares, gente de todo tipo está presente caminhando com a certeza de que está em casa. São adultos, idosos, cadeirantes, gente marcada pela vida dura. São criancinhas recém-nascidas, criançada que corre, jovens que se alegram. Como giram felizes na casa da Mãe, tem a certeza que a Mãe vai com eles em seus caminhos. Expressam levando uma lembrança, uma imagem, um objeto de devoção ou uma utilidade. Gente muito humilde, vinda de lugares distantes numa longa viagem. Vê-se pelo rosto a humildade. E na casa da Mãe são todos iguais. Aqui são recebidos na grande basílica, são recebidos nos hotéis e nas lojas. Sentem-se em casa. Aqui sustentam, com seus trocados, a vida de muita gente humilde que vive de suas pequenas bancas. É um comércio que alimenta vidas e alimenta devoção. Aquele que vende ajuda na devoção.

  1. Uma Mãe para sempre

            Nossa Senhora tem a riqueza de ser Mãe de todos esses filhos. Ela os recebe com as palavras de Jacó: “Esses são os filhos que Deus me deu” (Gn 33,5). Ao pé da Cruz, Jesus nos deu Maria por Mãe. Essa geração continua fazendo os filhos da Redenção. Aqui buscam a Deus, refazem-se de suas dores e limpam seu coração. Voltam para casa contentes e levam a boa notícia do amor de Deus manifestado em Maria. Ela os acompanha com os olhos cheios de amor, como vendo toda a estrada que devem percorrer. Está a dizer: “Ide filhos benditos, levai a todos o amor que aqui encontraram. Abençoai a cada um que encontrardes e dizei: a Mãe manda uma bênção um abraço e um carinho”. Ninguém passa por Nossa Senhora Aparecida sem levar uma lembrança do amor de Deus manifestado nela. Encontrada em um rio, ela é uma chuva de bênçãos para todos.

nº 1688 – Homilia do 26º Domingo Comum (01.10.17)

 “Fazer a vontade do Pai”

 “Acolher a Palavra”

            Diante do fechamento dos chefes do povo e dos sacerdotes do templo, Jesus propõe a parábola dos dois filhos que recebem uma ordem do pai para irem trabalharem na sua plantação. Um diz que não quer ir, mas depois vai. O outroiz que vai, mas não vai. Qual dos dois fez a vontade do Pai? Pergunta Jesus. – O que foi, repondem, mesmo tendo dito que não iria. Então aplica a eles a parábola, pois se acham os “bons” do povo de Deus. Mas não acolheram as palavras de João que chamava à conversão. Os pecadores e prostitutas acolheram. Mesmo tendo visto sua conversão, não se converteram. Jesus mostra, então, que estão recusando a Ele que é a Palavra do Pai. Assim não estão cumprindo a vontade do Pai. Os pagãos, que eram distantes de Deus, acolheram o anúncio e foram acolhidos por Deus. E eles não. O profeta exemplifica apresentando reclamação do povo que diz que Deus está errado em seus julgamentos não considerando o justo que se extravia. Deus é claro. Se for justo, mas pratica o mal, morre. Se o ímpio deixa o mal, ele vive. Vemos aí a comparação com o evangelho. De nós é cobrada a fidelidade à Palavra de Deus e a nossa fé em Jesus. Acreditar significa viver a fé. Dizer que crê, mas não viver de acordo com a Palavra, não está na verdade e vive longe de Deus. Por outro lado podemos encontrar pessoas que não fazem parte da comunidade Igreja, mas realizam a Palavra em suas vidas, mesmo sem saber ou conhecer a fé cristã. “Não basta dizer Senhor, Senhor, e ter uma prática que não corresponda à fé. Esse não está no caminho de Deus, não faz a sua vontade. Então não pode cobrar de Deus.

Tende os sentimentos de Cristo

            A generosidade de Deus para com todos supera os limites de nossa imaginação. Cristo, ao se entregar à morte, obedece ao Pai que quer a salvação de todos (1Tm 2,4). No evangelho deste domingo vimos que o filho que obedece é aquele que faz a vontade do Pai, mesmo que se tenha negado obedecer. A obediência supera o mal do pecado. Assim, como Paulo explica, Jesus é o Filho que assumiu a fragilidade humana, carregou os pecados dos que negam. É fiel e faz a vontade do Pai: “Pois Eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo, 3,38). Paulo, no hino da carta aos Filipenses, narra como Jesus obedeceu ao Pai: Encarnou-se, apesar de ser Deus, assumiu a condição de escravo até a morte e morte de cruz. Obedeceu ao extremo em sua entrega (l Fl,5-10). Por isso Deus O exaltou. Faz a vontade do Pai quem cumpre a Palavra. E tem como resposta a ressurreição. Ao sim do Filho há sempre o sim do Pai. Cristo expressa os sentimentos do Pai para com todos ao assumir a condição humana. De Deus nada mais precisamos esperar, pois, dando-nos Jesus nos deu todas as coisas (Rm 8,32). Se fizermos o caminho de Jesus temos a certeza de estar respondendo sim ao Pai.

Recordai vossa ternura

            Para responder corretamente ao Pai, somos instruídos pelo salmo 24 que nos põe em oração justamente para conhecer a vontade do Pai e realizá-la em nossa vida: “Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos, e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação”  (Sl 24,4-5). Na fragilidade humana pedimos que Deus não se esqueça de sua misericórdia. É curioso como nós fazemos memória das grandezas de Deus, mas pedimos que Deus faça memória também de suas misericórdias e bondade. Ele não é esquecido, mas nós temos a liberdade de tratá-lo com esse carinho até jocoso, mesmo sabendo que o Senhor é piedade e retidão…

Leituras: Ezequiel 18,25-28; Salmo 24;Filipenses 1,1-11;Mateus 21,28-32

Ficha nº 1688 – Homilia do 26º Domingo Comum (01.10.17)

  1. Para explicar que devemos responder positivamente à palavra de Deus, Jesus nos conta a parábola dos dois filhos. Assim mostra aos judeus que eles não acolheram a Palavra.
  2. A generosidade de Deus acontece em Jesus que obedece ao Pai.
  3. Para responder ao Pai, pedimos que nos mostre seus caminhos. 

            Certa a resposta 

            Em confronto com seus adversários, Jesus propõe a questão da resposta ao projeto de Deus. Conta uma parábola e pergunta: Qual dos dois fez a vontade do pai? Com a resposta à questão colocada, mostra que os chefes não obedecem a Deus que lhes confiou sua vinha, isto é, seu povo. De um lado estão os sacerdotes e chefes do povo e do outro os pecadores. São os dois filhos. Os que dizem sim, mas não vão trabalhar na vinha, desobedecem. Os que dizem não são os pecadores. Mas depois vão trabalhar na vinha. Esses são o filho que obedece.

            A parábola se aplica ao procedimento dos sacerdotes e chefes do povo que receberam uma missão de Deus e não cumpriram. Dá o exemplo dizendo que os pecadores e prostitutas acolheram a pregação de João e eles, não. Agora propõe um mundo novo a mandado do Pai, e eles recusam. Não obedecem.

            Ele próprio dá o exemplo de quem obedece ao Pai. Assumiu a condição humana e foi até ao extremo em sua entrega obediente. Por isso, Deus O ressuscitou. Obedecer só dá lucro. A resposta está certa.

 

nº 1687 Artigo – “Lendo a Bíblia com sabedoria”

  1. Ler a Palavra com os dois olhos

            A palavra bíblia significa livros. É uma biblioteca da sabedoria de Deus. Ele se serviu dos homens e, pela ação do Espírito Santo, colocou sua sabedoria a tal modo que as pessoas entendessem. Deus não iria fazer algo só para alguns, mas abriu seus tesouros também para os humildes. A Bíblia não é um privilégio só dos estudiosos. Primeiro é palavra de Deus. Mas escrita na linguagem dos homens. Temos que ter consciência que foi escrita na linguagem de um tempo. Há coisas que não são de nosso linguajar. Ela não foi escrita de uma vez. Foram quase mil anos para escrever, recolhendo tradições antiqüíssimas, como por exemplo, as narrativas do Genesis, Êxodo, Juízes etc… Cada texto tem que ser entendido como palavra de Deus, mas para ver o que diz é preciso também conhecer sua origem. Não podemos pegar frases soltas e dizer o que queremos. Cada palavra tem seu contexto. A Bíblia é o livro mais traduzido e podemos dizer, o mais estudado. É bom usar a sabedoria humana para acolher melhor a sabedoria de Deus. Temos que entender sempre melhor o que o escritor sagrado quis nos dizer. Do contrário, podemos anular o que nos é proposto pela Palavra. Esses estudos já são antigos e podem nos iluminar. É preciso estudar. É mais fácil jogar sobre a Palavra nossas palavras e assim seguir caminhos que não levam à sua compreensão. A primeira preocupação é saber que ela foi escrita por homens, inspirados por Deus.

  1. Como estudar?

            Um primeiro elemento a se ter em conta é o gênero literário. A Palavra de Deus é igual para todos os textos. Mas o sentido do texto tem que partir do gênero literário, isto é, ver como foi escrito. É diferente um livro profético de um histórico. Um apocalíptico é diferente de um livro de salmos. Há frases que não trazem uma revelação. São todos inspirados, mas não ensinam algo espiritual. Por exemplo: “O cachorro de Tobias foi correndo como mensageiro e mostrava seu contentamento fazendo festas abanando a cauda” (Tb 11,9). O texto tem que ser interpretado e usado conforme seu gênero literário. Houve no Antigo Testamento um longo caminho de composição da Palavra de Deus. Houve um crescimento do povo. Desde a saída de Abraão até a ressurreição de Jesus há uma diferença. Temos que entender os tempos históricos. Há uma ordem de matar todos as pessoas e animais. Em Jesus vamos ver outra linguagem. Temos que ver o Antigo Testamento a partir da revelação de Jesus. Não destruímos o Antigo Testamento, mas o entendemos num processo pedagógico que Deus usa para preparar seu povo para a vinda de seu Filho, Palavra viva.

  1. Jesus é o modelo de entender a Palavra

            Dizendo que não veio abolir a lei e os profetas, mas levar à perfeição, Jesus modifica textos do Antigo Testamento. Estava escrito: “Olho por olho, dente por dente” Jesus modifica e diz: “Aquele que te fere a face direita, oferece-lhe também a esquerda” (Mt 5,38). Essa frase é da lei do Talião de Hamurabi, da Mesopotâmia, do sec. XVIII AC. Com isso podemos ver que a leitura tem que ser criteriosa e não pode ser tomar um texto isolado dos outros nem fora de seu tempo. Aperfeiçoamento não significa negar, mas levar adiante. Quantas leis que há no Antigo Testamento que foram deixadas de lado. Para isso é preciso ver como as comunidades primitivas acolheram a Palavra de Deus do Antigo Testamento e foram capazes de discernir as do Novo Testamento. Por isso é preciso estudar. O Espírito Santo ilumina, mas não substitui. Temos que fazer também nossa parte.

nº 1686 – Homilia do 25º Domingo Comum (24.09.17)

“O Senhor é bom”

Acolhendo um chamado

            O evangelho desse domingo quer resolver uma questão que havia entre os primeiros cristãos vindos do judaísmo e os cristãos vindos do paganismo. Os judeus estavam com ciúmes e inveja dos cristãos que vinham dos muitos povos e se colocavam em igualdade com eles, assumindo a vida da comunidade. Os judeus, há séculos seguiam o Senhor e queriam uma proeminência na comunidade cristã sobre aqueles que somente agora acolhiam o Reino. A parábola mostra que o dono da plantação chama operários para a colheita. No sistema do tempo, os que queriam serviço, se reuniam no lugar costumeiro e o dono ia lá contratar os que ele escolhesse. Com a vinda de Jesus, outros povos começam a ser chamados e respondem. Estes são os operários da última hora. A reflexão toca num ponto importante: o conhecimento de Deus: Por isso diz o profeta Isaias: “Buscai o Senhor enquanto pode ser achado; Invocai-o enquanto Ele está perto” (Is 55,6). Jesus faz um chamado, mas quer a abertura para que O acolhamos. Mais dura é a síntese que Jesus faz desse texto: “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (Mt 2016ª). Vemos que os cristãos vindos do paganismo receberam o Evangelho com muita alegria e corresponderam com muita força. O cristianismo entre os judeus de Jerusalém e da Ásia Menor ficaram fechados. Lembramos outra parábola: “O Reino vos será tirado e dado a um povo que produza frutos” (Mt 21,43). Se não correspondermos, ficaremos de fora também. Essa parábola nos faz lembrar que essa situação é muito comum em nossas comunidades onde pessoas se sentem donas dos cargos e costumes da comunidade. Não aceitam mudanças.

Recompensas que Deus dá

            Ninguém trabalha para Deus por uma recompensa. A recompensa é poder atender seu chamado. Deus não nos paga segundo nossos méritos, mas segundo sua extremada bondade. O grande salário que Deus dá é Ele próprio. O salmo nos descreve quem é o Senhor: “Misericórdia piedade é o Senhor, Ele é amor, é paciência é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos. Sua ternura abraça todas as criaturas” (Sl 144). Nosso prêmio e reconhecimento é o Senhor: “Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17,10). Não somos inúteis por não prestarmos, mas por poder sempre fazer melhor. São Paulo sente vontade de ir para estar com Cristo. Esse é o grande prêmio que espera. Mas, se for ainda necessário, não sabe o que fazer, pois, tanto estar com Cristo no Céu, como trabalhar por Ele e pela comunidade na terra tem o mesmo valor (Fl 1,20ss). E diz com força: “Só uma coisa importa: viver à altura do evangelho de Cristo” (Fl 1,27ª). A força do Evangelho está acima de qualquer paga que tivermos. Temos o costume de ficar chateados quando não reconhecem nosso trabalho. Deus reconhecendo já basta.

Para mim, viver é Cristo

            Os que trabalham no Reino de Deus e acolhem o Evangelho como vida, entendem bem essa frase de Paulo: “Cristo vai ser glorificado no meu corpo, seja pelo minha vida, seja pela minha morte, Pois para mim, o vier é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,20c-21). Cristo é seu salário. Essa opção fundamental por Cristo é o mais importante de nossa vida. Sem ela não podemos entender a vivência do Evangelho. Jesus acaba sendo um anexo em nossa vida. Não a vida de nossa vida. Por isso nós temos um cristianismo frágil. Não somos capazes de modelar nossa vida por ele. Então podemos fazer o mal e não assumir a vida de comunidade. Viver Cristo é mais que viver.

Leituras: Isaias 55,6-9 ;Salmo 144;Filipenses 1,20c-24,27ª; Mateus 20,1-16.

Ficha nº 1686 – Homilia do 25º Domingo Comum (24.09.17) 

  1. Deus convida povos novos para o Evangelho e lhe dá a recompensa igual aos que vieram do judaísmo. Isso gerou ciúmes.
  2. O pagamento de Deu sempre corresponde a sua bondade.
  3. A opção por Cristo modela nossa vida de cristãos. Ele é nosso salário 

            Nivelando por cima 

            Temos uma parábola diferente de nosso modo de trabalhar. Não é o trabalhador que procura o patrão, mas é o patrão que vai ao lugar onde ficam os que querem trabalhar e ali faz o acordo. Isso ainda existe em algumas regiões.

Então, o homem que precisava, foi buscar trabalhadores nas diversas horas do dia até uma hora antes de acabar a jornada. E pagou todos com o mesmo salário. Os outros trabalhadores que “suportaram o cansaço e o calor o dia inteiro”, reclamaram dos que haviam trabalhado uma hora só e o mesmo.

Que significa? Tudo o que fizermos pelo Reino de Deus, não será medido por nosso esforço, mas pela bondade de Deus que dá tudo, a todos, mesmo que, em nossa visão, não fizeram nada. Fizeram tudo do que tinha sido pedido. Deus nivela por cima.

Entregar-se a Jesus no Reino é dar tudo. Não interessa o que vamos receber. Deus é tudo para todos. O salário é o mesmo para todos: O Reino de Deus com todos seus dons. Ninguém é maior que o outro. Deus é bom para com todos.

Quem acolhe integralmente a mensagem de Jesus, recebe todo o seu dom.

           

 

nº 1685 Artigo – “A Palavra de Deus”

 Deus sempre fala

            “Vamos ouvir o que o Senhor quer falar” (Sl 84,9). Esta é a atitude de quem se aproxima da Palavra de Deus e se põe à escuta onde Ele fala. Normalmente usamos a Palavra de Deus para falar aos outros o que queremos. Usamos a Palavra. O Pai quer entrar em contato conosco. Fala de infinitos modos e não está preso um único modo de comunicação. Podemos constatar, pela história da salvação que Deus Se comunica. Seu Filho, encarnado é chamado de VERBO – PALAVRA. No coração da SSma. Trindade, o Filho é o Diálogo, a contínua comunicação. Essa Palavra nos foi comunicada na pessoa do Filho encarnado. A carta aos Hebreus diz: “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho” (Hb 1,1-2). Jesus afirma: “Não falei por mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Me prescreveu o que dizer e o que falar” (Jo 13,49). Jesus é o comunicador do Pai. Os apóstolos foram os últimos a receberem a Palavra que foi guardada como Escritura. Não temos novas revelações. As aparições “modernas” não aumentam a verdade a ser acreditada. Deus fala em nosso coração. Não é bom, aliás um péssimo costume, abrir a bíblia, a esmo, para procurar uma Palavra de Deus para o momento. Aconteceu que um sujeito, estando com medo de viajar de avião, abriu a bíblia, por sugestão da mulher. Bateu o dedo e deu com as palavras: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 24,43), como disse Jesus ao ladrão. Aí que não foi mesmo. Não existe isso. Isso é tentar a Deus. Deus não é loteria.

Buscar na inteligência da Palavra

            São Pedro, que não era intelectual como Paulo, comenta a profundidade de suas cartas e acrescenta “É verdade que em suas cartas se encontram alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes torcem, como fazem com as demais Escrituras” (2Pd 3,15-16). A Palavra está aberta a todos. Mas há necessidade de conhecer melhor. Não basta só abrir e citar os textos e interpretá-los. Pedro diz ainda: “Sabei que nenhuma profecia da Escritura resulta de uma interpretação particular, pois que a profecia jamais veio por vontade humana, mas os homens impelidos pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus” (2Pd 1,20-21). A interpretação deve ser feita na Comunidade-Igreja, como a Palavra foi escrita na comunidade. Sem isso, corremos o risco de ensinar contra a verdade. A interpretação individual provocou o surgimento de tantas seitas. Depois do Vaticano II cresceu muito o apreço pela Palavra de Deus desde os estudos mais elevados até a catequese mais simples. Não deixa de ser necessária uma leitura permanente e também o estudo para uma boa interpretação. Ler Bíblia não é só abrir o livro. Temos as celebrações nas quais lemos também os textos bíblicos, com a riqueza de ser lido no meio do povo, onde ela foi escrita.

Palavra de carne

            Há muita gente que não pode ler ou não sabe ler ou não quer ler. Mas há uma bíblia muito fácil de ser lida. É a bíblia de carne e osso. Cada pessoa que vive o evangelho é uma proclamação da Palavra de Deus, escrita em nossos corações e em nossa maneira de viver. Jesus dizia: “Minhas palavras são Espírito e Vida” (Jo 6,63). Abertos ao Espírito, somos transformados pela Palavra que toma rosto em nós. Assim passamos a ser um evangelho vivo. Já se diz: “Quem sabe, sua vida seja o único evangelho que muita gente possa ler”. A palavra assumida como vida se encarna em nossa vida e se torna anúncio e evangelho vivo. Por isso não basta só a letra, é preciso a vida. Amemos a Palavra de Deus!

nº 1684 – Homilia do 24º Domingo Comum (17.09.17)

“Um mandamento novo”

Perdoar para ser perdoado

            O versículo de aclamação ao evangelho nos dá o sentido da celebração desse domingo: “Eu vos dou um novo mandamento que também vós ameis uns aos outros como Eu vos amei”. Uma vez que se reflete sobre a superioridade do perdão de Deus, aprendemos como viver o perdão. Esse tema toca no núcleo da revelação de Jesus que é a redenção misericordiosa do Pai. A parábola está colocada no discurso sobre a Igreja do evangelho de Mateus. A missão da Igreja é criar um mundo renovado que elimina o ódio, a começar da comunidade, como o Pai perdoa. Não participa da vida da Igreja quem não perdoa sempre. Pedro faz uma pergunta até quando temos que perdoar, até sete vezes? E achou que já era muito. Jesus faz um jogo de palavra de palavra de sete com setenta vezes sete (Mt 18,22), isto é, sempre. Sete é o número completo. Na leitura do livro do Eclesiástico encontramos o mal que faz o mal. Prejudica até o relacionamento com Deus.  Vemos uns textos: “O rancor e a raiva são coisas detestáveis”. “Quem se vingar se encontrará com a vingança do Senhor que pedirá severas contas de seus pecados”. Quem tem raiva e não tem compaixão, como poderá pedir perdão de seus pecados? Há grandes vantagens no perdão das injustiças: quando orar terá o perdão dos pecados.  O autor sagrado traz dois conselhos: “Lembra-te de teu fim e deixa de odiar… Pensa na destruição e na morte, e persevera nos mandamentos… Pensa na aliança do Altíssimo e não leves em conta a falta alheia” (Eclo 27,33-28,9). Evitar o ódio é questão de inteligência. O bem que faz é maior

Deus é o modelo

Essa reflexão tem como pano de fundo o mandamento do amor vivido na prática. Jesus fez pregações e milagres, mas o que nos salvou foi dar a vida para a remissão de nossos pecados e nossa comunhão com Deus. O perdão e a comunhão fraterna constituem a base da vida cristã. Aprendemos de Deus como devemos viver, pois vive assim como cantamos nos salmos: Ele perdoa toda nossa culpa… Não guarda seu rancor eternamente… Seu perdão é imenso. Na comparação do evangelho, dez mil denários eram 164 toneladas de ouro. Cem denários eram trinta gramas de ouro. Assim compara a diferença do perdão de Deus e do nosso. E continua o salmo: “Quanto os céus por sobre a terra se elevam, tanto é grande o seu amor aos que o temem. Quanto dista o nascente do poente, tanto afasta para longe nossos crimes”! (Sl 102). Deus coloca em nossas mãos o modo como vai nos perdoar. Por isso Jesus ensinou no Pai Nosso: “Perdoai nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu”. Nós não aceitamos uma chamada de atenção sobre nossos erros feita pelos que têm responsabilidade sobre a comunidade. Mas queremos que Deus nos perdoe.

Ninguém vive para si

Viver o amor é sair da prisão do ódio. O ódio corrói nosso coração. Paulo resume essa vida espiritual nas palavras “ninguém vive para si mesmo, ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos” (Rm 14,7-8).  Na vida e na morte estamos voltados para Cristo. Por aí se modela nossa vida na construção de uma fraternidade madura que dê frutos para o mundo e possa  conhecer Deus. Ele nos provoca sempre a uma vida mais cheia de tudo que nos dá. Ele é o Senhor, pois morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos (Rm 14,9). A vida cristã só será completa se nela houver essa disposição de perdão e acolhimento. O melhor de tudo é criar uma cultura onde não seja preciso estar se ofendendo.

Leituras: Eclesiástico 27,33-28-9; Salmo 102; Romanos 14,7-9; Mateus 18,21-35

Ficha nº 1684 – Homilia do 24º Domingo Comum (17.09.17)

  1. O perdão mútuo toca o núcleo da missão de Jesus que veio para o perdão.
  2. A medida do perdão de Deus é imensa. Nós pomos medidas aos outros.
  3. Na vida estamos voltados para Cristo. Por Ele se modela nossa vida. 

            Saindo da cadeia 

            São Pedro, querendo dar uma de bonito, acha que, perdoando sete vezes, estaria no direito de tomar uma atitude mais convincente. Jesus diz: não sete, mas setenta vezes sete. É um jogo de palavras para dizer sempre. É difícil.

            Então conta a parábola do homem que foi perdoado de muito, mas não quis perdoar outro por pouco. Isso é uma prisão.

            Jesus conta a parábola para explicar que nós recebemos tanto perdão de Deus e não sabemos perdoar nem um tiquinho dos outros. É uma prisão terrível.

Conselho da Palavra de Deus: “Pensa nos mandamentos, e não guardes rancor ao teu próximo. Pensa na aliança do Altíssimo e não leva em conta a falta alheia” (Eclo 28.8-9).

            Não saber perdoar acarreta um castigo que damos a nós mesmos. Não sairemos dele enquanto não chegamos ao fundo do perdão.

nº 1683 Artigo – “Apascenta minhas ovelhas”

  1. Continuação de Cristo

            Temos refletido sobre as regras da fé, isto é, os critérios para conhecer a Verdade e ter segurança no caminho da fé. A Bíblia não está sozinha no caminho do fiel cristão. Há os que enriquecem a compreensão e dão segurança na conservação da Verdade. Junto da Palavra temos a Tradição, o Magistério que examinamos hoje, os ensinamentos dos mestres e doutores, a santa Liturgia e a sagrada fé do povo de Deus. Nenhum está isolado. A base é a fé que Cristo nos deu. Essa fé é vivida nas condições humanas, mas é sempre dada por Deus. Lembramos a profissão de fé de Pedro: “Foi o Pai que te revelou isso” (Mt 16,17). Por que buscamos elementos humanos quando o assunto é Divino? A Igreja se entende na Encarnação do Filho de Deus. Como Jesus quis assumir a natureza humana para nos dar a redenção, assim também, para viver a redenção como povo – Igreja, temos que passar também pela condição humana que é continuação da presença e missão do Redentor. Refletindo sobre a missão do “Magistério” da Igreja. A Igreja é constituída de pessoas. Nela está a grande missão de continuar apoiada sobre o fundamento dos apóstolos. Jesus instituiu os doze “para estarem com Ele e para enviá-los a pregar” (Mc 3,13-14). O Papa e os bispos constituem o grupo apostólico, sucedem os apóstolos na missão de ensinar e santificar. Como Jesus foi enviado pelo Pai, envia seus apóstolos (Jo 20,21), dos quais são sucessores. Paulo evangelizava e designava anciãos em cada igreja (At 14,23):

  1. Poder que é serviço

            Jesus escolheu os doze e pôs Pedro à frente deles. Assim a Igreja continuou na mesma estrutura. O modo de ser Papa, bispo e padre teve muitas variações na história, sem perder o fundamental de sua missão do poder como serviço espiritual. Há uma doutrina muito ampla sobre a função de conduzir o povo de Deus. Como momento de reflexão sobre a fé, esse ministério tem um lado humano que é a organização da Igreja e a vida espiritual na continuação da missão de Jesus que é garantir a verdade. Constituiu Pedro como a pedra fundamental de sua Igreja e lhe entregou as chaves e instituiu-o pastor de todo o rebanho (Jo 21,15-17). O Papa é sucessor de Pedro e tem o poder que foi dado também aos outros apóstolos. O Papa, bispo de Roma e sucessor de Pedro “é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos bispos, quer da multidão dos fiéis” (LG 23). Ensinando participa da infalibilidade de Cristo que é a Verdade. Não erra quando garante as verdades da fé e da vida cristã. Vimos que esse dom supõe os demais critérios de fé.

  1. Regras da fé

É um campo de reflexão muito vasto. Basta lembrar que o Espírito Santo garante a vida desse Corpo de Cristo que é a Igreja. Garante sua verdade. E garante sua unidade. Por isso, é muito importante a unidade em torno do Sacerdote, do Bispo e do Papa. Eu posso não gostar do jeito desse Papa ou de outro. Mas, isso não impede de estar unido. O que aconteceu ao longo da história foi que muitos se separaram por causa de uma doutrina fundamental. Nem por isso o Corpo de Cristo ficou partido. Há os que não admitem a autoridade, mas têm a mesma fé, são os Orientais Ortodoxos. Há os que não assumem a vida do povo de Deus como sua vida. Ferem o corpo de Cristo. Por isso é importante o conhecimento da Palavra, o acolhimento da Tradição da Fé, ouvir os ensinamentos dos santos que se dedicaram ao estudo da fé, a participação da Liturgia como momento da celebração da Fé.  Nesse caminho somos guiados por nossos pastores. Que Cristo nos ajude com seu mistério de humildade a acolher, viver e promover a fé.

 

nº 1682 – Homilia do 23º Domingo Comum (10.09.17)

“Responsáveis uns pelos outros”

 Não fecheis o coração

            A Palavra de Deus oferecida na liturgia deste domingo nos leva a refletir sobre a necessidade de nos ajudarmos no caminho da salvação. Se um irmão está errando, é responsabilidade de cada um e da comunidade alertá-lo. Por isso o profeta Ezequiel lembra que, se não o corrijo, torno-me culpado com ele. Se o irmão não ouve, então a culpa é dele (Ez 33,7-9). Diante desse risco de não atender a um chamado à conversão, o salmo convida a sempre ouvir a Palavra de Deus pronunciada na comunidade: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: ‘Não fecheis os vossos corações – como fizeram os judeus no deserto – onde outrora vossos pais me provocaram, apesar de terem visto minhas obras’” (Sl 94). Mesmo diante de grandes milagres presenciados não movem seus corações à conversão. Ela é uma opção que deve partir do interior. Jesus insiste no ministério de ligar e desligar, quer dizer, o que fazemos para alertar os irmãos é ajudado pela graça de Deus. Esse ministério tem um processo muito claro: deve ser realizado na caridade. Primeiramente se procura a pessoa em particular; depois, se não atende, convide outro irmão para mostrar que a coisa não é pessoal; se nem assim escuta, pode levar à comunidade. Se não ouve nem a comunidade, seja considerado pecador público ou pagão. Normalmente fazemos o processo contrário: depois que todo mundo sabe, o acusado fica sabendo. Aqui encontramos também na Igreja a denúncia oculta. O padre, o bispo e mesmo as autoridades superiores sabem quem acusa. O acusado não. Isso é mal. Acabaria com certo tipo de denúncias fundadas na maldade e na mesquinhez. Jesus ensina de outro modo.

Ele está entre nós

            A comunidade é a grande mediadora em todas as questões. O motivo é a presença de Jesus: “Se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles” (M 1818-19). Esta é a preciosa presença constante de Jesus entre os seus que justifica toda a ação da Igreja. Ele está sempre presente na comunidade, mesmo pequena, garantindo sua oração, vida e atividade. Assim estão seguros os sacramentos, a oração, o empenho pastoral etc…  “Eu estou no meio deles”. O individualismo na vida cristã não tem consistência, pois o mandamento primeiro é o amor. Amar exige a pessoa amada. Vemos como a estrutura da Igreja funciona tendo por base o amor do casal. É expressão do amor de Deus e modelo de vida cristã para todos. Salvar-se é uma ação individual. Eu não me salvo pelo outro, mas me salvo pelo amor ao outro. O amor mútuo é o caminho. Foi por ele que Jesus nos salvou.

O amor não faz mal

            A carta de Paulo aos Romanos, apresentando os mandamentos referentes ao próximo, nos faz compreender que pelo amor mútuo cumprimento toda a lei. O amor vai respeitar os pais, a vida, a sexualidade, as propriedades dos outros, a boa fama, o casamento e a vida pessoal de cada um e de seus bens. Tudo que envolve o ser humano deve ser modelado pelo amor. O amor é o cumprimento perfeito da Lei (Rm 13,8-10). Corrigir o irmão é fruto do amor de comunhão. Todos têm direito a viver bem, também com a ajuda dos outros. Não preciso de ninguém não é ensinamento de Jesus.  Nós precisamos uns dos outros.  Estejamos juntos para garantir a presença de Jesus em nosso meio e nosso relacionamento com Deus. Nas celebrações realizamos essa verdade.

Leituras: Ezequiel 33,7-9; Salmo 94;Romanos 13,8-10;Mateus 18,15-20

Ficha nº Homilia do 23º Domingo Comum (10.09.17)

  1. A Palavra de Deus deste domingo ensina a necessidade de nos ajudarmos uns aos outros no caminho da salvação.
  2. A preciosa presença constante de Jesus entre os seus justifica toda a ação da Igreja.
  3. Os mandamentos referentes ao próximo nos fazem compreender que pelo amor mútuo cumprimos toda a lei. 

Ganhando por somar                                                                                                  

            O ensinamento do evangelho desse domingo nos traz a temática da correção fraterna. Esse é o espinho na garganta. Ninguém ousa fazer e menos ainda aceitar. Preferimos falar por trás que enfrentar diretamente a pessoa. Nem a caridade consegue amansar. É curioso que fazemos ao contrário do que ensina Jesus: primeiro fala com a pessoa, só os dois; depois, se não dá resultado, vai com mais um; se não dá, fala em público. Se nem assim adianta, seja excluído da comunidade. Preferimos fazer o contrário.

Esse é o sentido do que Jesus fala a Pedro quanto ao ligar na terra será ligado no Céu. O amor, como diz Paulo na carta aos Romanos, não faz mal contra o próximo e é o cumprimento da lei. É uma responsabilidade. Se não corrijo, torno-me responsável também. Se não se ouve, fiz a minha parte.

O Salmo 94 nos convida a não fecharmos o coração e procurarmos sempre a correção para estarmos abertos à conversão e ao arrependimento.

Não queremos uma Igreja que só acuse, mas que não se deixe engolir pelas maldades do mundo que são o pecado. Se não, nos tornamos culpados.

Vejamos nossos males e não os dos outros. Ajudando na conversão, somamos no caminho do bem.

 

nº 1681 Artigo – “A fé do povo de Deus”

  1. O povo não erra na fé

            A fé é um dom de Deus oferecido a todos. É, como a caridade e a esperança, uma virtude teologal, isto é,  tem Deus como autor. A nós cabe aceitar a proposta de Deus e ser dotado dessa dimensão fundamental da vida que vai gerar em nós tudo que se refere ao espiritual. Sem fé é impossível a vida cristã e as obras da fé. Com a caridade estamos unidos ao amor de Deus em Cristo. Com a esperança vivemos já, o que esperamos. O Céu começa aqui. A fé, como dom a todo povo, faz é um critério para a Igreja. O povo não é um rebanho silencioso, mas também guarda e regra, com os demais critérios, dessa fé. O Catecismo da Igreja Católica, explicando o sentido sobrenatural da fé diz: “Todos os fiéis participam da compreensão e da transmissão da verdade revelada. Receberam a unção do Espírito Santo que os instrui e os conduz à verdade na sua totalidade” (CIC 91 – 1Jo 2,20.27). Por isso, temos o que é importante: “O conjunto dos fiéis… não pode enganar-se no ato de fé” (Id 92). A Igreja não pode errar, pois tem também a garantia da fé do povo. Quando alguém ou um grupo deixa a fé católica – “perde a fé” – ele não é mais critério. Quem tem a fé está apoiado na Escritura, na Tradição, no ensinamento dos Mestres da fé e também, como veremos, sustentado pelo Magistério da Igreja. É o conjunto das regras de fé que garante. “Por esse senso da fé, promovido e sustentado pelo Espírito da verdade o povo de Deus… adere sem erro à fé… penetra-a mais profundamente e mais plenamente a aplica na vida” (Id. 92). Como a Escritura foi escrita no meio do povo, no meio do povo é compreendida. Ninguém age sozinho. Já é um erro pensar assim. Ninguém é dono pessoal da fé.

  1. Crescimento da fé

            O povo de Deus é mestre na fé. Foi no meio desse povo que a Palavra de Deus foi recolhida no livro santo e conservada sob a direção dos pastores. Antes do livro já havia a fé do povo transmitida pelos apóstolos e discernida por seus sucessores. Os muitos anos de pregação dos apóstolos puderam sedimentar os ensinamentos de Jesus. A fé ajudou a comunidade a discernir o que era Palavra de Deus e o que eram palavras dos homens. Temos assim o Novo Testamento. João encerra a revelação. Depois vem o lento trabalho de compreensão e aprofundamento das verdades da Palavra e o desenvolvimento da compreensão. São séculos de estudos e vivências que trouxeram a clareza, guiada pelo Espírito, para explicar tudo o que a Palavra nos ensinou. Não vamos acrescentar verdades novas, mas compreender sempre mais profundamente o depósito da fé. A Bíblia não foi escrita em pedra, mas primeiro nos corações dos fiéis. O Catecismo ensina: “Graças à assistência do Espírito Santo, a compreensão tanto das realidades, quanto das palavras do depósito da fé pode crescer na Igreja” através da contemplação e do estudo, da compreensão dos fiéis e da pregação (CIC 94).

  1. Unidos na fé

A fé do povo de Deus, por vontade de Cristo, é confiada aos pastores, unidos ao Papa, que com seu ministério interpretam legitimamente a Palavra de Deus. Não podemos perder de vista que “a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério de Igreja estão de tão modo entrelaçados e unidos, que um não tem consistência sem o outro, e que juntos, cada qual a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo contribui eficazmente para a salvação das almas” (CIC 94). Pelos ensinamentos vemos que temos que estar unidos na fé como povo de Deus, para que se torne mais viva e mais clara a Palavra de Deus.

 

nº  1680 – Homilia do 22º Domingo Comum (03.09.17)

“A sedução que salva”

Minha alma tem sede

O profeta Jeremias nos faz uma revelação do mais profundo de nosso coração. Traduz em palavras o que o coração diz. Como um forte profeta de Deus que quer salvar, sente em seu corpo a força da atração Divina que chama de sedução. Passando por sofrimentos causados por sua profissão, decide não falar mais de Deus nem estar a seu serviço para anunciar e denunciar. Suas denúncias lhe acarretam grandes humilhações e sofrimentos. Mas Deus não desiste dele. O profeta não “escapa” do Deus que escolheu: “Senti então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo. Desfaleci, sem forças para suportar” (Jr 20,9). Essa expressão é retomada pelo salmo: “Minha alma tem sede de Vós, minha carne também Vos deseja como terra sedenta e sem água!” (Sl 62). Sem essa sede de Deus, jamais poderemos viver a fé cristã. Esse espiritualismo não envolve a vida tapeia nossa realidade espiritual. Somente o desejo de Deus pode nos levar a tomar atitudes fortes de entrega até mesmo da própria vida. Esse desejo não é um simples “eu gostaria tanto de…”. O salmista reza esse sentimento: “Como a corsa suspira pelas águas correntes” (Sl 42,1). Não se trata de um belo animal. É o animal louco de sede que busca a água. A vida espiritual está nesse desejo. Assim é o coração de quem ama Deus.

Tomando a cruz

Esse é o mesmo desejo que leva a assumir o seguimento de Jesus com todas as forças do coração: “Se alguém quer Me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mt, 16,24). Jesus sente-Se impulsionado para seguir um caminho que O levará a sofrer a rejeição e sofrimentos. Uma certeza interior O fascina rumo à ressurreição. E não admite que seja interrompido pelo desejo humano que não quer sofrer. Quem O tenta é um Satanás, pedra de tropeço. Responde duro a Pedro: “Tu não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas humanas” (Mt 16,23). Há pouco havia dito que Pedro professara a fé por uma revelação de Deus. E lhe deu as chaves do Reino dos Céus (Mt 16,17.19). Agora o chama de Satanás. Com a fé não nos enganamos nesse caminho de seguimento de Jesus que supõe a cruz. O desejo que nos veio da sedução tem que ir até o fim. No futuro há sempre a ressurreição. É preciso saber ir perdendo a vida em nossas escolhas para encontrar a verdadeira vida que está acima de qualquer outra sedução. “Que adianta ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida”? O caminho da cruz conduz à vida. Vemos aí o erro de quem põe de lado a cruz para viver só do bem-estar, do prazer e do poder. Foi envolvido por Satanás, a serpente.

Temos outro modelo

A grande atração que Deus exerce sobre nós e o desejo que nos leva a buscá-Lo não são nem distantes nem fantasiosos. É uma opção que envolve o concreto da vida, como lemos na carta aos Romanos: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir a vontade de Deus” (Rm 12,2). Mudando o modo de pensar podemos assumir a proposta de Jesus e fazer dela nosso seguimento. “Nossa alma será saciada, como cantamos no salmo, como em grande banquete de festa” (Sl 62). Nossa espiritualidade se alimentará no Espírito e na Verdade. Paulo nos oferece mais um pensamento forte: “Este é vosso culto espiritual”. Louvar e glorificar a Deus nós o fazemos em atitudes de vida não em palavreado. Essa reflexão nos leva a compreender o culto cristão que se realiza no coração e vai ao concreto da vida.

Leituras:Jeremias 20,7-9;Salmo 62; Romanos 12,1-2; Mateus 16,21-27

Ficha nº 1680 – Homilia do 22º Domingo Comum (03.09.17)

  1. Deus nos atrai com força para corresponder à sedução, como Jesus se entrega.
  2. Quando somos capazes de renunciar e seguir Jesus
  3. Para colocar em atos o desejo de Deus, é preciso não se conformar ao mundo. 

            Negócio bem feito

            Não adianta procurar muitas coisas para preencher nosso desejo de felicidade se não encontrarmos o que possa nos satisfazer em profundidade. Somente Deus pode nos queimar os ossos por dentro.

            Jesus propõe a Pedro o perdão infinito que como protótipo do mistério de sua Morte e Ressurreição. É o perdão infinito de Deus para todos e para sempre. Pedro não aceita a proposta de Jesus, e é chamado de Satanás, aquele que separa e divide. Jesus diz que ele atrapalha o processo de salvação da humanidade. Pedro, depois pode entender  o que queria Jesus.

            Seguir Jesus a disposição de fazer o mesmo caminho com a cruz. Por isso, perder é ganhar. Nada vale mais que a salvação. Por ela devemos investir tudo.

Por que temos força para esse passo?

            Jeremias nos dá a resposta: Deixar-se seduzir. Mesmo o desprezo pelo qual passa o profeta não apaga em nós esse fogo. Diz o profeta: “Senti dentro de mim um fogo arder e penetrar o corpo todo; desfaleci sem força para suportar” (Jr 20,9). O fogo de Deus não se apaga quando nos toma. Por isso temos sempre a sede de Deus. Esse é o negócio bem feito.

 

nº 1679 Artigo – “A fé que celebra”

  1. Uma certeza na fé

            A liturgia é mais um elemento importante para a garantia da fé. Já vimos a Escritura, a Tradição, os Santos Padres e os Doutores. A celebração condensa, por sua parte, todos esses critérios de fé, pois tem a Palavra de Deus, mantém viva a Tradição e aprende com os mestres da fé. Como povo reunido, celebrando, a liturgia é critério de fé. Já temos o ensinamento antigo que diz: O que se reza é ensinamento de fé (Lex orandi, Lex credendi). Se a comunidade reza desde tempos imemoriais determinadas verdades, é porque são verdadeiras. Em seu ensinamento oficial, os Papas sempre conferem se o que se ensina é o que o povo de Deus sempre rezou. Não se trata de sacramentar tudo o que se diz. Busca-se a permanência na verdade. É por isso que, quando se preparam textos oficiais para a oração de toda a Igreja, é necessária a aprovação para não ensinar erros. Os ritos, as cerimônias e as leis da liturgia devem estar a serviço do esplendor da verdade. A obediência da fé inclui a obediência ao que é proposto. Por outro lado, os ministros ordenados e outros devem propor a verdade com segurança e clareza. O altar não é palanque. A preparação exige fé e fidelidade. O povo clama por pregações mais preparadas que o formem na verdade. Ali se dá a primeira catequese e a continuada formação do povo. Os fiéis, de modo particular as crianças, devem ser introduzidos lentamente no conhecimento da Verdade, de acordo com sua condição e idade.

  1. Rezar crendo

            Celebrar é ter fé. A vida que conduz à Vida. Por isso a liturgia, em todos os sacramentos, é um momento de encontro com Deus. Não se trata em primeiro lugar, de realizar um rito, mas acolher um mistério ou cumprir uma obrigação. A fé não é em primeiro lugar um rito com cerimônias e palavras, mas um encontro com Deus. Ela nos põe em contato com a Verdade de Deus e as verdades que nos levam a Deus. Por isso ela é um critério de fé. A liturgia não é só uma ação humana religiosa, mas uma ação conjunta do povo com Deus. Não vamos à comunidade para fazer orações, mas para o encontro com Deus em Cristo no exercício de seu múnus – função – sacerdotal. Ele é o Sacerdote. Todo povo é sacerdotal Nele. Rezamos o que cremos. As celebrações da comunidade garantem o conhecimento e a manutenção do que é de fé. Por isso, como veremos, a fé do povo é um critério da verdadeira fé. Quando tenho fé, celebro. Em cada oração estamos manifestando a fé e transmitindo a mesma fé que se torna anúncio. Nossa fé é fortalecida na celebração e a verdade se torna sempre mais viva e eficaz em nossa vida.

  1. Crer para rezar melhor

Na celebração recebemos vida que nos faz viver mais a fé para celebrar melhor e assim viver melhor. É um círculo que se desenvolve sempre mais. Nossas celebrações estão repletas de ensinamentos sobre a fé. Jesus, sempre presente, continua a nos ensinar através dos textos, das cerimônias e da comunhão de bens espirituais entre os fiéis. É um corpo que celebra. Cristo – Sumo Sacerdote – se oferece ao Pai e nos oferece Consigo. À medida que acolhemos a celebração na fé, podemos rezar melhor. Rezar significa entrar no diálogo de Cristo com o Pai. Crendo, podemos rezar. Rezando podemos crer melhor. A comunidade que reza proclama a verdade e a vive. Lembremo-nos que liturgia não é só a missa, mas também todos os sacramentos, sacramentais, bênçãos e ofício Divino (liturgia das horas). É triste ver as pessoas irem às celebrações só para cumprir uma obrigação.

nº 1678 – Homilia do 21º Domingo Comum (27.08.17)

“Uma fé a serviço”

Tu és o Filho de Deus vivo

              Por que Pedro tem essa reação tão forte e sincera sobre Jesus, quando a opinião geral sobre Ele estava bem disparatada. Depois de tanta presença de Jesus e de milagres, ainda não se deram conta. É o que vemos no mundo de hoje: Ainda não se deram conta da presença de Jesus no mundo como renovador. A resposta de Pedro é a confirmação do Pai a Jesus sobre sua missão: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Demonstra igualmente o reconhecimento de um ensinamento básico de Jesus: Somente os humildes e pequenos acolhem sua mensagem. Dissera: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas aos sábios e doutores e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25). Pedro é o pequeno que acolhe Jesus e é anunciador da maior verdade da fé: a Divindade de Jesus e sua missão. Por isso ele tem a chave. Essa chave não é o sinal de um poder terreno e jurídico de mando. Jesus diz a Pedro que sua proclamação de fé é a chave para abrir o Reino de Deus a todos. Pedro, que em hebraico é Cefas, e pedra que é também cefas, é um jogo de palavras para dizer que a pessoa de Pedro proclamando a fé é a base para a edificação da Igreja (não de pedras materiais, mas de pedras vivas). A Igreja, como Jesus, tem uma dimensão humana que é condição para que a fé se estabeleça. Isso foi revelado pelo Pai. Não é uma criação humana, como colocar a Igreja a par com outras denominações que não têm Jesus como Filho do Deus vivo. O ser humano tem condições de, por sua vida coerente, como nos escreve Isaias, ser uma estaca segura.

Edificarei a minha Igreja

Todos que proclamarem a fé como Pedro, entram na construção da Igreja, Reinado de Deus no mundo. Essa construção não é humana, como algo social, mas é a convocação de Deus (isso significa Igreja) para que se estabeleça o plano Divino da salvação de todos os povos. Numa primeira colocação temos que assumir que Jesus não depende da opinião humana. Não veio para agradar e satisfazer gostos e curiosidades. Veio para agradar o Pai: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que Me enviou” (Jo 4,34). A edificação da Igreja de Jesus foi sempre seguida da vontade do Pai. A liberdade de Jesus diante das situações do mundo é um estímulo a não identificarmos a Igreja com o mundo em que vivemos. Ela está para servir e não para se servir assumindo seus critérios. Em Pedro, foi fundamental seu humanismo, simplicidade e disposição para as coisas de Deus. Igualmente encontramos nele o Deus que o sustenta em sua fragilidade. Diz Jesus: “Não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no Céu” (Mt 16,17). Em Pedro o Pai se une a todos nós que fazemos a mesma profissão de fé.

Tudo para a glória de Deus

Essa aproximação de Deus do ser humano, frágil, não tira de nós o dever e o direito de reconhecer a transcendência de Deus em sua misteriosa grandeza. É a oração que Paulo nos oferece na Carta aos Romanos (Rm 11,33-35) na qual reconhece o mistério de Deus que age em nós e por nós: “Ó profundidade da riqueza da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus caminhos!” (Rm 11,33). Como Deus é grande ao Se fazer tão pequeno em Cristo e assumir nossas condições. Somente sendo Deus pode manifestar tanto amor e tanta proximidade de nossa realidade. Ele quis precisar de nós para Se manifestar ao mundo. E continuamos reconhecendo sua presença em nossa fé tão frágil e tão potente. E podemos dizer: “Tudo é Dele, por Ele e para Ele. A Ele a glória para sempre. Amém

Leituras: Isaias 22,19-23; Salmo137; Romanos 11,33-36;Mateus 16.13-20

Ficha nº1678  – Homilia do 21º Domingo Comum (27.08.17)

  1. A fé de Pedro é provocada pelo Pai que confirma o Filho na sua identidade e missão.
  2. Os que proclamam a fé como Pedro, constroem a Igreja.
  3. A aproximação de Deus do ser humano não tira o direito de reconhecer sua grandeza. 

            Chaves da casa 

            Jesus deu a Pedro as chaves do Reino dos Céus para ser como que o administrador dons bens celestes. Ele o faz porque acreditou e proclamou sua fé. Todo aquele que crê tem as chaves da casa para si e para os outros.

            Não é possível crer em Cristo pela metade. Cristo não é uma idéia sobre a qual opinar como dizem os discípulos a Jesus: “Uns dizem que és João Batista… etc”. (Mt 16,14). A decisão tem que ser total: “Tú és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Com essa proclamação de fé, recebemos a chave da casa. Os bens de Deus estão em nossas mãos.

            Essas palavras manifestam o grande mistério de Deus que nos é confiado. Assim diz Paulo: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus”.

            Tudo que nos é dado na fé nos conduz a uma relação cada vez mais profunda de conhecimento e vida como Deus que se manifesta.

 

nº 1677 Artigo – “Nossos pais na fé”

  1. Homens da Palavra

            Os profetas morreram, os apóstolos foram mortos, mas Jesus continua seu caminho conduzindo seu povo por meio de outros profetas e apóstolos, homens e mulheres de fé. Desde o mais douto ao mais humilde, todos são iluminados para viver a fé e ensinar. A grande virtude é saber aprender. O Espírito Santo supre a nossa fraqueza, mas não dispensa o esforço humano para compreender a Verdade. Já nos inícios temos pessoas que refletiram, estudaram e começaram a explicar a doutrina. Chamamos esses homens de Santos Padres. Foram homens de Deus que viveram santamente, estudaram muito e defenderam a Palavra de Deus de explicações que estavam erradas, que chamamos de heresias. Temos a Palavra e a Tradição que são os fundamentos. Tudo o que professamos com fé cristã foi estudado por eles. Havia gente que explicava de modo errado. O que as Igrejas cristãs, tanto a católica, como a ortodoxa e a evangélica acreditam provém de seu ensinamento que defendia a verdadeira fé. Por exemplo: um afirmava que Jesus não era Deus. Outros chegavam a afirmar que não era homem. Foram séculos de estudo. Esse estudo nos dá segurança sobre o ensinamento da Palavra. Para nós é difícil ler seus textos por não termos acesso fácil e são difíceis. Por exemplo: S. Agostinho, bispo de Hipona, tratou de todos os assuntos que lidamos hoje. É um mestre. Foi um grande pastor aprofundado nas verdades de Deus. Além desses que foram sábios e santos, temos outros autores que também deram grande contribuição, como Orígenes e Tertuliano. São também antigos. O que ensinamos são doutrinas que percorreram os séculos da história.

  1. Fortes na Tradição

            Ao lado desses antigos, temos outros que não são tão antigos, mas deram um ensinamento muito grande para se entender e viver a Palavra de Deus transmitida e conservada pela Tradição. Temos também mulheres que deram sua contribuição valorosa vivendo e explicando a Palavra. São chamadas nossas mães na fé.  Nem sempre foram escritores, mas homens e mulheres que deram um testemunho qualificado de sua experiência de fé. O que fez esses homens e mulheres serem tão importantes? Conheceram e viveram a Palavra. É impressionante como aprofundaram a Palavra de Deus lida com sabedoria, rezada com profundidade e ensinada com amor. Firmes na fé, amantes da Palavra conservada e entendida pela Tradição, foram capazes de colher seus ensinamentos e explicitar com sabedoria usando as ciências humanas. Desse modo deram grandiosa contribuição para o conhecimento da revelação. Jesus afirma: “o bom escriba é aquele que tira de seu tesouro coisas novas e velhas”(Mt 13,52).

  1. Força de ensinamento

            Nós não vivemos somente dos que viveram no passado. Somos também responsáveis para continuar tão belo caminho. Nesses últimos tempos, a reflexão e o entusiasmo pela Igreja nos ofereceram tantas maravilhas na reflexão sobre o ensinamento de Jesus. Ele é sempre essa fonte que jorra com água límpida. Há homens e mulheres contribuindo muito para a compreensão da Palavra de Deus. Não basta repetir os textos, como fazemos, às vezes, mas saber interpretar o que Deus quer falar para o mundo de hoje. Por isso é preciso que nos preparemos melhor para sermos mais úteis à sociedade. Não vivamos em grupos fechados ou igrejinhas sem janelas, mas abramos para que o sopro do Espírito nos faça compreender a Palavra e levemos a Tradição a sempre maior penetração no mundo.

nº 1676 – Homilia da Assunção de Maria (20.08.17)

“Ela está no Céu”

 Celebrando a Mãe de Deus

    A fé das Igrejas cristãs, tanto Romana e mais ainda a Oriental Católica e Ortodoxa, celebra com grande veneração as festas de Nossa Senhora, nossa Mãe. Louvando Maria, estamos celebrando Jesus em sua Mãe e em seus Santos. Todo o culto se dirige a Deus Pai, por Jesus, no Espírito Santo. Mas todo o Corpo de Cristo celebra. Ele é a cabeça, o Sumo Sacerdote. Nós somos os membros e participamos de seu ministério sacerdotal de Cristo. Em Cristo celebramos as glórias que Deus concedeu a Maria por ser a mãe de seu Filho Unigênito que Se encarnou. Maria não pode ser vista sem Jesus. Jesus não pode ser visto sem Maria, Não podemos seguir Jesus sem Maria, pois foi dela que tomou seu corpo humano que era intimamente unido a sua Divindade. Negar Maria é negar todo o mistério da salvação no qual ela tem a missão de Mãe do Filho de Deus. Cortando a árvore, caem os frutos. Celebramos a Assunção de Maria. Nesse dado de fé professamos que, “Terminado seu curso de vida terrena, Maria foi elevada ao Céu em corpo e alma”. Alguns dizem que não está na Bíblia. Já antes do Novo Testamento ser escrito, temos dados da fé que foram transmitidos ao povo de Deus. A Santa Tradição está unida à Palavra de Deus, pois ali estão os ensinamentos apostólicos que nos foram transmitidos. A comunidade primitiva já transmite dados da fé pela tradição, como diz Paulo em dois lugares: “O que recebi eu vos transmiti” (1Cor 13,23 e 15,3), referido-se à Eucaristia, a Ceia e à Ressurreição. Paulo diz que recebeu do Senhor, quer dizer que a tradição, os ensinamentos a par com os Evangelhos que foram escritos muito depois.

Viver como Maria

   Maria é o modelo completo de quem viveu o que Jesus ensinou. É a discípula perfeita, pois viveu em contínua intimidade com Jesus, tanto no seu seio como na sua vivência doméstica. O modo de Maria viver, diferente de todos na linha da geração, pois só ela é mãe, nós o vivemos na intimidade, pois é o mesmo Jesus que habita em nós em seu Ser glorificado e como Eucaristia. Maria, em seu canto, na visita a Isabel, mostra a preocupação com os pobres e sofredores, que é a mensagem central de Jesus que veio buscar o que estava perdido (Mt 18,11). Maria, vivendo totalmente o Evangelho, já tem sua ressurreição e glorificação junto a seu Filho. Por participar de sua carne humana como mãe já está no Paraíso como nós que também participamos de sua carne. A Ressurreição, não é só ajuntar ossos esparramados e até destruídos, mas a condição de união ao Filho de Deus que Se encarnou. Paulo ensina essa vitória sobre a morte que nos garante a vitória final.

Buscar as coisas do alto

   Maria é a mulher do Apocalipse, gloriosa, como Igreja que reúne os apóstolos e todos os fiéis na vitória sobre o dragão – o mal – que quer destruir todo bem. A Igreja é símbolo de Maria, a mãe que vê seu Filho e seus filhos perseguidos. Ela estimula a buscar as coisas do alto onde já reina com Cristo. Reinar é ter a certeza de fazer todo o bem para que haja vida e vida em abundância.  Buscar as coisas do alto é fortalecer os laços de fraternidade entre os irmãos. Ela é a irmã maior que cuida dos filhos de Deus. Por estar intimamente unida a Cristo, nosso culto, referindo-se a ela, está direcionado a Cristo no seu louvor ao Pai. A intercessão de Maria manifesta a bondade de Deus que quer todos com Ele na glória. A oração de Maria, nossa Corredentora, no Espírito Santo, nos aproxima do Pai.

Celebrar a Assunção de Maria é contemplar nossa futura vitória.

Leituras: Apocalipse 11,19ª; Salmo 44; 1 Coríntios 15,20-27;Lucas 1,39-56

Ficha nº Homilia da Solenidade da Assunção de Maria (20.08.17)

  1. Em Cristo celebramos as glórias que Deus concedeu a Maria por ser a mãe de seu Filho Unigênito que se encarnou
  2. Maria, vivendo totalmente o Evangelho, já tem sua ressurreição e glorificação junto a seu Filho.
  3. Reinar é ter a certeza de fazer todo o bem para que haja vida e vida em abundância. 

            Mãe não esquece o filho

            É magnífica a figura de Maria nesta simbologia da Igreja perseguida e gloriosa. Maria ainda passa pelos sofrimentos de seu Filho no Corpo de Cristo que é a Igreja, que somos nós.

            A grandiosidade da Ressurreição de Jesus é dada a todos os que Nele crêem.  Primeiro Ele, depois os que pertencem a Cristo. Dentre os que pertencem a Cristo está sua Mãe, à qual Ele pertence também por sua origem na carne. Levando ao Céu nossa humanidade na Ascensão, atraiu também a si sua Mãe, a primeira redimida e ressuscitada com o Filho ao qual está unida pela carne e depois pela fé.

            Maria se torna, em sua Assunção, modelo para a humanidade redimida que se abre a Deus e transforma o mundo. Ela é a expressão da misericórdia de Deus. Ela se torna ministra dessa misericórdia, pois Deus faz nela maravilhas. Ela se torna portadora do Espírito Santo para a santificação de João Batista e de todos os que crêem.

nº 1675 Artigo – “Confirma os irmãos!” (Lc 22,32).

  1. Ministério de Pedro

             Vamos aprender o que a própria Igreja ensina em seu Catecismo no qual resume toda a doutrina. Assim afirma: “O próprio Cristo é fonte do ministério da Igreja. Instituiu-a, deu-lhe autoridade e missão, orientação e finalidade”. O Concílio Vaticano II deu orientações claras para a vida do povo de Deus. Isto é, guiado pela Palavra de Deus e pela Tradição, aprofundou a orientação para o momento atual. A Igreja não está distante da vida do mundo. Reafirmam-se as verdades e abrem-se novos caminhos. Permanece vivo o ministério de Cristo através dos apóstolos e seus sucessores. Seguem a Cristo também no serviço ao povo de Deus. Agem em continuação a Jesus Cristo. Lembramos: “Como o Pai me enviou, assim também Eu os envio” (Jo 20,21). Recebem igualmente o poder do perdão dos pecados, porque lhes é dado o Espírito Santo. Lembramos que Jesus dá a Pedro, que professa a fé no Filho de Deus Vivo, as chaves do Reino dos Céus. Poder de abrir as maravilhas da redenção a todos e poder também de dizer o que não é da redenção. Como continuação de Cristo em seu ministério, eles recebem o poder de agir em sua pessoa. Por que uma pessoa e não diretamente? Porque a Encarnação continua. Para se encarnar Jesus usou a condição humana, para continuar agindo entre nós, usa o mesmo caminho. Assim Deus quer intermediários. Não atraem a si a glória, mas Àquele que os escolheu. Esse ministério, sustentado pelo Espírito Santo, é um critério para permanecermos na verdade.

  1. Apascenta minhas ovelhas

            Pedro, seus sucessores, os Papas, em número de 266 até Francisco, continuaram a missão de Pedro, unido a todos os bispos. É o Colégio Apostólico. No correr desses séculos, cada Papa teve seu modo de agir, mas sempre na mesma verdade. Eram humanos e pecadores como nós. Mas a verdade permaneceu a mesma. Jesus disse a Pedro: Apascenta meus cordeiros e minhas ovelhas (Jo 21,15-17). Jesus afirma três vezes. É uma forma usual de dar importância ao que está dizendo. Nessa função de apascentar está seu magistério de anunciar o Evangelho com toda a Verdade. Por isso temos garantia no caminho da Igreja. Não erra na fé. Nas verdades da fé e da moral é garantido seu ensinamento. No que se refere à fé e à vida cristã em sua moral, não erra. Nas questões humanas, sociais e políticas, nos ensinamentos dependentes de uma época, pode errar. A nós compete estarmos atentos, amar e ouvir esse Pastor que Cristo escolheu para segui-Lo. Unidos a Pedro, o Papa, os bispos, de modo especial nos Concílios, têm seu ministério garantido na verdade. Esse ministério tomou formas diferentes no correr da história. O importante é estar sempre aberto às mudanças. Nós pudemos ver a diferença dos Papas que tivemos ultimamente: Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Nenhum Papa deixa de ser homem para ser um semi-deus. Sua missão nos conduz a Deus.

  1. Eu rezei por ti

Pedro era um homem frágil, com um temperamento muito próprio, cheio de boa vontade e com um grande amor por Jesus. Foi capaz de negar, mas capaz de seguir até à morte. Pedro é garantido por Jesus que lhe diz: “Simão, Satanás pediu para vos peneirar como o trigo; Eu, porém, orei por ti, a fim que tua fé não desfaleça. Quando te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22,31-34). Jesus mantém essa oração permanente diante do Pai por nós. Ele é nosso intercessor (Rm 8,34). Sempre intercede e nos convida a acolher esse ministério. Entre os dons que sustentam nossa fé, estão, então o ministério de Pedro passado a todos os Papas com os bispos. O Papa é símbolo da Unidade de toda a Igreja.

nº 1674 – Homilia do 19º Domingo Comum (13.08.17)

Senhor, salva-me!

Não tenhais medo

Depois da maravilhosa multiplicação dos pães, Jesus manda os discípulos seguirem à sua frente, de barco, para o outro lado do mar. Esse mar é o lago de Genesaré, que não é muito grande, mas tem tempestades fortes que até hoje são perigosas. Os discípulos entram numa destas e se desesperam. A Palavra de Deus desse domingo nos trás duas tempestades: A tempestade do lago e a manifestação de Deus a Elias. Aparecem fenômenos violentos antes das ondas serenadas e do murmúrio da brisa no qual Deus fala a Elias. A vida de Elias passava por momentos turbulentos de perseguição. Jesus vem ao encontro dos discípulos andando sobre as águas. No escuro, pensaram ser um fantasma. Diz para acalmá-los: “Coragem! Sou Eu. Tenhais medo”! (Jo 14,27). Mesmo dentro da tempestade, Pedro pede uma confirmação de Jesus: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água”. “Vem, respondeu Jesus” (Mt 14,28-29). Pedro então começa andar sobre as água. Com medo do vento, começou a afundar. Pedro quis o espetáculo. Jesus lhe mostra que o caminho é a fé. E lhe diz: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31). Com essa, não há o que temer. Não ter medo é ter força de passar por dificuldades e sofrimentos e ter a certeza da mão de Jesus. Possibilita também ter, como Elias, a experiência de Deus no murmúrio da brisa (1Rs 19, 12-13ª). As dificuldades da vida nos jogam em situações que nos provocam medo. Medo faz parte da natureza humana. Ter medo da fé, não faz parte da condição espiritual da fé. Para acalmar o mar revolto da vida é preciso a brisa da fé.

No murmúrio da brisa

          A reflexão que começa pela tempestade e continua no encontro com Deus. É uma experiência magnífica encontrar-se com Deus. Para chegar a essa experiência Elias passa por tantos sofrimentos e perseguições. Cheio de zelo por Deus, é recompensado por um encontro que lhe dá uma missão de definir o futuro na situação em que vive: unge reis e o profeta           Eliseu. Os discípulos têm a experiência de Jesus que vem sobre as ondas, isto é, está acima do perigo e os convida a não terem medo. No relacionamento com Jesus na fé, não há lugar para o medo, para o desânimo e para tirar o corpo como a dizer isso não nem nada a ver comigo. Dizemos que, quando as águas sobem, aí corremos para Deus. Mesmo que nos afoguemos, continuamos seguros nele. Jesus passou por isso no Horto das Oliveiras quando sofre a grande tentação. Seu pavor chegou a tanto que suou sangue. Estouraram as veias pequenas por causa da grande tensão. Ele soube, mesmo sentindo sua natureza humana de tal modo sofrida, dizer: “Pai, se é possível, que passe de mim esse cálice; contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). Foi capaz de assumir andar sobre as ondas desse mar revolto de sua vida em sua Paixão e Morte.

Perdendo por Cristo

            No meio das tempestades encontramos um momento de paz e de serenidade quando somos capazes de entender nossa participação nos sofrimentos de Cristo, não pelo sofrer, mas pelo ganho que temos em Cristo. Essa assimilação em Cristo se dá quando entendemos que perder por Cristo é ganhar. S. Paulo, que era um judeu fiel e devoto, sente o desejo de ser separado de Cristo como seus irmãos de raça distantes e separados de Cristo (Rm 9,1-15). É preciso perder para ter. Quem quer seguir Jesus tem que perder muitas coisas que não levam a Cristo. Até coisas boas. Pela fé essa perda se torna um ganho. É como caminhar sobre ondas na tempestade. É sempre um encontro com Deus.

Leituras: 1Reis 19,9ª.11-13ª; Salmo 84; Romanos 9,1-5; Mateus 14,22-33

  1. O perigo e o medo dos discípulos no mar é vencido pela experiência da fé em Jesus.
  2. A experiência de Deus, mesmo na tribulação, é sempre de serenidade.
  3. Seguir Cristo provoca tensões que exigem cortes, mesmo de coisas boas.

Sobre as ondas

            A narrativa da tempestade no mar é o pano de fundo que nos explica quanto se pode e deve sofrer para que o Reino de Deus se estabeleça no mundo. O mar agitado simboliza o mundo. A angústia dos discípulos é nossa frágil condição humana no seguimento de Jesus.

            A presença de Jesus dá a segurança, simbolizada em andar sobre as águas. Com Jesus podemos superar todos os sofrimentos e perturbações. Pedro se arrisca sobre as águas, mas com medo do vento, começa a afundar. É bom notar que afunda de uma vez. Há sempre um caminho de fraqueza. Não podemos duvidar.

            O profeta Elias passa por perturbações, caminha quarenta dias pelo deserto e vai ao encontro de Deus no monte Horeb. Ali Moisés estivera com Deus. Ali tem a forte experiência de encontrar Deus. Não O percebe no vento impetuoso nem no terremoto nem no fogo. Deus estava no murmúrio de uma leve brisa (1Rs 19,11-12). O profeta está a nos ensinar que Deus é sempre tranqüilidade e serenidade, mesmo no meio dos maiores problemas.

            O maior mal é o fechamento do coração. Esse é um rumor que impede de Deus ser ouvido.

 

nº 1673 Artigo – “Santa Tradição – Palavra de Deus”

O que nos foi transmitido

          “A Palavra de Deus é viva e eficaz” (Hb 4,12). Sem ela não podemos encontrar o que Deus quer para nós e como chegar a Ele. Mas a Palavra não está algemada (2Tm 2,9). Ela é a fonte da Palavra que lemos e vivemos. O tema da Tradição está deixado de lado em nossas reflexões e catequeses. Podemos cair na doutrina de Lutero afirmando que só existe a Escritura. Há um pensamento falho. Podemos perguntar onde está na Bíblia que ela seja a única fonte. Antes de os textos bíblicos serem escritos, já se vivia a fé e os bons costumes. O Antigo Testamento começou a ser escrito pelo ano 700 antes de Cristo. Primeiro se viveu e depois de séculos, foi condensado na Palavra. Daí vem a palavra tradição. Não é a busca de viver só o passado, como está na opção de muitos, mas acolher a fé que é transmitida através da Igreja, desde Jesus. O discernimento desta fé se faz com os meios que Deus nos deu na Escritura, na Tradição e na compreensão que tiveram os antigos, os doutores, como foi celebrada na liturgia e vivida na fé do povo de Deus. Vejamos a riqueza desses meios. Nenhum age por si só. Como no Antigo, no Novo Testamento, Jesus é a Palavra Viva que é fonte de toda a verdade da salvação. Dele já falaram os profetas e o salmos (Lc 24,44). Os apóstolos e os discípulos continuaram a missão de anunciar a Verdade.

A comunidade que anuncia

Só mais tarde os ensinamentos de Jesus, vividos pelos discípulos, foram escritos. A pregação do Evangelho, segundo a ordem do Senhor, fez-se de duas maneiras: Oralmente e por escrito. O Evangelho foi transmitido pelos apóstolos que, na pregação oral, transmitiram o que receberam das palavras, da convivência e das obras de Cristo. Muito depois, apóstolos ou homens que com eles viveram, guiados pelo Espírito, puseram escreveram a mensagem da salvação. Entre o ensinamento de Jesus, dos apóstolos e dos discípulos, houve bastante tempo. A Bíblia nasceu no meio do povo que vivia a verdade. A Tradição já existia quando a Palavra foi colocada no livro. Paulo diz, no ensinamento sobre a Ressurreição e a Eucaristia, que recebeu o que já se fazia e ensinava. Somem-se aqui muitos fatos que aconteceram e que passaram para a vida da Igreja sem estarem escritos na Bíblia. Ela se tornou assim, juntamente com a Tradição, fonte de verdade e de vida. É certo que há muitas coisas que não foram escritas. Quem discerne? A Igreja tem a autoridade maior que controla, também pelo Espírito Santo que é dado para seu ministério, como por todos os que conhecem a Palavra e a transmitem.

Uma Igreja da Tradição e da Palavra

“Para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na Igreja, os apóstolos deixaram como sucessores os bispos e a eles transmitindo o seu próprio encargo no ministério” (Catecismo, 77). A transmissão viva dos ensinamentos, realizada pelo Espírito Santo, é chamada de Tradição enquanto distinta da S. Escritura, porém, intimamente ligada a ela. A Igreja, em sua doutrina, vida e culto perpetua e transmite a todas as gerações, tudo o que ela é e crê” (DV 64). A Escritura é a Palavra de Deus enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo. A Sagrada Tradição transmite aos sucessores dos apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo e pelo Espírito Santo aos apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles a anunciem, conservem e difundam. A Igreja não tira sua certeza a respeito de tudo que foi revelado somente pela Escritura, mas também pela Tradição. Ambas devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento e reverência (Cat. 81-81). É isto o que ensina a Igreja Católica.

nº 1672 – Homilia da Transfiguração do Senhor (06.08.17)

“Transfiguração do Senhor”

Uma festa completa

            Celebramos a Transfiguração do Senhor como uma festa especial no calendário da Igreja. Nesse dia temos tantas festas com nomes diferentes que celebram o Bom Jesus. Estamos mais ligados ao Jesus sofredor, pois nos toca mais de perto. Celebramos hoje o Jesus glorificado que é também passa pelo sofrimento de sua Paixão. Glorificado, mas não deixa de ser o Homem de Nazaré. Como vemos, Ele, na condição humana se manifesta glorioso. É completa também porque tem a presença do Moisés e Elias, simbolizando a Lei e os Profetas, e os discípulos que são os iniciadores do novo povo e vivem a nova lei que está em Jesus. No Antigo Testamento a Lei era vista como a letra, no Novo a lei está no Espírito que coloca em nosso coração as palavras de Jesus. É por isso que o Pai diz: “este é meu Filho Amado no qual pus todo meu agrado. Escutai! (Mt 17,5). Em certo sentido a Transfiguração de Jesus no monte é uma comunicação da nova lei e do novo povo, como o foi no Monte Sinai. É um novo começo. Pedro, vê nessa manifestação um momento de grande prazer: “ É bom estarmos aqui. Se quiserdes vou fazer aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (id. 4). Há um sentido de permanência no Antigo Testamento. Era uma tentação da comunidade primitiva. Mas também conta com a presença de Deus de forma gloriosa, como foi no Sinai. Este momento maravilhoso para os discípulos é como momento de compreensão da Paixão que é seguida da Ressurreição gloriosa.

No amor do Pai

A declaração do Pai ao apresentar o Filho envolve todo o projeto de sua missão: “Este é o meu Filho amado no qual ponho o meu bem-querer” (2Pd 1,17). Estas palavras calaram fundo no coração de Pedro. É no amor do Pai que se realiza a redenção da humanidade através do acolhimento de Jesus que comunica as palavras do Pai. A obra da Redenção é uma obra do amor do Pai que envia o Filho Dileto para comunicar seu amor e atrair ao mesmo amor. A comunhão com Deus é participação de sua divindade amorosa. Repetimos muito que Jesus veio tirar nossos pecados. Certo. Mas, o que tira os pecados é a comunhão de amor com Deus. Temos que salientar o amor em todas as suas dimensões místicas, espirituais, humanas, sociais. Desse modo teremos a libertação dos pecados e a força para vencer a tentação. Pedro escreve que o amor cobre a multidão dos pecados: “Tende ardente amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá a multidão de pecados. Sendo hospitaleiros uns para com os outros” (1Pd 4,8). É um amor espiritual que vai ao prático da vida. Diz Tiago: “De que adianta alguém dizer que tem fé, se não tem obras?… Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta. … Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras”  (Tg 2,14.47).

Um projeto para todos

            A transfiguração de Jesus não é somente uma realidade pessoal dele, mas projeto para todos. Assim como Jesus se Transfigurou, todos seremos transfigurados: Por que estamos nós também a toda a hora em perigo? … porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (1Cor 15,30). O que aconteceu com Jesus acontecerá conosco. A transformação começa já colocando o Evangelho na prática transformando as realidades do mundo, dos necessitados. Sem isso não há ressurreição.

Leituras: Daniel 7,9-10.13-14;Salmo 96; 2 Pedro, 1,16-19; Mateus 17,1-9

Ficha nº 1672 – Homilia da Transfiguração do Senhor (06.08.17).

  1. Jesus se transfigura e se apresenta como a nova lei e a nova profecia. E prefigura sua Ressurreição
  1. O amor do Pai é a condição da vida e da missão de Jesus. Redenção é amor.
  1. A nós cabe transfigurar o mundo pelo amor que recebemos.

Um pai que sabe amar                                  

            A narrativa da Transfiguração de Jesus é como um compacto de um filme. Os discípulos que vão passar pelo sofrimento da Paixão de Jesus, podem contemplar antes do ocorrido a glória que vai ser concedida a Jesus na sua Ressurreição. Jesus

            Esse momento nos traz a passagem que Jesus veio fazer do Antigo ao Novo Testamento. É a superação da simples observância da lei e da profecia, para a vida de relacionamento com o Pai.

            Jesus é o Filho de Deus apresentado na sua glória. Não são historinhas bonitas. Ele é o Senhor glorioso que é o dominador de todas as coisas, Senhor do Universo.

            Mais que todas as glórias, o momento maior é a palavra do Pai sobre seu Filho: “Este é meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado, Escutai-O” (Mt 17,5). Essas palavras se tornam como que o caminho da compreensão da vida e missão de Jesus. É somente no amor do Pai que compreendemos a Paixão do Filho. Ouvindo o Filho entramos na nuvem da presença de Deus. O Pai sabe amar o Filho e lhe dá a participação de sua glória que passa pela sua Paixão.

nº 1671 Artigo – “O homem perito na dor”

Escolha dos companheiros

            Jesus escolheu os doze apóstolos depois de uma noite de oração (Lc 6,12). Por que rezar tanto, se conhecia os doze? Ele mesmo ensina que devemos pedir ao Pai, operários para a colheita (Mt 9,37-38). Conversava com o Pai para saber quais eram os mais apropriados para o trabalho. Essa Palavra nos ensina que o Pai conhece a situação da obra e por isso sabe qual é o melhor para esse ou aquele trabalho. Assim, no campo vocacional não dependemos somente de uma vontade pessoal, mas da vontade de Deus. É preciso estar aberto ao anúncio do Reino para conhecer o que vamos levar. Jesus chama, assim, homens diferentes para os diferentes. Podemos ver no grupo dos apóstolos como são diferentes! Escolhe o homem certo para a situação concreta. Aqui não se deve contar com milagre, dizendo que a graça de Deus supre. Por isso a necessidade da diferença entre as pessoas. O que a coordena é o amor. Nós vemos em nossos meios que por séculos fez os operários da fé, ordens religiosas, sacerdotes, bispos todos cantando a mesma música. Chegam a mínimos detalhes. Tudo igual.  Podemos questionar porque pessoas não entendem o anúncio. Há necessidade dos diferentes para os diferentes. Com isso prejudicamos a própria evangelização. O que era diferente era excluído por ser estranho ou não perfazia o perfil da “empresa”, como dizemos. Vejamos, por exemplo, da língua: por dois mil anos se usou o latim. Não era problema que o povo não entendesse. No corpo temos membros todos diferentes. S. Paulo explica sobre a unidade e a diversidade do corpo (1Cor 12,1-31).

Certeza de um caminho

            Qual o caminho que Jesus usou para escolher os apóstolos? O Pai diz claramente: “Este é meu Filho Amado, ouvi o que Ele diz” (Mc 9,7). Jesus nos ensina por palavras e exemplos. Sua preocupação era com os sofredores: “Vendo Ele as multidõescompadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9:36). Quer gente que trabalhe como Ele e se preocupe com os sofredores. E os que já estão bem se preocupem com os que sofrem. A certeza de estar no caminho de Jesus é entender a dor do povo e se comprometer e termos seus sentimentos. Todos imitam Jesus, cada um de seu modo. Não é desordem. Há gente que vive em tal situação que necessita um diferente que o entenda. É por isso que há essa debandada da Igreja. Não há quem vá até eles. A uniformidade não é um bom método. A mitologia ensina esse conceito com a lenda sobre o leito de Procusto. Esse era dono de uma pensão. Tinha uma cama. Se o hospede era comprido, cortava um pedaço da perna, se era pequeno, esticava para dar o tamanho do leito. O critério fundamental para a escolha dos operários do Reino é ter compaixão de Jesus. Sem esse sentimento, não conseguimos levar adiante a missão. Esse critério não é levado em conta na formação dos ministros e do povo de Deus. Então, não funciona.

Coragem de mudar.

            E a coragem de mudar? Tratar os diferentes de modo igual é fazê-los mais desiguais. Quanta estrutura teremos que mudar para atender bem a todos, cada um de acordo com sua necessidade! Uma evangelização que não penetre a vida e a transforme não serve. Percebemos o esvaziamento da fé. A questão é perguntar se a causa não está em nós que queremos um mundo a nosso modo e não ao modo de Jesus. Ele disse que pobres sempre tereis entre vós (Jo 12,8). Quer dizer que serviço evangélico nunca terminará. A mudança deve estar em nós e respeitar as diferenças das pessoas. Não sem o Evangelho.

nº 1670 – Homilia do 17º Domingo Comum (30.07.17)

“Dai-me a sabedoria”

 Tesouro escondido

Falar de tesouro escondido parece um conto de fada. Hoje podemos dizer, trarar-se de um negócio muito bom. Em todo caso fica de pé a proposta de Jesus como um tesouro, como uma grande oportunidade. S. Mateus encerra o discurso das parábolas com as parábolas do tesouro, da pedra preciosa e da rede. Podemos identificar esse tesouro também com a sabedoria que Salomão pediu a Deus (1Rs 3,5.7-12). Depois de descrever o Reino em suas diversas dimensões através de simples parábolas, chama à decisão. Depois de descoberto, vale a pena dar tudo por ele, pois vale mais que tudo que possamos ter. O mapa do tesouro é a Palavra de Deus, Sabedoria que nos conduz. Jesus diz que o Reino é como uma rede que vai selecionar o que presta e o que não presta. É um convite a selecionarmos em nossa vida o que presta. Não damos murros no ar, como Paulo nos diz: “Quanto a mim, não é assim que corro, não sem rumo; é assim que luto, não como quem dá murros no ar” (1Cor 9,26). Quem descobre o valor do Reino não mede esforços e vida para possuí-lo. O primeiro modelo é o próprio Jesus que tudo enfrentou para implantar o Reino de Deus. Sabia de seu valor. Os apóstolos, mais claro ainda em Paulo, pela batalha que travaram para anunciar Jesus que tinha encontrado. Foi como cair de um cavalo e ficar cego pela luz. O Batismo o recuperou e imediatamente se pôs a evangelizar. Quem não descobriu o Reino, não consegue organizar sua vida de fé. É o que Jesus diz: é preciso deixar pai e mãe e tudo o que possui. Não se trata de ódio, mas de dar ao Reino o primeiro lugar. No Reino tudo toma sentido.

Como vossa lei!

O coração que escolheu o Reino de Deus se delicia. O salmo 118, em 176 versículos, descreve essa certeza usando as palavras lei, testemunho, promessa, preceito, mandamentos, decretos e palavra, para salientar a força da Sabedoria em nossa vida. O salmo diz: “Como amo os mandamentos que me destes!”. Mandamentos não são leis, e sim, expressão do amor de Deus que cuida de nós. Salomão recebeu, durante o sonho, a visita de Deus oferecendo-lhe tudo que desejasse. O jovem rei, sábio, pediu sabedoria, pois, com ela poderia dirigir seu povo. E Deus lhe dá sabedoria e mais, tudo o que ela contém. A descoberta do Reino é uma questão de amor. Quem ama, dá a vida pelo que ama. Quem se dedica à vida da Igreja, sem ter escolhido o Reino, prejudica o povo de Deus. O povo sabe muito bem quem age por fé ou que age por interesses outros. Deus é o tudo, para quem encontrou o tesouro. Fé é o tesouro que não se mistura com o que não seja da vontade de Deus. Venha vosso Reino e seja feita vossa vontade, que é viver o Reino.

Tudo concorre para o bem

São Paulo, na carta aos Romanos, dá uma resposta aos que se abrem ao Reino de Deus: “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28). O grande prêmio que Deus oferece é a destinação que tem para aqueles que acolheram o amor de Deus, isto é, “serem conformes à imagem de seu Filho” (id 29) para chegarem à glorificação. Ser imagem do Filho supõe também passar pelo que Ele passou, isto é, os sofrimentos da Paixão. Esse aspecto é esquecido em certas pregações e orientações. Até se diz: “Você não recebeu o milagre, a graça, porque não rezou bem”. Jesus também rezou e muito bem, pedindo para ser livre da morte. E foi ouvido, como nos escreve a carta aos Hebreus 5,7. Deus entende o que é melhor para nós. O Reino nos é dado como Deus quer.

Leituras: 1 Reis 3,5.7-12;Salmo 118; Romanos 8,28-30; Mateus 13,44-52

Ficha nº 1670 – Homilia do 17º Domingo Comum (30.07.17)

  1. Depois de descobrir o Reino, tudo fazemos por ele.
  2. O coração que escolheu o Reino se delicia
  3. “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus”

            Nada de bijuteria

            Lindíssima oração de Salomão que quis acima de tudo a sabedoria. Com ela teve todos os outros bens. A sabedoria é identificada com a Lei de Deus, como lemos no salmo.

            Deus contribui para nosso bem, pois O amamos.

            No evangelho Jesus nos ensina que o Reino é um tesouro escondido que devemos procurar e que por ele podemos dar tudo que não saímos perdendo.

            O Reino é como uma pedra preciosa que encontramos e por ela vale dar tudo. A fragilidade da vida cristã vem do fato de nós não termos coragem de investir a vida. Não somos capazes de perder tudo para ter mais. Preferimos ficar com nossos tarecos que acolher sua riqueza.

            O Reino faz sua seleção como os pescadores que jogam fora os peixes ruins e ficam com os bons. Assim se faz o verdadeiro discernimento. Pelo bem, vale tudo.

 

 nº 1669 Artigo – “O valor do pequeno”

 Medindo pela grandeza

            De onde surge a tendência humana de ser o primeiro, o mais inteligente, o mais rico, o mais bonito, o melhor atleta, o mais sábio, o mais santo? Vemos os campeonatos, as olimpíadas, corridas, os concursos de beleza etc… Em todo campo há a procura de ser o melhor. Não nego nada desse aspecto de estímulo ao esporte, ao estudo, à perfeição e à beleza. Tudo requer muito esforço. Incomoda-me não o esforço, mas o desconhecimento dos fracos e dos frágeis que não têm condições de fazer esse caminho. Não se justifica a indolência, a moleza e a preguiça. Parece ser tendência humana de querer ser mais que os outros, de ser o maior, o melhor, o mais poderoso. São as tentações fundamentais do ser humano. Mas, a medida da grandeza de uma pessoa é ser ela humana.  Os parâmetros e as regras são criações nossas. O ponto de partida deve sempre ser o fato de ser humano nas condições em que se vive. O que não é grande é o mal que fazemos, o amor que deixamos de dar. O desenho de uma criança, o sorriso de um idoso e o carinho que fazemos nos torna sempre grandes. Cada um tem valores imensos. Não medimos resultados, mas o ser humano, o homem e a mulher. As culturas são tão diversas! Isso nos leva a não dar critérios de grandeza a outros. O que conseguimos valorizando um, é desqualificar todos. Estamos em uma cultura da discriminação dos fracos. O que realiza grandes obras é reconhecido. Mas não o fez sozinho. Valorizamos o grande general, que na verdade não foi à guerra. Quem foi, foi o soldado. Um depende do outro. Sem o alicerce não teríamos grandes construções. Eles são os heróis que ficam sempre ocultos.

O valor está no coração

            Parece que Jesus dá um critério de grandeza muito claro em seu Reino: “Houve uma discussão entre eles: Qual seria o maior. Jesus lhes disse… “o maior entre vós torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve”… e dá o exemplo: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,24-27). O grande é aquele que é capaz de sair de si, pois é grande o bastante para poder servir os outros, sem se perder. Supera a grandeza que tem se por a serviço. Supera a situação doentia do poder e da grandeza. Com o poder imaturo as outras tendências ruins tomam mais força a ponto de não se ter consciência do grotesco da situação. A maturidade humano-espiritual pode ajudar na solução de nossos problemas pessoais e da “nação”, sobretudo daquele que está ao nosso lado. Vendo esse aspecto de querer ser o primeiro, o grande, o melhor, não precisam ser eliminados, mas que se ponham a serviço. Sabemos que há grandes astros que procuram ter uma vertente social bem acentuada na sociedade. Por outro lado é preciso ter o valor do serviço no coração para poder ser maior, servindo. As Igrejas padecem desse mal. Essa procura de poder, de glória e de bens é uma doença triste.

Valorizar os pequenos gestos

            Fazer o bem não dá IBOPE. Uma coisa é certa: é mais fácil esconder o mal do que o bem que fazemos, justamente pela grandeza do bem, sejam quais forem os gestos. Na educação da comunidade é muito útil dar valor aos pequenos gestos, sobretudo das crianças. Igualmente é necessário desmontar lideranças que fazem tantas coisas boas, mas não o fazem como serviço. O altar não é lugar para desfilar. A promoção dos pequenos encargos, do reconhecimento dos pequenos gestos favorece a integração e dá condições de descobrirem o dom de servir. Há ministérios que dão visibilidade. Mas há aqueles que são ocultos na humildade e na sabedoria.

nº 1668 – Homilia do 16º Domingo Comum (23.07.17)

“Saber viver com a oposição” 

O Reino e o não-reino

A Palavra de Deus ensina a realidade do Reino de Deus em três momentos: O Reino e seus inimigos; Ele tem uma força interna para seu crescimento como uma semente, mesmo pequenina; é também como o fermento que faz a massa crescer. São palavras que ensinam a vivência do Reino nas situações adversas. Vivemos a fé numa situação de tensão entre o que pensamos e o que o somos. É a planta ruim que cresce junto com o trigo. São parecidos, por isso não se distinguem no início da plantação. Na vida estamos sempre cercados de adversidades que se contrapõem à nossa fé. O Reino sofre contínuas oposições e deve crescer ao lado do mal bem organizado. O mal é forte. Mais forte deve ser o cristão para crescer nessa situação. A oposição o força a ser mais forte e instruir-se. Deve levar em conta que a força o Reino não depende de nós. Dá seu fruto sem que saibamos como. Depende de sua força interior que vem de Deus. É como uma sementinha que tem dentro de si árvores imensas. Assim é o Reino de Deus. Qual é a atitude que podemos ter diante dessa planta nociva que cresce junto? Jesus diz que é com a paciência que devemos esperar a hora da colheita. Aí vão separar. Tratar tudo com humanidade é a condição necessária para o crescimento. Temos que agir como Deus como diz a Sabedoria: “dominando a própria força, julgas com clemência e nos governas com grande consideração” (Sb 12,18). Paulo apresenta a arma para nos proteger: “É segundo Deus que o Espírito reza dentro de nós. Não estamos sozinhos diante das dificuldades. “Ele reza em nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26), quer dizer, com as palavras de Deus que não temos.

Dentro das comunidades

            A vida das comunidades sofre muitas recusas e objeções dentro do próprio grupo. Vivemos em tensões que colocam os fiéis sempre em exercício. Isso fortalece sua capacidade de viver. Podemos pensar diferente na comunidade, mas que não seja por motivos espirituais. São questões humanas. O evangelho não é uma camisa de força. Ninguém, nenhum movimento ou ensinamento esgota o Evangelho. Por isso é importante viver o fundamental que é o amor a Jesus Cristo e a vida de comunidade, apesar das diferenças que não atingem a verdade do Evangelho. Desse modo a fé se fortalece e é força para o ambiente. Seguimos a orientação de Jesus: deixar crescer junto e esperar o dia da colheita. É o modo de Deus agir: Julgar com clemência. O justo deve ser humano (Id). É o que rezamos no salmo: “Vós sois clemente e fiel, sois amor, paciência e perdão” (Sl 85). Sabemos que os outros conhecerão a Deus através de nosso procedimento.

Quando o inimigo está dentro

            Sofremos quando vemos dentro de nós essa divisão: temos coisas boas que devem conviver com aspectos até negativos de pecados. É preciso paciência e saber suportar-se. Não ter medo de ser fraco e acolher as fraquezas dos irmãos. Somos pecadores, temos a tendência para o mal. S. Paulo nos oferece sua experiência: “Constato esta lei: quando eu quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta. Eu me comprazo na lei de Deus segundo o homem interior; mas percebo outra lei em meus membros que peleja contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado que existe nos meus membros” (Rm 7,21-23). Quanto mais a Deus pertencemos, mais humanos seremos. Teremos muitas falhas, mas muita força para lutar. Quem não quer lutar, já perdeu. Precisamos dos auxílios de Deus, sobretudo na oração, na reflexão e na Eucaristia. Jesus passou por isso. E venceu. Venceremos!

Leituras:Sabedoria 12,13.16-19;Salmo 85; Romanos 8,26-27;Mateus 13,24-43

Ficha nº 1668 – Homilia do 16º Domingo Comum (23.07.17)

  1. O Reino de Deus, como a plantação, cresce cercado de pragas.
  1. As comunidades vivem em meio a oposições e diferenças. Paciência.
  1. Dentro de nós há a tendência ao mal. Não podemos nos destruir, mas vencer o mal.

                        Concorrência desleal

            Ouvindo o ensinamento da Palavra sobre o modo generoso do agir de Deus, somos estimulados a sermos humanos. O justo deve ser humano. Poder não significa maldade.

            Na leitura de hoje aprendemos que o Reino de Deus também sofre dificuldades por causa dos inimigos. E faz a comparação da plantação da semente boa. Depois aparece o joio, planta parecida com o trigo, mas maligna. A solução não é arrancar o maligno, pois o bom trigo vai junto. Então a seleção deve vir no final. O joio vai para o fogo. É muito prático para nós em compreendermos os males que a Igreja passa no mundo.

            Que fazer? Acabar com os inimigos do Reino?

            Jesus ensina que a gente pode viver entre pessoas diferentes. Mas não precisamos acabar com elas para viver bem. Temos que conviver e que nosso testemunho as modifiquem. Deus orientará seu futuro.

            Mas encontramos divisão dentro de nós mesmos. Que fazer? Lutar contra os males sem nos destruir, suportando e levando adiante nossa missão. Não podemos nos acabar para acabar com nossos males. É preciso ir vencendo.

 

nº 1667 Artigo – “O verdadeiro crente em Deus”

Deus fez o homem do barro

            A Escritura, mais que de palavras, é feita com o Espírito Santo. Crê quem crê verdadeiramente em Deus e não em seus próprios modos de pensar ou em teorias oportunistas. Precisamos iniciar sempre pelo conhecimento de nós mesmos. O que somos vai nos modelar nosso viver e agir. Tento compreender a partir da própria criação da humanidade. O primeiro passo nos vem do barro do qual fomos formados. Esse barro não é tanto o serviço de um oleiro, mas a descrição de nossa realidade. Somos frágeis e sempre estamos nos ajustando. Crescemos nos adaptando, moldando-nos e sendo moldados. A vida está sempre em movimento. Crer não é somente um ato intelectual de compreensão e de vontade ao dom de Deus, mas está unido ao nosso ser frágil. É na fragilidade que edificamos nossa vida. Fragilidade não é pequenez ou impossibilidade de crescer. É o melhor modo para acolher Deus que nos abre ao infinito crescimento. Crescemos de “glória em glória” diz Paulo (2Cor 3,18). Crer em Deus exige que nos sintamos frágeis e necessitados de sua bondade de Pai. Por isso nos abrimos. Jesus diz que o que Pai ocultou aos sábios e aos doutores e revelou aos pequeninos (Mt 11,25). O orgulho que provém da abundância de riquezas, de ciência e de poder obscurece o conhecimento de Deus. É um bloqueio que os humildes não têm, por isso podem conhecer o bem maior.

Soprou-lhe a alma espiritual

            Naquele barro Deus soprou o hálito de vida. E o homem se tornou alma vivente (Gn 2,7). É um ser vivo e tem a dimensão espiritual. Não foi criado como os outros animais. Sabemos que no momento da concepção é criada para cada homem uma alma única e intransferível. Não é somente um ser animal, mas também espiritual. Esse fôlego de vida que veio de Deus é uma participação em sua Vida Divina. Todos nós participamos da vida de Deus porque assim Ele nos fez. Isso não é uma opção, é um dom dado ao barro frágil. A dignidade do homem vem desse dom. Para crer usamos nossos sentidos espirituais de inteligência, vontade, sabedoria, consciência. Tudo isso será acrescido com o Dom que é o Espírito Santo. Ele penetra todo nosso ser. Temos tantos outros dons que nos fazem viver com intensidade. O grande dom da consciência nos fortalece e torna nosso frágil barro em fortaleza diante dos empreendimentos e das dificuldades da vida. Contemplando o mundo, podemos ver como o ser humano se desenvolveu nessa longa história da humanidade. Nós temos os resultados. Os dons espirituais nos elevam a grande dignidade do ser humano, pois podemos participar de forma completa da Divindade. Ainda mais quando sabemos que Jesus uniu essa fragilidade à Divindade. Quanta riqueza. Para crer é preciso aceitar.

Crescei e multiplicai-vos

            Deus deu a partida na raça humana: Sede fecundos! Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra (Gn 1,28). Não somente aumentar a raça humana, mas criar e viver junto com os outros e estar unido ao outro fiel que crê em Deus. Toda humanidade é uma grande família. A fragilidade gera forças na unidade. Toda divisão, seja de raça, de cor, de crença, de condições, não tem sentido, pois todos viemos do mesmo Deus e voltamos para Ele. A riqueza do universo é a fraternidade. Tudo feito para todos. Ninguém é dono de nada. Somos passageiros e não levamos as paisagens conosco. Essa maravilha nos estimula a aproveitar nossos dons para que o mundo seja melhor. Crer em Deus é um dom precioso, pois responde à nossa condição humana. Crer e amar a todos é instaurar a condição Divina entre nós. Quem recusa outra pessoa como irmão, recusa Deus como Pai de todos.

nº 1666 – Homilia 15º Domingo Comum (16.07.17)

“Semeando a Palavra”

Que terra somos?

            Conhecemos bem essa parábola da semente que é lançada à terra. No tempo jogavam a semente e depois revolviam a terra para enterrá-la e esperar a chuva. Podemos entender a comparação da semente jogada e que cai em diversos tipos de terra: terra de caminho, que é dura; terra em terreno pedregoso, não tem umidade; semente que caiu entre os espinhos, no meio do mato, é sufocada; e semente que caiu em terra boa. Esta produz em abundância. E Jesus diz uma palavra pesada: “Quem tem ouvidos, ouça” (Mt 13,9). Trata-se da compreensão de toda a pessoa, não só da audição. Que possam perceber a sabedoria de suas palavras. Jesus retoma as palavras de Isaias 48,6 e Deuteronômio 29,4. Dizer ouvidos, olhos e coração compreende toda a pessoa. Jesus diz que o fechamento é total. Há sempre a possibilidade de se fechar. Esse foi o problema que acompanhou a história do povo de Deus e continua acontecendo. Sem conversão os males só aumentam. A terra inculta não produz fruto. Essa Palavra de Deus nos questiona muito perguntando o que colocamos como impedimento de sua germinação em nós. Falta de compreensão, não deixar a planta crescer, falta de persistência, excesso de preocupações e ilusão com a riqueza… Tanta coisa impede. Impede porque não estamos abertos a Deus. Mas, o pouco que conseguimos fazer sempre produz fruto. Mesmo que não seja total, o pouco que podemos é o tudo que Deus acolhe.  A oração da missa nos estimula a “aprender a rejeitar o que não convém ao cristão, e abraçar tudo o que é digno desse nome”.

Glória que nos espera

            A semente plantada produz fruto. Os que ressuscitaram com Cristo produzem fruto no mundo e se destinam a uma glória da qual não temos noção como será grande. Escreve S. Paulo: “Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente não merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós” (Rm 8,18). Citando 1 Coríntios 2,9, retoma as mesmas palavras que Isaias usa para a recusa da Palavra num sentido de incapacidade de poder ver o que nos espera na Glória: “Os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam”. Acrescenta ainda a maravilhosa reflexão sobre a natureza que espera “ser libertada da corrupção e, assim, participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus” (Rm 8,21). É uma reflexão sobre o futuro do mundo, do homem e da natureza. O que há na natureza que a faz sofrer? O pecado humano no mau uso dos bens criados. Nossa ressurreição irradiará sua glória no mundo. Como participamos da natureza, ela participará da glorificação como participa da glorificação de Cristo. Vemos os sacramentos que têm seu lado cósmico usando os bens da natureza para que seja dada a graça, de modo próprio chegará à glória, pois Paulo ensina que o universo será recapitulado em Cristo (Ef 1,10).

A força da Palavra

            Nesse panorama meio sombrio da falta de religião do povo e do desinteresse, temos a palavra de Isaias que demonstra a força da Palavra. Pensamos que tudo depende de nós, mas termos certeza que tudo depende de Deus. Nossa colaboração é necessária. Deus respeita nossa liberdade. Basta uma semente da Palavra, é já uma grande plantação. É como a chuva que produz seu efeito. Deus não desiste de nós. Sempre está oferecendo sua Palavra que alimenta, fortalece, cura e estimula. Quanto mais nos abrirmos, mais ela é será fecunda. Vejamos que terra somos. Em cada celebração ouvimos a Palavra. Ouçamos

Leituras: Isaias 55,10-11; Salmo 64; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-23:

Ficha nº1666 – Homilia do 15º Domingo Comum (16.07.17)

  1. Terra boa é o acolhimento. A semente produz fruto pela força da Palavra.
  2. A ressurreição com Cristo é a libertação da natureza. Tudo se endereça a Cristo.
  3. A semente lançada é como a chuva que sempre produz frutos.

            Ouvido entupido 

            A parábola é conhecida, mas a frase de Isaias que Jesus usa é menos conhecida, mas é ela que dá o sentido ao pouco resultado da plantação. Como a semente simboliza a Palavra, ouvi-la e acolhê-la vai dar muito fruto. Não ouvir não é somente um problema de audição, mas é o fechamento de tudo o que somos: os olhos não vêem, os ouvidos não ouvem nem o coração compreende. É a terra que não dá fruto.

            Por isso, o texto ensina cuidar como ouvimos.

            A Palavra de Deus tem uma fecundidade muito grande, como a produzida pela chuva que cai do céu, molha a terra e faz brotar as sementes para que tenha o grão e depois o pão para o alimento. Não volta sem realizar.

            Mas o ouvido entupido por tudo o que corre pelo mundo, bloqueia a ação de Deus.

O sofrimento não obstrui o ouvido nem fecha o coração, pois a própria natureza quer se libertar desse mal provocado pelo coração fechado do homem.

nº 1665 Artigo – “A força do cotidiano”

  1. Não muitas, mas serenas

            “Não contamos as horas pelo número, a não ser as serenas” (horas non numero nisi serenas). Esse provérbio latino nos diz que o que valem são as horas boas, serenas e gostosas de viver. Bonito, mas nem tanto, pois a vida se compõe de claro e escuro. Se todo dia for festa, nunca haverá festa. A vida é composta de momentos alegres, momentos tristes e momentos do cotidiano. Vivemos nessas três modalidades que nos equilibram. O tempo litúrgico que vivemos me estimula a uma reflexão sobre o sentido do cotidiano. A liturgia tem grandes festas e depois volta ao “pão nosso de cada dia”. Temos Tempo do Natal, Tempo Pascal e Tempo Comum. Este, também chamado de Ordinário segue uma ordem. São 34 semanas que se seguem, sendo uma parte antes da Quaresma e, a maior parte, depois da Páscoa. Nesse tempo não se celebra um mistério específico de Cristo, como o Nascimento, a Morte ou a Ascensão. Mas o mistério de Cristo como um todo, acompanhando um dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). João é lido em alguns tempos definidos. Seguimos o caminho do evangelho, vivendo o mistério no seu todo, lido em cada domingo. Durante a semana há outro esquema: Lê-se todo evangelho e textos das epístolas e do Antigo Testamento. No arco de três anos lemos 90% da Bíblia. Desse modo a vida também requer que se viva intensamente o momento presente com aquilo que ela oferece. É um ensinamento sobre a vida. Como nosso organismo tem um ritmo contínuo e sereno, assim, o dia a dia é uma oferta de vida. Jesus diz: “Não vos preocupeis com o amanhã, pois o dia de amanhã se preocupara consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal” (Mt 6,34). Cada dia é completo.

  1. Aproveite o dia

            Igualmente temos o provérbio “carpe diem”. Essa expressão vem das odes de Horácio, que significa, aproveite o dia. Não queira viver amanhã. Isso Jesus já diz quando ensina o adequado modo de viver buscando hoje o essencial: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,33). Dá ainda a explicação mais aprofundada, pois o sentido da vida não só está em aproveitar o máximo de prazer que possa ter, mas dar sentido pleno ao dia porque, vivido a partir do Reino, será completo eternamente. Como cremos na Ressurreição, temos uma direção. Se não temos o sentido, então poder-se-á dizer “comamos e bebamos porque amanhã morreremos” (1Cor 15,32). O dia nos traz a riqueza de todo o universo. O Reino de Deus está plenamente presente. Podemos dizer que a eternidade está presente para nos fazer completos. Ela não é algo que vem depois da morte, mas nos preenche de sentido. A presença do mistério de Deus em nossa vida é silenciosa como a vida é silenciosa. Aproveitar é viver na serenidade que usufrui o dom da vida e da eternidade. Fácil viver. Basta viver o momento presente. Ele dá base para o futuro. Se viver bem hoje, o amanhã já está preparado.

  1. Nada é perdido

            Temos o defeito de ver a vida como produção de coisas, como uma empresa que procura lucros e acumula bens. A vida está primeiro no ser, depois do ter e no produzir. Não perdemos tempo quando estamos dedicados aos outros. O tempo que perde com o outro é o tempo bem aproveitado. Ser para, é ser completo, pois temos tudo a ponto de poder dar aos outros. As pessoas que mais saíram de si, foram as que mais se conquistaram. O que nos faz perder é querermos só ganhar. Jesus sempre coloca sua mensagem ao avesso da nossa. A melhor vantagem é não procurar vantagens.

nº 1664 – Homilia do 14º Domingo Comum (09.07.17)

“Viver segundo o Espírito” 

Os pequenos acolhem

            O texto evangélico de hoje nos coloca bem no âmago do Evangelho de Jesus que se alegra grandemente porque os pequeninos acolhem a Boa Notícia da revelação de Jesus. Eles acolhem e são os primeiros destinatários. É o júbilo messiânico. Jesus se dirige ao Pai em grande louvor. Também aos “sábios e entendidos” é anunciado o Evangelho, mas permanece oculto, pois estão fechados ao amor de Deus. Muitos destes são interessados e vivem em santidade. Outros aceitam enquanto não os incomodem e não os comprometem com o cuidado amoroso de Deus para com os necessitados. Esse aspecto de pequenez e humildade é uma característica fundamental do Filho de Deus que se encarnou. Como lemos na primeira leitura, o profeta Zacarias (não o pai de João Batista) diz sobre o rei que vai chegar: “Eis que vem seu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento… Ele exterminará a guerra e anunciará a paz” (Zc 9,9-10)… A figura do Rei – Messias não é o glorioso guerreiro num cavalo garboso. Nós temos a tendência ao triunfalismo. Jesus não era assim. É o que lemos no salmo 144 falando de Deus: “Misericórdia e piedade é o Senhor, Ele é amor, é paciência e compaixão. O Senhor é muito bom com todos; sua ternura abraça a toda criatura” (Sl 144,8-9). Jesus é a imagem viva do Pai. Quando queremos essas atitudes estamos vivendo segundo a carne (Rm 8,12).

 Meu jugo é suave

            Jesus convida a irem a Ele os sofredores: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos e Eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Esse convite “vinde” ressoa o convite que é a Sabedoria para o grande banquete aberto a todos os povos (Pr 9,5). O convite de Jesus mostra dois aspectos para nossa compreensão da fé: “Meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,30). A carga e a cangalha que dominam o animal simbolizam o peso que carregamos. Estar sob o poder de Deus não é um peso. Carregar as exigências da fé não é um sofrimento que suportamos. Seus mandamentos não são pesados diz S. João (1Jo 5,3). Os mandamentos não são pesados para fazer sofrer nosso coração. Segui-los nos alivia de tantos males. São outros nomes do amor. Jesus já carregou a pesada cruz para o Calvário em nosso lugar. Nossa cruz não é pesada, pois quem a dá é o próprio Jesus que sabe o que podemos suportar. “Deus não permitirá que sejais tentados acima de vossas forças… mesmo tendo a tentação, Ele vos dará os meios de sair dela e a força para suportar” (1Cor 10,13). O problema não são as tentações, mas a facilidade com que nos deixamos levar pensando que o que nos agrada é que é o certo. Isso é o pior.

Fé não é peso

            Há mais um ensinamento nessas palavras de Jesus: “Meu fardo é leve”. Já há tempo, na história vemos que há uma tendência de rigidez na vida cristã como se o rígido, o severo e o exigente sejam o caminho mais seguro para a salvação. Impôs-se uma fé pesada, uma religião dura. Quanta severidade! Jesus não era assim. Quer que sejamos exigentes no amor. Há uma heresia (doutrina errada) que influencia muito a mentalidade do povo e de certas lideranças. A severidade não se confunde com grosseria, prepotência ou falta de educação, pois a verdade pode ser ensinada com boas palavras. Deve-se condenar o pecado e não maltratar o pecador. Não se trata de ceder ao mal. Quanta gente se afastou da Igreja por maus tratos de sacerdotes e gente da sacristia. A fé é alegria. Não é pesada. A rigidez, peguemos para nós, não impor aos outros. Não jogar sobre os outros nossos problemas.

Leituras: Zacarias 9,9-10; Salmo 144; Romanos 8,9.1-13;Mateus 11,25-30

Ficha nº 1664 – Homilia do 14º Domingo Comum (09.07.17)

  1. Jesus se alegra porque os pequeninos acolhem a revelação de Jesus. Ela é oculta aos sábios e aos entendidos porque fecham o coração. Jesus é como o Pai que é bom.
  1. Estar sob o poder de Deus não é um peso. Carregar as exigências da fé não é um sofrimento que suportar.
  1. Já há tempo, na história vemos que há uma tendência de rigidez na vida cristã como se o rígido, o severo e o exigente sejam o caminho mais seguro para a salvação 

                        Carga leve

Quem diz que religião incomoda, está incomodando a religião. Religião que incomoda não é de Deus.  O que é de Deus é a simplicidade, a mansidão e humildade. É o que nos dizem as leituras.

O glorioso Rei, Senhor do Céu e da Terra vem a sua cidade não montado num cavalo garboso, mas no humilde jumento. Ele vai eliminar toda a arma de guerra. Vem para a paz. É a linguagem que o povo entende. Por isso Jesus, ao entrar em Jerusalém usa esse jumento.

Não é só simples para demonstrar aos outros, mas simples para acolher. É Nele que podemos encontrar o repouso e o descanso. Nada de coisas pesadas e complicações. Diz: meu jugo e suave, (jugo é a cangalha que se colocava sobre o animal e Jesus usa como aquilo que nos oferece). E meu fardo é leve. Deus não nos dá pesos que não possamos carregar. Mesmo quando há algo pesado na vida, Ele está junto.

Os que o entendem são os humildes. Cuidado com religião de peso. Isso não é de Deus, mas fruto de nossa maldade. Se quiser algo pesado, ponha sobre suas próprias costas e não nas dos outros.

nº 1662 – Homilia da Sol. de S. Pedro e S. Paulo (02.07.17)

“Festejamos Pedro e Paulo” 

Deram as primícias da fé

             Pedro, homem de pouca instrução, Paulo homem bem formado. Pedro pobre e Paulo tecelão de qualidade. Cada um deles contribuiu, a seu modo, para o desabrochar da Igreja. Jesus confiou-lhes ministérios diferentes na mesma fé. “Pedro, o primeiro a proclamar a fé, e fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel” (Prefácio). A ele foi confiada a evangelização dos judeus mantendo assim a promessa feita aos patriarcas para o futuro do povo. Pedro se dedicou de coração aos judeus, mas soube usar as chaves do Reino para abrir o evangelho aos pagãos, como foi no caso do batismo de Cornélio (At 10, 1-48), dando uma interpretação completamente diferente e nova ao relacionamento dos judeus e pagãos que eram considerados impuros. A visão era uma ordem para comer animais impuros. Havia uma proibição de comer animais impuros como lemos em Levítico 11. A visão de Pedro insiste que Deus não considera ninguém impuro. Assim as chaves de Pedro abrem as portas do Reino de Deus a todos os povos. Há uma comparação entre os pagãos e os animais impuros. Paulo, superando tudo que aprendera do judaísmo foi capaz de continuar judeu e unir-se aos pagãos com sua evangelização. Desse modo esses dois homens são as bases da fé para o mundo gentio – pagão e para os judeus. Jesus é uma novidade total. E por isso arriscam suas vidas. Rezamos no salmo: “E de todos os temores me livrou”. A fé que os fundamentou na missão tem fragilidades, mas foi suficiente para dar bases ao edifício da Igreja de Cristo. “Os ensinamentos desses dois apóstolos nos deram as primícias da fé” (Oração). Esta abertura que lhes proporciona a fé torna-se a garantia do futuro. Paulo diz que depois das batalhas lhe está reservada a coroa da justiça (2Tm 4,8).

A união dos dois apóstolos

            Pedro e Paulo são diferentes em sua experiência de Jesus. Pedro viveu com Jesus, Paulo O conheceu de modo diferente recebendo dele a missão para o mundo pagão. Às vezes até se contrapondo puderam discernir não a partir de suas idéias, mas a partir da fé em Cristo na Igreja. Nas discussões do grande tema da conversão dos pagãos, buscam o bem da Igreja e não suas próprias idéias. A união dos dois apóstolos vai ao extremo de darem a vida por Cristo em Roma, centro do mundo. Jerusalém foi lavada com o sangue de Cristo. Roma, com o sangue dos dois apóstolos. Ela tornou-se propulsora de evangelização. Não pode faltar o testemunho.. Os dois têm o mesmo sentimento da presença de Cristo: Paulo diz: “O Senhor esteve ao meu lado e me deu forças” (2Tm4,17). Pedro diz com confiança: “Agora sei que o Senhor enviou seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava” (At 12,11).

Mestres da Igreja

            Podemos aprender desses dois homens como discutir para discernir, não para ganhar. As tensões que a Igreja vive são, às vezes,        insolúveis por não se buscar o bem de Cristo. Puderam abrir a porta aos pagãos sem fechar aos judeus. Paulo foi sempre mestre porque foi sempre aprendiz, procurava conferir com os mestres de Jerusalém, os apóstolos e anciãos, se ele estava caminhando certo (Gl 2,2). Essa sabedoria humilde é capaz de construir. “A sabedoria incha, a caridade edifica (1Cor 8,1). Lembremos também que o Papa Francisco, com carinho e força, dirige a Igreja agitada pelas ondas de tantas maldades e pecados. Deus lhe dê força. A nós cabe a ousadia de ouvir esses dois monumentos de fé e assumir suas atitudes na Igreja hoje. Atitude de fé e fortaleza contra os males do mundo.

Leituras: Atos 12,1-11;Salmo 33; 2 Timóteo 4,6-8.17-18;Mateus 16,13-19.

Ficha nº – Homilia da S. de S. Pedro e S. Paulo (02.07.17)

  1. O ensinamento dos dois apóstolos nos deram as primícias da fé.
  2. Os dois apóstolos são diferentes, trabalham de modo diferente, mas unidos.
  3. Podemos aprender desses dois homens como discutir para discernir, não para ganhar.

            Abrindo o cofre

            Estamos acostumados a ver a segurança de lugares onde estão valores altos e coisas preciosas. Há chaves, senhas, segredos para garantir o local. Jesus também confiou a um homem simples, mas esperto, a segurança dos bens espirituais. Ele se chama Pedro, o homem pedra, fortaleza, garantia.

            Num momento de sua vida Jesus precisou de uma prova para ter certeza de poder confiar: “Quem sou eu para vocês?” Pedro diz: “Tú és o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Posso confiar disse Jesus: “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. Nem o diabo tem força sobre ela. “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus”. Para abrir e fechar. (Mt 16,16ss).

            A fé de Pedro e de Paulo são as chaves da segurança. Paulo combateu o bom combate e guardou a fé. Ambos sempre sentiram a presença de Cristo: “O Senhor esteve ao meu lado”…

            Não precisamos nem de Anjos, nem de milagres para garantir a Igreja. Basta a fé que nos foi transmitida por esses dois homens que deram a vida por Cristo. Assim se forma e se fortifica uma comunidade. As chaves não são para fechar, mas para abrir a abundância da fé em Jesus.

 

nº 1661 Artigo – “Solidão que não pesa” 

  1. Em busca de um deserto

            Sempre houve na Igreja e, em outras culturas, a busca pelo deserto. No início do cristianismo, o cristão mais autêntico era aquele que dava a vida por Cristo no martírio. Com a diminuição dos martírios, surgiu outro fenômeno muito forte que ainda tem vigor: a busca da solidão no deserto. Foi uma verdadeira maré de homens e mulheres buscando a vida solitária para o encontro com Deus e a vitória sobre o mal. Imitavam Jesus que foi ao deserto e venceu a tentação. Diante da crise de mundanismo que se vivia no império romano, procuravam a simplicidade. Faziam uma fuga do vazio para a plenitude na busca do único necessário. Não se tratava de fugir da realidade, mas ser útil à realidade espiritual do homem. Foram pessoas de vida muito longa. Com S. Basílio no Oriente, S. Pacômio no Egito e S. Bento no Ocidente, perto de Roma, surgiu um novo modo de vida solitária. Com o tempo criou-se a necessidade de viverem em comunidade para refazerem em si a vida da comunidade primitiva, sem perder o direito à solidão, como S. Afonso de Liguori fez indo para Scala para fundar a Congregação Redentorista. Essa solidão acontece dentro do indivíduo que quer ser dono de si mesmo e construir-se livremente sem deixar que o vazio seja uma condição de vida. O esvaziar-se é o caminho para capacidade de escuta. Por isso encontramos no deserto a grande missão dos “mestres” “pais espirituais” que introduziam nessa busca de si mesmo para o autoconhecimento e densidade do vazio interior. Procura-se ser o homem à estatura de Cristo (Efésios 4,13). O povo judeu viveu quarenta anos no deserto para amadurecer sua capacidade de entrar na terra prometida. Jesus fez quarenta dias de deserto. Saiu maduro para a missão.

  1. Vivendo só

            Não estou procurando fazer propaganda da vida monacal. Quero procurar entender meditando sobre uma situação que vivemos na sociedade atual. Antes se fugia para o deserto para sair do vazio da sociedade para encontrar o sentido na solidão. Agora encontramos uma sociedade vazia que procura preencher o sentido com tantas novidades e agitações. Mesmo no meio dessa massa, o indivíduo vive só. Essa solidão aumenta quando retorna para casa e se está só. Vemos a situação das famílias desagregadas complicando mais ainda esse quadro. Dois males a evitar: viver só no meio da multidão e viver sozinho com a multidão dentro de si. A pessoa está ficando muito só. As famílias são pequenas, se dissolvem com facilidade, as visitas caíram de moda, vizinhos não se conhecem mais etc… Pior a situação dos que ficam idosos e são solteiros ou sozinhos. É um deserto compulsório. “A solidão me dói!”. Mesmo os que vivem com alguém, provam ser solitários dentro de uma casa com mais pessoas, ou dentro de um convento com confrades.

1905.Uma pastoral a se fazer

            É o momento de pensarmos numa pastoral para os solitários que não se enquadram num programa de terceira ou a melhor idade. Ouvi de uma experiência feita de se celebrar juntos o Natal reunindo essas pessoas. Essa pastoral deve conduzir a pessoa a assumir uma atitude eremítica – viver só, mas com plenitude. É uma volta interior ao deserto e ali encontrar Deus. É um desafio. Com os meios de comunicação à nossa disposição podemos criar a comunidade virtual dos que procuram Deus na solidão. As noite longas, como dizia Pe. Vitor Coelho, servo de Deus, são o momento de falar com o Pai. Perdemos muito tempo com inutilidades e até com perversões, em lugar aproveitá-lo para a vida que vale. Quem sabe seja o momento de procurar retomar o sentido do deserto na condição atual.

nº 1660 – Homilia do 12º Domingo Comum (25.06.17)

O medo não vem de Deus

Jesus escolhe os doze apóstolos e ensina como devem ir e previne que serão perseguidos. Estimula a não terem medo, pois a missão é Dele. É Ele quem continua a anunciar através de seu discípulo. A primeira leitura, de Jeremias, mostra a sorte do discípulo. Ele é o exemplo de sofrer a perseguição e declarar a confiança. Paulo, na carta aos Romanos, ensina que o pecado entrou no mundo. Nós anunciamos o evangelho num mundo de inimigos. É o inimigo mortal que quer dar morte aos seguidores de Jesus. Compreendemos o que diz Jesus: “Não temais de quem mata o corpo, mas não pode matar a alma” (Mt 10,28). Três vezes, neste evangelho, temos as palavras fortes de Jesus: “Não tenhais medo!”. Todas as manifestações de Deus propondo uma missão, são precedidas destas palavras: “Não tenhas medo”. O anjo disse a Maria: “Não temas, Maria, pois encontraste graças da parte de Deus” (Lc 1,30). O motivo é simples: O que vem de Deus não nos faz mal. Deus jamais coloca o cristão em perigo. Ensinamento que amedronte as pessoas, não vem de Deus. Vemos que certos tipos de feitiçarias, “trabalhos” e ameaças de castigo querem impor medo. Há superstições, devoções e certas pregações que impõem medo. Elas não procedem do Espírito de Deus! Tudo que Jesus propõe, não dá medo.  Vem do maligno que é perigoso. Esse pode fazer-nos perder não só o corpo, mas também a alma (Mt 10,28). Jesus propõe e não impõe com violência de autoridade. Se falava com autoridade, é porque era coerente. Sua palavra era dirigida para a Vida.

Razão da confiança

Ao lado da palavra temer, encontramos a proclamação da fonte da confiança: Nenhum pardal cai no chão sem o consentimento do Pai. Deus toma conta até dos cabelos de nossa cabeça (Mt 10,29-10). Se entrarmos na jogada com Deus, podemos ter confiança. Vejamos o testemunho de uma menina de sete anos: A mãe pede-lhe um favor e diz: Você está não com medo de ir no escuro? Ela responde: “Eu confio em Deus. Eu tenho fé em meu Deus”. Quando se fala que fé é um pulo no escuro, quer dizer que é um pulo na confiança em Deus. Está tudo muito claro. Em Deus não há obscuridade. Quando nos propõe, sabe de nossa força. Na Angola aprendi um provérbio: Aquele que te põe o peso nas costas vai contigo. Por isso S. Paulo diz: “sei em quem acreditei” (2Tim 1,12). O profeta Jeremias é contundente: “O Senhor está a meu lado, como um forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos” (Jr 20,11). Todos os santos foram especialistas na confiança em Deus. Os problemas eram tão duros como agora, mas a força de resistências estava na certeza de que não estavam sozinhos. O que Deus quer, eu quero, diziam.

Com sofrimentos

A proteção de Deus não elimina a possibilidade de seguir de Jesus também em seu sofrimento. O inimigo pode matar o corpo, como matou o de Jesus. Mesmo assim podemos ter confiança, pois não pode matar a alma. Jesus, no último momento se entrega nas mãos do Pai, sabendo que não O abandonaria no poder da morte.  Por isso: não temais! A raiz do medo é o pecado. A raiz da confiança é a fé em Jesus. Os discípulos ficaram apavorados com o mar agitado e Jesus dormindo sossegado no barco. Gritaram: “Mestre não te importa que pereçamos”… Jesus disse: “Silêncio! Quieto!” E disse aos discípulos: “Por que tendes medo assim? Ainda não tendes fé?”(Mc 4,38-40). Ficamos apavorados nas dificuldades. Será que não temos fé? Papa Francisco diz que não perde o sono por causa dos problemas.

Leituras:  Jeremias 20,10-13; Salmo 68; Romanos 5,12-15; Mateus 10,26-33

Ficha nº 1660 – Homilia do 12º Domingo Comum (25.06.17)

  1. O que vem de Deus não faz mal.
  2. Ao lado da palavra temer, encontramos a palavra confiança.
  3. A raiz da confiança é a fé em Jesus. 

Nada de segredo

Há uma onda de pecado que invade avassaladoramente o mundo. Deus não inventou o mal. Paulo diz que o pecado de Adão passou a todos. E fez um mal muito grande. Mas acrescenta que o novo Adão, Jesus, veio para curar todos os males. Se o mal fez mal, o Bem faz um bem muito maior.

Para levar adiante essa missão redentora Jesus envia seus apóstolos e todos nós.  Não há o que temer. Todo o mal, mesmo o mais oculto vai ser atingido pela força da graça. É para anunciar e não guardar esta riqueza só para si. É para anunciar de cima dos telhados.

Não é para ter medo, mesmo que acabem conosco. O Pai cuida de nós mais que cuida dos passarinhos. Ele cuida de todos os detalhes. O profeta Jeremias foi perseguido, mas sentiu a força de Deus a seu lado.

O Pai não vai se esquecer de nossa coragem e nossos sofrimentos. Ele dará a recompensa. Estará ao nosso lado diante do Pai. Não há o que temer. Há que anunciar.

 

nº 1659 Artigo – “Coração quer coração”

Um coração para amar

            Estamos num mês dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. É verdade que o corpo sem coração não vai muito longe. Assim também a vida humana sem o Coração de Jesus não pode dar bons resultados. Não se trata de ter uma devoção mas, sobretudo de ter uma opção de vida unindo-se ao coração Daquele que disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração;… Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). Uma devoção é muito boa quando experimentamos seu conteúdo, não simplesmente nas formas exteriores, como novena e oração executada e contada como se fosse um negócio. O fundamento da devoção ao Sagrado Coração não se reduz a seu coração de carne, mas a todo o amor de Deus manifestado em Cristo, simbolizado em seu coração. Como toda devoção há modos de vivê-la, formas de oração, uniformes, fitas, estandartes, linguagem especial, irmandades… e tantas coisas mais bonitas e frutuosas. O erro é ficar só nisso e não ir ao profundo dessa irmandade, confraria ou movimento. O fundamental é a contínua renovação. É um modo de aproximar-se do Evangelho e compreendê-lo. Sem isso, torna-se vazia a devoção. A devoção ao Sagrado Coração toca direto o amor do Pai em dar Cristo ao mundo para manifestar seu amor. Amor para amar. Devoção que é um projeto de evangelização através do amor. Não podemos parar no egoísmo espiritual que procura ganhar graças e méritos. As grandes promessas não podem ser vistas somente como um presente pessoal. Elas continuam no caminho de Jesus que veio para amar.

  1. Coração aberto pela lança

             O último momento de Jesus na cruz houve ainda o último lance para garantir a visibilidade de sua entrega amorosa: o golpe da lança que lhe furou o peito e penetrou em seu coração. Se pensarmos, foi ali o momento em que a humanidade quis entrar e tomar conta desse coração. O homem ferido pelo pecado dá o golpe final em seu peito. Por ali entrou e encontrou a libertação. Só dentro desse coração ferido que se pode encontrar vida. “E correu sangue e água” (Jo 19,34). Sem derramamento de sangue não há redenção (Hb 9,21). Encontrou a fecundidade, vida do Espírito. Ali, rompendo o véu do templo de seu corpo, do Homem – Deus, o humano encontra o Paraíso (Hb 10,19). O coração aberto pela lança abre o peito do Filho de Deus como caminho novo e vivo (Id). Entramos nas delícias que Deus reservou para nós. Temos assim algo mais para compreender esse momento: Como o coração do Filho de Deus foi aberto para dar entrada a todos, o coração de cada um tem que ser aberto para que experimentemos o que Deus nos oferece.

  1. Mãos abertas.

            As imagens que vemos do Coração de Jesus têm mãos estendidas, abertas simbolizando a riqueza de seu coração a serem distribuída abundantemente. “De seu seio correrão rios de água viva” (Jo 7,38). Imaginemos que bem fazem os que amam a Deus. Rios de água viva dão vida por onde passam. Esse rio nasce do Coração de Jesus. Tão triste ver cristão, devotos do Coração, não ter nenhuma preocupação com os que sofrem. Ser generoso não empobrece ninguém. Enriquece sempre mais. O amor não soma, não diminui. Sempre multiplica. Quando lemos a multiplicação dos pães, compreendemos que os cinco pães e dois peixinhos alimentaram cinco mil pessoas. Assim é o amor.

nº 1658 – Homilia do 11º Domingo Comum (18.06.17)

“Jesus compadeceu-se das multidões”

Compaixão é missão

Jesus, em seu ministério, quis associar a Si, discípulos que pudessem exercer sua missão e continuá-la. O discurso sobre a missão inicia-se com o chamamento dos doze apóstolos. A seguir dá-lhes a instrução sobre como agir em sua missão da qual são continuadores. A missão dos doze não nasce de um projeto feito em escritório. Nasce do olhar compassivo de Jesus que “ao ver a multidão, teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). Esse olhar de quem ama e sabe se compadecer é a fonte, o móvel e a razão da missão. É esse olhar compassivo que vai dar o modo de realizar esta obra redentora de Jesus. Junto à compaixão de Jesus, encontramos seu pedido: “Pedi ao Senhor que envie operários para sua colheita” (Mt 9,38). Por que Jesus pede que se reze para que Deus mande operários? Ele não sabe? Dá a perceber que o Pai é quem sabe quem poderá exercer a missão da compaixão para como os abandonados. Rezar pedindo operários é um ato de fé que abre o coração para que a bondade de Deus continue sempre presente, mesmo nessas coisas que são, às vezes, claras. Como Deus sempre chega antes que possamos nos manifestar, o pedido por operários quer prevenir que a multidões sofridas não fiquem sem socorro. Por isso quer escolher aqueles que Ele quis. Quer operários formados na compaixão de Jesus. Nossas exigências podem escolher operários que não realizem os planos de Deus.

Eis os nomes dos doze

“Estes são os nomes dos doze apóstolos”. Trata-se personalização o fato de dizer os nomes. Cada apóstolo tem seu nome e sua característica pessoal. O apóstolo não é um número, não é uma empresa, não é um funcionário. Ele é o homem concreto que assume com Jesus a missão. Cada um é único. O homem é chamado pelo nome e conhecido na sua realidade com seus dons e defeitos. O grupo escolhido por Jesus tem diversidade de pessoas e de caráter e condições. Aqui se dá uma pista para nosso trabalho de formação de discípulos para a missão de Jesus: não engessar todos no mesmo modelo. Temos essa tentação e até definição que todos têm que realizar o mesmo programa e apresentar o mesmo padrão. Assim, muitos não serão atendidos porque não há quem possa se reconhecer neles. A formação dos operários do Senhor tem o mesmo padrão, fará a mesma obra, com os mesmos princípios. Não foi assim que Jesus fez. Por isso podemos notar a falta de operários para a messe. Pior, cresce o abandono de muitos. Quem sabe, personalizando mais a formação, poderemos dar mais socorro aos que são diferentes.

Um Reino que chega

A missão do apóstolo é anunciar a proximidade do Reino. O anúncio feito pelo discípulo é mostrar ao mundo que Deus está perto. Isso será provado pelas curas que fazem em nome de Jesus. Atinge o homem completo, em sua situação.  O Reino só vai se tornar presente com nossa ajuda, pois a eliminação da dor, da doença, da morte e do mal são indícios da presença atuante do Reino de Deus, isto é, do mundo novo que Deus quer criar. É necessário que esta pregação renove a condição humana. Uma das condições para ser discípulo é ter o olhar compassivo de Jesus, pois somente assim podemos fazer o que fazia. O que fortalece a fé dos discípulos é a certeza do amor de Deus. Amor de Deus é o Reino. Este Reino não é uma teoria, mas um amor que é um dom: “a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8).

Leituras: Êxodo 19,2-6ª; Salmo 99; Romanos 5,6-11; Mateus 9,36-10,8

Ficha nº 1658 – Homilia do 11º Domingo Comum (18.06.17)

  1. A missão dos doze discípulos não nasce de um projeto racional. E sim do olhar compassivo de Jesus que “ao ver a multidão, teve compaixão dela”.
  2. “Estes são os nomes dos doze apóstolos”. Trata-se personalização o fato de dizer os nomes. Cada apóstolo tem seu nome, sua característica pessoal e missão particular.
  3. Uma das condições para ser discípulo é ter o olhar compassivo de Jesus, pois somente assim podemos fazer o que fazia.

Emprego novo 

            O povo do Antigo Testamento nos traz a experiência de ser povo de Deus. O que lhe dá garantias é ouvir sua voz. Assim ele é uma nação santa. Jesus também está sempre falando aos seus confiando-lhes os compromissos do Reino. Como no Antigo Testamento constituiu um povo, agora constitui a base do novo povo que são os doze apóstolos

            Para esse Reino ir adiante e se implantar, Jesus escolheu homens que fossem continuação de sua missão e sua presença no mundo. São a nova nação santa e reino de sacerdotes.

            Essa missão é transformadora. Vão eliminar o poder do mal que atinge a pessoa até em seu físico. Há tantos tipos de doenças frutos do mal. Para essa missão escolhe homens simples, do povo e cheios de boa vontade. São os doze apóstolos.

            Por mais que tenhamos de organizar a vida da Igreja e arranjar novos colaboradores, quem os dá é  o Pai. Ele sabe quem é a pessoa certa para o lugar certo. Por isso Jesus manda pedir: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois ao dono que envie trabalhadores para sua colheita” (Mt 9,37).

            Não se trata somente de padres ou bispos, mas também tantos leigos são chamados para assumirem grandes missões. Tudo seja gratuito, pois recebemos de graça.

nº 1657 Artigo – “Deus sempre passa”

Festa de Corpus Christi

            Por que fazemos essa festa diferente?  Quando fazemos a procissão de um santo levamos sua imagem pelas ruas reconhecendo que esse punhado de gesso traz a lembrança querida de um que viveu para Deus. Deus é glorificado em seus santos. Quando saímos em procissão com o Santíssimo Sacramento, a Eucaristia, não é uma lembrança; é uma presença. Nós cremos que a Hóstia Santa é o corpo e sangue de Cristo. É Cristo vivo. Na Quinta-Feira Santa celebramos a instituição da Eucaristia, sacramento da salvação, pois é o Corpo e Sangue de Cristo que Se dá a nós em sua Morte e Ressurreição. Na Quinta-Feira de Corpus Christi (Corpo de Cristo) celebramos com os louvores devido o tão sagrado mistério de amor. Por que a Eucaristia é amor? Ela não é somente o Corpo e Sangue do Senhor, mas é memorial do amor com o qual Jesus Se deu a nós na Cruz. Por isso é redenção. Uma santa religiosa propôs que se fizesse essa solenidade para manifestar publicamente o amor que temos por tão grande sacramento. Se o levamos para as ruas é para que seja reconhecido e louvado dignamente. Nos séculos passados era um momento de glória. Ainda se enfeitam ruas com primor em determinadas cidades. Em outros lugares se abandonaram a prática e não há mais sinais festivos. As casas colocavam toalhas e flores nas janelas. As liturgias atualmente têm uma dimensão maior de participação. Não se deve, contudo, dispensar a intensidade do reconhecimento da presença de Cristo no Sacramento da Eucaristia. Há muitos modos de manifestá-la. Às vezes vemos que muitos estão se esquecendo que a Hóstia é Cristo vivo. Se fossemos firmes na fé, nosso procedimento seria diferente. Renovemos a presença daquele que Se fez por nós.

Acolher o Deus que passa

            A partir da noção de presença temos que superar dois aspectos: o temor do Antigo Testamento de um Deus que é intocável, e o acolhimento no sacro temor que acolhe com amor reverente. Não basta estar atentos somente ao Deus que passa em uma procissão, que poderia não existir, mas não se pode esquecer que nosso Deus é um eterno viajante, está sempre saindo ao encontro de todos. Ele chega sempre primeiro. Seria uma loucura se O víssemos ao vivo. Com esses olhos O vemos no outro, sobretudo no mais necessitado, não só de bens materiais, mas também dos bens espirituais. Essa presença requer sempre mais a abertura ao Deus que passa. Enriquece muito saber que em todos os fatos e pessoas está o Senhor. Isso não nos incomoda nem atrapalha. Jesus não é incômodo, como o foi em vida. Mesmo em choque com certo tipo de pessoas por sua prepotência, não cortou laços nem fechou portas. Vemos como tratou Judas que o traia: Chamou-o de amigo. Assim acolheu Pedro, assim nos acolhe sempre.

Você leva Deus

            Cantamos na bênção do Santíssimo “Bendito louvado seja!.. Fazei-nos, Virgem Maria sacrários vivos da Eucaristia”. Cantamos, mas não vamos a fundo nessa expressão. Somos portadores de Cristo por onde passamos. Isso implica para um aprofundamento da fé na presença de Cristo na Eucaristia. Se a Hóstia para mim, é algo puramente material, não podemos ir longe em nosso relacionamento com Ele. Se o temos como Pessoa, Ele torna-se sempre mais como presença. É um grande desafio superar a mera piedade descomprometida para buscar o compromisso com uma Pessoa que amamos e que temos consciência que está em nós e vai conosco. Não vamos pelo mundo com ovelhas perdidas, sem pastor. Ele permanece em nós e nós Nele. Como O levamos, levamos a Vida.

nº 1656 – Homilia da Santíssima Trindade (11.06.17)

 “Caminha conosco!”

 Deus-comunhão

      Na festa da Santíssima Trindade somos chamados a aproximarmos do mistério de um Deus Uno e Trino, verdade fundamental da fé cristã. A liturgia reflete essa verdade e contempla o Deus que se revela na História da Salvação. Deus se revelou para estarmos em comunhão com Ele. Moisés reconhece a misericórdia de Deus, por isso pede perdão das culpas e insiste: “Caminha conosco” (Ex 34,9). Caminhar juntos, na palavra de Jesus, é morar em nós (Jo 14,22). Cria-se comunhão com Deus e comunhão-comunidade com os irmãos. Pela comunhão na comunidade manifestamos a comunhão com a Trindade. Este é o modo normal de ser dos que vivem o amor. A experiência de Deus não tem palavras para explicar. Estar juntos é sinal da comunhão. Cabe ao Espírito realizar a união espiritual de introduzir-nos na comunhão da Trindade Santa. Os reflexos desta união se dão em nossa vida quando buscamos viver no amor. Deus usou de misericórdia para conosco, vindo ao nosso encontro e estabelecendo conosco uma vida de união com seu Ser. Aprendemos que o Mistério da Santíssima Trindade é impenetrável, incompreensível e tantas outras palavras que parecem fechar a possibilidade dos humanos de se achegarem de Deus. Jesus diz claro: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Deus se revelou em Jesus. A Palavra de Deus entende o Deus Uno e Trino como Unidade, o Deus que se aproxima de nós e Se abre à comunhão. Deus é sempre amor e misericórdia. Em Jesus Se manifesta como amor que se inclina para acolher e se adianta para buscar o necessitado. Ele se põe como o responsável por aquele que não tem socorro. Ele é o parente próximo responsável.

Veio para Salvar

A salvação de Jesus não é só perdoar o pecado da humanidade, mas abrir-nos à comunhão com Deus. “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo, estejam convosco!” (2Cor 13,14). Sabemos que, quando amamos e servimos as pessoas, participamos do dinamismo do amor de Deus. Se servirmos como Jesus, viveremos sua vida com o Pai e o Espírito. Jesus diz que o Pai vem morar em nós, se permanecermos unidos como o ramo ao tronco (Jo 15,5). Quando amamos, o Pai nos ama e vem morar em nós. Às vezes, na vida espiritual, achamos que tudo depende de nós. A maior parte depende de Deus que quer nossa colaboração. Não está dispensada nossa parte que é colaborar com Deus para nosso próprio bem. Não se trata tanto de uma busca, mas de um acolhimento. Deus já fez tudo o que podia por nós, dando-nos a Si mesmo em Jesus. Isso é salvação. A fé em Jesus nos conduz a viver de um modo novo na comunhão com os outros, usando nossos dons para servir.

Comunhão no Espírito Santo.

A comunidade existe para anunciar e atrair à comunhão com a Trindade Santa. Fé cristã não é fazer algumas rezas ou ter um nome de católico ou outro. É viver em comunhão com Aquele que tanto nos amou e enviou seu Filho para o perdão e o Espírito para a santificação na união. A ação do Espírito realiza esta ligação entre nós como as células no corpo. Assim a vida de Deus passa a todos pelo Espírito Santo. O Espírito Santo não é um mercadinho de dons, mas é o Dom. Fomos crismados pelas palavras: “Recebe, por este sinal, o Espírito Santo, o Dom de Deus. Os dons são serviços que um presta ao outro para que a comunhão com a Trindade seja concreta. O Espírito que distribui os dons para o serviço do corpo, como nos ensina Paulo: “Tudo isso é o único Espírito que o realiza, distribuindo a cada um os seus dons conforme lhe apraz” (2Cor 12,11).

Leituras: Êxodo 34,4b-6. 8-9;Daniel 3; 2Coríntios 13,11-13; João 3,16-18

Ficha  nº1656 – Homilia da Santíssima Trindade (11.06.17)

  1. Pela comunhão na comunidade manifestamos a comunhão com a Trindade.
  1. A salvação de Jesus não é só perdoar o pecado da humanidade, mas abrir-nos à comunhão com Deus.
  1. Os dons são serviços que um presta ao outro para que a comunhão com a Trindade seja concreta. 

Não falta serviço

              Jesus disse: “Meu Pai trabalha sempre e Eu também trabalho” (Jo 5,17). A Santíssima Trindade está sempre em atividade de Vida Divina. A comunhão entre si coloca as três Pessoas Santíssimas em contínuo movimento de amor, doação e acolhimento. A serena violência do amor leva Jesus a dizer que somente os violentos o tomam de assalto. O Reino dos Céus sofre violência dos que querem entrar, e os violentos se apoderam dele (Mt 11,12). Essa violência é sair de si para entrar na força de vida do Pai, do Filho e do Espírito. É esse seu trabalho.

              Celebrando a Santíssima Trindade, não estamos diante de um mistério insondável, mas diante de um mistério que nos convida a participar.

              Moisés convida Deus a estar com o povo: “Caminha conosco”! (Ex 34,9). Deus caminha entre nós na força da comunhão: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco” (2Cor 13,13). A cada pessoa da Trindade é atribuída uma missão.

              Quem crê nesse amor doado, tem a vida eterna (Jo 3,16). A salvação é um dom mais que esforço. Participemos da obra da Trindade para saborearmos a doce violência do amor.

 

 

nº 1655 Artigo – Espírito”

  1. Renovareis a face da terra

A celebração de Pentecostes nos leva a pensar na ação do Espírito Santo em nossa vida, na vida da Igreja e do mundo. Vivemos a Graça que é a nossa participação na vida de Deus e sua ação em nós. Esta ação santificadora é atribuída ao Espírito Santo. Encerradas a festas pascais e o Tempo Pascal, entramos no Tempo comum que vai até o Tempo do Advento, preparando o Natal. Não é um tempo vazio sem atividades especiais. É o tempo do Espírito, tempo de levar a efeito o dom da Redenção e com ele transformar nosso coração e o mundo. Pode parecer uma ousadia querer transformar o mundo. Mas Deus é maior que nossos pensamentos e age, mesmo que não percebamos. Por isso insistimos em rezar invocando o Espírito Santo com a oração “Vinde Espírito Santo, enchei o coração de vossos fieis e acendei neles o fogo de vosso amor. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado. E renovareis a face da terra”. Cremos na ação do Espírito e na transformação do mundo por sua ação. Os tempos de Deus não correspondem aos nossos relógios. Quanto mais pudermos fazer pelo mundo, mais teremos que fazer, pois o Espírito é criador. Sempre nos traz um mundo novo a construir. Espírito, que é amor, tem infinitos dons. O amor não tem esquemas nem prisões. Jesus O compara ao vento que sopra onde quer (Jo 3,8). Não há nada de estático no relacionamento da Trindade, nada de estático na vivência cristã. Quando paramos, retrocedemos. Os santos sempre procuraram mais e melhor o serviço de Deus pelo povo. Uma vez encontrei um padre bem idoso preocupado com o que deveria fazer para os jovens de sua paróquia. Só de pároco tinha cinquenta anos.

  1. Nós e o Espírito Santo decidimos

            É forte a palavra de Pedro quando tomaram decisões fundamentais para a Igreja nascente: “Porque decidimos o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo, além destas coisas indispensáveis” (At 15,28). De onde Pedro tira a afirmação tão forte a ponto de fazer-se em pé de igualdade com Espírito Santo nas decisões? Como se sente fazendo a vontade de Deus, sente que Deus une nossa vontade à sua. É o que chamamos de uniformidade com a vontade de Deus. Quero o que Deus quer, por isso quando queremos algo, Deus o quer também, como nos ensina S. Afonso de Liguori. Do mesmo modo podemos ter certeza que tomamos decisões seguras por estarmos em sintonia com Deus. Não se trata de tentar Deus levando-O a fazer o que queremos, mas porque fazemos o que Ele quer, podemos dizer que é a sua vontade e a nossa que trabalham estão unidas. Esse é um dado forte da espiritualidade: a busca constante da vontade de Deus. Ela não nos diminui como pessoas, mas nos fortalece e nos dá tranquilidade no que fazemos. Dá força nas dificuldades e persistência nos absurdos da vida.

  1. Ele ressuscitará vossos corpos

O Espírito age em nós para nos ressuscitar como ressuscitou Jesus. Esta é sua meta. “E, se o Espírito daquele que ressuscitou dos mortos a Jesus habita em vós, Aquele que ressuscitou dos mortos a Cristo Jesus, igualmente vos dará vida a seus corpos mortais, por intermédio do seu Espírito que habita em vós (Rm 8,11). Ele dará vida a nossos corpos mortais. Como Jesus não foi abandonado no sepulcro, também nós receberemos o mesmo dom de vida. Pelo fato de termos o Espírito Santo estamos seguros da vida eterna. O Pai ressuscitou Jesus pelo Espírito Santo. O mesmo fará conosco. Por isso podemos ter garantia da vida futura. Vivemos com o Espírito. Ele não nos abandonará na passagem da morte. Ela parece tão dolorosa, mas com Ele, se torna um nascimento.

nº 1654 – Homilia de Pentecostes (04.06.17)

“Santificais a vossa Igreja” 

Uma festa para hoje

              Pentecostes é um acontecimento atual, como rezamos: “Ó Deus que, pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa Igreja em todos os povos e nações” (Oração). Não estamos lembrando um fato histórico maravilhoso, mas uma maravilha que se torna presente, sempre de modos diferentes, seja no silêncio do orvalho, seja no rumor da tempestade. Vem para todos, pois o mesmo Espírito que “pairava sobre as águas” é derramado sobre a multidão dos povos. Para tanto são apresentados os povos peregrinos presentes em Jerusalém e formam um leque mostrando as muitas direções que convergem para o momento (Atos 2,1-11). A santificação nos lembra que o Espírito foi derramado sobre todos: “Derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo”. O que pedimos é que Deus “realize agora, no coração dos fiéis, as maravilhas que foram operadas no início da pregação do Evangelho”. Esta maravilha é o anúncio do Evangelho. A Igreja deve acolher continuamente o dom do Espírito Santo no momento atual e torná-lo sempre presente por meio de sua atitude evangelizadora. Todos entendiam em sua própria língua as maravilhas de Deus. A grande riqueza da Igreja é a abertura a todos os povos e culturas. O Evangelho é para todos os tempos e não se fixa a uma época como sendo a melhor. E pode ser entendido por todos. A Bíblia já foi traduzida para mais de 3.000 línguas. Mudam-se as línguas e não perde nem o sabor nem a fecundidade do Espírito que a coloca no coração das pessoas.

Vinde, Pai dos pobres!

               A oração da Seqüência (Hino) chama o Espírito de Pai dos Pobres, pois quer mostrar sua missão como a bondade de um Pai generoso que se preocupa com os necessitados. Vemos exaltado, deste modo, o amor do Espírito que dá a vida, é consolo, é presença querida no coração, é descanso, é alívio. Ele lava, purifica, rega, cura, guia e aquece nossas esperanças. O Mistério da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, um Espírito inefável, um vento que ninguém controla, tem do Pai o coração, do Filho a solicitude. Ele não é privilégio de escolhidos, mas presente em todos como vida. “O Pai vos dará outro Consolador que estará sempre convosco” (Jo 14,16). Jesus encarnou-se em nossa natureza humana com todos os traços humanos. O Espírito é uma presença paterna com solicitude materna. Como o Espírito deu ao Filho de Deus os traços humanos, agora dá aos filhos de Deus os traços da natureza divina que faz cada imagem viva do Filho.

Recebei o Espírito Santo

               Naquela tarde de domingo, Jesus se põe no meio dos discípulos. Soprando sobre eles os envia para a reconciliação (Jo 20,19). Paulo pede que o pecado não domine mais sobre nós (Rm 6,14). Nosso relacionamento com Deus se faz pelo Espírito, pois a Palavra de Deus nos ensina: “Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo” (1Cor 12,3). A ação do Espírito nos põe em relacionamento com Deus e com os irmãos. Ele distribui dons para o bem comum. Esses dons se atualizam no corpo de Cristo do qual somos membros. É todo o Corpo que age como um todo. Não há cristianismo vivido individualmente, mas sim, do individual para o comunitário e do comunitário para o pessoal em vista de todo o Corpo. A salvação eterna se dá dentro da comunidade. O dom do perdão que é dado naquela noite não se refere só a uma confissão, mas é um projeto de fraternidade que gera o amor que salva.

Leituras: Atos 2,1-11; Salmo 103; 1Coríntios 12,3b-7.12 -13; João 20,19-23

Ficha nº 1654 – Homilia de Pentecostes (04.06.17)

  1. A vinda do Espírito Santo se dá num momento da história, mas é aberta a todos os povos e todas as línguas. Todos podem receber e entender o Evangelho.
  1. Louvando o Espírito Santo, a Igreja descreve seus muitos modos de entrar em relacionamento conosco. Põe em nós os traços do Filho Eterno do Pai.
  1. O Espírito é dado para a reconciliação de todo universo, todos num único amor.

            O mesmo endereço

            Naquele dia de Pentecostes estava em Jerusalém gente devota vinda de todas as partes do mundo conhecido então. Se olharmos o mapa poderemos ver que suas origens fazem um círculo à Cidade Santa, como lemos em Atos dos Apóstolos (At 2,5) , vindos de todas as direções. Ao ouvirem o barulho, a manifestação do Espírito Santo, todos correram para um único endereço: o cenáculo onde estavam reunidos os discípulos. Era o endereço da casa do Espírito. Como Jesus Se manifestou a nós em Belém, o Espírito inicia sua missão em Jerusalém.

            Foi o momento do primeiro anúncio. Os apóstolos anunciam as maravilhas de Deus acontecidas na Ressurreição. A grande surpresa de todos era que cada um entendia em sua própria língua. A língua do Espírito é inteligível a todos. Esta linguagem é nova e anuncia Jesus vivo que dá o Espírito para a paz e para o anúncio da reconciliação universal.

            Cada um é convocado a assumir o próprio dom para que esse anúncio possa chegar a todos. Todos os que acolheram a Palavra formaram o único Corpo de Cristo, bebendo o mesmo Espírito.

            A celebração suplica que se renovem nos corações dos fiéis as maravilhas operadas no início da pregação do Evangelho.

 

                                                      

 

nº 1653 Artigo – “Mundo novo com roupa nova” 

  1. A dimensão celeste da carne

            As riquezas do Mistério de Cristo estão acima de todos os males. Deus não nos esquece e sempre está a mostrar o que nos preparou, como diz S. Paulo: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que O amam” (1Cor 2,9). Jesus “vai preparar-nos um lugar” (Jo 14,2). Há uma dimensão que completa a realidade humana e a transforma em vida plena. A vida presente na carne não tem se preocupado nem se incomodado com a vida que continua após a morte, como se não houvesse outra dimensão. Pior ainda, essa condição plena da pessoa não influi no momento presente. É a grande tentação do mundo e a grande queda da humanidade, distanciar-se de Deus. Certamente que há razões para isso, pela falta de catequese, o péssimo testemunho que damos e o anúncio frágil da verdade, muitas vezes eivado de filosofias anti-cristãs. Mas continuamos crendo que um mundo melhor é possível. Por isso fazemos essa reflexão, justamente no tempo da Ascensão, mostrando que temos uma ligação muito íntima com a vida futura. Cristo, ao subir ao Pai, levou nossa humanidade. Ele continua humano, mas transformado pela Ressurreição que é também nosso futuro. Se a humanidade frágil assumiu a Divindade, esta a levou consigo para a Glória eterna, sem tirar nada de humano de nossa realidade. Perder essa dimensão é empobrecer o ser humano. Jesus é o modelo também para o mundo: Ser Humano e Divino.

  1. Procurai as coisas do alto (Cl 3,1)

            Por que não conseguimos equilibrar o mundo? Porque estamos desequilibrados. Quando não somos capazes de ver a dimensão definitiva do ser humano. Posso dizer que sou ateu: Não creio em nada. Não somos só matéria. Assim que Deus se encarnou em nossa humanidade e demonstrou através de seu Filho feito Homem, através de milagres e de palavras, completando com a Ressurreição, temos um destino claro: continuar a vida em sua dimensão definitiva. Se Jesus passou da morte para vida, temos a certeza que a morte não é o fim. Podemos não crer, mas isso não elimina que a realidade seja essa. A condição humana em tudo o que se refere ao humano, terrestre, está unida ao Cristo que ressuscitou e está glorificado. A meta do mundo é essa. Ela passa pelo ser humano e por tudo que há no universo, dando-lhe vida e ressurreição. Tudo que existe toma novo sentido e multiplica sua existência para o bem. Crer é transformar o mundo. Não basta dizer tenho fé, é preciso dizer que amo. Amo o ser humano, a planta, a pedra, a estrela, o ar. Os povos primitivos tinham por deuses elementos da natureza. Era um meio de mostrar o respeito e a dignidade do ser humano e de todas as coisas do universo. Quem se eleva, eleva o mundo (Elisabet Leseur).

  1. A conquista do mundo

            Na Páscoa que é para o Universo, recebemos como resposta a solidificação para o bem de todas as realidades. É o paraíso terrestre para o qual devemos voltar. O salmo do bom pastor (22) diz que o bom pastor nos leva para as boas pastagens e águas abundantes. São símbolos de um futuro bonito que deve acontecer agora pela mão do homem. Vemos a situação triste de tantos lugares. Os males da guerra… da corrupção, da maldade, da violência etc… serão uma lembrança distante. É sonho? É projeto que tem que se realizar para salvarmos o mundo e o ser humano. Há tentativas de todos os lados para o bem do mundo e do ser humano. Não podemos deixar de dizer que foi essa a missão de Jesus e é esse o plano do Pai de reunir todas as coisas em Cristo (Ef 1,10). Não melhoraremos o mundo se não partirmos de sua completa realidade: Humana e Divina.

nº 1652 – Homilia da Ascensão do Senhor (28.05.17)

“Ascensão de Jesus” 

Jesus subiu ao Céu

            A Ressurreição de Jesus completa-se com sua gloriosa Ascensão. Esta festa tem pouca ressonância na vida cristã. O Mistério Pascal tende a levar à glorificação de Jesus junto do Pai. Na Ceia, consciente de ter realizado a missão para a qual fora enviado, reza: “E agora, glorifica-me, Pai, junto a Ti, com a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo 17,5). Sua Divindade que ficara oculta sob o véu da humanidade, se manifesta em todo seu esplendor. Por isso uma nuvem o cobre. Nuvem que é a presença da Divindade. A natureza humana que o Filho Eterno do Pai assumiu na Encarnação é glorificada. Com Ele já participamos da glorificação. É nossa meta e nosso ponto de atração. Por isso é uma festa a ser vivida com intensidade pascal. Aos discípulos, que O perdem aos olhos, permanece uma dupla certeza: Ele consumou sua missão no mundo e foi constituído Senhor e Rei da Glória junto ao Pai. Tornou-se mediador entre o Pai e a humanidade redimida, juiz do mundo e Senhor do Universo. Por outro lado sabem que Ele está presente: “Eu estarei convosco todos os dias até ao fim do mundo” (Mt 20,20). Sua presença junto do Pai não O afastou de “nossa humildade, mas dá–nos uma certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade” canta o prefácio da missa. Ele subiu ao Céu e tornou-se para eles a certeza de que estão garantidos, pois recebem Seu Espírito para continuar Sua missão. Continua unido a Seu Corpo, a Igreja. Seu poder e glória são o poder e glória do Pai. É fonte e razão de vida. Para Ele converge todo o universo. Reina até entregar Seu Reino ao Pai (1Cor 15,24) quando vier no fim dos tempos.

Somos participantes da glória

Ele é nossa cabeça. Somos o corpo. Cristo levou para junto do Pai nossa humanidade, como nos trouxera sua Divindade. Já estamos com Ele na glória. A oração da missa assim reza: “membros de seu corpo, somos chamados, na esperança, a participar de Sua glória”. O cristão vive da esperança, que é a certeza de possuir os bens celestes. Por isso, Paulo escreve: “Que Ele abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança com os santos, e que imenso poder Ele exerceu em favor de nós que cremos, de acordo com sua ação e força onipotente” (Ef 1.18-19). Com a Ascensão de Jesus ao céu, temos a garantia do poder de Deus porque “se manifestou sua força em Cristo quando O ressuscitou dos mortos e O fez sentar-se à Sua direita” (Id. 20). Sem a glorificação do Filho, sua Morte e Ressurreição não teriam sua explicação.

Fazei discípulos meus todos os povos.

A última palavra de Jesus foi confiar aos discípulos a missão que o Pai lhe confiara. Agora somos nós a fazer o que Ele fazia, dizer o que dizia e transformar o mundo como Ele o transformava. Fazer discípulos é fazer o que Ele fez: “Chamou a Si aqueles que quis para estar com Ele e irem anunciar” (Mc 3,13). Os discípulos entenderam sua missão e, depois de receberam o Espírito Santo foram anunciar. Essa missão é conferida também a nós. O Cristianismo que não anuncia é porque já faliu. A Ascensão nos anima a buscar nova força na certeza da vitória de Cristo e da missão que Ele nos confiou. Temos ainda diante de nós um mundo a evangelizar, isto é, mostrar o amor Deus em Cristo por todos. Houve tempos de mais entusiasmo pela missão. No mundo que temos diante de nós há muito que fazer. E, como fazemos um cristianismo voltado para nós, as forças do mal tendem a crescer.

Leituras: Atos 1,1-11; Salmo 46; Efésios 1,17-23;Mateus 28,16-2

Ficha nº 1652 – Homilia da Ascensão do Senhor (28.05.17)

1.    A festa da Ascensão leva à consumação do Mistério Pascal na plenitude do Filho glorificado.

2.    Somos o corpo. Cristo levou para junto do Pai nossa humanidade, como nos trouxera Sua divindade.

3.    Agora somos nós a fazer o que Ele fazia, dizer o que dizia e transformar o mundo como Ele o transformava

Olhando para o chão

            Nossa fé proclama que Jesus “subiu ao Céu” completando assim sua obra redentora. Agora falta que o resto de seu corpo, nós, a Igreja, cumpramos nossa parte assumindo nossa missão no mundo. Por isso os Anjos disseram: “Esse Jesus que foi levado para o Céu, virá do mesmo modo como O vistes partir para o Céu” (At 11). Esperar é agir pelo Reino.

            Na Alegria da vitória de Cristo, reconhecemos quem Ele é. Para isso nos é dado o Espírito para conhecê-Lo sempre mais, saber a esperança para a qual nós fomos chamados, a riqueza da herança que temos na glória e o imenso poder que tem em nosso favor. Sua Ressurreição é a prova que tudo isso é verdade e funciona. Nele está a plenitude.

            Como compreender todas essas verdades? O Espírito Santo nos ensinará todas as coisas. Ele nos fortalecerá e nos conduzirá à verdade plena.

            Com Jesus também fomos para o Céu, pois levou consigo nossa humanidade.

 

nº 1651 Artigo – “Páscoa continuada” 

  1. Páscoa é passagem

              Recolhendo as belezas do Tempo Pascal, temos a sensação de uma contínua caminhada. Não uma conquista de um sossego ou estabilidade, mas um impulso de ir adiante. Não se olha para trás, pois esta foi a grande tentação que sofreu o povo por voltar ao Egito. Por causa das cebolas, dos pepinos e dos peixes de graça, o povo se lamentava (Nm 11,4-6). A liberdade tem preço. Jesus caminha decididamente para Jerusalém (Lc 9,51). Essa disposição de Jesus de realizar sua missão até o fim O leva a ir em frente. Paulo diz: “Esquecendo-me do que fica para trás, e avançando para o que está diante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus” (Fl 3,13-15). Jesus, depois da Ressurreição, vai ao Pai para a glorificação e ainda voltará para levar todos com Ele (Jo 14,3). O Universo caminha no mesmo sentido: “Conforme a decisão prévia que lhe aprouve tomar para levar o tempo a sua plenitude, a de em Cristo recapitular todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,9-10). Sendo Páscoa – uma passagem – tem um ponto ao qual se dirige: completar tudo em Cristo. O tempo litúrgico não se fecha com uma mudança de calendário, mas continua sua força transformadora em Cristo para que todas as coisas se encaminhem para o bem do homem e para a glorificação do Filho de Deus que passou entre nós fazendo o bem. Fazer o bem é passar da morte do individualismo para a vida do amor que se doa. Cada gesto de amor é uma Páscoa que se realiza. Sair de si é o mesmo que ocorreu com Cristo que saiu da sepultura.

  1. Deserto do caminho

              A própria dinâmica do povo de Deus ensina a fazer uma leitura do Mistério de Cristo em nós. Conhecemos bem a narrativa da saída do Egito comandada por Moisés. É histórica ou ensinamento? O importante é o que ilumina nossa caminhada espiritual. O povo sai do Egito na alegria da libertação. Depois entram numa epopeia de quarenta anos de deserto até entrar na terra prometida. Em quarenta anos tiveram a possibilidade de experimentar que a liberdade tem preço e exigências do totalmente novo, mesmo nas dificuldades. Viver a Páscoa é passar por desertos e tempestades. Se quisermos um cristianismo sem problemas temos que procurar na porta ao lado. O deserto, isto é, os tempos difíceis, queima o secundário e nos leva ao único necessário. Quem não sofre as demoras de Deus (Eclo 2,3), jamais poderá entender o que é tê-Lo. O maior deserto de Jesus foi a Cruz onde pode dizer: “Pai, em vossas mãos entrego o meu Espírito” (Jo 23,46). Era a oração que sempre fizera em sua vida, quando rezava o salmo 31,6. A Páscoa não deu aos discípulos uma tranqüilidade humana, mas a certeza divina em tudo o que faziam: O Senhor ressuscitou.

  1. Terra da promessa

Depois do deserto, os judeus atravessaram o rio Jordão como na passagem do Mar Vermelho: É a continuada liberdade. Entram na terra prometida e comem os frutos da terra (Js 5,12). A terra nova alimenta. Em nossa Páscoa entramos na terra nova da graça: “Nascestes de novo e vossa vida está escondida em Deus”. Deus é meu descanso. A vida eterna começa aqui. Vivemos já a vida futura que Cristo nos conquistou. Essa nova terra nos alimenta com os dons da Ressurreição. A vida da comunidade deve ser o espelho da vida futura. Os problemas que temos nos vêm, porque estamos ainda na matéria e não podemos fugir dela. Não se trata de suportar como fosse um mal, mas aproveitar dessas situações para exercer o dom da vida nova no amor que Cristo nos deu como seu mandamento.

nº 1650 – Homilia do 6º Domingo da Páscoa (21.05.17)

“Não vos deixarei órfãos” 

Manifestação de Cristo

            João ensina que ter a presença de Jesus é amá-Lo guardando seus mandamentos. Amando-O, temos a garantia de que está presente. Esta presença é garantida pelo Espírito da verdade: “Vós O conheceis porque Ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós… Vós me vereis, porque Eu vivo e vós vivereis… Quem tem meus mandamentos e os observam, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e Eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,18-21). Não há ausência, mas presença do Espírito da Verdade. Verdade é Jesus. Temos a presença de Jesus e a manifestamos por nosso amor a Ele, guardando seus mandamentos. Estamos sempre unidos ao Pai, pelo Filho no Espírito: “Quem ama Jesus será amado pelo Pai”. O Espírito nos abre à visão de Jesus através do amor que Ele tem por nós. Observando nossa comunidade vemos o mesmo que ocorreu com os apóstolos e discípulos, como no caso de Filipe que anuncia o Evangelho em Samaria. Ele fazia os milagres que Jesus fazia. Cristo continua a dar o Espírito através dos apóstolos. O Espírito é dado para todos. A ação evangelizadora de Filipe que fora escolhido como diácono para servir as mesas (ação social), torna-se um serviço maior de anúncio de Jesus. Os diáconos têm uma missão de anúncio que incide também sobre o social. Muitos reduziram seu diaconato a um serviço de altar. Também é bom, mas não é a primeira missão. Vemos aí a dimensão evangélica de todo o cristão: cuidar do homem como um todo.

Missão do Espírito

O Espírito é o outro Defensor: “Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Defensor para que permaneça sempre convosco” (Jo, 14,16). Jesus está diante de Deus intercedendo para o perdão dos nossos pecados e os do mundo inteiro (1Jo 2,1). Qual a missão do Espírito? Paulo explica: “Ele socorre nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir como convém. Mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26). Nossa relação com Deus é feita através do Espírito que conhece nossa linguagem e a linguagem de Deus. Ele nos revela Jesus e faz morada em nós, “O Pai dará outro Defensor para que permaneça sempre convosco” (Jo 14,17). Após a Ressurreição e Ascensão de Jesus ao Céu, entramos no tempo do Espírito que faz penetrar no mundo e nas pessoas a redenção que Cristo nos trouxe. Ele nos tira da orfandade. A sensação de perda de Jesus, por sua Ascensão ao Céu nos é sanada pela presença do Espírito que nos faz entender nossa relação com Cristo.

Vida e mistério celebrado

            Participando da vida de Deus pelo Espírito, celebramos com júbilo suas maravilhas que se renovam. Deus jamais rejeitou nossa oração (Sl 65). Por isso nos reunimos para celebrar sua bondade, libertando-nos de todo o mal e pecado e dando-nos a vida nova em seu Filho. Ouvimos Pedro dizer: “Santificai em vossos corações o Senhor”, Santificar é reconhecer Deus e louvá-Lo pela proclamação de Cristo e ressuscitado. Cada celebração é momento de viver este mistério e receber o Espírito. Há uma procura de imposição das mãos para o dom do Espírito. Mas não se toma conhecimento ou há desconhecimento de que, em cada Eucaristia, há um Pentecostes dentro da celebração nas palavras da epíclese. Dá-se o Espírito com a mesma energia Divina que mudou o pão e o vinho em Corpo e Sangue do Senhor. O Espírito Santo é o servidor como Cristo. É preciso acolher sua graça e não fazê-Lo um mero distribuidor de dons para nossa vaidade.

Leituras: Atos 8,5-8.14-17; Salmo 65; 1Pedro 3,15-1; João 14,15-21

Ficha nº 1650 – Homilia do 6º Domingo da Páscoa (21.05.17)

  1. Temos a presença de Jesus e a manifestamos por nosso amor a Ele, guardando seus mandamentos.
  1. Nossa relação com Deus é alimentada através do Espírito que conhece nossa linguagem e a linguagem de Deus.
  1. Cada celebração é momento de viver este mistério e receber o Espírito. 

            Não há desemprego 

            A narrativa da pregação de Filipe em Samaria mostra claramente que a pregação não estava reservada somente aos apóstolos. Todos os cristãos leigos são igualmente responsáveis pelo testemunho do Evangelho. Não há desemprego na Igreja nem aposentados. Cada um faz de seu modo.

Cada um corresponda à salvação que recebeu. Pedro insiste: “Santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo, e estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir” (1Pd 3,15). Ele nos dá o Espírito Santo que nos ensinará tudo o que precisamos aprender sobre Jesus. Quem ama Jesus será amado pelo Pai.

Nesse Reino todo mundo tem o que fazer. Guardando os mandamentos faremos sua obra. Não estaremos desempregados nem encostados.

 

nº 1649 Artigo – “Ressuscitou ao terceiro dia”

  1. O Senhor ressuscitou…

            Ao ouvirmos os discursos dos apóstolos depois de Pentecostes, sentimos o desejo ardente desses homens simples de transmitir a certeza da Ressurreição de Jesus. Eles afirmam com segurança: “Nós O vimos”, “Ele Se pôs no meio de nós”. Querem transmitir sua experiência de terem vivido com Ele uma normalidade de vida: “Nós que comemos e bebemos com Ele depois que ressuscitou dos mortos” (At 10,41). O vigor deste anúncio vem da certeza da experiência pessoal. Não se tratou de um defunto que voltou, mas alguém que morreu e passou à vida ressuscitada. Seu corpo não conheceu a corrupção. A morte não O dominou. Lázaro morreu e voltou à vida. Mas depois morreu de novo. Os próprios dirigentes do povo, sumos sacerdotes, reconheceram a Ressurreição, tanto que pagaram aos soldados para que dissessem que “enquanto dormiam, os discípulos vieram e roubaram o corpo” (Mt 28,11-15). S. Agostinho diz: “Se estavam dormindo, como souberam que foram os discípulos”? Os discípulos eram muito simples para inventar essa história. Eles mesmos, como dizem os discípulos de Emaús, já tinham por encerrada a “temporada” de Jesus. A Ressurreição é um fato totalmente novo e o princípio de uma vida completamente nova. Não se trata somente de um fato histórico, mas de um fato que dá início a um mundo novo. Mas não mudou nada na história do mundo, podemos dizer. Esse fato vai além da história, pois penetra na eternidade. Justamente aqui é que se justifica a força dos apóstolos que entenderam sua dimensão divina. Deus ressuscitou Jesus (At 10,40).

  1. Creio na Ressurreição

            Rezamos na profissão de fé que cremos que Jesus ressuscitou. Mas não passa muito de uma afirmação de fé que não interfere em nossa vida. No catolicismo ocidental passamos por um tempo difícil. Depois da formação do cristianismo ocidental houve a decadência do império romano e a invasão dos povos novos que vieram de longe, chamados de bárbaros. Não tinham a tradição e outra formação. Foram necessários séculos para que fossem formados na cultura ocidental. Houve um distanciamento da cultura e da formação cristã. Pelos inícios do segundo milênio, deu-se muito valor aos aspectos humanos da vida de Cristo, de Maria e dos Santos. A Ressurreição, que é mais difícil de explicar, ficou como uma doutrina mais distante. Não influenciava a vida concreta das pessoas. A partir dos tempos da renovação que culmina no Vaticano II, deu-se maior valor a esse dado fundamental de nossa fé, colocando-o como fundamento e gerador da vida cristã.

  1. Vivemos a partir da Ressurreição

            Será um processo muito longo passar de uma religiosidade somente devocional para uma fé fundada na consciência da Ressurreição como centro da vida cristã. Ela não elimina a devoção e, na verdade, a torna sólida. O sentimento participa da entrega de fé, mas só o sentimento não é capaz de sustentar a vida cristã. A fé na Ressurreição nos une a Cristo em sua passagem (Páscoa) da morte para a Vida. Esta passagem, a fazemos como os discípulos fizeram, como lemos no evangelho e nas cartas de S. João: Vivendo o mandamento novo do amor. Nele fazemos a passagem da morte para a vida, isto é, saímos de nós mesmos como Cristo saiu de Si e fez a passagem para o Pai dando-se aos irmãos. Supera-se o individualismo de uma fé voltada para si, para uma fé fortalecida pelo amor. “Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos” (1Jo 3,14). Essa é a Páscoa do discípulo. É a morte que dá vida.

nº 1648 – Homilia do 5º Domingo da Páscoa (14.05.17)

“Vós sois uma nação santa” 

 Muitas moradas

            No correr destes domingos pascais os evangelistas vão desenhando a figura da comunidade à luz da Ressurreição de Jesus. Em poucas palavras, resumem anos de crescimento, inventiva apostólica e respostas às grandes questões em que a comunidade se colocava. Como não tinham o texto dos evangelhos e cartas, os cristãos lembravam as palavras de Jesus e, em torno delas, construíam as orientações, pois eram assíduos aos ensinamentos dos apóstolos, às reuniões em comum, à fração do pão e às orações (At 2,42). Eram um evangelho vivo. A comunidade acaba sendo como que um espelho da vida futura.

Jesus diz que há lugar para todos no céu. Este lugar é cuidadosamente preparado por Ele. O jeito de chegar lá é estar unido a Ele que é o caminho a verdade e a vida (Jo 14,6). Ele é a estrada e o espelho do Pai. Quem O vê, vê o Pai. Estar unido a Cristo pela fé é fazer este caminho, realizar esta verdade e viver esta vida. Deste modo o fiel participa da vida de Cristo e faz o que Ele fazia e faz mais ainda, pois Jesus, junto do Pai é a vida do discípulo que acreditou (Jo 14,12).

Comunidade que cresce

            Mas esta comunidade tem que se organizar na situação em que vive. Os discípulos, interpretando a missão que Jesus lhes dera, instituem os diáconos para o serviço da comunidade. Comunidade sem serviços é fantasia. A fé se encarna no mundo em que vivem os discípulos. Ela é social, encarnada e transformadora. Fé que não olha em volta, não vê Deus. Fé só de princípios sem prática é murcha, não produz (Tg 2,17). É muito perigoso explicar a santidade da Igreja tirando-a da realidade. Isso é o que chamamos de espiritualismo. É o típico modo egoísta de viver a fé. Penso em mim, e os outros que se danem. Isso não é o modo de vida de Jesus. Ele é o espelho. Devemos caminhar como caminhou, diz S. João. Esse espiritualismo está presente em muitos modos de organizar a vida da comunidade e das muitas espiritualidades, movimento e outros que têm pululado no terreiro da Igreja. Tirar a fé da realidade é negar a encarnação e vida de Jesus. Ele seguiu seu povo, mas foi capaz de apresentar uma renovação para que a fé não fosse só regras, mas fonte de vida. Por isso são necessários os diversos serviços que se organizam. Esses não são eternos. Podem sofrer mudanças, adaptações e até surgirem novos serviços.

Santa e pecadora

            Contudo esta comunidade é santa, pois está fundada em Cristo e unida, como pedras vivas, formando o edifício espiritual. Ela presta culto a Deus. É sacerdotal. Por estar unida a Cristo e aos outros irmãos, é santa. O povo de Deus é santo. O santo não é aquele que não erra, mas porque erra, pode crescer e produzir frutos de conversão. A Prece Eucarística V diz: “Igreja é santa e pecadora”. Santa, enquanto de Deus; pecadora, enquanto marcada pelo pecado e em condições de crescer sempre mais. Pecadora porque erra ao viver a fé misturada com a mentalidade do mundo. Pedro diz em sua carta: “Nela tropeçam os que não acolhem a Palavra” (1Pd 2,8). Todos os fiéis são chamados à santidade. Cada um a seu modo e na sua condição de trabalho, estado civil, idade e sabedoria. Deus quer que todos sejam santos. Para isso abre-nos o caminho através de Cristo, mas em comunidade, como pedras vivas do edifício espiritual. Essa santidade também deve sair de nossos conceitos exclusivistas, como só nós tivéssemos a receita. Mas há muita santidade que não tem nosso carimbo, mas tem a marca de Jesus. Onde existe o amor aí Deus está.

Leituras: Atos 6,1-; Salmo 32; 1Pedro 2,4-9;João 14,1-12

Ficha nº1648 – Homilia do 5º Domingo da Páscoa (14.05.17)

  1. Após a Ressurreição de Jesus os discípulos se reúnem em comunidade para ouvir a palavra, rezar, celebrar a Eucaristia (partir o pão) e confraternizar.
  1. Para o desenvolvimento da comunidade criam-se serviços que devem sempre estar em evolução.
  1. A Igreja é santa da parte de Deus e pecadora da parte humana. Deve sempre se converter. 

Caminho sem atalho 

            Jesus foi para o Céu e logo recebeu um servicinho: preparar um lugar para nós. Ele quer que estejamos com Ele. E prometeu, que assim que arrumar lugar vem nos buscar.

            Como é que vai nos levar? Pelo caminho. Não conhecemos o caminho, disse o apóstolo Tomé. Jesus é claro: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Quem O segue pela Verdade vai ter a Vida. E afirma: não há outro caminho para ir ao Pai senão Ele.

            Somos como um edifício que O tem como alicerce. Somos Pedras vivas, que unidas formam o edifício espiritual. Quem não crê Nele tropeça e cai. Quem O aceita é raça escolhida, sacerdócio do Reino e nação santa.

            Essa comunidade espiritual também tem necessidades humanas que devem ser resolvidas pela comunidade. É o que vemos na escolha dos diáconos para uma solução do atendimento aos pobres.

 

 

nº 1647 Artigo -“Caminhos de Ressurreição”

  1. Homens que se renovam

Celebramos a Ressurreição já ocorrida porque sua realidade é sempre atual. E ainda temos que deixar que esta realidade penetre nossas pessoas e nossos corações. É um mistério tão augusto que corremos o risco de deixá-lo somente como uma ideia sobre Jesus e não sua vida em nós. O Cristo glorificado está glorioso junto do Pai, mas ao mesmo tempo continua servidor entre nós abrindo-nos as torrentes das águas da salvação (Is 12,3). Essas águas são a ação do Espírito que nos foi dado (Jo 7,3-9). Se prestarmos atenção, ação dos discípulos não era fazer coisas maravilhosas, mesmo que as tenham feito, mas continuar como Jesus, fazendo o bem (At 10,38). A vida dos ressuscitados com Cristo se mantinha na Palavra anunciada pelos Apóstolos, nas orações, na fração do pão e nas refeições em comum (Jo 2,42). Isso era o modo de viver a Ressurreição. Os homens e mulheres renovados pela fé em Jesus viviam a caridade entre si e para com os outros. Vemos na narrativa da escolha dos diáconos que deviam cuidar de muita gente, sobretudo as viúvas (que eram abandonadas pelas famílias quando morriam os maridos). Já logo assumem uma questão prática, que chamamos de social. Era o primeiro problema à vista. Não basta proclamar a fé, é preciso instituir a caridade, pois ela é o reflexo de Cristo em nós. Como diz João, “andar como Cristo andou” (1Jo 2,6). Todos tinham grande respeito por eles. Entre eles não havia necessitados, pois os que possuíam e vendiam e davam o dinheiro aos apóstolos que o repartiam (At 4,35). Diziam os pagãos: “Vede como se amam”.

  1. Estruturas renovadas.

            Cada celebração da Ressurreição chama a um mundo novo, com novos modos de vida. A ideia que temos sobre a Ressurreição como um dogma, não nos conduz à prática da Ressurreição na vida concreta. A vida que a Ressurreição nos sugere é a capacidade de buscar estruturar o mundo a partir do Reino de Deus como Jesus o implantou e, como conseqüência, teve que ir até à morte de Cruz. A morte de cruz foi para Ele a síntese de tudo: dar a vida, empenhar-se totalmente para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10). Doar a vida não se reduz a morrer pelos outros, mas dedicar-se pela vida dos outros para que todos vivam também espiritualmente bem. O mundo caminha em sentido contrário no egoísmo, ganância e prepotência. Onde todos cuidam uns dos outros, todos estarão bem cuidados. O egoísmo mata. Pensar no outro para que todos pensem em nós. Vejamos como isso pode influir no mundo econômico, social, político. O contrário, que é pensar só em si, tem demonstrado que só prejudica a si mesmo e aos outros. Toda a política econômica mundial, se não se adequar ao Evangelho, só aumentará o sofrimento dos povos. Temos que crer na renovação do mundo pela Ressurreição.

  1. Ressurreição das realidades materiais

            O mundo espera sua renovação. Paulo nos fala na Carta aos Romanos que a natureza, também ela foi sujeita à vaidade. E espera a manifestação dos filhos de Deus. Ela não cometeu pecado, mas foi prejudicada pelo pecado do homem. Ela participa da esperança da humanidade. Ela sofre até o momento como em dores de parto esperando a Redenção (Rm 8,18-23). Como a natureza participa do louvor da humanidade a Deus, participa também dos sofrimentos e da Ressurreição. Levar a natureza à libertação é respeitar o seu ritmo, condições e finalidades. Lidar com a natureza é cultivar o ser humano. Na Eucaristia a natureza participa do Mistério de Cristo, pois o pão e vinho serão seu corpo ressuscitado. Na Eucaristia ela enxuga suas lágrimas e sorri.

nº 1646 – Homilia do 4º Domingo da Páscoa (07.05.17)

“Porta do Paraíso”

 “Vida em abundância”

Na Páscoa celebramos a morte salvadora e a ressurreição santificadora que Jesus nos oferece para que tenhamos vida. Esta vida está na unidade à vida de Jesus. E é somente em Jesus que ela se realiza e se desenvolve, pois Ele veio para que tenhamos vida em abundância (Jo 10,10). A vida abundante é a vida de ressuscitados. “Com Ele nos foram dados todos os bens”. Essa vida que Cristo nos dá, em primeiro lugar, é Ele mesmo que se entrega a nós. Além Dele, recebemos a vida com a bela comparação de um rebanho que tem pastagens verdes e água em abundância. É o alimento dado em totalidade. Somos livres de todos os males, como nos explica a carta de Pedro: “Sobre a cruz, carregou nossos pecados em seu próprio corpo, afim de que mortos para os pecados, vivamos para a justiça” (1Pd 2,24). Não estamos mais perdidos: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas” (1Pd 2,25). Salva cada ovelha e salva todas as ovelhas. Mas há passos a serem dados para se iniciar nesta vida e caminhos a serem feitos. Para explicar sua relação conosco Jesus usa a imagem bucólica do rebanho, do redil e do pastor. Na liturgia de hoje Jesus se coloca como a porta pela qual passam as ovelhas. Ser porta é comparável ao que disse: “Eu sou o caminho”. Ele conduz, mas é por Ele que devemos passar, acolhendo-O pela fé estamos unidos a Ele e podemos caminhar com Ele.

Ouvir o Pastor

            O primeiro passo é ouvir a voz do pastor. Esta voz será ouvida, se conhecida. Depois de conhecida, torna-se fácil distingui-la da voz de um estranho. S. Pedro no dia de Pentecostes, respondendo à pergunta “o que devemos fazer, irmãos”, adverte: “Convertei-vos, cada um seja batizado e assim recebereis o Espírito Santo” (At 2,38). Para identificar a voz do pastor, é necessário dar os passos na conversão a Jesus, ser batizado e receber o Espírito. É preciso atravessar a porta das ovelhas. Jesus diz: “Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10,7). Não há cristianismo sem Jesus. Aceitar Jesus e seu evangelho é atravessar a porta. Éramos ovelhas desgarradas. Jesus, atravessando o sofrimento, que foi sua porta, reuniu-nos junto a si, como o pastor ao rebanho. Os que vieram antes de Jesus, são ladrões e assaltantes que vieram só para roubar, matar e destruir. Jesus veio “para que tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10).

 Salvação em Jesus

            Não há salvação fora de Jesus? De fato não. Pode haver salvação fora de Jesus, aparentemente. Dizemos aparentemente, pois quem julga os corações é Deus e somente Ele vê o que há no coração de cada um. Quem tem um coração reto faz parte do rebanho de Jesus e atravessou a porta que é Ele. Para nós que O conhecemos, não há outro modo. E conhecê-lo não é só saber que existe, pois São Tiago diz que o demônio sabe e treme (Tg 2,19). “Também Cristo sofreu por vós deixando um exemplo para que sigais os seus passos” (1Pd 2,21). Para entrar por Ele que é a Porta de entrada de nosso mundo com Deus, temos que segui-lo também quando for difícil. A vida em abundância que nos dá requer também uma resposta nossa de ouvir sua voz e segui-lo. Pergunte-se como você identifica a voz de Jesus que o chama pelo nome. Nossa intimidade com Ele vai além de uma amizade, mas de um relacionamento de profundidade. É o termo que Jesus usa: “Chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,5). Esse mesmo relacionamento é exigido no relacionamento na comunidade: conhecer a voz dos amigos e chamá-los pelo nome.

Leituras Atos 2,14a.36-41;Salmo 22;1Pedro 2,20b-25;João 10,1-10:

Ficha nº 1646 – Homilia do 4º Domingo da Páscoa (07.05.17)

  1. Essa vida que Cristo nos dá, em primeiro lugar, é Ele mesmo que se entrega a nós.
  1. Para identificar a voz do pastor, é necessário dar os passos na conversão a Jesus, ser batizado e receber o Espírito.
  1. A vida em abundância que nos dá requer também uma resposta nossa de ouvir sua voz e segui-lo.

4º Domingo da Páscoa (07.05.17)

João 10,01-10 

            Pega ladrão! 

            Depois da Páscoa temos ouvido os discursos de Pedro que demonstram que Jesus ressuscitou, foi exaltado ao Céu e enviou o Espírito Santo. E, como conseqüência, convida à conversão.

            Esse Jesus, o que tem a ver conosco agora? Ele é o bom pastor que nos conduz. As ovelhas, nós seus fiéis, estamos sempre unidos a Ele. Para seguir esse Jesus temos que entrar no seu rebanho. Há muitos ladrões que querem tomar o lugar do pastor. As ovelhas fogem deles. Para entrar nesse rebanho, no redil (lugar onde ficam as ovelhas de noite), é preciso passar pela porta. A porta é Jesus. Passar pela porta é aceitar Jesus e seu evangelho. Quem não passa por Ele é ladrão e salteador. Esse vem para roubar. Jesus vem para dar vida em abundância.

            Estar no rebanho é viver como Jesus viveu e sofrer como Jesus sofreu. Assim nos salvou, curou nossas feridas e deixou um exemplo para a gente seguir. Haverá sofrimento, como Ele sofreu, mas também, vida em abundância.

            Cuidado para não deixar se levar pelos maus pastores! Eles destroem o que é de Jesus. Há muita gente querendo assaltar o rebanho. Tem que pegar esses ladrões.

nº 1645 Artigo – “Você sabe onde está Jesus”

  1. Andando por aí

            Crendo na Ressurreição temos a certeza que Jesus se encontra glorioso junto do Pai. É a fé que temos. Ela sustentou os cristãos nesses dois mil anos. Sabemos e professamos que Jesus está no Céu. Depois da Ressurreição os discípulos sentiram sua ausência. O texto dos Atos dos Apóstolos quando fala dos discípulos de Emaús quer nos mostrar onde está Jesus. Precisamos acolhê-Lo ora presente. Os cristãos podem ter pensando: Onde está Jesus? Ele próprio responde através da aparição silenciosa e serena aos dois que iam para o campo (Lc 24,13-35). Viram Jesus de novo ali, com eles, vivo. Era o mesmo, mas não era do mesmo jeito. Nesse dia, dois deles iam para um vilarejo chamado Emaús. E conversavam sobre as coisas que tinham acontecido. Liam os sinais dos tempos. Então Jesus entra na conversa, como um desconhecido. Lembramos aqui a importância da presença de Jesus em nossos relacionamentos humanos, nossos bate-papos, nossos diálogos, nossas conversas. Não só quando falamos de assuntos espirituais. Jesus está presente quando falamos da vida, das coisas da vida e da vida de tantas coisas. O diálogo das pessoas, o bate papo inocente é também momento de encontrar Jesus. Estar reunidos no nome Dele, não acontece só quando rezamos, mas também quando lidamos com as pessoas no respeito, na simplicidade e na devoção pelo ser humano. Buscamos Jesus longe, quando Ele está tão dentro de nós e de nossos relacionamentos, como os dois discípulos de Emaús.

  1. Conversando conosco

            Curiosamente Jesus entra na conversa e se interessa. A realidade do ser humano é o leito por onde passa a Palavra de Deus. Tomando conhecimento do assunto que tratavam, Jesus não age como um professor que dita ensinamentos. Coloca-se como aprendiz: o que foi? Pergunta. Não deixa de chamar atenção para que vejam os acontecimentos à luz da Palavra. E, começando por Moisés e pelos profetas, mostra como a Escritura orienta ao conhecimento de Jesus, pois fala Dele. É muito bom percebermos que nossos diálogos têm uma aproximação com a Palavra de Deus. A Bíblia não é uma pedra inamovível. Ela se mistura com nossa vida e, a partir dela, interpretamos nossa vida e a Palavra de Deus escrita nesse evangelho de carne e osso, feito de belezas e tristezas. Sua riqueza e santidade não estão no Livro Santo como uma biblioteca sagrada, pois sagrado é o ser humano. É no ser humano que a Palavra se encarnou em Nazaré, e continua se encarnando onde Deus quer. Isso não tira seu dom de ser Sagrada, mas desenvolve o sentimento do sagrado existente nas pessoas, seja quem for. Deus não faz distinção de pessoas (At 10,34).  É preciso deixar a Palavra livre de nossos preconceitos. Não somos donos da Palavra.

  1. Repartindo

            Chegaram à hospedaria e Jesus fez de conta que ia adiante (At 24,28). Então temos as lindas palavras dos dois discípulos: “Fica conosco Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando” (29). Há sempre necessidade de Jesus na passagem do dia para a noite. As trevas sem Ele são muito escuras. E cria-se então aquele ambiente único de bem estar sob uma pequena luz e muita fraternidade. Jesus toma o pão, faz a tradicional bênção e o distribui. Perceberam então que era Jesus, pois se lhes abriram os olhos. E Jesus desapareceu. Somente a Eucaristia é capaz de abrir nossos olhos para reconhecer Jesus. A alegria é imensa: Voltam na noite, melhor, na bela lua de Páscoa, para Jerusalém. Ele já estivera ali. Então contam o que acontecera pelo caminho e como O reconheceram no partir do pão. Sem encontrá-Lo em nosso caminhar, não saberemos onde Ele está.

nº 1644 – Homilia do 3º Domingo da Páscoa (30.04.17)

“Ele está no meio de nós!”

Testemunhar a Ressurreição

            O Tempo Pascal celebra Jesus vivo que se manifesta aos discípulos. Há sempre a tensão entre o crer e o ver. Não é preciso ver para crer, e sim, crer para ver. Os discípulos creram e puderam ver. Essa afirmação é muito forte nos discursos de Pedro. Este discurso afirma que “Deus ressuscitou Jesus, libertando-O das angústias da morte, porque não era possível que ela O dominasse” (At 2,24). Prova pelas palavras da profecia de Davi e conclui: “Com efeito, Deus ressuscitou este mesmo Jesus e disto todos somos testemunhas. E agora, exaltado à direita de Deus, Jesus recebeu o Espírito Santo que fora prometido pelo Pai e o derramou como estais vendo e ouvindo” (At 2,32). A prova não é só a profecia, mas a própria manifestação do Espírito naquele dia de Pentecostes. Os discípulos foram privilegiados por verem Jesus, tocá-Lo, comer e beber com Ele depois da Ressurreição. Ver pela fé vai além do crer porque tocou. A comunidade tem consciência da salvação que lhe foi dada pela morte e ressurreição de Jesus. Pedro, no dia de Pentecostes, anuncia corajosamente que Aquele morto estava vivo e fora glorificado por Deus. Podemos entender o vigor da pregação dos apóstolos e o resultado pela experiência que tiveram do Ressuscitado. Essa experiência falta em nossas comunidades. Onde se baseia sua fé? Por que não existe vigor apostólico? A narrativa do encontro de Jesus com os discípulos que iam para Emaús é a explicação que conforta os discípulos que não têm mais a presença física de Jesus. João dá o consolo e mostra onde Ele se encontra.

Onde está Jesus?

Dois discípulos iam juntos para uma aldeia chamada Emaús. “Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido”. Jesus aproxima-se e entra na conversa. Onde está Jesus? Na fraternidade na qual caminhamos juntos. Um é apoio ao outro. Este apoio é um modo da presença de Jesus. Os sinais dos tempos, os acontecimentos da vida são outra presença de Jesus. O mundo que está diante de nós é uma presença de Jesus que nos convida a tomar parte e dar-lhe uma direção.“Jesus explica as Escrituras” e mostra como sua Paixão, Morte e Ressurreição estavam já previstas na Palavra de Deus.  Esta Palavra é uma presença preciosa de Jesus que nos orienta, esclarece e nos encaminha. A Palavra ouvida, refletida e vivida na comunidade é uma presença clara de Jesus. Um plano pastoral pode tomar esses quatro momentos e estabelecer um processo de fraternidade como ponto necessário na vida da comunidade. A comunidade não pertence ao mundo, mas vive nele, por isso é preciso estar atenta aos sinais dos tempos. Pastoral é um processo atual. A comunidade se orienta a partir da Palavra que vai conduzir à Eucaristia e anunciar.

Fica conosco, Senhor!

Chegando à aldeia convidam Jesus: “Fica conosco, Senhor, pois se faz tarde e a noite já vem chegando”. Nos momentos escuros da vida, esta presença é tão confortante! “Quando estavam à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-o partiu e distribuiu. Então seus olhos se abriram e reconheceram Jesus”. Outra presença de Jesus é a Eucaristia na qual partimos o pão e o repartimos entre nós pela comunhão. Ele sempre faz parte de nossa vida e “faz arder nosso coração quando fala conosco”. O reconhecimento da presença de Jesus faz de nós missionários. “Eles se levantam, mesmo de noite e voltam a Jerusalém para anunciar aos outros”. Conhecer a presença de Jesus é a razão de anunciá-lo. Esta resposta de Lucas à comunidade é uma proposta de caminho para a Igreja.

Leituras: Atos 2,14.22-33; Salmo 15;1Pedro1,17-21;Lucas 24,13-35

Ficha nº 1644 – Homilia do 3º Domingo da Páscoa (30.04.17)

  1. Após Pentecostes os discípulos anunciam com vigor a ressurreição de Jesus. Eles são testemunhas que Deus O ressuscitou, deu-lhe o Espírito para ser derramado sobre todos.
  1. A narrativa de Emaús quer indicar aos discípulos que Jesus continua presente de diversas modalidades. Continua presente em nossas comunidades.
  1. A presença privilegiada de Jesus na Eucaristia leva os discípulos a anunciar, na noite. 

            Não era conversa fiada 

Depois da vinda do Espírito Santo os apóstolos pregavam com muito entusiasmo. Sabiam o que havia acontecido com eles no momento em que foram inundados pelo Espírito.

A maior força era a certeza da presença de Jesus no seu meio. Ao ir para o Céu, disse: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Essa cena tão preciosa dos discípulos que iam para Emaús, esclarece como entendiam a presença de Cristo.

Temos quatro tipos de presença: a unidade na presença fraterna, pois iam juntos; os sinais dos tempos analisados a partir de Cristo; Jesus está na Palavra, pois Jesus lhes explica as Escrituras; e a presença mais significante, no partir do pão, isto é, na Eucaristia.  Assim podem voltar na noite, na clara noite da lua brilhante, para anunciar aos outros. Deve ter sido uma delícia esse encontro. E a conversa não era fiada.

 

nº 1643 Artigo – “A comunidade dos ressuscitados”

  1. Encontra todos reunidos

  Os que foram ressuscitados, isto é, os que creram e foram batizados estão sempre reunidos.  É uma característica da comunidade. Essa unidade não é apenas social, mas é comunhão produzida pelo Espírito Santo que a torna Corpo de Cristo. São novas criaturas que constituem o lugar onde se manifesta o Ressuscitado que dá o Espírito. Esse é o Pentecostes permanente. A comunidade dos discípulos continua a presença do Senhor e acolhe seu Espírito. O evangelista narra que as aparições se deram no primeiro dia da semana que chamamos dia do Senhor, domingo (Dies Dominica).  Mais que indicar o dia dessa presença indica a força da comunidade reunida. Por isso rezamos nos domingos: “Este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos e exultemos nele”. Refere-se à Ressurreição e ao dia de sua manifestação. Mais que vencer a morte privilegia-se dar a vida. Constitui a comunidade e lhe dá a vida. Por isso, Lucas nos Atos dos Apóstolos insiste que o Espírito forma a comunidade para a escuta da Palavra, a comunhão fraterna, a fração do pão (Eucaristia) e as orações (At 2,42).  A Ressurreição atua na comunidade. O que aconteceu com Jesus, ocorre na constituição da comunidade. Ela vive do Cristo vivo, ressuscitado e não apenas vive a esperança de sua vinda e na certeza da realização das promessas. Todos os domingos rezamos a profissão de fé: “Creio em Deus Pai…” É um modo de indicar que é o dia de professar a fé como Tomé: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28). A comunidade reunida é um testemunho da fé e da força da Ressurreição. Temos aí a razão da força da celebração dominical.

  1. Envio para reconciliação

            Jesus foi enviado ao Pai para a reconciliação de todos com Deus. Essa foi sua missão e por ela se entregou totalmente até à morte. Sendo para nós sinal de vida. Como Moisés que sempre pedia que Deus perdoasse o povo, pois agia por ignorância e lembrava a Deus que Ele tinha se comprometido com juramentos de levar esse povo à terra prometida. Jesus, no momento da morte pede ao Pai que perdoe seus inimigos, e dá como razão: “eles não sabem o que fazem” (Lc 23,33). Quis sempre a reconciliação. Para isso é preciso sair de si e entregar-se ao outro. Para isso sopra sobre eles, lhes dá o Espírito Santo e diz: “Recebei o Espírito Santo! A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). A missão da comunidade é reconciliar-se e promover a reconciliação para que o mundo creia. Esta é a economia de Deus. Significa: Tudo o que Deus fez foi para nos salvar. Esse foi o primeiro ato do Ressuscitado. Esse deve permanecer para sempre. Essa missão permanece na comunidade. Vivendo reconciliada de estabelece no mundo a reconciliação. Para isso ela recebe o Espírito do Ressuscitado. Não podemos ver aí só uma questão de confissão.

  1. Discípulos felizes

A profissão de fé de Tomé que “viu para crer” torna-se a força da comunidade, pois sua felicidade consiste em crer sem ver. A fé não exige sinais, basta que o Espírito a confirme. Crer sem precisar tocar é mais que tocar para crer. Aqui age o homem, lá age a graça do Ressuscitado. A fé vai levar a tocar as feridas dos irmãos. Aí sim, tocamos o Ressuscitado que traz as marcas de sua Paixão. Não podemos viver sem a Paixão de Cristo, pois ela nos faz compreender o quanto o Senhor fez por nós e o quanto espera que cada um faça pelos outros. O toque pela fé penetra no mistério e nos atinge na totalidade. Jesus tinha razão em dizer que “felizes foram os que creram sem ter visto” (Jo 20,29).

nº 1642 – Homilia do 2º Domingo da Páscoa (23.04.17)

“Nascer para uma esperança viva”

 Efusão do Espírito

Após a Ressurreição Jesus vai ao encontro dos discípulos reunidos no Cenáculo. João ensina-nos a compreender a Ressurreição e sua relação com a comunidade. Coloca-a no primeiro dia da semana que é o primeiro dia da nova criação. Nele se dá a efusão do Espírito. É a inauguração de tempo novo de Deus. Jesus aparece e mostra o sinal dos cravos nas mãos e o lado aberto pela lança. Ele é o mesmo que fora crucificado. É importante a consciência que o Ressuscitado não é um tipo de fantasma. É o mesmo Senhor que traz consigo não só a vida nova, mas também as marcas de sua Paixão. Falando aos discípulos, sopra sobre eles e diz: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Os discípulos, ao receberem o sopro do Espírito Santo, transformam-se em nova criatura redimida. A comunidade dos discípulos constitui o lugar onde se manifesta o Ressuscitado que dá o Espírito. O Espírito forma a comunidade para a escuta da Palavra, a comunhão fraterna, a fração do pão (Eucaristia) e a oração (At 2,42). Por isso os mártires dirão: “Não podemos viver sem o domingo”. Ele é o dia do Senhor se manifestar na comunidade. A força da Ressurreição não está somente em Jesus que vence a morte, mas atua também na comunidade que vive na esperança, “pois sem O ver ainda, Nele acredita” (1Pd 1,8). A esperança é a certeza de que se realizarão as promessas. O Espírito transforma a dúvida em ato de fé, como fez a Tomé (Jo 20,28). A profissão de fé de Tomé, meu Senhor e meu Deus, realiza nele a Ressurreição.

Como o Pai me enviou, Eu vos envio

Naquela noite Jesus apareceu aos discípulos, pôs-se no meio deles e disse: “Como o Pai me enviou, também Eu vos envio”. Depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo! A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). A comunidade recebe o Espírito para o anúncio da missão de reconciliação. Soprando sobre os renascidos, dá-lhes o Espírito que lhes mantém viva a fé na esperança. O discípulo é associado à missão do Ressuscitado. Quem recebe o discípulo, recebe a Cristo (Lc 10,16). Recebe também toda economia da salvação, isto é, tudo o que Deus fez para nos salvar. Cada celebração da comunidade é presença do Ressuscitado, efusão do Espírito e envio à missão. Todos esses acontecimentos estão presentes na comunidade que celebra. É a continuação e presença do Ressuscitado que continua agindo, dando o Espírito e enviando. A liturgia não é somente um rito, mas é a celebração de uma presença. Por isso rezamos na Eucaristia: “Ele está no meio de nós”. Percebemos aí a importância da celebração. Ele não é só uma obrigação ou um rito, mas é a certeza de uma presença que não precisa ser tocada a não ser pela fé. A presença do Senhor na celebração nos une a seu ministério de louvor e glória ao Pai.

 A comunidade vive a fé no Ressuscitado.

A comunidade é o Cenáculo para a manifestação do Ressuscitado que provoca a fé dos discípulos. A profissão de fé de Tomé é a maior de todas: “Meu Senhor e Meu Deus”! A comunidade reunida é o lugar para o acolhimento do Ressuscitado na fé. Crer em Jesus é um dom do Espírito. Os discípulos que não viram Jesus crêem porque aceitaram os sinais que Jesus fez para que acreditassem. Todos os que crêem, sem ter visto, são felizes, isto é, realizam em si a plenitude da fé, na esperança (Jo 20,29). A fé é mais consistência que o toque ao vivo.

Leituras: Atos 2,42-47;Salmo 117;1Pedro 1,3-9;Jo 20,19-31.

Ficha nº 1642 – Homilia do 2º Domingo da Páscoa (23.04.17)

  1. Jesus se manifesta aos discípulos vivo, com as marcas da Paixão. Dá-lhes o Espírito e os envia em missão. Manifesta-se no domingo, que é o dia da comunidade.
  1. Cada celebração da comunidade é presença do Ressuscitado, efusão do Espírito e envio à missão. Cristo está vivo e presente em nossas celebrações.
  1. Todos os que crêem, sem ter visto, são felizes, isto é, realizam em si a plenitude da fé, na esperança. 

            Crer para ver 

            No segundo domingo da Páscoa temos a conhecida história de Tomé que quer ver para crer. É incrédulo. Não acredita no que os outros dizem, a não ser se ele mesmo faça a experiência. Jesus se manifesta aos discípulos e Tomé não estava presente. Nem acreditou no que disseram com tanta alegria.

            Uma semana depois, isto é, no domingo, Jesus se manifesta aos discípulos e Jesus estava presente. Vai a Tomé e cobra uma atitude de fé. Tomé diz: “Meu Senhor

e meu Deus” (Jo 20,28). É o ato de fé mais completo que temos no Evangelho.

            Os que acreditavam se reuniam e nasce assim a comunidade que é fonte de todas as nossas comunidades. Toda a comunidade vive do ensinamento da Palavra, da comunhão fraterna, da Eucaristia (fração do pão) e das orações. Sem isso a comunidade é ajuntamento de pessoas e não comunhão de fé em Cristo Ressuscitado.

            Fomos ressuscitados, mas ainda passaremos por sofrimentos para completar a nossa parte em Cristo.

 

 

nº 1641 Artigo – “Cristo Ressuscitou!”

  1. Um grito no universo

            Naquela madrugada, como surge o sol, surge uma vida completamente nova. Quem viu? Cantamos no Precônio Pascal – hino de proclamação da Páscoa: “Só tu, noite feliz, soubeste a hora em que o Cristo da morte ressurgia. E é por isso que de ti foi escrito: a noite será luz para meus dias”. A Ressurreição foi à noite porque não era um milagre para espetáculo, mas motivo de busca permanente na clara obscura noite da fé. Ele é o guia em nossa noite. As imagens que animam essa celebração pascal nos instruem sobre o acontecimento maior de todo universo em todos os tempos: “vitória sobre a morte”. “O Rei da vida, cativo, é morto, mas reina vivo” (Sequência de Páscoa). Trazemos símbolos universais: a água do batismo que é aspergida sobre todos, símbolo da purificação e fecundidade; o fogo que acende o círio pascal, o símbolo de Cristo luz do mundo da qual participamos; a terra nos elementos na natureza como a cera, símbolo da fragilidade e da estabilidade do universo. Dela somos feitos. Antes se usava também o sopro, símbolo do Espírito que vem sobre as águas e sobre cada fiel. A Ressurreição não é um ato reservado a uma religião. É uma explosão de vida no universo. Todo o universo caminha para “sua realização plena que é ser libertado da escravidão da corrupção para entrar na liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8,21). É estranho este aspecto de participação do universo na glorificação de Cristo. A Bíblia traz muitas orações envolvendo também a natureza. Ressuscitada glorifica o Senhor. Tudo será recapitulado, isto é, irá para Cristo sem fim (Ef 1,10).

  1. Vida ressuscitada

            Temos muita dificuldade de entender como se realiza em nós a Ressurreição. Cristo, com sua Morte e Ressurreição, restaura a natureza humana corrompida pelo mal. Há condições de vida nova e eterna. Quer dizer que somos seres renovados para voltar a seu estado original criado por Deus. Permanecemos na condição humana, mas com um novo modo de ser espiritual. Temos a Vida Nova. Essa se reflete no modo como vivemos essa novidade de vida. Passamos do eu ao nós, do egoísmo à abertura ao outro como servidor de caridade e amor. Para sabermos se estamos em Cristo, basta olhar se andamos como Ele andou e como viveu, como João nos escreve: “Aquele que permanece Nele, deve também andar como ele andou” (1Jo 2,6). O amor é a maior explicação da Ressurreição. Não podemos entender o gesto de Deus ressuscitando Jesus a não ser o amor. Somos amados para amar.

  1. Um mundo novo

            Está nos planos de Deus em Cristo mudar o mundo natural. A meta de todas as mudanças é modificar o coração do mundo nas pessoas. Deus nos salvou como povo e como pessoas individuais. Cada um é único diante de Deus e recebe todo seu amor e atenção. A Ressurreição abre as portas do Paraíso, fechado pelo pecado do primeiro  homem. O paraíso terrestre simboliza a vida na familiaridade com Deus. Perdemos esse dom e agora Cristo o recupera para nós. Somos família de Deus, vivemos de sua bondade e participamos de sua vida. Não vemos o que acontece no espiritual. Pela caridade vemos o que acontece em nosso mundo humano e carnal. O amor vivido vem de Deus. Ninguém tem gesto algum de amor a não ser por Deus que o gera em nós como também para os que não conhecem Jesus como conhecemos. Cada celebração reanima esse dom. Assim se cria a grande família, o edifício espiritual, o povo de Deus e a agricultura de Deus (1Cor 3,9), como nos explica S.Paulo. A Ressurreição não é misteriosa, é um mistério a ser vivido.

nº 1640 – Homilia do Domingo da Páscoa (16.04.17)

04“A Ressurreição do Senhor” 

Este é o dia que o Senhor fez

A Ressurreição de Jesus é o primeiro dia da nova criação. Por isso o guardamos como o dia do Senhor Ressuscitado. João escreve no Apocalipse: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). É o começo de um novo mundo. Agora é o tempo de Deus inaugurado na Ressurreição do Senhor. Jesus é o Homem Novo ao receber o sopro de vida do Espírito que O ressuscitou. Com sua vitória sobre o pecado e a morte, carregou consigo todo o universo. A Ressurreição é fundamental para nossa vida. Participando da Vigília Pascal, pudemos viver esse mistério na celebração litúrgica. Os símbolos celebrados nos introduziram no mistério do Cristo Ressuscitado. Passamos da morte para a vida com Ele. Segundo o evangelho do dia, Maria Madalena é o símbolo da busca. Procura um corpo que desaparecera. Há um sepulcro vazio, com um pano dobrado, como um invólucro que se esvaziou. Dois discípulos correm. Pedro entrou no sepulcro e viu. João, entrou, viu e acreditou. “Eles não tinham compreendido a Escritura segundo a qual, Ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20,9). Após a vinda do Espírito torna-se claro para eles a realidade da Ressurreição. Esse Cristo que vive é o mesmo que esteve com eles e passou por toda parte fazendo o bem. Ele esteve com eles na normalidade da vida. Sabem também que isso deve ser testemunhado para que se creia e tenha o perdão (At 10,34 ss).

O véu que cobria o rosto

              Somente à luz do Espírito podemos compreender o mistério da Ressurreição. É preciso tirar o véu da incredulidade, para ver o Ressuscitado. Notamos que o evangelho acentua que o pano que cobria o rosto estava de lado. Seu rosto está descoberto. Ao judeu, ao ser enterrado, cobria-se-lhe o rosto. Em Jesus, sua natureza humana era como um pano que cobria sua divindade. Agora podemos ver Deus em Sua face. Em Cristo podemos contemplar a face do Pai: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). De agora em diante, “Todo aquele que crê em Jesus, recebe, em seu nome, o perdão dos pecados” (At 10,43). Há outro véu que não encobre a visão, mas nos une a Cristo como vida escondida na vida de Cristo. Só veremos face a face, como agora somos vistos. Só veremos completamente quando “Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com Ele revestidos de gloria”(Cl 3,4). Os discípulos foram os escolhidos para verem Cristo ressuscitado.

Vida escondida com Cristo

            Rezamos nessa Eucaristia: “Concedei que, celebrando a Ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos na luz da vida nova”. A vida nova é a união com Cristo e fazer o bem.  Diz Pedro: “Ele andou por toda a parte fazendo o bem”. Por isso Paulo estimula os cristãos “a buscar a vida do alto onde está Cristo… pois nascestes de novo e vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus” (Cl 3,2-3). Na Eucaristia nos alimentamos desse mistério. Rezamos na oração das oferendas: Oferecemos esse sacrifício pelo qual a vossa Igreja renasce e se alimenta”. O mesmo Espírito Santo pelo qual ressuscitou Jesus tem a mesma força de ressurreição em nós. A Ressurreição transforma a vida dos discípulos. O vigor com que anunciam Jesus só tem explicação na força da fé transmitida por Cristo Ressuscitado. Podemos interpretar nossa acomodação em não anunciar o evangelho com vigor com uma fé que não parte de Cristo Vivo Ressuscitado. Se creio anuncio.

Leituras: Atos 10, 34-43; Salmo 117; Colossenses 3,1-4; João 20, 1-9.

Ficha nº 1640 – Homilia do Domingo da Páscoa (16.04.17)

  1. Com a Ressurreição de Jesus começa um mundo novo. Os discípulos foram ao túmulo, mas não conseguiram entender. Com a vida do Espírito eles se transformaram.
  1. O véu da incredulidade impedia de ver o Cristo ressuscitado. Nossa vida está escondida em Cristo como sob um véu. Um dia veremos face a face.
  1. A vida nova é viver unido a Cristo e fazer o bem. Sem fé na Ressurreição temos uma fé sem vigor.                   

                    Jesus não é coelho 

            Que dor ver a Páscoa ter se transformado em um ovo de chocolate. Isso é pau mandado. Mas nós vemos dentro das muitas imagens da Páscoa, o ovo que se rompe e gera uma vida nova. O coelhinho não bota ovo. É símbolo da vida nova que surge depois do inverno nos países de neve. Ele é o primeiro que sai da toca depois do inverno.

                    A Ressurreição vai além dos símbolos vazios, pois ela é o símbolo maior de toda a História da humanidade. É o símbolo e a realização de todas as esperanças de uma vida que seja total e a imagem do homem renovado, e a abertura garantida de um futuro eterno.

                    Nossa meta é buscar a vida do alto onde está Cristo junto ao Pai. Lá é nosso lugar. Isso leva a renovação ao mundo inteiro, pois tudo caminha para Cristo (Cl 1,19-20).

                    O dia da Páscoa proclama a ressurreição de Jesus diante de um túmulo vazio. A mulher, Madalena, vai ao túmulo e o encontra aberto. Avisa aos discípulos que correm e comprovam. Pela fé, vão aos poucos entendendo. Quando receberem o Espírito Santo terão força total para anunciar esse acontecimento que mudou suas vidas.