nº 1588 – Homilia do 29º Domingo Comum (16.10.16)

“Não desistir de rezar” 

Insistir na oração

               A antífona de entrada da celebração nos aponta um caminho para compreendermos o evangelho desse domingo: “Clamo a Vós, meu Deus, porque me atendestes… Guardai-me como a pupila dos olhos; à sombra de vossas asas abrigai-me” (Sl 16,6.8). O orante clama porque sabe que Deus é o socorro permanente. E diz que a meta da oração é ser guardado por Deus que é seu abrigo seguro. Dizer, acolher-me sobre as asas de Deus, lembra a Arca da Aliança que estava sob dois Querubins. Trata-se da presença de Deus. É ali que a oração nos conduz. A catequese de Jesus sobre a oração vai ao núcleo de nossas necessidades e de nossa fragilidade. Ao contar a parábola da viúva indefesa diante de um juiz que não atendia as pessoas, ensina que devemos rezar sempre e com insistência. A liturgia traz o livro do Êxodo que nos relata a oração de Moisés pela vitória de Israel sobre os amalecitas. Ele rezou com insistência, o dia todo. Na parábola estamos diante de um juiz iníquo que, pela insistência, cede às súplicas da viúva. Não tendo forças para pressioná-lo, tem a força da insistência. Quanto mais seremos ouvidos por Deus que sempre socorre seus escolhidos (Lc 18,7). A oração perseverante sempre obtem o resultado. Lembremos que Deus sabendo o que  precisamos, mesmo antes de o pedirmos (Mt 7,7), saberá quando e como atender-nos. Na verdade, o que vale da oração não é o resultado do que pedimos, mas entrar em contato permanente com Deus que é mais que tudo o que possamos pedir. Somos mesquinhos, e queremos resolver só nossos problemas, quando Deus oferece soluções maiores. Jesus, conhecendo nossa fragilidade e falta de fé, sabe que não somos insistentes e firmes na fé quando rezamos.

Rezar com o corpo

            Não saia do corpo para rezar só com a mente. O corpo faz parte de nossa totalidade. O espiritual e o corporal caminham juntos. Em sua história a Igreja sofreu influências de mentalidades do tempo e até as justificou. Houve desprezo do corpo, oprimindo-o para libertar a alma. Deus não fez nenhuma parte errada em nós. O mal ou o bem provém de nosso coração como disse Jesus. É uma opção pessoal que produz o mal. Nossas tendências podem ser educadas. Procurou-se castigar o burrinho que somos. Ele pode ser selvagem, mas pode ser educado e fica bom. Vemos Moisés rezando com os braços levantados. Se os abaixava, os judeus começavam a perder a batalha. Por isso puseram duas pedras sob seus braços para que não abaixassem e os hebreus vencessem. A insistência da velhinha supôs muitas idas e vindas para conseguir. Rezamos com a totalidade de nosso corpo. Por isso podemos e devemos tomar posições que expressem o que rezamos. Estar diante de Deus em silêncio, já é oração. Rezamos em nossa realidade.

Rezar com a Escritura

            Quando refletimos sobre a oração ficamos sempre em dificuldades e pensamos que não sabemos rezar. Os discípulos apresentaram esse problema a Jesus: “Mestre, ensina-nos a rezar como João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1). Naquele momento Jesus estava orando. E responde: Quando orardes, dizei: “Pai Nosso…”. Esta é a oração fundamental que tem tudo o que precisamos. A seguir temos os salmos que perpassam por todas as necessidades humanas. Há tanta gente que conhece salmos de cor. Uma leitura meditada da Escritura nos coloca em diálogo com Deus e sustenta nossa vida espiritual. Temos que ver na Palavra de Deus, aquilo que ocorre conosco. Por isso, pedi e recebereis (Mt 7,7).

Leituras: Êxodo 17,8-13; Salmo 120; 2 Timóteo 3,14-4,2 ; Lucas 18,1-8

Ficha nº 1588 – Homilia do 29º Domingo Comum (16.10.16) 

  1. Na parábola Jesus ensina que a oração deve ser insistente e perseverante. Temos o exemplo de Moisés. Deus nos atenderá, pois sabe o que precisamos e atende.
  1. Rezamos com nosso corpo que, mesmo frágil, pode ser educado.
  1. Rezamos com a Escritura como Jesus ensinou. Rezamos com os salmos que tratam de toda nossa realidade. Rezamos meditando a Palavra. 

             Correndo das velhas. 

            Há um mau costume de achar que as pessoas idosas, que chamamos de “velhas”, são inúteis. Alguns chegam a dizer que na Igreja só há velhas. Ser velho é um grande privilégio, pois muitos não chegaram a essa idade. Então há nelas um maior vigor de vida, também de vida espiritual. Muitas são benzedeiras, isto é, são capazes de orar para o bem dos outros com grandes resultados. Deus as ouve, pois se conhecem há tempo.

            Jesus, no evangelho desse domingo, ensina seus discípulos a rezaram com insistência. Se até os maus, como no caso do juiz injusto, cedem diante da insistência e fazem justiça, “será que Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por Ele? Será que vai fazer esperar? Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa” (Lc 18,6-8).

            Uma das noções de oração nos é dada pelo próprio Jesus que insiste que não usemos um palavreado excessivo (Mt 6,7).  Um santo dos tempos modernos, Charles de Foucauld, diz: “Rezar não é dizer muitas coisas, mas a mesma coisa muitas vezes”. Rezar não é convencer Deus a respeito de nossas coisas, mas convencer-nos sobre Deus. Parece que Deus demora a atender a gente. É que Ele quer ficar conosco mais tempo. Parece que gosta de nós. Por isso temos o exemplo de Moisés que durante a batalha dos israelitas ficou o tempo todo de braços abertos em oração para que vencessem. É o que dizemos: o homem mais alto é aquele que está de joelhos. Quando minha avó Rita estava já no fim eu lhe mostrei um tercinho de anel e ela me disse: “As rezas nunca chegam”, quer dizer: nunca são suficientes.

            A oração deve ser baseada na Sagrada Escritura. Paulo diz a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada e útil para ensinar e para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra” (2Tm 3,16-17).

            Aprendamos com nossas velhinhas a conversar com Deus.

 

nº  1587 – Artigo “O Rei se encante com tua beleza”

  1. Viva Nossa Senhora Aparecida!

            Que beleza ver o povo feliz na casa da Mãe! Por que um símbolo tão pequeno atrai tanta gente? Dizia um intelectual francês ateu que foi a Aparecida no tempo do império e viu a grande fila do beijamento: “Será que todos eles estão errados e só eu que estou certo?” Essa observação já é um sinal de sabedoria. Vendo as multidões felizes que por aqui passam dizemos com alegria: “Essas têm a certeza que aqui é um lugar da ação maravilhosa de Deus por Maria”. Maria quer a alegria do povo. Nossa Senhora gosta de festa, pois, onde ela é padroeira, a festa é de primeira. O povo gosta. Ela traz alegria. A imagem querida de Nossa Senhora Aparecida é sorridente. Foi esse sorriso que os pescadores viram quando a pescaram nas águas do Rio Paraíba. Eles puderam sorrir e também diante da pesca milagrosa. Temos muitas aparições de Nossa Senhora pelo mundo afora. Às vezes ouvimos de revelações que falam de perigos, destruição, um futuro de sofrimento. A descoberta da imagem de Nossa Senhora não veio acompanhada de mensagens nem de ameaças. Ela somente sorriu. Não precisava mais nada. Esse mesmo sorriso atrai e comunica a grande verdade do amor misericordioso. Essa imagem retrata muito a Maria de Nazaré que esteve presente na vida de Jesus e agora está em nossa vida. Maria nunca vem de mãos vazias. Socorre mesmo quando quer salvar uma festa. Em Caná viu a dificuldade dos noivos e já deu um jeito de colocar Jesus em ação. Aí a festa ficou boa mesmo.

  1. Mensagem de uma festa

            Que mensagem a festa da Padroeira nos traz? A oração da missa convida a viver na paz e na justiça: “Concedei ao povo brasileiro, fiel a sua vocação e vivendo na paz e na justiça, possa chegar um dia à pátria definitiva”. Ela nos estimula a ser um povo diferente. É um chamado aos nossos chefes para serem justos. Maria canta com o povo: “O Senhor fez em mim maravilhas, santo é seu nome”. O Apocalipse narra as perseguições que são feitas a Jesus e a sua Mãe. Mas Deus vem sempre em seu socorro (Ap 12,15-16). O povo de Deus, perseguido por tantos males suplica a vitória sobre o grande inimigo que é o mal que invade o povo e toma conta dos poderosos. Vamos vencer na fé. Os milhões de peregrinos e devotos devem “irmanar-se nas tarefas de cada dia para a construção do Reino de Deus” (oração pós comunhão). Proclamar Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil não é fazer somente um ato religioso, mas é fazer um projeto de unidade nacional em torno do amor de mãe para uma mãe pátria mais feliz e fecunda. Maria se torna um modelo para o projeto nacional de fraternidade em torno de Jesus.

1794.Um sorriso a todos

            Ela permanece sempre como a rainha que encanta o Rei. Por isso, “entre cantos e festa e com grande alegria entram no palácio real” (Sl 44). Esse palácio são os grandes templos, mas também as pequenas pobres capelas e os corações dos filhos queridos. A maravilhosa multidão que canta as glórias de Maria, faz longas caminhadas para vir ao santuário, a casa da Mãe, como dizem. Por que sentem essa necessidade? Nos momentos de perigo, temos a sensação que devemos voltar para o útero da mãe. Espiritualmente estamos reunidos todos buscando encontrar nesse útero santíssimo que gerou Jesus, um lugar seguro para encontrar Deus e buscar força para a caminhada.

nº 1586 – Homilia do 28º Domingo Comum (09.10.16)

“Tua fé te salvou” 

Agradecer é sinal da fé

            Em seu caminho para Jerusalém Jesus instrui seus discípulos. Na cura dos dez leprosos ensina sobre milagre e sua presença na obra da Redenção. O milagre é o anúncio da inauguração do Reino de Deus: “Se é pelo dedo de Deus que expulso demônios, então, com toda certeza é chegado a vós o Reino de Deus (Lc 11,20). Mas é também um momento da fé em Jesus como Salvador, não somente como curador. Como vimos no evangelho do 27º domingo comum, a fé tem uma força transformante e nos põe a serviço do Reino na gratuidade do dom que nos foi feito. O texto que narra a cura dos 10 leprosos ensina que a fé não é somente crer e receber um “milagre”, mas colocar-se em relacionamento com Deus em Cristo. Jesus, ao fazer o milagre, espera que haja uma mudança no coração. Dez foram curados. Somente um veio louvando a Deus e agradecendo. Jesus reclama com certa dor: “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” (Lc 17,17-18). Os outros foram apresentar-se aos sacerdotes responsáveis para o atestado de cura da lepra. Assim eram reintegrados na comunidade para todos os efeitos. Estavam puros. Por que essa atitude de Jesus? A cura que Ele realiza é para provocar a fé Nele como Salvador. A fé se desenvolveu no samaritano e o levou a  Jesus e, por Ele, à glorificação do Pai. Jesus lhe diz: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou” (19). Foi o mesmo gesto do general sírio leproso depois de sua cura: “Teu servo já não  oferecerá holocausto ou sacrifício a outros deuses, mas somente ao Senhor” (2 Rs 5,17). O milagre conduz ao louvor que é o reconhecimento de Deus.

A salvação dos povos pela fé

            A fé que Jesus exige é exemplificada na cura de Naamã, general sírio. O profeta manda                                                                                          que se lave sete vezes no rio Jordão. O número sete quer dizer uma ação completa. Naamã muda sua mentalidade. Quer viver uma fé pura, por isso leva terra de Israel para celebrar sobre ela. Devemos fazer um culto puro. Louvar é sair de si e aceitar Deus como origem de todos os bens. O agradecimento é fundamental para a fé. Agradecer é tomar as atitudes de Jesus para com seu Pai. Essa é a salvação que queremos anunciar aos povos. E que seja pura, isenta de nossos egoísmos que se tornam vícios do poder, do prazer e do ter, expressões da idolatria. Os outros nove cumpriram a lei do reconhecimento da cura e se foram. Não se voltaram para Deus. Preocuparam-se somente com os ritos a serem cumpridos. É chocante ver como Deus faz tantos milagres e a fé das pessoas não cresce. Foram curados, mas não salvos. Jesus afirma: “Tua fé te salvou”. Por isso é necessário o banho purificador da fé.

A Palavra não está algemada

O ministério de Paulo está voltado para o anúncio de Cristo Ressuscitado. Essa pregação foi causa de suas prisões, como fosse um malfeitor (2Tm 2,8-9). A fé em Cristo Ressuscitado é a purificação total daquele que crê. Ela nos coloca em atitude de culto a Deus pelo agradecimento do grande benefício da Redenção. Deus é sempre fiel. A fidelidade Divina exige a correspondência da fé. Deus é fiel. Nós também podemos ser. Esse é o milagre que agradecemos. “Com Ele morremos, com Ele viveremos. Se com Ele ficamos firmes, com Ele reinaremos. Se nós O negamos, também Ele nos negará. Se lhe somos infiéis, Ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2,11-13). Paulo, mesmo prisioneiro, anuncia a fé, pois a palavra não está algemada.

Leituras: 2 Reis 5,14-17; Salmo 97; 2Timóteo 2,8-13; Lucas 17,11-19

Ficha nº 1586 – Homilia do 28º Domingo Comum (09.10.16)

  1. Jesus ensina com a cura dos dez leprosos que o milagre que salva é o que corresponde à fé que agradece e louva. Exige uma mudança de mentalidade.
  1. A fé tem que ser pura, sem os vícios que a abafam. A cura exige o agradecimento para ser salvadora.
  1. A fidelidade Divina exige a correspondência da fé.

            Que delícia de banho!

Em seu caminho Jesus ensina e faz milagres que explicitam seu ensinamento. Podemos entender no evangelho da cura dos dez leprosos que o agradecimento faz parte da fé no Deus generoso que cura sempre. Mas cobra nosso reconhecimento. A fé tem sua dimensão humana e o humano tem uma dimensão de fé. Jesus não se queixava das perseguições, das adversidades, mas se queixou da falta de educação, também espiritual, dos leprosos que não voltaram para agradecer.

Jesus se queixa porque o milagre ficou incompleto: faltou acolher o dom com a alegria da ação de graças reconhecendo Deus como autor de todo bem. Jesus diz ao samaritano que era um estrangeiro e indesejado: “Não foram dez os curados? Os outros nove, onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” E disse-lhe: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou” (Lc 17,17-19). O milagre não é tanto a cura física, mas a cura espiritual que é colocar a pessoa em atitude de agradecimento a Deus, autor da renovação do homem. Os outros ficaram curados, mas não mudaram o coração.

Vemos que as pessoas pedem graças e milagres, mas estes não os levam a um relacionamento diferente com Deus. Acham que “pagando a promessa” já pagaram o milagre. Foi o que fizeram os outros nove. Foram a Jerusalém para cumprir a lei e receber o documento de purificado.

Naamã é purificado obedecendo (depois de relutar) a ordem do profeta Eliseu: “Vai e lava-te sete vezes no rio Jordão”. O banho lhe trouxe a cura. Águas deliciosas! Mais que um banho, foi uma conversão a Deus: “Agora estou convencido que não há outro Deus… senão o que há em Israel (2Rs 5,15).

O fato de ser um samaritano, um herege e os outros nove, judeus, mostra que a verdadeira religião está no coração agradecido a Deus por seus imensos dons. Essa água nos deliciará.

 

nº 1584 – Homilia do 27º Domingo Comum (02.10.16)

A fé é transformadora e serviçal! 

Como uma sementinha

                 A vida cristã se desenvolve na fé. Por isso, profeta Habacuc afirma que “o justo viverá por sua fé” (Hab 2,4). A fé acompanhou os patriarcas, alimentou os profetas e sustentou os que creram em Jesus. Esta fé depende também de nosso desejo de crescer. Por isso Paulo insiste que devemos soprar as brasas e reavivar o fogo do dom que nos foi dado.

Os discípulos, na convivência com Jesus, pediam que lhes ensinasse as realidades do Reino. Ora querem aprender a rezar. Jesus ensina o Pai Nosso. Ora pedem para aumentar sua fé. Jesus diz que sua fé, mesmo sendo muito pequena, teria a força para arrancar uma planta e plantá-la no mar. Duas maravilhas: a força de transplantar e fazê-la crescer onde não é lugar apropriado: no mar. Fé tem uma força sem limites porque está unida ao próprio Deus que a doa gratuitamente. Como é dom gratuito, quando servimos Deus não fazemos nada de especial. Estamos agradecendo e fazendo o que devíamos fazer. Deus não tem obrigações para conosco. Por isso fazemos coisas maravilhosas pela força da fé. Abraão partiu para uma terra que ele não sabia onde era… Moisés conduziu o povo no deserto, como se visse o invisível (Hb 11,27) – como lemos na carta aos Hebreus. Jesus dá o testemunho dessa fé quando se encarna não usando as prerrogativas de sua divindade. Assim ensina que como viver. Por isso o justo vive da fé. Viver a fé exigirá despojamento para viver no serviço.

A fé é serviçal

            A fé é responder e aderir com amor a Deus que chama a si para os irmãos. É dom gratuito dado a todos. Torna-se necessário corresponder a Ele com totalidade. Os santos não ficaram santos por dons especiais, mas porque acolheram com totalidade a fé e se puseram a serviço dos irmãos. Jesus faz uma comparação difícil no primeiro momento: fazer tudo e dizer: “somos servos inúteis; fizemos o que devia ser feito” (Lc 17,10). Significa que nada que fizermos será grande para pagar a fé que recebemos e o que fizemos por ela. Só podemos agradecer. Servir já é agradecer. Como Cristo se faz servo. todo aquele que está no serviço do Reino é sempre servo como Cristo que sente sua realização no cumprimento da vontade do Pai. Como é gratuita a graça, a correspondência também é gratuita. A fé não é crer num punhado de grandes verdades, mas acolher um dom ao qual respondemos com o serviço a Deus feito pelos irmãos. Deus não deve nada a ninguém. Nossa fé reascende na medida em que damos o testemunho e guardamos o precioso depósito da fé com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós (2Tm 1,14). Quanto menos cobramos de Deus, mais seremos enriquecidos.

A vida é um dom

                 A vida é plena em todos os momentos. A fé nos leva a aceitar a presença de Deus em cada ser humano desde o primeiro instante de sua concepção. Respeitar a vida do nascituro é crer na esperança colocada em cada pessoa. Respeitar a vida é também dar condições para que se viva a fé. Se a vida é um dom, maior é o dom da fé que nos eleva a viver com plenitude a vida. Paulo insiste com Timóteo que tenha não “um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e sobriedade” (2Tm 2,7). Para isso é necessário estar sempre pronto a ouvir o que o Senhor tem a nos dizer: “Não fecheis o vosso coração” (Sl 94). Mesmo nas maiores dificuldades e sofrimentos, como nos narra Habacuc (1,2-3), é preciso viver da fé.

Leituras: Habacuc 1,2-3; 2, 2-4; Salmo 94; 2Timoteo 1,6-8.13-14; Lucas 17,5

Ficha nº 1584 – Homilia do 27º Domingo Comum (02.10.2016)

  1. A fé é grande e sustenta, mesmo que seja pequenina como uma semente.
  1. Por-se a serviço, como o Servidor Cristo, é o caminho da fé. Como dom gratuito, gratuita é nossa correspondência.
  1. A fé está ligada à vida. Ela é um bem supremo a ser sustentado pela fé. É preciso fortaleza, amor e sobriedade. 

Dieta garantida

            Quer vender um produto? Diga que é bom para emagrecer. Mas há produtos que não só nos equilibram como nos dão mais condições de vida. Também o espiritual tem que ser cuidado. Senão corremos o risco de viver pela metade. Para isso temos a receita de hoje, a fé: “O justo viverá por sua fé” (Hab 2,4). A fé nos sustenta nas maiores dificuldades.

Para receber o dom da fé é preciso ter o coração aberto, como rezamos no responsório do salmo 94: “Não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor”. Recebe a fé aquele que abre o coração e não se fecha por cabeçudice, como fez o povo no deserto.

            A fé é como uma sementinha muito miúda que tem uma força muito grande. Jesus diz que sua força pode remover uma montanha. Pode modificar também nosso coração para que se entregue para Deus.

            A seguir, no texto do evangelho desse domingo, temos uma situação difícil. A fé que nos sustenta nos põe a serviço do Reino na total gratuidade, não por recompensas. Depois de trabalhar pelo Reino, servindo ao Senhor, não estaremos fazendo favor a Deus. E temos que dizer que recebemos o direito de servir o Senhor em seu Reino. O que fizemos foi um dom da fé.

            Por isso Paulo convida a “soprar as brasas do dom de Deus que recebemos”. Antigamente o fogo era conservado nas brasas sob as cinzas. Depois bastava afastar a cinzas e soprar as brasas. Temos tantos dons dados por Deus. É preciso sempre reavivá-los pela fé.

Nossa dieta espiritual é viver a fé.

 

 

nº 1583 – Artigo  “Alegria do amor”

  1. Amplitude do coração

               Cada vez mais entramos no santuário do amor para compreender as riquezas insondáveis que Deus colocou no coração humano. Em cada nicho desse santuário novas belezas enriquecem a vida.  Como o Papa Francisco nos ensina em sua Exortação Apostólica – Amoris Laetitia (AL)  (Alegria do Amor) – aprendemos a ver as alegrias e riquezas do amor. Recomenda que “no matrimônio convém cuidar da alegria do amor. A alegria se distingue da busca desenfreada do prazer que não permite encontrar outros tipos de satisfações. “A alegria expande a capacidade de desfrutar e permite-nos encontrar prazer em realidades variadas, mesmo nas fases da vida em que o prazer se apaga… A alegria dilata a amplitude do coração. “A alegria matrimonial pode ser vivenciada mesmo em meio aos sofrimentos” (AL 126).  “Esse amor de amizade chama-se caridade quando aprecia o valor sublime do outro” (AL 127). Esse valor vai além da beleza exterior e faz ver o desejo egoísta. É preciso sair de si para olhar com amor. Papa Francisco faz uma descrição da necessidade de olhar o outro. A ausência do olhar destrói o relacionamento e anula as pessoas. O olhar contemplativo na alegria se delicia com o bem do outro. A alegria renova-se no sofrimento. Depois do sofrimento se pode perceber o quanto valeu o amor na sua intensidade de acolhimento e de participação no sofrimento do outro. Papai dizia: “sua mãe foi uma grande companheira”. Ela dizia: “De vez em quando é preciso de por um pouco de água benta” isto é, deixar passar o momento difícil.

  1. Casar por amor

            Faço uma observação pessoal: “muito casamento não dá certo porque a pessoa casa-se consigo mesma”. A união conjugal no sacramento do matrimônio é uma instituição que não prejudica o amor, diz o Papa. Certamente sabemos que o amor é muito mais que um consentimento externo, ou contrato, mas um modo de dar ao matrimônio uma configuração visível na sociedade e expressa a pertença de um ao outro. É um passo, uma definição de vida. É um sinal externo do compromisso interior. “Semelhante opção pelo matrimônio expressa a decisão real e afetiva de transformar dois caminhos em um só” (AL 132). O sim do matrimônio é a entrega sem reservas nem restrições. Há uma promessa que é expressão do desejo de se entregar totalmente pelo outro, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Ao dizer “eu te prometo ser fiel”, compreende a fidelidade não só de não buscar outra pessoa, mas de ser fiel no exercício de todos os dons do sacramento. Amar e respeitar são dons dessa entrega. As palavras não são pedido de compromisso do cônjuge, mas um compromisso pessoal. O compromisso é vida e não recitação de um texto.

  1. Três palavrinhas só

            Papa Francisco, didaticamente, diz que bastam três palavrinhas para manter o amor sempre vivo: “com licença, obrigado, desculpa”. É o respeito pela individualidade do outro, o reconhecimento de sua pessoa, vida e a força de buscar sempre um caminho melhor quando se danificou o rotineiro. Assim poderá haver o crescimento no amor. Quando se diz de um casamento falido: “quebrou o cristal”, se está reconhecendo que não se casou por amor ao outro, mas pôs o outro a seu serviço. O amor é como uma planta que quando mais cresce, mais frutos dá. Todo amor é um apelo a um amor maior. Esse é o amor Divino. O amor nunca será perfeito. Será um caminho de constante crescimento. Como somos limitados, limitado é o amor. O limite não é uma cerca, mas um estímulo ao um crescimento maior. O limite é o infinito.

nº 1582 – Homilia do 26º Domingo Comum (25.09.16)  

Deus nos fez iguais 

 Esquecer do pobre é abandonar Deus!

  1. Lucas faz uma reflexão sobre a vida da comunidade, acentuando hoje a problemática das desigualdades. Esse tema, tão antigo e tão atual, alerta para a desigualdade na comunidade. Uns não têm e outros consomem o que têm com inutilidades e vaidades, colocando sua esperança exclusivamente nos bens materiais sem se incomodar com os que sofrem. Por que somos diferentes? Jesus explica a diferença narrando a parábola do rico e do pobre Lázaro. Ela é um ensinamento e não um fato histórico. A descrição do rico retrata os grandes senhores de classe muito alta. Diante de sua porta está o pobre Lázaro chagado, doente, ferido pela miséria. Deseja comer os restos de comida, mas nem isso lhe davam. O profeta Amós, que conhecia o sofrimento do povo humilde, recrimina fortemente a vida desses nababos, não pelo que possuíam, mas por não se preocuparem com a ruína do povo. É um retrato da atualidade. Basta mudar a data do jornal que a notícia é atual. A mídia desperta no povo necessidades que o levam mais fundo ainda em seu sofrimento por não ter o que lhe é sugerido pela propaganda. É a frustração existencial. Será pobre, não só por ser pobre, mas por não ter o mesmo nível. Estimula as necessidades para se enriquecer à custa da ganância. A alta sociedade vende seu modelo. Este gera maior carência e aniquilamento humano. E continuam não se preocupando com a ruína do povo, como diz Amós (Am 6,6). Deus nos fez iguais. O mundo nos faz diferentes. Igualdade não é nivelar, mas buscar que todos tenham vida digna satisfazendo as necessidades básicas da pessoa humana.

Bem-aventurados os pobres de espírito

A continuação da parábola mostra a mudança de situação. Lázaro morre e é levado ao Céu (seio de Abraão). Morre o rico e é enterrado. Do meio dos tormentos vê Lázaro no Céu com Abraão. Então começa o diálogo. Pede que Abraão mande Lázaro. Agora ele o conhece. Antes não. Agora não é possível o intercâmbio. Abraão lembra que ele já teve vida boa, e Lázaro não. Agora os papéis mudaram. Ele sofre e Lázaro é feliz. O rico, como não pode merecer para si, pede que Abraão mande alertar os irmãos. O pai Abraão diz que só há um meio de converter-se: Ouvir a Palavra de Deus. Susto não converte. É preciso mudar o coração, ter uma vida coerente com a Palavra e ter um espírito de pobre, mesmo tendo muitos bens. Esse espírito é saber partilhar, pois os pobres têm mais dom de partilha em sua miséria que os grandes em sua ganância. É o que Paulo aconselha a Timóteo: “Tu que és um homem de Deus, procura a justiça… combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna” (1Tm 6,11-12).

Transformação do mundo pela Eucaristia

           A vida da comunidade na Eucaristia pode criar um modo de vida onde todos tenham e se orientem pela partilha como nos ensina a celebração eucarística. O pão partido e partilhado se multiplica. O amor multiplica e não divide.  Todos comemos do mesmo pão que nos põe em comunhão. Não haverá lázaros à porta querendo resto de comida nem ricos, que percam a vida por se fecharem em si mesmos. Há muitos modelos de reforma social. Jesus já apresentou o seu que não foi assumido. Participamos da Eucaristia com piedade e adoramos a presença preciosa do Senhor. Falta só fazer o que o Senhor quis nos ensinar com o sacramento da Eucaristia: partir e repartir. É certo que o culto deve ter dignidade, mas a dignidade do homem não pode ser esquecida.

Leituras: Amós 6,1a.4-7; Salmo 145; 1Timoteo 6,11-16; Lucas 16,19-31

Ficha nº 1582 – Homilia do 26º Domingo Comum (25.09.2016)      

  1. As leituras apresentam o drama da desigualdade. Ricos que não tomam conhecimento do sofrimento do povo. Essa situação continua.
  1. Para conquistar a vida eterna é preciso conversão ouvindo a Palavra de Deus.
  1. A Eucaristia é um modo de transformar a realidade: partir e repartir. 

                É chato ser rico 

            Conhecemos a parábola do rico e do pobre Lázaro. Um vivia na abundância das festas e o pobre vivia na miséria da fome. Depois da morte os papéis se inverteram. O pobre está feliz no Céu e o rico sofrendo nas agruras do inferno.

            O rico que foi para o inferno pede socorro de Abraão, que significa ali a felicidade conquistada no Céu. Abraão lhe diz que não tem solução, pois não há como ter contato. Então ele pede que vá avisar a família. Abraão responde que a conversão não acontecerá, nem que apareça um morto. A conversão deve ser do coração, a partir de uma escolha definitiva a partir da Palavra de Deus.

            A primeira leitura mostra que os ricos que viviam despreocupados e na abundância não tinham futuro, pois serão levados para o exílio de sofrimentos. O problema não é porque que vivam bem, mas porque não se preocupam com a sorte do povo. O problema não é ser rico, mas não conhecer, pela conversão, a necessidade de cuidar dos pobres e carentes. Deus protege.

            Timóteo era um homem de Deus, vivia da fé e dava um belo testemunho. É o modelo da vida de quem quer realmente servir Jesus: combater o combate da fé e conquistar a vida eterna.

 

 

 

nº 1581 – Artigo “Amor que cresce”

  1. Um amor que é total

             Deus nos permite conhecer sempre mais seu mistério através de meios tão simples e tão humanos, tão ao alcance de nossa mão. É o que estamos refletindo na Exortação Apostólica do Papa Francisco, Amoris Laetitia – Alegria do amor. Esse documento é um passo muito grande no conhecimento da moral matrimonial vista em sua totalidade. Por enquanto estamos aprendendo os fundamentos. A partir do número 120, passamos a conhecer mais ainda como crescer na caridade conjugal. A graça do sacramento do matrimônio ilumina o amor que une os cônjuges. Temos que ultrapassar a barreira do simplesmente humano e entrar no Divino que penetra a realidade humana. Esse amor é total: “É uma união afetiva, espiritual e oblativa, mas que reúne em si a ternura da amizade, a paixão erótica, embora seja capaz de subsistir mesmo quando os sentimentos e a paixão enfraquecem” (AL 120). Papa Francisco cita S. João Paulo II explicitando a grandeza do amor matrimonial: “O Espírito que o Senhor infunde, dá um coração novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem como Cristo amou” (FC 13). Esta é a dimensão fundamental do matrimônio. Esse amor está unido ao amor com que Cristo salvou a humanidade e nos uniu a Deus. É um amor de comunhão. Como a união das três Pessoas Divinas forma a Unidade, assim o casal forma a unidade. Sabemos que todos esses ensinamentos revelam a realidade, mas a verdade de cada casal parece estar distante. Se houver esforço por compreender e buscar, cresceremos sempre mais. Deus vai nos modelando  lentamente. O triste é não tomar conhecimento dessas verdades.

  1. Tudo em comum

            Quando há um casamento, tanto noivos, como familiares e amigos não fazem uma projeção de algo provisório, uma experiência ou até uma brincadeira de se casarem. O amor é intenso e atinge toda a pessoa, não tem ares de provisório. Como é amor, é sempre eterno. A primeira característica do amor é a “amizade maior”. Este termo é usado por Aristóteles e Santo Tomás de Aquino. Essa amizade é “busca do bem do outro, reciprocidade, intimidade, ternura, estabilidade e suma semelhança entre os amigos que se vai construindo com a vida partilhada. No matrimônio acrescenta a tudo isso uma exclusividade indissolúvel que se expressa no projeto estável de partilhar e construir juntos toda a existência” (AL 123). O matrimônio tem um segredo que o faz durar, como meus pais, 75 anos: “ser casado”. Exige um desafio, começar sempre de novo e não viver no provisório.  Ao se colocarem o desejo de ser um para o outro totalmente, nada faltará no casamento. As demais coisas, a vida faz.

  1. Amor de paixão

               Citando o Concílio, na Constituição Gaudium et Spes, nº 50, Papa Francisco anota algo que supera a mentalidade de ver o fundamento do matrimônio somente na procriação: “O matrimonio não foi instituído só em ordem à procriação, mas para que o amor mútuo se exprima convenientemente, aumente e chegue à maturidade”. O amor matrimonial tem o aspecto totalizante, isto é, corpo e alma. Tudo o que é divino dado ao casal concorre para que o amor seja total. Igualmente, tudo o que é humano, afetivo, carnal e psicológico participa totalmente dessa maravilha. Não há casamento somente espiritual nem só carnal. Se faltar um elemento, destrói-se o sacramento. O espiritual enriquece o humano, como o humano faz a manifestação do espiritual, como na pessoa de Jesus. Ele, em Si, explicita o sacramento do matrimônio como união da Natureza Divina e Humana em Cristo.

nº 1580 – Homilia do 25º Domingo Comum (18.09.16)

01“Ser cristão é ser honesto”

A injustiça institucionalizada.

A liturgia da Palavra orienta a vida da comunidade. Ela deve ser conduzida na misericórdia, na fidelidade e também na justiça. Saber usar bem os bens materiais é um requisito para o uso dos bens espirituais. Religião não é para ser praticada só dentro das igrejas, mas deve penetrar todos os segmentos da vida. Ser cristão e ser honesto é o normal da vida. O profeta Amós, no século VIII antes de Cristo, critica duramente a ganância dos ricos e faz a defesa dos pobres. É o mesmo que encontramos cada dia, lemos nas páginas dos jornais e vemos nos noticiários. Há um bilhão e meio de pobres no mundo. E isso não nos toca? O mal continua presente. O pecado da ganância e da exploração permanece como um mal que provoca tantas chagas na vida e nos corpos de tantos homens e mulheres de todo o mundo. Não ver isso, já é a cegueira que o pecado provoca em nós. Esse pecado já está institucionalizado como política e economia. É o que vemos em nosso país. O bem do povo não é critério de política para os donos do poder. Explorar já é normal e sinal de esperteza. Quando morrem não levam nada. Nunca vi caminhão de mudança atrás de um caixão, diz Papa Francisco. A ganância pelo dinheiro cega a ponto de não vermos a situação dos outros nem o ridículo em que se fica.  Deus é desnecessário e não se compromete com Ele no Evangelho de Jesus.

Jesus e a riqueza

Jesus contou uma parábola sobre o administrador que usou um estratagema para arranjar outro bom emprego, ao ser despedido de seu trabalho. Ele não agiu com maldade, mas com esperteza. Tirou do que era seu para encontrar quem o acolhesse. Jesus não nega a riqueza e o bem estar. Nega o uso dos bens para o puro egoísmo e prazer. Recrimina não usá-los com justiça. A parábola é um estimulo a sabermos usar os bens com sabedoria. Jesus ensina que é preciso enriquecer-se espiritualmente usando bem seus bens materiais para reverter o quadro da miséria. É preciso ser fiel no dinheiro “injusto”. Injusto está a significar que não é um bem espiritual. Se não soubermos lidar com ele, como saberemos usar os bens espirituais? Ser fiel nas coisas pequenas é a garantia de ser fiel também nos grandes negócios. A parábola do administrador alerta para a usarmos bem os bens materiais com justiça e retidão, pois assim conquistamos os bens espirituais.

Opção pelos pobres.

Não adianta falar contra os males da injustiça social se não fizermos uma opção clara e convincente pelos necessitados. Essa é a missão que Deus nos confere, como ao profeta Amós. Deus nos coloca em seu lugar para defendê-los. O profeta também não agradou os ricos poderosos de seu tempo. O pior ainda é ver que muitos dos poderosos que vivem na corrupção e exploração estudaram em colégios católicos ou se dizem salvos por Jesus. Onde está a evangelização? Somos convocados também a viver o espírito pobreza e tomar as atitudes de Jesus que sendo rico se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza, (2Cor 8,9). Dinheiro não entra no céu. Quem que com seus bens soube enriquecer-se de obras de serviço ao próximo está no Reino de Deus. O fundamento é sempre a vontade salvífica de Deus. Não adianta só denunciar os males, é preciso também rezar pelas autoridades para que tenhamos uma vida tranquila e serena (1Tm 2,2). A oração tem grande poder. Se rezássemos mais pelas autoridades e para a superação dos males que nos cercam, certamente haveria mudanças no mundo. A Eucaristia ensina a partilhar.

Leituras: Amós 8,4-7; Salmo 112; 1Timóteo 2,1-8 / Lc 16,1-13

Ficha nº1580 – Homilia do 25º Domingo Comum (18.09.16)

  1. Saber usar bem nos bens materiais é um requisito para o uso dos bens espirituais. A exploração é um mal constante na sociedade. É uma cegueira.
  1. Jesus não nega o bem dos bens materiais, mas seu mau uso. Exige-se do cristão que saiba administrar bem o “dinheiro injusto”, pois como se lhe vai confiar o tesouro espiritual?
  1. A opção pelos necessitados deve ser autêntica. Quem sabe enriquecer-se nas obras a serviço do próximo, está no Reino de Deus. 

            Bom negociante         

            Jesus narra uma parábola de um administrador que estava prejudicando o patrão, esbanjando seus bens. Como ficaria desempregado, já deu um jeitinho de arranjar um lugar de se encostar. Então começou a chamar os credores do patrão e diminuir o preço do que ele vendera. Nesse caso ele não tocou nos direitos do patrão, mas no que ele receberia com aquelas vendas. Foi esperto. Soube administrar. Seu patrão elogiou sua esperteza.

            O que Jesus quer dizer com essa parábola? Está estimulado os discípulos a saberem usar bem os bens materiais, o dinheiro. O administrador foi esperto para garantir seu futuro. Os discípulos são estimulados a saberem usar com esperteza os bens materiais para conquistarem o que é espiritual. Não se compra Deus, mas se usa para as obras da caridade para se enriquecer dos bens espirituais.

            Somos chamados igualmente a sermos justos nos bens materiais. Como Deus vai nos confiar riquezas espirituais, se nem o dinheiro injusto sabemos usar! É necessário ser fiel e correto no uso dos bens materiais, mesmo pequenos. Do contrário, quem terá confiança de nos confiar coisas maiores.

            Pior ainda é o que diz o profeta: Os maus administradores são os que exploram o povo, sobretudo o povo pobre. A ganância é muito prejudicial.

Para as situações políticas e econômicas complicadas é importante a oração. Não para conseguir graças, mas para que se ande nos caminhos de Jesus. Assim a vida de todo mundo melhora.

 

nº 1579 – Artigo  “A força está em nós”

  1. Experiência de ser perdoado

            O amor constrói um matrimônio feliz. E o que o destrói? O Papa Francisco nos orienta em sua Exortação Apostólica sobre o amor na família, Amoris Laetitia, Alegria do Amor. Espero que essas reflexões simples tenham animado muitos a lerem diretamente o documento do Papa e perceberem sua riqueza. Falando do amor, o Papa comenta o texto de S. Paulo da Primeira Epístola aos Coríntios 13,4-7. É bonito ver como retira de palavras tão simples, tanta sabedoria e tanto empenho. Na vivência cristã podemos perceber que vamos viver bem com os outros, na medida em que vivermos bem conosco mesmos. O que fazemos aos outros, nós o encontramos em nós. O amor matrimonial nasce de Deus, mas passa pela pessoa para que possa atribuir ao outro. Esse amor vivenciado é o que podemos oferecer. Papa Francisco analisa o perdão explicando que quando absorvemos um mau sentimento, “ali ele fica gravado”. O contrário é o perdão que procura compreender a fraqueza alheia e encontrar desculpas (AL 105). O ressentimento cria raízes. No matrimônio há o risco de acusar o outro de seus defeitos. O segredo para evitar que um erro se transforme em um problema é cada um procurar o próprio defeito e não acusar o outro. As Equipes de Nossa Senhora usam esse método, que não é uma técnica, mas é fruto do amor. Evita que o erro se transforme em uma batalha e o ressentimento se enraíze. Há uma frase triste nos casamentos mal preparados: “Vou procurar meus direitos”. Melhor: vou rever meus deveres. Há uma exigência de sacrifício. “Exige de cada um, diz o Papa, pronta e generosa disponibilidade à compreensão, à tolerância, ao perdão, à reconciliação” (AL 106).

  1. Perdoar-se para perdoar

            Somente quem se perdoa pode perdoar. Não podemos nos esconder de nossos erros.  Diz-se que a pessoa mais madura é aquela que ri dos próprios erros. O Papa diz: “Sabemos que, para se poder perdoar, precisamos passar pela experiência libertadora de nos compreendermos e perdoarmos a nós mesmos” (AL 107). Perdoando-nos e aceitando nossas limitações, seremos capazes de perdoar. O perdão tem sua fonte no perdão Divino. Aceitando o perdão incondicional de Deus, poderemos perdoar os outros. Essa capacidade de perdoar gera também a capacidade de se alegrar. Nosso modo de viver egoísta não gosta da alegria dos outros. Para alguns, gera a inveja e o desconforto. Sofremos quando vemos a alegria dos outros. Mesmo que não digamos nada, somos corroídos porque o outro está acima. Às vezes dizemos que a vingança a Deus pertence. Pior que isso, pois queremos que Deus aja com os outros como nós agiríamos. Diz-se: “A vingança a Deus pertence”. Deus vingue por mim. O contrário é Divino: alegrar-se com o bem do outro.

  1. Quatro esteios

            Na Primeira Carta aos Coríntios temos estas palavras: A caridade “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera e tudo suporta” (1Cor 13,7). É estar contra corrente da falta de amor. Desculpar é aceitar o outro e não dizer mal dele. Aí entra a fofoca que o Papa sempre condena, pois sabe o mal que produz. Um fato desagradável não é a totalidade do ser do outro (AL 113). O amor convive com a imperfeição. A confiança é ter fé no outro. Fé aqui não é a virtude da fé. Não há julgamentos nem suspeitas. Há sinceridade e transparência. Assim dá esperança de futuro. Tudo espera. As limitações podem mudar. Confia-se na futura ressurreição. Suporta as contrariedades. É amor, que apesar de tudo não desiste. No outro, mesmo na dificuldade, vê a imagem de Deus. O importante é romper a cadeia do ódio. Isso faz forte um matrimônio. O amor, apesar de tudo não desiste (AL 117-119)

nº 1578 – Homilia 24º Domingo Comum (11.09.16)

“A misericórdia refaz a vida!

  Encontrei misericórdia

            A liturgia da Palavra deste domingo é uma síntese da condição humana marcada pela fragilidade e pelo pecado como vemos na parábola da ovelha extraviada, da moeda perdida, do povo pecador que faz um bezerro de ouro e de um apóstolo que confessa sua antiga situação de pecador. Por outro lado, é uma demonstração estupenda de um Deus misericordioso que acolhe, perdoa e restaura. Este é o retrato do Pai que Jesus apresenta nesta parábola. Assim, Ele agiu e ensinou a agir. Paulo, em sua trajetória espiritual, faz a passagem de uma fé que o levava a perseguir os que acreditavam em Jesus para uma experiência profunda da misericórdia de Deus. As leituras deste domingo então centradas no binômio pecado do homem e misericórdia de Deus. O povo no deserto fez um bezerro de ouro. Deus se irritou e quis destruí-lo. Moisés lembrou a Deus seu compromisso de aliança. Deus perdoou. A ovelha que se extraviou é procurada com carinho. E, depois de encontrada, é carregada nos ombros. Jesus centraliza todo seu ensinamento na misericórdia porque ela é a atitude do Pai para com os que se arrependem e voltam.

Misericórdia é atitude de vida

               A parábola de Jesus da ovelha perdida e reencontrada é uma resposta às críticas dos fariseus que acusavam Jesus de se misturar com os pecadores fazendo-se igual a eles.  Tomar a refeição juntos é se igualar. Jesus então responde com a parábola. Como os fariseus, nossas comunidades correm o risco de se organizarem só para os que são bons e já “estão salvos”. Tudo o que fazemos é para os que já têm tudo. É o momento, e Papa Francisco insiste nesse ponto, de sairmos ao encontro dos necessitados mostrando através de nossas atitudes, a misericórdia de Deus. As exigências que fazemos ao povo simples e aos pecadores (difícil saber quem é o pecador, se eles ou nós), demonstram claramente que não entendemos a mensagem de Jesus. Deste modo a Igreja perde o sentido de sua missão. Padres, bispos e pessoas de responsabilidade na comunidade que não têm misericórdia, devem se lembrar que eles também precisam dela, pois todos somos pecadores e Deus é misericordioso para com todos. É bom que as pessoas sintam através, das pessoas da Igreja, a misericórdia que ela tem como missão.

Buscando as ovelhas

 Mais ainda: Jesus não só acolhe, como vai procurar as ovelhas perdidas pelos penhascos do mal. A misericórdia não é só um sentimento, mas uma atitude de vida e um modo de Deus agir. Jesus diz: “Eu vim buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). Temos a experiência de uma religião que recebe os que vêm e não vamos atrás dos que não vêm. Isso deixou as massas simples e pobres no abandono e vítimas de espertos.  A religião se concentrou nos centros da cidade, que na verdade não têm uma população religiosa. Por estarem bem na vida, não precisam de Deus. Pior ainda quando querem dominar a instituição religiosa a seu favor. É o momento de buscar não uma ovelhinha perdida, mas rebanhos inteiros. As igrejas se esvaziam. É preciso mudar os métodos pastorais para ir ao encontro e a pôr-se a serviços dessas populações. Jesus era criticado por misturar-se com os pecadores. Essa busca dos pobres e dos fragilizados pelo pecado deve envolver toda a comunidade, não somente os “padres”. Esses também devem fazer essa opção, e mais que os outros. Toda a comunidade é responsável para que a missão de Jesus chegue a todos.  Isso é a santidade que vai nos salvar.

Leituras: Êxodo 32,7-11.13-14; Salmo 50; 1Timóteo 1,12-17; Lucas 15,1-32

Ficha nº 1578 – Homilia 24º Domingo Comum (11.09.16)

  1. Jesus se mistura com os pecadores para levar-lhes a misericórdia do Pai. A Palavra nos mostra a fragilidade e a misericórdia de Deus para com os pecadores.
  1. Misericórdia é uma atitude. É fundamental acolher os necessitados. Temos rebanhos inteiros perdidos.
  1. Jesus não só acolhe como vai também atrás das ovelhas perdidas. Isso deve ser um método pastoral.                     

            Sujando-se para limpar

             Essa é a atitude de Jesus quando é criticado por se misturar com os pecadores e fazer refeição com eles. Fazer refeição significa fazer-se igual. Jesus explica que essa é a atitude de Deus Pai ao enviá-lo ao mundo. Não veio para cuidar de ovelhas gordas e sadias, mas para buscar as perdidas.

            Em sua encarnação Ele se misturou com nossa humanidade falha e toda lambuzada pelos males que carregamos. Isso não o fez menor.  Ele veio buscar os pecadores. Conta então a parábola da ovelha perdida. Uma ovelha perdida está totalmente perdida, pois é um animal frágil e sozinho não se resolve. É como uma moeda de prata, ou dizemos, uma jóia. Se não vamos atrás, é certo que ela não vai nos procurar. É preciso ir buscar o que estava perdido. Os perdidos somos nós. Ele nos procurou de todos os modos.

            O povo de Deus no deserto fez um bezerro de ouro porque Moisés já havia tempo que subira a montanha para falar com Deus e não voltava. O povo se perdeu na idolatria. Moisés intercede pelo povo para que não seja condenado nem destruído.

            Paulo não era um distante de Deus. Não era malvado, mas perseguia a Igreja de Deus. Não queria saber de Jesus. E Jesus foi atrás dele. A graça misericordiosa de Deus sempre é maior.

Essa parábola da ovelha perdida é uma lição para nós. O método pastoral das comunidades e das paróquias é sempre cuidar das gordinhas e deixar ao lobo as que se extraviaram. O que se faz pelos “pecadores”, pelos “pobres”? Não nos misturamos. Não sujamos as mãos pelos necessitados. Por isso tanta gente perdeu o rumo da Igreja.

nº 1577 – Artigo  “Amar é mais que gostar”

  1. Amar é tornar-se amável

            Para falar de amor é preciso saber amar. Há uma grande distância entre o discurso sobre o amor e a verdade do amor. Os gestos do amor são expressões do amor. Por exemplo: Cristo na cruz é uma expressão ao demonstrar como se ama. “Ele nos amou até o extremo do amor” (Jo 13,1). Papa Francisco, em sua exortação apostólica “Amoris Laetitia – Alegria do Amor”, reflete sobre as qualidades do amor. Entre elas ensina a amabilidade como uma característica fundamental. O amor não age rudemente. Não é possível amar e ser grosseiro. “Seus modos, suas palavras e seus gestos são agradáveis. Não são ásperos nem rígidos… A cortesia é uma escola de sensibilidade e altruísmo” (AL 99). Ser cordial não é um jeito pessoal de alguns. Faz parte do amor, por isso ‘todo o ser humano está obrigado a ser afável com aqueles que o rodeiam’ (Idem). O amor, por ser total, atinge a pessoa toda em todas suas manifestações. É impossível amar se esse amor não é total. Desse modo é amar a si mesmo porque impõe limites ao amor. Quando um casamento termina, ouvimos: ‘quebrou o cristal’. Talvez nunca tenha existido amor. Amor não é gostar de alguém para si, mas gostar de alguém em tudo que há em si. É um ideal que se busca sempre mesmo em meio às dificuldades. Francisco conclui: “Diariamente entrar na vida do outro, mesmo quando faz parte da nossa existência, exige a delicadeza de uma atitude não invasiva, que provoca a confiança e o respeito… E quanto mais íntimo e mais profundo for o amor, tanto mais exigirá o respeito pela liberdade e a capacidade de esperar que o outro abra a porta do seu coração”. Some-se que cada um tem seu tempo.

  1. Sair de si

                O olhar amável respeita o limite do outro. “Quem é antissocial pensa que os outros existem para satisfazer suas necessidades e, quando o fazem estão cumprindo seu dever”. Quem ama sai de si para reconhecer, incentivar, reconfortar, fortalecer estimular o outro. Lembramos o exemplo do pai que vai ao jogo de futebol do filho pequeno e torce com entusiasmo. Jesus agia assim: “Coragem, filho, teus pecados estão perdoados” (Mt 9,2). Para amar é preciso sair de si, como diz Paulo: “Não cuide somente do que é seu, mas também do que é dos outros” (Fl 2,4). S. Tomás diz: “é próprio da caridade, do amor, mais amar do que ser amado” (S.Th II-II, q 27, Art 1). O fato de ter muito amor, não tem necessidade de procurar amor, mas sim levar amor. Não tem necessidade de ficar esperando recompensa (Lc 6,35), pois já tem muito, chegando mesmo a entregar a vida, sobretudo nas pequenas coisas do dia a dia. E também ser capaz de dar a vida pelos outros (Jo 15,13). Foi o que Jesus fez.  É seu princípio: “De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,8).

  1. Coração sempre calmo

            Somos dados à fácil violência justificando nossa atitude. É a violência que habita em nós. Somos incontroláveis em nossas reações. Quem domina sobre nós? Há uma grande agressividade guardada dentro de nós. Ela não pode estar em nossas atitudes no relacionamento com os outros. Por que as coisas têm que ser assim, se podem ser de outro modo? O Papa Francisco lembra as palavras: “Não te deixes vencer pelo mal” (Rm 12,21). Ele é o exemplo da reação pacífica: nas violências do mundo diz que temos para oferecer o amor. Lembra que não devemos terminar o dia sem fazer as pazes. Que fazer? Um pequeno gesto de amor é suficiente. Quanto aos que nos fazem mal, o melhor é abençoá-los. É fundamental criar uma cultura de não ofender para não ter problemas para recuperar a paz. Desfazer uma confusão é mais difícil que promover o bom entendimento.

nº 1576 – Homilia do 23º Domingo Comum (04.09.16)

Discípulo-missionário do Senhor!

 Quando perder significa ganhar

A Palavra de Deus desse domingo nos apresenta Jesus convidando a segui-Lo. Para entender sua proposta, levamos em conta nossa fragilidade. Com a sabedoria de Deus seus desígnios se tornam possíveis. É o que podemos ver em Paulo que se relaciona com seus amigos na simplicidade e no respeito, mesmo nas situações que possam parecer complicadas. Ser discípulo de Jesus tem exigências que podem nos assustar: “Se alguém vem a mim, mas não odeia seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da própria vida, não pode ser meu discípulo” (Jo 14,26). A exigência é total. Não que Deus cobre caro de nós. Mas exige exclusividade. Para compreender estas palavras não podemos partir de nossos sentimentos, mas da vida de Jesus. Quando ensina que devemos deixar pai e mãe, não diz oposição, mas preferência do bem maior. Essa proposta de Jesus mal entendida significa desobediência ao maior mandamento do amor: “Amar pai e mãe”. Desapegar-se significa dar o devido valor ao fundamental, deixando de lado apegos inúteis e secundários. O tudo que deixamos será mais útil sob a luz de desapego. Quem segue Jesus como o primeiro e ponto de partida para tudo na vida, vai amar muito mais os pais, os irmãos, as belezas da vida e os prazeres que a vida oferece. Jesus oferece duas parábolas para dizer que devemos pensar bem antes de assumir a decisão por Ele, pois do contrário, depois, vai ver que não deu certo. Por isso a sabedoria nos sacia com seu amor e nos ensina a escolher

Quem não carrega sua cruz

Temos outro ponto de conflito que é a cruz. Não se trata de escolher a dor, o peso da penitência e a falta de liberdade. Cruz não é opressão, mas chave da plena liberdade como rezamos na oração do domingo de hoje: “… Concedei aos que crêem em Cristo a verdadeira liberdade e a herança eterna”. Não seguimos Jesus porque sofre na dor, mas porque se entrega por amor. Vemos em Jesus uma pessoa sempre feliz, alegre e cheio de vitalidade mesmo em meio aos sofrimentos. Jesus não quer o sofrimento de ninguém, tanto que nos promete a ressurreição e a vida eterna. O conhecimento do plano de Deus para nós é seguir a Cristo em seu caminho de Paixão para chegar à Ressurreição, leva-nos a rezar: “Ensina-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração a sabedoria… saciai-nos de manhã com vosso amor e exultaremos de alegria o dia todo (Sl 89). A vida cristã é um contínuo aprendizado a viver como Cristo viveu caminhado decididamente para cumprir o desígnio do Pai em Jerusalém.

O corpo pesa a alma

Somos frágeis e pecadores. Nem sempre acertamos. Mas a Sabedoria nos fortalece e nos orienta. Não podemos ter medo da fragilidade. Somos barro que nas mãos de Deus toma forma. É bom ser frágil, pois o orgulho não nos pega. Paulo mostra essa simplicidade quando pede a Filêmon que seu escravo fugido e, agora convertido a Cristo, fique ajudando-o na pregação. Ele poderia impor, mas preferiu agir com a sabedoria de Deus. Desse modo o escravo é irmão e está a serviço de Paulo que está na prisão. Quando nos desapegamos do que escraviza o corpo e a alma, vivemos a plena liberdade de crescer de corpo e alma. Se tivermos dificuldades no conhecimento e seguimento de Jesus é por que deixamos que o corruptível tome conta de nossa vida. Em cada Eucaristia podemos ouvir a Palavra para orientar nossa inteligência e nos estimular ao seguimento de Jesus.

Leituras: Sabedoria 9,13-18; Salmo 89 / Filemon 9b-10.12-17; Lucas 14,25-33

Ficha nº -1576 – Homilia do 23º Domingo Comum (04.09.16)

  1. Jesus convida a segui-lo exigindo totalidade, sem outros apegos. O termo odiar ou desapegar-se significa dar maior valor a seu seguimento.
  1. A cruz que Jesus oferece não é opressão, mas amor, liberdade e herança eterna.
  1. Somos frágeis e pecadores. Nem sempre acertamos. Mas a Sabedoria nos fortalece e nos orienta.

            Fazendo a conta certa. 

            Temos medo das exigências. Achamos que elas nos diminuem e nos oprimem. Um atleta tem horas de treinamento todos os dias. Para fazer uma recuperação de saúde é preciso um regime que sacrifica. Mas dá resultado. Quem quer emagrecer sabe o preço.

            O seguimento de Jesus não é uma brincadeira espiritual. É um esforço, um empenho.

O pulo certo no seguimento de Jesus não é fazer o que a gente quer para nosso bem estar, mas assumir a proposta de Jesus para ter um bem maior.  Seguir Jesus é uma ousadia de buscar sempre o modo viver do Mestre. É deixar tudo para ter tudo. Ser seu discípulo compreende acolher sua orientação fundamental: Quem quiser ser seu discípulo vai ter que fazer três coisas: desapegar-se de tudo, até da própria vida, carregar a cruz e caminhar atrás de Jesus.

            Desse modo poderá ser discípulo. Discípulo é aquele que faz o que o mestre faz.

            Somos frágeis, limitados e de pouco conhecimento. Somos pó, nossos dias passam como o sono da manhã e como a erva. Por isso é preciso contar bem os dias, como rezamos, e aprender a sabedoria. Seremos saciados com o amor.

            Paulo nos dá um exemplo de seguimento. É o grande apóstolo, mas se faz pequeno ao pedir que o escravo fugido Onésimo, possa ficar ao seu serviço. Não seria um escravo, mas um irmão querido.

            O evangelho nos diz ainda que, se não tivermos esses sentimentos, seremos insensatos como o rei que não examina sua tropa para ver se poderá enfrentar o inimigo, ou como o homem que começou a construir uma torre e não deu conta de acabar.

            Se não renunciarmos tudo o que temos, não podemos ser discípulos.

 

nº 1575 Artigo – “Ser feliz com o outro”

  1. O bem do outro

O matrimônio tem crescimento que vai ao seu definitivo que se encontra em Deus. Não se pode exigir do casal uma perfeição imediata, para se dizer que está correspondendo, pois é limitado (AL 122). Por isso temos um caminho de virtudes seguindo as orientações da Exortação Apostólica de Papa Francisco, Amoris Laetitia – A Alegria do Amor. O Papa reflete sobre a caridade em suas diversas manifestações, como nos apresenta S. Paulo em 1ª Coríntios 13,4-7. Refletimos sobre a paciência. Agora abordamos a liberdade que o amor dá diante do outro. Há necessidade, antes do casamento, de se conhecer profundamente a pessoa amada com a qual se quer viver uma vida. Sabemos que se ocupa pouco tempo no conhecimento do parceiro para saber se poderão levar adiante tão sublime modo de vida. Uma coisa é o conhecimento superficial e outra é o dia a dia quando realmente um se manifesta ao outro em sua realidade. Quando fala de ciúme e de inveja, Papa Francisco explica que cada um está voltado para si. Certamente que a imaturidade do cônjuge pode levar a provocar situações desagradáveis. O que amadurece um matrimônio é o esforço de cada um em promover o outro. O que há no outro é sempre um dom a ser acolhido. Por isso “aprecia os sucessos alheios e não os sente como ameaça. Libertando-se do amargor e da inveja” (AL 95). Dizia uma preciosa tia em minha família: “Para quem ama, o mau odor é perfume”. Conhecemos o estrago que o ciúme e a inveja fazem dentro do casamento. Preciosa riqueza é a complementaridade na mútua aceitação das diferenças.

  1. Vendo com os olhos de Deus.

              A grande diferença que pode haver no matrimônio estruturado no amor de Deus de outro fundado só nas condições humanas, está nesta afirmação do Papa: “Amo aquela pessoa, vendo-a com o olhar de Deus Pai, que dá tudo ‘para nosso bem’(2ª Tm 6,17) e consequentemente aceito, no meu íntimo, que ela possa usufruir de um momento bom” (AL 96). Isto é alegrar-se com o bem do outro. Esse modo de ser leva também à preocupação com o outro que precisa ser cuidado. Ver com os olhos de Deus, induz a ver-nos como Deus nos vê, não se colocando como centro. Pior ainda é fazer-se mais do que é, tanto na espiritualidade como no conhecimento. Falando grosseiramente, isso acontece quando temos o costume de ter os outros como ignorantes. Dentro do casamento é uma desgraça. É aquela frase: “você não sabe nada”. Achata, amassa e destrói a outra pessoa. É certo que os verdadeiros sábios sempre sabem aprender dos outros e ensinar com respeito e educação. A vida da família se torna uma escola. Isso me faz lembrar meu papai que sempre me punha em aperto perguntando o significado de palavras. Gostava de saber o que os filhos estavam fazendo em seus empreendimentos. Uma vez, lá no sertão de Goiás, vi um menino pequeno perguntando ao pai como funcionava um motor. E pai explicou com muito detalhe.

  1. Amor que constrói

            “O que nos faz grandes é o amor que compreende, cuida, integra e está atento aos fracos”. Paulo critica esses que “se encheram de presunção” (1 Cor 4,18). Papa Francisco conclui: “na realidade, tem mais palavreado que verdadeiro ‘poder’ do Espírito (1Cor 4,19). A humildade no trato faz parte do amor e cura o orgulho do poder. Maior sempre será aquele que serve mais. Pedro nos adverte: “Revesti-vos de humildade no relacionamento mútuo, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (1Pd 5,5).

nº 1574 – Homilia do 22º Domingo Comum (28.08.16)

“A força da simplicidade”

Alimentar o que é bom (oração)

            A oração da Missa dá um estímulo a viver a palavra deste 17º domingo: “Derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco, para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes”. A mensagem desse domingo ensina a viver um dos ensinamentos fundamentais de Jesus. Tudo o que é humildade e simplicidade. O que Jesus ensina é um retrato de seu modo de viver. Não se trata de diminuir-se ou rebaixar-se, mas ser humano, normal, sem necessitar do orgulho e da vaidade para se impor. Como somos completos, realizados e coerentes, não temos necessidade de disputar lugares e querer parecer importantes. O último lugar é tão bom quanto o primeiro desde que estejamos bem. A mentalidade que nos domina é de tirar vantagens em tudo e sair na frente ganhando sempre mais. Assim pensam as pessoas. Ninguém disputa o primeiro lugar em servir, ser útil e cooperar. Jesus mostra outro caminho que rende muito mais: Em primeiro lugar dá uma aula de civilidade e boa educação. Não é de bom tom querer aparecer e desfilar como mais importante. Para quem está bem com a Palavra, está bem consigo mesmo. Então, qualquer lugar é bom. O livro do Eclesiástico ensina que, quanto mais poderoso se é, mais humilde se deve sê-lo (Eclo 3,20). Vemos a luta pelo poder. O importante é que Deus veja a gente. E Deus vê o que é humilde e a ele revela seus mistérios (Eclo 3,22). O orgulho é uma doença tão ruim que não tem remédio. Diz o Eclesiástico: “Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado esta enraizada nele, e ele não compreende” (Eclo 3.30). A simplicidade é maior.

Convida os pobres e aleijados

            Jesus continua ensinando que perdemos muito em viver na vaidade. Referindo-se ao banquete oferecido diz que sempre traz consigo a obrigação em retribuir com presentes do mesmo valor. E diz em relação às festas: “Quando deres um banquete, não convides teus amigos, nem teus irmãos… nem teus amigos ricos. Estes vão te convidar e assim já serás pago. Quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados e os cegos. Então tu serás feliz por que eles não podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14). Deus é quem paga a conta do pobre. Essa modalidade de vida na vaidade não leva a nada e empobrece o coração. A recompensa que a oferta feita aos pobres nos traz, será dada na ressurreição. Esta é a festa que dura para sempre onde o Pai é quem paga. E retribui com abundância. O banquete que o Pai nos prepara em recompensa ao que fizemos a seus queridos, dura para a eternidade. A Igreja também está envenenada pelo orgulho, vaidade, prepotência e luta por melhores lugares e cargos. É preciso conversão.

Tocados pela fé

            Viver os ensinamentos de Jesus não é só uma opção de vida, mas o resultado da fé que nos tocou. A carta aos Hebreus compara esse momento ao encontro de Deus com o povo no Monte Sinai. Lá era palpável. Agora são as realidades espirituais e as coisas do Céu que nos tocam. Desse modo somos convocados à transformação de nossa vida. Passamos a viver as exigências da conversão ao novo modo de vida a partir do Evangelho.

Vamos entender esses sentimentos de humildade e simplicidade quando percebermos que estamos em contato com o Deus que nos tratou com tanto carinho. A ressurreição final está longe, mas está presente em nosso cotidiano quando somos capazes de transformar nosso orgulho em humildade e nossa vaidade em serviço fraterno.

Leituras:Eclesiástico 3,19-21.30-31;Salmo 67; Hebreus 12,18-19.22-24ª; Lucas 14,1.7-14

Ficha nº 1574 – Homilia do 22º Domingo Comum (28.08.16)

  1. Jesus usa o banquete do qual participa, para ensinar pontos fundamentais de sua doutrina: a humildade e a simplicidade. O orgulho e a prepotência não ajudam o ser humano.
  1. Em lugar de convidar amigos ricos que podem retribuir, ensina a dar banquetes aos pobres que não podem retribuir. Deus é quem retribuirá na ressurreição.
  1. Esse modo de pensar e agir não é só um sentimento humanitário, mas vem do fato de se ter tocado as realidades espirituais, não somente os fenômenos exteriores. 

            De graça rende mais

            A mentalidade que nos domina é tirar vantagens em tudo e sair na frente ganhando sempre mais. É a cabeça do mundo. Jesus mostra outro caminho que rende muito mais: Em primeiro lugar dá uma aula de civilidade e boa educação. É de bom tom querer aparecer e desfilar como mais importante. Para quem está bem consigo mesmo qualquer lugar é bom.

            O livro do Eclesiástico ensina que quanto mais poderoso a gente é, mas humilde deve ser. Vemos a luta pelo poder. O importante é que Deus veja a gente. E Deus vê o que é humilde e a ele revela seus mistérios (Eclo 3,22).

            O orgulho é uma doença tão ruim que não tem remédio. Diz o Eclesiástico: “Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado esta enraizada nele, e ele não compreende” (Eclo 3.30).

            Em seu ensinamento Jesus continua refletindo sobre o risco desses favores que recebemos e devemos retribuir. Vejamos ainda na questão das festas: “Quando deres um banquete não convides teus amigos, nem teus irmãos… nem teus amigos ricos. Estes vão te convidar e assim já fica pago. Quando deres uma festa convida os pobres, os aleijados, os cegos. Então tu serás feliz por que eles não podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14). Deus é quem paga a conta do pobre. E paga com juros.

            Quanto temos que mudar em nossa vaidade e orgulho.

            Vamos entender esses sentimentos quando percebermos que estamos em contato com o Deus que nos tratou com tanto carinho.

 

nº 1573 – Artigo “O amor no matrimônio”

  1. Matrimônio, a casa do amor

            Temos refletido sobre a “Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Papa Francisco” Amoris Laetitia – Alegria do Amor, sobre o amor na família. Alguns veem o documento só pelo lado dos graves problemas que enfrentam no momento atual. Mas o Papa vai mais longe e apresenta o ideal do matrimônio. É a partir desse ideal é que devem ser abordados os problemas. Nesse quarto capítulo são refletidos os aspectos do amor colhidos na Palavra de Deus presente na primeira epístola de São Paulo aos Coríntios (13.4-7). O apóstolo descreve as características do amor. É o hino ao amor. É um modo novo de escrever.  O Papa penetra as emoções dos cônjuges e vai até a dimensão erótica do amor. Uma reflexão sobre a doutrina do matrimônio não pode esquecer que isso tem o “pão nosso de cada dia” com a alegria e a tristeza do dia a dia. Matrimônio é vida e só o entendem quem o vive. Ele é grande através dos pequenos gestos que abrem à dimensão do infinito e definitivo. Falamos de casa do amor. É importante termos sempre diante dos olhos que Deus usou a família para expressar, mesmo na penumbra, aquilo que a Trindade vive. A família não é um fato social que pode se mudar ou anular, mas é um reflexo da Vida Divina. Esse capítulo é um catecismo para o amor de Deus vivido na comunhão matrimonial. Vamos lê-lo juntos: “O amor á paciente, só faz o bem, não é invejoso, não se enche de orgulho, não é interesseiro…” e assim por diante.

  1. Amor paciente

A atitude de paciência, explica o Papa, é o modo de agir do Deus da Aliança: “É lento para a ira” (Ex 34,6). Lendo a história do povo de Deus, podemos comprovar sua paciência em suportar as fragilidades e pecados do povo. Ter paciência, diz o Papa, “não é deixar que nos maltratem permanentemente nem tolerar agressões físicas ou permitir que nos tratem como objetos” (AL 92). Por outro lado não podemos maltratar os outros colocando-nos como centro e esperando que cumpram nossa vontade. É comum vermos essa atitude dos que dizem: “só eu tenho razão” e, deste modo, passa-se a um processo de opressão que provoca constante desgosto. No matrimônio isso é uma tortura. “Se tudo nos impacienta, tudo nos leva a reagir com agressividade”. É forte a expressão do Papa: “Esta paciência reforça-se quando reconheço que o outro, assim como é, também tem direito a viver comigo nesta terra”… “O amor possui sempre um sentido de profunda compaixão que leva a aceitar o outro como parte deste mundo, mesmo quando age de modo diferente do que eu desejaria” (AL 92). Essas coisas pequeninas são as células que fazem todo um corpo.

  1. Amor a serviço

                    A paciência como reflete Papa Francisco, não é passiva na base do só agüentar. O amor paciente está a serviço. “A paciência é acompanhada por uma atividade, uma reação dinâmica e criativa perante os outros. Indica que o amor beneficia e promove os outros. Paulo escreve: “A paciência faz o bem” (1Cor 13,4). Amor não é apenas um sentimento. Lembra o sentido hebraico da palavra amar: “fazer o bem” . Lembra S. Inácio: “o amor deve ser colocado mais nas obras que nas palavras” (Exercícios Espirituais, 230 – Al 94). Como a fé, o amor sem obras é morto. A paciência é altamente comunitária, especial para o casal, pois um promove o bem e o crescimento do outro aceitando as diferenças no mútuo serviço. No processo formativo é preciso paciência para que cada um possa crescer em suas qualidades pessoais. No casamento corremos o risco de não deixar o outro crescer ao impor seu modo pessoal. A felicidade não é um olhar para o outro, mas o dois para o mesmo fim.

nº 1572 – Homilia da Assunção de Maria (21.08.16)

“Assunção de Maria”

Maria do povo

             Há um grande carinho do povo de Deus para com uma mulher, Maria de Nazaré, que fez parte do povo e vive com ele e para ele. Estamos acostumados a ver imagens e pinturas de Nossa Senhora, a Mãe de Deus e nossa. São de rara beleza. Mas nos esquecemos que sua imagem mais autêntica é de sua humanidade que é nossa humanidade. Por maiores que sejam os privilégios que tenha recebido, nada diminui seu ser mulher do povo, identificando-se com cada mulher. Certamente que as imagens e pinturas são bonitas e expressam nosso carinho e nossos sentimentos. A melhor imagem da Mãe de Deus e nossa, contudo, está no rosto queimado da mulher trabalhadora do campo e da cidade. Não é socialismo colocar Nossa Senhora como uma mulher do povo e pobre. Ser de Nazaré significava ser muito pouco. Já disseram sobre Jesus: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (Jo 1,46). Nazaré era realmente, conforme estudos de arqueologia, um lugar muito pobre. Não diz que são maus, mas são humildes e simples, de beleza diferente. O Antigo Testamento diz que desse “resto fiel” viria a salvação. Só eles permaneceram fiéis a Deus. A simplicidade de Maria condiz bem com as palavras que diz: “O Senhor olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,46). Essa pequenez e humildade não são atitudes somente espirituais, mas reais. São os humildes. Fugir da Maria simplesinha, mulher do povo, é um jeito de não assumir o compromisso com o povo. O evangelista fala dela com muita simplicidade, pois foi isso que compreendeu a partir de seu contato pessoal ou através dos relatos dos contemporâneos. Falar de sua Assunção é apontar nosso futuro.

Maria de Deus

            Deus tem um carinho especial para cada uma de suas criaturas. Deus é todo para cada uma. Todos são amados intensamente por Deus. Dele, não temos nada a receber, pois em Cristo já nos deu tudo (Rm 8,32). Quis que todos fôssemos seus filhos adotivos, filhos do coração. A todos deu os dons necessários para a vida e a salvação. A cada um deu dons para sua missão nesse mundo. Cada um participa do grande projeto de Deus de acordo com um plano misericordioso do Pai para participarmos da redenção e construção do mundo e de sua Igreja. Assim Maria, como todo ser humano, como todo cristão participa do plano de Deus e recebe uma missão particular. Ela foi escolhida para ser a Mãe de seu dileto Filho. É um dom e uma missão. A Igreja não inventa dogmas, verdades sobre Maria. Ela simplesmente reconhece o que a sagrada Tradição ensinou. A Escritura, entendida no seu sentido pleno, justificou. Encontramos no Antigo Testamento as profecias que ensinam o futuro Messias. Ensinam também sobre a vida da Igreja.  Por isso podemos nos apoiar nas Escrituras para conhecer o Mistério de Cristo e de tudo que a Ele se refere. Não é a letra, mas a Vida Divina que dá vida a essas letras. A Palavra de Deus é viva e eficaz (Hb 4,12). Por isso podemos dizer que ela foi levada ao Céu.

Rogai por nós

            Maria faz parte do Corpo de Cristo, faz parte também de sua vida e vitalidade. Ela, membro mais perfeito depois de Cristo, tem nesse Corpo de Cristo parte na saúde que o fortalece. E ela o faz por sua intercessão misericordiosa. Cristo é o único Mediador (1Tm 2,4). Maria participa dessa mediação enquanto parte de seu Corpo. Ela o faz como mediação suplicante. Com todo povo de Deus é intercessora: reza pela vida desse corpo. Tirar Maria do Mistério de Cristo é negar a Palavra. Subindo ao Céu leva nossa humanidade.

Leituras: Apocalipse 11,19ª;12,1-3-6ª.10ª; Salmo 44;1Cor 15,20-27ª;Lucas, 1,39-56

Ficha nº – Homilia da Assunção de Maria (21.08.16)

  1. Maria é uma mulher simples. As pinturas são belas, mas a verdadeira Maria está em Nazaré, nas condições de mulher do povo. Nazaré era terra humilde.
  1. Deus ama todas as pessoas. Cada um participa do projeto de Deus de acordo com seu plano. Para isso recebe dons e missão. A Escritura nos ilumina.
  1. No Corpo de Cristo Mediador é mediadora na intercessão misericordiosa.           

            No Céu com os pés na terra 

            A gente fala muito de Nossa Senhora. Se a gente a conhecesse mais, mais ainda falaria. Por que ela tem essa presença tão forte na Igreja Católica?  Quem de fato ama Jesus e O tem como seu Salvador vai amar muito aquele que deu para nós esse Homem Deus tão grande. Quem gosta do fruto, não corta a árvore.  Ela continua intimamente unida a seu Filho como na gestação. Jesus, como era um bom filho, seguia os mandamentos de Deus com perfeição amando seu pai e sua mãe, como o Pai do Céu manda.

            Dizer que Maria foi levada ao Céu depois do fim de sua vida, é um dogma da Igreja Não sabemos como morreu. Ou foi levada para o Céu. Tanto coisa como outra são boas. Lembremos que Elias, um grande profeta, foi levado ao Céu num carro de fogo.

            A Igreja não inventou essa verdade, pois a comunidade dos primeiros cristãos são as testemunhas desse fato e ensinaram para nós, antes de os evangelhos serem escritos. Faz parte da sagrada Tradição que é também uma fonte da fé. A Igreja ensina que “Maria, terminado o curso de sua vida terrestre, foi levada em corpo e alma ao Céu”. Ela é a mulher gloriosa de que fala o Apocalipse.

            O ensinamento tem fundamento na Palavra de Deus, pois todos ressuscitaremos. E Maria, sendo a primeira em corpo e alma, garante que o ensinamento de Jesus funciona e é para todos. A promessa da ressurreição já é realidade em Maria.

            No seu canto, minha alma engrandece o Senhor, ela conta que todas as gerações a chamarão bem-aventurada. Não por ela, pois Deus é quem age.

Ela ensina também que o caminho do Céu passa pelo cuidado dos necessitados. Quem diz ter religião e não procura modificar o mundo para socorrer os humilhados, não conhece a Deus. É do mal.

A gente vai para o Céu com os pés na terra.

 

nº 1571 – Artigo  “O amor que se estende”

  1. Casa do amor

            A exortação apostólica “Amoris Laetitia – Alegria do amor” do Papa Francisco,  reflete no final do terceiro capítulo sobre os filhos no matrimônio. “O matrimônio é, em primeiro lugar, ‘uma íntima comunidade de vida e do amor conjugal’ que constitui um bem para os próprios esposos” (AL 80). Salienta-se aqui a certeza que o matrimônio se constitui no amor. O amor não é fruto, mas realidade primeira da vida do casal. Ele é fonte do amor que gera mais amor. Este amor está destinado à geração. “O bebê que chega “não vem de fora acrescentar-se ao amor mútuo dos esposos; surge no próprio amor dessa doação mútua, da qual é fruto e realização” (AL 80). Por isso nenhum filho vem por caso, mas é fruto do amor que é fundamento do matrimônio. Não só de um amor sentimento, mas do amor que o constitui. Ele é sempre aberto à fecundidade, embora nem sempre possa efetivamente gerar uma nova vida (Id). Nesse amor está a participação do casal na obra criadora de Deus. Deus confiou ao casal a responsabilidade do futuro da humanidade através da transmissão da vida (AL 81). A geração da vida não é projeto individual, mas faz parte de um desígnio maior de Deus para o casal e para o mundo. Por isso ninguém pode dispor da vida de um feto, pois ele não pertence exclusivamente ao casal. É fruto de um amor que não é só do casal, e está destinado a uma vida que lhe pertence.

  1. Escola do amor

            Vivemos momentos difíceis para a educação. Quem educa nossos filhos? A família perdeu sua missão de educar. Há outros meios que interferem fortemente na educação dos filhos. Educar os filhos é um dever e um direito. A família tem também o dever e o direito de controlar a educação que é dada pelas instituições. Sabemos que estas podem estar penetradas por ideologias diversas, contrárias à opção dos pais. Todas as demais instâncias de educação são subsidiárias e colaboram na educação, inclusive a educação religiosa. A primeira escola da família é o amor que se vive. O Papa insiste que um dos modos de formação, sobretudo de formação religiosa, é a participação da família no processo educativo dos filhos. Há muitas observações sobre a escola atual em nosso país. É preciso abrir um canal para um aprofundamento das questões.

  1. A família e a Igreja

            Papa Francisco, seguindo as afirmações do Sínodo dos bispos sobre a família, lembra o lado positivo de nossas famílias que permanecem fiéis aos ensinamentos do Evangelho. Agradece pelo testemunho que dão. “Por essas famílias pode-se tornar crível a beleza do matrimônio indissolúvel e fiel para sempre”. Nota ainda que “na família, como Igreja Doméstica (LG 11), amadurece a primeira experiência eclesial da comunhão entre as pessoas na qual, por graça, se reflete o mistério da Santíssima Trindade”. Quando dizemos que a família é a Igreja Doméstica, não é um conceito vazio, pois, continua o Papa: “É aqui que se aprende a tenacidade e a alegria no trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e sempre renovado, e sobretudo, o culto divino pela oração e pelo oferecimento da própria vida”, diz, citando o Catecismo da Igreja Católica 1657 (AL 86).  A Igreja é família de famílias (AL 87). Destruir a família é destruir a Igreja e encerrar o aprendizado das coisas do Céu. “O amor vivido nas famílias é uma força permanente para a vida da Igreja” (AL 88). Refletindo sobre a Igreja temos que compreender que o espelho é a família, célula mãe do povo de Deus.

nº 1570 – Homilia do 20º Domingo Comum (14.08.16)

“Fogo sobre a terra”

Proposta radical

            No caminho para Jerusalém, Jesus continua instruindo seus discípulos. Ensina que passarão pela recusa dos que estão envenenados pelo mal. À custa de sua vida, Jesus quer fazer a vontade do Pai e  implantar o Reino. Propõe o mesmo ao discípulo para que tenha a vida. Radical quer dizer que atinge a raiz e passa a alimentar a vida. Se fizermos a opção fundamental por Jesus, vamos viver o que Ele viveu e sofrer o que sofreu por parte de seus perseguidores, seguidores do mal. O inimigo usa os que optaram pelo mau caminho recusando a proposta de Jesus. Por isso diz claramente que não veio trazer a paz, mas a espada e a divisão (Lc 12,51). Não podemos nos esquecer que o fogo de que fala o evangelista é o fogo do Espírito. “Sereis batizados com o Espírito e com o fogo” (Mt 3,11). O fogo do Espírito é o amor que orienta a vida e fortalece no sofrimento pelo Reino. Sua vontade em receber logo o batismo significa que quer concluir a obra da redenção sofrendo o batismo de sangue pelo qual vai realizar nossa purificação. Lembramos o que diz aos dois irmãos Tiago e João: “Vocês podem ser batizados no batismo em que vou ser batizado? (Mc 10,38-39). A opção por Jesus vai causar divisão nas famílias. É o que vemos em nossas comunidades. É bom ter consciência de que a perseguição contra a Igreja e os cristãos é por causa da recusa do adversário contra Jesus.

O profeta perseguido

            Jeremias é o exemplo do profeta sofredor. Fiel a Deus não compactuou com o paganismo e a insolência dos que mudaram da religião para a política. A cidade está para ser destruída e ele não prega falsidade para enganar o povo numa falsa esperança. O profeta sofre violenta perseguição. Durante toda a vida sofreu. Diziam que era o profeta chorão, mas na verdade era a dor da perseguição. Quem prega a verdade da Palavra é perseguido até por gente de dentro da Igreja. Há uma tentativa de abafar as exigências do Evangelho apoiando-se em doutrinas que não tem nada a ver com Jesus que nos compromete a viver com integridade a verdade da justiça e do amor. Dizem que é política, marxismo, socialismo etc. … Alguns pretendem justificar o dinheiro, o poder e o prazer. Usam uma política que apóia a exploração do povo e identificam isso com doutrinas da Igreja e de santos. Devemos respeitar as posições políticas, mas elas devem ser sempre inspiradas pela Palavra de Deus. A perseguição continua. Pobres profetas!

Com os olhos fixos em Jesus

            Só podemos entender os sofrimentos que nos atingem se mantivermos os olhares fixos em Jesus. Ele não foi somente vítima, mas assumiu o sofrimento, pois lhe era proposto algo maior, a glorificação: “Ele, em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz  … e assentou-se à direita de Deus” (Hb 12,2). Esse combate é forte. “Empenhemo-nos com perseverança no combate que nos é proposto, com os olhos fixos em Jesus, que em nós começa e completa a obra da fé” (Id. 12,1-2). Para não nos desanimarmos devemos contemplar Jesus que enfrentou muita oposição por parte dos pecadores (3). E encerra com uma frase muito forte que nos alerta que não estamos reclamando sem razão, pois “ainda não resististes até ao sangue na vossa luta contra o pecado” (Id 4).  Todos esses males vêm do pecado. Por isso é necessário estarmos sempre atentos a ver se nossas idéias não são fruto do pecado. Cada Eucaristia é momento de rever nossa vida. Ela nos reforça na fé e nos sustenta nos sofrimentos.

Leituras: Jeremias 38,4-6.8-10; Salmo 39; Hebreus 12,1-4; Lucas 12,39-53

Ficha nº1570 – Homilia do 20º Domingo Comum (14.08.16)

  1. Jesus ensina a opção radical por Ele, em favor de seu Reino. Isso acarretará perseguição ao discípulo como causou a Ele.
  1. O profeta é perseguido. A perseguição continua no mundo. Ela é obra do demônio que continua perseguindo os que anunciam o Evangelho.
  1. Paulo anima os cristãos que sofrem a verem como Jesus superou os sofrimentos. Ter os olhos fixos Nele é a condição para suportar. 

            Bombeiro que acende fogo 

            Parece que Jesus gosta da confusão. Nós é que somos confusos e não sabemos alinhar com Ele. O que é botar fogo na terra? O que significa que veio trazer a espada? É um projeto de paz, pois o fogo é seu Reino que se instaura; a espada é a batalha pela verdade;  a divisão que ocorre é a recusa de muitos ao projeto de vida nova que propõe. É muito sofrido passar por isso. A recusa a Jesus culmina sempre em muito sofrimento.

É isso que vemos no profeta Jeremias que, por sua coerência com a Palavra de Deus que anunciava, passa pelos maiores sofrimentos. Mesmo no mundo de hoje há muita perseguição dos que querem um mundo novo a partir da Palavra de Deus. Ele não foi ouvido e o povo pagou por ter sido desobediente.

A Carta aos Hebreus convida à perseverança no combate que nos é proposto. Sabemos que Jesus passou por isso. Diz o texto: “Ele, em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, não se importando com a infâmia. Depois se assentou à direita do trono de Deus” (Hb 12,2). Cristo passou por tantos sofrimentos para que não nos desanimemos. E diz uma palavra que nos envergonha: “Vocês ainda não resistiram até o sangue na luta contra o pecado” (Hb 12,4). Estar na graça de Deus exige coragem e disposição.

 

nº 1569 – Artigo  “A graça e a carne”

  1. Matrimonio e casamento

Estamos refletindo sobre a Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre o amor na família – Amoris Laetitia (AL). Quando dizemos matrimônio e casamento estamos usando duas palavras que querem dizer a mesma coisa. Há, contudo, uma dimensão diferente. Casamento é a realidade humana que conhecemos em tantas religiões e culturas. Matrimônio tem a dimensão espiritual – sacramental. Seria bom distinguir para aprofundar melhor a riqueza dessa realidade. A dimensão espiritual não acontece se não há a dimensão humana. Estão intimamente unidas como no ser humano que é carnal e espiritual. Assim o matrimônio, para ser completo, exige a parte carnal como componente necessário. Sendo um sacramento exige o sinal sensível que explica a graça invisível. O sacramento do matrimônio é carne e espírito. O espiritual é a graça de participação na vida de Cristo. Tudo que há em Cristo para nossa salvação acontece no sacramento do matrimônio. O sacrifício pascal de Cristo se dá com sua total entrega ao Pai. A entrega do casal realiza essa dimensão. Na entrega corpórea recebem esse dom. “Seu consentimento e a união de seus corpos são os instrumentos da ação divina que os torna uma só carne” (AL 75).  O aspecto religioso do sacramento do matrimônio não está, em primeiro lugar, na celebração, mas na própria realidade sacramental que acontece na vida do casal. A celebração é o atestado dessa ação de Cristo. Com o batismo, o matrimônio é fonte de vida espiritual para toda a vida. Não são atos, mas o sacramento que atua pela vida. É comum se ouvir: o amor acabou. Se acabar é porque nunca houve. Quanto mais a sociedade elimina a família, mais vemos crescer a consciência do matrimônio como um todo, corpo e espírito.

  1. Projeto humano no projeto de Deus

            Como o espiritual tem sido colocado em oposição ao que é humano, dizemos carnal, torna-se difícil compreender a dimensão espiritual da sexualidade. O projeto da energia carnal incluiu sua característica de demonstrar a dimensão espiritual do ser humano. Quando se diz que “não separe o homem o que Deus uniu” (Mc 10,9), referindo-se ao matrimônio, podemos entender que não sejam separadas santidade e sexualidade nem  opostas, pois dão sentido e completam o matrimônio. Se tivéssemos entendido o sentido espiritual da sexualidade, não estaríamos passando pela situação de perversão que se vive no momento. O Papa lembra que tudo foi criado por Cristo e para Cristo (Cl 1,16). Com a vinda de Cristo, torna-se mais clara a criação (AL 77). Pelo Evangelho se clarificam e purificam os elementos que a frágil condição humana absorveu e se recuperam elementos do desígnio divino. Como o matrimônio faz parte da condição humana na criação, temos muito a receber e nos enriquecer de outras culturas, purificando-as do que seja nocivo.

  1. Famílias feridas

A Igreja e as instituições devem ter o olhar de Cristo sobre as multidões sofridas. Cristo não só acolhe como ilumina oferecendo sempre caminhos para a cura dos corações. Por ser uma instituição de santidade não dispensa a contínua conversão não só das chagas do pecado, como indicações para os caminhos da graça. O matrimônio sempre poderá ser melhor. A conversão penetra também as condições humanas da família e da sexualidade. A meta é sempre dispor-se ao melhor. O amor se modifica com a idade e circunstâncias. Quando mais maduro, mais atinge sua condição de promover a felicidade humana e espiritual. Eu presenciei meu papai e minha mamãe namorando até os 75 anos de casamento quando partiram.

nº 1568 – Homilia do 19º Domingo Comum (07.08.16)

“Não tenhais medo” 

O pequeno rebanho

No caminho para Jerusalém, para cumprir o que o Pai lhe dera como missão, Jesus instruiu os discípulos. Tem em volta de si um pequeno grupo de discípulos que O segue. A eles Jesus dirige essa palavra: “Não tenhais medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar-vos o Reino” (Lc 12,32). Mesmo numa situação de fragilidade, eles são a presença do Reino no mundo. São estimulados a estarem despojados para viver o Reino. O tesouro que lhes é proposto é guardado nos céus aonde o ladrão não chega nem a traça corrói. Ali estará também o coração que é a sede de todos os afetos e esperanças (Lc 12,33-34). O pequeno rebanho também deve ser vigilante. É necessário estar sempre pronto para poder ir ao encontro do Senhor quando vier. É preciso estar pronto, pois o Senhor pode vir a qualquer momento. A vida do pequeno rebanho deve ser organizada em vista da vinda do Senhor. Os discípulos mantêm a vigilância na espera de sua vinda que está próxima. E o fazem vivendo os valores do Reino. Não esperam desocupados. Paulo chama a atenção dizendo: “Quem não quer trabalhar, também não deve comer” (2Ts3,4). É uma vigilância ativa. O Senhor virá como um ladrão. “Vós também, ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos O esperardes” (Lc 12,40). O discípulo é alertado a assumir sua condição e corresponder ao muito que lhe foi dado. Essa correspondência não se trata somente de encargos, mas da responsabilidade para com o Reino. Este é o muito que nos foi dado. É preciso corresponder.

Páscoa e vigilância

            O livro da Sabedoria traz um belo texto sobre a Páscoa que celebra a espera e a vitória. Refletindo sobre a vigilância, lembramos que ela foi celebrada durante a noite numa situação difícil. Era o momento em que os primogênitos dos egípcios eram mortos e os filhos dos santos, isto é, o povo, preservados. “A noite da libertação fora predita… ela foi esperada como salvação para os justos e perdição para os inimigos” (Sb 18,6-7). A celebração da Páscoa na saída do Egito tem a característica de espera da libertação e vitória sobre o inimigo opressor. Ensina-nos que ela liberta e é destruição do mal que afeta os filhos de Deus que é o pecado, isto é, a recusa do Reino. A Páscoa  celebrada através do ritual do batismo é purificação do mal, infusão da Vida Divina e introdução na comunidade dos justos. É sempre a vinda do Senhor.

Fé como espera.

            Os pais de nossa fé esperaram, confiaram e viram os prodígios de Deus. Jesus disse que “Abraão viu o meu dia e se alegrou” (Jo 8,56). A carta aos Hebreus faz uma bela reflexão sobre sua fé. Ensina que os patriarcas tiveram a fé, viveram na fé, não viram a realização, mas nem por isso desanimaram. Sua fé garantia a certeza da realização das promessas de Deus. Por isso a definição de fé está unida à esperança: “A fé é um modo de possuir já o que ainda se espera e a convicção cerca de realidades que não se vêem” (Hb 11,1). Assim lemos sobre Abraão: “Foi pela fé que Abraão obedeceu à ordem de partir para uma terra que devia receber como herança, e partiu sem saber para onde ia” (id. 2). Vivendo da fé, podemos esperar que o Senhor venha. A fé nos faz viver essa presença através de nossa vida renovada. A celebração da Eucaristia é sempre um anúncio dessa vinda quando dizemos depois da consagração: “Vinde, Senhor Jesus”. Temos que recuperar a noção de esperança que se firma na vigilância.

Leituras: Sabedoria 18,6-9; Salmo 32;Hebreus 11,1-2.8-19; L nucas 12,32-48

Ficha nº – Homilia do 19º Domingo Comum (07.08.16)

  1. Jesus instrui os discípulos sobre a vigilância. Devem despojar-se para acolher o Reino e ter um tesouro no Céu. Devem estar vigilantes ocupados com o Reino.
  1. A Páscoa para os judeus é o momento da libertação e do castigo do inimigo. Tudo isso está presente na noite pascal com outro sentido.
  1. O texto da carta aos Hebreus ensina que os pais do povo viveram da fé na esperança. O fato de não verem, não tirou a força da fé. 

            Melhor prevenir que remediar 

Jesus insiste sobre a vigilância, pois Ele pode chegar a qualquer momento. Não se trata de amedrontar-nos, mas estimular-nos a viver bem e a sermos fiéis administradores dos bens e da casa de Deus.

O pequeno rebanho de Jesus é animado a fazer o caminho da boa administração que consiste em aplicar os bens no cuidado dos pobres. Esse é o tesouro que não acaba. Assim nosso coração estará onde estiver nosso tesouro, isto é, no Céu. De nós será pedido bastante, pois o tesouro que nos foi confiado é muito grande. Lemos no final do texto de hoje: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido” (Lc 12,48). Diz isso aos discípulos a quem foram confiadas as riquezas de Deus.

Não tenhamos medo de enfrentar, pois nos foi dada a inteligência espiritual.

Tudo brota da fé, como nos narra a Carta aos Hebreus. Abraão e Sara tiveram fé e conseguiram dar vida a uma multidão de povos. Seus descendentes foram capazes de, em segredo, fazerem um sagrado pacto de união no sofrimento e nos momentos bons. A fé dá realmente essa garantia e fortalece na espera.

Somente pela fé podemos entender a força da vigilância, esperando o Senhor chegar. Por isso dizemos que o homem prevenido vale por dois.

 

nº 1567 – Artigo  “A vocação da família”

  1. O olhar fixo em Jesus

          O terceiro capítulo do documento papal Amoris Laetitia (Alegria do amor) é dedicado aos ensinamentos essenciais da Igreja sobre o matrimônio e a família. É fundamental buscar nas Sagradas Escrituras a proposta de Jesus para a família. Em trinta parágrafos temos uma síntese sobre essa vocação de acordo com o Evangelho, como ela foi recebida pela Igreja ao longo da história. Trata da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimônio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Papa Francisco está em consonância com os ensinamentos dos Papas dos últimos tempos. No parágrafo 59 dá a razão porque tratar o assunto a partir da vocação fundamental da família que é o amor de Deus. Diz que o ensinamento “não pode deixar de se inspirar e transfigurar à luz deste anúncio de amor e ternura, senão quiser tornar-se mera defesa de uma doutrina fria e sem vida. Com efeito, o próprio mistério da família cristã só se compreende plenamente à luz do amor infinito de Pai, que se manifestou em Cristo entregue até o fim e vivo entre nós” (AL 59). Salienta que “o matrimônio é um dom do Senhor” (1Cor 7,7). E acrescenta a Carta aos Hebreus “que o matrimônio seja honrado por todos e o leito conjugal, sem mancha (Hb 13,4). A partir da Palavra afirma a indissolubilidade do matrimônio, não como uma cadeia, mas como um dom dado ao casal. É o projeto originário de Deus, como lembra Jesus (Mt 19,4). Ele esteve presente na vida da família, como em Caná, na casa de Pedro e

  1. Jesus foi família

          Nem precisamos lembrar que Jesus, em seu mistério de salvação, o fez na condição de família. Jesus nasceu tendo um homem chamado de pai e uma mãe. Sua vida foi dentro da família em suas condições humanas e espirituais de seu povo. }O Beato Paulo VI, citado, diz que “a aliança de amor e fidelidade, da qual vive a Sagrada Família de Nazaré, ilumina o princípio que dá forma a cada família, tornando-a capaz de enfrentar melhor as vicissitudes da vida e da história”. A família de Nazaré é o modelo. Retomando os ensinamentos da Igreja, o Papa cita o Concílio e os Papas João Paulo II e Bento XVI. A família é considerada em sua dignidade como comunidade de amor, enraizados em Cristo. Edificando o Corpo de Cristo tem uma missão própria na Igreja destinada ao amor conjugal, à procriação e educação dos filhos. Só em Cristo podemos entender essa missão.

1764.Matrimônio é um sacramento

          Lemos no parágrafo 71: “A Escritura e a Tradição abrem-nos o acesso a um conhecimento da Trindade que se revela com traços da família A família é imagem de Deus… é comunhão de Pessoas” como na Trindade . Conhecemos Deus a partir da noção de família. Por Jesus, o matrimônio natural foi elevado à condição de Sacramento. Aquilo que Deus pôs em nós na criação, nós o temos como meio de santificação, isto é, realiza em nós a vida de Deus, iniciada em nós pelo Batismo. Não se trata só de um rito, “mas é o próprio Cristo que vem ao encontro dos cônjuges cristãos pelo sacramento do matrimônio. Permanece com eles, concede-lhes a força de seguí-Lo, de levantar-se depois da queda, perdoar-se mutuamente e carregar o fardo uns dos outros”. Torna-se presente no matrimônio o amor de Cristo pela Igreja (seu povo). “Quando se unem numa só carne, representam o esponsal do Filho de Deus com a natureza humana” (AL 73). Essa união prefigura a felicidade da união de todos em Cristo. Nas fragilidades e temores estão igualmente unidos a Cristo que passou por nossas dores. Pelo que vemos, o matrimônio não pode ser tratado só como um fenômeno social

nº 1566 – Homilia do 18º Domingo Comum (31.07.16)

“Ser rico diante de Deus” 

Vaidade das vaidades

         O livro do Eclesiastes difere dos outros livros da Bíblia porque tem uma filosofia diferente da hebraica. Mostra a fragilidade e a transitoriedade das coisas. Por isso diz: “Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade”. Vê que tudo o que se faz acaba em nada. “Toda a vida é sofrimento, sua ocupação, um tormento. Nem mesmo de noite repousa seu coração” (Ecl 1,23). Esse texto vem como comentário à Palavra de Deus sobre o homem a quem Jesus chama de louco (Lc 12,20). O homem teve grande colheita e queria aumentar os armazéns e aproveitar a vida. Na mesma noite ele se vai. Que adiantou? Jesus conclui: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus” (Lc 12,21). Os bens materiais são necessários, úteis e importantes. Mas não devem ser a fonte da vida. Não se deve fazer do dinheiro um deus. Isso é vaidade. O mal não é ter riquezas. Mas não saber usá-las. Há quem pense que, porque é rico, pode colocar Deus a seu serviço, escravizar o irmão e abusar da natureza. Se vivermos a mensagem do Evangelho não criaremos o desequilíbrio por causa dos bens. É absurdo o fato de alguns serem ricos sem se darem conta que são os pobres que trabalham para eles. E continuam pobres e eles mais ricos. Lembramos também que tudo o que temos não foi adquirido sem a participação de Deus. Por que deixar seus filhos de fora. A vida é insegura. Só Deus é o fundamento seguro. Isso é o que significa ser rico diante de Deus. Deus não inibe, mas promove a vida na qual os bens materiais dão suporte aos espirituais e estes orientam a vivência dos bens materiais.

Buscai as coisas do alto

         Ser batizado não é somente um rito, mas uma definição por um modo de vida. Sem isso a fé perde o sentido. Fé e vida estão intimamente unidas.  São Paulo nos estimula a buscar a coisas do alto. Este é o modo normal de viver de quem diz ter fé. Trata-se de revestir-se de Cristo. Não exteriormente, mas interiormente gerando ações coerentes. Pela opção por Cristo é preciso despojar-se do homem velho e de sua maneira de agir fazendo o que pertence ao mundo: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e cobiça que é uma idolatria”. Basta olhar em volta que vamos ver a desespero para ter coisas, o egoísmo , a insensibilidade e até a burrice. Para vencer os vícios é necessária  a prática das virtudes que anulam a vaidade. A parábola de Jesus é uma resposta ao homem que lhe disse: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. E diz: “Tomai cuidado contra todo o tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (Lc 12,13.15). Jesus não entrou na questão do pedido do homem, mas diz que tudo deve ser resolvido na dentro de um novo modo de vida.

Dai ao nosso coração sabedoria

         A oração do salmo nos coloca nos lábios essa súplica: “Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria”(Sl 89). A sabedoria é a ciência de Deus encarnada em Jesus. Ele é a Sabedoria e nos dá a sabedoria do Evangelho para sabermos discernir. Por isso rezamos também: “Saciai-nos de manhã com vosso amor e exultaremos de alegria todo o dia”. Vemos que a sabedoria não é mecânica, como algo material, mas é um relacionamento. Aprendemos “tocando” a origem de todos os bens no diálogo amoroso da abertura para Deus e pela oração, principalmente a Eucaristia que é a oração maior. Os anos “passam como o sonho da manhã, são iguais a erva verde pelos campos. De manhã ela floresce vicejante, mas à tarde é cortada e logo seca”.

Leituras:Eclesiastes 1,2;2,21-23;Salmo 89;Colossenses 3,1-5.9-11; Lucas  12,13-21

Ficha nº 1566 – Homilia do 18º Domingo Comum (31.07.16)

  1. Diante da fragilidade dos bens materiais, o Eclesiastes reflete sobre sua vaidade. Jesus ensina como ser rico para Deus. Os bens são bons, mas para produzir o bem.
  1. Paulo ensina a buscar as coisas do alto e despojar-se do homem velho e seus vícios.
  1. O salmo nos convida a ter a sabedoria de Deus para ter os dias bem contados. 

         Burrice não faz bem. 

         O livro do Eclesiastes analisa a vida humana e mostra a fragilidade que vai a desvarios porque se apóia na vaidade. Tudo é vaidade, diz o autor sagrado. Jesus comprova essa verdade contando a parábola do homem que teve uma colheita abundante. Para isso faz armazéns maiores e diz a si mesmo: “Tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita”. Assim a vaidade humana se junta à estupidez.

         Mas o homem se esquece da dimensão espiritual da vida. Deus lhe dá a resposta: “Louco! Ainda esta noite, pedirão de volta tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?” E Jesus faz a conclusão do assunto: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si, mas não é rico diante de Deus” (Lc 12,20).

São Paulo apresenta o caminho para vivermos em meio a todas as coisas boas do mundo sem nos perder: Buscar a vida do alto. Esta é a vida de quem ressuscitou com Cristo. O caminho é reconhecer que “nossa vida está escondida em Cristo” e nosso modo de viver é “despojarmo-nos do homem velho e revestirmo-nos do homem novo que se renova segundo a imagem de seu Criador” (Cl 3,1.3.9-10). Vencidos os vícios através da prática das virtudes, podemos sair da vaidade.

 

nº 1565 – Artigo  “Desafios da família”

  1. Situações que deve suportar

          Continuando a reflexão sobre a família no documento “Amoris Laetitia” (A Alegria do Amor), Papa Francisco alerta para algumas dificuldades. Essas foram nascidas das informações que recebeu dos Sínodos sobre a Família. Uma delas é a dificuldade que se refere à função educativa da família. Diz com palavras simples: “Eles chegam em casa cansados, sem vontade de conversar; em muitas famílias, já não há sequer o hábito de comerem juntos, e cresce uma grande variedade de ofertas de distração, para além da dependência da televisão” (AL 50). Ficando longe dos filhos por causa do trabalho, os pais perderam muito em sua função educadora. Quem educa é a TV, meios de comunicação, a rua, a escola e os companheiros que também estão distantes da família. A escola também padece de muitas ideologias que contrastam com o modelo ideal de família. O documento continua alertando sobre a insegurança do futuro. Perder um emprego é sempre um fantasma. Cria-se a ansiedade. Junte-se a isso a questão das drogas que é um flagelo de nosso tempo. Somam-se os vícios da bebida, do jogo e de outras dependências. Outro mal que distancia os filhos dos pais é a dificuldade de se chegar ao trabalho nas grandes cidades. São horas dentro de uma condução nas piores condições humanas. As conseqüência são grandes: “Observamos as consequências desta ruptura em famílias destruídas, filhos desenraizados, idosos abandonados, crianças órfãs de pais vivos, jovens desorientados e sem regras”. Anotamos ainda a questão da violência que educa para o ódio.

  1. Forças da família

          Dizemos que a família tradicional não existe. Ela também tinha suas fraquezas. A família, contudo, tem forças para mover a sociedade. Ela é benéfica e própria para o amadurecimento das pessoas, para o cultivo dos valores comunitário e para desenvolvimento ético das cidades. Vejamos as palavras firmes do Papa: “Já não se adverte claramente que só a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher realiza uma função social plena, por ser um compromisso estável tornando possível a fecundidade” (AL 52). E apresenta uma resposta às “outras” uniões: “Devemos reconhecer a grande variedade de situações familiares que podem fornecer certa regra de vida, mas as uniões de fato ou entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, não podem ser simplesmente equiparadas ao matrimônio nem tão pouco ao modelo de família que se assemelha à Família de Nazaré. Nenhuma união precária ou fechada à transmissão da vida garante o futuro da sociedade” (Id), diz o Papa. E ainda diz que não há incentivo aos casais quanto ao papel educativo, nem incentiva a estabilidade da união conjugal.

  1. Ainda pesa sobre a família

          Há questões que ainda danificam a família: sociedades nas quais ainda vigora a prática da poligamia, convivência pré-matrimonial e, até mesmo sem o sentido de seguir depois ao matrimônio. Dizer que a Igreja é antiquada já é um mal. A força da família está na capacidade de amar, por mais ferida que seja. Há melhoras na situação da mulher vencendo a situação inferior. Mas ainda há muito que mudar (AL 54). É prejudicial a ausência do pai. Por mais difícil que seja, os pais precisam estar juntos. A ideologia de gênero destrói o ser família. É um assunto difícil e está invadindo a orientação educacional. A questão da tecnologia da procriação humana pode ajudar, mas pode destruir o fundamento da família (AL 56). E conclui: “Os grandes valores do matrimonio e da família cristã correspondem à busca que atravessa a existência humana” (AL 57).

nº 1564 – Homilia do 17º Domingo Comum (24.07.16)

“Ensina-nos a rezar” 

Quando orardes, dizei.

         São Paulo, dizendo que com Cristo fomos sepultados no batismo e com Ele fomos ressuscitados por meio da fé (Cl2,12), assegura-nos o direito de falar com Deus através da oração. Jesus mesmo é o mestre da oração. Os discípulos, vendo-O rezar, disseram-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar como João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1). Jesus faz então a catequese sobre a oração. Não somente ensina a rezar, mas dá-nos sua própria oração. Era o que rezava. A maior lição é seu exemplo. Jesus, em sua condição divino-humana reza ao Pai. Assim permanece para sempre como o mestre da oração. Ele revela: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome”… Lucas inicia a oração chamando a Deus de “Abbá” (Paizinho) em aramaico, termo jamais usado assim no Antigo Testamento. Jesus nos revela a ternura de Deus comunicada para ser caminho da oração. Santificar o nome de Deus é fazê-Lo conhecido. É uma dimensão missionária. Conhecer resulta em anunciar. O Reino que chamamos é o próprio Jesus e seu Espírito que se manifestam. Lucas não diz “seja feita a vossa vontade”, pois usa um texto mais primitivo. A seguir apresenta três pedidos para as necessidades cotidianas: O pão de cada dia. Também se refere ao pão da Palavra e ao Pão da Eucaristia que são simbolizados pelo pão cotidiano; o perdão dos pecados é a promessa de Deus para a remissão total, dom do Espírito Santo; ser livre da tentação é ser livre do mal pelo dom do Espírito. O Pai-Nosso, abraço querido no Pai chamado de Paizinho, é o caminho da oração. O que devo rezar? O Pai Nosso. O perdão que pedimos está ligado ao perdão que damos. A oração passa pelo perdão.

Pedi com insistência

         Jesus narra a parábola do amigo inoportuno para ensinar a perseverança na oração. Deus não retarda na resposta e atende imediato. Se nos parece demorada a resposta, lembremos que ela é o abraço do Paizinho. Que mais precisamos além de estar em afeto com o Pai? Se nos deu Jesus, que mais precisa nos dar? (Rm 8,32). Temos tudo ou podemos dizer: com Ele temos todas as soluções porque com Ele saberemos viver. Abraão pechinchou com Deus tentando evitar a destruição de Sodoma. O importante é o diálogo com Deus.  Que criança não é atendida quando vem manhosamente pedindo ao paizinho alguma coisa. A insistência e a perseverança são partes integrantes da oração. É comum se ouvir que “Deus não me atendeu. Então fui procurar outro rumo”. Na verdade o Pai atende sempre. O que acontece é que não esperamos que atenda. Às vezes não prestamos atenção na resposta. É preciso fé e confiança. Quem pede com confiança pode ter certeza que já o recebeu. O Salmo nos leva a rezar: “Naquele dia em que gritei, Vós, Senhor, me escutastes… (Sl 137). Por isso vale a pena bater, insistir e procurar.

O Pai não dá uma pedra

         A parábola continua com uma conclusão na qual Jesus afirma que Deus sabe atender muito melhor do que nós. Sendo Pai bom, não vai dar uma pedra a um filhinho que pede um pão nem uma cobra a quem pede um peixe nem um escorpião a quem pede um ovo. Três alimentos importantes não faltarão aos filhos. O Pai é muito bom. Nós, em nossas fragilidades e maldades, sabemos dar coisas boas aos nossos filhos. Quanto mais o Pai que é bom, dará o Espírito Santo aos que O pedirem. Dá mais do que precisamos quando pedimos. Dá o Espírito Santo que nos dará todos os dons. Por que repetimos sempre as orações na liturgia. O importante é o vigor da perseverança.

Leituras: Genesis 18,20-32;Salmo 137; Colossenses 2,12-14; Lucas 11,01-13

Ficha nº – Homilia do 17º Domingo Comum (24.07.16)

  1. Jesus ensina a rezar dando-nos sua oração que preenche toda a necessidade e riqueza. A base da oração é a ternura do Pai e do filho que o acaricia com o Abbá.A oração do Pai Nosso contém tudo o que precisamos: o Espírito Santo.
  1. A oração deve ser insistente e perseverante. A demora da resposta se justifica na ternura do diálogo com o Pai. Abraão foi insistente com Deus. Nem sempre esperamos a resposta de Deus ou entendemos que já respondeu.
  1. O Pai atende melhor do que nós que somos maus. Não faltará nada ao filhinho. 

         Sujeito chato! 

         O tema da liturgia do 17º domingo comum é a oração. Os discípulos disseram: “Mestre, ensina-nos a rezar, como João ensinou seus discípulos.

Jesus era um homem de oração e dava testemunho de sua oração. Jesus lhes passa sua experiência pessoal de oração, mais ainda, passa sua oração para que eles a façam. Rezar é unir-se a Jesus em sua oração.

         A seguir Jesus conta a parábola do amigo chato. Quer pão emprestado e não desiste enquanto não o recebe. A oração não é um discurso bonito para Deus, mas um pedido insistente até incomodar.

         É o que vemos no diálogo de Abraão com Deus para livrar Sodoma da destruição. Como todo oriental, “negocia” com Deus. É a lição da persistência. Deus quer ser incomodado para que esteja mais tempo conosco. Oração não é para ter coisas, mas para ter Deus.

         A oração de Jesus implorando para ser livre da morte foi ouvida por Deus dando-Lhe o alívio do sofrimento, mas a glorificação pela ressurreição.

         Nossos pedidos a Deus não caem num coração maldoso, e sim, no coração bondoso do Pai que não dá pedra a quem pede um pão, não cobra se pede um peixe. Não dá escorpião se pede um ovo. O Pai é bom demais.

         Por isso podemos dizer: Ó Senhor, de coração e

u Vos dou graça, porque ouvistes as palavras de meus lábios (Sl 137). Pedimos ainda que Deus leve a cabo a obra que iniciou em nós. Afinal, a obra é Dele.

         Batamos à porta, com insistência. Ela será aberta sempre

 

nº 1563 – Artigo  “A Família e sua realidade”

  1. Situação atual da família

Papa Francisco em seu ensinamento, chamado Alegria do Amor, pretende tocar os pontos mais importantes da realidade familiar. Ele tem larga experiência e se assessorou muito bem para escrever, sobretudo ouvindo os dois Sínodos sobre a Família. Vamos refletir agora a situação atual da família. Temos experiência disso. Lembrando o Vaticano II relembra as mudanças que ocorreram na família. Muita coisa melhorou, mas outras pioraram. Há uma tendência ao individualismo a ponto de levar a família a ser um lugar de passagem aonde se vai só por interesses. Como cristãos, continuamos a propor e defender matrimônio, pois estaríamos privando o mundo de valores que podemos e devemos oferecer. Temos defeitos e damos exemplos contrários aos princípios que pregamos. Ou pregamos fora da realidade. Não basta impor uma doutrina e uma moral, distantes da realidade, esquecendo-nos dos aspectos humanos. É preciso ensinar a graça que o matrimônio carrega em si. Graças a Deus, acentua o Papa, há tantos elementos positivos, tanto humanos quanto da graça da penitência e da Eucaristia. Em alguns países temos ainda os bons aspectos da tradição. Há também que advertir sobre a decadência cultural que não promove o amor e a doação. É a “cultura do provisório”. Com facilidade muda-se de amor. Desconecta-se com facilidade, diz Papa Francisco. Tudo é descartável (AL 31-439).

  1. As culpas do mundo

             A situação familiar depende muito das ideologias e das situações sociais. Há uma cultura que impede os jovens de não formar uma família. Há um adiamento das núpcias devido aos problemas econômicos, de estudo ou de trabalho. Outros desvalorizam a família. É preciso, diz o Papa, animar os jovens (AL 40). Temos o risco da afetividade narcisista e instável promovidos pelo uso indevido da internet. As crises conjugais são enfrentadas de modo apressado deixando de lado os valores da coragem, paciência, perdão e até o sacrifício (AL 41). A queda demográfica causa uma mentalidade antinatalista promovida pelas políticas mundiais. Ter filho, para alguns, é arranjar problema. A Igreja rejeita as decisões dos Estados de promover a contracepção, a esterilização e o aborto (AL 42). O enfraquecimento da fé e da prática religiosa em algumas sociedades, afeta as famílias deixando-as ainda mais só com as suas dificuldades. As famílias se sentem abandonadas. A presença de idosos passa a ser um peso. O Estado tem obrigação de criar as condições para garantir o futuro dos jovens para construírem suas famílias (AL 43).

  1. Dificuldades do dia-a-dia

            A família além das situações globais da sociedade,            encontra os problemas que ferem ferem a carne: dificuldades de habitação, o que causa muita dor e preocupação. A família tem seus direitos, pois cumpre os deveres dos impostos. Daí os problemas dos serviços adequados de saúde, de emprego, de educação, de acesso à vida cultural e social ativa. Tudo reflete na família (AL 44). Os países são ricos, mas usam os bens só para os privilegiados. Tudo isso é sabido, mas não sai do lugar. Soma-se a isso a problemática dos filhos nascidos fora do casamento, crescem sem um dos pais, são explorados pelos abusos dos pervertidos, caem na criminalidade (AL 45). As famílias sofrem com a migração tanto interna no país como externas. O Estado e das Igrejas que não se preocupam. Some-se a isso a situação dos deficientes e idosos a serem cuidados. Lembra o Papa das famílias que caíram na miséria e no abandono. A Igreja tem que se constituir em socorro e promoção (AL 46-49). É preciso uma atitude corajosa para mudar.01

nº 1562 – Homilia do 16º Domingo Comum (17.07.16)

“Encontro com Deus”

Sabia ser amigo

Os evangelhos sempre nos apresentam Jesus ensinando com sua própria vida. É um caleidoscópio que sempre oferece uma face nova. A temática apresentada hoje é a hospitalidade e seus frutos. Lemos a misteriosa narrativa da visita dos três personagens a Abraão. Este os recebe com todas as honras orientais devidas a um hóspede. A hospitalidade tem o sentido de uma visita Divina. O texto é de difícil de interpretação. Na liturgia deste domingo é usado aqui para acompanhar o texto da visita de Jesus à casa de Marta e Maria. Esta visita, já costumeira, se reveste de um ensinamento profundo: acolher Jesus em sua vida está acima de todas as preocupações. É o convite a ir ao único necessário que não nos será tirado. Não se trata de um desleixar-se das coisas necessárias à vida, mas de dar-lhes o sentido de abertura ao encontro com Deus. Abraão realizou um intenso cerimonial de acolhida para colocar em ação a presença de Deus que o animava. Sair de si para acolher é já um anúncio da presença de Deus em nós. É o que ocorre com Marta e Maria. Maria acolhe Jesus e Marta O acolhe também, mas através de coisas que desviam do sentido de sua visita: estar com Ele. Abraão “permanece de pé junto deles debaixo da árvore enquanto comiam” (Gn 18,8). Ao terminarem o encontro, um deles deixa a promessa de um filho a Sara que ri por isso quando Isaac nasce, Sara diz: “Deu me deu motivo de sorrir” (Gn 2,16). Ela já passara da idade de ter filhos. À Marta Jesus diz: “Marta, você vive muito atarefada com as coisas. Uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10,41-42). O fruto mais precioso é estar com Jesus ouvindo sua palavra e participando de sua convivência. Isso é vitalidade.

Quem morará em vossa casa

         O que significa habitar a casa de Deus como rezamos no salmo? A morada Divina não é algo exterior, mas viver na presença de Deus que habita nosso coração. O sinal da presença de Deus, isto é, “morar em sua casa”, é viver as condições propostas pelo salmo 14. Estas se referem ao respeito ao outro na justiça, na verdade, no respeito sem exploração. Fruto dessa habitação: acolher Deus gera uma descendência de vitalidade. Os frutos de Deus são perenes. Isaac é o filho da promessa, como uma recompensa da hospitalidade de Abraão. Essa promessa culminará no Filho da promessa que é Jesus do qual Isaac é uma imagem. Jesus sendo acolhido por Maria e Marta continua na missão de ser o Hospede que chamamos de Hóspede de nossa alma. Aqui somos convocados a dar espaço a uma escuta privilegiada de Jesus. Esses momentos de intimidade com o Senhor vão além e permanecem como um lugar onde podemos nos refugiar nos momentos quentes da vida, como ocorreu com os três homens.

Corpo sofredor.

Cristo Jesus exerce a hospitalidade para conosco, unindo-nos a seu corpo. No Corpo de Cristo não participamos somente das riquezas de Cristo e dos membros. Estamos unidos também a seus sofrimentos. Paulo se alegra pelo que sofreu por Cristo para completar em sua carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com seu corpo, isto é, a Igreja (Cl 1,214). Cristo exerce uma hospitalidade de nos acolher em seu Corpo, a Igreja. Exercemos a hospitalidade quando acolhemos aos sofrimentos dos outros participando deles. O sofrimento é momento do encontro amoroso com Deus em Cristo. Nossa união a Cristo cobra de nossa parte esse “sofrimento” de serenar nosso coração.

Leituras: Genesis 18,1-10; Salmo 14; Colossenses 1,24-28;Lucas 10,31-42 

Ficha nº 1562 – Homilia do 16º Domingo Comum (17.07.16)

  1. A temática de hoje é a hospitalidade e seus frutos. Jesus hospeda-sena casa de Lázaro, Marta e Maria. A primeira leitura aprofunda a reflexão com a visita dos três personagens a Abraão. A hospitalidade é acolher o próprio Deus. Ela produz frutos.
  1. O salmo convida a morar na casa de Deus que será viver na presença de Deus que habita nosso coração. Para isso é preciso viver as condições de relacionamento com o outro na justiça e na verdade. A hospitalidade gera uma recompensa a Abraão e Marta e Maria.
  1. Cristo exerce hospitalidade para conosco unindo-nos a seus sofrimentos. Acolhendo os sofrimentos de nossos irmãos, estamos unidos ao Corpo de Cristo que é a Igreja. 

         O salário do descanso 

         O evangelho que narra a visita de Jesus à casa de Lázaro, Maria e Marta é um retrato do ser humano de Jesus. Ele era gente como nós. Ser Deus para Ele combinava com sua condição humana.

         Jesus tinha amigos e sabia ser amigo. Tinha liberdade de hospedar-se na casa desses amigos. A convivência com Ele devia ser muito gostosa. Era muito proveitoso papear com Ele. Quando Deus cria o sábado para o descanso do homem, incluiu nesse descanso, descansar em Deus.

         Não existe em Jesus uma falsa mania de dizer que repousar é perda de tempo. Todos nós gostamos. Jesus quer mais que isso. Quer também que repousemos com Ele.

O repouso dá abundantes frutos. Abraão foi hospitaleiro e recebeu com grande atenção os Três Homens (Anjos) que passaram por sua casa. Fez o melhor que podia. Abraão descansou ao dar repouso às três misteriosas personalidades. Eles descansaram da viagem e Abraão descansou em Deus.

         Jesus visita seus amigos e se hospeda em suas casas. Marta estava atarefada com a preparação da comida. Maria conversava com Jesus e se alimentava de suas palavras. Marta reclama da irmã. Jesus não nega a importância do trabalho, mas estar com Ele é muito mais importante. É como a dizer: vamos conversar, depois vamos juntos trabalhar.

         Quem não sabe descansar em Deus, jamais terá um repouso frutuoso.

 

nº 1561 – Artigo  “Matrimônio à luz da Palavra”

  1. Feliz quem teme o Senhor

            Para iniciar a reflexão sobre a Palavra de Deus como luz para a família, o Papa Francisco medita o Salmo 128, característico da liturgia nupcial: “Feliz quem teme o Senhor e segue seus caminhos”. Lembra que a Bíblia está cheia de famílias, gerações, histórias de amor, de crises familiares, desde Adão e Eva… até as últimas páginas do Apocalipse” (AL 8). No Genesis, o casal é o centro de uma história de amor: “Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá a sua mulher, e eles serão uma só carne” (Gn 2,24). Os três primeiros capítulos da Bíblia oferecem-nos a representação do casal humano em sua realidade fundamental. São três elementos: O casal é imagem de Deus, não cada um individualmente. Como Deus é criador, a fecundidade do casal é imagem viva e eficaz, sinal visível do ato criador. O casal que ama e gera a vida, é a verdadeira “escultura” viva, capaz de manifestar o Deus criador e salvador. No casal se desenrola a História da Salvação. “Torna-se uma imagem para descobrir e descrever o mistério de Deus”. “A Trindade é comunhão de amor, e a família, o seu reflexo vivente”. Adão sente solidão e não encontra solução nos animais. Deus não é solidão. É comunhão do Pai, Filho e Espírito. É comunhão não de palavras, mas o Tu que dialoga no amor e entrega: “O meu amado é todo meu e sou toda dele” (Ct 22,16). Deste encontro surge a geração da família. A união não é só corpórea, mas doação voluntária de amor, genética e espiritual (AL 9-13).

  1. Filhos, brotos de oliveira

            Junto aos pais estão os filhos lembrando a energia e a vitalidade. São pedras vivas dessa construção. Filho é a plenitude da família. Atualmente parece um peso, mas isso passa. Além da beleza humana, a família é a igreja doméstica. Papa Francisco escreve: “O espaço vital de uma família transforma-se em igreja doméstica, em local da Eucaristia, da presença do Cristo sentado à mesa” (AL 15). É na família que se dá a primeira catequese. Os judeus conservam essa mentalidade, sobretudo quando transmitem o sentido de sua vida aos filhos durante a celebração da ceia Pascal. Francisco diz: “A família é o lugar onde os pais se tornam os primeiros mestres da fé para seus filhos. É uma tarefa ‘artesanal’ – pessoa a pessoa. Cita: ‘E quando teu filho, amanhã, te perguntar … tu lhe dirás’” (Ex 13.14). Não se pode relegar a catequese somente para as aulas de catecismo. Ela deve partir dos fatos da vida. É na família que vai discernir o futuro. Os filhos são filhos de Deus. Os filhos têm o direito de conhecer Deus, seus caminhos e fazer suas escolhas.

  1. 1755. Entre cruzes e dores

A Bíblia “aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares” (AL 8) e a partir deste dado se pode meditar como a família não é um ideal abstrato, mas uma tarefa “artesanal” (AL 16) que se exprime com ternura (AL 28), mas que se viu confrontada desde o início também pelo pecado, quando a relação de amor se transformou em domínio (AL 19). Então, a Palavra de Deus “não se apresenta como uma sequência de teses abstratas, mas como uma companheira de viagem, mesmo para as famílias que estão em crise ou imersas em alguma tribulação, mostrando-lhes a meta do caminho” (AL 22). O documento ensina também a dignidade do trabalho do homem e as dificuldades que deve suportar. A doação de vida dentro da família cumpre a Palavra: “Não tem maior amor do que aquele que d a vida pelos amigos” (Jo 15,13). A ternura rege a vida familiar em todos os aspectos. A família cristã se torna o primeiro evangelho sobre o amor de Deus e de seu Filho que nos remiu. Esse amor é ação do Espírito.

nº 1560 – Homilia 15º do Domingo Comum (10.07.16)

“Jesus, o bom samaritano” 

Jesus se apresenta

            Jesus, em sua caminhada para Jerusalém para cumprir o desígnio do Pai, instrui seus discípulos. Acontece que um homem lhe pergunta o que deve fazer para merecer a vida eterna. Jesus pergunta o que diz a Lei? Ele recita o mandamento do amor a Deus e ao próximo. “Respondeste bem”, disse Jesus. O homem pergunta: “E quem é meu próximo?” Jesus então conta a parábola sobre o homem que descia de Jerusalém a Jericó e foi assaltado, ferido e abandonado no caminho. Passam três pessoas. Duas delas são importantes: o sacerdote e o levita. Olham e passam adiante. O sacerdote era quem explicava a lei que proclamava a caridade. O levita era responsável pelo culto. O samaritano era o impuro por sua condição de herético com respeito a Israel. Ele não passou adiante. Parou, sentiu compaixão, tratou do homem. Depois colocou no seu cavalo, levou para uma pensão, cuidou e, na hora de ir adiante, deixou dinheiro para os cuidados e promete volta para completar o necessário. Suas atitudes são as mesmas de Deus para com seu povo. Jesus faz a pergunta: “Quem é o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? “O que usou de misericórdia”, responde o homem. Esse quadro nos alerta para a caridade para com o próximo. Somos o próximo dos necessitados.

Jesus é o modelo

            Na parábola há um ensinamento fundamental para a vida cristã. Mais que um ensinamento é uma explicação sobre o que vai acontecer em Jerusalém. Dizemos parábola do bom samaritano. O bom samaritano é o que se faz próximo de cada pessoa. Jesus é o Bom Samaritano. Os gestos desse homem explicitam as atitudes de Jesus em seu caminho de redenção. Desceu do Céu, se encarnou, sentiu compaixão da humanidade caída e ferida sem solução, tomou-nos nos seus braços e carregando a cruz nos redimiu para a vida. Ele se fez o próximo de todos nós assumindo nossas dores. Por suas chagas fomos curados (1Pd 2,24). Seu ministério de ensinamento e culto não se identificam com o sacerdote e o levita que passam ao lado. Toda a Palavra conduz para o amor. O culto só será autêntico se for acompanhado da caridade, como lemos também nos profetas. Ao encerrar a parábola Jesus pergunta quem é o próximo do homem que fora ferido. O mestre da lei responde: “Aquele que usou de misericórdia para com ele” (Lc 10,37). Jesus não responde à pergunta quem é meu próximo, mas afirma que eu sou o próximo de cada pessoa que sofre. Ele se fez o próximo de todos nós, assumiu sobre si nossa realidade pecadora.

Vai e faze a mesma coisa (Lc 10,38).

A compreensão da parábola está nestas palavras de Jesus: “Vai e faze o mesmo”. Para isso é preciso ter entranhas de misericórdia. É muito mais fácil fazer uma religião de fachada usando o culto, a palavra vazia de vida. O homem que quis provocar Jesus era um mestre da lei. Conhecia a Palavra de Deus. A religião verdadeira é cuidar dos órfãos e das viúvas em suas necessidades (Tg 1,27).  Continuamos vendo a busca do prazer espiritual que nunca sacia. Essa lei do amor não está distante de nós como algo impossível e reservado a poucos. Rerá descer de nossas falsas seguranças e pegar o caminho de Jesus sua entrega total. Paulo nos mostra que esse Jesus Cristo que se abaixa é Deus, cabeça de tudo. Assumiu humanidade para reconciliar consigo todos os seres (Cl 1,20). Não se pode perder de vista que somos bons não pelo cargo que ocupamos nem pela sabedoria que temos, mas porque temos a capacidade de sermos próximos de todos. Isso vai nos dar a paz

Leituras: Deuteronômio 30,10-14; Salmo 18b; Colossenses 1,15-20; Lucas 10,25-37.

Ficha nº – Homilia do 15º Domingo Comum (10.07.16)

  1. Jesus narra a parábola do samaritano que cuidou do homem ferido. Quem é o próximo? O samaritano foi o próximo do homem ferido. Somos o próximo dos necessitados.
  1. Os gestos do samaritano lembram as atitudes de Deus para com o povo sofrido. Jesus foi nosso samaritano. Ele teve compaixão e tomou atitudes concretas encarnando-se e assumindo nossas dores e nos curando.
  1. Jesus diz ao homem que ele respondera bem: Vai e faze o mesmo. Para seguir Jesus é preciso ter entranhas de misericórdia. Esse Jesus misericordioso é Deus, cabeça de tudo e em seu corpo reconciliou todas as coisas. 

Serviço de saúde com segurança 

            Os donos do poder religioso e político do tempo de Jesus estavam sempre procurando um jeito de pegá-lo em alguma palavra. Faziam armadilhas perigosas.  Mas Jesus era mais esperto. Sempre tinha uma resposta completa que ia além do que queriam. Tentaram de todos os jeitos no campo espiritual, político e jurídico. Lembramos o caso do tributo a Cesar. O que dissesse dava errado. Mas deu certo.

            No evangelho desse domingo, lemos que armam para pegá-lo pelo lado religioso. Querem saber de Jesus qual era o fundamento de toda a lei de Deus. Uns diziam que eram os sacrifícios, outros a Palavra e outros pontos. O mestre da lei, isto é, o entendido nas coisas da lei de Deus, faz a pergunta sobre o que devia fazer para ter a vida eterna.

Jesus responde perguntando: “O que a Bíblia diz?” Ele responde: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração… e teu próximo como a ti mesmo”. É isso aí mesmo, responde Jesus. Para complicar, o homem ainda diz: E quem é meu próximo?

            Jesus conta a parábola do bom samaritano que já conhecemos bem. Um homem é assaltado, ferido e abandonado na estrada. Passa um sacerdote do templo; olhou e foi embora;  passou uma pessoa religiosa; olhou e passou. Veio o “mau” que era o samaritano, odiado pelos judeus. Viu, sentiu compaixão, desceu do cavalo, fez os curativos, pôs no seu cavalo, levou para a pensão, cuidou, deixou dinheiro para que fosse cuidado e voltou para terminar sua caridade. Quem foi o próximo? Aquele que cuidou, respondeu.

            Jesus ensina que nós somos o próximo de quem precisa. Os outros não são os próximos. Somos nós. Jesus foi o bom samaritano que desceu dos céus, cuidou da criatura ferida pelo pecado, pôs nas costas com a cruz, e cuidou de nós até o extremo.

            Deus sempre se abaixa para cuidar de nós com carinho.

            A liturgia ensina que a lei do amor é fácil de ser cumprida. Unidos a Jesus continuamos sua missão no corpo Dele que é a Igreja.

            Para ir para o Céu é preciso fazer caridade. Sem isso, pode tirar cavalo da chuva.

 

nº 1559 – Artigo  “Alegria do Amor”

  1. De amor para o amor

            No dia 19 de março de 2016, Papa Francisco apresentou uma “Exortação Apostólica Pós-Sinodal” sobre o amor na família cujo nome é “Amoris Laetitia”, isto é, Alegria do Amor. Do amor pela família a Igreja se dedica à preservação e animação da vida familiar na qual se realiza o amor de Deus manifestado através do amor humano. Papa Francisco diz que “o caminho do Sínodo dos Bispos permitiu analisar a situação das famílias no mundo atual, alargar a nossa perspectiva e reavivar a nossa consciência sobre a importância do matrimônio”(AL 2). Nesse documento de nove capítulos com 325 parágrafos, procura tratar todas as dimensões do tema. Entra em temas polêmicos que provocam discussões. Para escrever o documento, além de seu ministério de Guia da Igreja, traz sua experiência de trabalho direto com o povo. Além disso, acolheu as resoluções dos dois sínodos sobre a família acontecidos recentemente. Buscou também ensinamentos de Conferências Episcopais do mundo, de personalidades, como Martin Luther King e até de um filme “A Festa de Babette”, que o Papa recorda para explicar o conceito de gratuidade. Alerta no nº 2, que alguns “têm um desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão” e “a atitude dos que pretendem resolver tudo através da aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de reflexões teológicas”. Na introdução diz: “Além da necessidade de unidade de doutrina, é preciso ver que em cada país é possível buscar soluções mais inculturadas atentas às tradições e aos desafios locais” (AL 3).

  1. O caminho de uma reflexão

            Um dos caminhos para a leitura do documento Alegria do amor é a celebração do Jubileu da Misericórdia. O ponto de partida para entender o matrimônio e vivê-lo é a misericórdia. Temos que ter por certo que misericórdia não se reduz a ter dó ou procurar resolver os problemas dos sofredores, mas é uma “proposta de vida para as famílias cristãs”. O Papa se dirige à família e não só a problemas de casais. Quer em primeiro lugar estimular a “apreciar os dons do matrimônio e da família e a manter um amor forte e cheio de valores como a generosidade, o compromisso, a fidelidade e a paciência”. Em segundo lugar “se propõe a encorajar todos a serem sinais de misericórdia e de proximidade para a vida familiar, onde esta não se realiza ou não se desenrole em paz e alegria” (AL 5).

  1. Passos do documento

            No parágrafo seis, Papa Francisco apresenta as divisões do documento. Ele inicia a reflexão pelas Sagradas Escrituras. Inspirando-se na Palavra de Deus, passa a considerar a situação atual das famílias para “manter os pés no chão”. Belo pensamento de Francisco que quer falar às pessoas vivas e situadas, não a uma família que não existe. A seguir busca alguns elementos essenciais da doutrina da Igreja. Seguem dois capítulos centrais dedicados ao amor. O matrimônio não é um sacramento que se conhece somente a partir do direito e das leis, mas do amor. Nos próximos três capítulos dedica-se aos aspectos pastorais do matrimônio que levem a construir famílias sólidas e fecundas segundo o plano de Deus e à educação dos filhos. Continuando faz um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral perante situações que não correspondem ao que o Senhor nos propõe. Por fim traça breves linhas de espiritualidade familiar. No parágrafo sete dá orientações para fazer a leitura com proveito. É um documento amplo e que exige muita atenção. Espero que as breves reflexões que fazemos nos ajudem a ler o documento

nº 1558 – Homilia da festa de Pedro e Paulo (03.07.16)

“Pilares da Igreja” 

Fé para evangelizar

            A leitura dos Atos dos Apóstolos e da 2ª epístola a Timóteo narra o sofrimento e a fortaleza de Pedro e Paulo. Por serem discípulos de Jesus foram perseguidos. Em sua fé encontraram força na certeza da presença de Jesus. Paulo diz: “O Senhor esteve ao meu lado e me deu forças” (2Tm 4,17). Pedro tem o mesmo sentimento: “Sei que o Senhor enviou o seu anjo para libertar-me do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava” (At 12,11). A fé é a garantia dessa certeza: “Tu és o Messias, Filho de Deus vivo”, diz Pedro (Mt 16,16). Paulo proclama: “Combati o bom, combate, completei minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7). A missão dos dois apóstolos não é só uma obra apostólica, mas fruto de uma fé. Esta fé não é uma atitude primeiramente humana, mas vem do próprio Pai. Jesus o afirma: “Feliz és tu, Simão, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está nos céus” (Mt 16,17). O fundamento de toda a fé é o dom do Pai, acolhido pelo homem. Isto porque a fé supõe também a condição humana. Jesus afirma categoricamente: “Por isso Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Id 18). Aqui tem um jogo de palavras: Pedro e pedra são a mesma palavra em hebraico – Cefas. A fé está em uma pessoa. Lembramos que Jesus se encarnou na “humanidade” e os sacramentos têm a parte material, por exemplo, o pão e o vinho, a água etc… Por isso temos a missão de Pedro que é continuada pela Igreja, tendo Pedro, o Papa, como cabeça. O modo de o Papa ser Papa, varia de acordo com os tempos. Cada Papa nos abre uma compreensão de um aspecto de seu ministério. Nenhum Papa é igual ao outro, mas todos continuam a missão de Pedro de confirmar na fé (Lc 22,32).

Um modo de viver da Igreja

Entre os muitos ensinamentos da festa dos dois apóstolos, podemos refletir a partir de sua missão que é a unidade de fé missão de Cristo na diversidade. A unidade se faz na fé. A mesma fé em situações diferentes traz um modo de ser Igreja. Esta não se fixa nas formas, mas no dinamismo da fé. Havia uma grande questão que incomodava as comunidades: “Os cristãos provindos do paganismo deveriam praticar a lei judaica?” Foi definido pelos apóstolos que os judeus convertidos seguiriam a lei de Moisés e as tradições e crendo em Jesus como Messias. Os gentios não teriam obrigação de seguir os preceitos da tradição judaica, mesmo sendo cristãos. São dois modos de ser Igreja. O modo judeu durou algum tempo. É importante para a Igreja abrir às pessoas o conhecimento de Jesus para que lhes seja dada a fé como foi dada a Pedro. Mas deve-se estar atento à diversidade das culturas para que não se atrele a fé a uma cultura, como aconteceu por séculos. Não se nega o valor da cultura de romana, mas as culturas dos povos também têm grandes valores. Esse é o ensinamento do Vaticano II no documento Ad Gentes sobre a missão (AG nº 10 e 22).

Viver a fé na adversidade

            A liturgia do dia lembra um resultado da pregação dos apóstolos e ao mesmo tempo indica como devemos viver: “Concedei-nos viver de tal modo na vossa Igreja que, perseverando na fração do pão e na doutrina dos apóstolos e enraizados no vosso amor, sejamos um só coração e uma só alma” (Pós-Comunhão). Viver a fé exige que a vida de comunidade seja completa acolhendo a Palavra, formando a comunidade, unindo-se na oração e na festiva fraternidade. Não existe uma fé só para si. Cremos e entramos em um corpo que é a Igreja. Pedro, por ser mais próximo de nós, é mais conhecido que Paulo.

Leituras: Atos dos Apóstolos 12.1-11;Salmo 33; 2 Timóteo 4,6-8.17-18;  Mateus 16,13-19.

Ficha nº 1558 – Homilia da festa de S. Pedro e S. Paulo (03.07.16) 

  1. Os apóstolos Pedro e Paulo são perseguidos, sofrem, mas sentem a força na fé em Jesus. Sua fé subsiste em sua condição humana. O Papa continua a missão de Pedro de confirmar na fé.
  1. Pedro e Paulo tiveram a mesma missão e a realizaram de modo diferente levando em conta a condição dos cristãos vindos do judaísmo e do paganismo. A Igreja deve estar atenta à diversidade de culturas como ensina o Vaticano II.
  1. A fé que recebemos nos leva a viver o espírito da comunidade primitiva que estava firme nos ensinamentos dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. 

            Dois homens e um mundo 

             A festa de S. Pedro e S. Paulo, reunindo estes dois pilares da Igreja, ressalta a unidade da missão de Cristo na diversidade das situações. É uma visão ampla e aberta a todos os povos.

Jesus não abandonou o povo da antiga aliança. Por isso confiou a Pedro sua evangelização.  Ele proclamou para os judeus Jesus como realizador das promessas.

Paulo, não abandonou a tradição dos pais, pois realizou a missão do povo de Deus anunciando o Messias. Deus fez um povo para chegar a todos os povos, e não para que todos os povos chegassem a esse povo.

Ensinamento dos dois apóstolos é um caminho de espiritualidade. Mesmo no sofrimento têm a presença de Jesus, pois assumiram sua vida e sua missão, continuavam o ministério, vivendo seu mistério.

Celebrar os dois apóstolos é constituir comunidades completas perseverando na fração do pão e na doutrina dos apóstolos, enraizados no amor, tendo um só coração e uma só alma (Pós-comunhão).

Como colunas da Igreja, souberam equilibrar o edifício feito de pedras vivas com duas tendências diferentes. A Igreja se estabeleceu no mundo pagão e no mundo judeu

Os dois apóstolos nos dão as primícias da fé (prefácio): Temos o fundamento na profissão de fé de Pedro e no combate de Paulo pela fé. Somos chamados a derrubar as barreiras e manter a unidade. E sejamos fiéis.

 

nº 1557 Artigo –  “A festa do povo”

1747 –  Gente de Deus e do povo

            No mês de junho e julho temos as festas populares que foram trazidas pelos colonizadores e assumidas com gosto pelas populações. São festas que honram três santos queridos do povo: Antônio, João Batista e Pedro. Estas festas são propícias para aumentar a vida da comunidade. Isso nos traz uma reflexão oportuna sobre a piedade popular, as devoções e ritos do povo. Há os que condenam por seu aspecto folclórico. Outros por um falso intelectualismo. Outros condenam por uma indevida interpretação da Palavra e por um biblismo fundamentalista. Junto a essas festas devemos colocar o modo de viver a fé no meio popular. Por que existe devoção popular? Com a dificuldade de entender a linguagem litúrgica e sem a devida formação, o povo procurou um modo mais compreensível de viver a fé, salientando a devoção aos santos, a Maria e aos mistérios de Jesus em sua dimensão humana. Surgiram muitas devoções e algumas foram infectadas de superstições. Esse modo de ser contribuiu para manter viva a fé do povo (Documento de Aparecida – 37.43). Papa Bento XVI chama a religiosidade popular de “rico tesouro da Igreja católica na América Latina” e convidou a promovê-la e protegê-la. E também “dar a catequese apropriada que acompanhe a fé já presente na religiosidade popular (DA 300). Não podemos desprezar a fé do povo pois ela também vem de Deus. O modo de expressar pode ser purificado, mas não anulado. Algumas coisas devem ser revistas, como por exemplo, uma promessa que é atrapalhada.  A pessoa fica doente e não pode fazer o que prometeu. E daí?

1748 – O santo é gente como nós

            O culto aos santos se distingue do culto a Deus. A Deus adoramos. À Virgem Maria temos um culto de hiperdulia, isto é, grande veneração. Aos Anjos e Santos temos a veneração, reconhecendo suas virtudes e pedindo intercessão. Jesus é o único mediador, Maria e os santos são intercessores na mediação suplicante. Os santos são pessoas normais como nós que viveram em profundidade sua fé e foram reconhecidos em vida e operam milagres por sua intercessão. Por que não ir direto a Deus? Já na sociedade usamos mediadores e intercessores, pessoas que nos ajudam. Como todos nós, vivos e mortos estamos unidos ao Corpo de Cristo. Como um corpo tem todos os membros unidos e vivem uma única vida. S. Paulo explica a união de todos em Cristo a partir da imagem do corpo. Assim também acontece com Cristo diz S. Paulo. “Vós sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte” (1Cor 12,12.27). Como os membros estão unidos e se ajudam, podemos receber ajuda uns dos outros, também na oração, pois rezamos uns pelos outros. Os santos nos ajudam e nós rezamos a eles unidos a Cristo. Os santos continuam gente como nós no estado de glorificação. Somos um corpo, uma família, uma Igreja.

1749 – Com os anjos e santos

Na festa do povo reconhecemos a presença de Deus que une seus filhos num único amor alimentados pela fé. Essa união se faz pelo amor que se vive. A Igreja de Deus foi sempre aberta. Participamos da glória dos santos e dos anjos quando estamos unidos pela fé em Cristo. A evangelização não é cortar o que existe, tirando a pessoa de sua cultura e da realidade. Convém anunciar o evangelho puro. Esse evangelho deve salientar Cristo Salvador de todo homem, misericordioso com os fracos e pobres. Ele reconhece os seus quando praticam o amor e o cuidado com os necessitados. Não tenho uma vida santa, se não cumpro o mandamento do amor. Preservar a piedade popular é aumentar a fé do povo.

nº 1556 – Homilia 13º Domingo Comum (26.06.16)

“Seguimento de Cristo” 

Seguir-Te-ei

            Jesus era decidido, como escreve o evangelista Lucas: “Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (Lc 9,51). Era firme em suas decisões. E quer igualmente que seus seguidores sejam firmes na decisão. A primeira leitura narra a vocação de Eliseu. O profeta Elias lança o manto sobre ele para comunicar sua vocação como posse Divina. Eliseu imediatamente sacrificou sua junta de bois, assando-a com a madeira do arado. Decisão firme. No evangelho Jesus cobra também firmeza de decisão. Quais os que não servem para seguir Jesus? Tem um caminho claro que exige decisão e rompimentos. O primeiro grupo que não está apto a seguir Jesus é dos que não se dispõem ao desapego e sua liberdade. Mais sofridas que a vida foi sua paixão e morte. Outro tipo são os apegados às questões familiares. Jesus não está dizendo que se deve desprezar a família e seus negócios. Mas o Reino exige uma exclusividade. Mortos, aos quais Jesus se refere, não em sentido de desprezo, são os que têm compromissos que os envolvem e não permitem tempo para o Reino. Outro tipo são os apegos aos pais: “Deixa ir despedir-me de meus pais”.  O afeto é bom e deve ser dosado com a disposição de servir ao Reino. A resposta de Jesus mostra seu conhecimento da vida do campo. Quem não presta atenção no sulco do arado, não faz um serviço bem feito e atrapalha o trabalho. Jesus não é exigente. O que quer é exclusividade para o Reino. Ou tudo ou nada. Foi essa sua maneira de viver.

Espírito e carne

            Paulo insiste que Deus nos chamou para a liberdade. Não podemos nos amarrar com outro vínculo (Gl 5,1). O Apóstolo faz uma reflexão sobre a liberdade e a libertinagem. Temos liberdade para fazer todo o bem. Libertinagem não vem do bem, mas nos amarra como uma escravidão. Se for preciso força para sair de um vício, é sinal que nos escraviza. O amor não escraviza; o apego sim. E acrescenta que devemos proceder segundo o Espírito e não satisfazer os desejos da carne. Carne não é o dom de nossa natureza humana, mas o desvio. Carne significa aqui a oposição ao Espírito e também a prática externa da lei dos judeus que estava cheia de prescrições. Não se trata da Lei de Deus, mas das leis humanas que podem ser mudadas e não devem ser absolutizadas. Jesus era avesso a isso tipo de observância que chegava a anular a lei de Deus. S. Paulo luta contra os judeus por isso, inclusive enfrentou os outros apóstolos contra a lei da circuncisão que queriam impor aos pagãos. No concílio de Jerusalém vão definir: os pagãos convertidos não precisam seguir a lei dos judeus. Na Igreja está voltando a tentação de fazer leis para tudo. É o medo da liberdade. Paulo insiste que amor resume todas as leis (Gl 5,14).

Vós me ensinais o caminho

            Os samaritanos recusaram Jesus. Os discípulos João e Tiago querem uma vingança vinda do alto. O caminho de Jesus, contudo, é sempre composto pela misericórdia e pelo acolhimento. Já é uma escola e um caminho na evangelização para os discípulos. As imposições que não correspondem ao Reino devem ser eliminadas. E há muitas. Jesus nos dá a liberdade de viver bem em qualquer circunstância. O salmo 15 nos faz rezar e nos dispor sempre mais ao Reino de Deus. Somente a partir de um relacionamento com Deus podemos nos definir pelo Reino. A formação do povo na Eucaristia leva a essa opção.

Leituras: 1 Reis, 19,16b.19-21; Salmo 15; Gl 5,1.13-L18;Lucas 9,51-62 

Ficha nº – Homilia do 13º Domingo Comum (26.06.16)

  1. Jesus é decidido em seu caminho e cobra o mesmo dos escolhidos. Assim foi Eliseu. Jesus enumera os que não servem: os apegados aos afetos e não assumem.
  1. Paulo insiste que Deus chamou à liberdade. Entramos no jogo da carne e do Espírito. As leis humanas não podem predominar sobre a lei Divina que é o evangelho.
  1. O caminho de Jesus é a misericórdia e o acolhimento. Jesus nos dá a liberdade de viver bem em qualquer momento. O salmo 15 nos abre ao Reino. 

            Passarinho sem ninho 

            O seguimento de Jesus é fácil, só precisa de firmeza na decisão. De todos que queriam segui-Lo, Ele cobra decisão. Não se pode enrolar. As diversas situações mostram critérios de discernimento no seguimento. Podemos fazer a pergunta: ‘Quem não serve para seguir Jesus?’

 Primeiramente os que querem comodidade: “As raposas têm suas tocas e os pássaros têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Lc 9,58). A vida de Jesus não era moleza.

            Outro tipo que não serve para Jesus: “’Deixa-me primeiro enterrar meu pai’. Jesus respondeu: ‘Deixa que os mortos enterrem seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus’” (Lc 9,59-60). Parece grosseira essa resposta. Quem são os mortos que vão enterrar? São os outros familiares. Seu pai tem quem cuida dele. Jesus não despreza a obrigação dos filhos. O excessivo apego à família prejudica o seguimento. É bom saber que os filhos consagrados a Deus têm muito mais amor aos familiares.

            Outro tipo perigoso: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa que eu vá primeiro despedir-me dos meus familiares”. E Jesus responde com uma frase muito forte que mostra sua experiência: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus (Lc 9,61-62). Não se trata de uma indelicadeza com a família, mas Jesus não quer que fiquemos envolvidos com tantas coisas secundárias. Por que a comparação com o arado? Quem segura o arado deve estar atento ao sulco, pois senão fica tudo torto. A decisão tem que estar centrada em Jesus. Buscar muitas coisas ao mesmo tempo não ajuda.

            Vimos no início do texto que os samaritanos não querem receber Jesus. João e Tiago já querem jogar fogo neles. Conversão se faz no coração e não com raios. Quem segue Jesus tem que ter sua paciência.

            A escolha dos candidatos não é fácil. Elias escolheu Eliseu que correspondeu.

            Paulo nos ensina que temos liberdade, mas para fazer o bem e não desperdiçar com os desejos da carne, mas usar com o Espírito. O fundamental é a opção como rezamos no salmo 15. Amar será sempre um bom caminho.

 

nº 1555 – Artigo  “Uma mulher para hoje”

  1. Beata Maria Celeste.

            Quando se ouve dizer que uma pessoa é beata, tem um sentido de carola, chata, metida a religiosa, mas, na terminologia da Igreja referente aos Santos, é uma das maiores expressões da vida da comunidade cristã. A Igreja católica reconhece que a vida dessa cristã foi heróica nos seus múltiplos relacionamentos na comunidade. Não elimina que tenha tido pecados, mas que teve força vencê-los com a graça de Deus. Sua vida foi analisada em tudo, foi comprovada sua virtude e demonstrada sua oração poderosa diante de Deus a ponto de se realizar um milagre por sua intercessão. O reconhecimento da santidade é feito pela Igreja mediante um longo processo. Após o milagre, o Papa dá autorização para que seja declarada beata, isto é, bem-aventurada. Ao fazer mais um milagre reconhecido, é colocada no catálogo dos santos, isto é, canonizada. Há muito mais gente que pode ser declarada santa. Os canonizados são colocados como modelos de vida cristã e humana. Beata Maria Celeste nasceu em 31.10.1696. Foi religiosa carm0101elita, depois fundou em Scala, na Itália, a Ordem do Santíssimo Redentor em 13.05.1731, a partir das revelações que recebeu. Estimulou S. Afonso a fundar a Congregação dos missionários redentoristas em 09.11.1732. Tendo sido expulsa de Scala por motivos da fragilidade e maldade de pessoas de sua convivência, estabeleceu-se em Foggia (Itália) onde estabeleceu a vida conforme a regra de vida escrita por ela. Ali se desenvolveu como escritora. Tinha como grande amigo, um jovem irmão leigo São Geraldo Majella, que era diretor espiritual de seu mosteiro. Marica Celeste morreu dia 14.09.1755. Seu corpo se conserva incorrupto. O processo de beatificação teve muitas dificuldades.

  1. Cristo como centro

            Maria Celeste é ainda desconhecida e vai demorar a ter uma influência na Igreja porque sua doutrina está bem adiante do que se pensa hoje sobre vida espiritual e religiosa. Ela fala a partir de sua experiência com Jesus Cristo que se iniciou quando tinha apenas 5 anos. Cristo a educava lentamente para essa missão. O ponto fundamental de sua espiritualidade é a centralidade de Jesus Cristo em sua vida. Com Ele dialoga, não somente com palavras, mas com a vida. Sua vida é lentamente transformada em Cristo para que Ele possa transparecer. O fundamento da espiritualidade é o amor de Cristo como Vida. Esse amor é missionário. Quem O escolhe como centro torna-se uma Viva Memória de sua vida e suas ações. Cristo continua sua missão pelo mundo como quando andava como homem a caminho para o anúncio do Evangelho. Cada um que assume essa vida torna-se um retrato vivo de Cristo. Também a comunidade é presença de Cristo pelo amor fraterno que se vive.

1746.Uma missão nova

            Essa beatificação traz muita alegria e muita esperança. A Ordem do Santíssimo Redentor, por ela fundada, é de clausura. Seu hábito é vermelho escuro, significa o amor que se vive. São 52 mosteiros no mundo, com mais de 400 religiosas. A Ordem está muito frágil em alguns países e crescendo em outros. Sua missão é viver na caridade e expandir-se no amor. Estão unidas aos missionários redentoristas pelo suporte dado à evangelização. A comunidade não é fechada em si, mas expande-se em abertura para que outros também busquem a Cristo no amor. Sendo Viva Memória do Redentor continuaremos sua vida e missão para a salvação e a construção de um mundo fundado no amor. A  vida cristão não se faz só de atitudes boas e atos de piedade, mas é uma transformação em Cristo.

nº 1554 – Homilia do 12º Domingo Comum (19.06.16)

“A leveza da Cruz” 

Fonte acessível a todos

            Depois de refletirmos sobre o pecado e a graça, somos evangelizados a conhecer o caminho de Jesus através do convite ao seguimento. A Paixão de Cristo, com toda a razão, foi sempre vista como momento de maior dor. A dor sofrida em sua Paixão e o caminho doloroso que percorreu torna-se um convite a todos. O profeta Zacarias nos oferece uma reflexão sobre esses acontecimentos: “Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e de oração” (Zc 12,10). Mesmo no meio dos sofrimentos e do pranto pelas desgraças sofridas, “haverá uma fonte acessível à casa de Davi e os habitantes de Jerusalém par ablução e purificação”. A Paixão de Cristo a que somos chamados a assumir como nossa é fonte de graça, de vida, de purificação e de culto a Deus pela oração. A fé, como explica Lucas em 9,18-24, nos coloca em atitude de seguimento de Jesus. Só segue Jesus quem crê que Ele é o Cristo (Lc 9,20). Crer significa seguir na rejeição e na Ressurreição. Seguir significa renunciar a si mesmo.  A renúncia a si mesmo não é destruição ou desmerecimento da pessoa humana, mas justamente a maior conquista de si mesmo por estar completo e poder ir além de si mesmo. Desse modo se pode seguir Jesus com força. Não se perde a vida, mas se ganha. Tomar a cruz não é entrar em um processo de sofrimento, e sim encontrar a abertura para a vida plena. Os homens e mulheres que conquistaram o mundo e fizeram um caminho para outros, foram justamente os quem mais se perderam, por isso, se ganharam. Beberam das fontes abertas no lado de Jesus e se transformaram em distribuidores dessa água de vida e purificação. A vida só cresce quando damos vida.

Sede de Deus

             A profissão de fé de Pedro em Jesus não se esgota em uma frase, mas é um processo de vida que se desenvolve. É fundamental o crescimento espiritual expresso pelo salmo 62  quando nos traz o que acontece em quem escolhe Jesus: “Minha alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus”. A sede de Deus se expressa na busca apaixonada de tudo que se refere a Cristo. A busca de Jesus não é a procura de um pronto socorro para todas as necessidades. É sede da Pessoa de Jesus e da vida Ele que oferece. Como sem água perecemos, sem Ele morremos. O primeiro sinal de morte é não precisar dessa água. O despojamento de tudo vence o obstáculo para nos revestimos Dele. O despojamento se torna um enriquecimento, pois quando mais vazios de nós mesmos, mais podemos nos “encher” de Cristo a ponto de termos a força de tomar sua cruz, perder a vida  para alcançar o Tudo. Por Ele vale a pena toda entrega.

Revestir-se de Cristo

            Revestir-se não com um manto que simbolize Cristo, mas revestir-se interiormente, como Paulo explica que esse revestimento se faz a partir do Batismo. Ele nos mergulha na sua vida. Por isso a busca de Deus não é só elevar-se espiritualmente. É uma opção de vida e não uma atividade espiritual. Viver em Cristo requer a fé, mas também a atitude de vida tomando sua cruz, sabendo perder tudo por Ele para tê-Lo. A espiritualidade de fazer atos bons e ter uma fachada de santidade não preenche o que pede Jesus. Ele nos quer por inteiro. A fragilidade da fé está no fato de não termos entendido ainda a proposta de Jesus. Cuidamos bem das aparências quando nosso interior ainda não se converteu.

Leituras: Zacarias 12,1-11;131;Salmo 62; Gálatas 3,26-29;Lucas 9,18-24. 

Ficha nº 1554 – Homilia do 12º Domingo Comum (19.06.16)

  1. Zacarias promete uma fonte aberta aos habitantes de Jerusalém. Na Paixão de Cristo encontramos essa fonte de ablução e purificação. A fé nos põe no seguimento de Jesus. A renúncia implica também acolher a ressurreição.
  1. Profissão de fé é um processo de vida que se desenvolve. Ela se fundamenta na sede de Deus. Revestir-se de Cristo acontece com o despojamento de todo obstáculo.
  1. Revestir-se interiormente é mergulhar na Vida de Cristo. Espiritualidade não é fachada. É deixar as aparências e converter-se. 

            Trocando em miúdos 

            Diante da profissão de fé dos apóstolos, Jesus descreve para eles o que significa ter fé. Jesus aceita a adesão dos discípulos, mas explica que crer significa seguir Jesus na sua condição máxima que é sua paixão e morte. Mas garante a ressurreição.

            Crer significa tomar a cruz e seguir: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9, 23). A renúncia é o fundamento do seguimento. É preciso uma mudança radical de vida para que o seguimento exista. É o que se vai chamar de novo nascimento, nova criatura, vida do alto. Nada mais é que sair de si e deixar Jesus entrar em nossa vida.

            Jesus explica que vale a pena deixar tudo por Ele. E acrescenta: “Quem quiser salvar sua vida vai perdê-la; e quem perder sua vida por causa de mim, esse a salvará (24). Vai ser muito mais humano, quem deixa se conduzir por Jesus.

            Em Jesus se “abre uma fonte acessível à casa de Davi e aos habitantes de Jerusalém para ablução e purificação”. Esta fonte está localizada no coração de Jesus que derramou sangue e água.

            O salmo 62 nos traz o que acontece com quem escolhe Jesus: “Minha alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus”. A busca de Deus não é só elevar-se através de Jesus. Esta é a condição dos filhos de Deus, como nos escreve Paulo, revestidos de Cristo.

nº 1553 – Artigo  “Um olhar sobre a história”

 

  1. História da Espiritualidade

            A história da humanidade é uma escola para se aprender e melhorar a vida das pessoas. Bem documentada, ela nos oferece uma linha de conhecimento dos tempos passados. O risco que podemos ter é olharmos o passado a partir de nós e não deixarmos que ele fale através dos documentos. Não podemos jogar nossos conceitos sobre o passado. Na história da humanidade há outros campos que são estudados de modo particular, como por exemplo, a história da arquitetura, medicina e outros. Há também a história da espiritualidade. Dentro desta há a espiritualidade cristã, no caso, a católica romana e oriental. São poucos os trabalhos sobre essa área. São 2.000 anos de história, sem contar com as fontes do Antigo Testamento. Por que tratar esse tema? Se não virmos bem a história da espiritualidade não entendemos nem purificamos o momento que vivemos. É interessante seguir seu caminhar. Nele podemos conhecer certas atitudes espirituais que vivemos e que, às vezes não se justificam, porque eram coisas próprias de um tempo decorrentes de certas circunstâncias e condições do povo. A história da espiritualidade passa por dois caminhos: o caminho dos intelectuais, como os monges e eclesiásticos, e o caminho do povo. Como o povo estava fora da reflexão, criou seu próprio caminho que ainda predomina nas comunidades. Cada época dá sua contribuição. Algumas coisas permanecem e outras desaparecem. O que permanece é sempre bom para o povo?

  1. Onde está o povo?

            Quando pude conhecer lugares históricos da humanidade, via fortalezas, muralhas, palácios, estátuas imponentes, castelos. A história apresenta os grandes reis, os generais, os heróis, as batalhas e os grandes impérios. A pergunta me vinha: “E o povo, onde estava? Como vivia e como morava e se sustentava? Se agora, com tanto progresso, temos tantas periferias e lugares abandonados. Imaginemos há séculos e milênios atrás. Os grandes líderes revolucionários se aproveitaram dessas situações e o povo foi usado. Os generais sobrevivem, os soldados vão para as frentes e ali ficam. Jesus anunciou o Evangelho a esse povo que era explorado. O povinho viu na pregação do Evangelho e nas comunidades a atenção de Deus para com Eles. Os grandes santos se preocuparam com o sofrimento do povo. Mesmo na espiritualidade podemos ver que há grandes nomes com profunda espiritualidade e mística. O povo se defendia com sua espiritualidade simples, às vezes supersticiosa, ou numa piedade vazia de conteúdo. A liturgia e a espiritualidade eram coisas do clero e dos monges. Os bons cristãos eram aqueles que imitavam os monges.

  1. Fazendo nossa história

            Aconteceram muitas mudanças desde o século passado até agora. Nessas buscas aconteceu o Concílio Vaticano II que apresentou caminhos novos. Os que preferiam continuar sem o povo deixaram-no de lado. Esta gente foi vítima de muitos aproveitadores. A questão que devemos colocar é o papel do povo, sobretudo o povo simples no caminho do crescimento da espiritualidade. Se deixarmos o povo de lado do desenvolvimento pastoral e espiritual da Igreja, será mais um grupo que a Igreja perde. Acolher o povo é construir a partir dele, com sua participação. O povo ainda vive espiritualidade que preenchea sede de piedade, mas não fundamenta sua vida cristã. Os documentos de Puebla e Aparecida insistem que a devoção popular deve ser evangelizada, não destruída. Assim podemos abrir um futuro melhor. A evangelização vai tirar o que não é do evangelho nem da cultura. A meta é tirar a superstição,

nº 1552 – Homilia do 11º Domingo Comum (11.06.16)

“É Cristo que vive em mim” 

Pecado e Graça

            A Palavra de Deus proclamada no 11º Domingo Comum nos coloca diante do pecado e da graça. Davi cometeu um grave pecado: além de adulterar, manda matar o marido da mulher que caiu na sua maldade. Deus o perdoou. O profeta dá a entender que foi perdoado, mesmo antes de ter reconhecido o erro. Mas ele manifesta seu arrependimento. No Evangelho encontramos a pecadora que traduz seu arrependimento, não com um pedido de perdão, mas mostrando amor. O arrependimento só acontece quando existe o amor. O fariseu não fora capaz de compreender a graça que estava em sua casa, pois não usou do amor nos gestos humanos da hospitalidade. A mulher superou a hospitalidade com a profundidade de um amor arrependido e aberto à graça. Todos nós podemos errar. Mas somente no amor deixaremos ver se nosso arrependimento é sincero. Por isso temos as palavras de Pedro: o amor cobre a multidão de pecados (1Pd 4,8). O forte amor da pecadora não busca perdão de pecados, mas o amor que perdoa. Assim devemos entender o sacramento do perdão como um banho de amor no amor correspondido, não como uma lavagem de consciência. Esse amor se caracteriza pela opção por Cristo como fundamento da vida. Paulo coloca nessa opção o sentido de sua vida. O pecado estará sempre por perto, como disse Deus a Caim: “O pecado está a sua porta. A você compete vencê-lo” (Gn 4,7). Seremos sempre pecadores, mesmo quando formos santos, pois à luz de Deus podemos ver melhor nossos males. A  Prece Eucarística nº 5 nos leva a rezar: Somos povo santo e pecador

A força da graça

            Paulo na Carta aos Gálatas, conta por experiência, que a graça não está na prática exterior na Lei. O que salva é a fé em Jesus Cristo. A palavra lei compreendia também as tradições e ritos. Seriam bons se fossem feitos pela fé. Serão feitos na fé se fizermos como Paulo diz: “Fui pregado na cruz com Cristo” (Gl 2, 19). Não se trata de sofrimento, mas de sua capacidade de assumir Cristo na vida e passar a viver seus sentimentos e sua mentalidade. A força da graça de Cristo torna-se vida. O Apóstolo diz: “Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim. Esta minha vida presente na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou. Eu não desprezo a graça de Deus” (Gl 2,20-21). Esta é a graça que acompanha na luta contra o pecado e todo mal. Vemos tantos desmandos no mundo. Tudo provém da falta da opção fundamental por Cristo. Mesmo nas fileiras da Igreja, o pecado acontece pela falta desse amor de entrega a Cristo, como fez a pecadora. Ela amou com totalidade. Ousou manifestar através do amor carinhoso. A fé e a graça não anulam a natureza.

O pecado faz mal

            É chocante ver que a morte da criança foi o castigo ao pecado de Davi. O filho que morre pode significar para nós que o pecado faz mal não somente a nós, mas cria uma onda de morte.  Não creio que Deus descontasse na criança. Mas nosso pecado destrói o mundo em que vivemos. Quantas pessoas sofrem no mundo por causa dos pecados de muitos. O sofrimento da terra igualmente vem por conta do pecado do homem como escreve Paulo aos Romanos (Rm 8,20-22). A graça faz bem. Os efeitos da graça são maiores e nos trazem os benefícios do imenso amor. O gesto da pecadora é uma lição para que cultivemos a ternura do amor. Era assim que Jesus amava.

Leituras: 2º Samuel 12,7-10.13; Salmo 31,Gálatas 2,16.19-21;  Lucas 7,37-8,3:

Ficha nº 1552 – Homilia do 11º Domingo Comum (12.06.16)

  1. A Palavra nos coloca diante das belezas da graça e os males do pecado expressos nos gestos da pecadora, no pecado de Davi e no amor demonstrado a Jesus e por Ele. O perdão exige amor.
  1. Para Paulo a graça é a sua união a Cristo a ponto de dizer: Cristo vive em mim. A força da graça é vida.
  1. O pecado faz mal a todos. É isso que significa a morte da criança nascida do adultério de Davi.

Amor em três casos. 

            Jesus era mesmo danado para aproveitar-se das ocasiões complicadas e tirar um ensinamento profundo que orientasse os discípulos. Na celebração de hoje temos três casos de amor.

            No Antigo Testamento lemos sobre o pecado de Davi que se encantou com a beleza da vizinha. Como era o rei quis para si aquela beleza. Como o caso se complicou com uma gravidez, mandou matar o marido que era seu fiel soldado. O profeta o condena em nome de Deus. Davi percebe seu erro e é perdoado. A morte da criança lhe mostra o mal do pecado.

            No evangelho temos o caso da pecadora pública que se aproxima de Jesus, ajoelha-se a seus pés. Jesus estava recostado no divã do banquete, conforme o costume, e os pés ficavam bem à altura da mulher ajoelhada. Ela Lhe lava os pés com as lágrimas, passa perfume, enxuga com os cabelos e beija. É uma cena forte. O fariseu condena Jesus no seu íntimo.

            Então temos o diálogo no qual Jesus mostra que a mulher, pecadora, foi muito mais perdoada do que o bom fariseu Simão que não demonstrara nenhum amor por Jesus que convidara para o banquete. Deus quer o banquete do coração. Muito se perdoa a quem muito ama. Confissão sem amor não cura o coração.

            O terceiro caso é Paulo: foi pecador porque firmava sua fé na prática exterior de Lei. Essa lei eram as tradições, não a Palavra de Deus. O que torna uma pessoa justificada diante de Deus não é a prática de coisas exteriores somente, mas a entrega de sua vida a Jesus, como diz o apóstolo: “A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus”. É preciso ter os mesmos sentimentos de Cristo.

nº 1551 – Artigo  “O que vem da sabedoria”

 

  1. Meditando a Sabedoria

            Falar de sabedoria é um tema que ultrapassa nossos conhecimentos. Temos na Sagrada Escritura o livro da Sabedoria e também o livro do Eclesiastes que refletem sobre a sabedoria. Tem me impressionado uma reflexão que faz sobre o passado. Refletindo sobre a bondade da sabedoria escreve: “Não digas: ‘Por que os tempos passados eram melhores do que os de agora?’ Pois não é a sabedoria que te inspira essa pergunta” (Ecl 6,10). Há uma tendência muito grande dentro de nós ver o passado como melhor que nosso presente. Temos saudades das coisas que vivemos, da vida de nossa infância. É um tempo que não volta. É muito comum falarmos que o passado não era como agora. Muita coisa mudou. O mundo não é mais o mesmo. Houve muito progresso em tantos sentidos e tão rapidamente. O mundo está todo conectado. Os meios de comunicação e de locomoção avançaram muito. Não negamos que foram as descobertas do passado que proporcionaram a base do mundo atual. Para estas descobertas foi necessário muito empenho. A crítica que fazemos à situação atual, nossos antigos fizeram o mesmo sobre seu mundo. É muito comum encontrar nos livros antigos a frase: ‘Os tempos são maus’. Jesus mesmo afirma aos fariseus que eles constroem túmulos aos profetas que seus pais mataram (Lc 11,47). Dizer que o tempo passado era melhor é uma afirmação que não provém da sabedoria, pois todos os tempos são bons para o momento. O autor vivia essa mesma situação em seu tempo. Por que insistir dizendo que agora está tudo mal e não é como antigamente. Ou será que não encontramos nosso lugar no mundo e o problema somos nós?

  1. Colocar a felicidade onde estamos

            É comum as pessoas dizerem: será que vou ser feliz lá onde vou morar vou trabalhar?A felicidade não está onde buscamos, mas onde a colocamos. É a historinha que está nas redes sociais: A senhorinha foi viver num lar de idosos e, quando lhe descreveram o quarto, ela ficou feliz e dizendo que decidiu ser feliz ali, daquele jeito. Se construo a felicidade – o que não elimina nossos problemas – ela será contagiante. A verdade e as coisas sérias não eliminam a possibilidade de serem vividas com alegria e sorrisos. A verdade não está na cara de quem a diz, mas no conteúdo que possui. A alegria é uma virtude humana que deve fazer parte da vida, sobretudo no espiritual. Já dizia o provérbio: “Um santo triste é um triste santo”. O entusiasmo nos leva a construir o futuro com base no presente. Não se pode olhar para o futuro pelo retrovisor, diz o filósofo de Porto Feliz (SP).

  1. Dar respostas ao nosso tempo

            Em lugar de olhar o passado com saudade, é melhor buscar as energias e o entusiasmo cheio de sabedoria que os antigos tiveram para fazer bom seu tempo. Aí sim vale a pena voltar ao passado para buscar as heranças de vitalidade que imprimiram no seu tempo. Nas condições em que viviam, sem os recursos disponíveis de agora, souberam encontrar novos caminhos. Temos outras dificuldades, outros problemas e desafios. A solução para nossos males é olhar o futuro e, com os meios que temos, dar respostas ao nosso tempo. Vivendo bem agora, estaremos prontos a viver bem amanhã. Na Igreja, há o anseio de estabilidade. Todos os tempos trouxeram problemas e soluções. Assim a história continua. Não se trata da novidade pela novidade, mas que seja uma resposta ao homem e à mulher de hoje. Sabemos que a semente plantada dará seu fruto a seu tempo. A sabedoria constrói. Vivendo em Cristo, Sabedoria do Pai, poderemos dar respostas coerentes.

 

nº 1550 – Homilia do 10º Domingo Comum (05.06.16)

“Sentiu compaixão” 

Curando os corações

            Estamos vivendo o Ano Santo especial que tem como finalidade viver a Misericórdia de Jesus e exercê-la em nossa vida. Ano Santo não é só uma comemoração, ou uma referência a um assunto. É um tempo propício de graça e mudança de atitudes para que a misericórdia de Deus seja mais acolhida e também assumida como caminho da Igreja. Papa Francisco não está interessado em movimento de massas no Vaticano, mas que seja um movimento e uma vivência nas comunidades. Ele abriu a Porta Santa no coração da África, em Bangui (República Centro Africana) onde há um clima de grande violência. Por isso a compaixão é a atitude de um coração convertido à misericórdia. O profeta Elias, no Antigo Testamento, ressuscita o filho da dona da casa onde se hospedava. Ela pediu (1Rs 17,17-24). Jesus ressuscita o filho da viúva de Naim que não pediu sua ressurreição. Somente mostrou sua dor, o que foi suficiente para Jesus sentir compaixão e tomar uma atitude máxima. Não disse palavras de consolo. Deu a vida ao filho que era a garantia de vida da pobre viúva, que sem o filho não teria mais futuro (Lc 7,11-17). Os milagres de Jesus não fazem parte de um espetáculo, mas são conseqüência de sua misericórdia. Há quem diga que falando muito da misericórdia, esquecemos da justiça de Deus. É de se perguntar se, quando pedimos a justiça de Deus, nos colocamos em primeiro lugar da fila para sermos julgados? A ressurreição por Elias confirma sua missão profética. A ressurreição realizada por Jesus está unida a sua missão de anúncio da vida nova que receberá do Pai e dará a todos os que crerem Nele, diz na ressurreição de Lázaro (Jo 11,11). Anuncia também que sua missão é a ressurreição universal, fruto da misericórdia de Deus.

Critérios de evangelização

            A misericórdia não é somente a realização de milagres ou um relacionamento amoroso com as pessoas. Ela é um critério para saber se a missão que exercermos é de fato a de Jesus. É um modo de dirigir a ação pastoral. A evangelização só produzirá frutos se proporcionar a misericórdia de Deus às pessoas, de modo especial aos pobres. São eles que devem ditar o modo como devem ser evangelizados. Se tivéssemos mais misericórdia, o sofrimento do povo seria muito menor, mesmo nos ensinamentos delicados e difíceis de solução como temos no momento atual. Precisamos viver e semear a misericórdia. Mantêm-se regras que estão distantes de resolver a situações. A doutrina deve ser preservada. Aqui também deve haver ressurreição.

Misericórdia na pastoral

            Jesus discutia com os fariseus sobre a observância de leis sagradas como o sábado, afirmando: “Mas se vós tivésseis conhecido o que significa: ‘Misericórdia quero, e não holocaustos’, não teríeis condenado os inocentes” (Mt 12,7). Igualmente temos leis fundamentais tidas como dogmas intocáveis. Não estaremos repetindo o que fizeram os fariseus? Se tivéssemos em conta a misericórdia em primeiro lugar seria mais fácil resolver e convencer. Quando necessitarmos de misericórdia, saberemos o mal que praticamos. Misericórdia não significa desconhecer a verdade, mas conduzi-la considerando o Evangelho em seu todo e teorias ideologias de um tempo. Aqui temos um longo caminho de estudo e busca da verdade, abertos à misericórdia. “Como a mesma medida que medirdes sereis medidos” (Mt 7,2).

Leituras:1 Reis 17,17-24; Salmo 29; Gálatas 1,11-19; Lucas 7,11-17 

Ficha nº 1550 – Homilia do 10º Domingo Comum (05 .06.16)

  1. No Ano Santo da Misericórdia encontramos Jesus tendo compaixão e ressuscitando o filho da viúva de Naim. Papa Francisco insiste na misericórdia que é missão de todos.
  1. A misericórdia é critério para a vida da Igreja e sua ação pastoral. Ela é critério de análise da verdade que apresentamos.
  1. As leis intocáveis, e doutrinas extremas para os fariseus podem estar presentes em nossa pastoral. Não podemos apoiar dogmatismos que não provêm do Evangelho. 

            Para uma mãe não se nega nada 

            As leituras nos dão duas indicações: Primeiro a ressurreição do filho da viúva de Naim e da mulher que hospedava Elias em Sidon. Diante da dor das mães, Jesus e Elias ressuscitam seus filhos.

            Jesus não fazia espetáculo com milagres. Eles nasciam da compaixão pelas pessoas. A misericórdia vem do coração de Deus. E Jesus sabia sempre usar a misericórdia. Quem tem capacidade para ressuscitar os mortos, também ressuscita. A Ressurreição vai além da reanimação de um cadáver, mas está voltada para toda a condição humana para a vida de Deus. O evangelista Lucas entendeu muito bem esse modo de ser de Jesus. Ele era médico e conhecia a dor do povo.

            Podemos tirar um ensinamento desse milagre: A viúva de Naim é uma imagem de toda a humanidade sofrida, perdida e distante de Deus. Diante de seu sofrimento recebe a misericórdia de Jesus que lhe dá vida a todos os seus filhos. É um ensinamento: não podemos desprezar os sofrimentos do povo, mas assumir ações concretas de ressurreição.

Na segunda leitura lemos Paulo afirmando que sua pregação não vem da inspiração das pessoas, mas de Jesus Cristo. Ele mesmo foi judeu e viveu com força sua fé judaica. Quando Jesus o escolhe para a pregação do Evangelho, deixa tudo e mergulha no conhecimento de Jesus Cristo. Não prega com critérios humanos.

É um grande ensinamento, pois muitos de nós aceitamos o Evangelho só naquilo que interessa. É o que dizem: sou católico, mas não aceito tudo. Quem sabe, o que aceitam é o que não é do Evangelho.

nº 1549 Artigo –  “África de meus sonhos”

  1. Vivendo um pouco mais

            Em 1989, eu, Pe. Luiz Carlos, fui premiado com um convite para ir trabalhar na Angola como missionário para a formação dos seminaristas. A independência da Angola em 11.11.75 trouxe uma guerra civil que durou muitos anos, continuando os muitos anos de luta pela independência. O país vivia uma situação dolorosa. Houve muita destruição e morte. Houve um tempo de paz e depois recrudesceu a guerra. Com paz definitiva vieram os problemas da restauração. O país teve um crescimento rápido, mas se tornou um mar de corrupção. O partido do MPLA (Movimento pela Libertação de Angola) domina e o presidente está no poder desde 1979. A corrupção minou o crescimento do país. O povo está em uma situação difícil. A Igreja se desenvolve e toma força. A população é religiosa. Fiquei trê anos no Kwito (Estado do Bié). Como era tempo de guerra, não era possível sair da cidade. Apesar das dificuldades, foi um tempo muito bom e de profundo aprendizado. O africano é muito rico em qualidades e valores humanos e de muita resistência. Senti-me engrandecido. Há algo maravilhoso que toma a gente. Diz-se que há um mistério na África. É difícil dizer o que se aprendeu, mas sinto que essa riqueza é mais que um conhecimento. É um modo rico de se viver. Não somente as pessoas, mas o modo de viverem, a simplicidade, a resistência, a alegria e a força interior nos tomam. Mesmo a natureza contribui. A Igreja em seus padres, irmãs e leigos cristãos demonstram muita força. Há encantos que somente vendo e acolhendo que podem ser apreendidos.

  1. Uma missão que vale.

            Agora, em 2016, fui convidado para dar formação sobre espiritualidade redentorista aos padres, seminaristas e leigos. Por que estou tratando esse assunto? Muitos acompanharam essa minha primeira ida. A segunda não foi muito notificada. É um dever comunicar essas riquezas. Como é possível viajar pelo país, pude ver em poucos dias o que não vi em três anos. As paisagens, as aldeias, as matas, a beleza tocam profundamente. Sou muito agradecido por ter podido conhecer as comunidades redentoristas e ver seu esforço por construir algo novo e reconstruir o que foi destruído. Os confrades padres, irmão, seminaristas vivem tempos bonitos nas comunidades com o povo. Buscam a identidade redentorista para a evangelização do querido país africano. Estão animados com as Santas Missões. Há ainda muita carência. Mas vivem bem com o pouco que têm. A política está difícil.

1737.Ser irmão sempre

            É preciso cultivar mais fraternidade para com os outros povos. Nós vivemos fechados em nosso mundinho. Lá não é Europa ou USA para grandes passeios, mas o que se vê e se sente ali, é vida. É preciso conhecer mais e se comprometer mais ainda, sobretudo na ousadia missionária. Quantos missionários ali entregaram sua vida! Há falta de muitas coisas. Temos que nos organizar para dar àqueles jovens sempre mais condições de poderem desenvolver suas grandes capacidades. São muito inteligentes. O país procura dar educação. Mesmo sem condições, crescem. A Igreja mantém instituições de ensino. O país sofre pelos mesmos problemas que sofremos, como a política e a corrupção. Nem tudo é tão bom. O país está parado. Abrir-se ao mundo africano e aos valores de seus filhos é enriquecer-se e muito.

nº 1548 – Homilia do 9º Domingo Comum (29.05.16)

“A força da oração” 

Nunca vi tanta fé

          O Evangelho não pode ser mudado nem trocado por nada. Paulo é duro com os gálatas que andaram misturando teorias com o Evangelho. Mesmo que venha um Anjo do Céu e pregue um Evangelho diferente do que vos pregamos, seja excomungado (Gl 1,8). Uma verdade que vem do Evangelho de Jesus, como lemos hoje é que Deus atente todos os que O procuram com fé. Toda oração é uma demonstração de fé. Só reza quem crê, mesmo que essa oração seja feita por alguém que não faz parte de nosso modo de viver. Salomão o disse com clareza quando inaugurou o templo de Jerusalém. Diz: “Se um estrangeiro que não pertence ao nosso povo, escutar falar de teu grande nome, e por isso vier rezar nesse templo, Senhor, escuta do céu e atende a todos os pedidos desse estrangeiro” (1Rs 8,1-45). Jesus afirma que Ele é o templo: “Destruí esse templo Eu o reedificarei em três dias” (Jo 2,19). Quando o oficial romano pediu, por intermédio dos anciãos judeus, que curasse seu empregado, teve fé na força da palavra de Jesus para a cura de seu empregado. Nem quis ir pessoalmente, nem sentiu necessidade de o Senhor ir pessoalmente. Bastava a Palavra. E Jesus o elogia dizendo “Nem em Israel encontrei tanta fé” (Jo 7,9). O fundamento da oração é a fé em Jesus. Não há outro modo mais justo na oração que viver esse Evangelho. É a fé, não o modo como fazemos a oração. Por isso é muito conveniente não impor modos e regras aos outros, mas estimular a fé. As palavras do pagão romano foram tão profundas que permanecem na liturgia quando nos é apresentada a Comunhão (Jo 7,6). Há um único modo de rezar: com fé. O modo como se reza depende de cada um. Deus é quem comanda a oração e não nós. Rezamos a oração da Igreja, para indicar os caminhos.

O Pai atende todos

          Salomão faz um templo aberto a todos os povos. Não precisamos mais de templos exclusivos para a oração, pois Jesus ensinou a orar em espírito e verdade (Jo 4,24). Toda oração é conduzida pelo Espírito e realiza a verdade que é Jesus. Jesus é a verdade da oração, por isso Paulo diz que o Espírito ora em nós com palavras que não temos (Rm 8,26). O Espírito Santo fala com o Pai sobre Jesus que é a Verdade. Certo que a oração bem feita humanamente, mas só é oração se fazemos com fé, mesmo frágil. É o Espírito quem reza. Ele faz a relação entre o Pai e o Filho. Por mais frágil que seja nossa oração, ela ganha força nessa relação amorosa que há na Trindade Santa. Pelo Espírito nossa oração fala a língua de Deus. Sempre podemos aprimorar, pois não sabemos o que rezar (Ib). Mas ninguém pode dar-se o direito de negar a oração dos outros, mesmo que não sejam como as nossas. Essa oração se encontra também fora do âmbito de nossas comunidades, mas estão na Igreja. A evangelização procura purificar e colocar a Palavra no centro de nossas orações.

Um só Evangelho

          Sempre vemos pessoas mudando de religião como se troca de roupa. O que procuram? Há pessoas que criam religiões. Não duvidando de sua boa vontade de procurar o bem, temos que nos alertar para a firmeza das palavras de Paulo sobre as mudanças que fazemos na compreensão do Evangelho. Ele deve ser assumido na sua totalidade e não somente firmar-se em algum ponto e fazer dele a totalidade. Podemos apoiar nossos pensamentos em poucas frases, mas não esquecer que a Palavra é um todo e se explica somente nesse todo e não em teorias. A pregação deve procurar sempre fundamentar a fé.

Leituras: 1 Reis, 8,41-43; Salmo 116;Gálatas 1,1-2.6-10;Lucas 7,1-10. 

Ficha nº 1548 – 9º Domingo do Tempo Comum  (29.05.16)

  1. Aprendemos hoje que Deus ouve a oração de todos, mesmo que não sejam dos nossos. Ouve todo aquele que o procura de coração sincero, como foi o caso do oficial romano.
  1. O Pai ouve a todos. Rezamos no Espírito e na Verdade que é Jesus. Toda oração é consistente, pois quem reza em nós é o Espírito. Ele nos põe na relação de Jesus com o Pai.
  1. Paulo insiste que há um só Evangelho que não pode ser mudado por outras teorias. 

          Como se faz uma oração forte? 

          Encerramos o Tempo Pascal com a festa de Pentecostes e iniciamos o tempo comum com a festa da Santíssima Trindade. Agora retomamos os domingos do Tempo Comum no qual lemos o Evangelho de Lucas.

De vez em quando as pessoas pedem uma oração boa para resolver algum problema. Onde está a força da oração?

Primeiramente temos consciência, como reza Salomão, que Deus ouve a todos. Não seleciona nem cristãos, católicos ou outros tantos. Ele diz, referindo-se à oração do pagão: “Se ele vier de uma terra distante, para rezar neste templo, Senhor, escuta então do céu e atende a todos os pedidos do estrangeiro” (1Rs 8,42-43).

Em segundo lugar, como nos escreve Paulo, é preciso ser fiel ao evangelho de Jesus e não ficar pulando de galho em galho como fazem alguns que não têm firmeza na fé.

Jesus no Evangelho dá a indicação que é preciso acreditar que Jesus ouve. O oficial romano que tinha um empregado doente, pediu aos anciãos judeus que intercedessem por ele a Jesus. Jesus disse que iria lá. Ele respondeu que não precisa vir, bastava sua palavra e meu servo ficaria curado (Lc 7,1-10). Sem essa fé, a oração será sempre frágil.

 

nº 1547 – Solenidade do Corpo de Cristo (26.05.16) “Pão de Deus nas Ruas”

  1. Solenidade do Corpo de Cristo

          A riqueza da Quinta-Feira Santa suscitou, nos anos de 1274, uma procissão para festejar o SSmo. Sacramento e reconhecer, por um culto especial, sua grandeza. Estamos em um tempo de pouca participação da comunhão. Assim nasceu do povo a necessidade de uma celebração que abrisse a todos, as riquezas do Sacramento da Eucaristia. Quando Jesus realizou a multiplicação dos pães, o fez diante de todos à luz do sol diante da bela paisagem do Mar da Galiléia. Lembramos a abundância dos pães e dos peixes. Assim se fez memória de tão grande amor de Deus que se fez pão para matar nossa fome espiritual e entrar em comunhão com Ele. A Quinta-Feira Santa é uma celebração de rara beleza, mas reduzida aos poucos momentos na abertura do Tríduo Pascal. A religiosa Juliana Mont-Cornion, sentiu como missão, promover um culto público ao Santíssimo Sacramento. Esse culto público, com procissão pelas ruas da cidade, era também o desejo de que Cristo Sacramentado “visse” nossos lugares e os abençoasse. Com os séculos cresceu no esplendor. O ensinamento proposto pela celebração do dia foi feito por Santo Tomás que compôs os textos da celebração. Estando o Papa Urbano IV em Viterbo, teve conhecimento do milagre eucarístico ocorrido em Bolsena, ali perto, quando um padre duvidou da presença de Cristo. No momento houve um milagre que comprovou a verdade. O Precioso Sangue borbulhou e se derramou no corporal (toalhinha do altar) e passou para o mármore. O Papa, tendo conhecimento do fato quis ver o corporal. A partir daí foi instituída a festa.

  1. Oferecido por vós

          No Antigo Testamento, Melquisedec ofereceu um sacrifício de pão e vinho. Nos sacrifícios do templo sempre se colocava um pouco de farinha e um tanto de vinho nas oferendas. Os judeus fizeram a ceia da Páscoa com pão e vinho. Jesus, na ceia pascal, tomou o pão e disse “isto é meu corpo” e o vinho dizendo, “isto é meu sangue”. Assim os apóstolos fizeram e fazemos até hoje dentro de uma liturgia. Como celebração, a Eucaristia é o mistério do Sacrifício de Cristo oferecido por nós. É o mesmo da Cruz que se encontra presente. Não repetimos, mas estamos presentes diante do mesmo mistério que feito por nós. Como Jesus o fez na Santa Ceia, nós o realizamos. Jesus realizou antes de sua crucifixão o sacrifício no pão e no vinho, dado por nós, derramado por nós e para a salvação de todos, como rezamos e os evangelhos nos ensinam. Após sua Morte e Ressurreição, os apóstolos continuaram a celebrar do mesmo modo a Ceia, mas na certeza de ser um sacrifício de comunhão. Por ele participamos da Morte e Ressurreição de Jesus.

  1. Matando a fome

Jesus explica, pelo milagre da multiplicação dos pães, que a Eucaristia é um dom de amor de Deus e deve ser multiplicada em tantas ações de caridade, repartido o pão, a vida e a condições de vida para todos. Devemos adorar a Eucaristia e mais ainda, ser Eucaristia para o mundo, multiplicando a vida. Ela é uma escola. Nosso louvor a Cristo Sacramentado só será consistente e dará frutos se houver nele os mesmos sentimentos de Cristo. Tenho compaixão do povo e não quis despedi-lo com fome para que não morresse pelo caminho. Multiplicou o pão e os peixes. E sobraram 12 cestos. A partilha multiplica e não diminui. É na dimensão da caridade que a Eucaristia tem como expressão do amor de Deus em Cristo e amor aos irmãos. Só celebramos bem, se temos a caridade que alimenta os necessitados de tanto tipo de pão: alimento, saúde, educação, vida digna.

nº 1546 – Homilia da Santíssima Trindade (22.05.16)

“Santíssima Trindade” 

Deus que nos convida

            Celebrando a festa da Santíssima Trindade não estamos diante de um mistério impossível de se conhecer, mas possível de comunhão e maior compreensão. Deus não é complicação. Deus não Se revelou para mostrar sua grandeza, mas sua abertura. Sua simplicidade nos deixa confusos. Como pode Deus ser tão simples a ponto de se manifestar e abrir-se à participação de sua vida? Para levar a pessoa humana à compreensão de sua realidade, não nos deu uma lição, mas sua mão, dando-nos a Palavra Eterna, o Filho Bendito. Com o Espírito Santificador nos revela seu mistério e nos acolhe como participantes de sua vida. A liturgia procura inculcar o respeito, a adoração e o sacro temor que não tira a proximidade. Felizes, podemos acolher o chamado e corresponder a seu projeto de amor. Na Trindade Santa há três Pessoas Divinas, mas um só Deus. A unidade não se faz por soma das Três Pessoas. A unidade vem da intensidade do amor que os une a ponto de serem uma só pessoa. Se no matrimônio podemos dizer: “e os dois serão uma só carne” pela força do Sacramento, mais ainda serão um só pela força de unidade que se expande até nós. Nas obras que chegam a nós, como criação, redenção e santificação age particularmente uma Pessoa Divina, mas age na união das Três Pessoas. Por isso dizemos: Ao Pai, no Filho, pelo Espírito Santo. Na criação do mundo a Palavra Eterna, o Filho, está com o Pai, como uma criança que brinca no globo da terra e se alegrava em estar com os filhos dos homens (Pr 8,30-31). Os sofrimentos são suportados como vitória de nossa segurança no Espírito Santo permanece no amor derramado em nós.

O Espírito vos conduzirá

            Poderemos tranqüilizar o coração quanto à nossa fragilidade em viver esse sacrossanto mistério, pois o Espírito nos conduza, como disse Jesus: “Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que Ele receberá e vos anunciará é meu” (Jo 16,15). O Espírito não anuncia um Evangelho diferente, mas é a continuação do próprio Jesus, pois há a distinção das Pessoas Divinas e unidade na ação. Não há mistério na ação do Espírito, uma vez que Ele é o mestre e educador. Ele nos conduz à verdade plena (13). Nossa fragilidade não se mede por conhecimento, mas pela participação na vida do Espírito. Não dependerá de nós como autores do bem. É Ele que educa nosso coração para termos a inteligência do amor. Nem sempre sabemos explicar o que cremos com palavras humanas, mas as palavras santificadas pelo amor explicarão ao nosso coração. Somente o amor do Espírito pode ensinar nosso coração: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”  (Rm 5,5).

Contemplando as estrelas

            O salmo 8 torna-se um evangelho que não foi anunciado por palavras, mas inscrito no universo. Como podemos compreender a grandeza do ser humano diante de tudo que existe? A natureza maravilhosa é caminho para Deus, e nos convence sobre a grandeza do ser humano que mesmo pequenino e insignificante é reconhecido por Deus com grandiosidade: “Pouco abaixo de Deus o fizestes, coroando-o de glória e esplendor. Vós lhe destes poder sobre tudo, vossas obras aos pés lhe pusestes” (Sl 8). Deus confia ao homem o Universo. Pode assim, ser o continuador da missão de criar e conservar o mundo. Na Eucaristia nós realizamos o louvor, mas recebemos a participação na comunhão com Deus.

Leituras:Provérbios, 8,22-31;Salmo 8; Romanos 5,1-5; João 16,12-15. 

Ficha nº 1546 – Homilia da Santíssima Trindade (22.05.16)

  1. O mistério da Santíssima. Trindade não é incompreensível, mas aberto à comunhão e ao eterno conhecimento. O Espírito Santo revela e nos acolhe como participantes. A Unidade não é por soma, mas pelo amor total. A Palavra eterna brinca no globo da terra
  1. O Espírito nos introduz no conhecimento. Ele é o Mestre e Educador que conduz à verdade plena. Aprendemos em nossa fragilidade. O amor ensina ao coração.
  1. A natureza é caminho para Deus e nos convence que a pequenez do ser humano é reconhecida por Deus com grandiosidade. 

            Nadando de braçadas 

            Sempre se disse que a Trindade é um mistério incompreensível. Então não é mistério, é confusão. É insondável, quer dizer, sempre podemos aprender mais e viver melhor sua Vida e sua ação em nosso favor. Jesus nos dá o Espírito que nos conduz à verdade plena.

            O Espírito que Deus derramou em nossos corações garante que nossas esperanças não são vãs e podemos passar por tribulações, pois a esperança não nos decepciona.

            A Santíssima Trindade vive do Amor e da contínua entrega e acolhimento um do outro na beleza das Três Pessoas Divinas. A humildade é a virtude de Deus. Cada Pessoa Divina Se doa e acolhe a outra no ponto completo da unidade.

            Nosso Deus é o Deus da alegria: Jesus é chamado também de Sabedoria. Desde sempre esteve em Deus e com Ele criou o Universo. E diz: “Eu era seu encanto, dia após dia, brincando, todo o tempo em sua presença, brincando na superfície da terra, e alegrando-me em estar com os filhos dos homens.

            É preciso aproveitar a vida para nadar de braçadas no amor de Deus.

 

nº 1545 Artigo – “Direitos de ser filho”

  1. Atravessando o véu

          Encerrando o Tempo da Quaresma e da Páscoa com a festa de Pentecostes, celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade. Esse mistério nos foi dado a conhecer por Jesus. Muitos crêem em Deus. Mas, para os cristãos, crer em Deus significa crer em um só Deus em Três Pessoas Divinas. Cada pessoa tem sua missão: O Pai é o Criador, o Filho é o Redentor e o Espírito Santificador. Cada Pessoa Divina age por Si, em profunda união das Três Pessoas Divinas. O Pai enviou o Filho para nos comunicar a participação da Divindade. O Filho, Jesus Cristo Ressuscitado, deu-nos o Espírito Santo para nos santificar, isto é, dar-nos essa Vida Divina. A vida cristã e de todo o homem e toda a mulher de boa vontade, consiste em acolher o Dom do Espírito e cooperar com as obras que realizamos. O evangelista Marcos (Mc 15,38) diz que, quando Jesus morreu, o véu do templo se rasgou de alto a baixo. O véu separava o lugar sagrado. Ali só entrava o sumo sacerdote uma vez por ano. Com o véu, agora aberto, todos podem entrar em relacionamento com Deus. Como participamos dessa Vida, estamos em comunhão com Deus vivendo Sua Vida na participação que nos dá. Como vivemos a vida de Deus, estamos na união de fé que se realiza na comunhão da caridade que existe na Trindade. O direito de filhos nos faz irmãos. Não há fé individualista. A fé é reconhecimento e aceitação da verdade de Deus e a caridade é nossa participação.

  1. Através do véu da carne

          Somos levados a participar da comunhão do Pai com o Filho no Espírito Santo.  Participamos porque, pela Morte e Ressurreição adquirimos esse direito pelo grande dom que nos foi dado. É o direito de filhos de fazer parte da vida da família. A carta aos Hebreus nos diz que é através do véu de sua carne, pois temos a mesma natureza e participamos dos mesmos bens. É em nossa condição humana que participamos da condição Divino-Humana de Jesus. Refletindo sobre a Santíssima Trindade, mistério profundo que nos atrai, podemos refletir sobre nossa vida espiritual e suas conseqüências para a vivência do dia a dia. Temos a tendência de fazer uma espiritualidade que depende só de nós, de nossos atos de piedade e orações. Tudo muito bom, mas não basta. É necessário saber infundir em nossa vida uma consciência da presença de Deus em nossa vida e de nossa participação, como direito de filhos, da vida de Deus. Certamente sabemos que as manifestações espirituais não são t fáceis de se traduzirem para nossa condição humana. Nós sabemos participar. Infelizmente não sabemos explicitar. Vida não precisa de explicação. São nossas atitudes que nos mostrarão o que temos em nós.

  1. Uma vida que vale

          Como estamos contemplando o Mistério da Santíssima Trindade e nossa relação com Ela, compreendemos um aspecto importante de nossa vida cristã: a comunidade. Há um aspecto sociológico que não pode ser desprezado, mas o importante é seu conteúdo espiritual. A comunidade não é um ajuntamento de pessoas, mas um corpo unido pelo Espírito. Essa união é participação no Amor Divino, O direito de ser filho é também comunhão. Na Eucaristia ouvimos a saudação: “A graça de N. S. Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam sempre convosco” (saudação). O direito de filho é também um compromisso de missão: atrair a esse amor. A primeira missão é o testemunho de filhos, herdeiros do Pai com o Filho, no Espírito Santo.

nº 1544 – Homilia de Pentecostes (15.05.16)

“O Espírito Santo é para todos”

Recebei o Espírito Santo

Celebramos a solenidade de Pentecostes como coroamento das celebrações pascais. É um belo momento para celebrar, conhecer melhor e viver melhor a ação do Espírito Santo que nos foi dado, para levar a efeito em nós e no mundo o fruto da Ressurreição. A força da Redenção não é uma riqueza a ser procurada com sofrimento, mas um dom que é dado em abundância e acolhido com alegria. No dia da Ressurreição, no início da noite, nova luz é acesa para os assustados apóstolos. Ainda na dor da morte e do medo dos discípulos, Jesus se põe no meio deles e faz a saudação da Paz total a todos. Mostra-lhes as mãos e o lado para dizer que o Ressuscitado é o mesmo que foi crucificado. E lhes dá o dom da missão: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio” (Jo 20,21). A missão de Jesus continua. Agora são os discípulos que irão anunciar as maravilhas da bondade de Deus e sua misericórdia que acolhe a todos no seu amor. Ao soprar sobre eles, faz novo o gesto de Deus que soprou sobre o primeiro homem, Adão, o hálito de vida (Gn ,2,7). Jesus sopra e abre ao homem a vida eterna e ele se torna homem espiritual. O novo povo de Deus reúne gente de todos os povos. Não mais uma nação, mas todos são povo de Deus. Todas as línguas são aptas para transmitir a mensagem do evangelho e as maravilhas de Deus. O Espírito dá força para anunciar com fervor a verdade do Senhor. A oração da Eucaristia da festa de Pentecostes reconhece que Deus santifica, com a festa de hoje, a Igreja em todos os povos e nações. E pede que realize agora no coração dos fiéis as maravilhas operadas no início da pregação do Evangelho (oração). Há grandes sinais de presença do Espírito e tantos acontecimentos que se sucedem. Ninguém pode se julgar dono do Espírito Santo e menos ainda, excluir que o Espírito sopre o que quer, onde quer e como quer (Jo 3,8). É necessário coragem e ousadia para acolher novos dons para o bem do mundo.

Espírito Santo reina na comunidade

Vivemos os últimos tempos que são os tempos do Espírito Santo. No início do mundo o Espírito de Deus pairava sobre as águas (Gn 1,2). No início da nova criação o Espírito de Deus penetra o coração dos fiéis. Todos formamos um só corpo e bebemos de um mesmo Espírito (1Cor 12,13). Não recebemos Espírito para proveito nosso, mas para usar os dons para o bem de todo o corpo. Há diversidade de dons, de ministérios e de atividades. Somos muitos membros, mas formamos um só corpo. “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (7). A pastoral das comunidades é um campo bem amplo para o uso dos dons e carismas do Espírito Santo. É certo que é necessário o discernimento da Igreja. Por outro lado há necessidade de os dons serem acolhidos, promovidos e desenvolvidos para o bem de todos. O primeiro discernimento é a dimensão da caridade que orienta os dons.

Eucaristia no Espírito

Nesses últimos tempos realizou-se uma volta ao Espírito, esquecido pelos fiéis. A Igreja sempre invocou o Espírito Santo sobre os fiéis, sobretudo na Eucaristia. Em cada missa Ele é invocado para que o pão e o vinho se tornem Corpo de Cristo. E reza com o mesmo tom: que o Espírito faça de nós Corpo de Cristo. Este é o maior dom e o maior compromisso. Os outros dons são serviços. O Espírito como dom é Vida. Há uma tentativa de reduzir o Espírito a um dom pessoal, como se Ele fosse uma graça como as outras. Ele é o doador de todos os dons. Ele é o Dom. A Eucaristia nos desvenda a ação do Espírito.

Leituras: Atos 2,1-11; Salmo 103; 1ª Coríntios 12,3b-7.12-13;  João 20,19-23. 

Ficha nº 1544 – Homilia de Pentecostes (15.05.16)

  1. A força da redenção é um dom a ser acolhido. Com o Espírito nos é dado o dom da missão. Ele nos dá força para anunciar. Há grandes sinais da presença do Espírito nos acontecimentos.
  1. Recebemos o Espírito como Dom que nos dá os dons para o proveito do povo de Deus. Ninguém é dono do Espírito.
  1. Em cada Eucaristia nos é dado o Espírito para formamos o Corpo de Cristo. Nela nos é desvendada a ação do Espírito Santo. 

                        Agora é a vez Dele.           

            Celebrando a festa de Pentecostes professamos nossa fé na Terceira Pessoa da Santíssima Trindade: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá Vida e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado. Foi Ele que falou pelos profetas”. Professamos Três Pessoas em um só Deus. Há vários símbolos para explicar a ação do Espírito Santo: A pomba, o vento, o fogo, a água.

            O Espírito distribui os dons que são infinitos. Conhecemos os sete dons que são a síntese de todos os dons. Sempre há dons novos que são distribuídos com largueza.

            É a vez do Espírito. As Três Pessoas sempre agem juntas, mas são atribuídas funções particulares: O Pai é o Criador, o Filho é o Salvador, e o Espírito é o Santificador, isto é, coloca-nos em relacionamento com a santidade da Trindade e com as pessoas.

            Os dons que recebemos não são para o prazer espiritual pessoal, mas para serviço. Se não sirvo com esses dons, não são do Espírito.

            A ação do Espírito renova toda a terra. O mundo espera a ação do Espírito. Se fôssemos mais atentos a sua ação, o mundo seria melhor.

            O Espírito foi dado por Jesus no dia da Ressurreição para a remissão dos pecados. Não se trata de uma confissãozinha, mas da reconciliação do mundo com Deus e entre si.

nº 1543 Artigo -“O Espírito inflama o mundo”

  1. O Espírito virá sobre vós

            Quando Paulo chegou a Êfeso, perguntou aos 12 homens que o acolhia, se haviam recebido o Espírito Santo. Eles tinham recebido o batismo de João Batista. “Nem sabemos que existe Espírito Santo”, responderam (At 19,2). Não mudou muito a realidade, pois ainda desconhecemos sua ação em nossa vida e sua missão no mundo. Sua missão deve ser valorizada como a missão de Jesus, pois está em continuação tudo que o Filho de Deus fez por nós. Dizemos que Jesus fez tudo, mas é o Espírito que nos coloca na comunhão com Jesus e nos faz conhecer toda a Verdade. O Espírito é desconhecido e pode ser mal interpretado. Ele não é um santo a mais que lembramos em Pentecostes, e muito menos está ao nosso serviço para dar dons e graças especiais. Não é privilégio de ninguém. Foi dado a todos. Ele é um com o Pai e o Filho. Na missão de santificação, isto é, de viver a graça da redenção e comunhão que temos com o Pai, em Cristo, é Ele o autor. A sensação que se tem é que é restrito aos sacramentos, irmandades do Divino e chefe do depósito de dons a serem distribuídos. É certo que é uma tentação reduzi-Lo a tão pouco, pois não nos compromete viver o dinamismo de sua Pessoa que nos é dada por Jesus. O Espírito é dom para o Universo. Não há nada de bom no mundo que não seja gerado pelo Espírito Santo. O progresso do mundo será maior, quanto maior é a abertura ao Espírito.

  1. Recebe o Espírito como Dom

            Podemos perguntar qual seria, na prática diária, a vivência com o Espírito Santo. Se para com Jesus temos a preocupação de ser como era, com o Espírito fazemos o mesmo. Ser como Ele é: ser dom. Ele nos ensina todas as coisas (Jo 14,26). O mesmo Espírito que fecundou o seio de Maria e faz do pão e do vinho o Corpo e Sangue de Cristo, formará Cristo em nós para que sejamos um dom para o mundo. Como Cristo se entregou, assim nos entregamos com o dom que somos. Entregar-se, dedicar-se aos outros com totalidade é o único modo de sermos completos e realizarmos nossa missão, por mais humilde que sejamos. É por isso que Paulo insiste que cada um use o próprio dom para o serviço de todos. Onde existe doação, ali está o Espírito de Deus. É por isso que não tem forma humana, nem é possível controlar sua ação. Ninguém é dono do Espírito. A Igreja e as Igrejas deveriam deixar-ser modelar segundo sua ação e não impor-Lhe regras. Esse não é o modo de corresponder ao dinamismo renovador. Somente depois de nos tornarmos dons é que seremos criaturas renovadas para renovar o mundo.

  1. O vento sopra onde quer

            Jesus sente essa força incontrolável do Espírito, pois era conduzido por Ele (Mt 4,1). O evangelista Lucas mostra Jesus sempre movido pelo Espírito Santo. Nós também podemos nos mover Nele. Aliás, somos movidos, mas não damos atenção. Aqui é o momento de olharmos a Santa Igreja, as espiritualidades, o apostolado e ver quanto O “engaiolamos”. Certamente que existem critérios que foram dados para discernir, mas de acordo com o mesmo Espírito. Não são nossas regras, nossas mentalidades, nossos usos, costumes e abusos que devem reger sua atividade O Espírito Santo não é um santo a mais, mas a fonte da santidade. Em toda missa recebemos o Corpo de Cristo, mas recebemos também o Espírito Santo. Na epíclese (oração feita na prece eucarística) o sacerdote reza: “E nós vos suplicamos que, pela comunhão do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo em um só corpo”. Faz de nós Corpo de Cristo como fez do pão e vinho, Corpo e Sangue do Senhor. É a mesma força transformadora.

nº 1542 – Homilia a Ascensão do Senhor (08.05.16)

“E subiu ao Céu”

Na Glória, plenitude da existência

Em nossa profissão de fé, o Creio, dizemos: “… Creio em Jesus Cristo… que ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai todo poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos”. A festa da Ascensão, subida de Jesus ao Céu, passa em segundo plano em nossas celebrações. Mas sem ela não podemos compreender o coroamento de sua missão e nossa participação nesse mistério que nos ensina sobre Jesus e sobre nós. Se não houvesse a Ascensão, não entenderíamos a missão de Jesus morto e ressuscitado. Deus ressuscitou Jesus para fazer o caminho como que de volta de sua encarnação. Jesus não perdeu a humanidade. Agora ela está glorificada. Manifesta-se sua condição Divina que ficara oculta na Encarnação. O mistério de sua glorificação, como nos explica Paulo aos Efésios, é colocá-Lo acima de todo o poder nesse mundo e no outro. O Pai pôs tudo sob seus pés e fez Dele, que está acima de tudo, a cabeça da Igreja (Ef 1,17-23). Ele é a fonte de tudo e para ele se dirigem todas as coisas. Ele não é um santo a mais e não concorre com outros “deuses e senhores”. Em sua humildade se fez homem e sofreu; na sua glorificação foi exaltado. Ele não perdera sua condição. Agora nos é manifesto o que é e o que era quando estava conosco. Seu trono é o universo celeste e terrestre. Mas se alegra em estar com os filhos dos homens. O paraíso de Deus é o coração do homem (S. Afonso). Para nós, a Glória de Deus está onde Ele está, sobretudo em nosso coração. Ele virá julgar os vivos e os mortos. Virá para exercer sua misericórdia.

Levou-nos consigo

A liturgia da missa de hoje quer nos mostrar que a Ascensão se refere a nós e é o ensinamento sobre nossa condição após a subida de Jesus ao Céu: “Membros de seu corpo, somos chamados na esperança, a participar de sua glória” (Oração). Levou consigo nossa humanidade. Entramos em uma dimensão de convivência com as realidades do Céu. Por isso, que nossos corações se voltem para o alto, onde já está junto de Vós a nossa humanidade. Esta, unida à humanidade glorificada de Cristo. No prefácio rezamos: “Subiu aos Céus, a fim de nos tornar participantes de sua divindade”. Esta é a identidade do batizado: participar da natureza Divina, como nos escreve Pedro em sua carta. A festa é também o coroamento de nosso ser cristão. Não é uma religião. É um novo modo de vida. Já estamos no Céu. Basta acabar de chegar. Nós fazemos uma espiritualidade dolorosa de subir para o Céu. Mas é diferente. O esforço não é conquistar, pois Cristo já conquistou para nós. O esforço é desenvolver o que temos e não perder o que já temos.

Enviou-nos ao mundo para anunciar

Sabemos que a todo dom corresponde uma missão. O Senhor subiu e eles olhavam. O Anjo alertou a não ficar olhando pra o alto, pois a vida vai continuar a presença e a missão de Jesus. Revestidos da força do alto serão testemunhas suas em Jerusalém… até os confins da terra (At 1,8). O próprio Jesus os coloca como testemunhas de tudo o que realizou. Estar em Cristo é anunciá-Lo. A missão continua sempre urgente até que volte. O tema fundamental de nossa comunicação é Cristo para levar todos à unidade da fé e do amor. A espiritualidade da Ascensão é não perder de vista a direção que Jesus nos dá com sua Ascensão e a corresponder com a atitude transmitir tudo o que foi ensinado. Todos têm direito a receber o que recebemos de Jesus. A missão é um dever e um direito de todos.

Leituras: Atos 1,1-11; Salmo 46; Efésios 1,17-23;Lucas 24,46-53. 

Ficha nº 1542 – Homilia da Ascensão do Senhor (08.05.16)              

  1. Sem a Ascensão não teria sentido a Morte e Ressurreição. A meta era a glorificação.
  1. A Ascensão se refere também a nós que, pela Encarnação, estamos unidos a Jesus em nossa natureza. Essa natureza foi também glorificada em Jesus.
  1. Recebemos a missão de anunciar para levar todos à unidade da fé e do amor. A missão é um dever e um direito de todos.

            Dando o recado certo

A festa da Ascensão de Jesus ao céu, para muita gente, passa despercebida.

No mistério da festa da Ascensão contemplamos Jesus que, encerrada sua tarefa humana, completa sua vitória na glorificação junto do Pai. Não se afastou de nós, pois nos levou consigo. Rezamos: “A Ascensão de vosso Filho já é nossa vitória”. Já estamos no Céu. É preciso acabar de chegar.

Já estamos no céu! Cristo assumiu a natureza humana. É nossa carne. Indo ao Céu levou-nos consigo. “Somos chamados na esperança a participar de sua glória’.

Ele prometeu enviar a força do alto, isto é, o Espírito Santo: “Recebereis o poder do Espírito Santo para serem minhas testemunhas” (At 1,3). É preciso conhecer nossa condição cristã com todos os dons que Deus nos deu.

Com o Espírito Santo recebemos o dom de sermos testemunhas de Jesus com poder, isto é, que nada nos faltará. É Ele quem faz a conversão do coração.

Rezamos nessa missa e pedimos “conviver na terra com as realidades do céu”. Por isso “que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós a nossa humanidade” (Pós-Comunhão). Anunciar Jesus é dar o recado certo ao mundo.

nº 1541 Artigo -“Subindo para o Céu”

  1. Enganos sobre Jesus

            Há coisas na religião que ficam meio que de escanteio quando se dá o ensinamento. Isso pode prejudicar nossa fé.  É o caso da Ascensão. Não sabemos explicar e, o que é pior, viver essa realidade fundamental da fé. Rezamos: “… ressuscitou no terceiro dia e subiu ao Céu; está sentado à direita do Pai todo poderoso, donde há de vir julgar os vivos e os mortos” (Creio). Dá-se a impressão que foi e agora é só esperar o fim. Há duas realidades que podem nos ajudar a tornar esse mistério da glorificação mais compreensível e mais presente em nossa vida. Vejamos: Jesus assumiu nossa realidade humana, isto é, a nossa carne, em sua Encarnação. Ao morrer e ressuscitar não perdeu essa condição humana. Ela foi transformada em como será a nossa condição um dia. Ao encerrar esse momento da condição humana visível, Ele nos levou consigo em sua humanidade que é a nossa. Nós já estamos na “glória” com Ele. Não nos afastou de si. Nossa condição humana e espiritual é de cidadãos dos Céus. Estamos indo para a posse total. Outro engano é que, como participante de nossa natureza, participa de nossas vidas em nossa condição mortal. Gera-se um processo de permanente mudança de nossa vida humana em vida ressuscitada. Não sabemos explicitar o que seja viver ressuscitado pela fé. A vida é a mesma, mas as atitudes se modificam para o bem. Mas há tanto mal no mundo, podemos dizer. Se não houvesse essa transformação, a situação estaria pior. Os progressos do mundo, em tudo, são feitos pelos homens e mulheres dedicados ao ser humano. São frutos da inteligência, mas também do amor ao ser humano e à natureza. São resultados do amor. Se for amor, é divino. Podemos dizer: “não aceito religião”. “Sou ateu”. O bem não nos rejeita e não depende de nós. O bem é sempre vindo de Deus. Ele não depende de nossos esquemas.

  1. O Céu está na terra

Subiu ao Céu, mas não nos deixou. Levou-nos consigo, mas ficou conosco em seu projeto de amor vivido. Ele diz: “estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos”  (Mt 28,20). Essa presença é tão segura quanto nossos fatos reais. Não se trata primeiro de um sacrário onde está o Santíssimo. É outra dimensão. Não está nos atos religiosos que realizamos. Esses são necessários para alimentar nossa participação. Tudo é bom, mas não podemos deixar de lado sua presença que permanece em nós. Podemos dizer: “Não sou bom”! Mas Jesus é. Quer conosco construir o Céu na terra. A vida celeste se torna espelho para realizarmos bem a terrestre. Deus disse a Moisés quanto à construção do santuário: “Faz tudo de acordo com o modelo que viste na montanha” (Ex 25,40). O problema é que construímos só de acordo com nossos projetos. O evangelho é o modelo.

  1. Projeto para construir o Céu

            Quando falamos de Céu, temos idéias que desanimam a caminhada. Não vale a pena. O Céu,nós o construímos dentro de nós. Com isso temos condições de construir uma nova terra. A Ascensão é o início das obras depois que Jesus cumpriu tudo o que devia. Nós participamos de sua obra. O espiritualismo é muito bom, mas não pode ficar nisso. Há de se colocar as mãos na massa. É um mutirão. Todos, felizes, dando sua colaboração para o bem. Vence o mal pelo bem (Rm 12,21). A espiritualidade que rege toda nossa vida não nos tira da realidade, mas nos põe em busca dos pontos mais frágeis de nosso mundo. Jacó viu uma escada que ia da terra ao céu (Gn 28,12). Se não se apoiar na terra, não se chega ao céu.

nº 1540 – Homilia do 6º Domingo da Páscoa (01.05.16)

“Morada de Deus” 

O templo é o Senhor!

Estamos chegando ao final do Tempo Pascal. Foi uma catequese sobre a vida da Igreja que é a reunião dos redimidos, fruto precioso da Ressurreição. O Mistério de Cristo é uma unidade. Não acontece por partes. Cada momento nos traz todo Mistério Pascal sob um aspecto. A Igreja da terra se espelha na Igreja celeste e, guiada pelo Espírito, se faz sempre mais esposa para seu Senhor, sem ruga e sem mancha (Ef 5,27), vivificada pelo mesmo Espírito. No livro do Apocalipse João narra a visão que teve da Jerusalém celeste, a Igreja gloriosa com seu Senhor. Não é a Terra que ensina como deve ser o Céu. Nós é que aprendemos do Céu.  João diz, com certa admiração, que não viu templo na cidade celeste. Entendeu que seu templo é o Senhor Todo Poderoso e o Cordeiro, o Cristo. Jesus disse à samaritana que os verdadeiros adoradores adorariam em espírito e verdade (Jo 4,24), isto é, em Cristo e no Espírito. Não há necessidade de templos. Não temos templos como os judeus ou pagãos tinham. As igrejas são lugares onde se manifesta o sacramento da unidade que se realiza na fé e no amor. Sendo o Céu o espelho para a terra, a visão é um chamado para encontrarmos Deus onde estivermos. O Espírito ensina tudo o que Jesus nos transmitiu. Ele realiza em nós o amor que constrói a unidade. Amando o Pai e guardando a palavra de Jesus, Pai, Filho e Espírito permanecem conosco. Assim se constrói a paz e a segurança. Os mistérios, isto é, os sacramentos celebrados, são a expressão das coisas do alto que alimentam nossa caminhada. Corresponder aos sacramentos (oração), é ser morada de Deus (Jo 14,23).

Construindo a comunidade

             A construção da comunidade humana tem seu início na escuta e obediência à Palavra de Deus. Este é o sinal claro do amor que temos a Deus. É garantia também da presença de Deus em nós: “Se alguém me ama guardará minha palavra e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23). A Palavra será ensinada à comunidade. O Espírito Santo ensinará e recordará o que Jesus ensinou e a Igreja da terra aprende da Igreja celeste a não restringir seu relacionamento com Deus ao templo, à igreja material. Como somos templos do Espírito Santo (1Cor 3,16), onde estivermos entramos no templo de Deus. A fé cristã é primeiramente espiritual, depois se criam as estruturas que devem ajudar o espiritual e não dominá-lo. A preocupação maior não deve ser os aspectos humanos, mas conduzir estes a se aperfeiçoarem pela Palavra e pela obediência da fé, formando assim a comunidade. Às vezes agimos somente sob o aspecto humano, deixando fora o Espírito Santo.

Comunidade de irmãos

            Os inícios da vida da Igreja foram maravilhosos, mas não deixaram de ter problemas, pois, mesmo crendo em Jesus, houve choque entre cristãos vindos do judaísmo e cristãos vindos do paganismo. Eram dois mundos diferentes. Estes não conheciam a lei judaica. Os judeus cristãos seguiam também a lei judaica e queriam impô-la aos pagãos. Reunidos no Espírito tiveram a grande abertura em deixar Deus agir nos povos pagãos para que construíssem o modo de ser Igreja de acordo com suas culturas. Foi um passo grande, sem deixar fora as riquezas da História da Salvação transmitidas pelo povo da Aliança. O Espírito vivificou os cristãos vindos do paganismo. Somos herdeiros desta fé. O templo de Deus resplandece por toda terra e todos podem adorá-Lo em espírito e verdade.

Leituras: Atos 15,1-2.22-29; Salmo 66; Apocalipse 21,10-14.22-23;João 14,23-29 

Ficha nº 1540 – Homilia do 6º Domingo da Páscoa (01.05.16)

  1. A Igreja terrestre se espelha na Igreja celeste. Guiada pelo Espírito, se faz sempre mais esposa sem ruga nem mancha. No Céu não há templo. Os templos da Igreja manifestam a unidade que se realiza na fé e no amor.
  1. A construção da comunidade tem seu início na escuta e obediência à Palavra. Este é o sinal claro do amor que temos a Deus e de sua morada em nós.
  1. A comunidade da Igreja, na sua condição humana, passa por questões nas quais somente o amor é a solução. A fé e o amor fazem a Igreja livre para crescer nas condições humanas. 

            Morando em três casas 

             As leituras do sexto domingo da Páscoa nos ensinam que moramos em três casas ao mesmo tempo: Na primeira leitura vemos os problemas da casa da terra, a comunidade com seus dons e dificuldades. É a casa de sapé que pega fogo com facilidade.

Depois o Apocalipse mostra a casa lá de cima, o Céu, feita de pedras preciosas. E no evangelho Jesus ensina sobre a casa feita de amor, que é a casa do coração: “Aquele que me ama, guarda minhas palavras, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele fazemos morada (Jo 14,23).

Na casa futura, na Jerusalém Celeste, não há templo, pois Deus é o templo. Não temos necessidade de templos, pois estaremos em sua presença. Não precisamos de mediações. Deus é a luz.

A comunidade da terra é cheia do Espírito de Deus e do espírito humano. É necessário procurar o Espírito de Deus e encaminhar assim as condições humanas. O espírito humano, nossas condições, tem que se guardar a Palavra e ouvir o Espírito que ensina todas as coisas.

nº 1539 Artigo – “Energia da Ressurreição no mundo”

  1. Um projeto com energia própria

            Ainda iluminados pela alegria do tempo pascal, lemos nas narrativas do livro dos Atos dos Apóstolos, suas peripécias. Eles se transformaram após a Ressurreição. De homens humildes se tornam iniciadores de um novo modo de vida. Certamente podemos ver que tudo isso levou seu tempo e tem também finalidade pedagógica. Não podemos negar os fatos e os resultados. A energia de vida que agiu em Jesus está presente nos discípulos. Celebrar a Ressurreição não é só celebrar uma festa um dia por ano. É responder a um projeto implantado no mundo por Jesus. A energia é a força Divina da Pessoa de Jesus que agora vive e é Senhor. Os discípulos são um exemplo muito claro. Eles se transformaram. Assim também a Ressurreição infunde no mundo uma vida nova. Não depende de nós. Onde há o crescimento do amor, da vida e da vitalidade do mundo das pessoas, é o sinal claro dessa força. Podemos desconhecer esta presença de Jesus Ressuscitado. Isso não muda a realidade. Podemos dar outros nomes, mas não muda o conteúdo. A Ressurreição invade o Universo. “Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e renovareis a face da terra”. Onde existe o bem, aí Deus está. Onde existe o mal, aí temos a mesma recusa da Vida e da Pessoa de Jesus. Paulo escreve que há um inimigo a ser vencido. O último será a morte, quando Ele entregar o mundo a Deus seu Pai (1Cor 15,24). Dominar não é sinônimo de opressão, mas de promoção. Essa energia transformadora é a mesma que deu Vida ao corpo de Jesus. Não vermos não quer dizer que não existe.

  1. Já, mas ainda não

            Temos posse de nossos bens. Na posse dos bens espirituais vivemos o “já temos, mas ainda não” chegamos à posse total. Esse é o estímulo para a busca sempre mais constante. Não é incerteza. É garantia, pois temos o Espírito Santo como penhor (1Cor 1,22). Esse modo de Deus agir conosco corresponde ao que Jesus disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). É um continuo seguir Jesus no caminho do Calvário para chegar ao fruto da Ressurreição. É um estímulo a não parar no conhecimento de Cristo e no poder de sua Ressurreição. É uma força interior que condiz muito bem com a Vida de Cristo em nós: crescer na correspondência ao projeto de Deus. É  uma caminhada eterna. Ninguém pode dizer que já fez tudo para Deus. Somos servos inúteis, diz o evangelho. Fizemos o que devíamos ter feito (Lc 17,10). A inutilidade não se refere a que não prestamos, mas que nosso pagamento é sempre poder servir mais e melhor. Nunca chegaremos a satisfazer completamente a medida, pois esta será uma meta da eternidade feliz. O descanso é Deus. A batalha é o repouso ativo. Estamos sempre no começo.

  1. Força dos pequenos

            Sabemos que são os pobres e os pequenos que correspondem melhor ao chamado de Deus nessa porção visível que é a Igreja. O Reino é maior que a Igreja. Esta, sempre procura apresentá-lo melhor. Jesus disse: “Não tenhais medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar-vos o Reino (Lc 12,32). Somente os que, se fazem pequenos é que são os maiores. A grandeza está em ser sempre aberto a essa força interior de transformação do mundo. A energia da Ressurreição levou os apóstolos a se entregarem totalmente. Quem não tem tempo para o Reino transformante que Jesus implantou, não conseguirá conhecer sua beleza e saborear o prazer de se entregar. Esses poderão ouvir: vinde benditos de meu Pai para tomar posse do Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo ( Mt 25,34).

nº 1538 – Homilia do 5º Domingo da Páscoa (24.04.16)

“Novo céu e nova terra” 

Um mandamento novo

            Os textos da liturgia desses domingos dão uma tríplice visão do mesmo ensinamento: Apresentam um texto de Jesus, sua realização no caminho da formação da Igreja e a realização definitiva. No 5º domingo da Páscoa, temos o ensinamento no qual Jesus nos dá um novo mandamento. Esse novo caminho é levado aos povos com a criação das comunidades e o sentido futuro. O mandamento do amor se realiza entre nós e abre a visão do novo céu e da nova terra. Passamos para a nova vida através dos sacramentos: “Fazei passar da Antiga à nova Vida aqueles a quem concedestes a comunhão nos vossos mistérios” (Oração pós-comunhão). No evangelho lemos que Jesus, no momento de sua glorificação tanto na morte como na ressurreição, dá-nos um novo mandamento, o mandamento do amor: “Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos amei, deveis amar uns aos outros”. Este é o testemunho maior: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns ao outros” (Jo 13,34-35). O mandamento do amor não se reduz a um bem querer, um sentimento ou uma vaga dedicação. Jesus dá o mandamento que resume todos os demais (Mt 22,40). Não se trata em primeiro lugar de uma lei mas de uma vida, a vida que tem com o Pai. “O Pai e Eu somos um” (Jo 10,30). A unidade do amor que faz das três Pessoas da Trindade um único Deus, nos é dado como participação. A novidade não é que haja um mandamento diferente. Ele é vida que sempre se renova. João diz: o amor jamais acabará (1Cor 10,30). Não é um mandamento a ser obedecido, mas uma vida que se estabelece.

Amai-vos uns aos outros como vos amei

O amor é profundamente divino e totalmente humano. Ele se expande em ações de salvação, isto é, levar outros a viverem o mesmo amor na vida de comunidade como vemos na evangelização de Paulo e Barnabé. Por isso Jesus diz que o mandamento é amar como Ele amou: “Como vos amei, assim também vós deveis amar uns aos outros. Temos visto na Igreja e nas Igrejas que o importante são os detalhes que não comprometem a vida de entrega amorosa como Jesus realizou. Nem se fala de pecado contra o amor. Não há um comprometimento vital com o amor. Por isso perdemos a capacidade de expandir a fé, porque o amor não se expande. O novo céu e a nova terra são o paraíso total do bem maior que é o Amor. Imaginamos um paraíso baseado em nossas experiências humanas. É nossa vida terrena que deve se espelhar no Paraíso de Deus que é feito de misericórdia e piedade, amor, paciência e compaixão. “O Senhor é muito bom para com todos. Sua ternura abraça toda a criatura” (Sl 144). Jesus ensina que seu mandamento é amar como Ele amou. Como Jesus amou? Esvaziou-se, assumiu a condição de escravo, fez-se obediente até a morte e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou (Fl 2.6-11). Esse é o modo de amar.

Nisto conhecerão que sois meus discípulos

            Tendo amor uns pelos outros, poderemos dar um testemunho consistente de Jesus Cristo. Examinando nossa vida percebemos que falta muito para que o amor nos domine e seja a razão de nossa vida cristã. Não interessa uma Igreja política e economicamente poderosa. Interessa que ela cuide do ser humano, seja ele quem for.  Nele está estampando o rosto de Cristo. Jesus nasceu para todos e a todos salvou. Compete a nós continuar sua missão sendo tudo para todos, como foi Paulo (1Cor 9,19). Aqui corremos o risco de viver um cristianismo diferente da fé que Jesus nos transmitiu e ensinou. A oração pós-comunhão convida a passar da antiga à nova vida. A Ressurreição atua em nós.

Leituras: Atos 14,21b-27; Salmo 144; Apocalipse 21,1-5;João 13,1-33ª,34-35

Ficha nº 1538 – Homilia do 5º Domingo da Páscoa (24.04.16)

  1. Jesus ensina um novo mandamento que não é só um amor de querer bem, mas viver o amor que é a vida da Trindade Santa. É a vida que Jesus tem com o Pai e o Espírito. É novo porque sempre se renova.
  1. O amor que é humano e Divino expande-se em ações de salvação como vemos em Paulo e Barnabé. É o novo céu e a nova terra, não moldados por nosso ver humano, mas é o paraíso do Amor. Amar como Ele amou, isto é, se entregou.
  1. Tendo amor uns pelos outros damos um testemunho consistente. Como Jesus, seremos tudo para todos. 

            O amor em diversas formas           

            O Tempo Pascal nos traz uma visão sobre a comunidade do Ressuscitado. A fé em Jesus Ressuscitado reúne os fiéis como fruto da Ressurreição. Os apóstolos anunciam e os que crêem formam o Corpo de Cristo vivo que é a Igreja. Jesus a apresenta como seu rebanho que vive o mandamento do amor. Essa comunidade está unida à Igreja dos redimidos na Jerusalém Celeste.

            Essa nova Jerusalém é o novo céu e a nova terra que nos são apresentados por João Evangelista. Lá todas as coisas serão renovadas: “Eis que faço novas todas as coisas”. Isso não é só para um futuro, mas começa na comunidade dos fiéis onde o amor é a lei fundamental.

            O amor vivido na comunidade tem um modelo e uma regra básica: “Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34)\. Como Jesus nos deu a vida, assim devemos dar a vida pelos nossos irmãos.

            Esse amor evangeliza. Não adiantam palavras. É preciso testemunho: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Id 35).

            Foi assim que fizeram os apóstolos, de modo particular Paulo e Barnabé, que anunciaram e instituíram comunidades com dirigentes. Voltaram a Antioquia relataram o que o Senhor fizera por meio deles e como havia aberto a porta da fé aos pagãos (At 14,21-27).

O anúncio do Evangelho requer um amor que anuncia e é modo de vida.