nº 1706 – Homilia do 1º Domingo de Advento (03.12.17)

“O Senhor mostra bondade” 

Tempo de salvação

O novo Ano Litúrgico inicia um caminho completamente novo. É como uma escada em espiral. Parece que vemos a mesma paisagem, mas de um ponto de vista mais elevado. É a noção cristã do tempo. Não voltamos ao mesmo lugar, como ensinavam os gregos, nem somente caminhamos para frente, como ensinam os judeus, mas retomamos o caminho, sempre além do que já fizemos. É o tempo novo de viver a graça da salvação. É a conversão permanente. Por isso, é tempo de vigilância. A vinda do Senhor não será para nos condenar, mas para colher os frutos que o Espírito Santo realizou em nós. Diante de temores que podem nos provocar sua chegada de improviso, sentimos nossa fragilidade como nos diz o profeta Isaias: “Todos nós nos tornamos imundícies, e todas as nossa obras são como um pano sujo; murchamos todos como folhas e nossas maldades empurram-nos como o vento” (Is 63,5). Mesmo assim professamos: “Assim mesmo, Senhor, Tu és nosso Pai, nós somos barro; Tu nosso oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos”(Is 63,7). O senso de fragilidade e de pecado nos estimula a ir com mais vigor em nossa busca de Deus. Clamamos pela bondade de Deus, na certeza de que ela não nos faltará: “Voltai-vos para nós, Deus do Universo!… Visitai vossa vinha e protegei-a” (Sl 79). A fé nos ensina a não perder nunca a esperança. O Senhor vai voltar! O tempo do Advento está voltado tanto para a vinda futura, como para sua vinda no Natal. A doçura de seu nascimento nos garante sua bondade como Juiz.

Ardente desejo

            Não ficamos à mercê dos acontecimentos, mas nos abrimos à ação do Deus Salvador. Rezamos no salmo: “Assim mesmo, Senhor, Tu és nosso Pai e nós somos o barro; Tu, nosso Oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos” (Sl 79). O ardente desejo que temos da vinda do Senhor corresponde à obra maravilhosa que realiza em nós. Essa imagem do oleiro está presente no profeta Jeremias (Jr 18,1-23). Lembramos que o homem é um vaso feito pela mão de Deus. Foi com capricho que Deus nos fez. Como fez, cuida. Com Ele cuidamos para que esse vaso realize sempre mais ao projeto de Deus. O desejo que temos da vinda de Cristo corresponde à resposta de Deus. Mesmo que nos tenhamos extraviados, nossa súplica é ouvida: “Ah se rompesses os céus e descesses! As montanhas se desmanchariam diante de Ti” (Is 63,19b). A ação de Deus por nós é imensa na comparação do profeta. Sua bondade supera nossa injustiça: “Nunca se ouviu dizer nem chegou aos ouvidos de ninguém, jamais os olhos viram que um Deus, exceto tu, tenha feito tanto pelos que Nele esperam. Vens ao encontro de quem pratica a justiça com alegria” (Is 63,3).

Correr com as boas obras

Não há como nos desesperarmos, pois o Deus que vem ao nosso encontro já nos deu tanta coisa. Paulo assim se dirige aos Coríntios: “Em Cristo fostes enriquecidos em tudo, em toda a palavra e em todo conhecimento… Assim não tendes falta de nenhum dom, vós que aguardais a revelação do Senhor nosso Jesus Cristo” (1Cor 1,5-7). Não estamos abandonados à nossa sorte esperando ser pegos em nossa fraqueza: “Ele vos dará a perseverança em vosso procedimento, até o fim, até o dia de nosso Senhor, Jesus Cristo” (8). O sentido de vigilância é dar-nos estimulo às boas obras. Rezamos: “Concedei aos vossos fiéis o ardente desejo de possuir o Reino Celeste, para que acorrendo com as boas obras ao encontro do Cristo que vem…”

Leituras: Isaias 63,16 b-17.19b;64,2b-7; Salmo 79; 1 Coríntios 1,3-9; Marcos 13,33-37

Ficha nº 1706 – Homilia do  1º Domingo de Advento (03.12.17)

  1. O Ano Litúrgico é tempo de salvação. Mesmo fracos temos certeza que Deus não falha.
  2. Temos o desejo de Deus que responde a nossas expectativas.
  3. De nossa parte compete ir ao encontro do Senhor com nossas boas obras. 

            Fica esperto.           

            No início do Ano Litúrgico, como no final, temos o convite à vigilância. Estar vigilante é andar nos caminhos do Senhor. Vivendo bem, Ele vem ao nosso encontro. Esse é o primeiro ensinamento do Advento. A seguir temos a preparação para o nascimento de Jesus no mistério de sua Manifestação.

            Em um novo ano sentimos necessidade de sua presença e pedimos proteção como rezamos no salmo: “Voltai-Vos para nós Senhor… Visitai a vossa vinha e protegei-a!” (Sl 79).

Pelo Evangelho aprendemos o que o Senhor quer de nós: “O que vos digo, digo a todos; ‘Vigiai’”! Ele quer nos encontrar sempre despertos; De dia e de noite. Que não nos encontre distraídos da finalidade da vida.

Diante do Senhor reconhecemos que andamos longe. Somos frágeis. Nossas boas obras são como um pano sujo. O reconhecimento da fraqueza é um clamor a Deus: Vinde! Paulo nos alerta que recebemos muito de Deus. Nada nos falta.

 

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nº 1705 Artigo – “No Ministério de Cristo” 

  1. Participando da missão de Cristo

Jesus, em seu ministério entre nós, era profeta, sacerdote e rei-pastor. Dizemos múnus, função que é o serviço de Cristo. Ele não guarda para si. Unidos a Ele participamos de sua vida e missão. Cristo proclama a palavra de Deus e a anuncia; resta o perfeito culto ao Pai; dirige como pastor o seu rebanho e orienta o mundo para Depus. Os que possuem o ministério sacerdotal ou episcopal participam dessa missão como pastores, profetas e sacerdotes. Também os leigos participam, a seu modo, do mesmo ministério (múnus) de Cristo. Os sacerdotes e bispos têm essa missão em vista da comunidade cristã. Estamos acostumados a colocar o clero como centro. Têm sua missão. Os leigos são o centro, principalmente onde a hierarquia não chega. E, como Jesus, os sacerdotes e bispos se põem a serviço nesse ministério para que os leigos tornem presente Jesus nesses diversos ministérios. O povo de Deus, a Igreja, é a base. Isso não é contra a hierarquia, mas a fortalece como missão e não como poder humano. O poder Divino é a força do serviço: “Estou entre vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Os santos bispos, padres e freiras foram homens e mulheres humildes que se puseram a serviço. Isso não tira o poder-serviço. Dá força e ajuda na compreensão.  É uma obra comum. Basta ver o que diz o documento Lumen Gentium: “Os Pastores sagrados sabem que não foram instituídos a fim de concentrarem em si sozinhos toda a missão salvífica da Igreja no mundo” (LG 30).

  1. Uma missão de todos

Vamos ter um ano para os leigos. O Concílio Vaticano II despertou-os para a missão. Essa missão tem índole secular, isto é, não faz parte da hierarquia nem da vida religiosa. “É específico dos leigos, por sua própria vocação, procurar o Reino de Deus exercendo funções temporais e ordenando-as segundo Deus” (LG 31), nos trabalhos, na família, no social. São como o fermento na massa. “A eles cabe, de maneira especial, a missão de iluminar e ordenar todas as coisas temporais, às quais estão intimamente unidos, que elas continuamente se façam e cresçam segundo Cristo, para louvor do Criador e Redentor” (Id). O documento continua ensinando que formamos um só corpo com em Cristo (Rm 12,4-5). Temos o mesmo batismo. Somos um em Cristo. Todos são chamados à santidade por caminhos diferentes. Pastores e fiéis unidos entre si e sirvam-se mutuamente. A diversidade de graças, ministérios e trabalhos unifica os filhos de Deus (LG 32). “O apostolado dos leigos é participação na própria missão salvífica da Igreja… naqueles lugares onde apenas através deles ela pode chegar” (LG 33).

  1. Com Cristo em sua missão

O documento sobre a Igreja continua explicando que “a todos os leigos incumbe a missão de trabalhar para que o plano de salvação atinja todos os homens” (LG 33). Por isso e para isso participam no sacerdócio comum e no culto. Pelo Batismo e Crisma participam do múnus sacerdotal de Cristo. Por sua vida, obras, preces vida conjugal, familiar, trabalho, descanso e dificuldades, tornam-se hóstias espirituais agradáveis a Deus por Cristo. Consagram o mundo a Deus. Além de continuarem o Cristo sacerdote na consagração do mundo e assumem também a missão do Cristo profeta. Jesus o faz pela vida e palavra. Essa missão de Jesus é continuada também pelos leigos “aos quais constituiu testemunhas e ornou com o senso da fé e a graça da Palavra para que brilhe a força do Evangelho na vida cotidiana, familiar e social” (LG 35). Como Cristo tem por missão levar o mundo para Deus. Os leigos, no mundo secular, o conduzem para Deus, levando-o para fazê-lo casa de todos os homens na justiça e na fraternidade.

nº 1704 – Homilia da S. de Cristo Rei (26.11.17)

“Cristo, Rei do Universo”

 Um Rei Pastor

             Em 1925, o Papa Pio XI instituiu a festa de Cristo Rei para fazer frente às crises em que vivia o mundo. Esta festa era celebrada no último domingo de outubro. A reforma litúrgica a transferiu para o último domingo do ano litúrgico. Antes tinha um caráter político para contrapor o Reinado de Cristo aos “reinos” desse mundo. A sociedade cristã se desfazia. Houve muito entusiasmo. O grito viva Cristo Rei era o grito dos mártires da revolução mexicana. A mudança tirou o aspecto mais político para colocar Cristo como meta de todas as coisas: “É preciso que Ele reine até que todos os seus inimigos estejam colocados debaixo de seus pés… Quando todas as coisas estiverem submetidas a Ele, então o próprio Filho se submeterá Àquele que submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,25-28). A realeza de Cristo diverge das realezas do homem. Nem deveríamos chamá-Lo de Rei, pois Ele é o Pastor que conduz e dá a vida pelas ovelhas. É no serviço aos outros que será feito o julgamento dos povos. Seremos julgados pelo que fizemos aos irmãos, ou não fizemos. O que o Juiz perguntará? Sintetizando: socorreram os necessitados em suas dificuldades? Que dificuldades? Fome, sede, saúde, migrante, prisioneiros, nús (símbolo da total miséria). São os problemas fundamentais do ser humano. Um bilhão sem a comida necessária. Meio bilhão não tem acesso à água potável. São sessemta milhões de refugiados. São dez milhões e quinhentos mil prisioneiros no mundo. O mundo está doente E quatrocentos milhões não têm acesso a tratamentos. O que fazemos a um necessitado é a Cristo que o fazemos. A garantia do Céu está em nosso modo de cuidar de Deus no outro.

Ele nos conduz

            Como cuidamos de Jesus, cuidando de seus pequeninos, Ele cuida de nós que somos suas “ovelhas”. Nada deixa faltar. Ele é o bom Pastor. Como nos conhece bem, sabe do que precisamos, exige de nós o mesmo cuidado com os outros. Por isso é duro na cobrança de nossas atitudes e nossas opções vitais. O salmo do bom Pastor é o reverso do julgamento: cuida de cada um, dá condições de vida digna, água, alimento, segurança, carinho e cuidado. O profeta Ezequiel diz o mesmo o que canta o salmo: reúne, resgata nos dias de escuridão. Cuida, busca a ovelha perdida e a extraviada, enfaixa a de perna quebrada trata bem das ovelhas fortes. E aplica a justiça na sua defesa. A imagem que Deus sugere de Si a nós, é da águia que leva os filhotes sobre as asas (Dt 32,11). O cuidado de Deus para com seus pequeninos é a escola para a vida da Igreja e para a preparação do grande julgamento. Aí poderemos ouvir as palavras: “Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que o Pai vos preparou desde a criação do mundo” (Mt 25,34).

Tudo converge a Cristo

            No cristianismo primitivo ainda havia dificuldade em aceitar muitas doutrinas porque estavam ainda marcados pelas filosofias dominantes. Por isso Paulo insiste sobre a  ressurreição de Jesus e a ressurreição de todos. É só nela que toma sentido toda a obra de misericórdia que nos é ensinada pelo evangelho. A ressurreição de Cristo tem efeitos na ressurreição das misérias do homem. Sempre pensamos que a ressurreição só se dirige a corpos. Ela está em todos os momentos da vida. “Em Cristo todos reviverão”. Mais ainda: “O último inimigo a ser vencido é a morte” (1Cor 15,22.26). Quanto mais salvamos o homem que sofre, mais o conduzimos Cristo em sua ressurreição. Estamos brincando de religião e fé, quando não fazemos como Jesus ensinou sobre como devemos agir no amor.

Leituras: Ezequiel 34,11-12.15-17; Salmo22; 1 Coríntios 15,20-26.28; Mateus 25,31-46

Ficha nº 1740 – Homilia da S. de Cristo Rei (26.11.17)

  1. O evangelho do julgamento ensina o modo de viver: cuidado com os irmãos que vivem as dolorosas situações de miséria.
  2. Jesus, bom pastor, quer que cuidemos dos outros, como cuida de nós.
  3. A ressurreição da humanidade não se dá só no final dos tempos, mas em cada momento que libertamos a pessoa dos males que a cercam. 

            Atalho para o Céu 

            Todos querem ir para o Céu, nem mesmo sabendo como será. Bom deve ser, pois ninguém voltou desiludido. Aliás, até nos animam a viver como viveram para chegar lá.

            Muito se fala que o fim do mundo vai chegar. O problema não é o fim, é o meio. Nesse meio está o julgamento. Não vai ser uma sessão, mas uma vida fazendo o bem. Foi assim que Jesus ressuscitou e foi colocado pelo Pai “lhe deu um nome que está acima de todo nome” (Fl 2,9-11).

            Já está programada a sessão em que seremos julgados e as perguntas do Juiz serão as mesmas para todos: Eu tive fome e me destes de comer? Sede e me destes de beber? Estrangeiro e me recebestes? Nu e me vestistes? Doente e prisioneiro e me fostes visitar? – Quando Vos vimos assim não ajudamos? Quando não fizestes isso aos meus irmãos menores, a mim não fizestes.

            Essas questões apresentadas são a síntese dos problemas do mundo atual e suas soluções.

            Isso é muito sério. Anda-se pregando que basta crer em Jesus ou cumprir umas devoções egoístas. Vai… vai ver o que vai acontecer. Construímos nosso Céu.

 

nº 1703 Artigo – “Amizade é um dom”

  1. Ser amigo

Gostamos de ter amigos e de receber amigos. O que vale mais ser amigo ou ter amigos? É bonito ver as crianças dizerem: Meu amigo, referindo-se a um colega. Sabemos que temos muitos conhecidos, mas poucos amigos. Há muitas descrições de amigos, muitas afirmações, como por exemplo: Amigo é aquele que é capaz de mostrar quando estou errado. Ou chega sempre nos momentos difíceis. Outra afirmação: Só se conhece um amigo depois de comer muito sal com ele. A amizade não exclui e nem domina as pessoas. Amigo é nome de liberdade. Amigos que se veem raramente quando se encontram, parece que se viram ontem. Amigo vai além daquele que está junto sempre. Esses passam. O amigo fica. Na verdade, temos poucos amigos. Ou nenhum. Há muita reflexão e palavras bonitas sobre a amizade. O que vale não é ter amigos, mas ser amigo. “Amigo” é uma palavra que está muito ligada à realidade do amor como Jesus ensina: por-se a serviço. Amigo não cobra presença, não exige atitudes nem impõe modelo. Não admite exclusão. É uma atração para construir juntos um modo de vida de liberdade que se dedica.  É amigo, quando os amigos são amigos do amigo. Amizade é liberdade. Ser amigo como Jesus era amigo. Era capaz de exigir vida, sem impor modelo. Cada apóstolo era diferente do outro. Jesus não exigiu que fossem iguais, não impôs. Ele era o amigo. Quando Judas o trai, chama-o de amigo. Não deixou de ser amigo, quando ele não foi amigo.

  1. Amizade espiritual

            É de se perguntar o quanto sou amigo. Além da amizade humana, cheia de riquezas e maravilhas, temos a amizade espiritual. Esse é o desafio. O que é um amigo espiritual? Aquele que divide comigo o caminho espiritual. Crescemos juntos em Deus e na Igreja. É aquele com quem partilho minhas experiências de Deus. Buscamos juntos o espiritual. Amamos o mesmo Deus e nos dedicamos à Igreja e seus ministérios com o mesmo entusiasmo. Somos capazes de partilhar as fragilidades e pecados. Não é um ente fora de outro mundo, invisível, que nos acompanha, protege e abençoa. Mesmo aqui continuamos amigos de nós mesmos procurando quem nos cuide. Não é um que passa a mão na cabeça, mas que se estimulam ao crescimento. É triste sermos isolados, solitários no caminho espiritual. Pior ainda quando na vida de Igreja, como sacerdotes e religiosos, religiosas, vivemos a solidão espiritual. É um sinal claro de que não aprendemos o amor de Jesus. Ele é o amigo que vamos amar juntos. Não dispensa que tenhamos amigos. Assim cresce nosso vigor espiritual. Temos um Amigo em comum. Os redentoristas têm dois santos que eram amigos espirituais: São João Neumann e Beato Francisco Seelos. Faziam juntos o caminho de dedicação a Deus.

  1. Amigo dos inimigos

            Somos ainda marcados, no campo da amizade, com a figura dos inimigos. Esses são aqueles que nos amam de modo diferente. É doloroso quando temos essa cruz na vida. Não amar não é bom, não ser amado não pode nos perturbar. Acaba provando dor e mesmo levando ao pecado por causa de nossa fragilidade. Vemos essa chaga dentro das famílias. O melhor remédio é não levar aos outros o que sentimos e prejudicar a pessoa. Quando se abrir a porta à amizade, ao bom relacionamento, não se deve fugir. Não se pode deixar que o mal nos faça mal. É muito bom não entrar na briga dos outros e não tomar partido. Ficamos em dúvida quando comungamos com esses problemas de “raivas”. O importante é rezar por esses “inimigos”. Onde não chegamos, chega nossa oração. A comunhão cura nosso coração.

nº 1702 – Homilia do 33º Domingo Comum (19.11.17)

“Servo bom e fiel” 

Ser vigilante é produzir

                                           Continuamos a reflexão sobre a vigilância. Jesus explica o Reino através de parábolas.  Temos hoje a parábola dos talentos (talento era uma moeda que equivalia a 40 quilos de ouro). Lemos que um senhor, saindo para uma longa viagem, confiou a três de seus funcionários altas somas de dinheiro/talentos para negociarem: a um deu dez moedas/talentos, cinco moedas a outro e ao último, uma moeda/talento. Não era pouco. Nós usamos talentos para indicar dons pessoais, mas a parábola fala de uma moeda. Ao voltar, os funcionários que receberam dez e cinco prestam contas dizendo que lucraram o dobro. O que ganhou um talento, preguiçosamente não quis negociar. A resposta é dura, sendo ele condenado à exclusão. Seu talento vai ao que lucrara cinco. Quem assume o Reino, terá ainda mais participação. O Reino não é um lugar bonito com belas paisagens. É uma luta para que possa ser sempre mais vivido e frutifique sempre mais para Deus e para o mundo. Vai governar dez cidades. Os frutos do Reino não são intimistas no pietismo vazio. É a implantação de um mundo novo e de criaturas renovadas. Deus nos dá talentos em abundância e de todos os tipos. O que se pede de nós não é material, mas multiplicar a vida e os dons que Deus nos deu. Lembremos que O Reino de Deus não deve ser considerado numa concorrência como lucros financeiros, mas de vida. A vigilância é produzir frutos. A vontade de meu Pai é que produzais fruto e o vosso fruto permaneça (Jo 15,16). A reflexão sobre o Reino priorizou muito o lado espiritual. Precisamos conhecer nossos dons e responsabilidades dadas por Deus e levar adiante os dons.

Vida a serviço

Com a leitura do livro dos Provérbios sobre a mãe de família, compreendemos que a vigilância se faz na atitude coerente de assumir a própria vida e missão como lugar onde agradamos a Deus e esperamos sua vinda. E na família que encontramos o primeiro lugar de desenvolver nossos dons, exercendo assim a vigilância. O Reino de Deus é dos pequenos e só os pequenos o tomam de assalto.  Essa é a violência de que Jesus fala: “O Reino dos Céus sofre violência dos que querem entrar, e violentos se apoderam dele” (Mt 11.12). A força dos fracos que se colocam a serviço é maior que a violência dos fortes. É o que vemos na descrição da mulher forte. Lembramos nossas mães. É a videira fecunda de que nos fala o salmo: “Tua esposa é como uma videira fecunda no coração de tua casa” (127). Em nenhum momento se refere a cansaço, irritação, mas atividade permanente sem agitação. Representa os que colocam em ação os talentos humanos e espirituais que Deus lhes deu; têm mil olhos e sabem penetrar em todos os ambientes. O Reino não cresce como uma entidade. É algo que vive por si e acontece nas pessoas que assumem seus talentos .

Vigilantes e sóbrios

            Os vigilantes não estão nas trevas de modo que o dia os surpreenda como um ladrão. São filhos do dia… Não durmamos, mas sejamos vigilantes e sóbrios (1Ts 5,5-6). Sobriedade convida a viver bem em todas as coisas e assumir tudo o que é bom com equilíbrio. Na perspectiva da vinda do Reino, nós apressamos na medida em que vivemos sua dinâmica. Não interessa tanto um Reino que venha no fim dos tempos, mas um Reino que se torna presente em cada um que o espera. Bem já dissera Jesus: “o Reino de Deus está entre vós” (Lc 11,21). A vida não é um ponto de ônibus onde se fica perdendo por esperar. Mas é uma empreita de ações que são fruto dos talentos que recebemos.

Leituras: Provérbios 31,10-13.19-20.30-31;Salmo 127; 1 Tessalonicenses 5,1-6;Mateus 25,14-30

Ficha nº 1702 – Homilia do 33º Domingo Comum (19.11.17) 

  1. A parábola dos talentos ensina que devemos fazer render o que Deus nos deu.
  2. A vigilância se faz na atitude coerente de assumir a própria vida e missão
  3. Ser vigilante é agir pelo Reino. 

                        Lerdeza não dá fruto                              

 A reflexão sobre a vigilância continua na parábola dos talentos. Talento em primeiro lugar é um dinheiro. Um talento corresponde a 40 quilos de ouro. O senhor ia viajar longe e passou a administração de seus bens a seus funcionários de confiança para negociarem. Ao voltar e acertar as contas recompensou os dois primeiros. E o que recebeu só um talento, guardou escondido e devolveu, levou a pior.

A primeira leitura apresenta a figura da mulher forte que administra bem sua vida como um todo, serviço doméstico e a caridade. O talento é a vida que ela põe em ação. Nossos “talentos” pessoais são o ouro que Deus nos confiou para produzir.

Para fazer produzir bem as riquezas que Deus pôs em nossa vida, seguimos o salmo: “Feliz és tu que temes o Senhor e trilhas seus caminhos!” (Sl 127). São Paulo convida a sermos vigilantes e sóbrios. Vivendo bem, quem mal tem?

           

 

nº 1701 Artigo – “Ser missionário”

  1. Testemunho da caridade

Falar em missão é quase um assunto que se refere aos outros que vão para fora do país, ou outras regiões. Temos uma idéia de que missionários são sempre os outros. Há também a missão popular e outros tipos mais. Tudo o que se faz tem nome de missão. Mas a missão é função de cada um. Nisso são muito práticas as pessoas mais simples. São bem capazes de tirar da vida a palavra certa para orientar. O primeiro anúncio é ser como Jesus que se fez carne para habitar entre nós. É da vida que sai o testemunho. Vivendo bem mostram o caminho do Reino de Deus. Mais bonito é quando dizem com suas palavras simples e bem práticas a Palavra de Deus. O primeiro testemunho é a vida. “Brilhe vossa luz diante dos homens, para que vendo vossas obras, glorifiquem o Pai que está nos Céus” (Mt 5,16). Aqui entra a característica católica da evangelização. A missão primeira é a caridade. É ela nossa melhor maneira de pregar o Evangelho. Não podemos só usar palavras e discursos. Jesus pregou mais por sua caridade para com os necessitados do que por suas palavras. Seu gesto de socorrer os humildes de tantos modos foi o que ficou. As palavras foram compostas pelos apóstolos. Os milagres falavam por si. O maior milagre é sair de si e ir ao encontro do outro. Essa palavra é compreendida e levada a efeito. Não importa que consigamos convencer com as palavras. O amor é o que mais convence. Todos são missionários a partir do Batismo. Quem não comunica é porque não compreendeu a fé. A desatenção para com a vida apostólica missionária de cada um é culpa de se pensar que só os padres e freiras são responsáveis pelas realização da missão. Estes também desvalorizaram o leigo e não abriram espaço.

  1. Formação da comunidade

              O último desejo de Jesus não foi que levassem em frente sua obra e garantissem seu futuro. Ele foi muito claro: “Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em Mim para que todos sejam um como Tu estás em mim e eu em Ti. Que eles também estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste” (Jo 17,20-21). O maior testemunho e a maior garantia da Igreja é a unidade. Pela unidade podemos realizar o mandamento de Jesus, o amor. Não que estejamos repetindo essa frase porque é bonito. Mas é a única razão de estarmos juntos. A finalidade da unidade não segue o modelo de empresa. É a constituição original de toda fé cristã. Ela não é individual, mas nos põe em comunhão com todos do Corpo Místico de Cristo. A fé nos põe em comunhão com todos. Esta comunhão é o amor que se difunde. Não há minha fé e minha religião. Somos todos co-responsáveis uns pelos outros. E responsáveis em anunciar.

  1. Criatividade

            No correr da história do cristianismo vemos uma quantidade imensa de modalidades de levar adiante o Evangelho de Jesus. Há um exemplo muito bonito realizado por dois irmãos: Cirilo e Metódio, nascidos na metade do século IX, evangelizaram os eslavos (russos e outros povos). Chegaram a criar um alfabeto próprio que se usa na Rússia e outros povos eslavos. Adaptaram a liturgia à cultura desses povos. Santo Anchieta usou o teatro para evangelizar os índios. Infelizmente a inculturação não agrada muitos setores da Igreja. Não podemos pensar só na palavra. Há outros meios, como temos agora nos muitos novos modos de comunicação. Temos que entrar por aí para poder corresponder ao mandamento de evangelizar. Como seria Jesus no tempo atual? Certo é que privilegiava mais o contato pessoal. É o mais importante. Falar com um só não é perder tempo.

nº 1700 – Homilia do 32º Domingo Comum (12.11.17)

Tempo de vigilância 

Ficai vigiando

            Entramos num tempo litúrgico em que refletimos sobre a vigilância.  É uma questão importante que tem ficado fora de nossa reflexão e vivência cristã. Era um assunto vital para o começo da Igreja. Como o Senhor começou a demorar, foi–se descuidando de sua vinda. Há falsos profetas que andam profetizando sobre datas para o fim do mundo. Não tem dado certo. Jesus continua a insistir: “Ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia nem a hora” (Mt 25,13). Mateus apresenta três parábolas que aludem ao fim: as parábolas das dez virgens, dos talentos e o juízo final. O sentido da vigilância não é só o medo de ser pego de surpresa, mas a consciência de estar pronto porque vive no Senhor. A idéia que fundamenta vigilância é a certeza: “O Esposo vem!”, isto é, o Senhor. O Reino vem de improviso. Vejamos os símbolos: O número 10 (eram 10 virgens) indica totalidade. Todos são chamados. Sair ao encontro do esposo é ir ao encontro de Cristo. O noivo retarda e as virgens cochilam e dormem: Simboliza o estado de sonolência que tem quem espera sem se “ocupar com o Reino de Deus. Quando se ouve o grito: “Eis que chega o esposo”! A espera demorada se torna espera imediata. É o momento de preparar as lâmpadas. Entra a questão das que não têm óleo suficiente. A espera imediata sempre supõe uma longa preparação. É preciso, quando se vai viajar, averiguar se está em dia. Elas foram despertadas: É preciso viver um clima de ressurreição. As que têm óleo para a lâmpada não socorrem as outras colegas. Cada um tem que assumir sua parte.

Sede de Deus

             A vigilância não é somente um problema de espera. Os cristãos se cansaram de esperar o Senhor que viria logo. É uma questão de sabedoria. Sabedoria é um dom. É o próprio amor Divino. Para nós é o Espírito Santo. Ele nos move continuamente a buscar, como rezamos no salmo: “Minha alma tem sede de Vós e Vos deseja como terra sedenta e sem água” (Sl 62). É a loucura da vida provocada pelo profundo desejo do encontro com Deus. Até se diz que de louco e de santo, todo mundo tem um pouco. A loucura por encontrar Deus não é um desatino, mas um empenho que envolve toda a vida e a pessoa toda. O desejo do encontro com Deus não é diminuído pela incerteza do dia. O óleo que está sempre à disposição para acender nossa lâmpada é símbolo da busca permanente de ir ao encontro do Senhor para participar da festa do Reino. Essa abertura ao Reino jamais é saciada. Sempre se quer mais. Não são momentos impossíveis aos simples e pecadores. Quanto mais nos aprofundamos na busca do Senhor, mais temos que buscar. A porta se fecha somente quando não queremos. O crescimento espiritual não é acumular bens espirituais e atividades, mas aprofundar sempre mais a sede de Deus. Isso é sabedoria.

Certezas do futuro

            “Vigiai, pois não sabeis nem o dia e nem a hora” (Mt 25,13). A incerteza não prejudica a busca do futuro. O Senhor retarda para que possamos buscá-lo sempre mais. Nessa busca está a certeza de um dia, no dia do Senhor, nós nos encontraremos face a face. Por isso Paulo nos traz, na segunda leitura de Tessalonicenses (1Ts 4,13-18), a garantia da ressurreição, futuro de toda nossa esperança. Ela não é somente uma certeza que vamos viver para sempre e o futuro nos abre esse caminho, mas ensina que estamos em contínuo processo de conversão. Jesus vive dessa certeza. Por isso caminha sempre decidido para realizar o desígnio do Pai e cumprir sua vontade.

Leituras:Sabedoria 6,12-16; Salmo 62; 1Tessalonicenses 4,13-18; Mateus 25,1-13

Ficha nº 1700 –Homilia do 32º Domingo Comum (12.11.17)

  1. A parábola das 10 virgens ensina que, para ir ao encontro do Senhor, é preciso vigiar
  2. Vigilância é viver a sede de Deus.
  3. A ressurreição nos garante o futuro de nossa espera. 

            Diploma de sabedoria. 

            Começamos um tempo litúrgico no qual Jesus insiste sobre a vigilância. Não é neurose de preocupação com o momento, mas com nossa atitude de vida. Há os que pregam que Jesus voltará. Só o Pai sabe, quer dizer: A hora é Dele.

            A gente se angustia quando tem que esperar uma condução que vai nos pegar, mas não tem hora certa. Tem que estar pronto e se ocupar. Estar pronto é estar prevenido. Chegou… chegou! A sabedoria é exemplificada pelas moças previdentes que estavam prontas para o chamado para a festa.

            A sabedoria se adquire durante a vida. Ela se adianta a quem a procura. Ela é a uma busca constante, pois se concentra na busca de Deus. A sede de Deus dá a água da sabedoria.

            O fruto é a ressurreição, nosso momento máximo onde a vida continua em Deus

 

nº 1699 Artigo – “Como ser um santo”

  1. Santidade, coisa de gente

            Quando se fala em santo, já se tem a idéia fixa naqueles que conhecemos pelas igrejas, pela nossa devoção e pelas histórias que sabemos. Santos eram os antigos. Dizemos: “Quem pode ser chamado de santo nesse mundo atual, tão pervertido?” Cada época diz que vivemos tempos difíceis. Se todos são difíceis é porque são normais. Não quero falar dos santos de carteirinha, mas dos santos que se fazem no dia a dia, mesmo fora dos quadros de nossas “Igrejas”.  O santo do altar foi santo da rua, da família, do trabalho, da vida do povo. Depois é que viram que era. É certo que no fundo há uma opção que não dispensa nossos defeitos e pecados. Santo não é ser impecável. Defeitos não prejudicam. Deus não conta quantas batalhas ganhamos, mas quantas vezes levantamos depois das derrotas. Aceitar a própria realidade já é uma santidade. Então, o santo que buscamos está na rua. Papa Francisco diz sobre essa santidade que se constrói no cotidiano. Desses santos temos muitos. Quanto pai de família, mãe, operário, gente simples e até gente mais preparada que vive intensamente o amor pelos outros, metidos no trabalho sofrido para sustentar a família e ainda tem tempo de ser feliz, de participar e se doar. Não desprezamos os modelos antigos. Pelo contrário, veneramos. Eles eram gente do povo. Depois que morreram é que as pessoas os descobriram. Com o passar do tempo sua vida resplandeceu em Deus. Eles se consideravam frágeis e pecadores e eram. Por que? Porque estavam sempre perto de Deus. Perto da luz, vemos melhor nossa realidade.

1961.Fascínio que surpreende

            O que faz uma pessoa buscar esse modo de vida que a faz diferente, sendo semelhante a todos? Nem sempre sabem explicar, mas é o fascínio pelo bem, pelas coisas boas, pela vida, pelo bem dos outros, pela Palavra e no fundo, fascínio por Deus que os surpreende de modo silencioso. O que faz uma mãe se dedicar tanto aos filhos, o pai ao trabalho, o professor aos alunos, o povo em geral pela vida correta? Nada justifica fazer o bem sem ter essa base que é o Bem Superior, o que chamamos de Deus, de Jesus, de Pai. Mesmo que não tenham esses nomes. O que vale é o que está no coração. E Deus conhece os corações e não põe regras inúteis. Jesus mesmo não impôs nada. Basta seguir seu caminho. Mandamentos? Ensinou o seu: “Que vos ameis uns aos outros”. Nisso resume tudo. Nós é que fazemos tantas regras, coisas exteriores sem o interior do coração. Cuidado com o que se inventa. Há coisas que acabam ficando mais importantes que o Evangelho

  1. Vida que se reparte.

            A vida tão normal das pessoas tem algo de diferente que as marca no mundo: saem de si para viverem para os outros. O egoísmo é o maior ídolo que temos. E tem uma força muito grande de criar uma religião inútil e vazia. O fascínio por Deus está intimamente ligado ao fascínio pelo outro, que chamamos irmão. Quem descobre o Deus de Jesus, descobre o querido de Deus. Quem se dedica aos abandonados, está se dedicando a Deus, mesmo que nem fale seu nome. Aliás, o nome de Deus é impronunciável, pois só entende o amor. A religião que não se dedica ao próximo, como natureza pastoral direta e permanente, é obra do mal. Nega o Evangelho. Vemos o texto do juízo final no evangelho de Mateus (Mt 25,31-46). O inquérito vai ser feito sobre o que fizemos ao próximo. Essas questões se referem aos grandes problemas do mundo: fome, sede, doença, migração, prisão e vestimenta. Esse é o modo necessário para a santidade e salvação. Quanto mais santos formos, melhor será o mundo.

nº 1698 – Homilia da S. de Todos os Santos (05.11.17)

“Todos são santos” 

O direito de ser feliz

            A celebração da festa de Todos os Santos vem nos alertar para um sentido mais importante da vida cristã: a santidade. Deus é santo e sua santidade não tem limites. Mas quis que todos participassem de sua natureza. Por isso nos chama de filhos e nos coloca em comunhão com Ele. Estamos assim em caminhada constante para ir onde está nossa fonte e fim. A Ele nos dirigimos a saudação que fazemos em todas as missas: “Santo, Santo, Santo!”. Na Escritura aprendemos que Deus é inacessível, incompreensível e perfeitíssimo.  Justamente por ser o maior e ter em si todo o bem, quis dar-nos participação nessa vida de felicidade total. É o direito que nos dá de sermos felizes. É o que Jesus diz como inauguração de seu ministério e síntese de todo seu ensinamento. A felicidade que o Pai nos oferece gera em nossa vida aquilo que Jesus vivia: Era feliz porque aberto para Deus, isto é, pobre de espírito; Queria ser total para o Pai, preocupado como que é Dele, por isso chora de ver o mundo longe Dele. Mas é bondoso em toda circunstância. É pacífico como Jesus e disso faz sua pátria. Jesus era faminto e sedento da sabedoria que buscava no Pai. Justiça é a santidade do Pai. A misericórdia é o nome do Pai que se dá o nome de ternura e bondade, quando aparece a Moisés (Ex 34,6-7). Jesus é pureza de coração porque vê com os olhos do Pai. Pureza é amar. É com esses olhos que vemos a Deus e construímos a paz. Como vive como o Pai, com Jesus, vamos seguí-lo também na perseguição. Não servirei, disse Satanás a Deus. Jesus se põe a serviço. É o caminho.

Direito de filhos

             A felicidade do discípulo brota do conhecimento de sua condição de filho. Querendo chegar ao máximo de nossa entrega em Jesus, recebemos a condição de filhos. Não é só um título, mas uma verdade. Nós o somos de fato. Esse é o fundamento de toda a santidade. E continua são João dizendo que “nem sequer se manifestou o que seremos. Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é” (1Jo 3, 2). O direito de filhos é esta semelhança vai muito além de simples traços de família. É uma participação a partir da comunhão que se estabeleceu entre nós e Jesus que nos associou a si. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus no sentido “do mesmo sangue e da mesma vida”, como de uma família. Na criação nova, que é a redenção, participamos também da vida do Filho que nos uniu a si, como participantes de sua natureza divina. Assim nos ensina Pedro em sua carta (2Pd 1,4). Por isso o veremos tal como Ele é (1Jo 1,2). Crer em Jesus gera em nós um processo de purificação. Ele é nosso eterno Redentor sempre a nos purificar.

Pastoral da santidade

                Temos muitas pastorais que sempre são bem assumidas e dão bons frutos. Temos movimentos e irmandades. O que se sente é que a espiritualidade, a vida em Cristo sob a ação do Espírito Santo, acaba por não penetrar a vida e as atividades da comunidade. Desse modo essas atividades acabam por não ter um ponto de apoio e consistência. Não são feitos no Senhor. Não são ruins nem ineficientes. Poderiam ser santificadores também. A santidade é ponto de partida e não de chegada. A divinização que nos é dada a participar deverá penetrar as atividades de modo que façam crescer em nós e entre nós a comunhão do Corpo de Cristo. Digamos que é o batismo em ação, sustentado pelos outros sacramentos e pela unção permanente do Espírito. Sem isso a pastoral não resulta bem.

Leituras: Apocalipse, 7,2-4.9-14; Salmo 23; 1 João 3,1-3;Mateus 5,1-12a

Ficha nº 1698 – Homilia da Solenidade de Todos os Santos (05.11.17)

  1. Santidade é participar da natureza de Deus.
  2. A felicidade do discípulo brota do conhecimento de sua condição de filho
  3. A pastoral necessita da espiritualidade para chegar a maior ação. 

            Santo de carteirinha 

            Maravilha ver a família de Deus reunida em volta de sua mesa de Pai. Sentar-se à sua mesa é um direito de filho. Gente de todo canto e de todo tipo. O semblante de todos tem os mesmos traços do rosto do Pai. Lavaram-se no sangue do Cordeiro que é Jesus. Salvos por Ele. São todos santos.

            Santidade se constrói durante a vida. São poucas as exigências para adquirir essa santidade: basta ser feliz. Essa felicidade se constrói na simplicidade, na paz, na humildade, na ternura, na preocupação para com os outros, na misericórdia e na constância quando encontrar gente que pensa diferente.

            Quando dizemos que todos são chamados à santidade, dizemos que somos chamados primeiro a viver bem com os outros. Isso é santidade. Tão fácil.

 

 

nº 1697 Artigo – “Eles partiram, mas estão conosco”

  1. Onde estás, ó morte?

            Celebramos todos os anos o dia de Finados. Lembramos os que fizeram parte de nossa vida. É um momento de pensar na realidade da qual não escapamos. As Sagradas Escrituras colocam a morte como fruto do pecado. Vencendo o pecado, a morte está vencida por Jesus Cristo, como nos ensina S. Paulo: “Se, com efeito, pelo pecado de um só a morte imperou através deste único homem (Adão), muito mais os que recebem abundância da graça e do dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo” (Rm 5,17). Cremos que somos corpo e alma. No ato de nossa criação é criada por Deus, para cada um, uma alma imortal… Com a morte há a separação e, com a ressurreição, a união. Falamos em linguagem humana. Não haverá uma viagem da alma para outros corpos. Cada corpo pertence a essa alma. Seremos eternamente os mesmos, e nenhuma alma fica em um depósito esperando o dia final quando a matéria será glorificada. Como Jesus falou ao ladrão: “Hoje estarás comigo no paraíso”. O dia final não faz parte de nosso calendário. Como Deus o faz ou fará não é de nosso conhecimento. A morte não é o fim. A morte é o termino da vida terrestre. Nossas vidas são medidas pelo tempo… a morte aparece como o fim normal da vida (CIC 107). Visitamos os cemitérios, fazemos monumentos. É sinal de que a pessoa existe. Não dizemos o pai que tive, mas meu pai, minha mãe que já estão mortos continuam na condição de vivos. Em outra dimensão. O túmulo é um memorial do que foi vivo. Mas sabemos que a condição humana se modificou. Cremos na vida eterna. O túmulo pode estar vazio de matéria, mas não se aniquilou.

  1. Nossos mortos estão vivos

            A celebração de Finados, por mais que possa nos doer a saudade, é um dia de vida manifestada nos símbolos da luz através das velas e da alegria, através das flores. Elas nos trazem sempre a certeza da beleza que nos espera. Não é bom ter somente um dia para recordar nossos queridos. É bom sempre estar recordando suas palavras. Há tanta confusão por causa das heranças. Quem fez, fez para si, quem recebe pensa só no direito de receber o que não fez. Por que não batalhamos para conservar as heranças que não acabam? Guardar as palavras, as atitudes, a vida correta não faz parte das heranças. Por essas valeria a pena lutar. A sensação de que estão vivos e não desapareceram de nossas vidas é muito rica e nos ajuda a viver. Temos um elemento importante que mostra essa vida da qual participamos: A união com os falecidos. Temos a comunhão com os vivos, com os santos e com os falecidos. São as três Igrejas de nossa vida: da Terra, do Céu e do Purgatório.

  1. Oração pelos mortos

Diz o Catecismo: “Reconhecendo esta comunhão de todo o Corpo Místico de Jesus Cristo, a Igreja terrestre, desde os primeiros tempos da religião cristã, venerou com grande piedade a memória dos mortos” (CIC 985). Nós nos apoiamos na Bíblia: Judas Macabeu fez uma coleta para que se oferecessem sacrifícios pelos soldados mortos com amuletos dos ídolos: “Já que é um pensamento santo e salutar rezar pelos defuntos para que sejam perdoados de seus pecados” (2Mc 12,46). “Nossa oração por eles pode não somente ajudá-los, mas também tornar eficaz a sua intercessão por nós”. Como Corpo de Cristo estamos todos unidos Nele e unidos entre nós. A vida de Cristo está em nós e circula por todo o corpo dos fiéis, vivos na terra, vivos no Céu e os defuntos que estão na purificação. Por isso rezamos por eles. Eles rezam por nós. Essa é a doutrina católica.

nº 1696 – Homilia do 30º Domingo Comum (29.10.17)

“Amar a Deus e o próximo”

Um só mandamento

            Continuamos as provocações dos chefes para pegarem Jesus numa declaração comprometedora. O tema agora é a santidade do povo de Deus. Qual é o núcleo da fé? O que sustenta a Lei de Deus? Havia nos líderes do povo tendências diferentes sobre a fé. A pergunta em questão, qual é o maior mandamento, significa na linguagem dos rabinos, qual é o maior do qual todos os mandamentos dependem e tomam seu significado. Jesus responde citando o texto de Deuteronômio 6,4-9: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, como toda a tua mente”. Grande mandamento no seu conteúdo, o primeiro entre todos os mandamentos, o primeiro para ser observado, sem o qual os outros não teriam nem sentido nem significado. E Jesus ensina que o segundo é igual ao primeiro mandamento do amor a Deus: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). A palavra igual não se refere só a uma semelhança, mas é o termo que indica a mesma substância. Somente poderemos ter certeza que amamos a Deus quando amamos o próximo. S. João é claro em seu ensinamento: “Quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus que não vê, não poderá amar” (1Jo 4,20). Para chegar a cumprir os três mandamentos que se referem a Deus, é necessário cumprir os sete mandamentos referentes ao amor ao próximo. A comunhão com Deus se realiza na comunhão com o outro. “Amemo-nos uns aos outros, pois o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama, não conheceu a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,7-8).

Quem é o próximo?

            Com a resposta aos fariseus sobre o fundamento da Lei, Jesus dá sua lei fundamental. Sem o amor ao próximo não há amor a Deus. E lembramos que já respondeu a essa pergunta em outro texto com a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,29-37). A lei antigava que os mais deserdados são nossos próximos, pois são os mais próximos de Deus Pai misericordioso que assume para Si seu cuidado. O primeiro deles é o estrangeiro. O mundo vive uma crise muito grande de emigração por causa de guerras e de situações naturais de secas e outros. O povo de Deus deve lembrar que foi estrangeiro, escravo e segregado. Países que tiveram que emigrar agora são fechados à imigração. Ser estrangeiro é muito difícil, mesmo que tenha condições financeiras. O fechamento é diabólico. Temos a seguir velhos, crianças, jovens, viciados e tantos… Tantos tipos de exclusão. O mundo depois de tanto progresso regride no fundamental que é o cuidado com o ser humano. O Pai tem o cuidado de que seus filhos não passem frio, por isso não podem dormir descobertos.

A caridade evangeliza

            Paulo elogia os tessalonicenses por acolher a Palavra. Assim ficaram conhecidos por toda parte pela sua conversão e vida cristã assumida. Desde modo se fizeram evangelizadores. Essa atitude transformadora anima as demais comunidades. Em nossas comunidades estamos ainda muito bloqueados no processo de conversão. Levamos facilmente uma vida dupla crendo em Jesus e fazendo diferente ao que ensinou, sobretudo, no que se refere à caridade. Há muitas misérias nas comunidades que não são cuidadas. Por isso perdemos o sentido de evangelização que leve a buscar o mesmo caminho. Superando o egoísmo poderemos de um sentido melhor à vida da comunidade no caminho do amor.

Leituras: Êxodo 22,20-26; Salmo 17;1Tessalonicense; Mateus 22,20-26

Ficha nº 1696 – Homilia do 30º Domingo Comum (29.10.17)

  1. Jesus ensina com clareza que o fundamento de tudo é o amor a Deus e ao próximo.
  2. O amor a Deus só existe se há amor ao próximo.
  3. A vida cristã bem assumida em sua processo de conversão já é uma evangelização. 

            Dois em um 

            Depois de diversas tentativas de pegar Jesus numa armadilha muito bem feita, chegam a um ponto fundamental: Qual é o ponto central da religião de onde derivam todos os demais? Uns poderiam dizer que era a Lei, ou o templo, ou as oferendas…

            Jesus cita dois pontos da Escritura: Deuteronômio 6,5, rezado todos os dias três vezes, ensina o amor a Deus com tudo o que somos e temos; E o livro do Levítico 19,18 que chama para o amor ao próximo, como extensão do amor a Deus. Podemos ver esse amor realizado no amor ao próximo nas mais diversas situações de miséria. Esse amor retrata o amor de Deus aos pobres. Ele se preocupa até que seu “filhinho” para que não passe frio de noite. Por isso o manto tomado como penhor, deve ser devolvido no mesmo dia para que ele não sofra. A caridade está acima do econômico.

            Sem o amor a Deus jamais amaremos o próximo. Sem o amor ao próximo, o amor a Deus torna-se irreal e vazio.

 

nº 1695 Artigo – “Uma missão de todos”

 

  1. Continuando a missão de Jesus

             A catequese da Igreja usa muitos métodos. Um deles são os tempos temáticos. Sejam semanas, sejam dias ou meses. Estamos no mês das missões. É um tema importante, pois é o último mandamento de Jesus: “Toda autoridade sobre o céu e sobre a terra me foi entregue. Ide, portanto, fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que estou convocado todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28,18-20). Não só manda evangelizar mas afirma que continuam sua missão. João diz: “Como o Pai me enviou também Eu vos envio”… Para isso dá o Espírito Santo para o perdão dos pecados (Jo 20,20-22). A missão é continuação da missão de Jesus, na força do Espírito, como nos diz Luca: “Jesus voltou para a Galiléia, impulsionado pelo Espírito” (Lc 4,14). O mesmo Espírito que sustentou Jesus sustenta o anunciador do Evangelho. Os destinatários são todos os habitantes da terra – todo mundo. O Batismo é a conclusão da evangelização. É a união de vida com Cristo. A evangelização é também ensinamento para viver a definição de vida por Cristo. Jesus está com todo aquele que evangeliza. Cada um tem a missão e a presença de Cristo que é a finalidade da missão. Anunciar o Evangelho é o maior benefício que podemos fazer para a humanidade. É dada a vida e o modo de viver. É um bem para todos. O mundo seria muito melhor se acreditasse nas palavras de Jesus.

  1. Uma missão pessoal

            Quando dizemos missão e evangelização temos a ideia de uma estrutura na qual estão os entendidos, os capacitados e os preparados. Com isso temos a sensação que ela é para poucos. É o que o católico pensa. Mas cada um é evangelizador a seu modo. Viver a fé já é evangelização: “Pelos frutos conhecereis a árvore” (Mt 12,33). A vida de fé, por menor que seja, já é um anúncio. Deus dá a cada um dons especiais. Ninguém é deixado de lado nas riquezas de Deus. O dom pessoal é um modo de evangelizar. Vivendo o próprio dom na fé transmitimos a vida de Deus a nosso modo. Tantas vezes a Igreja oficial não pode chegar a tantos ambientes. Pelos seus fiéis ela chegou e evangelizou. Sabemos que, em muitos países, a fé entrou através dos leigos que creram. Depois veio a estrutura eclesial com sacerdotes e bispos. Em alguns países, a primeira evangelização foi reprimida. Os missionários foram expulsos. Os fiéis, por longuíssimos anos permaneceram fiéis e mantiveram a vida da Igreja. Muita gente só será atingida pelo evangelho se for levado pessoalmente por fiéis. Essa é a vocação fundamental do leigo: ser fermento na massa, ser luz na escuridão, ser calor no frio gélido de mundo sem Deus. Jesus convida cada cristão a ser luz do mundo, sal da terra e palavra viva de Deus.

  1. Juntos é o melhor

            Quando dizemos que a evangelização é obra de cada um, Jesus acrescenta que juntos dá mais resultado, pois se somam os dons e a disposição. Jesus ensina que, se nada funcionasse, que estejam unidos: Rogo também “por aqueles que, por meio de sua palavra, crerão em Mim: a fim de que todos sejam um, como tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti;que eles estejam em Nós para que o mundo creia que Tu Me enviaste” (Jo 17,20-21). A união de vida se faz também união de ação. A força da evangelização será maior quanto maior for a união de todos em vista do mesmo fim: Jesus conhecido e amado. Mesmo os grupos diferentes são chamados à união de todos. No dia em que a Igreja for um corpo coeso no amor, o mundo será melhor. Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, estarei no meio deles.

nº 1694 – Homilia do 29º Domingo Comum (22.10.17)

08“Restituí a Deus o que é de Deus” 

Eu sou o Senhor

            O texto do evangelho de Mateus (22,15-21) faz conjunto com outros dois momentos em que Jesus é tentado por seus inimigos. Tocam pontos centrais da vida do povo: primeiro o tributo a Cesar, isto é, o imposto pago ao dominador romano. O segundo é a vida futura, com a ressurreição dos mortos. O terceiro é o núcleo da fé. “Querem apanhar Jesus em alguma palavra” (Mt 22,15). Qualquer resposta de Jesus daria errado e seria um motivo de acusação. Era um dilema. Como conclusão, Jesus faz uma pergunta, como fizeram e eles não puderam responder porque era um dilema. O povo, que tinha Deus como seu Rei, estava dominado pelos romanos. Se negasse o imposto seria rebelião. Os herodianos representavam essa situação de cooperação. Se dissesse que devia pagar, ofendia o sentimento do povo. Falsamente fazem elogios a Jesus reconhecendo como mestre que ensina o caminho de Deus. O diálogo é bem claro. Ele pede uma moeda e pergunta de quem é a imagem. De Cesar, respondem. Os judeus que não podiam com imagens, carregam a imagem de Cesar na moeda. Que restituam a Cesar o que é dele. Mas que se dê a Deus o que é Dele.  Tudo é Dele, pois criou tudo. Criou também Cesar e seu dinheiro, sua imagem, sua inscrição e seu tributo. Sobre a fronte do homem escreveu com o Dedo, o Espírito Santo, seu nome Divino e o assinalou. Tudo converge para Cristo (Ef 1,10). Deus é grande e muito digno de louvor; é mais terrível e maior que os outros deuses… (Sl 95).

Deus se serve dos homens

Deus dirige a história. Acolher o Reinado de Deus é sabedoria. Não podemos interpretar o texto do evangelho sobre o imposto no jogo nos fariseus e herodianos: ou um ou outro… Não se deve separar Divino e humano. Paulo ensina que “tudo se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus… aquele que se revolta contra a autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus” (Rm 13,1-2). “A autoridade, contudo, não é autônoma nem autocrata, não dá as leis por si, nem se dá o poder por si. Deve levar em conta Deus e os homens” (T.Frederici 1047). A interpretação do texto deve ser dada pela primeira leitura que usa um movimento político histórico de Ciro que invadira a Babilônia e dera a liberdade aos exilados judeus no ano 538 AC. Ele o fez para ter a benevolência dos povos, mas é usado como um instrumento nas mãos de Deus. É escolhido por Deus e unge como enviado seu. Se lermos os caminhos de Deus, podemos saber que os acontecimentos são um dom de sua graça. Uma autoridade que se preze vai se colocar diante de Deus e procurar qual a missão que Deus me deu nesse cargo que ocupo.

Força do Evangelho

            A força do Evangelho no mundo das pessoas não é só uma “política divina”. Paulo ensina que “O evangelho não chegou a vós somente por meio de palavras, mas também mediante a força que é o Espírito Santo; e isso, com toda a abundancia” (1Tess 1,5b).                                       A força de Deus é transformadora. Jesus clama para que saibamos ler os sinais dos tempos. Esses realmente são válidos para nós. Deus não está cuidando do mundo como um mestre de obras que segue toda a construção. Para isso, colocou nas pessoas condições de poderem fazer os caminhos de Deus e sua vontade a partir da opção fundamental que é “Eu sou o Senhor e não existe outro” (Is 45,6). Rezamos: “Dai-nos servir-vos de todo o coração”. O que se espera é que Cesar também reconheça Deus e a imagem de Deus em cada pessoa. Vemos que os males do mundo aumentam porque não se tem uma direção: seu Criador.

Leituras:Isaias 45,1.4-6;Salmo 95; 1Terssalonissences ,11-5; Mateus 22,15- 21

Ficha nº1694 – Homilia do  29º Domingo Comum (22.10.17)

  1. Os fariseus querem pegar Jesus numa palavra. Questão tributo a Roma. Jesus responde: restituam a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus.
  2. Deus dirige o mundo através das pessoas.
  3. A força do Evangelho acontece pelo Espírito Santo através das pessoas. 

            Cara ou coroa?        

            Esse texto do evangelho de Mateus sobre o imposto a Cesar tem sido difícil de interpretação. Os fariseus e os herodianos queriam pegar Jesus em uma opinião que lhe causasse problema. É um dilema. Qualquer resposta que desse, lhe causaria muito problema. Ou seria contra o dominador romano ou seria contra o povo. Jesus pede uma moeda e pergunta: “De quem é a figura e a inscrição”? (Mt 22,20). “Então dai a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus” (21). Que podemos entender? Podemos pensar que há dois poderes diferentes aos quais devemos nos sujeitar: o Divino e o humano. Por outro lado, a leitura do profeta Isaias nos lembra que Deus usou Ciro, rei pagão, para salvar o povo. Leva-nos a compreender que “Cesar”, o poder civil, deve estar a serviço de Deus de onde vem todo poder. É o que rezamos no salmo 95: “Ó família das ações, dai ao Senhor, ó nações, daí ao Senhor poder e glória. Dai-lhe a glória devida a seu nome… Publicai entre as nações: “Reina o Senhor!”

            Paulo pede que se reze pelas autoridades: “Recomendo que se façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças, por todos os homens, pelos reis, e todos os que detêm a autoridade”(1Tm 2,1-2).

 

nº 1693 Artigo – “Lucros de um comércio”

  1. Não perder o que é bom

     Quando contemplamos uma comunidade onde há um santuário, como no caso Aparecida, vemos que não somos diferentes de tantos outros santuários do mundo, mesmo da antiguidade. Em Delfos, por exemplo, santuário dedicado a Apolo. Encontramos em Atos dos Apóstolos a revolta dos ourives contra Paulo, em Êfeso, devido à pregação contra os ídolos. Ali era cultuada a deusa Diana. Havia um rendoso comércio de estátuas de ouro da deusa (At 19,23-40). Não vamos entrar na questão de imagens, que não vem ao caso. Mas da participação na venda de objetos “sagrados”, inclusive livros de piedade, formação ou Bíblias. Não ignoramos que o comércio traz seus grandes problemas da corrupção, tapeação e exploração, sobretudo dos humildes. Não é isso também que nos interessa. É uma questão negativa da qual se espera a conversão. Existe, contudo, ao lado do negativo algo muito positivo. O comércio em volta dos santuários é um serviço prestado que tem que ter sua remuneração. Dá serviço e emprego para grande parte da população. Há muitos pobres que sobrevivem com ele. O comércio religioso faz parte da pastoral do conjunto de um movimento religioso ou de um centro de piedade como o santuário. É natural que o peregrino tenha um suporte em sua viagem religiosa. Vamos procurar o sentido positivo e tirar dele o “lucro espiritual”. Com esse podemos restaurar.

  1. Buscando sentido

     Temos que compreender e buscar o sentido mais profundo. Podemos perguntar: o trabalho do comerciante fica somente no lucro que recebe? E os comerciantes ficam somente ao sabor do movimento? Um aspecto positivo é o bem que o vendedor realiza, dando ao fiel a possibilidade de ter acesso a uma imagem ou outros símbolos religiosos. É uma caridade. Entra aqui toda a corrente de produção, desde o mais humilde operário, até os artistas renomados. Caridade não é só esmola, mas fazer o bem onde for preciso, adiantando-se à vezes. Assim ajuda o irmão a ter acesso a seu objeto religioso e contribuir com a sua oração. Mas também, o comerciante e todos os outros que colaboram com a devoção, participam do bem que esse objeto vai fazer à pessoa. Por exemplo: esse terço, imagem ou Bíblia que você “vendeu” (antigamente se dizia trocou, pois religião não se compra) vão ser úteis para muita oração. A imagem vai ser um ponto que levará a pessoa ao encontro com Deus. O vendedor não estará ausente. Essa oração ela retorna a você também. Alguém pode dizer: eu não acredito em nada. Mas Deus acredita em você, no bem que você fez e faz. Certamente que, quanto mais consciência tenho, maior pode ser a participação. Um dia você verá.

  1. Fazendo crescer o bem

Isso acontece pela a união de todos no Corpo de Cristo. Somos muitos membros. O que um faz serve para todos. Em Cristo não há transmissão de nossos males. O Espírito que dá união e coalizão chega a todos. O bem que é feito se multiplica. Do bem só sai o bem. Desse modo podemos agradecer e estimular que todos os comerciantes façam sua parte tomando consciência do bem que fazem e do bem que usufruem. Quanto mais eu santifico essas ações tão materiais, através de boas palavras e bom acolhimento, tanto maior será o bem que fará. Por exemplo: ao vender uma imagem pode-se dizer que o santo escute sua oração ou abençoe. Que a Palavra penetre a vida. Esse intercâmbio espiritual torna-se sempre mais uma evangelização e um louvor a Deus. Por que deixar de lado nossa parte? Deus não deixa a Dele de lado dando os frutos de nosso trabalho.

nº 1692 – Homilia do 28º Domingo Comum (15.10.17)

A festa do Reino 

Um banquete para todos

Mateus continua apresentando o Reino através diversas parábolas. A narrativa sempre remete a um ensinamento e não retrata um fato. No texto corrente temos a parábola da festa do casamento do filho do rei. O banquete é um símbolo muito rico nas Escrituras. O rei mandou os empregados chamarem todos. Manda dizer: “As comidas preciosas já estão prontas, os animais preparados, tudo pronto”. Os convidados não quiseram ir. Insiste: Vinde à festa. Além de recusarem, ainda maltratam os empregados e até matam. Continua sendo a história do povo de Deus que não acolhe seus constantes chamados a participar da vida plena do Reino. O rei é o Pai e o filho é Jesus que se une à humanidade. O Pai chama para participar da festa do casamento de seu Filho que se encarnou e se uniu a sua esposa, a humanidade. As comidas preciosas significam as riquezas do Reino. O Reino não é uma expectativa do futuro, mas presente. Os bens do Reino são oferecidos ao povo escolhido. Mas houve a recusa. Então do rei diz que os convidados não foram dignos e manda que chamem todos que encontrarem pelas ruas, os sem nome, sem títulos e sem bens. Estes acolheram. Deus abre as riquezas do reino a todos. Deus não seleciona ao convidar. Participar de um banquete é unir-se a quem convidou, o anfitrião, vestindo a roupa própria, isto é, vivendo a mesma vida. Era costume, nas festas grandes, os convidados receberem presentes, inclusive roupas preciosas. A veste nupcial significa a participação da vida divina. Sem ela nos perdemos e somos lançados fora.

Não posso ir

            Cada um arranjou desculpas para não ir ao banquete. Rejeitar uma festa boa significa recusar a pessoa que convidou. Qualquer desculpa serve. Certos convites implicam obrigação. É a festa do Reino. O rei convida os especiais, como dizemos: não podemos esquecer tais pessoas. E insiste diversas vezes. Mesmo assim não adiantou. O crime de recusar e matar os empregados enviados pelo rei é um crime contra o rei. Assim vem a vingança: morte e cidades incendiadas. A recusa que Jesus sofreu abriu para todos a possibilidade de participar do Reino, o que não era possível antes, por não serem do povo de Israel. As desculpas que deram, como também Lucas escreve (Lc 14,18-20), são de ordem econômica, afetiva e de  ganância etc… Para se justificar em não se comprometer com o Reino qualquer coisa serve. Pior de todas as razões é a displicência do egoísmo e falta de compromisso. Para nós, Deus serve enquanto nos serve. Por isso vemos que os pobres acolhem com generosidade. Na Igreja sempre contaremos com os desvalidos da vida, pois abrem o coração ao convite de Deus. Mesmo não tendo condições humanas, sabem dar a vida. Nada perturbe nosso encontro com Deus. Não vamos perder a festa do Reino.

Um mundo feito para todos

            No mundo atual vemos larguíssima faixa de população que não tem acesso aos bens necessários para a vida digna. E isso não é problema. Dormimos felizes. Isaias sonha com um banquete no monte Sião, centro da fé de Israel, aberto a todos os povos. Jesus realiza essa profecia. Vai eliminar todo o sofrimento e dor.  Isso vai acontecer se assumirmos Jesus como nosso pastor (Sl. 22). Chegaremos a essa segurança quando dissermos: “Tudo posso Naquele que me conforta”… “Deus proverá com sua riqueza a todas as vossas necessidades em Cristo Jesus” (Fl 4,13.19). Só teremos verdadeira participação nas riquezas do Reino, se soubermos convidar os outros partilhando a alegria do Reino. E vale a pena.

Leituras:Isaias 25,6-10ª;Salmo 22; Filipenses 4,12-14.119-20;Mateus 22,01-14

Ficha nº 1692 – Homilia do 28º Domingo Comum (15.10.17)

  1. Todos são convidados por Jesus ao grande banquete do Reino. Não podemos recusar.
  2. As justificativas para recusar nos excluem.
  3. Há muitos deixados de lado no banquete da vida. Compete a nós buscá-los 

             Essa festa eu não perco 

              Hoje choveu em nossa horta: Primeiro, um banquete da festa de casamento do filho do rei. Depois, o profeta fala de um banquete preparado para todos os povos. O salmo diz que Deus prepara uma mesa para nós. Paulo ensina que Deus supre todas as nossas necessidades. O que precisa mais?

            A abundância de banquetes significa o Reino de Deus que é oferecido a todos. Nele temos todas as belezas de coisas gostosas. Rezamos no salmo: “O Senhor é o pastor que me conduz nada me falta”. Para as ovelhas apresenta prados e água abundante.

            O profeta afirma ainda que além da abundância e das comidas chiques, Deus aliviará de todos os sofrimentos. “Enxugará as lágrimas de todas as faces”. Vai ser muito bom.

            Todos são chamados. Ninguém é obrigado. Mas… Não considerar o convite e quem convidou, não é um bom negócio. Relembra aí a história do povo que recusou os convites de Deus por motivos fúteis. E ainda maltratam os servos enviados para convidar.

            É preciso estar sempre com o uniforme na certeza que “tudo posso naquele que me conforta”.

 

nº 1691 Artigo – “Uma imagem que fala”

  1. Contemplando para amar

                        Há momentos em que o olhar substitui todas as palavras. Diante da imagenzinha de N.S.Aparecida sou convidado a contemplar. São poucos centímetros de altura. Vale a pena conhecer os detalhes de sua história. Ficamos contemplando. Ela é bonita e feita com muito sentimento que se expressa, à primeira vista, em seu discreto sorriso de mãe. É um primeiro passo para entrar nesse mistério da manifestação de Deus através de sua Mãe, Maria. A bondade de Deus se mostra como encanto por sua misericórdia para com todos. Deus não tem ódio do ser humano. Ela o ama, pois o fez assim. A firmeza do olhar recorda a certeza de um Deus que é próximo. Não usa Anjos ou seres assustadores, mas sua própria Mãe. Jesus dá o primeiro testemunho de sua obra de redenção como Filho amoroso. A serenidade do rosto de Maria é fruto de seu encontro por Deus que acontece no olhar permanente sobre seu Filho. Olhar que cuida, ama e protege. O porte bonito apresentado pela imagem mostra que a beleza de Deus é para nossa alegria e prazer. Ser de Deus é mais gostoso. As vestes belas, soltas e livres deixam ver que Deus em nós é prazer e alegria, leveza e candura. Desde o primeiro instante de seu encontro com os pescadores foi só alegria. Aqueles homens se alegraram com os peixes, mas muito mais pelo carinho de Deus para com eles. Conheceram Deus mais pelo amor que pelo milagre. Os milagres passam, o amor fica. As mãos postas em oração revelam a atitude permanente de Maria que reza por nós, mais ainda, que reza conosco: Vamos rezar, filhos!

  1. Aprendendo a lição

              A veneração dos santos não é adoração, mas o reconhecimento de Deus através de um sinal acessível a nossa compreensão. A fé não se faz somente em nossa mente ou em nossa fé intelectual. Como dizemos: vemos com as mãos e cremos com todo nosso corpo. Tirar os sinais sensíveis é negar a Encarnação de Jesus que se fez homem em nossa realidade. João diz: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos, e nossas mãos apalparam da Palavra da Vida…” (1Jo 1,1). João diz que creu com as mãos, com os olhos e ouvidos. Assim os símbolos religiosos se tornam um ensinamento. No encontro da imagem vemos muito de fraternidade. Ninguém a fez para si. Por isso ela se fez para todos. Como o Pai do Céu tem cuidado dos pequeninos, vemos no encontro da imagem e em toda a história dessa devoção, que são os pequenos e humildes que buscam. Assim era com Jesus: Tal Mãe, tal Filho. A fé que remove montanhas (Mt 17,20-21) é a força da fé humilde. Creram e continuam crendo com simplicidade. A humildade fez os pescadores se perguntarem: “Por que justamente a nós ela quis se mostrar dessa forma?”. São justamente esses os prediletos das ações de Deus. O orgulho assusta até Deus. Terão se alegrado grandemente no profundo de seus corações pelas predileções de Deus. Os milagres se repetem em abundância.

  1. A Mãe brasileira

            Os Papas, de modo particular Papa Francisco, demonstraram seu carinho e atenção para com Aparecida. Este foi de um carinho especial para com a querida imagem. O símbolo não diminui a fé, e abre espaço para um desenvolvimento integral da mesma fé. Por isso o povo brasileiro se identificou tanto com N.S.Aparecida. Ela é tipo branco, cor negra e cabelos de índio. Todos se identificam com ela. Somos parecidos com a Mãe. Vamos à casa da Mãe, dizem os romeiros. Aqui se sentem em casa. Testemunhamos esse sentimento quando transitam pelo santuário. É bonito ver as pessoas andando ajoelhadas. Vi uma senhora se arrastando deitada ao solo. Cada um se faz pequeno agradecendo o grande dom do milagre que recebeu.

nº 1690 – Homilia do 27º Domingo Comum (08.10.17)

“Não somos donos do Reino” 

A vinha do Senhor

            Lemos o evangelho de S. Mateus em continuação à parábola dos dois filhos. Quem responde ao chamado do Pai para trabalhar na vinha faz sua vontade, mesmo que tenha recusado o convite ao Reino por sua maneira de viver. O texto de hoje continua a temática da recusa até com atitudes violentas contra os que vieram buscar os direitos de Deus. A vinha era um dos nomes do povo de Deus: “A vinha do Senhor é a casa de Israel” (Is 5,7). Deus confiou sua vinha aos chefes do povo para que ela produzisse frutos para Deus. Era uma vinha preciosa. Isaias descreve que ela, tão bem preparada, só produziu uvas selvagens. O que acontecerá com a vinha que não correspondeu? Vai virar pasto. “Deus esperava do povo frutos de justiça – e eis a injustiça; esperava obras de bondade e eis a iniqüidade” (Is 5,7). Para Isaias é a vinha que não corresponde. Deus preparou muito esse povo com muito carinho e atenção. Mas, o fruto não veio. No texto de Mateus temos outro enfoque: a vinha é boa, os trabalhadores que foram maus. Em sua maldade se fizeram os donos da vinha. Jesus descreve a história do povo. Seus dirigentes não cumpriram sua missão e não deram a Deus os frutos. Deus cobrou frutos de justiça e bondade através dos profetas. Estes foram recusados, espancados e até mortos. Deus então tenta o estremo: Envia seu filho. Acontece o pior. Ao verem o filho, dizem: “Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da herança. Agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram” (Mt 21,37-38). Jesus é o Filho enviado pelo Pai.

O Reino vos será tirado

            Entra em julgamento a atitude dos malvados agricultores. Jesus pergunta aos seus interlocutores: “O que fará o dono da vinha com os vinhateiros”? Responderam: “Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros que lhe entregarão os frutos no tempo certo” (Mt 21,40-41). Eles mesmos respondem dizendo qual é sua missão como responsáveis pelo povo de Deus: “Entregar os frutos a seu tempo”. E dizem também qual será sua sorte: “destruídos”. Jesus se coloca como o Filho e eles sendo descartados da responsabilidade do Reino. Agora é Ele quem dá os frutos a Deus. Diz: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular” (Sl 117,22). Aqui entramos em uma aplicação prática para a Igreja e todos os que se dizem responsáveis, padres, bispos, pastores e outros, também leigos. Deus confiou seu povo a pessoas de sua confiança para levarem o povo a Deus. Acontece que, nem sempre, fazemos isso e queremos dizer que somos donos do rebanho, do povo de Deus. Estamos respeitando os direitos que Deus tem sobre seu povo? Não estamos destruindo esse povo a tal ponto que não dê frutos a Deus. Vivemos para o Senhor, ou para nós?

Cuidando da vinha

            O cuidado com a vinha, o povo de Deus, vai ser justamente levá-lo a ser fiel a Deus e dar frutos bons como diz Isaias. Quem sabe essa debandada do povo da fé, da vida com Deus não seja culpa nossa, dos responsáveis. Não será culpa da Igreja e das Igrejas? Ezequiel chama a atenção dos pastores que se aproveitam do rebanho, não cuidam dos doentes e exploram os sadios. É o momento de aprofundar nossa missão e levar o povo a produzir frutos a Deus. E frutos sadios, não vazios de vida. O que pregamos? Não estamos zelando da vinha para nós ou para Deus? Cristo só conduz a Deus.Paulo nos orienta: “Ocupai-vos com tudo que é verdadeiro… tudo que é virtude” (Fl,4,8).

Leituras: Isaías 5,1-7; Salmo 79; Filipenses 4,6-9;Mateus 21,33-43

Ficha nº 1690 – Homilia do 27º Domingo Comum (08.10.17)

  1. A vinha é o povo de Israel. Por culpa de seus chefes não dão a Deus seu fruto.
  2. Jesus que assume o povo de Deus e o salva, vai levá-lo a produzir frutos
  3. Se agora nós não ajudamos o povo a produzir frutos, o Reino nos ser tirado. 

            Perdendo o emprego 

            Continuando a contenda com os chefes e os sacerdotes do templo, Jesus faz uma síntese da história do povo e suas permanentes recusas aos enviados de Deus, o que culmina na rejeição de Jesus.  Qual é o resultado?

            Usa a comparação dos trabalhadores da vinha. A vinha é o povo. Os trabalhadores são os chefes e os sacerdotes. A eles foi dada a vinha para que ela desse fruto. O povo foi entregue a eles para que dessem frutos para Deus.

            Eles usaram o povo, pegaram seus frutos e não entregaram a Deus. Foram alertados pelos profetas e justos. Mas eles os mataram. Então Deus envia seu Filho. Eles fazem o mesmo e O matam.

            O resultado: os vinhateiros serão mortos e a vinha dada a outros que a façam produzir frutos e entregar o povo a Deus. Assim acontecerá.

            O Reino de Deus foi entregue a outros, isto é, os pagãos que acolheram o anúncio do Evangelho. Jesus que foi rejeitado é pedra de fundamento desse Reino.

            Não podemos olhar só o passado. Podemos perguntar se não fazemos o mesmo e o povo se afasta por falta de cuidado. Maus operários ficarão sem emprego. Que os responsáveis pela Igreja se examinem.

 

nº 1689 Artigo – “Nascida das águas”

  1. O silêncio que fala

             Celebramos 300 anos de uma devoção mariana. Aquela pequena imagem enegrecida, pescada nas águas do Rio Paraíba do Sul, tornou-se um símbolo da catolicidade brasileira. Desde sua descoberta o país está à sombra da cruz e do manto da Imaculada Conceição. A imagem de Nossa Senhora Aparecida é a Imaculada. Buscando ouvir o que fala de si mesma, temos a resposta em seu silêncio. As aparições sempre trazem consigo mensagens deixadas de Nossa Senhora. A pequena imagem é a Mãe do Silêncio, pois suas origens são pouco conhecidas; ficou no silêncio do fundo de um rio de águas barrentas e fortes; pescada por homens que ficaram no silêncio. Não entraram para a história como os demais videntes. Maria de Aparecida é o silêncio que fala. Que gostoso é ver seu sorriso feliz. É a mãe silenciosa que tudo prepara para os filhos que chegam alegres. Ela tem olhos grandes que vêem longe, como que já os seguem nos caminhos que os trazem como peregrinos e os levam de volta com o coração cheio de alegria. Contam as maravilhas da visita e da viagem, mas o que Deus faz em seu coração fica no silêncio. É a Mãe que continua falando ao coração. Por que tanto silêncio? Maria de Aparecida não deixou mensagens. Como está sempre presente, continua sendo mensagens de acolhimento, de ternura e de fraternidade. Aqui estão todos seus filhos, de norte a sul do país. É comum ver um do Norte e do Nordeste ao lado de um do Sul e outro do Oeste.

  1. Acompanhando no caminho

              Nossa Senhora Aparecida, não apareceu, foi encontrada. “Na curva de um rio brasileiro, Maria aparece à luz do cruzeiro” canta o povo. Nas curvas da vida ela está sempre presente. Essas curvas estão cheias de dor, de sofrimentos, de angústias. Mas também trazem a alegria da festa na casa da Mãe. A alegria do povo. Mesmo quando é multidão de centenas de milhares, gente de todo tipo está presente caminhando com a certeza de que está em casa. São adultos, idosos, cadeirantes, gente marcada pela vida dura. São criancinhas recém-nascidas, criançada que corre, jovens que se alegram. Como giram felizes na casa da Mãe, tem a certeza que a Mãe vai com eles em seus caminhos. Expressam levando uma lembrança, uma imagem, um objeto de devoção ou uma utilidade. Gente muito humilde, vinda de lugares distantes numa longa viagem. Vê-se pelo rosto a humildade. E na casa da Mãe são todos iguais. Aqui são recebidos na grande basílica, são recebidos nos hotéis e nas lojas. Sentem-se em casa. Aqui sustentam, com seus trocados, a vida de muita gente humilde que vive de suas pequenas bancas. É um comércio que alimenta vidas e alimenta devoção. Aquele que vende ajuda na devoção.

  1. Uma Mãe para sempre

            Nossa Senhora tem a riqueza de ser Mãe de todos esses filhos. Ela os recebe com as palavras de Jacó: “Esses são os filhos que Deus me deu” (Gn 33,5). Ao pé da Cruz, Jesus nos deu Maria por Mãe. Essa geração continua fazendo os filhos da Redenção. Aqui buscam a Deus, refazem-se de suas dores e limpam seu coração. Voltam para casa contentes e levam a boa notícia do amor de Deus manifestado em Maria. Ela os acompanha com os olhos cheios de amor, como vendo toda a estrada que devem percorrer. Está a dizer: “Ide filhos benditos, levai a todos o amor que aqui encontraram. Abençoai a cada um que encontrardes e dizei: a Mãe manda uma bênção um abraço e um carinho”. Ninguém passa por Nossa Senhora Aparecida sem levar uma lembrança do amor de Deus manifestado nela. Encontrada em um rio, ela é uma chuva de bênçãos para todos.

nº 1688 – Homilia do 26º Domingo Comum (01.10.17)

 “Fazer a vontade do Pai”

 “Acolher a Palavra”

            Diante do fechamento dos chefes do povo e dos sacerdotes do templo, Jesus propõe a parábola dos dois filhos que recebem uma ordem do pai para irem trabalharem na sua plantação. Um diz que não quer ir, mas depois vai. O outroiz que vai, mas não vai. Qual dos dois fez a vontade do Pai? Pergunta Jesus. – O que foi, repondem, mesmo tendo dito que não iria. Então aplica a eles a parábola, pois se acham os “bons” do povo de Deus. Mas não acolheram as palavras de João que chamava à conversão. Os pecadores e prostitutas acolheram. Mesmo tendo visto sua conversão, não se converteram. Jesus mostra, então, que estão recusando a Ele que é a Palavra do Pai. Assim não estão cumprindo a vontade do Pai. Os pagãos, que eram distantes de Deus, acolheram o anúncio e foram acolhidos por Deus. E eles não. O profeta exemplifica apresentando reclamação do povo que diz que Deus está errado em seus julgamentos não considerando o justo que se extravia. Deus é claro. Se for justo, mas pratica o mal, morre. Se o ímpio deixa o mal, ele vive. Vemos aí a comparação com o evangelho. De nós é cobrada a fidelidade à Palavra de Deus e a nossa fé em Jesus. Acreditar significa viver a fé. Dizer que crê, mas não viver de acordo com a Palavra, não está na verdade e vive longe de Deus. Por outro lado podemos encontrar pessoas que não fazem parte da comunidade Igreja, mas realizam a Palavra em suas vidas, mesmo sem saber ou conhecer a fé cristã. “Não basta dizer Senhor, Senhor, e ter uma prática que não corresponda à fé. Esse não está no caminho de Deus, não faz a sua vontade. Então não pode cobrar de Deus.

Tende os sentimentos de Cristo

            A generosidade de Deus para com todos supera os limites de nossa imaginação. Cristo, ao se entregar à morte, obedece ao Pai que quer a salvação de todos (1Tm 2,4). No evangelho deste domingo vimos que o filho que obedece é aquele que faz a vontade do Pai, mesmo que se tenha negado obedecer. A obediência supera o mal do pecado. Assim, como Paulo explica, Jesus é o Filho que assumiu a fragilidade humana, carregou os pecados dos que negam. É fiel e faz a vontade do Pai: “Pois Eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo, 3,38). Paulo, no hino da carta aos Filipenses, narra como Jesus obedeceu ao Pai: Encarnou-se, apesar de ser Deus, assumiu a condição de escravo até a morte e morte de cruz. Obedeceu ao extremo em sua entrega (l Fl,5-10). Por isso Deus O exaltou. Faz a vontade do Pai quem cumpre a Palavra. E tem como resposta a ressurreição. Ao sim do Filho há sempre o sim do Pai. Cristo expressa os sentimentos do Pai para com todos ao assumir a condição humana. De Deus nada mais precisamos esperar, pois, dando-nos Jesus nos deu todas as coisas (Rm 8,32). Se fizermos o caminho de Jesus temos a certeza de estar respondendo sim ao Pai.

Recordai vossa ternura

            Para responder corretamente ao Pai, somos instruídos pelo salmo 24 que nos põe em oração justamente para conhecer a vontade do Pai e realizá-la em nossa vida: “Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos, e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação”  (Sl 24,4-5). Na fragilidade humana pedimos que Deus não se esqueça de sua misericórdia. É curioso como nós fazemos memória das grandezas de Deus, mas pedimos que Deus faça memória também de suas misericórdias e bondade. Ele não é esquecido, mas nós temos a liberdade de tratá-lo com esse carinho até jocoso, mesmo sabendo que o Senhor é piedade e retidão…

Leituras: Ezequiel 18,25-28; Salmo 24;Filipenses 1,1-11;Mateus 21,28-32

Ficha nº 1688 – Homilia do 26º Domingo Comum (01.10.17)

  1. Para explicar que devemos responder positivamente à palavra de Deus, Jesus nos conta a parábola dos dois filhos. Assim mostra aos judeus que eles não acolheram a Palavra.
  2. A generosidade de Deus acontece em Jesus que obedece ao Pai.
  3. Para responder ao Pai, pedimos que nos mostre seus caminhos. 

            Certa a resposta 

            Em confronto com seus adversários, Jesus propõe a questão da resposta ao projeto de Deus. Conta uma parábola e pergunta: Qual dos dois fez a vontade do pai? Com a resposta à questão colocada, mostra que os chefes não obedecem a Deus que lhes confiou sua vinha, isto é, seu povo. De um lado estão os sacerdotes e chefes do povo e do outro os pecadores. São os dois filhos. Os que dizem sim, mas não vão trabalhar na vinha, desobedecem. Os que dizem não são os pecadores. Mas depois vão trabalhar na vinha. Esses são o filho que obedece.

            A parábola se aplica ao procedimento dos sacerdotes e chefes do povo que receberam uma missão de Deus e não cumpriram. Dá o exemplo dizendo que os pecadores e prostitutas acolheram a pregação de João e eles, não. Agora propõe um mundo novo a mandado do Pai, e eles recusam. Não obedecem.

            Ele próprio dá o exemplo de quem obedece ao Pai. Assumiu a condição humana e foi até ao extremo em sua entrega obediente. Por isso, Deus O ressuscitou. Obedecer só dá lucro. A resposta está certa.

 

nº 1687 Artigo – “Lendo a Bíblia com sabedoria”

  1. Ler a Palavra com os dois olhos

            A palavra bíblia significa livros. É uma biblioteca da sabedoria de Deus. Ele se serviu dos homens e, pela ação do Espírito Santo, colocou sua sabedoria a tal modo que as pessoas entendessem. Deus não iria fazer algo só para alguns, mas abriu seus tesouros também para os humildes. A Bíblia não é um privilégio só dos estudiosos. Primeiro é palavra de Deus. Mas escrita na linguagem dos homens. Temos que ter consciência que foi escrita na linguagem de um tempo. Há coisas que não são de nosso linguajar. Ela não foi escrita de uma vez. Foram quase mil anos para escrever, recolhendo tradições antiqüíssimas, como por exemplo, as narrativas do Genesis, Êxodo, Juízes etc… Cada texto tem que ser entendido como palavra de Deus, mas para ver o que diz é preciso também conhecer sua origem. Não podemos pegar frases soltas e dizer o que queremos. Cada palavra tem seu contexto. A Bíblia é o livro mais traduzido e podemos dizer, o mais estudado. É bom usar a sabedoria humana para acolher melhor a sabedoria de Deus. Temos que entender sempre melhor o que o escritor sagrado quis nos dizer. Do contrário, podemos anular o que nos é proposto pela Palavra. Esses estudos já são antigos e podem nos iluminar. É preciso estudar. É mais fácil jogar sobre a Palavra nossas palavras e assim seguir caminhos que não levam à sua compreensão. A primeira preocupação é saber que ela foi escrita por homens, inspirados por Deus.

  1. Como estudar?

            Um primeiro elemento a se ter em conta é o gênero literário. A Palavra de Deus é igual para todos os textos. Mas o sentido do texto tem que partir do gênero literário, isto é, ver como foi escrito. É diferente um livro profético de um histórico. Um apocalíptico é diferente de um livro de salmos. Há frases que não trazem uma revelação. São todos inspirados, mas não ensinam algo espiritual. Por exemplo: “O cachorro de Tobias foi correndo como mensageiro e mostrava seu contentamento fazendo festas abanando a cauda” (Tb 11,9). O texto tem que ser interpretado e usado conforme seu gênero literário. Houve no Antigo Testamento um longo caminho de composição da Palavra de Deus. Houve um crescimento do povo. Desde a saída de Abraão até a ressurreição de Jesus há uma diferença. Temos que entender os tempos históricos. Há uma ordem de matar todos as pessoas e animais. Em Jesus vamos ver outra linguagem. Temos que ver o Antigo Testamento a partir da revelação de Jesus. Não destruímos o Antigo Testamento, mas o entendemos num processo pedagógico que Deus usa para preparar seu povo para a vinda de seu Filho, Palavra viva.

  1. Jesus é o modelo de entender a Palavra

            Dizendo que não veio abolir a lei e os profetas, mas levar à perfeição, Jesus modifica textos do Antigo Testamento. Estava escrito: “Olho por olho, dente por dente” Jesus modifica e diz: “Aquele que te fere a face direita, oferece-lhe também a esquerda” (Mt 5,38). Essa frase é da lei do Talião de Hamurabi, da Mesopotâmia, do sec. XVIII AC. Com isso podemos ver que a leitura tem que ser criteriosa e não pode ser tomar um texto isolado dos outros nem fora de seu tempo. Aperfeiçoamento não significa negar, mas levar adiante. Quantas leis que há no Antigo Testamento que foram deixadas de lado. Para isso é preciso ver como as comunidades primitivas acolheram a Palavra de Deus do Antigo Testamento e foram capazes de discernir as do Novo Testamento. Por isso é preciso estudar. O Espírito Santo ilumina, mas não substitui. Temos que fazer também nossa parte.

nº 1686 – Homilia do 25º Domingo Comum (24.09.17)

“O Senhor é bom”

Acolhendo um chamado

            O evangelho desse domingo quer resolver uma questão que havia entre os primeiros cristãos vindos do judaísmo e os cristãos vindos do paganismo. Os judeus estavam com ciúmes e inveja dos cristãos que vinham dos muitos povos e se colocavam em igualdade com eles, assumindo a vida da comunidade. Os judeus, há séculos seguiam o Senhor e queriam uma proeminência na comunidade cristã sobre aqueles que somente agora acolhiam o Reino. A parábola mostra que o dono da plantação chama operários para a colheita. No sistema do tempo, os que queriam serviço, se reuniam no lugar costumeiro e o dono ia lá contratar os que ele escolhesse. Com a vinda de Jesus, outros povos começam a ser chamados e respondem. Estes são os operários da última hora. A reflexão toca num ponto importante: o conhecimento de Deus: Por isso diz o profeta Isaias: “Buscai o Senhor enquanto pode ser achado; Invocai-o enquanto Ele está perto” (Is 55,6). Jesus faz um chamado, mas quer a abertura para que O acolhamos. Mais dura é a síntese que Jesus faz desse texto: “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (Mt 2016ª). Vemos que os cristãos vindos do paganismo receberam o Evangelho com muita alegria e corresponderam com muita força. O cristianismo entre os judeus de Jerusalém e da Ásia Menor ficaram fechados. Lembramos outra parábola: “O Reino vos será tirado e dado a um povo que produza frutos” (Mt 21,43). Se não correspondermos, ficaremos de fora também. Essa parábola nos faz lembrar que essa situação é muito comum em nossas comunidades onde pessoas se sentem donas dos cargos e costumes da comunidade. Não aceitam mudanças.

Recompensas que Deus dá

            Ninguém trabalha para Deus por uma recompensa. A recompensa é poder atender seu chamado. Deus não nos paga segundo nossos méritos, mas segundo sua extremada bondade. O grande salário que Deus dá é Ele próprio. O salmo nos descreve quem é o Senhor: “Misericórdia piedade é o Senhor, Ele é amor, é paciência é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos. Sua ternura abraça todas as criaturas” (Sl 144). Nosso prêmio e reconhecimento é o Senhor: “Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17,10). Não somos inúteis por não prestarmos, mas por poder sempre fazer melhor. São Paulo sente vontade de ir para estar com Cristo. Esse é o grande prêmio que espera. Mas, se for ainda necessário, não sabe o que fazer, pois, tanto estar com Cristo no Céu, como trabalhar por Ele e pela comunidade na terra tem o mesmo valor (Fl 1,20ss). E diz com força: “Só uma coisa importa: viver à altura do evangelho de Cristo” (Fl 1,27ª). A força do Evangelho está acima de qualquer paga que tivermos. Temos o costume de ficar chateados quando não reconhecem nosso trabalho. Deus reconhecendo já basta.

Para mim, viver é Cristo

            Os que trabalham no Reino de Deus e acolhem o Evangelho como vida, entendem bem essa frase de Paulo: “Cristo vai ser glorificado no meu corpo, seja pelo minha vida, seja pela minha morte, Pois para mim, o vier é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,20c-21). Cristo é seu salário. Essa opção fundamental por Cristo é o mais importante de nossa vida. Sem ela não podemos entender a vivência do Evangelho. Jesus acaba sendo um anexo em nossa vida. Não a vida de nossa vida. Por isso nós temos um cristianismo frágil. Não somos capazes de modelar nossa vida por ele. Então podemos fazer o mal e não assumir a vida de comunidade. Viver Cristo é mais que viver.

Leituras: Isaias 55,6-9 ;Salmo 144;Filipenses 1,20c-24,27ª; Mateus 20,1-16.

Ficha nº 1686 – Homilia do 25º Domingo Comum (24.09.17) 

  1. Deus convida povos novos para o Evangelho e lhe dá a recompensa igual aos que vieram do judaísmo. Isso gerou ciúmes.
  2. O pagamento de Deu sempre corresponde a sua bondade.
  3. A opção por Cristo modela nossa vida de cristãos. Ele é nosso salário 

            Nivelando por cima 

            Temos uma parábola diferente de nosso modo de trabalhar. Não é o trabalhador que procura o patrão, mas é o patrão que vai ao lugar onde ficam os que querem trabalhar e ali faz o acordo. Isso ainda existe em algumas regiões.

Então, o homem que precisava, foi buscar trabalhadores nas diversas horas do dia até uma hora antes de acabar a jornada. E pagou todos com o mesmo salário. Os outros trabalhadores que “suportaram o cansaço e o calor o dia inteiro”, reclamaram dos que haviam trabalhado uma hora só e o mesmo.

Que significa? Tudo o que fizermos pelo Reino de Deus, não será medido por nosso esforço, mas pela bondade de Deus que dá tudo, a todos, mesmo que, em nossa visão, não fizeram nada. Fizeram tudo do que tinha sido pedido. Deus nivela por cima.

Entregar-se a Jesus no Reino é dar tudo. Não interessa o que vamos receber. Deus é tudo para todos. O salário é o mesmo para todos: O Reino de Deus com todos seus dons. Ninguém é maior que o outro. Deus é bom para com todos.

Quem acolhe integralmente a mensagem de Jesus, recebe todo o seu dom.

           

 

nº 1685 Artigo – “A Palavra de Deus”

 Deus sempre fala

            “Vamos ouvir o que o Senhor quer falar” (Sl 84,9). Esta é a atitude de quem se aproxima da Palavra de Deus e se põe à escuta onde Ele fala. Normalmente usamos a Palavra de Deus para falar aos outros o que queremos. Usamos a Palavra. O Pai quer entrar em contato conosco. Fala de infinitos modos e não está preso um único modo de comunicação. Podemos constatar, pela história da salvação que Deus Se comunica. Seu Filho, encarnado é chamado de VERBO – PALAVRA. No coração da SSma. Trindade, o Filho é o Diálogo, a contínua comunicação. Essa Palavra nos foi comunicada na pessoa do Filho encarnado. A carta aos Hebreus diz: “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho” (Hb 1,1-2). Jesus afirma: “Não falei por mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Me prescreveu o que dizer e o que falar” (Jo 13,49). Jesus é o comunicador do Pai. Os apóstolos foram os últimos a receberem a Palavra que foi guardada como Escritura. Não temos novas revelações. As aparições “modernas” não aumentam a verdade a ser acreditada. Deus fala em nosso coração. Não é bom, aliás um péssimo costume, abrir a bíblia, a esmo, para procurar uma Palavra de Deus para o momento. Aconteceu que um sujeito, estando com medo de viajar de avião, abriu a bíblia, por sugestão da mulher. Bateu o dedo e deu com as palavras: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 24,43), como disse Jesus ao ladrão. Aí que não foi mesmo. Não existe isso. Isso é tentar a Deus. Deus não é loteria.

Buscar na inteligência da Palavra

            São Pedro, que não era intelectual como Paulo, comenta a profundidade de suas cartas e acrescenta “É verdade que em suas cartas se encontram alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes torcem, como fazem com as demais Escrituras” (2Pd 3,15-16). A Palavra está aberta a todos. Mas há necessidade de conhecer melhor. Não basta só abrir e citar os textos e interpretá-los. Pedro diz ainda: “Sabei que nenhuma profecia da Escritura resulta de uma interpretação particular, pois que a profecia jamais veio por vontade humana, mas os homens impelidos pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus” (2Pd 1,20-21). A interpretação deve ser feita na Comunidade-Igreja, como a Palavra foi escrita na comunidade. Sem isso, corremos o risco de ensinar contra a verdade. A interpretação individual provocou o surgimento de tantas seitas. Depois do Vaticano II cresceu muito o apreço pela Palavra de Deus desde os estudos mais elevados até a catequese mais simples. Não deixa de ser necessária uma leitura permanente e também o estudo para uma boa interpretação. Ler Bíblia não é só abrir o livro. Temos as celebrações nas quais lemos também os textos bíblicos, com a riqueza de ser lido no meio do povo, onde ela foi escrita.

Palavra de carne

            Há muita gente que não pode ler ou não sabe ler ou não quer ler. Mas há uma bíblia muito fácil de ser lida. É a bíblia de carne e osso. Cada pessoa que vive o evangelho é uma proclamação da Palavra de Deus, escrita em nossos corações e em nossa maneira de viver. Jesus dizia: “Minhas palavras são Espírito e Vida” (Jo 6,63). Abertos ao Espírito, somos transformados pela Palavra que toma rosto em nós. Assim passamos a ser um evangelho vivo. Já se diz: “Quem sabe, sua vida seja o único evangelho que muita gente possa ler”. A palavra assumida como vida se encarna em nossa vida e se torna anúncio e evangelho vivo. Por isso não basta só a letra, é preciso a vida. Amemos a Palavra de Deus!

nº 1684 – Homilia do 24º Domingo Comum (17.09.17)

“Um mandamento novo”

Perdoar para ser perdoado

            O versículo de aclamação ao evangelho nos dá o sentido da celebração desse domingo: “Eu vos dou um novo mandamento que também vós ameis uns aos outros como Eu vos amei”. Uma vez que se reflete sobre a superioridade do perdão de Deus, aprendemos como viver o perdão. Esse tema toca no núcleo da revelação de Jesus que é a redenção misericordiosa do Pai. A parábola está colocada no discurso sobre a Igreja do evangelho de Mateus. A missão da Igreja é criar um mundo renovado que elimina o ódio, a começar da comunidade, como o Pai perdoa. Não participa da vida da Igreja quem não perdoa sempre. Pedro faz uma pergunta até quando temos que perdoar, até sete vezes? E achou que já era muito. Jesus faz um jogo de palavra de palavra de sete com setenta vezes sete (Mt 18,22), isto é, sempre. Sete é o número completo. Na leitura do livro do Eclesiástico encontramos o mal que faz o mal. Prejudica até o relacionamento com Deus.  Vemos uns textos: “O rancor e a raiva são coisas detestáveis”. “Quem se vingar se encontrará com a vingança do Senhor que pedirá severas contas de seus pecados”. Quem tem raiva e não tem compaixão, como poderá pedir perdão de seus pecados? Há grandes vantagens no perdão das injustiças: quando orar terá o perdão dos pecados.  O autor sagrado traz dois conselhos: “Lembra-te de teu fim e deixa de odiar… Pensa na destruição e na morte, e persevera nos mandamentos… Pensa na aliança do Altíssimo e não leves em conta a falta alheia” (Eclo 27,33-28,9). Evitar o ódio é questão de inteligência. O bem que faz é maior

Deus é o modelo

Essa reflexão tem como pano de fundo o mandamento do amor vivido na prática. Jesus fez pregações e milagres, mas o que nos salvou foi dar a vida para a remissão de nossos pecados e nossa comunhão com Deus. O perdão e a comunhão fraterna constituem a base da vida cristã. Aprendemos de Deus como devemos viver, pois vive assim como cantamos nos salmos: Ele perdoa toda nossa culpa… Não guarda seu rancor eternamente… Seu perdão é imenso. Na comparação do evangelho, dez mil denários eram 164 toneladas de ouro. Cem denários eram trinta gramas de ouro. Assim compara a diferença do perdão de Deus e do nosso. E continua o salmo: “Quanto os céus por sobre a terra se elevam, tanto é grande o seu amor aos que o temem. Quanto dista o nascente do poente, tanto afasta para longe nossos crimes”! (Sl 102). Deus coloca em nossas mãos o modo como vai nos perdoar. Por isso Jesus ensinou no Pai Nosso: “Perdoai nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu”. Nós não aceitamos uma chamada de atenção sobre nossos erros feita pelos que têm responsabilidade sobre a comunidade. Mas queremos que Deus nos perdoe.

Ninguém vive para si

Viver o amor é sair da prisão do ódio. O ódio corrói nosso coração. Paulo resume essa vida espiritual nas palavras “ninguém vive para si mesmo, ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos” (Rm 14,7-8).  Na vida e na morte estamos voltados para Cristo. Por aí se modela nossa vida na construção de uma fraternidade madura que dê frutos para o mundo e possa  conhecer Deus. Ele nos provoca sempre a uma vida mais cheia de tudo que nos dá. Ele é o Senhor, pois morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos (Rm 14,9). A vida cristã só será completa se nela houver essa disposição de perdão e acolhimento. O melhor de tudo é criar uma cultura onde não seja preciso estar se ofendendo.

Leituras: Eclesiástico 27,33-28-9; Salmo 102; Romanos 14,7-9; Mateus 18,21-35

Ficha nº 1684 – Homilia do 24º Domingo Comum (17.09.17)

  1. O perdão mútuo toca o núcleo da missão de Jesus que veio para o perdão.
  2. A medida do perdão de Deus é imensa. Nós pomos medidas aos outros.
  3. Na vida estamos voltados para Cristo. Por Ele se modela nossa vida. 

            Saindo da cadeia 

            São Pedro, querendo dar uma de bonito, acha que, perdoando sete vezes, estaria no direito de tomar uma atitude mais convincente. Jesus diz: não sete, mas setenta vezes sete. É um jogo de palavras para dizer sempre. É difícil.

            Então conta a parábola do homem que foi perdoado de muito, mas não quis perdoar outro por pouco. Isso é uma prisão.

            Jesus conta a parábola para explicar que nós recebemos tanto perdão de Deus e não sabemos perdoar nem um tiquinho dos outros. É uma prisão terrível.

Conselho da Palavra de Deus: “Pensa nos mandamentos, e não guardes rancor ao teu próximo. Pensa na aliança do Altíssimo e não leva em conta a falta alheia” (Eclo 28.8-9).

            Não saber perdoar acarreta um castigo que damos a nós mesmos. Não sairemos dele enquanto não chegamos ao fundo do perdão.

nº 1683 Artigo – “Apascenta minhas ovelhas”

  1. Continuação de Cristo

            Temos refletido sobre as regras da fé, isto é, os critérios para conhecer a Verdade e ter segurança no caminho da fé. A Bíblia não está sozinha no caminho do fiel cristão. Há os que enriquecem a compreensão e dão segurança na conservação da Verdade. Junto da Palavra temos a Tradição, o Magistério que examinamos hoje, os ensinamentos dos mestres e doutores, a santa Liturgia e a sagrada fé do povo de Deus. Nenhum está isolado. A base é a fé que Cristo nos deu. Essa fé é vivida nas condições humanas, mas é sempre dada por Deus. Lembramos a profissão de fé de Pedro: “Foi o Pai que te revelou isso” (Mt 16,17). Por que buscamos elementos humanos quando o assunto é Divino? A Igreja se entende na Encarnação do Filho de Deus. Como Jesus quis assumir a natureza humana para nos dar a redenção, assim também, para viver a redenção como povo – Igreja, temos que passar também pela condição humana que é continuação da presença e missão do Redentor. Refletindo sobre a missão do “Magistério” da Igreja. A Igreja é constituída de pessoas. Nela está a grande missão de continuar apoiada sobre o fundamento dos apóstolos. Jesus instituiu os doze “para estarem com Ele e para enviá-los a pregar” (Mc 3,13-14). O Papa e os bispos constituem o grupo apostólico, sucedem os apóstolos na missão de ensinar e santificar. Como Jesus foi enviado pelo Pai, envia seus apóstolos (Jo 20,21), dos quais são sucessores. Paulo evangelizava e designava anciãos em cada igreja (At 14,23):

  1. Poder que é serviço

            Jesus escolheu os doze e pôs Pedro à frente deles. Assim a Igreja continuou na mesma estrutura. O modo de ser Papa, bispo e padre teve muitas variações na história, sem perder o fundamental de sua missão do poder como serviço espiritual. Há uma doutrina muito ampla sobre a função de conduzir o povo de Deus. Como momento de reflexão sobre a fé, esse ministério tem um lado humano que é a organização da Igreja e a vida espiritual na continuação da missão de Jesus que é garantir a verdade. Constituiu Pedro como a pedra fundamental de sua Igreja e lhe entregou as chaves e instituiu-o pastor de todo o rebanho (Jo 21,15-17). O Papa é sucessor de Pedro e tem o poder que foi dado também aos outros apóstolos. O Papa, bispo de Roma e sucessor de Pedro “é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos bispos, quer da multidão dos fiéis” (LG 23). Ensinando participa da infalibilidade de Cristo que é a Verdade. Não erra quando garante as verdades da fé e da vida cristã. Vimos que esse dom supõe os demais critérios de fé.

  1. Regras da fé

É um campo de reflexão muito vasto. Basta lembrar que o Espírito Santo garante a vida desse Corpo de Cristo que é a Igreja. Garante sua verdade. E garante sua unidade. Por isso, é muito importante a unidade em torno do Sacerdote, do Bispo e do Papa. Eu posso não gostar do jeito desse Papa ou de outro. Mas, isso não impede de estar unido. O que aconteceu ao longo da história foi que muitos se separaram por causa de uma doutrina fundamental. Nem por isso o Corpo de Cristo ficou partido. Há os que não admitem a autoridade, mas têm a mesma fé, são os Orientais Ortodoxos. Há os que não assumem a vida do povo de Deus como sua vida. Ferem o corpo de Cristo. Por isso é importante o conhecimento da Palavra, o acolhimento da Tradição da Fé, ouvir os ensinamentos dos santos que se dedicaram ao estudo da fé, a participação da Liturgia como momento da celebração da Fé.  Nesse caminho somos guiados por nossos pastores. Que Cristo nos ajude com seu mistério de humildade a acolher, viver e promover a fé.

 

nº 1682 – Homilia do 23º Domingo Comum (10.09.17)

“Responsáveis uns pelos outros”

 Não fecheis o coração

            A Palavra de Deus oferecida na liturgia deste domingo nos leva a refletir sobre a necessidade de nos ajudarmos no caminho da salvação. Se um irmão está errando, é responsabilidade de cada um e da comunidade alertá-lo. Por isso o profeta Ezequiel lembra que, se não o corrijo, torno-me culpado com ele. Se o irmão não ouve, então a culpa é dele (Ez 33,7-9). Diante desse risco de não atender a um chamado à conversão, o salmo convida a sempre ouvir a Palavra de Deus pronunciada na comunidade: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: ‘Não fecheis os vossos corações – como fizeram os judeus no deserto – onde outrora vossos pais me provocaram, apesar de terem visto minhas obras’” (Sl 94). Mesmo diante de grandes milagres presenciados não movem seus corações à conversão. Ela é uma opção que deve partir do interior. Jesus insiste no ministério de ligar e desligar, quer dizer, o que fazemos para alertar os irmãos é ajudado pela graça de Deus. Esse ministério tem um processo muito claro: deve ser realizado na caridade. Primeiramente se procura a pessoa em particular; depois, se não atende, convide outro irmão para mostrar que a coisa não é pessoal; se nem assim escuta, pode levar à comunidade. Se não ouve nem a comunidade, seja considerado pecador público ou pagão. Normalmente fazemos o processo contrário: depois que todo mundo sabe, o acusado fica sabendo. Aqui encontramos também na Igreja a denúncia oculta. O padre, o bispo e mesmo as autoridades superiores sabem quem acusa. O acusado não. Isso é mal. Acabaria com certo tipo de denúncias fundadas na maldade e na mesquinhez. Jesus ensina de outro modo.

Ele está entre nós

            A comunidade é a grande mediadora em todas as questões. O motivo é a presença de Jesus: “Se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles” (M 1818-19). Esta é a preciosa presença constante de Jesus entre os seus que justifica toda a ação da Igreja. Ele está sempre presente na comunidade, mesmo pequena, garantindo sua oração, vida e atividade. Assim estão seguros os sacramentos, a oração, o empenho pastoral etc…  “Eu estou no meio deles”. O individualismo na vida cristã não tem consistência, pois o mandamento primeiro é o amor. Amar exige a pessoa amada. Vemos como a estrutura da Igreja funciona tendo por base o amor do casal. É expressão do amor de Deus e modelo de vida cristã para todos. Salvar-se é uma ação individual. Eu não me salvo pelo outro, mas me salvo pelo amor ao outro. O amor mútuo é o caminho. Foi por ele que Jesus nos salvou.

O amor não faz mal

            A carta de Paulo aos Romanos, apresentando os mandamentos referentes ao próximo, nos faz compreender que pelo amor mútuo cumprimento toda a lei. O amor vai respeitar os pais, a vida, a sexualidade, as propriedades dos outros, a boa fama, o casamento e a vida pessoal de cada um e de seus bens. Tudo que envolve o ser humano deve ser modelado pelo amor. O amor é o cumprimento perfeito da Lei (Rm 13,8-10). Corrigir o irmão é fruto do amor de comunhão. Todos têm direito a viver bem, também com a ajuda dos outros. Não preciso de ninguém não é ensinamento de Jesus.  Nós precisamos uns dos outros.  Estejamos juntos para garantir a presença de Jesus em nosso meio e nosso relacionamento com Deus. Nas celebrações realizamos essa verdade.

Leituras: Ezequiel 33,7-9; Salmo 94;Romanos 13,8-10;Mateus 18,15-20

Ficha nº Homilia do 23º Domingo Comum (10.09.17)

  1. A Palavra de Deus deste domingo ensina a necessidade de nos ajudarmos uns aos outros no caminho da salvação.
  2. A preciosa presença constante de Jesus entre os seus justifica toda a ação da Igreja.
  3. Os mandamentos referentes ao próximo nos fazem compreender que pelo amor mútuo cumprimos toda a lei. 

Ganhando por somar                                                                                                  

            O ensinamento do evangelho desse domingo nos traz a temática da correção fraterna. Esse é o espinho na garganta. Ninguém ousa fazer e menos ainda aceitar. Preferimos falar por trás que enfrentar diretamente a pessoa. Nem a caridade consegue amansar. É curioso que fazemos ao contrário do que ensina Jesus: primeiro fala com a pessoa, só os dois; depois, se não dá resultado, vai com mais um; se não dá, fala em público. Se nem assim adianta, seja excluído da comunidade. Preferimos fazer o contrário.

Esse é o sentido do que Jesus fala a Pedro quanto ao ligar na terra será ligado no Céu. O amor, como diz Paulo na carta aos Romanos, não faz mal contra o próximo e é o cumprimento da lei. É uma responsabilidade. Se não corrijo, torno-me responsável também. Se não se ouve, fiz a minha parte.

O Salmo 94 nos convida a não fecharmos o coração e procurarmos sempre a correção para estarmos abertos à conversão e ao arrependimento.

Não queremos uma Igreja que só acuse, mas que não se deixe engolir pelas maldades do mundo que são o pecado. Se não, nos tornamos culpados.

Vejamos nossos males e não os dos outros. Ajudando na conversão, somamos no caminho do bem.

 

nº 1681 Artigo – “A fé do povo de Deus”

  1. O povo não erra na fé

            A fé é um dom de Deus oferecido a todos. É, como a caridade e a esperança, uma virtude teologal, isto é,  tem Deus como autor. A nós cabe aceitar a proposta de Deus e ser dotado dessa dimensão fundamental da vida que vai gerar em nós tudo que se refere ao espiritual. Sem fé é impossível a vida cristã e as obras da fé. Com a caridade estamos unidos ao amor de Deus em Cristo. Com a esperança vivemos já, o que esperamos. O Céu começa aqui. A fé, como dom a todo povo, faz é um critério para a Igreja. O povo não é um rebanho silencioso, mas também guarda e regra, com os demais critérios, dessa fé. O Catecismo da Igreja Católica, explicando o sentido sobrenatural da fé diz: “Todos os fiéis participam da compreensão e da transmissão da verdade revelada. Receberam a unção do Espírito Santo que os instrui e os conduz à verdade na sua totalidade” (CIC 91 – 1Jo 2,20.27). Por isso, temos o que é importante: “O conjunto dos fiéis… não pode enganar-se no ato de fé” (Id 92). A Igreja não pode errar, pois tem também a garantia da fé do povo. Quando alguém ou um grupo deixa a fé católica – “perde a fé” – ele não é mais critério. Quem tem a fé está apoiado na Escritura, na Tradição, no ensinamento dos Mestres da fé e também, como veremos, sustentado pelo Magistério da Igreja. É o conjunto das regras de fé que garante. “Por esse senso da fé, promovido e sustentado pelo Espírito da verdade o povo de Deus… adere sem erro à fé… penetra-a mais profundamente e mais plenamente a aplica na vida” (Id. 92). Como a Escritura foi escrita no meio do povo, no meio do povo é compreendida. Ninguém age sozinho. Já é um erro pensar assim. Ninguém é dono pessoal da fé.

  1. Crescimento da fé

            O povo de Deus é mestre na fé. Foi no meio desse povo que a Palavra de Deus foi recolhida no livro santo e conservada sob a direção dos pastores. Antes do livro já havia a fé do povo transmitida pelos apóstolos e discernida por seus sucessores. Os muitos anos de pregação dos apóstolos puderam sedimentar os ensinamentos de Jesus. A fé ajudou a comunidade a discernir o que era Palavra de Deus e o que eram palavras dos homens. Temos assim o Novo Testamento. João encerra a revelação. Depois vem o lento trabalho de compreensão e aprofundamento das verdades da Palavra e o desenvolvimento da compreensão. São séculos de estudos e vivências que trouxeram a clareza, guiada pelo Espírito, para explicar tudo o que a Palavra nos ensinou. Não vamos acrescentar verdades novas, mas compreender sempre mais profundamente o depósito da fé. A Bíblia não foi escrita em pedra, mas primeiro nos corações dos fiéis. O Catecismo ensina: “Graças à assistência do Espírito Santo, a compreensão tanto das realidades, quanto das palavras do depósito da fé pode crescer na Igreja” através da contemplação e do estudo, da compreensão dos fiéis e da pregação (CIC 94).

  1. Unidos na fé

A fé do povo de Deus, por vontade de Cristo, é confiada aos pastores, unidos ao Papa, que com seu ministério interpretam legitimamente a Palavra de Deus. Não podemos perder de vista que “a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério de Igreja estão de tão modo entrelaçados e unidos, que um não tem consistência sem o outro, e que juntos, cada qual a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo contribui eficazmente para a salvação das almas” (CIC 94). Pelos ensinamentos vemos que temos que estar unidos na fé como povo de Deus, para que se torne mais viva e mais clara a Palavra de Deus.

 

nº  1680 – Homilia do 22º Domingo Comum (03.09.17)

“A sedução que salva”

Minha alma tem sede

O profeta Jeremias nos faz uma revelação do mais profundo de nosso coração. Traduz em palavras o que o coração diz. Como um forte profeta de Deus que quer salvar, sente em seu corpo a força da atração Divina que chama de sedução. Passando por sofrimentos causados por sua profissão, decide não falar mais de Deus nem estar a seu serviço para anunciar e denunciar. Suas denúncias lhe acarretam grandes humilhações e sofrimentos. Mas Deus não desiste dele. O profeta não “escapa” do Deus que escolheu: “Senti então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo. Desfaleci, sem forças para suportar” (Jr 20,9). Essa expressão é retomada pelo salmo: “Minha alma tem sede de Vós, minha carne também Vos deseja como terra sedenta e sem água!” (Sl 62). Sem essa sede de Deus, jamais poderemos viver a fé cristã. Esse espiritualismo não envolve a vida tapeia nossa realidade espiritual. Somente o desejo de Deus pode nos levar a tomar atitudes fortes de entrega até mesmo da própria vida. Esse desejo não é um simples “eu gostaria tanto de…”. O salmista reza esse sentimento: “Como a corsa suspira pelas águas correntes” (Sl 42,1). Não se trata de um belo animal. É o animal louco de sede que busca a água. A vida espiritual está nesse desejo. Assim é o coração de quem ama Deus.

Tomando a cruz

Esse é o mesmo desejo que leva a assumir o seguimento de Jesus com todas as forças do coração: “Se alguém quer Me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mt, 16,24). Jesus sente-Se impulsionado para seguir um caminho que O levará a sofrer a rejeição e sofrimentos. Uma certeza interior O fascina rumo à ressurreição. E não admite que seja interrompido pelo desejo humano que não quer sofrer. Quem O tenta é um Satanás, pedra de tropeço. Responde duro a Pedro: “Tu não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas humanas” (Mt 16,23). Há pouco havia dito que Pedro professara a fé por uma revelação de Deus. E lhe deu as chaves do Reino dos Céus (Mt 16,17.19). Agora o chama de Satanás. Com a fé não nos enganamos nesse caminho de seguimento de Jesus que supõe a cruz. O desejo que nos veio da sedução tem que ir até o fim. No futuro há sempre a ressurreição. É preciso saber ir perdendo a vida em nossas escolhas para encontrar a verdadeira vida que está acima de qualquer outra sedução. “Que adianta ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida”? O caminho da cruz conduz à vida. Vemos aí o erro de quem põe de lado a cruz para viver só do bem-estar, do prazer e do poder. Foi envolvido por Satanás, a serpente.

Temos outro modelo

A grande atração que Deus exerce sobre nós e o desejo que nos leva a buscá-Lo não são nem distantes nem fantasiosos. É uma opção que envolve o concreto da vida, como lemos na carta aos Romanos: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir a vontade de Deus” (Rm 12,2). Mudando o modo de pensar podemos assumir a proposta de Jesus e fazer dela nosso seguimento. “Nossa alma será saciada, como cantamos no salmo, como em grande banquete de festa” (Sl 62). Nossa espiritualidade se alimentará no Espírito e na Verdade. Paulo nos oferece mais um pensamento forte: “Este é vosso culto espiritual”. Louvar e glorificar a Deus nós o fazemos em atitudes de vida não em palavreado. Essa reflexão nos leva a compreender o culto cristão que se realiza no coração e vai ao concreto da vida.

Leituras:Jeremias 20,7-9;Salmo 62; Romanos 12,1-2; Mateus 16,21-27

Ficha nº 1680 – Homilia do 22º Domingo Comum (03.09.17)

  1. Deus nos atrai com força para corresponder à sedução, como Jesus se entrega.
  2. Quando somos capazes de renunciar e seguir Jesus
  3. Para colocar em atos o desejo de Deus, é preciso não se conformar ao mundo. 

            Negócio bem feito

            Não adianta procurar muitas coisas para preencher nosso desejo de felicidade se não encontrarmos o que possa nos satisfazer em profundidade. Somente Deus pode nos queimar os ossos por dentro.

            Jesus propõe a Pedro o perdão infinito que como protótipo do mistério de sua Morte e Ressurreição. É o perdão infinito de Deus para todos e para sempre. Pedro não aceita a proposta de Jesus, e é chamado de Satanás, aquele que separa e divide. Jesus diz que ele atrapalha o processo de salvação da humanidade. Pedro, depois pode entender  o que queria Jesus.

            Seguir Jesus a disposição de fazer o mesmo caminho com a cruz. Por isso, perder é ganhar. Nada vale mais que a salvação. Por ela devemos investir tudo.

Por que temos força para esse passo?

            Jeremias nos dá a resposta: Deixar-se seduzir. Mesmo o desprezo pelo qual passa o profeta não apaga em nós esse fogo. Diz o profeta: “Senti dentro de mim um fogo arder e penetrar o corpo todo; desfaleci sem força para suportar” (Jr 20,9). O fogo de Deus não se apaga quando nos toma. Por isso temos sempre a sede de Deus. Esse é o negócio bem feito.

 

nº 1679 Artigo – “A fé que celebra”

  1. Uma certeza na fé

            A liturgia é mais um elemento importante para a garantia da fé. Já vimos a Escritura, a Tradição, os Santos Padres e os Doutores. A celebração condensa, por sua parte, todos esses critérios de fé, pois tem a Palavra de Deus, mantém viva a Tradição e aprende com os mestres da fé. Como povo reunido, celebrando, a liturgia é critério de fé. Já temos o ensinamento antigo que diz: O que se reza é ensinamento de fé (Lex orandi, Lex credendi). Se a comunidade reza desde tempos imemoriais determinadas verdades, é porque são verdadeiras. Em seu ensinamento oficial, os Papas sempre conferem se o que se ensina é o que o povo de Deus sempre rezou. Não se trata de sacramentar tudo o que se diz. Busca-se a permanência na verdade. É por isso que, quando se preparam textos oficiais para a oração de toda a Igreja, é necessária a aprovação para não ensinar erros. Os ritos, as cerimônias e as leis da liturgia devem estar a serviço do esplendor da verdade. A obediência da fé inclui a obediência ao que é proposto. Por outro lado, os ministros ordenados e outros devem propor a verdade com segurança e clareza. O altar não é palanque. A preparação exige fé e fidelidade. O povo clama por pregações mais preparadas que o formem na verdade. Ali se dá a primeira catequese e a continuada formação do povo. Os fiéis, de modo particular as crianças, devem ser introduzidos lentamente no conhecimento da Verdade, de acordo com sua condição e idade.

  1. Rezar crendo

            Celebrar é ter fé. A vida que conduz à Vida. Por isso a liturgia, em todos os sacramentos, é um momento de encontro com Deus. Não se trata em primeiro lugar, de realizar um rito, mas acolher um mistério ou cumprir uma obrigação. A fé não é em primeiro lugar um rito com cerimônias e palavras, mas um encontro com Deus. Ela nos põe em contato com a Verdade de Deus e as verdades que nos levam a Deus. Por isso ela é um critério de fé. A liturgia não é só uma ação humana religiosa, mas uma ação conjunta do povo com Deus. Não vamos à comunidade para fazer orações, mas para o encontro com Deus em Cristo no exercício de seu múnus – função – sacerdotal. Ele é o Sacerdote. Todo povo é sacerdotal Nele. Rezamos o que cremos. As celebrações da comunidade garantem o conhecimento e a manutenção do que é de fé. Por isso, como veremos, a fé do povo é um critério da verdadeira fé. Quando tenho fé, celebro. Em cada oração estamos manifestando a fé e transmitindo a mesma fé que se torna anúncio. Nossa fé é fortalecida na celebração e a verdade se torna sempre mais viva e eficaz em nossa vida.

  1. Crer para rezar melhor

Na celebração recebemos vida que nos faz viver mais a fé para celebrar melhor e assim viver melhor. É um círculo que se desenvolve sempre mais. Nossas celebrações estão repletas de ensinamentos sobre a fé. Jesus, sempre presente, continua a nos ensinar através dos textos, das cerimônias e da comunhão de bens espirituais entre os fiéis. É um corpo que celebra. Cristo – Sumo Sacerdote – se oferece ao Pai e nos oferece Consigo. À medida que acolhemos a celebração na fé, podemos rezar melhor. Rezar significa entrar no diálogo de Cristo com o Pai. Crendo, podemos rezar. Rezando podemos crer melhor. A comunidade que reza proclama a verdade e a vive. Lembremo-nos que liturgia não é só a missa, mas também todos os sacramentos, sacramentais, bênçãos e ofício Divino (liturgia das horas). É triste ver as pessoas irem às celebrações só para cumprir uma obrigação.

nº 1678 – Homilia do 21º Domingo Comum (27.08.17)

“Uma fé a serviço”

Tu és o Filho de Deus vivo

              Por que Pedro tem essa reação tão forte e sincera sobre Jesus, quando a opinião geral sobre Ele estava bem disparatada. Depois de tanta presença de Jesus e de milagres, ainda não se deram conta. É o que vemos no mundo de hoje: Ainda não se deram conta da presença de Jesus no mundo como renovador. A resposta de Pedro é a confirmação do Pai a Jesus sobre sua missão: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Demonstra igualmente o reconhecimento de um ensinamento básico de Jesus: Somente os humildes e pequenos acolhem sua mensagem. Dissera: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas aos sábios e doutores e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25). Pedro é o pequeno que acolhe Jesus e é anunciador da maior verdade da fé: a Divindade de Jesus e sua missão. Por isso ele tem a chave. Essa chave não é o sinal de um poder terreno e jurídico de mando. Jesus diz a Pedro que sua proclamação de fé é a chave para abrir o Reino de Deus a todos. Pedro, que em hebraico é Cefas, e pedra que é também cefas, é um jogo de palavras para dizer que a pessoa de Pedro proclamando a fé é a base para a edificação da Igreja (não de pedras materiais, mas de pedras vivas). A Igreja, como Jesus, tem uma dimensão humana que é condição para que a fé se estabeleça. Isso foi revelado pelo Pai. Não é uma criação humana, como colocar a Igreja a par com outras denominações que não têm Jesus como Filho do Deus vivo. O ser humano tem condições de, por sua vida coerente, como nos escreve Isaias, ser uma estaca segura.

Edificarei a minha Igreja

Todos que proclamarem a fé como Pedro, entram na construção da Igreja, Reinado de Deus no mundo. Essa construção não é humana, como algo social, mas é a convocação de Deus (isso significa Igreja) para que se estabeleça o plano Divino da salvação de todos os povos. Numa primeira colocação temos que assumir que Jesus não depende da opinião humana. Não veio para agradar e satisfazer gostos e curiosidades. Veio para agradar o Pai: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que Me enviou” (Jo 4,34). A edificação da Igreja de Jesus foi sempre seguida da vontade do Pai. A liberdade de Jesus diante das situações do mundo é um estímulo a não identificarmos a Igreja com o mundo em que vivemos. Ela está para servir e não para se servir assumindo seus critérios. Em Pedro, foi fundamental seu humanismo, simplicidade e disposição para as coisas de Deus. Igualmente encontramos nele o Deus que o sustenta em sua fragilidade. Diz Jesus: “Não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no Céu” (Mt 16,17). Em Pedro o Pai se une a todos nós que fazemos a mesma profissão de fé.

Tudo para a glória de Deus

Essa aproximação de Deus do ser humano, frágil, não tira de nós o dever e o direito de reconhecer a transcendência de Deus em sua misteriosa grandeza. É a oração que Paulo nos oferece na Carta aos Romanos (Rm 11,33-35) na qual reconhece o mistério de Deus que age em nós e por nós: “Ó profundidade da riqueza da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus caminhos!” (Rm 11,33). Como Deus é grande ao Se fazer tão pequeno em Cristo e assumir nossas condições. Somente sendo Deus pode manifestar tanto amor e tanta proximidade de nossa realidade. Ele quis precisar de nós para Se manifestar ao mundo. E continuamos reconhecendo sua presença em nossa fé tão frágil e tão potente. E podemos dizer: “Tudo é Dele, por Ele e para Ele. A Ele a glória para sempre. Amém

Leituras: Isaias 22,19-23; Salmo137; Romanos 11,33-36;Mateus 16.13-20

Ficha nº1678  – Homilia do 21º Domingo Comum (27.08.17)

  1. A fé de Pedro é provocada pelo Pai que confirma o Filho na sua identidade e missão.
  2. Os que proclamam a fé como Pedro, constroem a Igreja.
  3. A aproximação de Deus do ser humano não tira o direito de reconhecer sua grandeza. 

            Chaves da casa 

            Jesus deu a Pedro as chaves do Reino dos Céus para ser como que o administrador dons bens celestes. Ele o faz porque acreditou e proclamou sua fé. Todo aquele que crê tem as chaves da casa para si e para os outros.

            Não é possível crer em Cristo pela metade. Cristo não é uma idéia sobre a qual opinar como dizem os discípulos a Jesus: “Uns dizem que és João Batista… etc”. (Mt 16,14). A decisão tem que ser total: “Tú és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Com essa proclamação de fé, recebemos a chave da casa. Os bens de Deus estão em nossas mãos.

            Essas palavras manifestam o grande mistério de Deus que nos é confiado. Assim diz Paulo: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus”.

            Tudo que nos é dado na fé nos conduz a uma relação cada vez mais profunda de conhecimento e vida como Deus que se manifesta.

 

nº 1677 Artigo – “Nossos pais na fé”

  1. Homens da Palavra

            Os profetas morreram, os apóstolos foram mortos, mas Jesus continua seu caminho conduzindo seu povo por meio de outros profetas e apóstolos, homens e mulheres de fé. Desde o mais douto ao mais humilde, todos são iluminados para viver a fé e ensinar. A grande virtude é saber aprender. O Espírito Santo supre a nossa fraqueza, mas não dispensa o esforço humano para compreender a Verdade. Já nos inícios temos pessoas que refletiram, estudaram e começaram a explicar a doutrina. Chamamos esses homens de Santos Padres. Foram homens de Deus que viveram santamente, estudaram muito e defenderam a Palavra de Deus de explicações que estavam erradas, que chamamos de heresias. Temos a Palavra e a Tradição que são os fundamentos. Tudo o que professamos com fé cristã foi estudado por eles. Havia gente que explicava de modo errado. O que as Igrejas cristãs, tanto a católica, como a ortodoxa e a evangélica acreditam provém de seu ensinamento que defendia a verdadeira fé. Por exemplo: um afirmava que Jesus não era Deus. Outros chegavam a afirmar que não era homem. Foram séculos de estudo. Esse estudo nos dá segurança sobre o ensinamento da Palavra. Para nós é difícil ler seus textos por não termos acesso fácil e são difíceis. Por exemplo: S. Agostinho, bispo de Hipona, tratou de todos os assuntos que lidamos hoje. É um mestre. Foi um grande pastor aprofundado nas verdades de Deus. Além desses que foram sábios e santos, temos outros autores que também deram grande contribuição, como Orígenes e Tertuliano. São também antigos. O que ensinamos são doutrinas que percorreram os séculos da história.

  1. Fortes na Tradição

            Ao lado desses antigos, temos outros que não são tão antigos, mas deram um ensinamento muito grande para se entender e viver a Palavra de Deus transmitida e conservada pela Tradição. Temos também mulheres que deram sua contribuição valorosa vivendo e explicando a Palavra. São chamadas nossas mães na fé.  Nem sempre foram escritores, mas homens e mulheres que deram um testemunho qualificado de sua experiência de fé. O que fez esses homens e mulheres serem tão importantes? Conheceram e viveram a Palavra. É impressionante como aprofundaram a Palavra de Deus lida com sabedoria, rezada com profundidade e ensinada com amor. Firmes na fé, amantes da Palavra conservada e entendida pela Tradição, foram capazes de colher seus ensinamentos e explicitar com sabedoria usando as ciências humanas. Desse modo deram grandiosa contribuição para o conhecimento da revelação. Jesus afirma: “o bom escriba é aquele que tira de seu tesouro coisas novas e velhas”(Mt 13,52).

  1. Força de ensinamento

            Nós não vivemos somente dos que viveram no passado. Somos também responsáveis para continuar tão belo caminho. Nesses últimos tempos, a reflexão e o entusiasmo pela Igreja nos ofereceram tantas maravilhas na reflexão sobre o ensinamento de Jesus. Ele é sempre essa fonte que jorra com água límpida. Há homens e mulheres contribuindo muito para a compreensão da Palavra de Deus. Não basta repetir os textos, como fazemos, às vezes, mas saber interpretar o que Deus quer falar para o mundo de hoje. Por isso é preciso que nos preparemos melhor para sermos mais úteis à sociedade. Não vivamos em grupos fechados ou igrejinhas sem janelas, mas abramos para que o sopro do Espírito nos faça compreender a Palavra e levemos a Tradição a sempre maior penetração no mundo.

nº 1676 – Homilia da Assunção de Maria (20.08.17)

“Ela está no Céu”

 Celebrando a Mãe de Deus

    A fé das Igrejas cristãs, tanto Romana e mais ainda a Oriental Católica e Ortodoxa, celebra com grande veneração as festas de Nossa Senhora, nossa Mãe. Louvando Maria, estamos celebrando Jesus em sua Mãe e em seus Santos. Todo o culto se dirige a Deus Pai, por Jesus, no Espírito Santo. Mas todo o Corpo de Cristo celebra. Ele é a cabeça, o Sumo Sacerdote. Nós somos os membros e participamos de seu ministério sacerdotal de Cristo. Em Cristo celebramos as glórias que Deus concedeu a Maria por ser a mãe de seu Filho Unigênito que Se encarnou. Maria não pode ser vista sem Jesus. Jesus não pode ser visto sem Maria, Não podemos seguir Jesus sem Maria, pois foi dela que tomou seu corpo humano que era intimamente unido a sua Divindade. Negar Maria é negar todo o mistério da salvação no qual ela tem a missão de Mãe do Filho de Deus. Cortando a árvore, caem os frutos. Celebramos a Assunção de Maria. Nesse dado de fé professamos que, “Terminado seu curso de vida terrena, Maria foi elevada ao Céu em corpo e alma”. Alguns dizem que não está na Bíblia. Já antes do Novo Testamento ser escrito, temos dados da fé que foram transmitidos ao povo de Deus. A Santa Tradição está unida à Palavra de Deus, pois ali estão os ensinamentos apostólicos que nos foram transmitidos. A comunidade primitiva já transmite dados da fé pela tradição, como diz Paulo em dois lugares: “O que recebi eu vos transmiti” (1Cor 13,23 e 15,3), referido-se à Eucaristia, a Ceia e à Ressurreição. Paulo diz que recebeu do Senhor, quer dizer que a tradição, os ensinamentos a par com os Evangelhos que foram escritos muito depois.

Viver como Maria

   Maria é o modelo completo de quem viveu o que Jesus ensinou. É a discípula perfeita, pois viveu em contínua intimidade com Jesus, tanto no seu seio como na sua vivência doméstica. O modo de Maria viver, diferente de todos na linha da geração, pois só ela é mãe, nós o vivemos na intimidade, pois é o mesmo Jesus que habita em nós em seu Ser glorificado e como Eucaristia. Maria, em seu canto, na visita a Isabel, mostra a preocupação com os pobres e sofredores, que é a mensagem central de Jesus que veio buscar o que estava perdido (Mt 18,11). Maria, vivendo totalmente o Evangelho, já tem sua ressurreição e glorificação junto a seu Filho. Por participar de sua carne humana como mãe já está no Paraíso como nós que também participamos de sua carne. A Ressurreição, não é só ajuntar ossos esparramados e até destruídos, mas a condição de união ao Filho de Deus que Se encarnou. Paulo ensina essa vitória sobre a morte que nos garante a vitória final.

Buscar as coisas do alto

   Maria é a mulher do Apocalipse, gloriosa, como Igreja que reúne os apóstolos e todos os fiéis na vitória sobre o dragão – o mal – que quer destruir todo bem. A Igreja é símbolo de Maria, a mãe que vê seu Filho e seus filhos perseguidos. Ela estimula a buscar as coisas do alto onde já reina com Cristo. Reinar é ter a certeza de fazer todo o bem para que haja vida e vida em abundância.  Buscar as coisas do alto é fortalecer os laços de fraternidade entre os irmãos. Ela é a irmã maior que cuida dos filhos de Deus. Por estar intimamente unida a Cristo, nosso culto, referindo-se a ela, está direcionado a Cristo no seu louvor ao Pai. A intercessão de Maria manifesta a bondade de Deus que quer todos com Ele na glória. A oração de Maria, nossa Corredentora, no Espírito Santo, nos aproxima do Pai.

Celebrar a Assunção de Maria é contemplar nossa futura vitória.

Leituras: Apocalipse 11,19ª; Salmo 44; 1 Coríntios 15,20-27;Lucas 1,39-56

Ficha nº Homilia da Solenidade da Assunção de Maria (20.08.17)

  1. Em Cristo celebramos as glórias que Deus concedeu a Maria por ser a mãe de seu Filho Unigênito que se encarnou
  2. Maria, vivendo totalmente o Evangelho, já tem sua ressurreição e glorificação junto a seu Filho.
  3. Reinar é ter a certeza de fazer todo o bem para que haja vida e vida em abundância. 

            Mãe não esquece o filho

            É magnífica a figura de Maria nesta simbologia da Igreja perseguida e gloriosa. Maria ainda passa pelos sofrimentos de seu Filho no Corpo de Cristo que é a Igreja, que somos nós.

            A grandiosidade da Ressurreição de Jesus é dada a todos os que Nele crêem.  Primeiro Ele, depois os que pertencem a Cristo. Dentre os que pertencem a Cristo está sua Mãe, à qual Ele pertence também por sua origem na carne. Levando ao Céu nossa humanidade na Ascensão, atraiu também a si sua Mãe, a primeira redimida e ressuscitada com o Filho ao qual está unida pela carne e depois pela fé.

            Maria se torna, em sua Assunção, modelo para a humanidade redimida que se abre a Deus e transforma o mundo. Ela é a expressão da misericórdia de Deus. Ela se torna ministra dessa misericórdia, pois Deus faz nela maravilhas. Ela se torna portadora do Espírito Santo para a santificação de João Batista e de todos os que crêem.

nº 1675 Artigo – “Confirma os irmãos!” (Lc 22,32).

  1. Ministério de Pedro

             Vamos aprender o que a própria Igreja ensina em seu Catecismo no qual resume toda a doutrina. Assim afirma: “O próprio Cristo é fonte do ministério da Igreja. Instituiu-a, deu-lhe autoridade e missão, orientação e finalidade”. O Concílio Vaticano II deu orientações claras para a vida do povo de Deus. Isto é, guiado pela Palavra de Deus e pela Tradição, aprofundou a orientação para o momento atual. A Igreja não está distante da vida do mundo. Reafirmam-se as verdades e abrem-se novos caminhos. Permanece vivo o ministério de Cristo através dos apóstolos e seus sucessores. Seguem a Cristo também no serviço ao povo de Deus. Agem em continuação a Jesus Cristo. Lembramos: “Como o Pai me enviou, assim também Eu os envio” (Jo 20,21). Recebem igualmente o poder do perdão dos pecados, porque lhes é dado o Espírito Santo. Lembramos que Jesus dá a Pedro, que professa a fé no Filho de Deus Vivo, as chaves do Reino dos Céus. Poder de abrir as maravilhas da redenção a todos e poder também de dizer o que não é da redenção. Como continuação de Cristo em seu ministério, eles recebem o poder de agir em sua pessoa. Por que uma pessoa e não diretamente? Porque a Encarnação continua. Para se encarnar Jesus usou a condição humana, para continuar agindo entre nós, usa o mesmo caminho. Assim Deus quer intermediários. Não atraem a si a glória, mas Àquele que os escolheu. Esse ministério, sustentado pelo Espírito Santo, é um critério para permanecermos na verdade.

  1. Apascenta minhas ovelhas

            Pedro, seus sucessores, os Papas, em número de 266 até Francisco, continuaram a missão de Pedro, unido a todos os bispos. É o Colégio Apostólico. No correr desses séculos, cada Papa teve seu modo de agir, mas sempre na mesma verdade. Eram humanos e pecadores como nós. Mas a verdade permaneceu a mesma. Jesus disse a Pedro: Apascenta meus cordeiros e minhas ovelhas (Jo 21,15-17). Jesus afirma três vezes. É uma forma usual de dar importância ao que está dizendo. Nessa função de apascentar está seu magistério de anunciar o Evangelho com toda a Verdade. Por isso temos garantia no caminho da Igreja. Não erra na fé. Nas verdades da fé e da moral é garantido seu ensinamento. No que se refere à fé e à vida cristã em sua moral, não erra. Nas questões humanas, sociais e políticas, nos ensinamentos dependentes de uma época, pode errar. A nós compete estarmos atentos, amar e ouvir esse Pastor que Cristo escolheu para segui-Lo. Unidos a Pedro, o Papa, os bispos, de modo especial nos Concílios, têm seu ministério garantido na verdade. Esse ministério tomou formas diferentes no correr da história. O importante é estar sempre aberto às mudanças. Nós pudemos ver a diferença dos Papas que tivemos ultimamente: Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Nenhum Papa deixa de ser homem para ser um semi-deus. Sua missão nos conduz a Deus.

  1. Eu rezei por ti

Pedro era um homem frágil, com um temperamento muito próprio, cheio de boa vontade e com um grande amor por Jesus. Foi capaz de negar, mas capaz de seguir até à morte. Pedro é garantido por Jesus que lhe diz: “Simão, Satanás pediu para vos peneirar como o trigo; Eu, porém, orei por ti, a fim que tua fé não desfaleça. Quando te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22,31-34). Jesus mantém essa oração permanente diante do Pai por nós. Ele é nosso intercessor (Rm 8,34). Sempre intercede e nos convida a acolher esse ministério. Entre os dons que sustentam nossa fé, estão, então o ministério de Pedro passado a todos os Papas com os bispos. O Papa é símbolo da Unidade de toda a Igreja.

nº 1674 – Homilia do 19º Domingo Comum (13.08.17)

Senhor, salva-me!

Não tenhais medo

Depois da maravilhosa multiplicação dos pães, Jesus manda os discípulos seguirem à sua frente, de barco, para o outro lado do mar. Esse mar é o lago de Genesaré, que não é muito grande, mas tem tempestades fortes que até hoje são perigosas. Os discípulos entram numa destas e se desesperam. A Palavra de Deus desse domingo nos trás duas tempestades: A tempestade do lago e a manifestação de Deus a Elias. Aparecem fenômenos violentos antes das ondas serenadas e do murmúrio da brisa no qual Deus fala a Elias. A vida de Elias passava por momentos turbulentos de perseguição. Jesus vem ao encontro dos discípulos andando sobre as águas. No escuro, pensaram ser um fantasma. Diz para acalmá-los: “Coragem! Sou Eu. Tenhais medo”! (Jo 14,27). Mesmo dentro da tempestade, Pedro pede uma confirmação de Jesus: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água”. “Vem, respondeu Jesus” (Mt 14,28-29). Pedro então começa andar sobre as água. Com medo do vento, começou a afundar. Pedro quis o espetáculo. Jesus lhe mostra que o caminho é a fé. E lhe diz: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31). Com essa, não há o que temer. Não ter medo é ter força de passar por dificuldades e sofrimentos e ter a certeza da mão de Jesus. Possibilita também ter, como Elias, a experiência de Deus no murmúrio da brisa (1Rs 19, 12-13ª). As dificuldades da vida nos jogam em situações que nos provocam medo. Medo faz parte da natureza humana. Ter medo da fé, não faz parte da condição espiritual da fé. Para acalmar o mar revolto da vida é preciso a brisa da fé.

No murmúrio da brisa

          A reflexão que começa pela tempestade e continua no encontro com Deus. É uma experiência magnífica encontrar-se com Deus. Para chegar a essa experiência Elias passa por tantos sofrimentos e perseguições. Cheio de zelo por Deus, é recompensado por um encontro que lhe dá uma missão de definir o futuro na situação em que vive: unge reis e o profeta           Eliseu. Os discípulos têm a experiência de Jesus que vem sobre as ondas, isto é, está acima do perigo e os convida a não terem medo. No relacionamento com Jesus na fé, não há lugar para o medo, para o desânimo e para tirar o corpo como a dizer isso não nem nada a ver comigo. Dizemos que, quando as águas sobem, aí corremos para Deus. Mesmo que nos afoguemos, continuamos seguros nele. Jesus passou por isso no Horto das Oliveiras quando sofre a grande tentação. Seu pavor chegou a tanto que suou sangue. Estouraram as veias pequenas por causa da grande tensão. Ele soube, mesmo sentindo sua natureza humana de tal modo sofrida, dizer: “Pai, se é possível, que passe de mim esse cálice; contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). Foi capaz de assumir andar sobre as ondas desse mar revolto de sua vida em sua Paixão e Morte.

Perdendo por Cristo

            No meio das tempestades encontramos um momento de paz e de serenidade quando somos capazes de entender nossa participação nos sofrimentos de Cristo, não pelo sofrer, mas pelo ganho que temos em Cristo. Essa assimilação em Cristo se dá quando entendemos que perder por Cristo é ganhar. S. Paulo, que era um judeu fiel e devoto, sente o desejo de ser separado de Cristo como seus irmãos de raça distantes e separados de Cristo (Rm 9,1-15). É preciso perder para ter. Quem quer seguir Jesus tem que perder muitas coisas que não levam a Cristo. Até coisas boas. Pela fé essa perda se torna um ganho. É como caminhar sobre ondas na tempestade. É sempre um encontro com Deus.

Leituras: 1Reis 19,9ª.11-13ª; Salmo 84; Romanos 9,1-5; Mateus 14,22-33

  1. O perigo e o medo dos discípulos no mar é vencido pela experiência da fé em Jesus.
  2. A experiência de Deus, mesmo na tribulação, é sempre de serenidade.
  3. Seguir Cristo provoca tensões que exigem cortes, mesmo de coisas boas.

Sobre as ondas

            A narrativa da tempestade no mar é o pano de fundo que nos explica quanto se pode e deve sofrer para que o Reino de Deus se estabeleça no mundo. O mar agitado simboliza o mundo. A angústia dos discípulos é nossa frágil condição humana no seguimento de Jesus.

            A presença de Jesus dá a segurança, simbolizada em andar sobre as águas. Com Jesus podemos superar todos os sofrimentos e perturbações. Pedro se arrisca sobre as águas, mas com medo do vento, começa a afundar. É bom notar que afunda de uma vez. Há sempre um caminho de fraqueza. Não podemos duvidar.

            O profeta Elias passa por perturbações, caminha quarenta dias pelo deserto e vai ao encontro de Deus no monte Horeb. Ali Moisés estivera com Deus. Ali tem a forte experiência de encontrar Deus. Não O percebe no vento impetuoso nem no terremoto nem no fogo. Deus estava no murmúrio de uma leve brisa (1Rs 19,11-12). O profeta está a nos ensinar que Deus é sempre tranqüilidade e serenidade, mesmo no meio dos maiores problemas.

            O maior mal é o fechamento do coração. Esse é um rumor que impede de Deus ser ouvido.

 

nº 1673 Artigo – “Santa Tradição – Palavra de Deus”

O que nos foi transmitido

          “A Palavra de Deus é viva e eficaz” (Hb 4,12). Sem ela não podemos encontrar o que Deus quer para nós e como chegar a Ele. Mas a Palavra não está algemada (2Tm 2,9). Ela é a fonte da Palavra que lemos e vivemos. O tema da Tradição está deixado de lado em nossas reflexões e catequeses. Podemos cair na doutrina de Lutero afirmando que só existe a Escritura. Há um pensamento falho. Podemos perguntar onde está na Bíblia que ela seja a única fonte. Antes de os textos bíblicos serem escritos, já se vivia a fé e os bons costumes. O Antigo Testamento começou a ser escrito pelo ano 700 antes de Cristo. Primeiro se viveu e depois de séculos, foi condensado na Palavra. Daí vem a palavra tradição. Não é a busca de viver só o passado, como está na opção de muitos, mas acolher a fé que é transmitida através da Igreja, desde Jesus. O discernimento desta fé se faz com os meios que Deus nos deu na Escritura, na Tradição e na compreensão que tiveram os antigos, os doutores, como foi celebrada na liturgia e vivida na fé do povo de Deus. Vejamos a riqueza desses meios. Nenhum age por si só. Como no Antigo, no Novo Testamento, Jesus é a Palavra Viva que é fonte de toda a verdade da salvação. Dele já falaram os profetas e o salmos (Lc 24,44). Os apóstolos e os discípulos continuaram a missão de anunciar a Verdade.

A comunidade que anuncia

Só mais tarde os ensinamentos de Jesus, vividos pelos discípulos, foram escritos. A pregação do Evangelho, segundo a ordem do Senhor, fez-se de duas maneiras: Oralmente e por escrito. O Evangelho foi transmitido pelos apóstolos que, na pregação oral, transmitiram o que receberam das palavras, da convivência e das obras de Cristo. Muito depois, apóstolos ou homens que com eles viveram, guiados pelo Espírito, puseram escreveram a mensagem da salvação. Entre o ensinamento de Jesus, dos apóstolos e dos discípulos, houve bastante tempo. A Bíblia nasceu no meio do povo que vivia a verdade. A Tradição já existia quando a Palavra foi colocada no livro. Paulo diz, no ensinamento sobre a Ressurreição e a Eucaristia, que recebeu o que já se fazia e ensinava. Somem-se aqui muitos fatos que aconteceram e que passaram para a vida da Igreja sem estarem escritos na Bíblia. Ela se tornou assim, juntamente com a Tradição, fonte de verdade e de vida. É certo que há muitas coisas que não foram escritas. Quem discerne? A Igreja tem a autoridade maior que controla, também pelo Espírito Santo que é dado para seu ministério, como por todos os que conhecem a Palavra e a transmitem.

Uma Igreja da Tradição e da Palavra

“Para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na Igreja, os apóstolos deixaram como sucessores os bispos e a eles transmitindo o seu próprio encargo no ministério” (Catecismo, 77). A transmissão viva dos ensinamentos, realizada pelo Espírito Santo, é chamada de Tradição enquanto distinta da S. Escritura, porém, intimamente ligada a ela. A Igreja, em sua doutrina, vida e culto perpetua e transmite a todas as gerações, tudo o que ela é e crê” (DV 64). A Escritura é a Palavra de Deus enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo. A Sagrada Tradição transmite aos sucessores dos apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo e pelo Espírito Santo aos apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles a anunciem, conservem e difundam. A Igreja não tira sua certeza a respeito de tudo que foi revelado somente pela Escritura, mas também pela Tradição. Ambas devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento e reverência (Cat. 81-81). É isto o que ensina a Igreja Católica.

nº 1672 – Homilia da Transfiguração do Senhor (06.08.17)

“Transfiguração do Senhor”

Uma festa completa

            Celebramos a Transfiguração do Senhor como uma festa especial no calendário da Igreja. Nesse dia temos tantas festas com nomes diferentes que celebram o Bom Jesus. Estamos mais ligados ao Jesus sofredor, pois nos toca mais de perto. Celebramos hoje o Jesus glorificado que é também passa pelo sofrimento de sua Paixão. Glorificado, mas não deixa de ser o Homem de Nazaré. Como vemos, Ele, na condição humana se manifesta glorioso. É completa também porque tem a presença do Moisés e Elias, simbolizando a Lei e os Profetas, e os discípulos que são os iniciadores do novo povo e vivem a nova lei que está em Jesus. No Antigo Testamento a Lei era vista como a letra, no Novo a lei está no Espírito que coloca em nosso coração as palavras de Jesus. É por isso que o Pai diz: “este é meu Filho Amado no qual pus todo meu agrado. Escutai! (Mt 17,5). Em certo sentido a Transfiguração de Jesus no monte é uma comunicação da nova lei e do novo povo, como o foi no Monte Sinai. É um novo começo. Pedro, vê nessa manifestação um momento de grande prazer: “ É bom estarmos aqui. Se quiserdes vou fazer aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (id. 4). Há um sentido de permanência no Antigo Testamento. Era uma tentação da comunidade primitiva. Mas também conta com a presença de Deus de forma gloriosa, como foi no Sinai. Este momento maravilhoso para os discípulos é como momento de compreensão da Paixão que é seguida da Ressurreição gloriosa.

No amor do Pai

A declaração do Pai ao apresentar o Filho envolve todo o projeto de sua missão: “Este é o meu Filho amado no qual ponho o meu bem-querer” (2Pd 1,17). Estas palavras calaram fundo no coração de Pedro. É no amor do Pai que se realiza a redenção da humanidade através do acolhimento de Jesus que comunica as palavras do Pai. A obra da Redenção é uma obra do amor do Pai que envia o Filho Dileto para comunicar seu amor e atrair ao mesmo amor. A comunhão com Deus é participação de sua divindade amorosa. Repetimos muito que Jesus veio tirar nossos pecados. Certo. Mas, o que tira os pecados é a comunhão de amor com Deus. Temos que salientar o amor em todas as suas dimensões místicas, espirituais, humanas, sociais. Desse modo teremos a libertação dos pecados e a força para vencer a tentação. Pedro escreve que o amor cobre a multidão dos pecados: “Tende ardente amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá a multidão de pecados. Sendo hospitaleiros uns para com os outros” (1Pd 4,8). É um amor espiritual que vai ao prático da vida. Diz Tiago: “De que adianta alguém dizer que tem fé, se não tem obras?… Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta. … Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras”  (Tg 2,14.47).

Um projeto para todos

            A transfiguração de Jesus não é somente uma realidade pessoal dele, mas projeto para todos. Assim como Jesus se Transfigurou, todos seremos transfigurados: Por que estamos nós também a toda a hora em perigo? … porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (1Cor 15,30). O que aconteceu com Jesus acontecerá conosco. A transformação começa já colocando o Evangelho na prática transformando as realidades do mundo, dos necessitados. Sem isso não há ressurreição.

Leituras: Daniel 7,9-10.13-14;Salmo 96; 2 Pedro, 1,16-19; Mateus 17,1-9

Ficha nº 1672 – Homilia da Transfiguração do Senhor (06.08.17).

  1. Jesus se transfigura e se apresenta como a nova lei e a nova profecia. E prefigura sua Ressurreição
  1. O amor do Pai é a condição da vida e da missão de Jesus. Redenção é amor.
  1. A nós cabe transfigurar o mundo pelo amor que recebemos.

Um pai que sabe amar                                  

            A narrativa da Transfiguração de Jesus é como um compacto de um filme. Os discípulos que vão passar pelo sofrimento da Paixão de Jesus, podem contemplar antes do ocorrido a glória que vai ser concedida a Jesus na sua Ressurreição. Jesus

            Esse momento nos traz a passagem que Jesus veio fazer do Antigo ao Novo Testamento. É a superação da simples observância da lei e da profecia, para a vida de relacionamento com o Pai.

            Jesus é o Filho de Deus apresentado na sua glória. Não são historinhas bonitas. Ele é o Senhor glorioso que é o dominador de todas as coisas, Senhor do Universo.

            Mais que todas as glórias, o momento maior é a palavra do Pai sobre seu Filho: “Este é meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado, Escutai-O” (Mt 17,5). Essas palavras se tornam como que o caminho da compreensão da vida e missão de Jesus. É somente no amor do Pai que compreendemos a Paixão do Filho. Ouvindo o Filho entramos na nuvem da presença de Deus. O Pai sabe amar o Filho e lhe dá a participação de sua glória que passa pela sua Paixão.

nº 1671 Artigo – “O homem perito na dor”

Escolha dos companheiros

            Jesus escolheu os doze apóstolos depois de uma noite de oração (Lc 6,12). Por que rezar tanto, se conhecia os doze? Ele mesmo ensina que devemos pedir ao Pai, operários para a colheita (Mt 9,37-38). Conversava com o Pai para saber quais eram os mais apropriados para o trabalho. Essa Palavra nos ensina que o Pai conhece a situação da obra e por isso sabe qual é o melhor para esse ou aquele trabalho. Assim, no campo vocacional não dependemos somente de uma vontade pessoal, mas da vontade de Deus. É preciso estar aberto ao anúncio do Reino para conhecer o que vamos levar. Jesus chama, assim, homens diferentes para os diferentes. Podemos ver no grupo dos apóstolos como são diferentes! Escolhe o homem certo para a situação concreta. Aqui não se deve contar com milagre, dizendo que a graça de Deus supre. Por isso a necessidade da diferença entre as pessoas. O que a coordena é o amor. Nós vemos em nossos meios que por séculos fez os operários da fé, ordens religiosas, sacerdotes, bispos todos cantando a mesma música. Chegam a mínimos detalhes. Tudo igual.  Podemos questionar porque pessoas não entendem o anúncio. Há necessidade dos diferentes para os diferentes. Com isso prejudicamos a própria evangelização. O que era diferente era excluído por ser estranho ou não perfazia o perfil da “empresa”, como dizemos. Vejamos, por exemplo, da língua: por dois mil anos se usou o latim. Não era problema que o povo não entendesse. No corpo temos membros todos diferentes. S. Paulo explica sobre a unidade e a diversidade do corpo (1Cor 12,1-31).

Certeza de um caminho

            Qual o caminho que Jesus usou para escolher os apóstolos? O Pai diz claramente: “Este é meu Filho Amado, ouvi o que Ele diz” (Mc 9,7). Jesus nos ensina por palavras e exemplos. Sua preocupação era com os sofredores: “Vendo Ele as multidõescompadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9:36). Quer gente que trabalhe como Ele e se preocupe com os sofredores. E os que já estão bem se preocupem com os que sofrem. A certeza de estar no caminho de Jesus é entender a dor do povo e se comprometer e termos seus sentimentos. Todos imitam Jesus, cada um de seu modo. Não é desordem. Há gente que vive em tal situação que necessita um diferente que o entenda. É por isso que há essa debandada da Igreja. Não há quem vá até eles. A uniformidade não é um bom método. A mitologia ensina esse conceito com a lenda sobre o leito de Procusto. Esse era dono de uma pensão. Tinha uma cama. Se o hospede era comprido, cortava um pedaço da perna, se era pequeno, esticava para dar o tamanho do leito. O critério fundamental para a escolha dos operários do Reino é ter compaixão de Jesus. Sem esse sentimento, não conseguimos levar adiante a missão. Esse critério não é levado em conta na formação dos ministros e do povo de Deus. Então, não funciona.

Coragem de mudar.

            E a coragem de mudar? Tratar os diferentes de modo igual é fazê-los mais desiguais. Quanta estrutura teremos que mudar para atender bem a todos, cada um de acordo com sua necessidade! Uma evangelização que não penetre a vida e a transforme não serve. Percebemos o esvaziamento da fé. A questão é perguntar se a causa não está em nós que queremos um mundo a nosso modo e não ao modo de Jesus. Ele disse que pobres sempre tereis entre vós (Jo 12,8). Quer dizer que serviço evangélico nunca terminará. A mudança deve estar em nós e respeitar as diferenças das pessoas. Não sem o Evangelho.

nº 1670 – Homilia do 17º Domingo Comum (30.07.17)

“Dai-me a sabedoria”

 Tesouro escondido

Falar de tesouro escondido parece um conto de fada. Hoje podemos dizer, trarar-se de um negócio muito bom. Em todo caso fica de pé a proposta de Jesus como um tesouro, como uma grande oportunidade. S. Mateus encerra o discurso das parábolas com as parábolas do tesouro, da pedra preciosa e da rede. Podemos identificar esse tesouro também com a sabedoria que Salomão pediu a Deus (1Rs 3,5.7-12). Depois de descrever o Reino em suas diversas dimensões através de simples parábolas, chama à decisão. Depois de descoberto, vale a pena dar tudo por ele, pois vale mais que tudo que possamos ter. O mapa do tesouro é a Palavra de Deus, Sabedoria que nos conduz. Jesus diz que o Reino é como uma rede que vai selecionar o que presta e o que não presta. É um convite a selecionarmos em nossa vida o que presta. Não damos murros no ar, como Paulo nos diz: “Quanto a mim, não é assim que corro, não sem rumo; é assim que luto, não como quem dá murros no ar” (1Cor 9,26). Quem descobre o valor do Reino não mede esforços e vida para possuí-lo. O primeiro modelo é o próprio Jesus que tudo enfrentou para implantar o Reino de Deus. Sabia de seu valor. Os apóstolos, mais claro ainda em Paulo, pela batalha que travaram para anunciar Jesus que tinha encontrado. Foi como cair de um cavalo e ficar cego pela luz. O Batismo o recuperou e imediatamente se pôs a evangelizar. Quem não descobriu o Reino, não consegue organizar sua vida de fé. É o que Jesus diz: é preciso deixar pai e mãe e tudo o que possui. Não se trata de ódio, mas de dar ao Reino o primeiro lugar. No Reino tudo toma sentido.

Como vossa lei!

O coração que escolheu o Reino de Deus se delicia. O salmo 118, em 176 versículos, descreve essa certeza usando as palavras lei, testemunho, promessa, preceito, mandamentos, decretos e palavra, para salientar a força da Sabedoria em nossa vida. O salmo diz: “Como amo os mandamentos que me destes!”. Mandamentos não são leis, e sim, expressão do amor de Deus que cuida de nós. Salomão recebeu, durante o sonho, a visita de Deus oferecendo-lhe tudo que desejasse. O jovem rei, sábio, pediu sabedoria, pois, com ela poderia dirigir seu povo. E Deus lhe dá sabedoria e mais, tudo o que ela contém. A descoberta do Reino é uma questão de amor. Quem ama, dá a vida pelo que ama. Quem se dedica à vida da Igreja, sem ter escolhido o Reino, prejudica o povo de Deus. O povo sabe muito bem quem age por fé ou que age por interesses outros. Deus é o tudo, para quem encontrou o tesouro. Fé é o tesouro que não se mistura com o que não seja da vontade de Deus. Venha vosso Reino e seja feita vossa vontade, que é viver o Reino.

Tudo concorre para o bem

São Paulo, na carta aos Romanos, dá uma resposta aos que se abrem ao Reino de Deus: “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28). O grande prêmio que Deus oferece é a destinação que tem para aqueles que acolheram o amor de Deus, isto é, “serem conformes à imagem de seu Filho” (id 29) para chegarem à glorificação. Ser imagem do Filho supõe também passar pelo que Ele passou, isto é, os sofrimentos da Paixão. Esse aspecto é esquecido em certas pregações e orientações. Até se diz: “Você não recebeu o milagre, a graça, porque não rezou bem”. Jesus também rezou e muito bem, pedindo para ser livre da morte. E foi ouvido, como nos escreve a carta aos Hebreus 5,7. Deus entende o que é melhor para nós. O Reino nos é dado como Deus quer.

Leituras: 1 Reis 3,5.7-12;Salmo 118; Romanos 8,28-30; Mateus 13,44-52

Ficha nº 1670 – Homilia do 17º Domingo Comum (30.07.17)

  1. Depois de descobrir o Reino, tudo fazemos por ele.
  2. O coração que escolheu o Reino se delicia
  3. “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus”

            Nada de bijuteria

            Lindíssima oração de Salomão que quis acima de tudo a sabedoria. Com ela teve todos os outros bens. A sabedoria é identificada com a Lei de Deus, como lemos no salmo.

            Deus contribui para nosso bem, pois O amamos.

            No evangelho Jesus nos ensina que o Reino é um tesouro escondido que devemos procurar e que por ele podemos dar tudo que não saímos perdendo.

            O Reino é como uma pedra preciosa que encontramos e por ela vale dar tudo. A fragilidade da vida cristã vem do fato de nós não termos coragem de investir a vida. Não somos capazes de perder tudo para ter mais. Preferimos ficar com nossos tarecos que acolher sua riqueza.

            O Reino faz sua seleção como os pescadores que jogam fora os peixes ruins e ficam com os bons. Assim se faz o verdadeiro discernimento. Pelo bem, vale tudo.

 

 nº 1669 Artigo – “O valor do pequeno”

 Medindo pela grandeza

            De onde surge a tendência humana de ser o primeiro, o mais inteligente, o mais rico, o mais bonito, o melhor atleta, o mais sábio, o mais santo? Vemos os campeonatos, as olimpíadas, corridas, os concursos de beleza etc… Em todo campo há a procura de ser o melhor. Não nego nada desse aspecto de estímulo ao esporte, ao estudo, à perfeição e à beleza. Tudo requer muito esforço. Incomoda-me não o esforço, mas o desconhecimento dos fracos e dos frágeis que não têm condições de fazer esse caminho. Não se justifica a indolência, a moleza e a preguiça. Parece ser tendência humana de querer ser mais que os outros, de ser o maior, o melhor, o mais poderoso. São as tentações fundamentais do ser humano. Mas, a medida da grandeza de uma pessoa é ser ela humana.  Os parâmetros e as regras são criações nossas. O ponto de partida deve sempre ser o fato de ser humano nas condições em que se vive. O que não é grande é o mal que fazemos, o amor que deixamos de dar. O desenho de uma criança, o sorriso de um idoso e o carinho que fazemos nos torna sempre grandes. Cada um tem valores imensos. Não medimos resultados, mas o ser humano, o homem e a mulher. As culturas são tão diversas! Isso nos leva a não dar critérios de grandeza a outros. O que conseguimos valorizando um, é desqualificar todos. Estamos em uma cultura da discriminação dos fracos. O que realiza grandes obras é reconhecido. Mas não o fez sozinho. Valorizamos o grande general, que na verdade não foi à guerra. Quem foi, foi o soldado. Um depende do outro. Sem o alicerce não teríamos grandes construções. Eles são os heróis que ficam sempre ocultos.

O valor está no coração

            Parece que Jesus dá um critério de grandeza muito claro em seu Reino: “Houve uma discussão entre eles: Qual seria o maior. Jesus lhes disse… “o maior entre vós torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve”… e dá o exemplo: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,24-27). O grande é aquele que é capaz de sair de si, pois é grande o bastante para poder servir os outros, sem se perder. Supera a grandeza que tem se por a serviço. Supera a situação doentia do poder e da grandeza. Com o poder imaturo as outras tendências ruins tomam mais força a ponto de não se ter consciência do grotesco da situação. A maturidade humano-espiritual pode ajudar na solução de nossos problemas pessoais e da “nação”, sobretudo daquele que está ao nosso lado. Vendo esse aspecto de querer ser o primeiro, o grande, o melhor, não precisam ser eliminados, mas que se ponham a serviço. Sabemos que há grandes astros que procuram ter uma vertente social bem acentuada na sociedade. Por outro lado é preciso ter o valor do serviço no coração para poder ser maior, servindo. As Igrejas padecem desse mal. Essa procura de poder, de glória e de bens é uma doença triste.

Valorizar os pequenos gestos

            Fazer o bem não dá IBOPE. Uma coisa é certa: é mais fácil esconder o mal do que o bem que fazemos, justamente pela grandeza do bem, sejam quais forem os gestos. Na educação da comunidade é muito útil dar valor aos pequenos gestos, sobretudo das crianças. Igualmente é necessário desmontar lideranças que fazem tantas coisas boas, mas não o fazem como serviço. O altar não é lugar para desfilar. A promoção dos pequenos encargos, do reconhecimento dos pequenos gestos favorece a integração e dá condições de descobrirem o dom de servir. Há ministérios que dão visibilidade. Mas há aqueles que são ocultos na humildade e na sabedoria.

nº 1668 – Homilia do 16º Domingo Comum (23.07.17)

“Saber viver com a oposição” 

O Reino e o não-reino

A Palavra de Deus ensina a realidade do Reino de Deus em três momentos: O Reino e seus inimigos; Ele tem uma força interna para seu crescimento como uma semente, mesmo pequenina; é também como o fermento que faz a massa crescer. São palavras que ensinam a vivência do Reino nas situações adversas. Vivemos a fé numa situação de tensão entre o que pensamos e o que o somos. É a planta ruim que cresce junto com o trigo. São parecidos, por isso não se distinguem no início da plantação. Na vida estamos sempre cercados de adversidades que se contrapõem à nossa fé. O Reino sofre contínuas oposições e deve crescer ao lado do mal bem organizado. O mal é forte. Mais forte deve ser o cristão para crescer nessa situação. A oposição o força a ser mais forte e instruir-se. Deve levar em conta que a força o Reino não depende de nós. Dá seu fruto sem que saibamos como. Depende de sua força interior que vem de Deus. É como uma sementinha que tem dentro de si árvores imensas. Assim é o Reino de Deus. Qual é a atitude que podemos ter diante dessa planta nociva que cresce junto? Jesus diz que é com a paciência que devemos esperar a hora da colheita. Aí vão separar. Tratar tudo com humanidade é a condição necessária para o crescimento. Temos que agir como Deus como diz a Sabedoria: “dominando a própria força, julgas com clemência e nos governas com grande consideração” (Sb 12,18). Paulo apresenta a arma para nos proteger: “É segundo Deus que o Espírito reza dentro de nós. Não estamos sozinhos diante das dificuldades. “Ele reza em nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26), quer dizer, com as palavras de Deus que não temos.

Dentro das comunidades

            A vida das comunidades sofre muitas recusas e objeções dentro do próprio grupo. Vivemos em tensões que colocam os fiéis sempre em exercício. Isso fortalece sua capacidade de viver. Podemos pensar diferente na comunidade, mas que não seja por motivos espirituais. São questões humanas. O evangelho não é uma camisa de força. Ninguém, nenhum movimento ou ensinamento esgota o Evangelho. Por isso é importante viver o fundamental que é o amor a Jesus Cristo e a vida de comunidade, apesar das diferenças que não atingem a verdade do Evangelho. Desse modo a fé se fortalece e é força para o ambiente. Seguimos a orientação de Jesus: deixar crescer junto e esperar o dia da colheita. É o modo de Deus agir: Julgar com clemência. O justo deve ser humano (Id). É o que rezamos no salmo: “Vós sois clemente e fiel, sois amor, paciência e perdão” (Sl 85). Sabemos que os outros conhecerão a Deus através de nosso procedimento.

Quando o inimigo está dentro

            Sofremos quando vemos dentro de nós essa divisão: temos coisas boas que devem conviver com aspectos até negativos de pecados. É preciso paciência e saber suportar-se. Não ter medo de ser fraco e acolher as fraquezas dos irmãos. Somos pecadores, temos a tendência para o mal. S. Paulo nos oferece sua experiência: “Constato esta lei: quando eu quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta. Eu me comprazo na lei de Deus segundo o homem interior; mas percebo outra lei em meus membros que peleja contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado que existe nos meus membros” (Rm 7,21-23). Quanto mais a Deus pertencemos, mais humanos seremos. Teremos muitas falhas, mas muita força para lutar. Quem não quer lutar, já perdeu. Precisamos dos auxílios de Deus, sobretudo na oração, na reflexão e na Eucaristia. Jesus passou por isso. E venceu. Venceremos!

Leituras:Sabedoria 12,13.16-19;Salmo 85; Romanos 8,26-27;Mateus 13,24-43

Ficha nº 1668 – Homilia do 16º Domingo Comum (23.07.17)

  1. O Reino de Deus, como a plantação, cresce cercado de pragas.
  1. As comunidades vivem em meio a oposições e diferenças. Paciência.
  1. Dentro de nós há a tendência ao mal. Não podemos nos destruir, mas vencer o mal.

                        Concorrência desleal

            Ouvindo o ensinamento da Palavra sobre o modo generoso do agir de Deus, somos estimulados a sermos humanos. O justo deve ser humano. Poder não significa maldade.

            Na leitura de hoje aprendemos que o Reino de Deus também sofre dificuldades por causa dos inimigos. E faz a comparação da plantação da semente boa. Depois aparece o joio, planta parecida com o trigo, mas maligna. A solução não é arrancar o maligno, pois o bom trigo vai junto. Então a seleção deve vir no final. O joio vai para o fogo. É muito prático para nós em compreendermos os males que a Igreja passa no mundo.

            Que fazer? Acabar com os inimigos do Reino?

            Jesus ensina que a gente pode viver entre pessoas diferentes. Mas não precisamos acabar com elas para viver bem. Temos que conviver e que nosso testemunho as modifiquem. Deus orientará seu futuro.

            Mas encontramos divisão dentro de nós mesmos. Que fazer? Lutar contra os males sem nos destruir, suportando e levando adiante nossa missão. Não podemos nos acabar para acabar com nossos males. É preciso ir vencendo.

 

nº 1667 Artigo – “O verdadeiro crente em Deus”

Deus fez o homem do barro

            A Escritura, mais que de palavras, é feita com o Espírito Santo. Crê quem crê verdadeiramente em Deus e não em seus próprios modos de pensar ou em teorias oportunistas. Precisamos iniciar sempre pelo conhecimento de nós mesmos. O que somos vai nos modelar nosso viver e agir. Tento compreender a partir da própria criação da humanidade. O primeiro passo nos vem do barro do qual fomos formados. Esse barro não é tanto o serviço de um oleiro, mas a descrição de nossa realidade. Somos frágeis e sempre estamos nos ajustando. Crescemos nos adaptando, moldando-nos e sendo moldados. A vida está sempre em movimento. Crer não é somente um ato intelectual de compreensão e de vontade ao dom de Deus, mas está unido ao nosso ser frágil. É na fragilidade que edificamos nossa vida. Fragilidade não é pequenez ou impossibilidade de crescer. É o melhor modo para acolher Deus que nos abre ao infinito crescimento. Crescemos de “glória em glória” diz Paulo (2Cor 3,18). Crer em Deus exige que nos sintamos frágeis e necessitados de sua bondade de Pai. Por isso nos abrimos. Jesus diz que o que Pai ocultou aos sábios e aos doutores e revelou aos pequeninos (Mt 11,25). O orgulho que provém da abundância de riquezas, de ciência e de poder obscurece o conhecimento de Deus. É um bloqueio que os humildes não têm, por isso podem conhecer o bem maior.

Soprou-lhe a alma espiritual

            Naquele barro Deus soprou o hálito de vida. E o homem se tornou alma vivente (Gn 2,7). É um ser vivo e tem a dimensão espiritual. Não foi criado como os outros animais. Sabemos que no momento da concepção é criada para cada homem uma alma única e intransferível. Não é somente um ser animal, mas também espiritual. Esse fôlego de vida que veio de Deus é uma participação em sua Vida Divina. Todos nós participamos da vida de Deus porque assim Ele nos fez. Isso não é uma opção, é um dom dado ao barro frágil. A dignidade do homem vem desse dom. Para crer usamos nossos sentidos espirituais de inteligência, vontade, sabedoria, consciência. Tudo isso será acrescido com o Dom que é o Espírito Santo. Ele penetra todo nosso ser. Temos tantos outros dons que nos fazem viver com intensidade. O grande dom da consciência nos fortalece e torna nosso frágil barro em fortaleza diante dos empreendimentos e das dificuldades da vida. Contemplando o mundo, podemos ver como o ser humano se desenvolveu nessa longa história da humanidade. Nós temos os resultados. Os dons espirituais nos elevam a grande dignidade do ser humano, pois podemos participar de forma completa da Divindade. Ainda mais quando sabemos que Jesus uniu essa fragilidade à Divindade. Quanta riqueza. Para crer é preciso aceitar.

Crescei e multiplicai-vos

            Deus deu a partida na raça humana: Sede fecundos! Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra (Gn 1,28). Não somente aumentar a raça humana, mas criar e viver junto com os outros e estar unido ao outro fiel que crê em Deus. Toda humanidade é uma grande família. A fragilidade gera forças na unidade. Toda divisão, seja de raça, de cor, de crença, de condições, não tem sentido, pois todos viemos do mesmo Deus e voltamos para Ele. A riqueza do universo é a fraternidade. Tudo feito para todos. Ninguém é dono de nada. Somos passageiros e não levamos as paisagens conosco. Essa maravilha nos estimula a aproveitar nossos dons para que o mundo seja melhor. Crer em Deus é um dom precioso, pois responde à nossa condição humana. Crer e amar a todos é instaurar a condição Divina entre nós. Quem recusa outra pessoa como irmão, recusa Deus como Pai de todos.

nº 1666 – Homilia 15º Domingo Comum (16.07.17)

“Semeando a Palavra”

Que terra somos?

            Conhecemos bem essa parábola da semente que é lançada à terra. No tempo jogavam a semente e depois revolviam a terra para enterrá-la e esperar a chuva. Podemos entender a comparação da semente jogada e que cai em diversos tipos de terra: terra de caminho, que é dura; terra em terreno pedregoso, não tem umidade; semente que caiu entre os espinhos, no meio do mato, é sufocada; e semente que caiu em terra boa. Esta produz em abundância. E Jesus diz uma palavra pesada: “Quem tem ouvidos, ouça” (Mt 13,9). Trata-se da compreensão de toda a pessoa, não só da audição. Que possam perceber a sabedoria de suas palavras. Jesus retoma as palavras de Isaias 48,6 e Deuteronômio 29,4. Dizer ouvidos, olhos e coração compreende toda a pessoa. Jesus diz que o fechamento é total. Há sempre a possibilidade de se fechar. Esse foi o problema que acompanhou a história do povo de Deus e continua acontecendo. Sem conversão os males só aumentam. A terra inculta não produz fruto. Essa Palavra de Deus nos questiona muito perguntando o que colocamos como impedimento de sua germinação em nós. Falta de compreensão, não deixar a planta crescer, falta de persistência, excesso de preocupações e ilusão com a riqueza… Tanta coisa impede. Impede porque não estamos abertos a Deus. Mas, o pouco que conseguimos fazer sempre produz fruto. Mesmo que não seja total, o pouco que podemos é o tudo que Deus acolhe.  A oração da missa nos estimula a “aprender a rejeitar o que não convém ao cristão, e abraçar tudo o que é digno desse nome”.

Glória que nos espera

            A semente plantada produz fruto. Os que ressuscitaram com Cristo produzem fruto no mundo e se destinam a uma glória da qual não temos noção como será grande. Escreve S. Paulo: “Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente não merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós” (Rm 8,18). Citando 1 Coríntios 2,9, retoma as mesmas palavras que Isaias usa para a recusa da Palavra num sentido de incapacidade de poder ver o que nos espera na Glória: “Os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam”. Acrescenta ainda a maravilhosa reflexão sobre a natureza que espera “ser libertada da corrupção e, assim, participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus” (Rm 8,21). É uma reflexão sobre o futuro do mundo, do homem e da natureza. O que há na natureza que a faz sofrer? O pecado humano no mau uso dos bens criados. Nossa ressurreição irradiará sua glória no mundo. Como participamos da natureza, ela participará da glorificação como participa da glorificação de Cristo. Vemos os sacramentos que têm seu lado cósmico usando os bens da natureza para que seja dada a graça, de modo próprio chegará à glória, pois Paulo ensina que o universo será recapitulado em Cristo (Ef 1,10).

A força da Palavra

            Nesse panorama meio sombrio da falta de religião do povo e do desinteresse, temos a palavra de Isaias que demonstra a força da Palavra. Pensamos que tudo depende de nós, mas termos certeza que tudo depende de Deus. Nossa colaboração é necessária. Deus respeita nossa liberdade. Basta uma semente da Palavra, é já uma grande plantação. É como a chuva que produz seu efeito. Deus não desiste de nós. Sempre está oferecendo sua Palavra que alimenta, fortalece, cura e estimula. Quanto mais nos abrirmos, mais ela é será fecunda. Vejamos que terra somos. Em cada celebração ouvimos a Palavra. Ouçamos

Leituras: Isaias 55,10-11; Salmo 64; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-23:

Ficha nº1666 – Homilia do 15º Domingo Comum (16.07.17)

  1. Terra boa é o acolhimento. A semente produz fruto pela força da Palavra.
  2. A ressurreição com Cristo é a libertação da natureza. Tudo se endereça a Cristo.
  3. A semente lançada é como a chuva que sempre produz frutos.

            Ouvido entupido 

            A parábola é conhecida, mas a frase de Isaias que Jesus usa é menos conhecida, mas é ela que dá o sentido ao pouco resultado da plantação. Como a semente simboliza a Palavra, ouvi-la e acolhê-la vai dar muito fruto. Não ouvir não é somente um problema de audição, mas é o fechamento de tudo o que somos: os olhos não vêem, os ouvidos não ouvem nem o coração compreende. É a terra que não dá fruto.

            Por isso, o texto ensina cuidar como ouvimos.

            A Palavra de Deus tem uma fecundidade muito grande, como a produzida pela chuva que cai do céu, molha a terra e faz brotar as sementes para que tenha o grão e depois o pão para o alimento. Não volta sem realizar.

            Mas o ouvido entupido por tudo o que corre pelo mundo, bloqueia a ação de Deus.

O sofrimento não obstrui o ouvido nem fecha o coração, pois a própria natureza quer se libertar desse mal provocado pelo coração fechado do homem.

nº 1665 Artigo – “A força do cotidiano”

  1. Não muitas, mas serenas

            “Não contamos as horas pelo número, a não ser as serenas” (horas non numero nisi serenas). Esse provérbio latino nos diz que o que valem são as horas boas, serenas e gostosas de viver. Bonito, mas nem tanto, pois a vida se compõe de claro e escuro. Se todo dia for festa, nunca haverá festa. A vida é composta de momentos alegres, momentos tristes e momentos do cotidiano. Vivemos nessas três modalidades que nos equilibram. O tempo litúrgico que vivemos me estimula a uma reflexão sobre o sentido do cotidiano. A liturgia tem grandes festas e depois volta ao “pão nosso de cada dia”. Temos Tempo do Natal, Tempo Pascal e Tempo Comum. Este, também chamado de Ordinário segue uma ordem. São 34 semanas que se seguem, sendo uma parte antes da Quaresma e, a maior parte, depois da Páscoa. Nesse tempo não se celebra um mistério específico de Cristo, como o Nascimento, a Morte ou a Ascensão. Mas o mistério de Cristo como um todo, acompanhando um dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). João é lido em alguns tempos definidos. Seguimos o caminho do evangelho, vivendo o mistério no seu todo, lido em cada domingo. Durante a semana há outro esquema: Lê-se todo evangelho e textos das epístolas e do Antigo Testamento. No arco de três anos lemos 90% da Bíblia. Desse modo a vida também requer que se viva intensamente o momento presente com aquilo que ela oferece. É um ensinamento sobre a vida. Como nosso organismo tem um ritmo contínuo e sereno, assim, o dia a dia é uma oferta de vida. Jesus diz: “Não vos preocupeis com o amanhã, pois o dia de amanhã se preocupara consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal” (Mt 6,34). Cada dia é completo.

  1. Aproveite o dia

            Igualmente temos o provérbio “carpe diem”. Essa expressão vem das odes de Horácio, que significa, aproveite o dia. Não queira viver amanhã. Isso Jesus já diz quando ensina o adequado modo de viver buscando hoje o essencial: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,33). Dá ainda a explicação mais aprofundada, pois o sentido da vida não só está em aproveitar o máximo de prazer que possa ter, mas dar sentido pleno ao dia porque, vivido a partir do Reino, será completo eternamente. Como cremos na Ressurreição, temos uma direção. Se não temos o sentido, então poder-se-á dizer “comamos e bebamos porque amanhã morreremos” (1Cor 15,32). O dia nos traz a riqueza de todo o universo. O Reino de Deus está plenamente presente. Podemos dizer que a eternidade está presente para nos fazer completos. Ela não é algo que vem depois da morte, mas nos preenche de sentido. A presença do mistério de Deus em nossa vida é silenciosa como a vida é silenciosa. Aproveitar é viver na serenidade que usufrui o dom da vida e da eternidade. Fácil viver. Basta viver o momento presente. Ele dá base para o futuro. Se viver bem hoje, o amanhã já está preparado.

  1. Nada é perdido

            Temos o defeito de ver a vida como produção de coisas, como uma empresa que procura lucros e acumula bens. A vida está primeiro no ser, depois do ter e no produzir. Não perdemos tempo quando estamos dedicados aos outros. O tempo que perde com o outro é o tempo bem aproveitado. Ser para, é ser completo, pois temos tudo a ponto de poder dar aos outros. As pessoas que mais saíram de si, foram as que mais se conquistaram. O que nos faz perder é querermos só ganhar. Jesus sempre coloca sua mensagem ao avesso da nossa. A melhor vantagem é não procurar vantagens.

nº 1664 – Homilia do 14º Domingo Comum (09.07.17)

“Viver segundo o Espírito” 

Os pequenos acolhem

            O texto evangélico de hoje nos coloca bem no âmago do Evangelho de Jesus que se alegra grandemente porque os pequeninos acolhem a Boa Notícia da revelação de Jesus. Eles acolhem e são os primeiros destinatários. É o júbilo messiânico. Jesus se dirige ao Pai em grande louvor. Também aos “sábios e entendidos” é anunciado o Evangelho, mas permanece oculto, pois estão fechados ao amor de Deus. Muitos destes são interessados e vivem em santidade. Outros aceitam enquanto não os incomodem e não os comprometem com o cuidado amoroso de Deus para com os necessitados. Esse aspecto de pequenez e humildade é uma característica fundamental do Filho de Deus que se encarnou. Como lemos na primeira leitura, o profeta Zacarias (não o pai de João Batista) diz sobre o rei que vai chegar: “Eis que vem seu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento… Ele exterminará a guerra e anunciará a paz” (Zc 9,9-10)… A figura do Rei – Messias não é o glorioso guerreiro num cavalo garboso. Nós temos a tendência ao triunfalismo. Jesus não era assim. É o que lemos no salmo 144 falando de Deus: “Misericórdia e piedade é o Senhor, Ele é amor, é paciência e compaixão. O Senhor é muito bom com todos; sua ternura abraça a toda criatura” (Sl 144,8-9). Jesus é a imagem viva do Pai. Quando queremos essas atitudes estamos vivendo segundo a carne (Rm 8,12).

 Meu jugo é suave

            Jesus convida a irem a Ele os sofredores: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos e Eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Esse convite “vinde” ressoa o convite que é a Sabedoria para o grande banquete aberto a todos os povos (Pr 9,5). O convite de Jesus mostra dois aspectos para nossa compreensão da fé: “Meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,30). A carga e a cangalha que dominam o animal simbolizam o peso que carregamos. Estar sob o poder de Deus não é um peso. Carregar as exigências da fé não é um sofrimento que suportamos. Seus mandamentos não são pesados diz S. João (1Jo 5,3). Os mandamentos não são pesados para fazer sofrer nosso coração. Segui-los nos alivia de tantos males. São outros nomes do amor. Jesus já carregou a pesada cruz para o Calvário em nosso lugar. Nossa cruz não é pesada, pois quem a dá é o próprio Jesus que sabe o que podemos suportar. “Deus não permitirá que sejais tentados acima de vossas forças… mesmo tendo a tentação, Ele vos dará os meios de sair dela e a força para suportar” (1Cor 10,13). O problema não são as tentações, mas a facilidade com que nos deixamos levar pensando que o que nos agrada é que é o certo. Isso é o pior.

Fé não é peso

            Há mais um ensinamento nessas palavras de Jesus: “Meu fardo é leve”. Já há tempo, na história vemos que há uma tendência de rigidez na vida cristã como se o rígido, o severo e o exigente sejam o caminho mais seguro para a salvação. Impôs-se uma fé pesada, uma religião dura. Quanta severidade! Jesus não era assim. Quer que sejamos exigentes no amor. Há uma heresia (doutrina errada) que influencia muito a mentalidade do povo e de certas lideranças. A severidade não se confunde com grosseria, prepotência ou falta de educação, pois a verdade pode ser ensinada com boas palavras. Deve-se condenar o pecado e não maltratar o pecador. Não se trata de ceder ao mal. Quanta gente se afastou da Igreja por maus tratos de sacerdotes e gente da sacristia. A fé é alegria. Não é pesada. A rigidez, peguemos para nós, não impor aos outros. Não jogar sobre os outros nossos problemas.

Leituras: Zacarias 9,9-10; Salmo 144; Romanos 8,9.1-13;Mateus 11,25-30

Ficha nº 1664 – Homilia do 14º Domingo Comum (09.07.17)

  1. Jesus se alegra porque os pequeninos acolhem a revelação de Jesus. Ela é oculta aos sábios e aos entendidos porque fecham o coração. Jesus é como o Pai que é bom.
  1. Estar sob o poder de Deus não é um peso. Carregar as exigências da fé não é um sofrimento que suportar.
  1. Já há tempo, na história vemos que há uma tendência de rigidez na vida cristã como se o rígido, o severo e o exigente sejam o caminho mais seguro para a salvação 

                        Carga leve

Quem diz que religião incomoda, está incomodando a religião. Religião que incomoda não é de Deus.  O que é de Deus é a simplicidade, a mansidão e humildade. É o que nos dizem as leituras.

O glorioso Rei, Senhor do Céu e da Terra vem a sua cidade não montado num cavalo garboso, mas no humilde jumento. Ele vai eliminar toda a arma de guerra. Vem para a paz. É a linguagem que o povo entende. Por isso Jesus, ao entrar em Jerusalém usa esse jumento.

Não é só simples para demonstrar aos outros, mas simples para acolher. É Nele que podemos encontrar o repouso e o descanso. Nada de coisas pesadas e complicações. Diz: meu jugo e suave, (jugo é a cangalha que se colocava sobre o animal e Jesus usa como aquilo que nos oferece). E meu fardo é leve. Deus não nos dá pesos que não possamos carregar. Mesmo quando há algo pesado na vida, Ele está junto.

Os que o entendem são os humildes. Cuidado com religião de peso. Isso não é de Deus, mas fruto de nossa maldade. Se quiser algo pesado, ponha sobre suas próprias costas e não nas dos outros.

nº 1662 – Homilia da Sol. de S. Pedro e S. Paulo (02.07.17)

“Festejamos Pedro e Paulo” 

Deram as primícias da fé

             Pedro, homem de pouca instrução, Paulo homem bem formado. Pedro pobre e Paulo tecelão de qualidade. Cada um deles contribuiu, a seu modo, para o desabrochar da Igreja. Jesus confiou-lhes ministérios diferentes na mesma fé. “Pedro, o primeiro a proclamar a fé, e fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel” (Prefácio). A ele foi confiada a evangelização dos judeus mantendo assim a promessa feita aos patriarcas para o futuro do povo. Pedro se dedicou de coração aos judeus, mas soube usar as chaves do Reino para abrir o evangelho aos pagãos, como foi no caso do batismo de Cornélio (At 10, 1-48), dando uma interpretação completamente diferente e nova ao relacionamento dos judeus e pagãos que eram considerados impuros. A visão era uma ordem para comer animais impuros. Havia uma proibição de comer animais impuros como lemos em Levítico 11. A visão de Pedro insiste que Deus não considera ninguém impuro. Assim as chaves de Pedro abrem as portas do Reino de Deus a todos os povos. Há uma comparação entre os pagãos e os animais impuros. Paulo, superando tudo que aprendera do judaísmo foi capaz de continuar judeu e unir-se aos pagãos com sua evangelização. Desse modo esses dois homens são as bases da fé para o mundo gentio – pagão e para os judeus. Jesus é uma novidade total. E por isso arriscam suas vidas. Rezamos no salmo: “E de todos os temores me livrou”. A fé que os fundamentou na missão tem fragilidades, mas foi suficiente para dar bases ao edifício da Igreja de Cristo. “Os ensinamentos desses dois apóstolos nos deram as primícias da fé” (Oração). Esta abertura que lhes proporciona a fé torna-se a garantia do futuro. Paulo diz que depois das batalhas lhe está reservada a coroa da justiça (2Tm 4,8).

A união dos dois apóstolos

            Pedro e Paulo são diferentes em sua experiência de Jesus. Pedro viveu com Jesus, Paulo O conheceu de modo diferente recebendo dele a missão para o mundo pagão. Às vezes até se contrapondo puderam discernir não a partir de suas idéias, mas a partir da fé em Cristo na Igreja. Nas discussões do grande tema da conversão dos pagãos, buscam o bem da Igreja e não suas próprias idéias. A união dos dois apóstolos vai ao extremo de darem a vida por Cristo em Roma, centro do mundo. Jerusalém foi lavada com o sangue de Cristo. Roma, com o sangue dos dois apóstolos. Ela tornou-se propulsora de evangelização. Não pode faltar o testemunho.. Os dois têm o mesmo sentimento da presença de Cristo: Paulo diz: “O Senhor esteve ao meu lado e me deu forças” (2Tm4,17). Pedro diz com confiança: “Agora sei que o Senhor enviou seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava” (At 12,11).

Mestres da Igreja

            Podemos aprender desses dois homens como discutir para discernir, não para ganhar. As tensões que a Igreja vive são, às vezes,        insolúveis por não se buscar o bem de Cristo. Puderam abrir a porta aos pagãos sem fechar aos judeus. Paulo foi sempre mestre porque foi sempre aprendiz, procurava conferir com os mestres de Jerusalém, os apóstolos e anciãos, se ele estava caminhando certo (Gl 2,2). Essa sabedoria humilde é capaz de construir. “A sabedoria incha, a caridade edifica (1Cor 8,1). Lembremos também que o Papa Francisco, com carinho e força, dirige a Igreja agitada pelas ondas de tantas maldades e pecados. Deus lhe dê força. A nós cabe a ousadia de ouvir esses dois monumentos de fé e assumir suas atitudes na Igreja hoje. Atitude de fé e fortaleza contra os males do mundo.

Leituras: Atos 12,1-11;Salmo 33; 2 Timóteo 4,6-8.17-18;Mateus 16,13-19.

Ficha nº – Homilia da S. de S. Pedro e S. Paulo (02.07.17)

  1. O ensinamento dos dois apóstolos nos deram as primícias da fé.
  2. Os dois apóstolos são diferentes, trabalham de modo diferente, mas unidos.
  3. Podemos aprender desses dois homens como discutir para discernir, não para ganhar.

            Abrindo o cofre

            Estamos acostumados a ver a segurança de lugares onde estão valores altos e coisas preciosas. Há chaves, senhas, segredos para garantir o local. Jesus também confiou a um homem simples, mas esperto, a segurança dos bens espirituais. Ele se chama Pedro, o homem pedra, fortaleza, garantia.

            Num momento de sua vida Jesus precisou de uma prova para ter certeza de poder confiar: “Quem sou eu para vocês?” Pedro diz: “Tú és o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Posso confiar disse Jesus: “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. Nem o diabo tem força sobre ela. “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus”. Para abrir e fechar. (Mt 16,16ss).

            A fé de Pedro e de Paulo são as chaves da segurança. Paulo combateu o bom combate e guardou a fé. Ambos sempre sentiram a presença de Cristo: “O Senhor esteve ao meu lado”…

            Não precisamos nem de Anjos, nem de milagres para garantir a Igreja. Basta a fé que nos foi transmitida por esses dois homens que deram a vida por Cristo. Assim se forma e se fortifica uma comunidade. As chaves não são para fechar, mas para abrir a abundância da fé em Jesus.

 

nº 1661 Artigo – “Solidão que não pesa” 

  1. Em busca de um deserto

            Sempre houve na Igreja e, em outras culturas, a busca pelo deserto. No início do cristianismo, o cristão mais autêntico era aquele que dava a vida por Cristo no martírio. Com a diminuição dos martírios, surgiu outro fenômeno muito forte que ainda tem vigor: a busca da solidão no deserto. Foi uma verdadeira maré de homens e mulheres buscando a vida solitária para o encontro com Deus e a vitória sobre o mal. Imitavam Jesus que foi ao deserto e venceu a tentação. Diante da crise de mundanismo que se vivia no império romano, procuravam a simplicidade. Faziam uma fuga do vazio para a plenitude na busca do único necessário. Não se tratava de fugir da realidade, mas ser útil à realidade espiritual do homem. Foram pessoas de vida muito longa. Com S. Basílio no Oriente, S. Pacômio no Egito e S. Bento no Ocidente, perto de Roma, surgiu um novo modo de vida solitária. Com o tempo criou-se a necessidade de viverem em comunidade para refazerem em si a vida da comunidade primitiva, sem perder o direito à solidão, como S. Afonso de Liguori fez indo para Scala para fundar a Congregação Redentorista. Essa solidão acontece dentro do indivíduo que quer ser dono de si mesmo e construir-se livremente sem deixar que o vazio seja uma condição de vida. O esvaziar-se é o caminho para capacidade de escuta. Por isso encontramos no deserto a grande missão dos “mestres” “pais espirituais” que introduziam nessa busca de si mesmo para o autoconhecimento e densidade do vazio interior. Procura-se ser o homem à estatura de Cristo (Efésios 4,13). O povo judeu viveu quarenta anos no deserto para amadurecer sua capacidade de entrar na terra prometida. Jesus fez quarenta dias de deserto. Saiu maduro para a missão.

  1. Vivendo só

            Não estou procurando fazer propaganda da vida monacal. Quero procurar entender meditando sobre uma situação que vivemos na sociedade atual. Antes se fugia para o deserto para sair do vazio da sociedade para encontrar o sentido na solidão. Agora encontramos uma sociedade vazia que procura preencher o sentido com tantas novidades e agitações. Mesmo no meio dessa massa, o indivíduo vive só. Essa solidão aumenta quando retorna para casa e se está só. Vemos a situação das famílias desagregadas complicando mais ainda esse quadro. Dois males a evitar: viver só no meio da multidão e viver sozinho com a multidão dentro de si. A pessoa está ficando muito só. As famílias são pequenas, se dissolvem com facilidade, as visitas caíram de moda, vizinhos não se conhecem mais etc… Pior a situação dos que ficam idosos e são solteiros ou sozinhos. É um deserto compulsório. “A solidão me dói!”. Mesmo os que vivem com alguém, provam ser solitários dentro de uma casa com mais pessoas, ou dentro de um convento com confrades.

1905.Uma pastoral a se fazer

            É o momento de pensarmos numa pastoral para os solitários que não se enquadram num programa de terceira ou a melhor idade. Ouvi de uma experiência feita de se celebrar juntos o Natal reunindo essas pessoas. Essa pastoral deve conduzir a pessoa a assumir uma atitude eremítica – viver só, mas com plenitude. É uma volta interior ao deserto e ali encontrar Deus. É um desafio. Com os meios de comunicação à nossa disposição podemos criar a comunidade virtual dos que procuram Deus na solidão. As noite longas, como dizia Pe. Vitor Coelho, servo de Deus, são o momento de falar com o Pai. Perdemos muito tempo com inutilidades e até com perversões, em lugar aproveitá-lo para a vida que vale. Quem sabe seja o momento de procurar retomar o sentido do deserto na condição atual.

nº 1660 – Homilia do 12º Domingo Comum (25.06.17)

O medo não vem de Deus

Jesus escolhe os doze apóstolos e ensina como devem ir e previne que serão perseguidos. Estimula a não terem medo, pois a missão é Dele. É Ele quem continua a anunciar através de seu discípulo. A primeira leitura, de Jeremias, mostra a sorte do discípulo. Ele é o exemplo de sofrer a perseguição e declarar a confiança. Paulo, na carta aos Romanos, ensina que o pecado entrou no mundo. Nós anunciamos o evangelho num mundo de inimigos. É o inimigo mortal que quer dar morte aos seguidores de Jesus. Compreendemos o que diz Jesus: “Não temais de quem mata o corpo, mas não pode matar a alma” (Mt 10,28). Três vezes, neste evangelho, temos as palavras fortes de Jesus: “Não tenhais medo!”. Todas as manifestações de Deus propondo uma missão, são precedidas destas palavras: “Não tenhas medo”. O anjo disse a Maria: “Não temas, Maria, pois encontraste graças da parte de Deus” (Lc 1,30). O motivo é simples: O que vem de Deus não nos faz mal. Deus jamais coloca o cristão em perigo. Ensinamento que amedronte as pessoas, não vem de Deus. Vemos que certos tipos de feitiçarias, “trabalhos” e ameaças de castigo querem impor medo. Há superstições, devoções e certas pregações que impõem medo. Elas não procedem do Espírito de Deus! Tudo que Jesus propõe, não dá medo.  Vem do maligno que é perigoso. Esse pode fazer-nos perder não só o corpo, mas também a alma (Mt 10,28). Jesus propõe e não impõe com violência de autoridade. Se falava com autoridade, é porque era coerente. Sua palavra era dirigida para a Vida.

Razão da confiança

Ao lado da palavra temer, encontramos a proclamação da fonte da confiança: Nenhum pardal cai no chão sem o consentimento do Pai. Deus toma conta até dos cabelos de nossa cabeça (Mt 10,29-10). Se entrarmos na jogada com Deus, podemos ter confiança. Vejamos o testemunho de uma menina de sete anos: A mãe pede-lhe um favor e diz: Você está não com medo de ir no escuro? Ela responde: “Eu confio em Deus. Eu tenho fé em meu Deus”. Quando se fala que fé é um pulo no escuro, quer dizer que é um pulo na confiança em Deus. Está tudo muito claro. Em Deus não há obscuridade. Quando nos propõe, sabe de nossa força. Na Angola aprendi um provérbio: Aquele que te põe o peso nas costas vai contigo. Por isso S. Paulo diz: “sei em quem acreditei” (2Tim 1,12). O profeta Jeremias é contundente: “O Senhor está a meu lado, como um forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos” (Jr 20,11). Todos os santos foram especialistas na confiança em Deus. Os problemas eram tão duros como agora, mas a força de resistências estava na certeza de que não estavam sozinhos. O que Deus quer, eu quero, diziam.

Com sofrimentos

A proteção de Deus não elimina a possibilidade de seguir de Jesus também em seu sofrimento. O inimigo pode matar o corpo, como matou o de Jesus. Mesmo assim podemos ter confiança, pois não pode matar a alma. Jesus, no último momento se entrega nas mãos do Pai, sabendo que não O abandonaria no poder da morte.  Por isso: não temais! A raiz do medo é o pecado. A raiz da confiança é a fé em Jesus. Os discípulos ficaram apavorados com o mar agitado e Jesus dormindo sossegado no barco. Gritaram: “Mestre não te importa que pereçamos”… Jesus disse: “Silêncio! Quieto!” E disse aos discípulos: “Por que tendes medo assim? Ainda não tendes fé?”(Mc 4,38-40). Ficamos apavorados nas dificuldades. Será que não temos fé? Papa Francisco diz que não perde o sono por causa dos problemas.

Leituras:  Jeremias 20,10-13; Salmo 68; Romanos 5,12-15; Mateus 10,26-33

Ficha nº 1660 – Homilia do 12º Domingo Comum (25.06.17)

  1. O que vem de Deus não faz mal.
  2. Ao lado da palavra temer, encontramos a palavra confiança.
  3. A raiz da confiança é a fé em Jesus. 

Nada de segredo

Há uma onda de pecado que invade avassaladoramente o mundo. Deus não inventou o mal. Paulo diz que o pecado de Adão passou a todos. E fez um mal muito grande. Mas acrescenta que o novo Adão, Jesus, veio para curar todos os males. Se o mal fez mal, o Bem faz um bem muito maior.

Para levar adiante essa missão redentora Jesus envia seus apóstolos e todos nós.  Não há o que temer. Todo o mal, mesmo o mais oculto vai ser atingido pela força da graça. É para anunciar e não guardar esta riqueza só para si. É para anunciar de cima dos telhados.

Não é para ter medo, mesmo que acabem conosco. O Pai cuida de nós mais que cuida dos passarinhos. Ele cuida de todos os detalhes. O profeta Jeremias foi perseguido, mas sentiu a força de Deus a seu lado.

O Pai não vai se esquecer de nossa coragem e nossos sofrimentos. Ele dará a recompensa. Estará ao nosso lado diante do Pai. Não há o que temer. Há que anunciar.

 

nº 1659 Artigo – “Coração quer coração”

Um coração para amar

            Estamos num mês dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. É verdade que o corpo sem coração não vai muito longe. Assim também a vida humana sem o Coração de Jesus não pode dar bons resultados. Não se trata de ter uma devoção mas, sobretudo de ter uma opção de vida unindo-se ao coração Daquele que disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração;… Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). Uma devoção é muito boa quando experimentamos seu conteúdo, não simplesmente nas formas exteriores, como novena e oração executada e contada como se fosse um negócio. O fundamento da devoção ao Sagrado Coração não se reduz a seu coração de carne, mas a todo o amor de Deus manifestado em Cristo, simbolizado em seu coração. Como toda devoção há modos de vivê-la, formas de oração, uniformes, fitas, estandartes, linguagem especial, irmandades… e tantas coisas mais bonitas e frutuosas. O erro é ficar só nisso e não ir ao profundo dessa irmandade, confraria ou movimento. O fundamental é a contínua renovação. É um modo de aproximar-se do Evangelho e compreendê-lo. Sem isso, torna-se vazia a devoção. A devoção ao Sagrado Coração toca direto o amor do Pai em dar Cristo ao mundo para manifestar seu amor. Amor para amar. Devoção que é um projeto de evangelização através do amor. Não podemos parar no egoísmo espiritual que procura ganhar graças e méritos. As grandes promessas não podem ser vistas somente como um presente pessoal. Elas continuam no caminho de Jesus que veio para amar.

  1. Coração aberto pela lança

             O último momento de Jesus na cruz houve ainda o último lance para garantir a visibilidade de sua entrega amorosa: o golpe da lança que lhe furou o peito e penetrou em seu coração. Se pensarmos, foi ali o momento em que a humanidade quis entrar e tomar conta desse coração. O homem ferido pelo pecado dá o golpe final em seu peito. Por ali entrou e encontrou a libertação. Só dentro desse coração ferido que se pode encontrar vida. “E correu sangue e água” (Jo 19,34). Sem derramamento de sangue não há redenção (Hb 9,21). Encontrou a fecundidade, vida do Espírito. Ali, rompendo o véu do templo de seu corpo, do Homem – Deus, o humano encontra o Paraíso (Hb 10,19). O coração aberto pela lança abre o peito do Filho de Deus como caminho novo e vivo (Id). Entramos nas delícias que Deus reservou para nós. Temos assim algo mais para compreender esse momento: Como o coração do Filho de Deus foi aberto para dar entrada a todos, o coração de cada um tem que ser aberto para que experimentemos o que Deus nos oferece.

  1. Mãos abertas.

            As imagens que vemos do Coração de Jesus têm mãos estendidas, abertas simbolizando a riqueza de seu coração a serem distribuída abundantemente. “De seu seio correrão rios de água viva” (Jo 7,38). Imaginemos que bem fazem os que amam a Deus. Rios de água viva dão vida por onde passam. Esse rio nasce do Coração de Jesus. Tão triste ver cristão, devotos do Coração, não ter nenhuma preocupação com os que sofrem. Ser generoso não empobrece ninguém. Enriquece sempre mais. O amor não soma, não diminui. Sempre multiplica. Quando lemos a multiplicação dos pães, compreendemos que os cinco pães e dois peixinhos alimentaram cinco mil pessoas. Assim é o amor.

nº 1658 – Homilia do 11º Domingo Comum (18.06.17)

“Jesus compadeceu-se das multidões”

Compaixão é missão

Jesus, em seu ministério, quis associar a Si, discípulos que pudessem exercer sua missão e continuá-la. O discurso sobre a missão inicia-se com o chamamento dos doze apóstolos. A seguir dá-lhes a instrução sobre como agir em sua missão da qual são continuadores. A missão dos doze não nasce de um projeto feito em escritório. Nasce do olhar compassivo de Jesus que “ao ver a multidão, teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). Esse olhar de quem ama e sabe se compadecer é a fonte, o móvel e a razão da missão. É esse olhar compassivo que vai dar o modo de realizar esta obra redentora de Jesus. Junto à compaixão de Jesus, encontramos seu pedido: “Pedi ao Senhor que envie operários para sua colheita” (Mt 9,38). Por que Jesus pede que se reze para que Deus mande operários? Ele não sabe? Dá a perceber que o Pai é quem sabe quem poderá exercer a missão da compaixão para como os abandonados. Rezar pedindo operários é um ato de fé que abre o coração para que a bondade de Deus continue sempre presente, mesmo nessas coisas que são, às vezes, claras. Como Deus sempre chega antes que possamos nos manifestar, o pedido por operários quer prevenir que a multidões sofridas não fiquem sem socorro. Por isso quer escolher aqueles que Ele quis. Quer operários formados na compaixão de Jesus. Nossas exigências podem escolher operários que não realizem os planos de Deus.

Eis os nomes dos doze

“Estes são os nomes dos doze apóstolos”. Trata-se personalização o fato de dizer os nomes. Cada apóstolo tem seu nome e sua característica pessoal. O apóstolo não é um número, não é uma empresa, não é um funcionário. Ele é o homem concreto que assume com Jesus a missão. Cada um é único. O homem é chamado pelo nome e conhecido na sua realidade com seus dons e defeitos. O grupo escolhido por Jesus tem diversidade de pessoas e de caráter e condições. Aqui se dá uma pista para nosso trabalho de formação de discípulos para a missão de Jesus: não engessar todos no mesmo modelo. Temos essa tentação e até definição que todos têm que realizar o mesmo programa e apresentar o mesmo padrão. Assim, muitos não serão atendidos porque não há quem possa se reconhecer neles. A formação dos operários do Senhor tem o mesmo padrão, fará a mesma obra, com os mesmos princípios. Não foi assim que Jesus fez. Por isso podemos notar a falta de operários para a messe. Pior, cresce o abandono de muitos. Quem sabe, personalizando mais a formação, poderemos dar mais socorro aos que são diferentes.

Um Reino que chega

A missão do apóstolo é anunciar a proximidade do Reino. O anúncio feito pelo discípulo é mostrar ao mundo que Deus está perto. Isso será provado pelas curas que fazem em nome de Jesus. Atinge o homem completo, em sua situação.  O Reino só vai se tornar presente com nossa ajuda, pois a eliminação da dor, da doença, da morte e do mal são indícios da presença atuante do Reino de Deus, isto é, do mundo novo que Deus quer criar. É necessário que esta pregação renove a condição humana. Uma das condições para ser discípulo é ter o olhar compassivo de Jesus, pois somente assim podemos fazer o que fazia. O que fortalece a fé dos discípulos é a certeza do amor de Deus. Amor de Deus é o Reino. Este Reino não é uma teoria, mas um amor que é um dom: “a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8).

Leituras: Êxodo 19,2-6ª; Salmo 99; Romanos 5,6-11; Mateus 9,36-10,8

Ficha nº 1658 – Homilia do 11º Domingo Comum (18.06.17)

  1. A missão dos doze discípulos não nasce de um projeto racional. E sim do olhar compassivo de Jesus que “ao ver a multidão, teve compaixão dela”.
  2. “Estes são os nomes dos doze apóstolos”. Trata-se personalização o fato de dizer os nomes. Cada apóstolo tem seu nome, sua característica pessoal e missão particular.
  3. Uma das condições para ser discípulo é ter o olhar compassivo de Jesus, pois somente assim podemos fazer o que fazia.

Emprego novo 

            O povo do Antigo Testamento nos traz a experiência de ser povo de Deus. O que lhe dá garantias é ouvir sua voz. Assim ele é uma nação santa. Jesus também está sempre falando aos seus confiando-lhes os compromissos do Reino. Como no Antigo Testamento constituiu um povo, agora constitui a base do novo povo que são os doze apóstolos

            Para esse Reino ir adiante e se implantar, Jesus escolheu homens que fossem continuação de sua missão e sua presença no mundo. São a nova nação santa e reino de sacerdotes.

            Essa missão é transformadora. Vão eliminar o poder do mal que atinge a pessoa até em seu físico. Há tantos tipos de doenças frutos do mal. Para essa missão escolhe homens simples, do povo e cheios de boa vontade. São os doze apóstolos.

            Por mais que tenhamos de organizar a vida da Igreja e arranjar novos colaboradores, quem os dá é  o Pai. Ele sabe quem é a pessoa certa para o lugar certo. Por isso Jesus manda pedir: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois ao dono que envie trabalhadores para sua colheita” (Mt 9,37).

            Não se trata somente de padres ou bispos, mas também tantos leigos são chamados para assumirem grandes missões. Tudo seja gratuito, pois recebemos de graça.

nº 1657 Artigo – “Deus sempre passa”

Festa de Corpus Christi

            Por que fazemos essa festa diferente?  Quando fazemos a procissão de um santo levamos sua imagem pelas ruas reconhecendo que esse punhado de gesso traz a lembrança querida de um que viveu para Deus. Deus é glorificado em seus santos. Quando saímos em procissão com o Santíssimo Sacramento, a Eucaristia, não é uma lembrança; é uma presença. Nós cremos que a Hóstia Santa é o corpo e sangue de Cristo. É Cristo vivo. Na Quinta-Feira Santa celebramos a instituição da Eucaristia, sacramento da salvação, pois é o Corpo e Sangue de Cristo que Se dá a nós em sua Morte e Ressurreição. Na Quinta-Feira de Corpus Christi (Corpo de Cristo) celebramos com os louvores devido o tão sagrado mistério de amor. Por que a Eucaristia é amor? Ela não é somente o Corpo e Sangue do Senhor, mas é memorial do amor com o qual Jesus Se deu a nós na Cruz. Por isso é redenção. Uma santa religiosa propôs que se fizesse essa solenidade para manifestar publicamente o amor que temos por tão grande sacramento. Se o levamos para as ruas é para que seja reconhecido e louvado dignamente. Nos séculos passados era um momento de glória. Ainda se enfeitam ruas com primor em determinadas cidades. Em outros lugares se abandonaram a prática e não há mais sinais festivos. As casas colocavam toalhas e flores nas janelas. As liturgias atualmente têm uma dimensão maior de participação. Não se deve, contudo, dispensar a intensidade do reconhecimento da presença de Cristo no Sacramento da Eucaristia. Há muitos modos de manifestá-la. Às vezes vemos que muitos estão se esquecendo que a Hóstia é Cristo vivo. Se fossemos firmes na fé, nosso procedimento seria diferente. Renovemos a presença daquele que Se fez por nós.

Acolher o Deus que passa

            A partir da noção de presença temos que superar dois aspectos: o temor do Antigo Testamento de um Deus que é intocável, e o acolhimento no sacro temor que acolhe com amor reverente. Não basta estar atentos somente ao Deus que passa em uma procissão, que poderia não existir, mas não se pode esquecer que nosso Deus é um eterno viajante, está sempre saindo ao encontro de todos. Ele chega sempre primeiro. Seria uma loucura se O víssemos ao vivo. Com esses olhos O vemos no outro, sobretudo no mais necessitado, não só de bens materiais, mas também dos bens espirituais. Essa presença requer sempre mais a abertura ao Deus que passa. Enriquece muito saber que em todos os fatos e pessoas está o Senhor. Isso não nos incomoda nem atrapalha. Jesus não é incômodo, como o foi em vida. Mesmo em choque com certo tipo de pessoas por sua prepotência, não cortou laços nem fechou portas. Vemos como tratou Judas que o traia: Chamou-o de amigo. Assim acolheu Pedro, assim nos acolhe sempre.

Você leva Deus

            Cantamos na bênção do Santíssimo “Bendito louvado seja!.. Fazei-nos, Virgem Maria sacrários vivos da Eucaristia”. Cantamos, mas não vamos a fundo nessa expressão. Somos portadores de Cristo por onde passamos. Isso implica para um aprofundamento da fé na presença de Cristo na Eucaristia. Se a Hóstia para mim, é algo puramente material, não podemos ir longe em nosso relacionamento com Ele. Se o temos como Pessoa, Ele torna-se sempre mais como presença. É um grande desafio superar a mera piedade descomprometida para buscar o compromisso com uma Pessoa que amamos e que temos consciência que está em nós e vai conosco. Não vamos pelo mundo com ovelhas perdidas, sem pastor. Ele permanece em nós e nós Nele. Como O levamos, levamos a Vida.

nº 1656 – Homilia da Santíssima Trindade (11.06.17)

 “Caminha conosco!”

 Deus-comunhão

      Na festa da Santíssima Trindade somos chamados a aproximarmos do mistério de um Deus Uno e Trino, verdade fundamental da fé cristã. A liturgia reflete essa verdade e contempla o Deus que se revela na História da Salvação. Deus se revelou para estarmos em comunhão com Ele. Moisés reconhece a misericórdia de Deus, por isso pede perdão das culpas e insiste: “Caminha conosco” (Ex 34,9). Caminhar juntos, na palavra de Jesus, é morar em nós (Jo 14,22). Cria-se comunhão com Deus e comunhão-comunidade com os irmãos. Pela comunhão na comunidade manifestamos a comunhão com a Trindade. Este é o modo normal de ser dos que vivem o amor. A experiência de Deus não tem palavras para explicar. Estar juntos é sinal da comunhão. Cabe ao Espírito realizar a união espiritual de introduzir-nos na comunhão da Trindade Santa. Os reflexos desta união se dão em nossa vida quando buscamos viver no amor. Deus usou de misericórdia para conosco, vindo ao nosso encontro e estabelecendo conosco uma vida de união com seu Ser. Aprendemos que o Mistério da Santíssima Trindade é impenetrável, incompreensível e tantas outras palavras que parecem fechar a possibilidade dos humanos de se achegarem de Deus. Jesus diz claro: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Deus se revelou em Jesus. A Palavra de Deus entende o Deus Uno e Trino como Unidade, o Deus que se aproxima de nós e Se abre à comunhão. Deus é sempre amor e misericórdia. Em Jesus Se manifesta como amor que se inclina para acolher e se adianta para buscar o necessitado. Ele se põe como o responsável por aquele que não tem socorro. Ele é o parente próximo responsável.

Veio para Salvar

A salvação de Jesus não é só perdoar o pecado da humanidade, mas abrir-nos à comunhão com Deus. “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo, estejam convosco!” (2Cor 13,14). Sabemos que, quando amamos e servimos as pessoas, participamos do dinamismo do amor de Deus. Se servirmos como Jesus, viveremos sua vida com o Pai e o Espírito. Jesus diz que o Pai vem morar em nós, se permanecermos unidos como o ramo ao tronco (Jo 15,5). Quando amamos, o Pai nos ama e vem morar em nós. Às vezes, na vida espiritual, achamos que tudo depende de nós. A maior parte depende de Deus que quer nossa colaboração. Não está dispensada nossa parte que é colaborar com Deus para nosso próprio bem. Não se trata tanto de uma busca, mas de um acolhimento. Deus já fez tudo o que podia por nós, dando-nos a Si mesmo em Jesus. Isso é salvação. A fé em Jesus nos conduz a viver de um modo novo na comunhão com os outros, usando nossos dons para servir.

Comunhão no Espírito Santo.

A comunidade existe para anunciar e atrair à comunhão com a Trindade Santa. Fé cristã não é fazer algumas rezas ou ter um nome de católico ou outro. É viver em comunhão com Aquele que tanto nos amou e enviou seu Filho para o perdão e o Espírito para a santificação na união. A ação do Espírito realiza esta ligação entre nós como as células no corpo. Assim a vida de Deus passa a todos pelo Espírito Santo. O Espírito Santo não é um mercadinho de dons, mas é o Dom. Fomos crismados pelas palavras: “Recebe, por este sinal, o Espírito Santo, o Dom de Deus. Os dons são serviços que um presta ao outro para que a comunhão com a Trindade seja concreta. O Espírito que distribui os dons para o serviço do corpo, como nos ensina Paulo: “Tudo isso é o único Espírito que o realiza, distribuindo a cada um os seus dons conforme lhe apraz” (2Cor 12,11).

Leituras: Êxodo 34,4b-6. 8-9;Daniel 3; 2Coríntios 13,11-13; João 3,16-18

Ficha  nº1656 – Homilia da Santíssima Trindade (11.06.17)

  1. Pela comunhão na comunidade manifestamos a comunhão com a Trindade.
  1. A salvação de Jesus não é só perdoar o pecado da humanidade, mas abrir-nos à comunhão com Deus.
  1. Os dons são serviços que um presta ao outro para que a comunhão com a Trindade seja concreta. 

Não falta serviço

              Jesus disse: “Meu Pai trabalha sempre e Eu também trabalho” (Jo 5,17). A Santíssima Trindade está sempre em atividade de Vida Divina. A comunhão entre si coloca as três Pessoas Santíssimas em contínuo movimento de amor, doação e acolhimento. A serena violência do amor leva Jesus a dizer que somente os violentos o tomam de assalto. O Reino dos Céus sofre violência dos que querem entrar, e os violentos se apoderam dele (Mt 11,12). Essa violência é sair de si para entrar na força de vida do Pai, do Filho e do Espírito. É esse seu trabalho.

              Celebrando a Santíssima Trindade, não estamos diante de um mistério insondável, mas diante de um mistério que nos convida a participar.

              Moisés convida Deus a estar com o povo: “Caminha conosco”! (Ex 34,9). Deus caminha entre nós na força da comunhão: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco” (2Cor 13,13). A cada pessoa da Trindade é atribuída uma missão.

              Quem crê nesse amor doado, tem a vida eterna (Jo 3,16). A salvação é um dom mais que esforço. Participemos da obra da Trindade para saborearmos a doce violência do amor.